domingo, 5 de julho de 2015

Consequências dos acontecimentos na Grécia

Naturalmente que o resultado do referendo de hoje na Grécia terá consequências diversas se ganhar o não ou ganhar o sim.
Mas, independente do resultado, algumas consequências vai ter na consciência dos gregos e outros povos. Passemo-las em revista:

·         Ficou claro que a troika interveio de forma abusiva, de grande agressividade, contra o governo legítimo de um país e sobre um referendo interno que só aos próprios diria respeito, tomando partido por uma das opções, espalhando o medo e alguma corrida aos bancos.

·         E que esta atitude foi tomada por políticos não eleitos pelos povos e que mandam nessas instituições. Só apoiados pelos dirigentes da Alemanha e de Portugal. Passos Coelho numa atitude de decúbito, genuflexão e lambebotismo que nos envergonha.

·         Tendo espalhado este que “já demos muito dinheiro à Grécia e que não está certo continuarmos a dar”, mentiu. Uma vez mais. Porque ninguém dá dinheiro a ninguém. Empresta e obtém juros, mais ou menos agiotas mas sempre usando a dívida para condicionar a liberdade de quem o pediu.

 
·         Também se não tem visto destes “dirigentes” preocupações com os regimes fascistas da Hungria e da Croácia da UE, ou com os fascistas que, por golpe de estado, tomaram o poder em Kiev. Neste caso, bem pelo contrário, a tentativa de lhes abrir os caminhos para a UE e a NATO foram franqueados, com provocações e um bloqueio contra a Rússia. Passos Coelho já falou ao país para dizer as consequências que este bloqueio teve para vários sectores exportadores portugueses, que ficaram sem encomendas com as respectivas consequências económicas e sociais para o nosso país? Já teve uma palavra para com Angola, também vítima da outra “retaliação” da queda dos preços do petróleo e das consequências que isso teve no despedimento de trabalhadores e encerramento de empresas portuguesas naquele país?

·         A reacção da troika será a mesma quando e se a Inglaterra fizer um referendo sobre a UE?

·         A troika fingiu negociar. Para ela negociar era exigir mais austeridade, menos segurança social e saúde, era essa a imposição. A dívida grega impagável (tal como aliás a nossa), as alterações das modalidades do seu pagamento e dos seus montantes não foram objecto de proposta dos “credores”. Quis-se a reforma (redução de condições de vida e direitos mas não a reestruturação da dívida. A necessidade da reestruturação da dívida é hoje quase universalmente aceite.

·         Não foi o governo do Syrisa, com seis meses de vida particularmente ocupados com estas pseudo-negociações, o responsável pelo estado de austeridade nos últimos 6 anos, em que 25% do PIB grego desapareceu. Foram o PASOK e a Nova Democracia, que foram os responsáveis e pagaram por isso eleitoralmente, daí tendo saído o actual governo.

A austeridade imposta pela troika comprovou, tal como em Portugal, não ter resultado:

o país empobreceu, o património público foi sendo vendido, a dívida aumentou, a queda drástica do PIB acarretou a queda da receita fiscal. Todas as promessas do primeiro acordo com a troika em 2010 (depois de um ano de contração deveria seguir-se um período de recuperação e queda do desemprego) foram por água abaixo.

Como sublinhou Paul Krugman, “Se a troika tivesse sido verdadeiramente realista, teria reconhecido que estava a exigir o impossível. Dois anos depois de o programa ter começado, o FMI procurou exemplos históricos em que programas do género do grego, tentativas para pagar dívidas através da austeridade sem um grande perdão da dívida ou inflação, tivessem sido bem-sucedidos. Não encontrou nenhum.

·         Finalmente, e sem procurar esgotar essas consequências, este episódio provou que a construção europeia, se alguma vez foi democrática, o deixou de ser de todo. Estamos perante organismos autistas, repressivos, sem ética, uma verdadeira quadrilha que obtém da dívida crescente dos países o reforço dos grandes grupos, instalados na Alemanha e num reduzido número de países, que acabarão também por ser engolidos na voragem.

No caso de o sim ganhar a Grécia vai agravar a sua situação actual numa dinâmica de humilhação. Se o não ganhar a situação será também muito difícil mas numa dinâmica de dignidade, de patriotismo de soberania ferida mas não perdida.

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