terça-feira, 27 de março de 2018

Facebook, vamos a ver se nos entendemos, por António Abreu



Os meios de informação tradicionais indignam-se com a utilização do Facebook para a reprodução de «notícias falsas». Ora isso é o que esses respeitáveis meios têm vindo a fazer desde há dezenas de anos, com dramáticas consequências, e sem qualquer arrependimento. Quanto ao Facebook, será prudente «não deitar fora o menino com a água do banho».
 
1. As autoridades europeias e inglesas reagiram a notícias do The New York Times e do The Guardian de Londres de que a Cambridge Analytica, mais conhecida por trabalhar na campanha do presidente Donald Trump em 2016, havia obtido indevidamente dados de utilizadores do Facebook e que os reteve depois de afirmar que havia apagado as informações.
A actuação desta empresa de comunicação para fins políticos, originou um pedido de desculpas do CEO do Facebook mas não livrou a rede social – a mais utilizada no mundo inteiro – de ter perdido em bolsa uns 50 ou 60 mil milhões de dólares com esta revelação.
Segundo a revista Time, Chris Wylie, ex-empregado da Cambridge Analytica, disse que a empresa obteve informações de 50 milhões de utilizadores do Facebook, usando-as para criar perfis psicológicos de eleitores que os tornaria alvos de anúncios e conteúdos.
Wylie disse, depois, ao canal britânico Channel 4 que a empresa conseguiu acumular rapidamente um enorme banco de dados com uma aplicação desenvolvido por um investigador universitário que extraiu dados de utilizadores do Facebook que concordaram em participar na investigação, bem como dos seus amigos e contactos, sendo que estes, na sua imensa maioria, o desconheciam.
«Imagine que alguém pergunta "Se eu lhe der um ou dois dólares, pode fazer-me essa investigação recorrendo a esta aplicação?". "Muito bem” – responde o convidado – “Não recolho apenas as suas respostas, recolho todas as informações sobre si a partir do Facebook. Mas esta aplicação investiga também através da sua rede social e captura todos esses dados também”».
Wylie disse que permitiu que a empresa obtivesse mais de 50 milhões de registos no Facebook em vários meses e criticou o Facebook por facilitar o processo. «Não sei porque é que o Facebook não fez mais perguntas quando começaram a ver que dezenas de milhões de registos estavam a ser captados dessa maneira» – disse.
De um dia para o outro, mais precisamente no passado dia 19, um deputado conservador britânico acusou o Facebook de enganar as autoridades, ao minimizar o risco de os dados dos seus utilizadores serem compartilhados sem o seu consentimento. Damian Collins, que preside à comissão para a comunicação social do Parlamento britânico, disse que pediria a Zuckerberg, um dos fundadores do Facebook, ou a outro seu executivo que comparecesse no painel, que está investigando desinformação e «notícias falsas».
 
2. Parece-me claro que, a partir daqui, o que tem estado em curso é mais um episódio de perseguição às redes sociais, não fundamentalmente por permitirem o acesso a terceiros de dados dos seus utilizadores mas, segundo os próprios, contra a desinformação e as «fake news» («notícias falsas»). Para quem tem acompanhado os episódios desta telenovela, sabe que o que está em causa é impedir, também por via das redes sociais, que seriam «devidamente condicionadas», que dêem guarida a informações e reflexões alternativas àquelas que os patrões da comunicação social reservam o crédito de únicas e verdadeiras.
É interessante verificar no Facebook – que é de acesso gratuito e que garante que o continuará a ser – as possibilidades de pessoas e instituições apresentarem as suas próprias versões de temas e acontecimentos que rompem com as versões únicas dos patrões dos media. Não ignorando que fazemos os nossos dados correr os riscos decorrentes da posse privada da rede, cujo proprietário os pode usar para fazer negócios. Dos quais, a cada dia que passa, estamos mais conscientes.
«o que está em causa é impedir [que as] redes sociais, que seriam «devidamente condicionadas», dêem guarida a informações e reflexões alternativas àquelas que os patrões da comunicação social reservam o crédito de únicas e verdadeiras»
Por enquanto, nenhum jornalista verificou o que está a acontecer com o multibanco, forma de pagamentos mais generalizado, mas também aqui as empresas detentoras destes serviços dispõem de dados que utilizam para diferentes fins.
 
3. É interessante verificar a hipocrisia da comunicação social que, ao longo de décadas, – reflectindo os interesses imperialistas – tem vindo a fabricar desinformação e notícias falsas de especial gravidade e agora vem crucificar as redes sociais. Não é preciso remontar ao incêndio pelos nazis do Reichtag e à tentativa de inculpar os comunistas.
Fiquemos, em tempos mais recentes, pelo massacre da Praça Tiananmen em 4 de Junho de 1989, que nunca existiu naquele local. Ou pela invasão do Iraque, iniciada em 20 de Março de 2003 pelos EUA, Reino Unido, Austrália e Polónia – que deixou completamente arrasado um dos países mais ricos do Médio Oriente –, justificada pelos EUA com a necessidade de combater o terrorismo de Bin Laden e pelos britânicos com a necessidade de obrigar o Iraque a desfazer-se de um inexistente arsenal nuclear, químico e biológico.
Ou a exibição de corpos de crianças mortas, pelos «capacetes brancos», para esconder outras realidades da guerra imposta à Síria. Ou as campanhas russofóbicas e sinofóbicas, que parecem ignorar que chineses e russos têm hoje, por vezes, muito mais eficazes capacidades tecnológicas que os EUA ou a UE para lhes responderem em moeda semelhante, se o quisessem. Mas o mundo «ocidental», o FBI, o MI6, e a DGES já ficam suficientemente nervosos quando a moeda de resposta é simplesmente a verdade ou outra abordagem de acontecimentos…
 
 
4. Ao permitir que os utilizadores publiquem os seus próprios conteúdos, o Facebook é um relativo espaço de liberdade para esses utilizadores. Apesar disso há utilizadores que podem, por exemplo, levar à violação de direitos de autor e da propriedade intelectual, ao incitamento a violações, ao ódio e ao terrorismo, a notícias falsas. Para além da transmissão ao vivo de cenas de violência e crimes através da funcionalidade Facebook Live.
O Facebook foi banido por vários governos, incluindo a Síria, a China, e o Irão.
A empresa também tem estado sujeita a vários litígios ao longo dos anos, sendo o caso mais famoso o da acusação de roubo de ideia e de códigos, pelo seu fundador e CEO, a Tyler Winklevoss, Cameron Winklevoss e Divya Narendra. Estes eram estudantes da universidade de Harvard quando, em Dezembro de 2002, tiveram a ideia de criar uma rede social na faculdade, a «HarvardConnection», que posteriormente queriam alargar aos campus universitários do país inteiro.
Em Novembro de 2003 – viriam a alegar mais tarde – estabeleceram com Mark Zuckerberg, então colega de universidade, um contrato verbal para construir a «HarvardConnection» sobre uma base de trabalho já desenvolvida por anteriores programadores, tendo para isso facilitado a Zuckerberg o acesso à programação já efectuada1.
Em Janeiro de 2004 Zuckerberg regista o domínio «thefacebook.com» e em Fevereiro do mesmo ano lança-o precisamente em Harvard e no país. Os irmãos Winklevoss e Narendra alegam que, tendo aceite executar o site e associar-se-lhes, Zuckerberg optou por roubar a ideia e o código para a lançar no Facebook meses antes do início da HarvardConnection. O processo original foi finalmente resolvido em 2009, tendo o Facebook pago aproximadamente 20 milhões de dólares em dinheiro e 1,25 milhões de acções. Um novo processo em 2011 foi julgado improcedente.
Em Portugal tem havido alguns litígios não envolvendo directamente a empresa Facebook, mas sim a utilização de imagens de uns utilizadores por outros sem a concordância prévia dos primeiros.
5. Outra vertente desta questão fica clara quando Brian Acton, um dos fundadores do WhatsApp, desafiou os seus seguidores no Twitter a saírem do Facebook sem mencionar, claro, que essa saída seria em benefício da sua empresa e de outras empresas concorrentes de Zuckerberg, as quais, obviamente, estarão menos preocupadas com a defesa dos dados fornecidos pelos seus utilizadores do que em vencer um concorrente numa guerra comercial.
Isto é, o valor supremo de tanta agitação é atrair utilizadores em prejuízo dos interesses comerciais do «maior país do planeta», criado por Zuckerberg. Fica-nos a convicção de nos estarem a querer transaccionar sem vantagens.
Por ironia, ao acabar de escrever este parágrafo recebo um telefonema da Endesa, com promessas sobre a redução da minha conta de electricidade mas foram de carrinho, apesar de compreender a necessidade do jovem do call-center em ganhar o seu dinheiro…
 6. Há ainda a ter em conta que não é de hoje a utilização de dados pessoais, inicialmente obtidos através de inquéritos de respeitáveis empresas de estudos e publicidade, as quais recorrem ao trabalho de universitários para fazer os cálculos, as sondagens, as projecções, etc. e depois os vendem a outras empresas, para as campanhas publicitárias ou o marketing destas. E nem sempre o fornecimento de dados para os efeitos finais por parte dos inquiridos é do conhecimento destes.
As bases informatizadas dos nossos endereços e telefones são transaccionados ou roubados por empresas umas às outras e ficamos perplexos com a quantidade de lixo que nos aparece nas mensagens e telefonemas recebidos de entidades a quem nunca fornecemos os nossos dados.
A actividade das redes sociais é um prolongamento delas, tal como as televisões o são. Como referiu Francisco Teixeira da Mota no Público de 23 de Março, esta é uma realidade perversa, em que nos prometem muita coisa que acabamos por pagar a um preço que podemos avaliar se tivermos em conta o tempo que nos fazem perder, a catadupa publicitária que condiciona as nossas escolhas. Como todos sabemos o seu papel é passarmos mensagens publicitárias, entre programas televisivos de péssima qualidade altamente manipuladores com uma série ou um filme aqui ou ali para não perderem completamente a credibilidade. No caso das redes sociais há também um modelo de negócio em que pagamos, além disso, uma mais completa alienação de muitos aspectos das nossas vidas que são vendidos a terceiros para fins que desconhecemos.
Os recursos crescentes das empresas de consultadoria, incluindo as que trabalham para o universo político, permite-lhes, com a compra de certas aplicações, piratearem-nos dados pessoais com a cooperação mais ou menos consentida por parte do Facebook e de outras redes sociais, para já não falar nas escutas telefónicas. Grandes empresas e também órgãos de comunicação social mais relevantes compram esses serviços para melhor venderem a publicidade.
Estaremos, face a este admirável mundo novo, «churriscados», como diria uma amiga minha? Não iria tão longe mas apalpados sim, apesar de muitos de nós terem a obrigação de conhecer as consequências da sua intervenção nas redes sociais.
 
7. O modelo do negócio, como referimos, em que as redes sociais estão envolvidas, tem outros pólos além delas. Em primeiro lugar há um cliente (empresa, partidos político, etc.) que quer obter uma intervenção resultante do tratamento de dados, captados algures, de um público-alvo. Estes vão ter com uma consultora, como a Cambridge Analytica. Que por sua vez, acede, com um qualquer tipo de contrato, a dados que uma rede social tem armazenados. Finalmente a consultora contrata um investigador ou um departamento universitário que cria uma aplicação, adequada ao tratamento de dados disponíveis, que satisfaça a exigência dos clientes. A consultora define a estratégia de intervenção pretendida pelo cliente e pode ela própria conduzir essa estratégia com o seu acordo. É disto que o The New York Times e o The Guardian referem a propósito da intervenção da Cambridge Analytica na campanha eleitoral de Trump para as presidenciais que o tornaram Presidente dos EUA. Será que isto põe entre parêntesis a «interferência russa» ou ainda vão descobrir que o board da consultora é pró-russo?
 
 8. «Cometemos erros, há mais para ser feito e temos de o fazer. Temos a responsabilidade de proteger os vossos dados e, se não o conseguimos fazer, não merecemos servir-vos», disse Mark Zuckerberg, na primeira reacção ao escândalo com a Cambridge Analytica. Depois disso, em entrevista à CNN, acrescentou a declaração de «completa disponibilidade» para prestar declarações ao Congresso norte-americano. Depois deste mea culpa parcial de Zuckerberg, as tentativas de «regulação» das redes sociais podem tornar-se apenas em limitações no acesso às redes, em condicionamentos de conteúdos por razões políticas, ideológicas, de costumes e culturais em termos mais abrangentes, na redução da enorme capacidade de comunicação que pôs fim a muitos isolamentos individuais e de pequenas empresas, numa mais estreita relação com governos, etc.
Se é certo que o acesso gratuito às redes configura a situação de «não haver almoços grátis», não é menos certo que «o menino não deve ser deitado fora com a água do banho».
 
 

segunda-feira, 26 de março de 2018

A campanha russofóbica atinge o delírio!, por António Abreu

Donald Trump tomou a medida mais dura já imposta pelo governo americano contra o Kremlin. Os 60 diplomatas, alegados supostos agentes secretos, e suas famílias têm sete dias para deixar o solo norte-americano. A expulsão afecta também 12 funcionários da missão russa nas Nações Unidas, localizada em Nova Iorque, e 48 da embaixada em Washington e outras delegações. O governo dos EUA também pediu a Moscovo que feche o seu consulado em Se...attle no noroeste do país, invocando estar muito próximo de uma fábrica de aviões da Boeing e de uma base de submarinos
.
As sanções foram anunciadas quase simultaneamente em ambos os lados do Atlântico. Até agora, 14 países da UE adoptaram punições diplomáticas semelhantes, que resultaram em pelo menos 33 expulsões. Depois do passo inicial dado pelo Reino Unido, dez estados europeus (incluindo os principais) já tiveram esse comportamento russofóbico, que agora afeta 56 diplomatas (1). A Austrália também anunciou na terça-feira que vai expulsar dois diplomatas russos que considera espiões, segundo a Reuters, e a Macedônia expulsou um diplomata da embaixada russa em Skopje e a Ucrânia dois. O Canadá também vai expulsar diplomatas russos.
 
Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu (2) prometeu "medidas adicionais"...
 
É de registar que estes países acusam a Rússia de ter procedido a um ataque químico contra um espião russo que trabalhou para o MI6 inglês durante anos em Moscovo enquanto exercia funções de responsabilidade nos serviços secretos russos. Preso na Rússia, viria a ser libertado numa operação de troca de espiões, dois anos depois. Foi perdoado pelo governo da Rússia e foi viver para o Reino Unido.
 
O Reino Unido nunca provou a acusação tanto mais inverosímil quanto o “envenenamento” se deu nas vésperas das eleições presidenciais na Rússia e do Campeonato do Mundo de Futebol neste país.
 
A verdade sobre o caso deve remeter-nos para um princípio básico da investigação policial “A quem aproveita o crime?”.
 
(1) França, Alemanha, Itália, Holanda, Dinamarca, República Checa, Roménia e Polónia, Letónia, Lituânia e Estónia
(2) Instituição europeia que reúne os Chefes de Estado e de Governo dos países da UE em cimeiras trimestrais que definem a agenda política global da União Europeia, isto é, as orientações e prioridades políticas gerais da UE. Não tem os poderes legislativos da União, pelo que não negoceia nem adota legislação da EU.

terça-feira, 20 de março de 2018

O que dizem os resultados das eleições de ontem na Rússia e a russofobia do Expresso, por António Abreu

 
A campanha russofóbica instalou-se na nossa comunicação social e no debitar de praticamente todos os comentadores neles creditados.
Então começando pelo número de candidatos. Foram oito. Até agora não falaram das críticas do candidato comunista, Pavel Gradinin, mas tão só do mais queridinho do “ocidente”, Alexei Novalny, que foi impedido judicialmente de se candidatar por crimes cometidos e dados como provados em tribunal.
Nos restantes, a variedade era expressiva, não faltando o direitista extremo, Vladimir Jirinovski, ou uma liberal socialite tipo Paris Hilton, Ksenia Sobchak, e que, aliás, num debate televisivo entre candidatos, o primeiro insultou em termos soezes, com insultos pessoais e sexistas, e afirmando que era uma marioneta de Putin.
Os resultados, quando estavam contadas 99,82% das urnas eleitorais, davam uma vitória a Vladimir Putin com76,66%, acima das sondagens, seguindo-se-lhe também muito acima das sondagens, Pavel Gradinin, do Partido Comunista da Federação Russa, com 11,01% (não confundir com outro candidato que se reclama do comunismo, Maksim Suraikin), Jirinovski com 5,66%, ligeiramente abaixo das sondagens e Ksenia Sobchak com 1,67%. Os restantes quatro candidatos não alcançaram a fasquia dos 1%.
Gradinin criticou a falta de transparência das eleições. Para ele "Está claro que as eleições não são justas".
A ONG Golos, especializada em vigilância eleitoral, disponibilizou um mapa das fraudes no seu site na internet, no qual denunciou mais de 2.700 presumíveis irregularidades como a colocação de mais votos nas urnas, votos múltiplos ou obstáculos ao trabalho dos observadores.
Mas a Presidente da Comissão Eleitoral Central, Ella Panfilova, na sua última conferência de imprensa afirmou que as irregularidades comprovadas foram "relativamente baixas" e acrescentou que a votação foi transparente. E que "Qualquer violação deve ser, antes de mais, comunicada, e então os resultados devem ser cancelados, se houver um motivo para isso. E também é necessário punir os responsáveis em plena conformidade com a lei, incluindo com base no artigo do Código Penal relativo a conspirações organizadas ", e que não houve reclamações graves durante as eleições presidenciais. Face à atitude da porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Heather Nauert, que escreveu na sexta-feira anterior à eleição que a Comissão Eleitoral Central russa teria negado o estatuto de observador a 5.000 jornalistas “independentes”, e que isso seria uma prova de que as autoridades do Kremlin "temiam a transparência", Panfilova reagiu “É uma mentira grosseira e incompetente…que faz cair no ridículo o nível de competência das pessoas que representam o Departamento de Estado",
Com a divulgação destes resultados, o Centro de Imprensa da Comissão Eleitoral Central da Rússia terminou ontem seu trabalho.
Um total de 1.649 jornalistas, entre os quais 449 representantes de órgãos de comunicação social estrangeiros, esteve credenciado no centro de imprensa, onde cientistas políticos, sociólogos e observadores internacionais foram fazendo para eles os seus comentários sobre as eleições.
Agora, a Comissão Eleitoral Central russa tem 10 dias, desde ontem, para divulgar o resultado final das eleições.
O Bureau para as Instituições Democráticas e Direitos Humanos da OSCE preparará, dentro de dois meses (!), um relatório com críticas ao processo eleitoral russo. Para já um observador seu no terreno manifestou preocupações quanto a Alexei Novalny não ter sido aceite como candidato, alguma “falta de transparência e de competição efectiva”, que não concretizou, embora tenha afirmado ainda que "em geral, o dia das eleições esteve bem organizado, apesar de pequenas falhas no princípio do voto secreto e da transparência da contagem".
Um ou outro comentador sublinha o facto de a participação ter sido de 67,4% e não os70% desejados por Putin. Essa participação não foi, de facto, atingida. Mas se compararmos esta situação com a participação em eleições presidenciais na União Europeia e EUA, verificamos que nas últimas em Portugal foi de 48,84%, no Reino Unido (que não tem presidenciais, graças à monarquia), nas legislativas, foi de 68,7%, na França de 75,34 % e nos EUA 52,16%, sendo que nestes três últimos casos as eleições foram muito disputadas entre dois candidatos, enquanto, na Rússia, como era esperado por toda a gente, isso não aconteceu.
Quanto a últimas eleições europeias na UE, a participação média foi de 43,11%. Em Portugal foi de 34,5%, a mais baixa registou-se na Eslováquia com 13% e as mais altas foram de 90%.
Não há ainda notícias sobre a forma como decorreram as eleições presidenciais noutros países com cidadãos russos. A excepção para já foram os EUA onde, segundo o embaixador russo “Tudo correu bem, de forma democrática, de acordo com as leis russas. Eu não posso dizer que foi 100% da forma como queríamos, porque, infelizmente, houve actos de provocação. Havia aquelas pessoas que, acho, não entendem o que é uma eleição presidencial e a importância de não interferir com a condução destas" e que “pessoas que, ao chegar às instalações para votarem, foram ameaçadas e forçadas a abandonar o local".
 
O caso particular da votação na Crimeia
Para os interessados em conhecer os sentimentos populares na Crimeia sobre o regresso desta à Rússia, importará sublinhar que o resultado de Putin foi aqui de 92,14 %. “O povo de Crimeia sempre soube que a decisão tomada em 2014, sobre a adesão à Rússia, era correta, mas ontem, nas eleições, foi colocado um ponto final nesta questão", afirmou o observador alemão Andreas Maurer. Este observador é Professor de Ciência Politica e Integração Europeia da Universidade de Innsbruck.
O ex-ministro do Interior da Ucrânia, Anatoly Mogilev, em entrevista ao canal 112 comentou por que Kiev não tentou impedir a península da Crimeia de se tornar parte da Rússia. Mogilev afirmou que os efetivos ucranianos instalados na Crimeia tinham capacidades para impedir militarmente a alteração do estatuto territorial da península, contudo, as autoridades ucranianas acharam desnecessário fazê-lo. "Na minha opinião, esta decisão não foi tomada por as autoridades da Ucrânia terem achado a Crimeia desnecessária. Mas porque tinham a certeza que em futuras eleições, a Crimeia votaria pela oposição. Por isso, a península foi deixada de lado e esquecida, traindo assim os oficiais ucranianos instalados naquele território”.
Também o ex-deputado ucraniano Andrey Senchenko relatou que, quando a crise ucraniana estava no seu auge, o presidente interino mandou os militares de Kerch, cidade da Crimeia, abrir fogo. Mas os militares recusara-se a cumprir a ordem.
Importa recordar a verdade sobre o eterno pretexto da Crimeia para confrontação ocidental com a Rússia desde 2014.
A península da Crimeia reintegrou-se na Rússia após um referendo realizado em março de 2014. Na votação 96,77% dos eleitores da República da Crimeia e 95,6% dos residentes da cidade de Sebastopol manifestaram-se pela reunificação com a Rússia. Este referendo foi convocado após o golpe de Estado na Ucrânia, que levou os partidos fascistas e saudosos do nazismo ao poder, sem validação eleitoral posterior. Desde esse golpe, as populações de origem russa foram Ucrânia descriminadas, despojadas do ensino da língua e da sua história, tendo-se registado assassinatos, espancamentos, saneamentos brutais da administração de cidadãos de origem russa. Nisso residiu a motivação da consulta popular que também viria a ocorrer nas regiões de Donetsk e Luhanski.
 
O “Expresso”, campeão da russofobia
Limito-me a transcrever este naco de prosa do jornalista Filipe Santos Costa, da secção política, porque os comentários são tão óbvios que não vale a pena consumir bytes com ele.
"Vladimir Putin esmagou a concorrência e foi reeleito com mais de 76% dos votos, numa eleição desenhada à sua medida, como escreve o El País. Confirma-se: Putin é o czar do século XXI. Quando terminar este quarto mandato, em 2024, com 71 anos, Putin terá governado o país por um quarto de século - e só ficará atrás de Estaline em termos de longevidade no poder, nota o Guardian.
A vitória de Putin surge depois de uma campanha marcada por violência, ameaças, intimidação e instrumentalização da comunicação social. O Observador fez um bom retrato desta “máquina perfeita do Kremlin para anular os adversários de Putin”. Se a campanha foi assim, a eleição não foi melhor. As denúncias de fraudes foram muitas.
Na consagração, o senhor todo poderoso da Rússia continuou tão vago sobre os seus propósitos e tão ameaçador como ao longo da campanha. Convocou o país para um "salto radical" e ironizou com a sua perpetuação no poder. "Acha que vou ficar aqui por cem anos?", retorquiu a um jornalista que o questionou sobre planos para se manter para além deste mandato.
O meu camarada de redação Pedro Cordeiro sublinha o contexto em que Putin relegitimou o seu poder: "em nenhum ponto do século XXI as relações da Rússia com o Ocidente foram piores". Vale a pena ler esta análise e recordar a coincidência da retórica violenta de Moscovo com as suspeitas de interferência russa na política doméstica de vários paises ocidentais - e veremos até onde vai a investigação ao conluio entre Trump e os russos.
O conflito entre Londres e Moscovo por causa do ex-espião russo assassinado no Reino Unido parece uma cena de um filme de época. Mas é bem real. Ontem, Boris Johnson, o ministro dos negócios estrangeiros britânico, garantiu ter provas da responsabilidade russa no assassinato do ex-espião Skripal. É mesmo como se tivéssemos voltado aos dias da guerra fria."
Resistiram? Se sim a casa oferece um novo gel desintoxicante. Se não, tem bom remédio também: deixe de ler o pasquim.

sábado, 17 de março de 2018

Bom fim de semana, por Jorge


"Vivere militare est."
"Viver é lutar."

Séneca
escritor e filósofo estóico romano,
4 aC - 65 dC
na 96ª das Cartas a Lucílio.

Os "rebeldes moderados" de Ghouta, por Thierry Meyssan (voltairenet.org)

 
Enquanto as forças da República Síria e da Rússia estão a libertar Ghouta Oriental e uma média de 800 sírios por hora estão a fugir para Damasco, publicamos este estudo sobre os combatentes designados pelos "ocidentais" como "rebeldes moderados". Os meios de comunicação "ocidentais" dizem que a Síria e a Rússia estão a esmagar estes democratas corajosos em Ghouta oriental…
De acordo com os governos inglês e francês, seriam três grupos armados: o Exército do Islão, a Legião Rahman e a Ahrar al-Sham.

 Mas de acordo com a Síria e a Rússia, essas três denominações não designam ideologias separadas. Essas três entidades na verdade não defenderiam uma idéia da Síria, mas os interesses de seus patrocinadores. Reagruparam-se de acordo com a Resolução 2401 do Conselho de Segurança e com os ataques que têm realizado.
Muitos são os números de soldados de cada um desses grupos que têm circulado bem como sobre o número de habitantes de Ghouta Oriental. Na realidade, nenhum desses dados é verificável, chegando a ONUa abandonar essa quantificação. Se os civis presentes no local são verdadeiramente sírios, não se conhece a nacionalidade dos combatentes. É certo que alguns são sírios, frequentemente perseguidos pela Justiça, mas muitos outros são estrangeiros (que, por definição, não podem ser "rebeldes"). Novamente, as estimativas não são verificáveis.

 Há apenas duas coisas que sabemos ao certo sobre esses grupos:
- Primeiro, as armas de um deles, o Exército do Islão, em 2015. Este é obviamente um pouco antigo, mas é verificável graças ao vídeo de um desfile militar organizado por seu líder, em Ghouta, em 2015. Este grupo participa nele com 4 blindados e quase 2 mil homens, ou seja, 10 vezes menos combatentes do que aqueles que afirma ter.
https://www.youtube.com/watch?v=Bi_DBfq18mc
- E, por fim, conhecemos esses grupos através de sua comunicação: logotipos, bandeiras, sites, contas do Twitter, porta-vozes.
 
Exército do Islão (Jeish el Islam)

 Jeïch el-Islam, ou seja, o Exército do Islão, é o único destes grupos a ter uma presença local. Foi criado em setembro de 2013 pela família Allouche, de outro grupo, a Brigada do Islão, um gangue que impõs a sua lei aos comerciantes de Ghouta, não hesitando em executar publicamente aqueles que desafiaram o seu poder.
Foi inicialmente comandado por Zahran Allouche, filho do pregador Abdallah Allouche, um refugiado da Irmandade Muçulmana na Arábia Saudita. De 2009 a 2011, foi preso por pertencer à Irmandade da Irmandade Muçulmana. Foi libertado numa amnistia geral decretada pelo presidente al-Assad a pedido de países terceiros. Durante vários anos, Zahran Allouche aterrorizou os habitantes de Damasco declarando que iria "limpar" a cidade. Anunciava todas as sextas-feiras [1] os ataques ele iria cometer contra a capital. Em 2013, sequestrou famílias Alauitas [2] em Aadra. Recporreu ao uso de escudos humanos e percorreu fez desfilar uma centena de alguns destes em gaiolas, antes de executar esses homens para que se pudesse saber o destino que reservava aos "infiéis". Após a sua morte, um empresário, Sheikh Isaam Buwaydani, sucedeu-lhe segundo o "Abu Hamam".
O primo Mohammed Allouche, tornou-se famoso por reprimir os costumes.Criou o Conselho Judicial Unificado, que impôs a versão saudita da lei da Sharia a todos os residentes em Ghouta. Organizou, nomeadamente, execuções de homossexuais, lançadas do telhado de edifícios. Representa o grupo nas negociações da ONU em Genebra.
A família Allouche está agora confortavelmente instalada em Londres.
Quando foi criado, o Exército do Islão reunia cerca de cinquenta pequenos grupos. Numa declaração amplamente divulgada na Ásia, apresentou-se como o defensor dos muçulmanos e pediu aos muçulmanos de todo o mundo para se juntarem a ela e fazer a jihad (guerra santa) na Síria.Em julho de 2017, o Exército do Islão, após uma mediação egípcio-saudita, concordou em reconhecer Ghouta Oriental como uma "zona de desescalada" sob controlo russo.
Conta do Twitter em inglês:
https://twitter.com/islamarmy_eng3
Site: https://twitter.com/islamarmy_eng3
O canal do YouTube acabou por ser fechado.
 
Faylaq al-Rahman ("A Legião do Todo-Misericordioso")

 Grupo mercenário do Qatar, do qual recebe armamento moderno, especialmente RPG (lançadores de granadas). É praticamente composto por estrangeiros.
 
 













Ahrar el-Cham (Movimento Islâmico dos Homens Livres do Levante)

 Harakat Ahrar al-Sham al-Islamiyya, abreviadamente como Ahrar al-Sham. "Homens livres" não se referem aqui à "liberdade" no sentido ocidental do termo.
Não se libertaram de uma ditadura, mas foram libertados da sua condição humana praticando o Islão salafista. Para que não haja dúvida sobre a interpretação da palavra, aparece um minarete no logotipo do grupo.
Este grupo, muito internacionalizado, foi criado pelos egípcios quando do derrube de Hosni Mubarak pelos Estados Unidos [3]. Irmãos muçulmanos sírios, que foram presos por pertencerem a uma organização terrorista, se juntaram-se a ele depois de indultados em 2011 a pedido de países terceiros. Entre eles, vários ex-colaboradores de Osama Bin Laden no Afeganistão, que passaram para a Iugoslávia. Isso explica sua proximidade com os talibãs, que muitas vezes os citam como um exemplo de fé.
Em todas as suas publicações, define-se como um "movimento islâmico completo, lutando por Allah e defendendo a religião".
O grupo é comandado por Hassan Soufan, conhecido como "Abu al-Bara", que foi preso por dez anos por pertencer à Irmandade Muçulmana.
O ministro dos Negócios Estrangeiros deste grupo, Labib al-Nahhas, viaja para o Ocidente. É um oficial britânico do MI6 (espionagem britânica). Em julho de 2015, patrocinava tribunas livres no Washington Post e no Daily Telegraph.
O grupo é apoiado pelo Qatar e pela Turquia. É considerada uma organização terrorista pelos Emiratos Árabes Unidos.
Site:
ahraralsham.net
Conta no Twitter: https://twitter.com/ahrar_alsham_pt
CanaldoYouTube: https://www.youtube.com/cha…/UCCAgcKXwipFldow9ipQH2oA/vídeos
 
Pontos em comum nestes três grupos

 Não têm entre si diferenças ideológicas. Todos se reclamam do pensamento da Irmãos Muçulmanos [4]. Para eles, a vida diária é dividida entre o que é lícito do ponto de vista do islamismo e o que não é.

 Há, no entanto, diferenças entre os três grupos sobre devem tratar pessoas que não compartilhem os seus pontos de vista. Seja como for, não há ninguém que viva sob o seu domínio sem ser sunita.
Como todos os combatentes da "revolução islâmica", os seus homens geralmente mudam frequentemente de grupo e esses grupos lutam entre si ou se aliam com freqüência. É absurdo tirar daqui conclusões fundamentais. No máximo, podemos ver conflitos territoriais entre seus líderes e oportunidades para seus soldados.
Todos estes grupos e inúmeros outros têm bandeiras e logotipos bem projetados, bem como vídeos de qualidade. Todo este material de comunicação é fabricado pelo Reino Unido. Em 2007, este tinha uma unidade de propaganda de guerra, a Unidade de Informação e Comunicação da Pesquisa (RICU) liderada pelo oficial do MI6 (Serviço Secreto) Jonathan Allen.

O oficial os serviços secretos britânico e encarregado de negócios de Sua Majestade, Jonathan Allen, dando uma conferência de imprensa na ONU na companhia do seu aliado privilegiado, o embaixador de França, François Delattre.

A partir do caso de armas químicas no verão de 2013, a RICU financiou uma empresa externa para auxiliar a comunicação dos combatentes na Síria (e, posteriormente, no Iémen). Inicialmente, foi a companhia Regester Larkin, depois a Innovative Communications & Strategies (InCoStrat). Ambas as empresas são dirigidas pelo oficial do MI6, coronel Paul Tilley.
Jonathan Allen, cuja graduação não conhecemos, tornou-se número dois na representação permanente do Reino Unido nas Nações Unidas. É ele que tem actualmente o encargo de conduzir o Conselho de Segurança contra a Rússia e a Síria.
 
[1] A sexta-feira é o dia da oração para os muçulmanos.
[2] Os Alauitas são sírios que, depois de praticar uma religião antiga, se converteram sucessivamente ao cristianismo, depois ao islamismo xiita. Para eles, apenas os elementos atestados pelos Evangelhos (e não pela Bíblia) e pelo Alcorão podem ser considerados como a Palavra de Deus.
[3] Hosni Mubarak não foi derrotado na rua ("Praça Tahrir"), mas pelos Estados Unidos. Demitiu-se por ordem do enviado especial do presidente Obama, o embaixador Frank G. Wisner (sogro de Nicolas Sarkozy).
[4] A Irmandade Muçulmana é uma sociedade secreta que forneceu quase todos os líderes de grupos terroristas islâmicos em todo o mundo. Leia obrigatoriamente o meu estudo sobre a sua história e o seu papel político internacional ao serviço do Reino Unido em Under Our Eyes: do 11 de setembro a Donald Trump, Demi-Lune, 2017
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Tradução do editor

Finalmente está a acabar o sequestro dos habitantes de Goutha oriental, por António Abreu

 
 
O exército russo informou hoje que mais de 30 mil pessoas deixaram várias cidades em Ghouta Oriental. As televisões de todo o mundo puderam mostrar dessa saída imagens e fazer perguntas aos evacuados. Agora a informação deixou de ter como única fonte o Observatório Sírio dos Direitos Humanos", com sede fantasma em Londres. Basta as televisões quererem...Os canais de TV portugueses apresentaram já algumas situações nos últimos dias, em que as saídas se estão a registar à média... de 3 mil por dia. Não deixando de misturar essa informação com outra referente a mais mortes provocadas nos combates, deixando ficar nebulosas as causas pelas quais o comboio humanitário do Crescente Vermelho sírio (o equivalente à Cruz Vermelha) tinha podido, finalmente iniciar-se
Durante a tarde de hoje as saídas já teriam chegado a cerca de 40 mil.
Os militares russos e sírios que sitiavam estas zonas acompanharam essas saídas, viabilizando o corredor humanitário em conjunto com a desactivação da retenção imposta pelos grupos terroristas.
Quem sai e responde às perguntas dos jornalistas revela a verdade de um sequestro que foi feito pelos grupos terroristas que trocavam fogo com as forças sírias que procuravam libertar deles as cidades.
"Estávamos prestes a morrer', dizem os civis afirmando que esses combatentes os usaram como escudos humanos e barraram a sua fuga.
"Eles dispararam contra nós, eles não queriam que fugíssemos, dispararam contra as rodas do carro para que não pudéssemos fugir...Não havia farinha, nem pão nem água”.
"Eles “ [os combatentes] estavam ali a viver connosco, ao lado de nossas casas e dentro delas. Não iam abrir uma estrada entre as casas para podermos sair. Então o bombardeamento acabou e fizeram de nós escudos humanos. Não fomos autorizados a deslocarmo-nos ".
Os combatentes ocupantes do leste de Ghouta, nos subúrbios de Damasco, bloquearam os civis mesmo depois de os corredores humanitários terem sido acordados no final do mês passado. O cessar-fogo diário, que começou em 27 de fevereiro, tem tido como objetivo permitir que os civis saiam da zona de combate, mas os corredores foram frequentemente alvo dos disparos dos terroristas. Os militares russos observaram repetidamente que os grupos de terroristas usaram como escudos humano aqueles que tentavam fugir do enclave mas a comunicação social "ocidental" silenciavam o crime.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Bom fim de semana, por Jorge

"There should be no boundary to the human endeavor"


"Não parece haver limite para a aventura humana"

Stephen Hawking
cosmologista inglês, n.1942
no episódio 5 do documentário
Before the Big Bang: The No-Boundary Proposal (2017)

Sobre as eleições em Itália no passado domingo, por António Abreu

 
Nas previsões anteriores às eleições italianas várias coisas se confirmaram como o reforço global da direita e da extrema-direita e a quebra da coligação “centro-esquerda” (de facto liberal) com o peso hegemónico do Partido Democrático (PD), partido de governo. Mas outras não se confirmaram como o Força Itália de Silvio Berlusconi, em aliança com a Liga (ex-Liga Norte), e os Fratelli d’Italia e Noi com Italia, poder ser o partido mais votado no bloco da direita. A Liga ultrapassou o FI, em que se vai reduzindo o apoio de eleitores de direita.
O Movimento Cinco Estrelas (M5S) acabou por ser o mais votado.
Só estas três formações políticas, mais o LeU, elegeram deputados e senadores, ficando o M5S com 32,6%, a coligação da direita com 31,4% e o PD com 18,7%. O LeU baixou para 9 deputados e 4 senadores.
O M5S irá liderar o processo de contactos para poder obter apoio maioritário na Câmara eleita.
 
Na coluna da direita CDX é a coligação da direita, M5S o Movimento 5 Estrelas e  CSX a coligação da esquerda, maioritàriamente do PD
 
O PD do ex-primeiro ministro Matteo Renzi, tinha vencido, muito dificilmente, as eleições de 2013. Tem na sua origem a transformação sucessiva do antigo Partido Comunista Italiano (PCI), que, sendo o maior da Europa ocidental, sofreu a deriva eurocomunista e perdeu com os últimos governos de Renzi e Gentiloni qualquer respeito com os interesses dos trabalhadores, que foram fustigados com alterações à legislação laboral e ataques à Saúde, Educação e Segurança Social públicas, de acordo com os padrões neoliberais dos dirigentes da União Europeia.
Destes resultados resulta com grande probabilidade não ser possível atingir-se a maioria necessária para governar, conforme tem sido largamente sustentado.
O cenário político italiano é, desde a queda de Berlusconi em 2011, formado por governos formados por “tecnocratas” não eleitos, ou através de coligações entre forças de centro-esquerda (que se tornou liberal., de facto e de centro-direita.
 
A crise económica pulverizou a prazo o sistema partidário italiano e o centro neoliberal acabou por não produzir a estabilidade nem estagnação, mas desespero social.
 
Disso beneficiou O Movimento 5 Estrelas, fruto da crise e de uma agregação populista, levantando a bandeira do anti partidarismo e atraindo os insatisfeitos a juntarem-se a eles, recorrendo a um discurso “antissistema”. Este movimento vai ter que corresponder às expectativas que criou para contribuir para a mudança do cenário político.
 
O partido de direita e conservador Força Itália (FI), de Berlusconi, fez aliança com a Liga, partido de extrema-direita, xenófobo e separatista. E, tendo este passado ater mais votos que a FI, será ele irá dirigir este bloco, podendo cada uma das forças agirem independentemente com vista às negociações para formar governo.
Por fim, a recém-lançada lista “Poder Para o Povo", composta pelo Partido da Refundação Comunista e pelo novo PCI, pretendeu- se consolidar como um “sujeito unitário da esquerda anti neoliberal”, tendo sido chamada de "a única novidade real na cena eleitoral italiana”. Para esta coligação de comunistas, "O voto para o Poder para as pessoas é um voto contra uma política ao serviço dos mais ricos e mais poderosos. É um voto para uma esquerda nova e radical que se oporá ao governo de "acordos amplos". A esquerda sem ifs e buts. Vamos trazer ao parlamento activistas que aprenderam nas ruas e nas lutas sociais e ambientais em oposição. É um voto para a implementação da Constituição e a abolição de todas as pseudo-reformas que tornaram este país mais pobre e mais injusto ".
Mas os seus 1,1 % são dececionantes. Passarão muitos anos até os comunistas italianos poderem ser o motor de uma alternativa.
 
O Partido Democrático, sob a liderança de Matteo Renzi, passou de um partido de centro-esquerda para o liberalismo. Ao longo da última legislatura, impôs uma "Lei do Emprego" flexível, reformas e medidas de educação neoliberal que obrigam os italianos em idade escolar a trabalhar em estágios não remunerados. Desde a sua tentativa fracassada de reescrever a constituição italiana (um assunto sensível, diga-se de passagem, já que a identidade republicana está intimamente ligado à queda do fascismo). Depois da demissão de Renzi das suas funções dirigentes, o PD enfrenta, além do Força Itália, seu inimigo histórico, uma oposição mais forte dos que constituem efectivamente a esquerda. Duas derrotas sucessivas no referendo e agora afectaram muito a popularidade do PD, acabaram com as pretensões de ocupar o centro político (seja lá o que isso for).
O jornal “O Vermelho” citando uma entrevista recente dada à apresentadora Barbara D’Urso em rede aberta, refere que Renzi defendeu a ideia fortemente neoliberal do papel primordial das empresas na educação dos jovens que, no cenário económico colocado pelo seu governo, representam boa parte da população desempregada e desiludida com a política. Em pesquisa feita pelo New York Times e divulgada pelo Estado de São Paulo, mais de 32% dos italianos com menos de 25 anos continuam desempregados. Esses mesmos jovens, conta a reportagem, deparam-se com elites que mantêm casas de praia e artigos de luxo, enquanto eles se mantêm na estagnação. Renzi provocou a desilusão e revolta nos italianos quando afirmou que os jovens estão desempregados enquanto grandes empresas italianas investem cada vez mais em tecnologia para poupar mão-de-obra e prevenir “gastos” com trabalhadores. As mesmas que ele diz serem imprescindíveis para a educação tecnológica e a inserção de jovens no mercado de trabalho. E não promovendo nada para compensar estes jovens com perspectivas de novos postos de trabalho.
É óbvio que o M5E  beneficiou do colapso deste “centro- esquerda” e da crise económica para se estabelecer como “voz dos excluídos”, em rebelião contra a “casta” representada pela corrente principal e pelo centro-direita. Tanto que o sucesso do “movimento”, continua “O Vermelho”, se deve pouco às propostas de políticas específicas, mas mais à promessa de revisão política e de uma suposta “novidade”. Tenta captar e expressar, por fim, o descontentamento de uma Itália abatida pelo desemprego.
 
Foi neste quadro que com imagem de “cavalheiro”, Berlusconi encontrou novo fôlego para se lançar numa nova candidatura, depois de algumas denúncias por evasão fiscal. Tocando nos pequenos problemas rotineiros que incomodam os italianos e que provariam, de forma supérflua, uma má gestão (como ruas esburacadas, por exemplo), Berlusconi comparou num programa televisivo que voltou para a política após o escândalo Mani Pulite (“Mãos limpas”), o maior esquema de corrupção política investigado na Itália. “Após o Mani Pulite, se não fosse por mim, os comunistas teriam tomado o poder” declarou, com orgulho, intitulando-se o herói anticomunista que salvou a Itália de um “grande perigo”. A sua retórica, claro, é fortemente conservadora; a crítica que fez aos candidatos do M5E baseia-se na meritocracia, acusando-os de “nunca terem trabalhado na sua vida”, enquanto se gaba de ser “um trabalhador antes de político”.
Apesar da xenofobia ter tomado o centro do debate eleitoral, o Manifesto, jornal comunista italiano, aponta outra grande promessa vendida pela direita: a estabilidade. “A poucos passos da chegada, com o pânico da instabilidade e da impossibilidade de governar que se aproxima cada dia mais, a única e verdadeira arma secreta da direita é essa: “ou nós, ou o “caos”
O mapa eleitoral italiano, aqui retirado do La Reppublica, modificou-se significativamente.
Mapa eleitoral
 
 
No mapa, o LeU, é o partido “Livres e Iguais”, liderado por Pietro Grasso, antigo juiz anti Máfia e atual presidente do Senado, eleito de novo para o Senado. Massimo D’Alema foi um dos senadores perdidos pelo LeU. D’Alema foi o responsável das relações internacionais do antigo PCI.
Entretanto Grasso já anunciou que admite discutir com o PD e o M5S mas não com os partidos à direita destes.
No mapa, de colégios eleitorais, relativamente às eleições de 2013 a mancha azul da direita e extrema-direita alargou-se para sul, a mancha vermelha do PDS reduziu-se muito e muito se alargou também a mancha amarela do Movimento 5 Estrelas

sábado, 3 de março de 2018

Bom fim de semama, por Jorge





"Jeder Mensch ein nstler"


"Cada pessoa, um artista"

 
 
 
Joseph Beuys
artista plástico alemão, 1921-1986 
título da performance na Tate Modern em 1975

sexta-feira, 2 de março de 2018

“Ninguém quis falar connosco. Ninguém nos quis ouvir. Pois ouçam-nos agora”, por António Abreu

Face aos perigos aumentados de guerra, a Rússia dirigiu-se aos EUA e UE “Ninguém quis falar connosco. Ninguém nos quis ouvir. Pois ouçam-nos agora”.
A exibição Por Putin da força militar russa ontem não foi um acto de provocação ou de intenções de desencadear de uma agressão. Quem conhece a Rússia e o seu povo sabe que os dirigentes russos, com grande apoio popular interno, procuram uma intervenção global baseada na cooperação, na não ingerência e na paz, mesmo quando a Rússia é vítima de um bloqueio feroz.
 
 
E não se encontrem nos casos Crimeia e da Síria argumentos ad contrario. A integração da Crimeia de novo na Rússia ocorre por vontade da sua população, quando a população de origem russa da Ucrânia, depois do golpe fascista saído dos movimentos da Praça Maidan, começou a ser perseguida, marginalizada e vítima de atentados, estando uma importante esquadra russa há décadas situada na península da Crimeia no Porto de Sebastopol. A intervenção na Síria resulta de um pedido do governo eleito deste país, face a uma guerra de agressão que dura há quase 7 anos, realizada por grupos terroristas, sob a orientação dos EUA, países da UE e Israel, e que conta já com a ocupação de algumas zonas pelos EUA e Turquia.
A diabolização da Rússia ultrapassa por vezes o que os EUA fizeram contra a então URSS durante a guerra fria.
Esta afirmação de força não vem, pois, na esteira de uma pretensa atitude belicista da Rússia. Bem pelo contrário. Acumulam-se os sinais de que os EUA, a UE, com o apoio da Arábia Saudita e emiratos, de Israel e, mesmo, da Turquia em fazer soar bem alto os tambores da guerra. Na Síria, com um olho para o Líbano, no Iraque, com um olho para as repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central, no Afeganistão, com um olho para a China, em África no Sahel com a intervenção militar dos G5, dirigida pelos EUA, e uma nova intervenção no Norte de África, no Brasil, caminhando de novo para um regime militar de direita, na elevação do tom com a China, etc.
Nos dias que vão correndo há que estar atento a estes sinais.
A intervenção ontem de Putin ocorre neste quadro e começou por chamar a atenção para que o complexo militar e de segurança dos EUA criou estruturas em todos os estados, que a campanha russofóbica contamina a opinião pública americana.
Putin revelou uma superioridade nuclear em relação aos EUA, que a encara como factor de defesa e não de agressão, defendendo uma interacção construtiva e normal com os EUA e a UE.
Afirmou que a propaganda e a tentativa de cercar a Rússia e de a conter tinham falhado. Alertou os europeus para a estratégia norte-americana e criticou a intervenção idiota do MNE inglês contra o seu país.
E rematou “Ninguém quis falar connosco. Ninguém nos quis ouvir. Pois ouçam-nos agora”.