sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"When small men begin to cast big shadows, it means the sun is about to set."
"Quando homens baixos começam a lançar grandes sombras é sinal que o sol se vai pôr."
Lin Yutang (escritor chinês de expressão inglesa, 1895-1976)


"João Abel Manta, o Rigor da Ironia", por Manuel Augusto Araújo, publicado no seu blogue Praça do Bocage



JAMANTA1


João Abel Manta adquiriu um enorme reconhecimento público com os cartoons que publicou no pós-25 de Abril no Diário de Lisboa, onde, com grande ironia e bem fundada esperança na Revolução de Abril, registava, com uma pontaria que nunca falhava o alvo, os sucessos em que ela se enredava. Paradoxalmente, o que o tornou mais conhecido ocultou as várias disciplinas das artes, incluindo as artes gráficas, em que já tinha realizado um notável trabalho que o colocava e coloca entre os maiores artistas portugueses de sempre.

Na obra gráfica de João Abel Manta o grande destaque é o dos cartoons, anglicismo que propositadamente utiliza para acentuar o carácter de intervenção desse seu trabalho. Essa sua urgência de intervir, política e culturalmente, inicia-se nos anos 40 na revista da Arquitectura até à colaboração, relativamente recente, com o JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias. Fá-lo com uma imaginação transbordante, uma fina e sofisticada ironia impermeável ao demagógico e ao fácil e uma quase insuperável qualidade oficinal em que apoia esse empenho no detalhe, no pormenor que nunca se distrai de uma aguda visão global.

Presente aqui, como na sua pintura e na sua arquitectura, João Abel Manta tem um grau de exigência, de rigor, que é um valor acrescentado à sua criatividade, originalidade, saber, inteligência e erudição, à sua dignidade sem transigências com um mundo medíocre de que faz uma crítica aguda onde traça as geografias desse universo conceptual, do provincianismo e o anacronismo universal dessa mentalidade.

Isso está em toda a sua obra e está bem presente nos cartoons. Os mais conhecidos, como se referiu, são os cartoons que em 1974 e 1975 acompanharam o que se viveu em Portugal durante esses dois anos de todas as esperanças. Com o 25 de Novembro, o cartoonista João Abel Manta que tinha durante dezenas de anos enfrentado processos, lutado contra o impiedoso lápis azul da censura sem um desfalecimento, com uma coragem exemplar, desaparece do convívio público quase diário com que, entusiasticamente, cartografava a Revolução de Abril.
Eram comentários urgentes, acutilantes, em cima do acontecimento. O que era e continua a ser espantoso é nunca perderem o norte, acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu. A história de Portugal entre 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os cartoons de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do País está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Qualidade sem flutuações
A sua obra gráfica é muitíssimo mais extensa que essescartoons e é isso que se pode ver, embora que limitadamente, na exposição da Galeria Valbom no que possibilita a percepção do imenso trabalho, da diversidade desenvolvida pelo artista em mais de cinquenta anos com uma qualidade que nunca sofre flutuações.

João Abel Manta é o que aí se mostra e é muitíssimo mais que isso. Sem referir o seu trabalho de arquitectura, a sua formação académica, há que referir a sua pintura que é a afirmação da defesa da arte contra a banalidade, evidenciando um conhecimento, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

O novo, na pintura de João Abel Manta, nunca foi o desejo superficial de inovar, mas a ferramenta que usa como meio imprescindível para exprimir a sua visão própria. Decorre de uma necessidade do processo criativo. Não lhe é exterior, o que liberta a sua pintura do uso mecânico, burocrático, das linguagens pictóricas em uso ou desuso. Não tem a pretensão de explicar o mundo mas penetra na sua opacidade, descasca a sua insuportável estranheza. Humaniza-o e revela-o.

Num ano em que João Abel Manta comemora os seus 90 anos e em que a história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas mais diversas contradanças, o tem deliberadamente esquecido, é tempo para se realizar uma retrospectiva de toda a sua vasta e poliédrica obra.


domingo, 21 de outubro de 2018

O assassinato do jornalista saudita do Washington Post vai alterar em alguma coisa as relações dos EUA com a Arábia Saudita?

Apesar do grande suspense sobre o futuro das relações entre os EUA e a Arábia Saudita não se esperam grandes alterações nelas. Os dois países estão há muito ligado entre si por se completarem estrategicamente na cena mundial. A questão agora é, face ao repúdio universal do crime cujos contorno vão sendo conhecidos, os EUA acordarem com a Arábia Saudita uma interpretação do ocorrido que deixe de fora as responsabilidades do reino de Saud.
Em 2 de outubro, Khashoggi foi ao consulado saudita para obter os documentos necessários para que ele se pudesse se casar com a noiva turco; não foi visto desde então. As autoridades turcas acusaram Riad de matar Khashoggi, um fervoroso crítico do príncipe herdeiro saudita, o que este último negou veementemente. No entanto, à medida que surgem mais provas, parece difícil para Riade negar qualquer envolvimento.


Mas, apesar das duras advertências e ameaças trocadas entre Washington e Riade, é improvável que esse incidente cause grandes desajustes nas suas relações, embora certamente isso tenha um impacto no seu relacionamento no curto prazo. Como a base para a aliança estratégica entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita continua sólida e mutuamente benéfica, a sua relação bilateral interdependente permanecerá fundamentalmente inalterada. Mike Pompeo partiu para Riade na passada terça-feira para dar os retoques no cenário do crime perpretado pelos seus amigos e torná-lo credível para os amigos da NATO e da EU.

 Em concreto, a importância da Arábia Saudita para os EUA é a seguinte.
Em primeiro lugar, a Arábia Saudita desempenha um papel fundamental no mercado energético mundial por meio de sua cooperação com os EUA. Enquanto a administração Trump pretende cortar as exportações de petróleo do Irão, espera que a Arábia Saudita vá compensar a escassez, e, assim, a sua parceria se tornou ainda mais importante.
Em segundo lugar, a Arábia Saudita continua a ser um importante aliado dos EUA na sua luta contra concorrentes e rivais, incluindo o Irão. Em particular, os EUA podem manter a sua cooperação militar e de segurança com outros pequenos países árabes na região do Golfo, em virtude da influência da Arábia Saudita.
Em terceiro lugar, sem que a opinião pública saudita estivesse a seu favor e sem o apoio financeiro da Arábia Saudita, os Estados Unidos dificilmente poderiam apresentar-se como intervenientes em processos de paz no Médio Oriente.
Em quarto lugar, como um importante parceiro comercial dos EUA e comprador de armas, bem como um dos seus principais países credores e principais parceiros financeiros, a Arábia Saudita desempenha um papel essencial para ajudar a manter o emprego e a estabilidade económica nos EUA.
Em Quinto lugar, a Arábia Saudita ajuda a promover o intercâmbio entre os EUA e o mundo islâmico em geral.


 Mas os EUA também são essenciais para a Arábia Saudita.



Primeiro, os EUA fornecem um forte impulso para a modernização da Arábia Saudita e da sua indústria de petróleo.
Segundo, os EUA continuarão a ajudar a Arábia Saudita a manter a estabilidade económica e o desenvolvimento.
Terceiro, como uma protegida dos EUA, a Arábia Saudita pode resistir melhor à pressão do Ocidente e evitar uma "revolução de cores" que os EUA foram tão pressurosos a instigar noutros países árabes.
Quarto, os EUA é o melhor mercado de investimento para o enorme fundo soberano da Arábia Saudita.
Quinto, os EUA podem ajudar o reino do petróleo a melhorar os seus direitos de discurso e poder normativo internacionais. Por meio de sua aliança com os EUA, a Arábia Saudita pode manter um status internacional que supera a sua força nacional geral para verificar e equilibrar suas relações com outras grandes potências.

Olhando para trás, para o relacionamento EUA-Arábia Saudita nos últimos 70 anos, até mesmo grandes eventos, incluindo os ataques terroristas de 11 de setembro nos EUA em 2001, não abalaram as bases para a cooperação. O assassinato do jornalista só irá adicionar um pouco de atrito temporário ao relacionamento. Apesar disso, a Casa Branca está sob forte pressão para pressionar Riade e o Partido Democrata dos EUA certamente aproveitará a oportunidade para atacar o governo Trump por ignorar o "mau" histórico de direitos humanos de um país, especialmente quando a eleição de meio de mandato está próxima (esquecendo o forte aliado que, apesar disso, Barack Obama foi para si .
 
No entanto, o incidente não exercerá muita influência nas eleições intercalares, em comparação com o desempenho económico dos EUA e com o crescimento do emprego.
O incidente terá um impacto negativo na relação entre a Arábia Saudita e a Turquia, até certo ponto. Os dois países têm estado em desacordo muito antes disso, como resultado de divergências sobre a Irmandade Muçulmana, Catar e Síria. Mas mesmo assim, a Turquia e a Arábia Saudita criaram um grupo de investigação para analisar conjuntamente o caso.
Independentemente do boicote da conferência Future Investment Initiative em Riade, também chamada de "Davos in the Desert", o incidente também não deverá ter grande impacto na economia da Arábia Saudita ou no preço do petróleo enquanto a relação EUA-Arábia Saudita continuar geralmente estável.
 

sábado, 13 de outubro de 2018

Aznavour deixa-nos nos 40 anos da morte de Brel

A morte de Charles Aznavour nos 40 anos da morte de Brel, lembram-nos grandes perdas, que permanecerão vivas - espero eu - por futuras gerações
Dois estilos e poesias bem diferentes. Duas vozes inconfundíveis. Que sensibilidade para a poesia e a música teríamos nós sem alguns intérpretes e autores portugueses mas também franceses, norte-americanos, ingleses e galegos, que fizeram esta viagem connosco?
Referir aqui "Dans le Port d'Amsterdan" resulta de ser a sua canção mais popular, como outras, brejeira, aqui muito voltada para a a frugalidade, os sonhos e a bebedeira dos marinheiros e a infidelidade feminina que os procura no final do repasto.



Dans le port d'Amsterdan


Dans le port d'Amsterdan
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam

Dans le port d'Amsterdam

Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes


Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant


Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière



Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"Think of how stupid the average person is, and realize half of them are stupider than that."

"Pensemos na estupidez média das pessoas e notemos que metade delas é mais estúpida ainda."


George Carlin (humorista americano, 1937-2008)

(pensamos nos brasileiros...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Adeus Aznavour, as tuas canções ficam






 
"La bohème"
 
Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
On est heureux
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux
Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie
 
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
On a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
On a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps
 
Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
À mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts


La bohème, la bohème

On était jeunes


On était fous
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout