quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Armar os professores para atirarem sobre os estudantes assassinos: é por aí que vamos? por António Abreu

 


Os crimes e a NRA

Wayne LaPierre, dirigente da todo-poderosa NRA (National Rifle Association), referiu (1), na sequência do novo massacre num liceu da Florida, e depois de ser pressionado por protestos contra a liberalização de venda de armas, em tom agressivo que "As elites [os que protestam] não se preocupam com o sistema de ensino americano nem com as crianças. O seu objetivo é eliminar a 2.ª Emenda e as nossas liberdades em relação às armas, para que possam erradicar todas as liberdades individuais". (sic!).

Durante a Conservative Political Action Conference (CPAC), uma conferência de cariz conservador, LaPierre avisou também que existe uma "agenda socialista" por trás daqueles que querem mais controlo no que toca às armas e às leis sobre as mesmas. O direito às armas, frisa, é "garantido por Deus a todos os americanos como direito de nascença".

Acrescentou também que "os oportunistas não perderam um segundo para explorar a tragédia para ganho político", referindo-se mais uma vez ao massacre da Florida.

Em linha com a sugestão de Donald Trump de armar os professores "com treino militar", o líder da NRA disse que as "escolas têm de ser mais duras e o mal deve ser confrontado com toda a força necessária para proteger as crianças".

"Para parar uma pessoa má com uma arma é preciso uma pessoa boa com uma arma", disse LaPierre no fim do discurso, repetindo uma frase que já utilizou aquando do massacre de Sandy Hook, em Dezembro de 2012.

Na mesma altura, Trump defendia a distribuição de armas aos professores para defenderem as escolas de alunos criminosos!...

O sofrimento transformou-se em raiva, era o título da edição online do Süddeutsche Zeitung do dia desta última tragédia da Florida, informando que estudantes, pais e professores da Flórida se manifestaram por leis do armamento mais restritivas: "Basta, Basta!" e "Trump é uma vergonha". Em 19 de Fevereiro, a Spiegel online já falava sobre uma "rebelião de adolescentes". A chamada geração de Columbine (onde ocorreu o massacre numa escola em 1999) quer lutar e fazer algo com manifestações, com entrevistas de TV, com chamadas de protesto no Facebook, Twitter e Instagram.

Depois da inépcia revelada pelo FBI que não tirou consequências da sinalização feita pelo jovem homicida do que poderia vir a fazer, e do acobardamento de um grupo de 4 polícias, que fugiu por estar insuficientemente armados (!) é de perguntar se este massacre da escola com 17 mortos não poderia ter sido evitado. Mas quem benefíciou com ele? (Cui bono)? Esse crime poderia "pressionar" o presidente dos EUA a intensificar a maior liberalização de venda de armas? Para já não, mas originou a grotesca intenção de distribuir armas aos professores!...

 

A 2ª Emenda

A Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos, aprovada em 15 de Dezembro de 1791, estabeleceu, textualmente, que “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido”.

Protegeu, assim, o direito da população de, através de uma milícia, deter e ter porte de armas. Foi aprovada juntamente com as outras nove primeiras emendas constitucionais constantes da Carta dos Direitos dos Estados Unidos (em inglês, United States Bill of Rights) (2) ou Declaração dos Direitos dos Cidadãos dos Estados Unidos (3).

A Segunda Emenda baseou-se parcialmente no direito de ter armas e o seu porte, previsto na common-law da Inglaterra, e foi influenciada pela Declaração de Direitos de 1689, também inglesa.

Esse direito foi descrito por Sir William Blackstone como um direito auxiliar, de apoio aos direitos naturais de autodefesa e resistência à opressão e ao dever cívico de agir coletivamente na defesa do Estado.

Em muitos estados federados norte-americanos, qualquer pessoa, independentemente da cor, raça ou credo, pode pedir e obter licença para a posse e o porte de armas sob algumas condições (ressalvando-se que cada estado tem também suas regras específicas). A arma em questão, quando transportada, deve ser visível e não deve conter munição no cano. A compra de armas por menores de idade é proibida, mas nem sempre. No seu uso durante a prática de caça, por exemplo, o menor pode usar armas, desde que esteja acompanhado pelos pais ou pessoa responsável.

Como várias outras emendas constitucionais, a Segunda Emenda é produto de um contexto, neste caso do da luta pela independência face ao império britânico, que mesmo depois da declaração da independência atacou o novo país. A posse de armas pelas milícias era, então, considerada a única forma de os cidadãos defenderem o seu território.

Do sentido inicial evoluiu para um direito relacionado com a segurança pública, mesmo individual, que devia estar cometida às autoridades competentes como acontece noutros países.

A partir do século XIX, os tribunais dos Estados Unidos passaram a dar diferentes interpretações à Segunda Emenda, no sentido de proteger este entendimento.

Já, no século XXI, a Segunda Emenda passou a ser objeto de renovado interesse acadêmico, jurídico e político. A questão central é se o direito de porte de armas seria extensivo aos cidadãos individuais ou se seria limitado apenas às milícias (os atuais exércitos nacionais).

No caso do processo Distrito de Columbia versus Heller (2008) o Supremo Tribunal proferiu uma sentença histórica (4), afirmando expressamente que a Segunda Emenda protege o direito individual de posse e porte de armas de fogo e, ao mesmo tempo, declarando inconstitucional a lei do Distrito de Columbia que vetava a posse de armamento aos residentes.

Assim ficou estabelecido o direito individual dos cidadãos dos Estados Unidos de se armarem, anulando-se a lei que, 32 anos antes, proibira que se tivesse em casa uma pistola para defesa pessoal na cidade de Washington. Todavia, no processo McDonald versus Chicago (2010), o Tribunal esclareceu as suas decisões anteriores, declarando expressamente que a decisão se aplicava não apenas ao governo federal, mas também, na mesma medida, aos governos estaduais e locais. A sentença deu uma interpretação definitiva à Segunda Emenda, que sancionou o direito de porte de armas, reconhecendo esse direito como inviolável, tal como acontece como o direito ao voto e a liberdade de expressão (5).

Essa decisão continua em debate nos EUA, sendo continuamente alvo de discussões por parte de quem dela discorda e que são cada vez mais.

 

A pista esquecida

Na comunicação social e na internet discute-se sobre a origem de casos de assassinatos nas escolas. Com argumentos comprováveis cientificamente e outros perfeitamente inverosímeis.

Mas há sempre um dado ausente da controvérsia, como refere Carey Wedler (6) e que se pode encontrar repetido nos perfis dos autores dos vários assassínios: um número crescente de atiradores em massa tem vínculos com os militares, incluindo Nikolas Cruz, que era membro da organização de preparação militar da escola, JROTC (corpo de treino do oficiais de reserva juniores).

Os Estados Unidos entregaram-se a uma cultura de militarismo "patriótico" durante décadas, glorificando essa violência institucionalizada como sinal de força e de boa moral. Como foi observado na semana passada, pouco depois do tiroteio da Flórida, os norte-americanos guardam na memória aqueles que cometem violências em nome do governo e têm-nos na mais elevada estima enquanto criticam outros que expressam opiniões diferentes ou não se inclinam perante as pessoas que servem essas instituições.

Na verdade, essa glorificação da violência protege e estimula os indivíduos que cometem actos de violência em massa.

Os legisladores ainda não quiseram enfrentar a amarga verdade de que a América está em guerra consigo mesma. Uma guerra civil que a consome por dentro. As armas de fogo estão a roubar, implacavelmente, em média as vidas de 33.880 habitantes por ano - quase cinco vezes mais que soldados americanos mortos somados nas guerras do Iraque e do Afeganistão (4.530 e 2.408, respectivamente). Em média, 93 pessoas são mortas pela violência armada todos os dias, e pelo menos 239 disparos escolares ocorreram nos Estados Unidos desde 2012. A maioria das mais de 400 vítimas é de menores de 19 anos. E, no entanto, depois de cada carnificina, ouvem-se os líderes políticos a sugerir que não é o momento certo para falar sobre leis de controlo de armas quando as famílias e os amigos das vítimas estão agonizam com a perda de seus entes queridos. Quando chegará o momento certo? Quanto mais sofrimentos devem os cidadãos norte-americanos sofrer, antes que se actue em conformidade?

 

Para um entendimento da “geração Columbine”

Como qualquer outra designação da geração envolvida nestes massacres, esta, resultante da oportunidade jornalística do termo, não compromete o conjunto da necessária reflexão.

Pouco depois do último tiroteio no liceu de Portland, na Florida, um antigo oficial da CIA e do FBI, Philip Medd, especialista nestes casos afirmou à CNN que este assassinato em massa não se deu por acidente, nem por azar, mas como consequência de inação na América que não pode aceitar passar por uma "epidemia de matanças em massa”.

Referimos ainda trabalhos de outros psicólogos.

Já de há muitos anos é sabido, com base em estudos científicos, que os comportamentos agressivos e violentos, tal como outros comportamentos humanos, devem ser entendidos não como inatas mas como comportamentos resultantes de relações sociais. Os cientistas norte-americanos Albert Bandura e Richard (7) referiam nas suas investigações que as crianças imitavam pais, irmãos e amigos de brincadeiras. E assim como adquiriam competências cognitivas e sociais, ganhavam comportamentos agressivos logo nos primeiros anos de vida. É uma aprendizagem feita a partir do que são os seus modelos de referência.

Esta influência dos modelos é tão forte que até as crianças sem predisposição para violência assumem o comportamento agressivo dos modelos que seguem. Com esta explicação, certas teorias de agressão (hipótese de um comportamento agressivo, hipótese da frustração de agressão) e outras teorias acabaram por ser refutadas.

Ao procurar as causas do aumento da violência juvenil, é importante destacar o papel do universo mediático, especialmente a violência nos computadores e os videojogos. Tem-se verificado que os produtos cada vez mais brutais de TV e os jogos violentos contribuem significativamente para o desenvolvimento da delinquência infantil e juvenil e para o aumento da violência juvenil.

Videojogos violentos e os "jogos assassinos" de computador têm sido disponibilizados com grandes recursos publicitários aos jovens de todo o mundo desde o início da década de 90 pela indústria de jogos, com valores de vários milhares de milhões de dólares como entretenimento e a "diversão pelo jogo". São produzidos em cooperação com o Pentágono. O psicólogo militar norte-americano, internacionalmente reconhecido, coronel Dave Grossman, especialista em psicologia da matança, descreve estes jogos de violência como "simuladores de assassinos em massa".

O psicólogo alemão Rudölf Hansel, perito em prevenção de violência juvenil, de Lindau, na Alemanha, sublinhou que, apesar das investigações sobre o impacto do universo mediático ter eliminado, já há muitos anos, as últimas dúvidas e conduzido a provas conclusivas de que o uso de videojogos violentos produz filhos mais agressivos e menos tolerantes - independentemente da idade, gênero ou contexto cultural - o lobbie do sector de filmes e jogos, em associação com jornalistas, políticos e cientistas, conseguiu, ao longo da última década, desestabilizar pais, professores e educadores, com declarações falsas e questionando os sólidos resultados das investigações (8).

A Rudölf Hansel não escapou a profecia do ex-presidente norte-americano Reagan na década de 1980:"Recentemente ouvi algo interessante sobre jogos de vídeo. Muitos jovens desenvolveram destreza incrível nas mãos, olhos e na coordenação do cérebro nestes jogos. A Força Aérea acredita que essas crianças serão pilotos excepcionalmente bons quando pilotarem os nossos jactos...”

Voltando a Dave Grossman, no seu livro de 1999, “Stop Teaching our Kids to Kill” (disponível na Amazon) refere:

“Há três coisas que são necessárias para atirar e matar de forma eficaz e eficiente disse um veterano da guerra do Vietname a um jovem de onze anos em Jonesboro. Qualquer pessoa que não preencha as três falhará nos esforços para matar alguém. Primeiro, é necessária uma arma. Depois a capacidade para atingir o alvo com a arma. E, finalmente, ter vontade de usar essa arma. A arma, a capacidade e a vontade. Destes três factores, os militares sabem que os simuladores da morte tratam de dois: a capacidade e a vontade para matar um ser humano " (9).

O resultado amargo deste treino para o assassinato são as crianças e adolescentes que disparam sobre irmãos, pais, seus colegas de escola e professores. Numa personalidade narcisista, isso é geralmente provocado por supostos insultos, rejeições e interpretações negativas de acontecimentos. O sentimento de estar certo e restaurar a justiça também desempenha um papel (10). Se o jovem tiver uma arma disponível, essa agressão narcisista transforma-se em assassinato em massa com muitas mortes - como aconteceu recentemente na Flórida.

Além do uso excessivo de jogos de violência, um outro fator é também responsável por crimes como tiroteios na escola: os adultos não estão suficientemente presentes na vida de crianças e adolescentes. As suas atenções para com eles são de grande importância para o desenvolvimento na infância e na adolescência.

Se os adultos não estão presentes na vida dos adolescentes, também não lhe podem ensinar valores de adultos, como autoconfiança, autodisciplina, cortesia, respeito mútuo, paciência, generosidade e empatia com os outros. As investigações empíricas sobre "tiroteios escolares" nos EUA revelam fortes evidências da ausência de aconselhamento e orientação de adultos e especialmente por parte dos pais (11).

Quem conhece as escolas e os seus alunos deveria conhecer os hábitos de uso de redes sociais, videojogos e consumo de filmes de violência, os respectivos ambientes familiares por detrás dos comportamentos violentos e das más classificações escolares. E disso sinalizar as autoridades competentes nos planos educativo, social e de segurança. Uma nova função do professor?

 



Notas

        (1) DN, 22 de Fevereiro de 2018.

(2) Primary Documents in American History: The Bill of Rights. The Library of Congress.

(3) The Bill of Rights - texto original e texto atual (em inglês).

(4) CRS Report for Congress District of Columbia v.Heller: The Supreme Court and the Second Amendment. Congressional Research Service T.J. Halsted, Legislative Attorney, American Law Division. Order Code RL34446. 11 de Abril de 2008.

(5) Liptak, Adam (28 de Junho de 2010). «Justices Extend Firearm Rights in 5-to-4 Ruling». The New York Times, 17 de Dezembro de 2012

(6) Carey Wedler, Global Research, 25 de Fevereiro 2018.

        (7) Albert Bandura e Richard Walters, “International Journal of Group Psychotherapy”, 1961, 11(1), p. 94.

(8) Rudölf Nansel, Global Research, 23 de Fevereiro de 2018.

(9) Grossman, D. /DeGaetano, G. (2002). Wer hat unseren Kindern das Töten beigebracht? Ein Aufruf gegen Gewalt in Fernsehen, Film und Computerspielen. Stuttgart, S. 86).

(10) Vgl. Füllgrabe, U. Gewaltförderung durch falsche Paradigmen. reportpsychologie 1/2007, S. 12-27.

(11) Schneider, H. J. Delinquenz Jugendlicher. In: Kriminalistik 4/2000, S. 26.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge









"Possunt quia posse videntur"

"Conseguem porque acreditam que conseguem."

Virgílio
poeta romano, 70-19 aC,
no Canto V da Eneida

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Médio Oriente: sinais contraditórios, por António Abreu

 
No complexo xadrez do Médio Oriente, Afeganistão, Iraque, Síria e vários grupos curdos têm interagido com potências como a Turquia, Rússia, EUA, França, Inglaterra, Arábia Saudita e Israel.
Recentemente a Turquia propôs aos EUA colocar tropas norte-americanas e turcas na cidade síria de Manbij, como forma de isolar a parte leste e norte da Síria, controlar os grupos curdos, alimentar-lhes uma autonomia regional que se vire não contra a Turquia mas contra a Síria.
Nos territórios a leste do Rio Eufrates, os EUA jogam com milícias curdas para criar uma Força de Segurança de Fronteiras, compostos por 30 mil militares, metade dos quais das Forças Democráticas da Síria (FDS), que se têm oposto ao processo de paz para Síria, da iniciativa do presidente russo e acompanhado pelas Nações Unidas.
 
Prosseguem movimentações de grupos terroristas do Iraque para Síria e Afeganistão, da Síria e Iraque para o Afeganistão. Os EUA formam os terroristas, combatentes das FDS, a partir de membros do Daesh e da Al-Nusra, derrotados mas com dirigentes activos, que foram salvos pelos EUA.
 
Entre a Síria e os Curdos poderá ocorrer uma reviravolta nas relações entre ambos. Houve um recente pedido de apoio dos curdos à Síria, a propósito da ofensiva turca contra Afrín, que teve resposta positiva desde que só forças sírias combatessem os terroristas, por ser tarefa de defesa da soberania do país.
 
Os EUA têm, em várias situações, removido com helicópteros, dirigentes do Daesh de situações de aflição como também tem libertado presos seus de cadeias como aconteceu com a libertação por helicópteros de dirigentes presos na cadeia de Al-Hasakah, levando-os para perto da aldeia de Abu Hajar, na parte oriental da Síria, em condições de retomarem a sua actividade. 
 
As negociações para a paz iniciadas em Geneve, prosseguidas em Astana e agora em Sotchi, têm sido sucessivamente boicotados por quem nelas não participa porque não as quer, incluindo as potências ocidentais que as apoiam (EUA, França).
 
Nos últimos dias
- Em Afrín milícias sírias têm levado ajuda humanitária aos curdos apesar da resistência turca 
- Em Ghouta Oriental, terroristas, escudados com a população local lançaram mais de    
  1500  obuses sobre Damasco com dezenas de mortos nas últimas 7 semanas). Damasco reagiu
  bombardeando essa zona da cidade (segundo OSDH cerca de 300 mortos da população), atrás da
  qual os terroristas se escondem.
 
O balanço da presença dos EUA no Afeganistão é muito negativa ( ver post anterior de dia 16 aqui no blogue: terra queimada, narcotráfico, apoio a grupos talibans uns contra os outros,etc.). Apesar das acções dos EUA, que diz ter acabado com Daesh, ainda se mantêm cerca de mil combatentes do grupo no Norte e Oriente do país. Os EUA nestas acções contra o ISIS têm morto milhares de civiis, segundo a ONU. Depois de uma aparente redução do envolvimento em acções militares, Trump e o Pentágono alteram essa aparência, quando a prioridade devia ser um processo de reconciliação nacional, dirigido pelos próprios afegãos.
 
Em 2017, o balanço dos bombardeamentos das forças da coligação ocidental no Iraque e na Síria foi de cerca de 6 mil civis mortos (Organização de Jornalistas Independentes AirWars).
 
Quanto à legitimidade da intervenção estrangeira na Síria, importa ter em conta que da parte de Israel, Turquia, EUA, França foram invasões e agressões ilegais enquanto a intervenção russa e de combatentes do Hezbollah e milícias iranianas foram pedidas pelas autoridades sírias.
 
No Conselho de Segurança das Nações unidas têm ocorrido 2 atitudes contraditórias e ontem um apelo
- as pró-ocidentais tentando criminalizar bombardeamentos russos e sírios
- as dos aliados da Síria procurando condenar países que apoiam grupos terroristas na Síria.
. ontem houve um apelo a cessar-fogo de 30 dias, que terá que ser confirmado pelas partes

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Afeganistão, onde as pessoas são o que menos interessa, por António Abreu


Passado e presente de um país ainda com futuro. História, política e economia de uma região na encruzilhada de continentes e de civilizações, devastada pela geoestratégia imperial dos EUA.

 
Compreender um percurso de dor

Falar do Afeganistão, 16 anos depois de as Twin Towers ainda esperarem a verdade desse massacre fundador, é um percurso de dor e de uma consciência que se vai construindo, através das peças de um puzzle onde as pessoas parecem ser o que menos interessa.

Mas também constitui uma oportunidade para recuperar hoje elementos essenciais da situação no Afeganistão para se compreender como tudo surgiu e porque muito ainda se mantém.

Os atentados do Daesh em 29 Janeiro
 
A recente série de atentados terroristas no Afeganistão

Há duas semanas, no dia 29 de Janeiro, um ataque suicida perpetrado por cinco atacantes, contra um posto militar em Cabul, próximo da principal academia militar do país, deixou 11 soldados mortos e 15 feridos. Quatro dos atacantes foram mortos ou fizeram-se explodir e um quinto terrorista foi preso. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico (EI, Al-Qaeda e Talibans interpenetram-se num jogo de espelhos comandado por serviços secretos ocidentais que os criaram e/ou assessoraram).

Foi mais um de uma série recente de ataques no Afeganistão. No sábado anterior, dia 27, outros terroristas usaram uma ambulância-bomba para matar 103 pessoas e ferir outras 235. O chefe da missão da ONU no Afeganistão, Tadamichi Yamamoto, classificou o ataque como uma «atrocidade». No dia 24, um grupo tinha atacado a sede da ONG «Save the Children» em Jalalabad, provocando três mortos e 24 feridos. No dia 20, um ataque armado ao luxuoso Hotel Intercontinental de Cabul causara 19 mortos, 14 dos quais estrangeiros, provocando um grande incêndio em vários andares do prédio.

Tropas internacionais
 

Para compreender esta agressividade assassina crescente, o jornalista afegão Masud Waganas referia, há dias, existirem fortes rivalidades geopolíticas entre poderes, imperialistas e hegemónicos, relativas aos recursos naturais do Afeganistão e às rotas comerciais e de trânsito, atendendo à localização geoestratégica do país, tendo essas rivalidades crescido de forma significativa nos últimos anos.

 

O legado do Império Britânico, o regime democrático e socialista, a intervenção soviética e o regime Taliban

 Desde o século XVIII a Inglaterra deteve o monopólio da produção de ópio na Índia, que estendeu depois ao Afeganistão. No Afeganistão a resistência à ocupação malogrou uma primeira tentativa de os ingleses destronarem o rei Dost Mohammad. No início de 1842 os ingleses foram forçados a deixar Cabul e, na retirada para Jalalabad, deixaram na neve 17 mil corpos de militares e auxiliares. A Inglaterra torneou a questão cortando os acessos do Afeganistão ao mar, retirando-lhe o território para cá das cordilheiras do Hindu Kush.

 
Preocupada com o vizinho Império Russo, a Inglaterra realizou novas intervenções e, sem consultar os afegãos, acabou por assinar com aquele uma convenção, em 1907, que retirou parcelas ao país e resultou no afastamento dos Pashtuns, que integravam o Afeganistão desde tempos imemoriáveis.

 

Cerca de 90 anos tarde foi precisamente entre as rebeldes tribos Pashtun que nasceu o movimento Taliban, que, em poucos anos, ganhou a guerra civil e se estabeleceu no poder no Afeganistão. Desalojado do governo de Cabul pela intervenção americana, ainda hoje dominam boa parte do território afegão e mantêm em cheque o governo de Karzai e os seus aliados americanos.

 
Em 22 de Novembro de 1917, menos de uma semana após a Revolução Bolchevique, o governo soviético denunciou e tornou públicos os tratados assinados pelo governo czarista, anulando os entendimentos entre britânicos e russos acerca do Afganistão. O rei Amanullah declarou a independência do país em relação ao império britânico em 1915 e tentou fazer regressar os Pashtun ao país mas os ingleses reagiram com mais uma guerra anglo-afegã (a terceira em 80 anos) e o objectivo não foi atingido. Face às tentativas de reunificação pacífica, os britânicos, em 1920, enviaram uma força conjunta de dois mil ingleses e indianos que mataram quatro mil habitantes de aldeias no Noroeste.

 
O rei tornou-se um liberalizador: reforçou o exército; aboliu a escravatura e os trabalhos forçados; defendeu maiores liberdades para as mulheres, desencorajou o uso do véu e a opressão feminina; e introduziu oportunidades educativas para as mulheres.

 
Em 1924 ocorreram violentas revoltas dos islamitas conservadores na cidade fronteiriça de Khost, que foi dominada pelo exército afegão. A revolta foi uma reacção às reformas sociais de Amanullah, particularmente a educação pública para meninas e uma maior liberdade para as mulheres. O historiador afegão Abdul Samad Ghaus escreveu em 1988: «A Grã-Bretanha foi vista como culpada no caso, manipulando as tribos contra Amanullah na tentativa de provocar a sua queda.» Em 1929 grandes revoltas das tribos conservadoras levaram à queda do rei, com a suspeição geral que os ingleses tinham estado por detrás disso.

A intervenção norte-americana começa a ocorrer após a Segunda Guerra Mundial, em 1950, a partir da Directiva 68 de Segurança Nacional onde se afirmava que a URSS tinha o «desígnio do domínio do mundo». Em 1956 os EUA construíram em Kandahar um aeroporto internacional que servia a actividade de bombardeiros para a declarada eventualidade de um confronto com a URSS. No início dos anos 70 a CIA garantiu a retaguarda dos radicais islâmicos até ao início de 1973.

 
Entretanto no Afeganistão, em 1978, ocorreu uma revolução dirigida pelo Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA), comunista.

Em Agosto de 1979, um relatório classificado do Departamento de Estado afirmava: «os interesses maiores dos Estados Unidos (…) serão satisfeitos com o desaparecimento do actual regime afegão, apesar de quaisquer contratempos que isso possa significar para as futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão.»

Zbigniew Brzezinski, assessor de segurança nacional do presidente Carter, admitiu, após a guerra contra os soviéticos, que a CIA fornecia ajuda secreta aos Mujahideen afegãos seis meses antes da invasão soviética. E salientou que a intenção dos EUA ao fornecer essa ajuda era «atrair os russos para a armadilha afegã». No dia em que os soviéticos cruzaram oficialmente a fronteira, afirmou ter escrito ao presidente Carter: «agora temos a oportunidade de dar à URSS a sua Guerra do Vietname.» A intervenção soviética no Afeganistão, a 26 de Dezembro de 1979, a pedido do governo afegão, envolveu as forças soviéticas no apoio ao governo marxista do PDPA contra os fundamentalistas islâmicos, principalmente Mujahideen.
Após a intervenção, os Estados Unidos foram rápidos em fornecer armas aos Mujahideen. Em Fevereiro de 1980, o Washington Post informou que eles estavam a receber armas provenientes do governo dos EUA. Os montantes foram significativos: 10 mil toneladas de armas e munições em 1983, que foram crescendo e atingiram 65 mil toneladas 1987, de acordo com Mohammad Yousaf, general paquistanês que supervisionou a guerra secreta de 1983 a 1987. Milton Bearden, chefe da estação da CIA no Paquistão de 1986 a 1989, que foi responsável por armar os Mujahideen, comentou: «Os EUA estavam a lutar contra os soviéticos até ao último afegão».

Estima-se que os EUA e a Arábia Saudita deram 40 mil milhões de dólares em armas e dinheiro aos Mujahideen fundamentalistas ao longo da guerra. O dinheiro foi canalizado através do governo do Paquistão, que usou algum dele para criar milhares de escolas religiosas islâmicas fundamentalistas (madrassas) para as crianças refugiadas afegãs que inundaram o país. Estas tornaram-se as instituições de formação para os Talibans.

Em Maio de 1988 a União Soviética começou a retirada das suas tropas do território afegão, uma retirada que só completou em Fevereiro de 1989. Porém, mesmo após a retirada, a guerra civil continuou no país até os rebeldes tomarem Cabul, em Abril de 1992, assassinando o presidente deposto, Mohamed Najibulah, que tivera o apoio dos soviéticos.

O país passou a ser uma república islâmica e, no ano seguinte, uma assembleia nacional, composta por várias facções rivais, líderes tribais e religiosos, aprovou a criação de um novo parlamento. Esta união entre as várias facções durou pouco tempo. Violentas disputas internas favoreceram a ascensão de uma nova força política, os Talibans, grupo fundamentalista islâmico financiado pelo Paquistão. A partir daí foram anos de destruição do país, da sua cultura, dos direitos dos cidadãos, de assassinatos em massa que conduziram o país ao que hoje existe: um país de privações alimentares; de habitação, saúde, e de direitos democráticos condicionados; com regras rígidas para as mulheres e destruído por sucessivas guerras.

 As potências ocidentais mantiveram-se impávidas e serenas. Para elas o importante tinha sido a queda de um regime alinhado com a URSS e a saída desta do país. Assistiram a anos de uma loucura indescritível e os EUA só lá entraram em 2001 por razões relacionadas com os seus interesses económicos de exploração das riquezas naturais e estratégicos de expansão para leste.

 

O regime socialista e as transformações no Afeganistão (1978-1992)

 Atendendo ao que fui estudando nestes anos, de entre as diferentes narrativas sobre este período subscrevo a de Dana Visalli, agricultora biológica norte-americana e comentadora de política internacional.

 

1. Legislação. Direitos.
O novo governo iniciou um programa de reformas que eliminou a usura, lançou uma campanha de alfabetização, eliminou a cultura do ópio, legalizou os sindicatos, estabeleceu um salário mínimo e diminuiu entre 20% e 30% os preços dos bens mais necessários, introduziu o ensino superior qualificado para os trabalhadores, aumentou os salários numa média anual de 26% e os salários mais baixos em 50%.

O Estado subsidiou, para os manter, os preços de bens básicos, como a gasolina, o gasóleo, o querosene («petróleo») ou o açúcar, enquanto outros, como o trigo, a farinha e a lenha, passaram a ser vendidos a preços fixos.
Quanto aos direitos das mulheres, o regime socialista concedeu a permissão para não usar véu, aboliu o dote, promoveu a integração das mulheres no trabalho (245 mil trabalhadoras, sendo 40% dos médicos mulheres) e a alfabetização (o analfabetismo feminino foi reduzido de 98% para 75%); 60% do corpo docente da Universidade de Cabul passou a ser de mulheres, 440 mil mulheres passaram a trabalhar na educação e 80 mil participaram na campanha de alfabetização. O mesmo aconteceu na vida política. As mulheres passaram a ter, por lei, direitos iguais aos dos homens.

A taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos diminuiu de 38% em 1960 para 30% em 1988, 80% da população urbana passou a ter acesso aos serviços de saúde e a expectativa de vida, de 33 anos em 1960, passou para 42. Duplicou o número de camas hospitalares. Aumentou em 50% o número de médicos. Pela primeira vez foram criados jardins-de-infância e casas de repouso para os trabalhadores.

Foi realizada a cobertura hospitalar e de centros de saúde, mesmo nas regiões rurais remotas. O acesso aos cuidados de saúde era gratuito e os medicamentos eram vendidos a preços acessíveis, e para os mais pobres, os medicamentos eram entregues gratuitamente.

Centenas de milhares de pessoas foram alfabetizadas e 63% das crianças frequentaram o ano escolar em 1985.

Foi fundada a Academia de Ciências (1980), o Instituto Pedagógico (1987) e universidades em Balha (1988), Herat (1988) e Kandahar (1990). O Afeganistão enviou para o espaço o primeiro e único cosmonauta da sua história, Abdul Ahad Mohmand, em 1988. Também desenvolveu a cinematografia nacional.

 Inicialmente a religião foi separada do Estado, mantendo-se a liberdade de culto. Mais tarde, foi criado um fundo estatal para a reparação e construção de mesquitas e anulada a expropriação de terras do clero. Em 1987, o Islão foi restaurado como a religião oficial do Estado.

 

2. Economia

 Depois da revolução, o governo Taraki nacionalizou sectores estratégicos da economia e a realizou uma reforma agrária, que incluiu a formação de cooperativas agrícolas e a expropriação de terras dos latifundiários e sua distribuição entre os camponeses (o limite da propriedade privada da terra era de seis hectares).

 A proporção de indústrias extractivas e transformadoras cresceu de 3,3% do PIB em 1978 para 10% em 1985. No mesmo período, o investimento na indústria nacional ultrapassou em 80% todos os investimentos nos vinte anos anteriores à Revolução. Em 1984, os investimentos em sectores estatais e mistos aumentou em 50%. Nesse ano foram criadas 100 novas empresas. Em 1984, as colheitas ultrapassaram significativamente as anteriores.

 O reforço do sector público não excluiu o sector privado. No governo Karmal foi fundada a Câmara de Comércio e Indústria, com o objectivo de reunir representantes de capitais privados de mais de vinte associações de comerciantes.

 Com a ajuda da União Soviética, no sector estatal da economia foram construídas cerca de 200 empresas, que passaram a fornecer a maior parte da produção global. Entre elas as empresas hidro-eléctricas e a Puli-Humri Naghlu, a fábrica de fertilizantes de azoto em Mazar-i-Sharif, uma empresa de panificação e outra de casas pré-fabricadas em Kabul.

A Checoslováquia abriu um alinha de crédito para ser construída uma linha de eléctricos em Cabul, equipadas minas de carvão e construída uma fábrica de cimento em Herat. Com créditos da Bulgária, foi construída uma grande exploração aviária, explorações de ovinos e de seda, outras empresas de aves, de produtos lácteos, tijolo e curtumes, e duas empresas para o sector das pescas. A Alemanha Oriental participou da criação de uma central telefónica automática em Cabul, que estabeleceu as linhas de comunicação e a ampliação do sistema de fornecimento de electricidade em várias cidades. A Hungria participou da construção de uma empresa farmacêutica.

Para além do comércio com o campo socialista, no início dos anos 80, o volume de comércio entre o Afeganistão e o Japão tinha aumentado 33% e ambos os países criaram a empresa comercial conjunta Nichi-afegã Lda. Também o comércio com a Índia aumentou em 50%.

A guerra civil viria a provocar graves danos para a economia afegã. Só até 1985 o número de perdas tinha sido de 35 mil milhões de afegãos (moeda). Com os Talibans todos os avanços do país foram destruídos e regressou-se a um profundo obscurantismo.

 

2001: a invasão norte-americana

 Em 2001, os EUA e a NATO invadiram o Afeganistão, fizeram dele um protectorado, com dirigentes que, apesar de formalmente eleitos, foram sendo afastados em função dos «superiores interesses dos EUA». O caso mais notório foi o de Hamid Karzai, que foi presidente do país entre 2004 e 2014, afastado por não aceitar o estatuto do Paquistão como base de grupos terroristas como os EUA queriam.
Exército

Os EUA ensaiaram para 2014 uma «saída» das suas tropas que acabou por se traduzir apenas num outro modelo de protectorado, com os Talibans e outros grupos terroristas a servirem os interesses dos estado-unidenses de desestabilização regional, incluindo em outros países, como a Síria ou as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central que fazem fronteira com a Rússia e a China.
Em 30 de Setembro de 2014, o Afeganistão, os Estados Unidos e a NATO assinaram um acordo para justificar formalmente a presença de um contingente militar limitado no estado da Ásia Central, após a retirada formal das forças internacionais. Uma força de seguimento de cerca de 12 mil soldados permaneceu em 2015 em tarefas de treino e apoio. No final desse ano, cerca de 41 mil soldados da NATO permaneciam no Afeganistão lutando contra a revolta de Talibans, ao lado de soldados e polícias afegãos, com o mandato de missão de combate da NATO a terminar em Dezembro. Os EUA falharam redondamente o seu programa de formação de polícias e os afegãos passaram a confiar ainda menos neles.

Em Agosto passado Trump anunciou ir continuar a guerra no Afeganistão. Em reacção, um porta-voz dos Talibans condenou essa decisão de Trump e disse, citado pela France Press, que o grupo terrorista continuaria a jihad no país, afirmando ainda que o país se tornaria num «cemitério» dos EUA após a decisão de Trump de enviar mais tropas para o Afeganistão. Na sequência disso, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, declarou que o movimento Taliban seria incapaz de alcançar uma vitória militar no Afeganistão mas que, no entanto, poderia receber um estatuto legal através de negociações…

A nova estratégia dos EUA no Afeganistão inclui a expansão de forças de autoridade para atacar terroristas. No entanto, Trump disse que os Estados Unidos não revelariam o número de tropas ou quaisquer futuros planos de acção militar no Afeganistão.

 A vaga de atentados em Janeiro de 2018 revela a falência dessas e anteriores estratégias e a liberdade de circulação dos Talibans, al-Qaeda e Estado Islâmico.

 

Os objectivos geoestratégicos

 Apesar de 16 anos de uma pesada presença dos EUA, a fim de estabelecer a sua hegemonia no Afeganistão e para além dele, a influência de potências regionais como a Rússia, China, Irão, Paquistão e a Índia está a crescer. No entanto, os EUA mantêm um papel desestabilizador na região, tendo em vista estabelecer um domínio imperial alargado numa situação internacional onde já não têm a mesma capacidade de influência.

Esta estratégia tem girado em torno de variantes da chamada Doutrina Wolfowitz (subsecretário de Estado de George Bush pai), que visou «prevenir o surgimento de um poder regional ou global que pudesse desafiar o estatuto hegemónico único por parte dos EUA» e a sua cavalgada até à China, para garantirem recursos energéticos e minerais que implicariam uma ocupação logística de uma vasta parte da Eurásia, com governos de fidelidade garantida.

Era um sonho louco, desmentido após as invasões do Iraque e do Afganistão, de várias «revoluções coloridas», da introdução do «caos» como melhor forma de gerir o terrorismo, do narcotráfico, da exploração sem regras de petróleo e riquezas minerais. Evitar um trajecto comercial normal entre países, para o deixar entregue a bandidos que fazem a administração desses imensos espaços, destruiu o Afeganistão e outros países, como a Líbia. Mas há fortes realidades que hoje pesam em sentido diferente desta cavalgada diabólica.

Dezasseis anos depois da guerra mais longa da sua história, os EUA no Afeganistão tomam atitudes que dependem mais do que entendem ser a necessidade de reagirem à derrota na Síria, podendo acrescentar-se-lhe a do Iraque, onde hoje é significativa a influência da Rússia e do Irão, com a China mais distanciada, apesar de já estar a fechar contratos com o Afeganistão.
Trump pode estar a transformar esta guerra «em aberto» desde 2001 numa guerra em termos qualitativos e quantitativos muito diferentes da dos seus antecessores na Casa Branca. Mas está limitado, pese embora a pressão do Pentágono para o aventureirismo sem medir consequências.

 

A CIA, os terroristas e o controlo da heroína

 Vale a pena lembrar aqui a história do comércio de drogas do Crescente Dourado, que está intimamente relacionado com as operações secretas da CIA na região desde a guerra contra os soviéticos e as consequências que isso teve.

 Ate à revolução socialista a cultura do ópio (papoila) era vasta e controlada pelos ingleses. Depois da revolução, a produção de ópio foi proibida no Afeganistão e no Paquistão, e foi dirigida a pequenos mercados regionais. Não existia produção local de heroína (Alfred McCoy, «Drug Fallout: quarenta  anos de cumplicidade da CIA no comércio de narcóticos», The Progressive, 1/08/1997).

A economia afegã de narcóticos foi um projecto cuidadosamente preparado pela CIA, apoiado pela política externa dos EUA e intimamente relacionado com as operações secretas da CIA na região, desde a guerra contra os soviéticos.

Conforme revelado nos escândalos Irão-Contra e Bank of Commerce e Credit International (BCCI), as operações secretas da CIA em apoio aos Mujahideen afegãos foram financiadas através da lavagem de dinheiro da droga. O «dinheiro sujo» foi reciclado - através de várias instituições bancárias (no Médio Oriente), bem como através de empresas anónimas da CIA, com «dinheiro encoberto» usado para financiar vários grupos insurgentes durante a guerra contra os soviéticos.

 Em «The Dirtiest Bank of All» pode ler-se que «os EUA queriam fornecer aos rebeldes Mujahideen no Afeganistão mísseis stinger e outros equipamentos militares, E precisavam da cooperação total do Paquistão. Em meados da década de 1980, a estação da CIA em Islamabad era uma das maiores estações de inteligência dos EUA no mundo. A revista Time de 29/07/1991, a páginas 22, revelava que «os EUA se voltaram para o tráfico de heroína no Paquistão», citando um oficial dos serviços secretos dos EUA.

O estudo do investigador Alfred McCoy confirmou que, depois da operação secreta da CIA no Afeganistão em 1979, «as fronteiras do Paquistão e o Afeganistão tornaram-se o maior produtor de heroína do mundo, fornecendo 60% da procura dos EUA. No Paquistão, a população viciada em heroína passou de quase zero em 1979 para 1,2 milhões em 1985, um aumento muito mais acentuado do que em qualquer outra nação».

E que «os activos da CIA controlaram novamente esse comércio de heroína. À medida que os guerrilheiros Mujahideen ocuparam território dentro do Afeganistão, pediram que os camponeses plantassem o ópio como um "imposto revolucionário". Em toda a fronteira no Paquistão, líderes afegãos e grupos de bandidos locais, sob a protecção dos serviços secretos do Paquistão, faziam funcionar centenas de laboratórios de heroína. Durante esta década de 1979 a 1989 de tráfico aberto de drogas, a Agência de Controle de Drogas (DEA) dos EUA em Islamabad não levantou processos ou fez prisões».

Continua McCoy: «funcionários dos EUA recusaram-se a investigar acusações de heroína por parte de seus aliados afegãos porque a política de narcóticos dos EUA no Afeganistão foi subordinada à guerra contra a influência soviética. Em 1995, o ex-diretor da CIA em operação no Afeganistão, Charles Cogan, admitiu que a CIA realmente sacrificou a guerra contra as drogas para fazer a Guerra Fria.»

 

As vastas reservas de minerais e gás natural do Afeganistão: a cereja em cima do bolo que os afegãos estão impedidos de comer
De acordo com um relatório conjunto do Pentágono, do U.S. Geological Survey (USGS) e a USAID, revelaram-se no Afeganistão em 2010 reservas de minerais «anteriormente desconhecidas» e inexploradas, estimadas na ordem dos mil milhões de dólares («EUA identificam grandes riquezas minerais no Afeganistão», New York Times, 14/06/2010; veja-se também a BBC, 14/06/2010): «os depósitos anteriormente desconhecidos - incluindo grandes veias de ferro, cobre, cobalto, ouro e metais para industrias críticos como o lítio - são tão grandes e incluem tantos minerais que são essenciais para a indústria moderna, que o Afeganistão poderia eventualmente ser transformado num dos mais importantes centros mineiros mundiais, acreditam os funcionários dos Estados Unidos.»

Um memorando interno do Pentágono, por exemplo, afirma que o Afeganistão poderia tornar-se a «Arábia Saudita do lítio», uma matéria-prima chave na fabricação de baterias para laptops e blackberrys.

A vasta escala da riqueza mineral do Afeganistão foi descoberta por uma pequena equipa de funcionários do Pentágono e geólogos americanos. O governo afegão e o presidente Hamid Karzai foram posteriormente informados, segundo afirmaram autoridades americanas.

Embora possa levar muitos anos para desenvolver uma indústria de mineração, o potencial é tão grande que funcionários e executivos da indústria acreditam que isso poderia atrair investimentos pesados mesmo antes de as minas se tornarem lucrativas, proporcionando a possibilidade de empregos que acabassem com o estado de guerra.

O valor dos depósitos minerais recém-descobertos diminui o peso relativo da economia de guerra do Afeganistão, baseada em grande parte na produção de ópio e tráfico de narcóticos, e poderá abrir perspectivas para uma economia livre dessa actividade criminosa.

 
Rematemos, regressando ao título deste artigo: «Afeganistão, onde as pessoas parecem ser o que menos interessa».
 
Originalmente publicado em www.abrilabril.pt