segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"Homo sapiens non urinat in ventum"
"Gente sensata não mija contra o vento" (?)

inscrição no grande pórtico entre a 
Praça Leidse e a Praça Max Euwe em Amsterdão

Os interesses económicos por detrás da destruição da Amazónia




O Governo de Rondônia lançou a Operação Jequitibá de prevenção e combate aos focos de incêndios no Estado (Foto: Esio Mendes)


As queimadas que destroem a Amazónia e chamam atraem a atenção mundial são apenas a face mais visível da exploração da maior floresta tropical do mundo. Por trás do derrube da mata e do fogo, estão poderosos interesses económicos: a criação de gado, o comércio ilegal de madeira e a produção de soja.

O repórter Brasil e o The Guardian foram-lhes descobrir os contornos.

Parte desses produtos tem como destino final a Europa. O presidente da França, Emmanuel Macron, chamou as queimadas de “crise internacional”, declaração que foi interpretada como uma subida no tom das ameaças sobre a compra de produtos brasileiros — e que coloca em xeque o acordo entre Mercosul e União Europeia. A relação do mercado internacional com as queimadas não é simples, já que a Europa compra produtos que saem de áreas desmatadas ilegalmente há anos, conforme a Repórter Brasil denunciou em diversas reportagens.
O fogo é uma das etapas do processo de abertura de pastagens, que tem início no derrube da floresta com tratores e correntes, passa pela secagem e pelas chamas e termina no plantio de capim para alimentar os animais, de acordo com Erika Berenguer, pesquisadora sénior do Instituto de Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford. Após a substituição das árvores pelo gado, o terreno pode vir a ser usado para o plantio agrícola, segundo esta pesquisadora, que já estuda queimadas na Amazónia há 10 anos.
Se na década de 1970 apenas 1% da Amazónia estava desmatada, hoje o índice chega a 20%, segundo relatório da Procuradoria do Meio Ambiente do Ministério Público Federal. A destruição da floresta acompanhou a evolução do rebanho bovino na Amazônia, que passou de 47 milhões de animais em 2000 para cerca de 85 milhões atualmente. Quase 40% das 215 milhões de cabeça de gado do país pastam em áreas amazónicas. A pecuária ocupa 80% da área desmatada da região, segundo o relatório.
A exploração económica da Amazónia está por trás dos 40 mil focos de incêndio que atingiram a floresta de 1 de janeiro a 23 de agosto, detetados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É o maior índice de queimadas desde 2010.




O aumento dos focos de incêndio acontece ao mesmo tempo que o governo do presidente Jair Bolsonaro toma medidas controversas como, como a redução das fiscalizações ambientais, os cortes orçamentais para o ministério do Meio Ambiente, o questionamento dos dados oficiais sobre desmatamento e a extinção do Fundo Amazónia.
Ao contrário do que declarou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de que as queimadas se devem ao “tempo seco, vento e calor”, os dados do INPE indicam que o fogo vem sendo causado pelo derrube da floresta, segundo pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Fronteiras agrícolas
Não por acaso, as atuais queimadas da Amazónia acontecem em áreas tradicionalmente dedicadas a pastagens ou a plantações de soja. Um cientista da agência espacial NASA apontou com precisão a localização dos focos de calor detetados em agosto. “[Os satélites mostram] colunas de fumaça enormes saindo daquelas áreas da fronteira agrícola, como Novo Progresso, a região da Terra do Meio, no Pará, e o sudeste do estado do Amazonas”, disse Douglas Morton ao jornal Folha de S. Paulo, acrescentando que a última vez que os satélites detetaram uma destruição semelhante foi em 2004.
Localizada na bacia do rio Xingu, a Terra do Meio é ameaçada pelo avanço do desmatamento na cidade paraense de São Félix do Xingu, que possui o maior rebanho bovino do país, com 2,2 milhões de cabeças. Ali, a gigante mundial da produção de carne, JBS, foi apanhada em flagrante a comprar gado de um grupo económico multado pelo Ibama (1) por desmatar a Amazónia.
Trata-se da AgroSB, uma das maiores produtoras de gado do país, que foi multada por desmatamento ilegal em 69,5 milhões de reais entre 2010 e 2019, nas suas fazendas em São Félix do Xingu, conforme mostrou, em julho, investigação da Repórter Brasil em parceria com o jornal britânico The Guardian. A companhia, que faz parte do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, é uma das fornecedoras de gado da JBS.
Não foi a primeira vez que a JBS comprou gado de grupos desmatadores. Em 2017, a produtora de proteína animal comprou gado de Jotinha, apelido de Antônio Junqueira, que realizava na região o maior esquema de desmatamento ilegal associado a grilagem (2) de terras da história da Amazónia, segundo operação realizada pelo MPF (3). A denúncia sobre exportação de carne ligada ao desmatamento, feita pela Repórter Brasil em parceria com o The Guardian, levou o mercado inglês Waitrose, sétimo maior da Inglaterra, a retirar a carne da empresa brasileira das suas prateleiras.
Procurada, a JBS informou que mantém o posicionamento que deu à época da publicação das reportagens, quando afirmou que, “assim que recebeu as informações sobre as irregularidades, todas as compras de gado da família Junqueira foram imediatamente interrompidas”.
Sobre a compra de gado da AgroSB, a JBS informou que “os fatos apontados não correspondem aos padrões” adotados pela companhia. A empresa informou que não adquire animais de fazendas envolvidas com desmatamento ou que estejam embargadas pelo Ibama. A empresa reforça que possui um sistema robusto de monitorização dos seus fornecedores de gado.

Já a AgroSB, também em nota divulgada na época da publicação da reportagem, afirmou que comprou a fazenda Lagoa do Triunfo em fevereiro de 2008 e que “nunca realizou qualquer supressão de vegetação no imóvel”. “O modelo de negócio da AgroSB é o da aquisição de áreas abertas e com pastagem degradadas, as quais são adubadas, recuperadas e transformadas em pastos de alta intensidade ou plantações de grãos”, completa a nota.

Plantações de soja
Enquanto a pecuária desmatadora se concentra nos estados da Amazónia Legal (4), a maioria das plantações de soja ocupam áreas do cerrado (5). Porém, parte das plantações do grão está no norte do Mato Grosso – cujo bioma é amazónico. Na cidade de São José do Rio Claro, no Mato Grosso, por exemplo, a Repórter Brasil apanhou em flagrante um fazendeiro denunciado e multado por trabalho escravo e desmatamento ilegal que exportava proteína de soja para a Noruega. No país nórdico, a soja era usada como ração na criação de salmão.
Ainda que em menor proporção, as plantações de soja também contribuem para a destruição da floresta. Em 2018, o então ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, divulgou estudo revelando que o grão ocupa ilegalmente 47,3 mil hectares de floresta desmatada da Amazónia – aumento de 27,5% na comparação com o registrado na safra anterior (37,2 mil hectares).
Empresas dinamarquesas compraram, em 2018, madeira irregular de exportadores brasileiros multados diversas vezes pelo Ibama

Empresas dinamarquesas compraram, em 2018, madeira irregular de exportadores brasileiros multados diversas vezes pelo Ibama (Foto: Ibama)



 A Operação Shoyo, realizada em outubro de 2016 pelo Ibama, investigou no Mato Grosso os compradores de “soja pirata” – grão produzido em áreas desmatadas e embargadas. A operação resultou em multas de 170 milhões de reais relacionadas com a plantação em áreas proibidas, de acordo com informações do relatório “Salmon on soy beans – Deforestation and land conflict in Brazil” (6).
A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) divulgou uma nota no passado dia 23 em que condena a ocorrência de queimadas na Amazónia em áreas de vegetação e de produção agrícola no norte do Brasil.
Sobre a extração ilegal de madeira na Amazónia, a investigação conjunta da Repórter Brasil e da organização jornalística dinamarquesa Danwatch revelou, no ano passado, que empresas daquele país compraram produtos de exportadores brasileiros multados diversas vezes pelo Ibama. Oque constitui uma prova de que esses crimes não estão sendo bem controlados pelas redes de fornecedores internacionais.

Desmatadores financiam campanha
O agronegócio brasileiro tem relações estreitas com a classe política. A JBS foi uma das maiores financiadoras de campanhas políticas em 2014. Executivos da empresa assumiram em delações que destinaram mais de 500 milhões de reais para ajudar a eleger governadores, deputados estaduais, federais e senadores de todo o país. Ainda que a empresa dona das marcas Friboi e Swift não tenha sido diretamente multada por desmatamento, ela mantém na sua rede de fornecedores diretos e indiretos grupos autuados pelo crime.
Servidores do Instituto Chico Mendes (ICMBio) posaram para uma foto com a frase “Amazónia, estamos aqui”, um recado para governo dizendo que eles estão dispostos a irem fiscalizar e punir os desmatadores e os responsáveis pelas queimadas.
Após a prisão dos donos da JBS, Joesley e Wesley Batista, em 2017, a empresa parou de financiar campanhas, mas executivos ligados a companhias que foram autuadas pelo Ibama por crimes ambientais – o que inclui desmatamento ilegal – fizeram doações para campanhas de pelo menos 117 deputados e senadores eleitos, que somam 4,2 milhões de reais. Entre os financiados por desmatadores, há nomes proeminentes, como o do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros.
O levantamento exclusivo feito pela Repórter Brasil cruzou dados do Ibama e da Receita Federal e foi publicado em 5 de fevereiro deste ano. O levantamento considera crimes ambientais em todas as regiões do país e não apenas na Amazónia.

Reação
A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse na sexta-feira, dia 23, que as queimadas acontecem durante todo o ano no Brasil. Ela destacou que não se pode dizer que o agronegócio brasileiro é o “grande destruidor” da Amazónia por causa dos incêndios que ocorrem neste momento na região. “Existe hoje uma preocupação do mundo com o meio ambiente. O Brasil não está fora dessa preocupação. E os produtores rurais também têm essa preocupação porque eles são os maiores prejudicados, principalmente aqueles que usam tecnologia”, disse a ministra.



Também nessa sexta-feira, um grupo de técnicos do Instituto Chico Mendes (ICMBio) posou para uma foto com a frase “Amazónia, estamos aqui”. Segundo um dos técnicos, a foto é um recado para o governo federal a dizer que eles estão dispostos a irem fiscalizar e punir os desmatadores e os responsáveis pelas queimadas. “Mas o governo precisa disponibilizar a verba e autorizar as operações”, disse um dos fiscais durante o treino realizado na Academia Nacional da Biodiversidade, em Iperó (SP).

(1)    Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
( (2)  A grilagem de terras é a falsificação de documentos para, ilegalmente, tomar posse de terras devolutas ou de terceiros, bem como de prédios ou prédios indivisos. O termo também designa a venda de terras pertencentes ao poder público ou de propriedade particular mediante falsificação de documentos de propriedade da área. O agente de tal atividade é chamado grileiro.
  (3) Ministério Público Federal que permite um acesso rápido e integrado nos termos que o utiliza entenda sobre compras, contratos, licitações, despesas com pessoal, gastos com diárias e passagens, etc.
( (4)  O conceito de Amazónia Legal foi instituído pelo governo brasileiro como forma de planear e promover o desenvolvimento social e económico dos estados da região amazónica, que historicamente compartilham os mesmos desafios económicos, políticos e sociais. Incorpora também parte de Cerrado e do Pantanal.
( (5)    O Cerrado é uma vasta zona tropical de savana e ecorregião brasileira, particularmente nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins e Minas Gerais. As áreas “core” do bioma do Cerrado são os planaltos centrais do país.
( (6)  Os dados fazem parte do relatório "Rainforest Foundation Norway - 2018 Salmão em soja - Desflorestamento e conflito de terras nos Brazil" (2018).

sábado, 24 de agosto de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"Le savant n’est pas l’homme qui 
fournit les vraies réponses ;


 c’est celui qui 
pose les vraies questions". 

"Sábio não é o que dá 
as respostas verdadeiras,

 é o que coloca 
as verdadeiras questões."

Claude Lévi-Strauss 
antropólogo e etnólogo 
1908-2009) 
em Le cru et le cuit (1969)

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Aldo Rebelo: A tragédia argentina e a ortodoxia económica



“Você sai da Argentina e volta 20 dias depois, e está tudo mudado. Você sai da Argentina e volta 20 anos depois, e nada mudou.” (ouvido de um argentino)
O presidente Maurício Macri enfrenta, na véspera das eleições de outubro, o momento mais difícil de sua trágica gestão, agravado pela retumbante e aparentemente imprevista derrota nas eleições prévias eleitorais, quando ficou 15 pontos atrás de seu adversário peronista Alberto Fernandez e da sua vice Cristina Kirchner.

Por Aldo Rebelo (1)
A tragédia argentina e a ortodoxia económica



 A presidência de Macri consolidou-se como um grande fracasso, com três anos de crescimento negativo, acordos desastrados com o FMI e uma desorientação completa ao final do governo 
Os números são implacáveis contra Macri: o aumento da pobreza e do desemprego, o disparar da inflação e dos juros e o peso argentino que se derreteu frente ao dólar. Exatamente o contrário de tudo o que prometera Macri na sua tomada de posse.

A vitória de Macri foi recebida nos meios económicos e políticos conservadores e partidários do liberalismo económico ortodoxo como uma promessa. Os descendentes pouco habilitados da economia liberal encheram a comunicação social do fenómeno Macri como a boa nova que salvaria a Argentina e, conseguindo-o, salvaria também o Brasil.

O atual presidente da República, então deputado federal, Jair Bolsonaro, ao comentar minha nomeação para o Ministério da Defesa em 2015, deu a eleição de Macri como exemplo de mudança na Argentina e esperança para o Brasil.

A verdade é que a presidência de Macri consolidou-se como um grande fracasso. Três anos de crescimento negativo, uma negociação desastrada com o FMI, e uma desorientação completa no final do governo, deixou a sua candidatura à reeleição ameaçada de substituição pela governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal.

Nas vésperas das eleições prévias e da humilhante derrota, Macri já não fazia a defesa de seu legado ou do seu futuro governo. Desalentado, apenas agitava o espantalho do regresso de Cristina Kirchner ao poder.

O fantasma que ronda a ortodoxia liberal argentina não se apela do nome de Kirchnerismo. É o velho peronismo que, entre êxitos e fracassos, permanece na memória do povo argentino nos seus dias promissores de crescimento e bem-estar.

O primeiro governo de Perón (1946-1952) deu aos argentinos rápido crescimento da economia, elevação do padrão de vida material e espiritual dos trabalhadores, liquidou a dívida externa de 12,5 mil milhões e tornou a Argentina credora de 5 mil milhões de dólares perante o mundo. A França tomava dinheiro emprestado da Argentina e a Espanha escapava da fome pela generosidade do general Perón e de sua esposa Evita.


Os casais Perón e Kirchner: a memória de seus governos dá a tónica da eleição argentina



No governo Nestor Kirchner, a Argentina cresceu a taxas superiores a 8% e os trabalhadores receberam de volta uma parte do que tinham perdido nos períodos da ortodoxia liberal. É verdade que, na fase final de Cristina Kirchner no poder, a economia argentina desabou, mas nada que se compare aos maus momentos dos governos militares com Martinez de Hoz, ou à fase de Domingo Cavallo e seu corralito, espécie de confisco que limitava o saque em conta por parte da população.

O governo militar acumulou a humilhação nas Malvinas, o sequestro, tortura e morte de opositores e a liquidação de 400 mil empresas argentinas, tragédia que isolou e transformou em párias as forças armadas do país.

É esse o confronto de fundo que fragiliza as pretensões de Macri para um novo governo. Em eleição tudo, ou quase tudo, pode acontecer, mas é provável que a memória antiga do peronismo dê a Alberto Fernandez o trunfo definitivo contra o seu adversário.

Quando não resta nada, resta a esperança, e parece que Macri deixou de ser a esperança para os argentinos. Restaram, então, a memória, e cavalgando a memória, Alberto Fernandez, Cristina Kirchner e o peronismo.

(1)    Aldo Rebelo, jornalista, foi ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Desporto; da Ciência, Tecnologia e Inovação; e da Defesa (governos Lula e Dilma) e publicou ontem no Vermelho do PC do B este artigo que reproduzimos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"The consequence of being 

in a single-currency union 

is that it effectively loses 

one tool against recession.

"A consequência de estar 

numa união de moeda única 

é na verdade perder 

um instrumento contra a recessão."

Christine Lagarde

ex-diretora geral do FMI e nova presidente do BCE
n.1956

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

NATO E nazismo, uma irmandade, por José Goulão


Que haverá de comum entre um grupo armado formado por membros das Waffen SS em Estados bálticos, designado Irmãos da Floresta, o regimento Azov da Guarda Nacional ucraniana, o emir do Daesh no Magrebe, de seu nome Abdelhakim Belhadj, e o mistério do armamento sofisticado descoberto recentemente num santuário neonazi em Turim, Itália?
Por muito que seja considerada inadmissível pela comunicação mainstream e seus fiéis seguidores, a resposta é: NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte.«Que haverá de comum entre um grupo armado formado por membros das Waffen SS em Estados bálticos, designado Irmãos da Floresta, o regimento Azov da Guarda Nacional ucraniana, o emir do Daesh no Magrebe, de seu nome Abdelhakim Belhadj, e o mistério do armamento sofisticado descoberto recentemente num santuário neonazi em Turim, Itália? Por muito que seja considerada inadmissível pela comunicação mainstream e seus fiéis seguidores, a resposta é: NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte»


                          José Goulão
É a linguagem objectiva dos factos. E se contra factos pode haver quantos argumentos quiserem, todos eles serão rejeitados pela mais transparente realidade. As circunstâncias citadas têm em comum, sem dúvida, o culto do nazi-fascismo e, de uma maneira ou de outra, estão igualmente interligadas pela acção, protecção ou propaganda da NATO.
Vamos então a factos.

Os Irmãos da Floresta

A Segunda Guerra Mundial entrava na sua fase final quando foram criados os Irmãos da Floresta, grupos armados anticomunistas nascidos na Estónia, Letónia e Lituânia. Os membros, na sua maioria, foram recrutados entre os destacamentos locais das Waffen SS, integrados no aparelho de guerra hitleriano que tentou ocupar a União Soviética. Na Estónia, por exemplo, estes terroristas faziam juramento de fidelidade ao Fuhrer1.
Com a cumplicidade de serviços de espionagem de países ocidentais – nessa altura, formalmente em aliança com o lado soviético – os Irmãos da Floresta, ex-Waffen SS, foram reciclados como tampões contra o avanço do Exército Vermelho para Oeste depois de este ter vergado o nazismo na decisiva e sangrenta batalha de Estalinegrado.
Em suma, os Irmãos da Floresta, tal como os destacamentos bálticos das Waffen SS, tinham como missão, de facto, impedir que os soviéticos esmagassem completamente os nazis – o que também significava travar a libertação dos seres humanos que ainda sobreviviam nos campos da morte hitlerianos2.
«é pena que os propagandistas da aliança não tenham podido dedicar um segundo sequer às origens hitlerianas e terroristas da gloriosa irmandade – certamente por falta de tempo. Que outras razões haveria para esconder uma matriz tão inspiradora?»

o heróis de uma gesta democrática, através de um documentário da NATO inserido no seu espaço de propaganda noYouTube. São oito minutos e alguns segundos de pura heroicidade ao melhor estilo de Hollywood, durante os quais os feitos dos Irmãos da Floresta são apresentados como inspiradores das forças especiais das repúblicas bálticas que agora «estão na linha da frente» contra a temível «ameaça russa». Afinal, hoje como ontem, explica-nos a NATO.
Só é pena que os propagandistas da aliança não tenham podido dedicar um segundo sequer às origens hitlerianas e terroristas da gloriosa irmandade – certamente por falta de tempo. Que outras razões haveria para esconder uma matriz tão inspiradora?3

O regimento Azov

Dos Estados bálticos para a Ucrânia, dos Irmãos da Floresta dos anos quarenta para o actual e activo regimento Azov, um bastião da «pureza rácica» ucraniana, como estipula o seu fundador, Andriy Biletski, aliás o «Fuhrer Branco». Pretende assim que os genes dos seus compatriotas «não se misturem com os de raças inferiores», cumprindo «a sua missão histórica de comandar a Raça Branca mundial na sua cruzada final pela sobrevivência».
Ao contrário do que possam pensar, isto não é folclore nem delírio sob efeito de qualquer fumo. O grupo nazi designado Batalhão Azov, e outros do género, receberam treino de instrutores norte-americanos e da NATO e foram decisivos no êxito do golpe «democrático» de 2014 na Praça Maidan, em Kiev. Depois disso, foram transformados em regimentos integrados na Guarda Nacional, o novo corpo militar nascido da «revolução» e que se tornou a guarda pretoriana do regime fascista patrocinado pela Aliança Atlântica, os Estados Unidos e a União Europeia4 .
O regimento Azov e outros grupos neonazis, inspirados pela figura de Stepan Bandera, um executor do genocídio hitleriano contra as populações ucranianas, tornaram-se corpos fundamentais na agressão do actual regime contra as populações ucranianas russófonas da região de Donbass.
Os membros do regimento Azov orgulham-se de posar com as bandeiras nazi e da NATO, dando-se assim a conhecer ao mundo.
A gratidão é uma atitude que nunca fica mal. Mesmo aos nazis.
Sob o regime actual em Kiev, a Ucrânia tornou-se, de facto, membro da NATO. Trata-se, como nos Estados bálticos, de combater a terrível «ameaça russa». Para executar tão nobre missão até o nazismo engrossa as hostes da «democracia».

Abdelhakim Belhadj

Embora desempenhando, desde 2015, a tarefa mais recatada e menos mediática de emir do Daesh, ou Estado Islâmico, no Magrebe, Abdelhakim Belhadj não desapareceu como figura de referência das transformações «libertadoras» que galoparam pelo Médio Oriente e Norte de África sob as exaltantes bandeiras das «primaveras árabes».
Abdelhakim Belhadj, para quem não se recorda, foi um dos chefes terroristas islâmicos que contribuíram, em aliança com a NATO, para «libertar a Líbia» do regime de Khaddafi. Houve-se tão bem da missão que a aliança fez dele «governador militar de Tripoli» logo que as hordas fundamentalistas tomaram a capital líbia.
Quando ainda mal aquecera o lugar, a tutela atlantista enviou-o para a Síria formar o «Exército Livre», o grupo terrorista «moderado» no qual os Estados Unidos e os seus principais parceiros da NATO apostaram inicialmente todas as fichas com o objectivo de «libertar Damasco».
Abdelhakim Belhadj recebeu honrarias dos Estados Unidos, outorgadas pelo embaixador na Líbia e pelo falecido senador McCain, então movendo-se febrilmente entre a Líbia, a Síria e a Ucrânia, onde foi um dos principais timoneiros do golpe de Maidan e das suas frentes nazis.
A partir de 2015, segundo a Interpol, Belhadj tornou-se emir do Daesh – o tão proscrito Estado Islâmico – no Magrebe.
Porém, cada vez que algum jornalista a sério mexe em acontecimentos da história recente arrisca-se a encontrar-se com a figura de Belhadj. Foi o que sucedeu com profissionais do jornal espanhol Publico: ao investigarem o envolvimento dos serviços de informações de Madrid (CNI) no atentado terrorista de 11 de Março de 2004, que provocou 200 mortos, depararam com outras situações que dizem muito sobre o tipo de «democracia» em que vivemos.
Segundo o próprio chefe do governo espanhol da época, José María Aznar – invasão do Iraque, lembram-se? –, Abdelhakim Belhadj foi um dos estrategos do atentado, embora nunca tenha sido preso nem julgado.
O curioso é que o atentado começou por ser atribuído à ETA e depois à al-Qaida; e que a maior parte dos operacionais detidos eram informadores dos serviços secretos espanhóis.
Mais curioso ainda é o facto de o tema do exercício europeu CMX 2004 da NATO, que decorreu de 4 a 10 de Março, tenha sido precisamente o da simulação de um atentado com as características do que aconteceu em 11 de Março na capital espanhola. «A semelhança do cenário elaborado pela NATO com os acontecimentos ocorridos em Madrid provoca calafrios na espinha e impressionou os diplomatas, militares e serviços de informações que participaram no exercício apenas algumas horas antes», escreveu o jornal El Mundo, inconformado com a tese que acabou por ficar para a história: atentado cometido por uma rede islamita sem ligações à al-Qaida.
Entre as névoas do caso avultam, porém, algumas circunstâncias que é possível focar: a declaração de Aznar envolvendo Abdelhakim Belhadj, que se revelou vir a ser uma aposta da NATO antes de ter ascendido ao topo do Estado Islâmico no Magrebe; e os dons proféticos desta mesma NATO, concebendo um tema para exercícios que se tornou realidade menos de 24 horas depois.

O santuário nazi de Turim

Há poucos dias, a polícia italiana descobriu um arsenal de armamento num santuário nazi em Turim, Itália.
O que à primeira vista poderia ser mais um armazém de velhas e nostálgicas recordações dos fãs do Fuhrer mudou de figura quando foram desembalados alguns sofisticados mísseis que não costumam estar ao alcance de pequenos e médios traficantes de armas.
Diz a imprensa italiana que os investigadores do caso seguiram pistas que conduziam até aos grupos nazis ucranianos mas não obtiveram dados consistentes. E provavelmente não encontrarão esses e outros elementos: a verdade é que as notícias sobre o assunto quase desapareceram. O caso é um nado-morto.
Já as redes clandestinas formadas pela NATO, do tipo Gládio, não estarão mortas, desafiando todas as propagandas, como recordaram alguns jornalistas italianos.
A história do arsenal está mal contada e, previsivelmente, será arquivada com celeridade; já o apoio da NATO aos grupos nazis ucranianos não suscita dúvidas: os próprios beneficiários o confessam. Porém, não é um auxílio que deva ser feito aos olhos de todos, tratando-se da NATO, uma aliança que existe para «defender a democracia» – a NATO só defende, nunca ataca, como se sabe. A verdade é que desde que passou de batalhão a regimento da Guarda Nacional o grupo terrorista Azov foi equipado com armas pesadas, incluindo tanques, que chegaram de algum lado. Talvez agora seja a hora dos mísseis, quem sabe? Ainda recentemente as forças policiais italianas e o regimento Azov assinaram um acordo de cooperação desbravando novos caminhos.
É provável que todas estas relações dêem os seus frutos; é improvável, porém, que cheguem ao conhecimento dos cidadãos comuns, tal como o desfecho do mistério dos mísseis nazis de Turim.

A grande irmandade

Irmãos da Floresta, regimento Azov, Abdelhakim Belhadj, o Estado Islâmico e o terrorismo «moderado», fornecimento clandestino de armamento sofisticado. Não é necessário escavar muito estas histórias, casos e mistérios para tropeçarmos na associação entre a NATO e os nazi-fascismos, duas correntes que, a acreditar na propaganda oficial, deveriam ser como a água e o azeite.
Afinal não. Trata-se de uma fluida cooperação nos tempos em que se fala no risco de uma nova guerra mundial e que traz raízes consolidadas na altura em que o anterior conflito ainda não tinha acabado.
É, como se percebe, uma grande e frutífera irmandade. Factos são factos.
  • 1.Note-se que os teóricos nazis atribuíam desde os anos 30, na sua propaganda, o estatuto de «raça superior» aos povos estónio e letão, facilitando a formação dos sanguinários esquadrões da morte bálticos integrados nas Waffen SS, tão ou mais temidos pelos povos e etnias que viviam no território soviético ocupado pela Alemanha nazi do que os próprios alemães.
  • 2.No período posterior à derrota hitleriana no Báltico os Irmãos da Floresta mantiveram-se activos até meados da década de 50. Actualmente, os próprios admiradores destes colaboradores nazis no Báltico reciclados reconhecem o carácter terrorista dos seus heróis, como é fácil de confirmar através do volume de baixas soviéticas nos anos de 1944-1958 no Báltico: mais de 25 mil civis foram assassinados e muitos torturados antes de executados, enquanto os polícias que combatiam os Irmãos da Floresta tiveram quatro mil baixas. Outro pormenor menos ventilado é que o maior apoio interno daquelas organizações provinha dos poderosos e ricos latifundiários da região, que tinham um profundo ódio aos camponeses que os tinham expropriado durante os anos da Revolução Russa. Após a deportação para a Sibéria, no final dos anos 40, da maioria dos grandes proprietários de terras no Báltico, a actividade dos Irmãos da Floresta decaiu consideravelmente, apesar de todos os esforços da CIA e dos serviços secretos britânicos para reactivá-los. O golpe final foi dado após a amnistia concedida pelas autoridades soviéticas após a morte de José Estaline, em 1953. O leitor terá de procurar em língua russa (mesmo que em sítios como a insuspeita Rádio Liberdade, financiada pelo governo americano) as fontes documentais sobre este assunto, visto os websites do Ocidente serem consideravelmente parcos a respeito destes dados e optarem habitualmente por uma visão puramente apologética dos Irmãos da Floresta, escondendo a sua verdadeira natureza.
  • 3.Neonazis e veteranos da Waffen-SS voltaram a marchar em Riga em Março de 2019, como denunciou o AbrilAbril em artigo publicado na altura.
  • 4.O regimento Azov [ou «Batalhão Azov», ou muito simplesmente «Azov»] é uma organização paramilitar criada em 2014, durante os protestos da praça Euromaidan e do golpe de Estado que lhe foi subsequente. É enquadrado e remunerado pelo Ministério do Interior da Ucrânia como um dos membros da chamada Guarda Nacional, que confere poderes estatais a este e outros grupos fascistas ucranianos. Originalmente fundado como um grupo paramilitar voluntário, é acusado de ser uma organização neonazi e neofascista, além de estar envolvido em vários casos de abusos de direitos humanos e crimes de guerra leste da Ucrânia, principalmente em casos de torturas, estupros, saques, limpeza étnica e perseguição de minorias como homossexuais, judeus e russos. O Azov tem ligações a grupos nazi-fascistas internacionais, como em Itália ou no Brasil onde recruta combatentes na guerra que move contra as populações do Donbass, no leste da Ucrânia.
Nota - Reproduzimos este artigo de www.abrilabril.pt, saudando José Goulão

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Bom fim de Semana, por Jorge


"La crisi consiste appunto nel fatto che                        
il vecchio muore e il nuovo non può nascere
: in questo interregno si verificano i fenomeni 
morbosi più svariati."


"A crise consiste precisamente no facto de 
o antigo estar a morrer e o novo não conseguir nascer: 
neste interregno verificam-se os mais variados 
fenómenos mórbidos."


Antonio Gramsci 
filósofo comunista italiano, 1891-1937 
em I Quaderni del Carcere Q.3 (1930)