sexta-feira, 19 de abril de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"The brain is wider than the sky"                      


"O cérebro é mais vasto do que o céu"

Emily Dickinson (poetisa americana, 1830-1886) 

lema da excelente exposição da Gulbenkian, 
a ver até 10 junho

Um debate com quase um século e as mentirolas recentes de Alan Greenspan, por António Abreu


Entre 1920 e 1950, ocorreu um debate que definiu o futuro da economia capitalista na segunda metade do século XX.
De um lado estavam John Maynard Keynes e Frank Knight. Do outro, Frank Ramsey e Jimmie Savage.
Knight e Keynes acreditavam na omnipresença da "incerteza radical". Não só não sabíamos o que iria acontecer, mas tínhamos uma capacidade muito limitada de descrever as coisas que poderiam acontecer. Eles distinguiram o risco, que poderia ser descrito com o auxílio de probabilidades, da incerteza real que não poderia. No mundo de Knight, tais incertezas deram origem às oportunidades de lucro que eram a dinâmica de uma economia capitalista. Keynes viu essas incertezas como a raiz da inevitável instabilidade nestas economias.
Os seus oponentes insistiram, contrariamente, que todas as incertezas poderiam ser descritas em termos probabilísticos. E estes seus oponentes venceram, até porque o seu mundo probabilístico era conveniente: poderia ser descrito axiomaticamente e matematicamente. É difícil exagerar a consequência prática do resultado desse argumento técnico. Reconhecer o papel da incerteza radical é derrubar as fundações da teoria das finanças e da macroeconomia modernas. Mas o consenso reinante está envolvido em fraquezas gritantes.
Segundo o analista de economia John Kay, estes anos revelaram que Keynes e Knight estavam certos e que os seus oponentes estavam errados. E o reconhecimento disso é uma questão prévia necessária à reconstrução de uma teoria económica mais relevante.

Dentro desta linha de pensamento dominante, e já depois dos colapsos a que conduziu a globalização capitalista, o mundo teve que passar pela crise da bolha imobiliária. O ex-presidente do Fed (1), Alan Greenspan, foi identificado como o principal culpado na criação de condições para a crise financeira, em particular por se opor a uma maior regulamentação e promover uma bolha imobiliária. Hoje, Greenspan já está no Capitólio. E desta vez fala em termos que todos nós podemos entender: admite alguma responsabilidade, mas furta-se à culpa final.
Em afirmações recentes, declarou que estava "em estado choque de descrença" com a crise financeira, um "tsunami de crédito que ocorre em cada século". O deputado Henry Waxman, perguntando a Greenspan se ele tinha cometido um erro e se sua ideologia tinha falhado com ele. Greenspan admitiu que "cometeu um erro" ao acreditar que as empresas financeiras poderiam administrar seus riscos, sendo "mais capazes de proteger os seus próprios acionistas". Em particular, disse estar errado sobre o perigo representado pelos contratos swap de crédito (2).
O colapso “chocou-me", disse. "Eu ainda não entendo completamente por que isto aconteceu. E, obviamente, onde isso aconteceu e por que devo mudar os meus pontos de vista. Se os fatos mudarem, então mudo."
Como se vê o mea culpa de Greenspan e é muito limitado. Ainda por cima por não aceitar a ideia de que suas políticas ajudaram a promover uma bolha. E quando pressionado sobre seus comentários públicos exaltando a atratividade das hipotecas de taxa ajustável, ele disse que nunca disse que tais empréstimos não eram arriscados ou preferíveis a empréstimos com taxas fixas...
Mais tarde, Greenspan disse que ficou claro para ele que os Estados Unidos estavam com uma bolha imobiliária no início de 2006 e que não previam um declínio significativo nos preços dos imóveis porque "nós nunca tivemos esse problema". O que é certo é que os economistas vinham alertando sobre a bolha imobiliária há vários anos, e a bolha em alguns relatos estalou em 2006. Como pode um presidente da Reserva Federal mentir tanto e enjeitar tanto a incapacidade (?) de tomar medidas atempadas?…
A explosão dos empréstimos subprime, especialmente o tratamento febril na securitização desses empréstimos, foi a raiz do problema, argumentou Greenspan, mas disse que isso não era óbvio para os reguladores da Reserva Federal. " Como pessoas não fomos suficientemente espertos e não conseguimos prever os acontecimentos com muita antecedência. E é muito difícil dizer retrospetivamente por que o não conseguimos."
É importante não "esperar infalibilidade" dos funcionários do governo, disse Greenspan, ele próprio um ex-funcionário do governo…
E é a tais políticos norte-americanos que nomeiam tais presidentes da Fed que o mundo deve continuar exposto?

(1)  O Sistema de Reserva Federal (em inglês, Federal Reserve System, também conhecido como Federal Reserve ou simplesmente como The Fed) é o sistema de bancos centrais dos Estados Unidos.
(2) Os contratos swap são contratos de cobertura de risco no financiamento que fixam uma taxa de juro a pagar por um empréstimo, ficando uma das partes obrigada a pagar a diferença entre a taxa fixa e a variável, implicando assim perdas para uma das partes.

sábado, 13 de abril de 2019

Bom fim de semana por Jorge



"A formiga, com raiva da barata, votou no inseticida. 
Todos morreram, inclusive o grilo que se absteve do voto." 

Frase de campanha de Fernando Haddad, 
candidadto do PT nas últimas eleições brasileiras

A prisão de Assange e Manning: um golpe para a liberdade de informar e ser informado, por António Abreu


Julian Assange é acusado pela justiça norte-americana de ter conspirado com Chelsea Manning para a ajudar a descobrir uma password que lhe daria acesso a um computador do governo dos EUA em março de 2010.
Segundo o Departamento de Justiça de EUA, Assange ajudou Manning, uma militar norte-americana, antiga analista dos serviços de informação, a descobrir a password que permitia que ela acedesse aos computadores do Pentágono. Chelsea Manning foi condenada nos EUA por espionagem, num tribunal militar, depois de ter entregue milhares de documentos secretos à WikiLeaks, a uma pena de prisão de 35 anos, que viria a ser reduzida pelo presidente Barack Obama em 2010.


Apesar de ter sido acusada, não lhe foi permitido falar com um juiz e, ficou presa, sem qualquer possibilidade de exercer o seu direito de requerer o habeas corpus.
As condições de detenção de Manning na base militar de Quantico (no estado de Virgínia) foram consideradas desumanas e ilegais, tendo sido equiparadas a tortura, pela Amnistia Internacional. Um Relatório publicado pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, emitido após investigação, reafirmou que as condições de detenção eram cruéis e desumanas. Manning foi submetida a privação de sono, nudez forçada e diversas formas de tortura psicológica.

Se um político da oposição russa fosse arrastado por policias armados e em três horas fosse condenado com uma longa sentença de prisão, todos nós sabíamos a reação que teriam os órgãos de comunicação social ocidentais a esse tipo de crime invocado pelo juiz. No entanto, isso foi o que exatamente aconteceu em Londres com Julian Assange…
A tentativa dos EUA de processarem o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, é um ataque rancoroso às liberdades civis. É uma perseguição a um homem, que envergonhou os EUA ao expor publicamente a brutalidade de Washington no Médio Oriente. Os EUA são a maior superpotência do mundo que luta para manter esse seu domínio. No campo da informação, no domínio tecnológico, no domínio cultural. E o WikiLeaks foi um escolho a tudo isso.
O juiz Michael Snow considerou Assange culpado por não se ter apresentado em tribunal em 2012, quando procurou asilo político na embaixada do Equador.
O juiz distrital Michael Snow mostrou o preconceito mais claro e aberto contra Assange nos 15 minutos que levou para o ouvir no caso e declarar Assange culpado. Julian Assange não disse nada durante todo o processo, a não ser para se declarar “inocente” duas vezes. No entanto, o juiz Michael Snow condenou Assange como "narcisista que não consegue superar o seu próprio interesse egoísta".
Não houve nada que tenha acontecido na breve audiência de Snow que pudesse ter dado origem a essa opinião nem isso era matéria de natureza criminosa. Era claramente algo que o juiz tinha levado consigo para o tribunal, lido ou ouvido na mídia tradicional. Trata-se de preconceito. O "juiz" Michael Snow e o seu julgamento sumário são uma vergonha total.
Um dos advogados de Assange, no início do dia, Jen Robinson disse que “foi preso não apenas por quebra de condições de fiança, mas também em relação a um pedido de extradição dos EUA”. Esta perseguição deveu-se a uma mudança política ocorrida no Equador, na sequência das últimas eleições presidenciais e porque o novo presidente do Equador foi ele próprio alvo de suspeitas de corrupção pelo WikiLeaks
Por seu lado, outro dos seus advogados, Geoffrey Robertson, disse que ele pode enfrentar uma pena pesada de prisão se for extraditado para os EUA. "A América está decidida a colocá-lo na prisão por muito tempo para impedir aqueles que publicam material sobre o comportamento de suas forças armadas”, disse ele à BBC News. As acusações de Assange levariam até 45 anos de prisão, na prática a pena de morte sua atendendo à sua idade e problemas de saúde".
Logo o Departamento de Justiça dos EUA, para facilitar a extradição de Assange do Reino Unido para os EUA, veio a declarar que Assange poderia enfrentar uma pena máxima de 5 anos de prisão.

Apoiar a perseguição de Assange nestas circunstâncias é apoiar a censura absoluta do estado da Internet.
É apoiar a alegação de que qualquer jornalista que receba e publique material oficial que indique irregularidades do governo dos EUA, possa ser punido por sua publicação.
É o perigo que a prisão representa para os jornalistas em todo o mundo e a possibilidade da sua extradição para os EUA.
Além disso, essa reivindicação dos EUA terá um efeito tremendo para a jurisdição à escala universal. Assange não estava sequer perto dos EUA quando publicou os documentos, mas mesmo assim os tribunais dos EUA estão dispostos a reivindicar jurisdição. Esta é uma ameaça à liberdade de imprensa e na internet em todos os lugares.
Apesar do susto que tudo isto provoca nos dias de hoje, esses poderão também ser momentos inspiradores para não deixar passar estes perigos

A história da perseguição a Assange e do que o WikiLeaks revelou pode encontrar-se em muitas publicações e sites como este em