sexta-feira, 21 de abril de 2017

Bom fim de semana!, por Jorge

"Cui prodest?"

"A quem aproveita?"

Expressão latina
ainda em uso corrente na investigação criminal,
sugerindo que a parte responsável por determinada
ação estará entre os que dela tiram proveito.

domingo, 16 de abril de 2017

Coreia do Norte: a revelação da grande mentira, por Christopher Black*


Nota prévia do editor – para não truncar este texto escrito em 2013, chamo a atenção do leitor para que os aspectos da actualidade referidos são hoje outros, igualmente negativos, com a actual administração Trump, como se tem visto nestes dias e juntaram-se informações adicionais para melhor entendimento destas questões.

Em 2003, com alguns advogados americanos, membros da Associação Nacional de Advogados, tive a oportunidade de viajar na Coreia do Norte, isto é, na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), a fim de ter uma experiência em primeira mão desse país, do seu governo socialista e do seu povo.

Publicado no nosso retorno, este artigo foi intitulado “A revelação da grande mentira”. O título foi escolhido porque descobrimos que o mito pejorativo da propaganda ocidental sobre a Coreia do Norte é um enorme embuste, concebido para esconder as realizações dos norte-coreanos, que conseguiram criar as suas próprias condições de desenvolvimento, o seu próprio sistema socioeconómico independente, baseado nos princípios do socialismo, livre do domínio das potências ocidentais.

Durante um dos nossos primeiros jantares em Pyongyang, o nosso anfitrião, Ri Myong Kuk, um advogado, disse em termos apaixonados, em nome do governo, que a força de dissuasão nuclear da RPDC é necessária dadas as ações e ameaças dos EUA e aliados contra o seu país. Ele disse-o, e foi-me repetido mais tarde durante a minha viagem, numa reunião de alto nível com representantes do governo da RPDC, que se os americanos assinassem um tratado de paz e um acordo de não-agressão com a RPDC, isso tornaria a ocupação ilegítima e levaria à reunificação da Coreia. Assim, não haveria mais necessidade de armas nucleares. Com sinceridade disse: “é importante que os advogados se reúnam para falar sobre isto, porque os advogados regulam as interações sociais no seio da sociedade e do mundo” e acrescentou que de boa-fé, “o caminho para a paz requer a abertura do coração”.

Pareceu-nos então, e é agora evidente, que, em absoluta contradição com o que dizem os meios de comunicação ocidentais, o povo da RPDC quer paz mais do que qualquer outra coisa. Ele quer continuar com as suas vidas e ocupações sem a ameaça constante de ser exterminado pelas armas atómicas dos EUA. Mas, na verdade, por que são ameaçados de serem exterminados e de quem é a culpa? Não é sua.

Mostraram-nos documentos dos EUA apreendidos durante a guerra da Coreia.

Tratam-se de provas irrefutáveis de que os EUA tinham planeado atacar a Coreia do Norte em 1950. O ataque foi realizado pelas forças armadas dos EUA e da Coreia do Sul, ajudadas por oficiais do exército japonês, que tinham invadido e ocupado a Coreia anteriormente, durante décadas. Os EUA pretenderam então que a defesa e o contra-ataque eram uma “agressão”, os média foram manipulados para incentivar as Nações Unidas a apoiar uma “operação policial”, eufemismo escolhido para descrever a sua guerra de agressão contra a Coreia do Norte. Daí  resultaram três anos de guerra e 3,5 milhões de vítimas coreanas.
Desde então, os EUA ameaçam com guerra iminente e aniquilação.
Em 1950, quando a Rússia não estava presente numa reunião do Conselho de Segurança, a votação das Nações Unidas a favor da “operação policial” foi ela própria ilegal. Ao abrigo dos regulamentos internos, o quorum no Conselho de Segurança exige a presença de todas as delegações membros. Todos os membros devem estar presentes, caso contrário não se pode realizar a sessão. Os americanos aproveitaram a ocasião de um boicote dos russos ao Conselho de Segurança, em defesa da República Popular da China, que deveria ter  o lugar à mesa do Conselho de Segurança e não o governo derrotado do Kuomintang. Como os americanos se recusaram a conceder esse direito, os
russos recusaram sentar-se à mesa até que o governo chinês legítimo o pudesse fazer.

Os americanos aproveitaram esta oportunidade para fazer uma espécie de golpe de estado nas Nações Unidas. Tomando o controlo dos seus mecanismos, utilizaram-nos para os seus próprios interesses. Organizaram-se com os britânicos, os franceses e os chineses do Kuomintang, para apoiar a guerra na Coreia, na ausência dos russos. Os aliados dos americanos, como estes  lhes tinham pedido, votaram a favor da guerra contra a Coreia, mas a votação foi inválida e a operação da polícia não foi uma operação de manutenção da paz, nem justificada pelo capítulo VII da carta das Nações Unidas, dado que o artigo 51, estipula que as nações têm o direito de se defender contra qualquer ataque armado – justamente o que tinham de fazer os norte coreanos. Mas os EUA nunca se preocuparam muito com a legalidade. E não se preocuparam no decurso de todo o seu projeto, que era conquistar e ocupar a Coreia do Norte, como um passo para invadir a Manchúria e a Sibéria e não seria a legalidade que os ia impedir de prosseguir esse caminho.

Muitos ocidentais não têm ideia das destruições infligidas pelos americanos e seus aliados na Coreia. Pyongyang encontrou-se sob um tapete de bombas, os civis fugindo à carnificina foram metralhados pelos aviões dos EUA em voos rasantes. O New-York Times escreveu na altura que 17 milhões de toneladas de napalm foram lançadas durante os 20 primeiros meses da guerra na Coreia. Os EUA deixaram cair um peso de bombas mais importante sobre a Coreia do que sobre o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. As forças armadas dos EUA assassinaram não apenas os membros do partido comunista, mas também as suas famílias. Em Sinchon, vimos provas de que soldados dos EUA obrigaram 500 civis a colocar-se numa vala, regaram-nos com gasolina e queimaram-nos. Estivemos num abrigo com paredes ainda enegrecidos com a carne queimada de 900 civis, incluindo mulheres e crianças que procuravam proteger-se durante um ataque dos EUA. Soldados americanos foram vistos a despejar gasolina em aberturas de ventilação do abrigo e fazê-los morrer carbonizados.

Esta é a realidade da ocupação dos EUA para os coreanos. É a realidade que eles ainda temem e não querem mais ver repetida. Podemos censurá-los?

Apesar de todos estes casos, os coreanos estão dispostos a abrir os seus corações aos seus antigos inimigos. O major Kim Myong Hwan, que na época era o principal negociador em Panmunjom, na linha da DMZ, revelou-nos que o seu sonho era ser escritor, poeta, jornalista, mas contou-nos com ar triste, como ele e os seus cinco irmãos estavam a fazer rondas de vigilância na linha da zona desmilitarizada, como os soldados, por causa do que aconteceu à sua família. Ele disse que a sua luta não era contra os americanos, mas contra o seu governo. Foram os único sobreviventes da família perdida em Sinchon. O seu avô tinha sido pendurado num poste e torturado, a avó dele morreu com uma baioneta no estômago.
“Veja, nós temos de o fazer. Temos de nos defender. Nós não nos opomos aos norte-americanos. Somos contra a política dos EUA e os seus esforços para controlar totalmente o mundo e infligirem calamidades aos povos”.

A opinião da nossa delegação foi que, devido à instabilidade que mantêm na Ásia, os EUA conservam uma presença militar maciça que dificulta as relações entre a China e a Coreia do Sul, a Coreia do Norte e o Japão. Usam a sua presença como moeda de troca contra a China e a Rússia. Com a constante pressão no Japão para eliminar as bases dos EUA em Okinawa, as operações militares na Coreia e as manobras de guerra são um aspeto central dos seus esforços, visando dominar a região.

A questão não é saber se a RPDC tem armas nucleares, porque tem esse direito, mas se os EUA – que têm capacidades nucleares na península coreana, e que ali instalam atualmente o seu sistema de defesa antimísseis THADD, um sistema que ameaça a segurança da Rússia e da China – estão dispostos a trabalhar com a Coreia do Norte num tratado de paz.

Encontrámos norte-coreanos ansiosos pela paz e que não fazem questão em manter armas nucleares se a paz puder ser estabelecida (nota do editor - apesar de no fim da guerra da Coreia ter sido assinado um armistício nunca foi assinado um tratado de paz por exigência dos EUA e, com isso, os EUA justificam a presença das suas forças na Coreia do Sul e nas costas da península coreana).

Mas a posição dos EUA continua mais arrogante, agressiva, ameaçadora e perigosa do que nunca. Na época das “mudanças de regime”, das “guerras preventivas” e das tentativas dos EUA desenvolverem armas nucleares em miniatura, bem como o sua não obediência e  manipulação do direito internacional, não é surpreendente que a Coreia do Norte jogue a carta nuclear. Esta escolha foi feita pelos coreanos do Norte desde que os EUA os passaram a ameaçar numa base diária com uma guerra nuclear (nota do editor - esta ameaça vem desde a própria Guerra da Coreia quando o general McArthur se propôs lançar uma bomba nuclear sobre a Coreia, o que não foi aceite e conduziu à sua demissão pelo presidente Truman, apesar de nas décadas seguintes ter continuado a ser apontado no seio das forças armadas e na sociedade americana em geral, como um grande herói nacional).

A Rússia e a China, dois países que a lógica levaria a apoiar os norte-coreanos contra a agressão norte-americana, juntar-se-ão aos norte-americanos para responsabilizar os coreanos por se terem armado com a única arma que pode atuar como dissuasor de um ataque. A razão para isto não está clara, uma vez que os russos e os chineses têm armas nucleares e estão equipados para dissuadir qualquer ataque dos EUA, exactamente como fez a Coreia do Norte. Algumas declarações dos governos russo e chinês indicam que eles temem não ter controlo da situação, e que as medidas defensivas da Coreia do Norte atraiam um ataque dos EUA e de serem também atacados.

Essa ansiedade é compreensível. Mas isso levanta a questão de saber por que não podem apoiar o direito da Coreia do Norte à autodefesa e exercer pressão sobre os americanos para concluírem um tratado de paz, um acordo de não-agressão e retirar sua forças armadas e nucleares da Península coreana. Mas a grande tragédia é a óbvia incapacidade dos norte-americanos em pensarem por si próprios perante as mentiras contínuas e exigirem dos seus líderes que se esgotem todos os canais de diálogo e seja restabelecida a paz antes de encararem uma agressão na península coreana.

A base essencial da política da Coreia do Norte é alcançar um pacto de não agressão e um Tratado de paz com os EUA. Os norte-coreanos afirmaram repetidamente que não querem atacar ninguém, nem ferir ninguém, não estão em guerra contra ninguém. Mas eles viram o que aconteceu com a Jugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria e inúmeros outros países, e não têm intenção de serem os próximos. É óbvio que vão defender-se vigorosamente contra qualquer invasão dos EUA e que a nação poderia suportar uma longa e difícil luta.

Num outro lugar da zona desmilitarizada, conhecemos um coronel que tinha instalado um par de binóculos, através do qual conseguimos ver para além da linha divisória entre o norte e o sul. Podemos ver uma parede de cimento construída no lado do Sul, em violação dos acordos de tréguas. O major Kim Myong Hwan disse que aquela estrutura fixa é uma “vergonha para os coreanos, que são um povo homogéneo”. Um alto-falante transmitia sem interrupção propaganda e música que vinha de alto-falantes do lado sul. Ele disse que esse barulho irritante dura 22 horas por dia. De repente, outro momento surreal, os alto-falantes do bunker começaram a entoar a Abertura Guilherme Tell de Rossini, mais conhecida nos Estados Unidos como o tema do” Lone Ranger”.

O coronel pediu-nos para ajudar as pessoas a entender o que realmente está a acontecer na Coreia do Norte, em vez de basearem as suas opiniões na desinformação. Disse: “Nós sabemos que, como nós, as pessoas amantes da paz na América têm crianças, parentes, famílias”. Dissemos-lhe que tínhamos a missão de ir para casa com uma mensagem de paz e esperamos voltar um dia e andar com ela livremente nestas belas colinas. Fez uma pausa e disse: “Também creio que é possível”.

Assim, enquanto o povo da Coreia do Norte espera a paz e a segurança, os EUA e o seu fantoche no sul da península coreana farão a guerra, ocupando-se durante os próximos três meses nos maiores jogos de guerra até agora organizados, com porta-aviões, submarinos carregados de armas atómicas e bombardeiros furtivos, aviões e um grande número de tropas, artilharia e tanques.

A campanha de propaganda atingiu níveis perigosos nos meios de comunicação, que acusam o Norte de ter assassinado um parente do líder da Coreia do Norte na Malásia, ainda que não haja provas e que o Norte não tivesse nenhum motivo para o fazer. Os únicos a beneficiar do assassinato são os EUA e os seus meios de comunicação controlados, que usam isso para atiçar a histeria contra a Coreia do Norte, que agora teria armas químicas de destruição em massa.

Sim, meus amigos, eles pensam que todos nós nascemos ontem e que não aprendemos nada sobre a natureza do domínio dos EUA e da sua propaganda. Será assim tão espantoso que os norte-coreanos temam que estes “jogos” de guerra se transformem um dia em realidade e que estes “jogos” não sejam senão a cobertura para um ataque e para criar ao mesmo tempo um clima de terror na população, coreana?

Haveria muitas coisas a dizer sobre a natureza real da RPDC, dos seus habitantes, do seu sistema socio-económico e da sua cultura. Mas não há espaço para isso agora neste texto. Espero que as pessoas sejam capazes de dar-se conta, por si próprias, da experiência do nosso grupo. Termino com o último parágrafo do relatório comum que fizemos no regresso da RPDC, e espero que as pessoas o compreendam bem, reflitam e ajam de forma a apelar à paz.

“Aos povos do mundo tem de ser divulgada a história completa acerca do que se passou na Coreia e o papel do nosso governo no estimular desequilíbrios e conflitos. Devem ser tomadas medidas pelos advogados, grupos comunitários e ativistas pela paz e todos os cidadãos do planeta, para impedir o governo dos EUA de levar a cabo uma campanha de propaganda visando apoiar a agressão contra a Coreia do Norte.

Os norte-americanos têm sido alvo de um grande embuste. O que está em jogo é muito importante para nos permitirmos ser enganados novamente. Esta delegação de paz aprendeu na Coreia do Norte um elemento importante da verdade essencial nas relações internacionais. É que só com ampla comunicação e negociação, seguida do respeito pelas promessas e profundo compromisso com a paz, se pode – literalmente – poupar o mundo a um sombrio futuro nuclear. A experiência e a verdade irão libertar-nos da ameaça de guerra. A nossa viagem à Coreia do Norte, este relatório e o nosso projeto atual são esforços para nos libertarmos dela”.

* Advogado especialista em direito penal internacional, com escritório em Toronto. É conhecido pelos casos de crimes de guerra mediáticos que analisou. Publicou recentemente o romance Beneath the Clouds . Escreve ensaios sobre direito internacional, política e acontecimentos mundiais.
original publicado em journal-neo.org/2017/03/13/north-korea-the-grand-deception-revealed/

sexta-feira, 14 de abril de 2017

"La realtà non è come ci appare."
"A realidade não é como parece."

Carlo Rovelli

físico e filósofo da ciência italiano, n.1956,
no título do seu livro de 2014.

Judeus de quem Israel não gosta


Marino Boieira
(publicado no Pravda de26 de Março de 2017)

Uma das grandes mentiras, que já tem 70 anos, é de que o Estado de Israel vive ameaçado pelos árabes na Palestina. Goebbels já dizia que uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade. Os pobres palestinianos os foram expulsos de sua terra pela maior potência militar do Médio Oriente...

Os pobres palestinianos foram expulsos da sua terra pela maior potência militar do Médio Oriente, que inclusivamente dispõe de armas atómicas e apenas tem o apoio apenas formal dos governos árabes corruptos da região e, mesmo assim, o lobby judaico no mundo inteiro, transformou-os num perigo para a paz na região.

Ainda bem que existem intelectuais judeus que se recusam a pactuar com essa mentira histórica. Vamos lembrar aqui alguns deles, começando por Noam Chomsky, o mais conhecido deles todos.
 
 
Avram Noam Chomsky nasceu em 1928, na Filadélfia, é linguista, filósofo, cientista e professor emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts e, apesar de todos estes títulos, está proibido de visitar Israel, por causa das suas críticas ao governo israelense, como numa comparação que fez sobre a política do apartheid na África: 

"Nos territórios ocupados, o que Israel está a fazer é muito pior que o apartheid. (...) os brancos sul-africanos precisavam da população negra. Era a sua força de trabalho. Tinham que os sustentar. Os "bantustões" eram horríveis, mas a África do Sul precisava deles. (...) A relação de Israel com os palestinianos é diferente. Israel simplesmente não quer os palestinianos. Israel quere-os fora da sua terra ou, pelo menos, na prisão".
Bombardeamento israelita em Gaza em 2009
 

Sobre o Hezbollah: "Foi fundamental para expulsar os israelitas do Sul do Líbano, e por isso é classificado pelos Estados Unidos como organização terrorista "

Sobre o Hamas: "Eu sou contra as políticas do Hamas em quase todos os aspectos. No entanto, devemos reconhecer que as políticas do Hamas são mais próximas e mais propícias a uma solução pacífica do que as dos Estados Unidos ou de Israel"

Shlomo Sand nasceu em Linz, na Áustria, em 1946 e é professor da História na Universidade de Telavive. O seu livro mais famoso,” A Invenção do Povo Judeu”, deita por terra o mito fundador do Estado de Israel de que os judeus actuais são descendentes dos antigos hebreus que viveram na Palestina durante o Império Romano e, por isso mesmo, teriam direito exclusivo às terras que os árabes ocuparam depois.

Sand argumenta que é provável que os antepassados da maioria dos judeus contemporâneos sejam essencialmente de fora da Terra de Israel (Eretz Yisrael) e que uma "nação-raça" dos judeus, com uma origem comum, nunca existiu. Assim como os cristãos mais contemporâneos e muçulmanos são descendentes de pessoas convertidas, e não dos primeiros cristãos e muçulmanos. O judaísmo era originalmente, assim como seus dois primos, um proselitismo religioso. Muita da população judaica mundial dos dias de hoje é descendente de europeus, russos e grupos africanos.

Sand ataca também outra história cara ao judaísmo, a de que, depois da revolta de Bar Kokhba, os judeus foram expulsos da Palestina pelos romanos. Diz ele que a maioria dos judeus não foi exilada pelos romanos e muitos deles se vieram a converter ao islamismo após a ocupação da Palestina pelos árabes no século sétimo.

O sionismo, segundo Sand, foi mais um dos movimentos nacionalistas surgidos na Europa no século XIX que sonhavam com uma hipotética "idade do ouro", existente no passado. Os judeus seriam então descendentes de um mítico reino de David, o que significaria uma base étnica comum, quando o que os unia, na verdade, era apenas a religião comum.

Norman Gary Finkelstein, nascido em 1953, em Nova Iorque, filho de pais sobreviventes de Auschwitz, doutor pela Universidade de Princeton e professor da Universidade de Nova York, é mais um dos intelectuais judeu s proibidos de entrar em Israel, principalmente por causa do seu livro "A Indústria do Holocausto - Reflexões Sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus" onde afirma que ""o organizado judaísmo americano explorou o Holocausto nazista para desviar as críticas de Israel e suas políticas moralmente indefensáveis

Segundo Finkelstein, depois da Segunda Guerra Mundial, as organizações judaicas dos Estados Unidos, as mais poderosas do mundo - sempre com o apoio de publicações como "New York Times" e "Washington Post", os dois jornais mais conhecidos do país, além de revistas, como "Time" e "Newsweek" -, esqueceram praticamente o Holocausto, porque a Alemanha se tornou num aliado fundamental no confronto dos EUA com a União Soviética.

Lembrar o Holocausto nazi levava a etiqueta de causa comunista. As associações judaicas chegaram a fazer vista grossa à entrada de nazis nos Estados Unidos.

Ainda segundo Finkelstein, a partir de junho de 1967, com a guerra árabe-israelita, o Holocausto tornou-se numa fixação na vida dos judeus americanos. Desde a sua fundação em 1948 até a guerra de junho de 1967, Israel não figurou como foco no planeamento estratégico americano. "A indústria do Holocausto só se difundiu depois da dominação militar esmagadora e do florescente e exagerado triunfalismo entre os israelitas".

Diz Finkelstein: "Não foi a alegada fraqueza e isolamento de Israel, nem o medo de um “segundo holocausto”, mas antes a sua comprovada força e aliança estratégica com os Estados Unidos, que conduziram as elites judaicas a produzir a indústria do Holocausto, depois de junho de 1967.

Outro forte motivo por detrás desta farsa era material. O governo alemão do pós-guerra compensou os judeus que estiveram em campos ou guetos. Muitos desses judeus recriaram os seus passados para atender a essas exigências"

Ilan Pappé: nascido em 1954, Haifa, Israel, é um historiador, professor de História na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Foi docente em Ciências Políticas na sua cidade natal, na Universidade de Haifa.

É um dos chamados Novos Historiadores, que reexaminaram criticamente a História de Israel e do sionismo. Pappé faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e dos seus antecedentes. Em particular, defende no seu livro mais importante, “Limpeza Étnica na Palestina” que houve a expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina - operada pelo Haganah, pelo Irgun e por outras milícias sionistas.

Pappé considera a criação de Israel como a principal razão para a instabilidade e a impossibilidade de paz no Médio Oriente. Segundo ele, o sionismo tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista.

 Ilan Pappé é um importante defensor da solução de um único estado para palestinos e israelenses.

Em 2008, Ilan Pappé exilou-se na Grã-Bretanha, onde atualmente é professor de História na Universidade de Exeter e diretor do Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina.

Antes de deixar Israel, foi veementemente condenado no Knesset, o parlamento de Israel. Um Ministro da Educação pediu a sua demissão da universidade, e a sua foto foi publicada num jornal, como o centro de um alvo. Além disso, Pappé recebeu várias ameaças de morte.

"Fui boicotado na minha universidade e houve tentativas de me expulsarem do meu trabalho. Recebo chamadas telefónicas com ameaças todos os dias. Não estou a ser visto como uma ameaça para a sociedade israelita, mas o meu povo pensa que sou louco ou que a minha opinião é irrelevante. Muitos israelitas acreditam também que estou a trabalhar como mercenário para os árabes.

Judith Butler, nascida em Cleveland, Ohio, em1956, de origem judaica, teve a sua família, pelo lado materno, morta em campos de concentração nazis na Hungria. É professora de Filosofia na European Graduate School, na Suiça, sendo considerada uma das principais teóricas do feminismo no mundo inteiro. O seu livro "Caminhos Partidos: Judaísmo e Critica do Sionismo" a levou-a a ser considerada como antissemita pelo jornal Jerusalem Post, porque defendeu o binacionalismo em Israel, dizendo que "é preciso acabar com a ocupação, que é ilegal e é uma extensão de um projeto colonial".

Judith Butler defende outra tese, que os governantes de Israel detestam ouvir: o direito de retorno dos palestinos expulsos de suas casas e de suas terras e que eles sejam indemnizados pelas suas perdas.

 
O autor deste texto é Marino Boeira é jornalista, formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Como seu editor e revisor do texto para português de Portugal, entendo emitir a minha opinião de que a utilização pelos que, justamente, criticam Israel, da expressão “indústria do holocausto” tem sido aproveitado por Jihadistas para negar a existência do Holocausto, em prejuízo da verdade histórica e reforço dos lobbies sionistas.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Reino Unido procura ir mais alto que os EUA (pelo menos em cabelos...)


Na reunião dos G-7, dos passados dias 10 e 11, os sete países mais industrializados do mundo, segundo critérios de FMI, mas onde a Rússia foi impedida de continuar (G-8), na sequência dos acontecimentos na Ucrânia e Crimeia e onde também não participa a China, não concordaram com o agravar das sanções à Rússia, que mantêm.
A proposta de Boris Johnson, MNE do Reino Unido não fez vencimento e o seu par italiano considerou fundamental que a Rússia favoreça com a comunidade internacional uma transição política na Síria para derrotar o grupo extremista Estado Islâmico.
"Uma derrota duradoura do Daesh (acrónimo em árabe de Estado Islâmico) não pode ser alcançada sem um processo político que leve a uma transição" na Síria, afirmou Alfano durante a reunião do G7.
"Existe agora uma janela de oportunidade para envolver a Rússia seriamente no relançamento do processo político", acrescentou.
O Conselho de Segurança de ontem não aprovou nova tentativa de responsabilização do governo sírio pela alegada utilização de gás sarin no bombardeamento a um depósito de armas dos terroristas numa localidade o norte da Síria. A Rússi votou contra, usando o direito de veto.

Falando, em primeiro lugar perante os 15 membros, o representante britânico Matthew Rycroft acusou Moscovo de apoiar "um criminoso assassino e bárbaro" - o presidente sírio, Bashar Assad - "em vez de alinhar com seus pares internacionais" na votação
O enviado também afirmou que o sarin, um gás nervoso, havia sido encontrado no local do suposto ataque químico orquestrada pelo governo na área controlada pelos “rebeldes” no norte do país.
Vladimir Safronkov, enviado-adjunto da Rússia à ONU, um dos vários diplomatas, que substituiu Vitaly Churkin desde a morte súbita deste, há dois meses, seguiu-se-lhe no uso da palavra, e acusou o representante inglês de “pretender impedir os esforços de De Mistura da ONU para resolver a crise e de trazer a confrontação e a inimizade para o seio do Conselho de Segurança".

"Você perde o sono perante a possibilidade de podermos trabalhar em conjunto com os EUA. Você está com medo, faz tudo para o minar "
"Não desvie seus olhos! Olhe para mim! Por que está a desviar os olhos?”, continuou o representante russo.

Rycroft, que antes balançeava a cabeça com tristeza, parecia impassível com o discurso, continuando a desviar o olhar, antes de reagir às palavras com um sorriso sardônico.
O representante russo continuou, dizendo que o Reino Unido "não tinha feito nada" para uma resolução pacífica da crise síria, Safronkov  e disse que  Rycroft "ignorou" o discurso de Mistura preferindo "insultar a Síria, o Irão, a Turquia e outros Estados".

"Alguns dos membros do Conselho de Segurança recorrem a linguagem imprópria. Não se atreva a insultar a Rússia! - disse Safronkov.
As reacções de Theresa May e François Hollande face à não passagem no CS da ONU desta condenação à Síria, foi de grande violência verbal.

sábado, 8 de abril de 2017

Bom fim de semana, por Jorge

Não devemos resistir às tentações:
elas podem não voltar!

Millôr Fernandes
Humorista brasileiro

É mais difícil aceitar que tenha sido a Síria a usar armas químicas contra sírios do que fazer passar Trump pelo buraco de uma agulha


O governo sírio foi o único prejudicado, em termos de imagem, em todo o mundo, por um alegado ataque seu com armas químicas em Khan Sheikhun, província de Idlib. “Procurar o criminoso entre aqueles a quem aproveita o crime” é uma regra básica da investigação criminal. Se tais coisas levam o seu tempo a ser feitas e são motivo de reflexão, é mais difícil acreditar que a iniciativa coubesse à Síria do que “enfiar um camelo (ou Trump) no buraco de uma agulha”. Mas há os que continuam a querer que todos passemos por parolos…É o caso do Human Rights Watch, que lançou esta idéia (trabalham em Londres, bem longe destas refregas).

O momento do ataque dos EUA e da invocada utilização pela Síria de armas químicas é tanto mais suspeito do ataque, quando ocorreram poucos dias antes de uma grande conferência sobre a Síria, em Bruxelas.

A "Conferência de Bruxelas sobre o Apoio ao Futuro da Síria e da Região", co-presidida pela ONU e pelos governos da Alemanha, do Kuwait, da Noruega, do Qatar e do Reino Unido, realizou-se mesmo em Bruxelas em 4 e 5 de Abril, e não aceitou alterar a sua agenda que previa concentrar-se em "reforçar o apoio a uma resolução política duradoura para o conflito sírio através de um processo de transição política inclusivo e liderado pela Síria sob os auspícios da ONU", de acordo com o site oficial da Comissão Europeia. Aguardei, sem resultado, até agora que esse site se referisse às conclusões da conferência.

Charles Shoebridge, analista britânico de segurança e especialista em contra-terrorismo, afirmou à RT que "Há um padrão destes incidentes que acontecem em momentos críticos numa perspectiva geopolítica", acrescentando que um ataque químico maciço na cidade síria de Ghouta em 2013 aconteceu exactamente quando "os inspetores da ONU estavam a chegar a Damasco", e outro ataque químico em Setembro de 2016 ocorreu na véspera de uma "grande conferência em Londres, onde a oposição síria se reuniu com seus doadores estrangeiros".
Depois do ataque dos EUA
 

Vi ontem no Expresso da Meia-Noite, na SIC-N um debate sobre o ataque dos EUA a uma base síria com comentadores pouco recomendáveis. Retiro algumas das suas ideias-chave:

1.    O ataque foi combinado entre a Rússia e os EUA;

2.    O ataque foi pontual, difícil de ter continuidade, mas retira à Rússia a centralidade nas iniciativas diplomáticas para uma solução de paz e impõe os EUA nesse processo;

3.    Se o Estado Islâmico e a Al-Qaeda aceitarem integrar as negociações, isso alterará os dados do problema;

4.    Não há dúvida que foi a força aérea síria que, com apoio da Rússia, procedeu ao bombardeamento com armas químicas;

5.    Os EUA não podiam aceitar investigações no local do bombardeamento e junto do governo sírio porque isso iria mandar para as calendas eventuais conclusões;

6.    Afez Al-Assad fica desde já fora do quadro das negociações de paz que não quer;

7.    A Rússia está a gastar em várias frentes mais do que pode (Síria, Ucrânia, Europa de Leste, África,…) e foi por isso que a URSS caiu;

8.    O Irão não condenou o ataque (retiro a declaração iraniana “o ataque foi perigoso e destrutivo e viola o direito internacional”…);

9.    Os EUA regressaram à política de Obama e obtiveram o apoio de Israel, Turquia, Arábia Saudita, Bahrein, Emiratos Árabes Unidos (consabidamente países com lideranças respeitáveis,…)

A nenhuma daquelas cabeças, creditadas por Balsemão, ocorreu falar sobre:

1.    A circulação normal de jornalistas e meios de emergência na base depois do ataque (que destruiu aviões, depósitos de armamento, etc.) indiciar que da explosão não resultou a circulação de gases contaminadores;

2.    Só os terroristas, que estavam a sofrer derrotas sucessivas, beneficiaram temporariamente, em termos de imagem de um alegado ataque que é logo atribuído ao governo sírio;

 

De manhã tinha ouvido na Antena Um comentários semelhantes do comentador de política internacional, creditado como tal por esta estação, Bernardo Pires de Lima, que referiu nomeadamente, além disso que:

1.    A legalidade do ataque não é relevante para ser alvo de discussão, há que invocar sim a “legitimidade” e os “aspectos morais”;

2.    Se a Rússia e o Irão podem intervir na Síria, porque não poderiam os EUA?

3.    Assad estava à partida, antes do ataque, suspeito de vir a desencadear actos que a comunidade internacional não aceitaria (!).

Não há dúvida de que o ataque aéreo dos EUA é uma agressão, porque se se trata de uma questão interna a um país. O que aconteceu e de quem foi a culpa são assuntos que não respeitam aos Estados Unidos. Não há interesses norte-americanos de segurança nacional que tenham sido afectados, não morreram cidadãos norte-americanos ou cidadãos de outro Estado. Portanto, esta interferência é descabida a partir de países terceiros.

E o uso da força militar de um Estado contra as forças armadas de outro Estado, nos termos da Carta das Nações Unidas, constitui um acto de agressão.

A Rússia, uma unidade de elite iraniana e o Hezbollah intervieram na Síria a convite do governo legítimo desse país, que resultou de eleições, reconhecidas internacionalmente, e que está representado em várias instâncias internacionais, apesar de estar incluído na lista que Obama elaborou e Trump mantem, como estados

Nenhum Estado tem o direito de agir em nome do Conselho de Segurança da ONU. A situação é muito clara. Não há evidências de que armas químicas tenham sido aplicadas por Bashar Al-Asad e as suas forças. Se os americanos tinham qualquer prova, deveriam tê-la apresentado a todo o mundo, mas não usar a força, antes que tivessem sido obtidas conclusões exaustivas efectuadas por peritos independentes. Mas os EUA recusaram-no no Conselho de Segurança, preferido uma atitude de confronto com o governo sírio.

E se agora grupos terroristas tivessem tomado conta do aeródromo? Os EUA estariam em que campo? No campo dos terroristas, ao reduzir a capacidade da Síria os enxotar? Esses grupos (que Trump disse querer acabar com eles…) já rejubilaram e reclamaram mais…
E o ataque contra a Síria não será uma tentativa de desviar a atenção da acção conduzido pelos EUA em Mossul, no Iraque, que foi acompanhado por vítimas civis em massa, enquanto os progressos na libertação da cidade ainda não terminaram?

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Descriminalizar o lenocínio e ceder face ao turismo sexual transnacional


No “Prós e Contras” do passado dia 20 de Março, Fátima Campos Ferreira pretendeu lançar a discussão sobre a questão da legalização da prostituição, como se a questão fosse novidade. De facto há dezenas de anos que se discute e não foi por acaso que nunca teve acolhimento legislativo. Esta era a opção pela qual a responsável do programa manifestava simpatia, apoiando implicitamente uma moção congressual da JS, que convidou para o programa.

Porém, como tem sido constatado no passado mais ou menos recente noutros países, os resultados seriam a descriminalização do lenocínio, conferir o estatuto de empresários aos proxenetas e ceder às pressões do turismo sexual internacional, dar força à concepção da mulher-objecto, vítima de exploração e de um tráfico incessante. Ombrear com a Holanda e a Alemanha nestas opções seria fatal. Não foi por acaso que foi nestes países que a legalização se traduziu num acréscimo da prostituição e do tráfico de menores e jovens mulheres para o negócio legalizado dos proxenetas, e em que as prostitutas não beneficiaram dos apoios sociais antes prometidos.

Segundo Inês Fontinha, ” a prostituição funciona em mercado de oferta (prostituta) e procura (cliente) mas nele intervém um terceiro elemento: “O organizador e explorador do mercado, o xulo ou proxeneta, o proprietário de casas fechadas, salões de massagens, fornecedor de quartos de hotel ou de estúdios “ (…) “O negócio da prostituição rende ao proxenetismo milhões de dólares americanos, porque a prostituição não se reduz a um acto individual de uma pessoa que aluga o seu sexo por dinheiro, é uma organização comercial com dimensões locais, nacionais, internacionais e transnacionais (1).

Em Portugal, a actividade de prostituição é exercida de várias formas: a prostituição de rua, em casas de massagens e bares, em discotecas, hotéis e restaurantes que, de forma disfarçada e discreta, servem de bordéis, na forma de agências de "serviço de acompanhantes", que providenciam acompanhantes masculinos ou femininos para ocasiões sociais, podendo os acompanhantes incluir serviços sexuais aos seus clientes. Também a prostituição masculina tanto heterossexual como homossexual ocorre de modos e locais diferentes, como bares gay, discotecas e resorts.

Já em Outubro de 2004, alguns empresários da noite, ligados ao ramo da prostituição e do alterne, se movimentaram para introduzir em Portugal um novo modelo de negócio do sexo, que já existia em algumas regiões espanholas e que tinha por finalidade contornar a lei sob o ponto de vista criminal. O Correio da Manhã publicou então uma “investigação” em que apurou, tratar-se do aluguer a prostitutas dos quartos de um hotel ou pensão, para fazer da prostituta apenas cliente do proprietário, permitindo ao dono passar ao lado de qualquer acusação criminal, já que, em termos legais, se limitava a alugar quartos. Segundo essa reportagem, as casas de alterne fechavam, na sequência de rusgas policiais, em que quase sempre eram detidas várias estrangeiras ilegais e um ou outro proprietário. Mas numa ou duas semanas as casas apareciam novamente abertas, sendo a titularidade destas de sócios ou amigos dos detidos, vindo as raparigas de outros bares, na sequência de uma circulação que era habitual e que tinha por finalidade tentar iludir as autoridades (2).

Mas, no ordenamento jurídico português não se criminaliza a conduta da pessoa que se prostitui. Criminaliza-se, sim, a conduta de quem explora (lenocínio) a actividade de prostituição por parte de outra pessoa (proxeneta). Isso está expresso no Art.º 169 do Código Penal em vigor. A prostituição em Portugal não é reconhecida em lei específica, mas é tolerada a título individual.

A punição do lenocínio também decorre da Convenção para a Supressão do Tráfico de Pessoas e da Exploração da Prostituição de Outrem, de 1949, aprovada, para ratificação, pela Resolução da Assembleia da República nº 31/91 (publicada no Diário da República, I série, de 10 de Outubro de 1991).

No que respeita à prostituição de menores, quem fomentar, favorecer ou facilitar o exercício da prostituição de menores entre os 14 e os 16 anos, ou a prática por estes de actos sexuais de relevo, e quem aliciar, transportar, proceder ao alojamento ou acolhimento de menores de 16 anos, ou propiciar as condições para a prática por este, em país estrangeiro, de prostituição ou de actos sexuais de relevo, é punido de forma pesada.

O sistema regulamentarista é agora preconizado na moção da JS, sucedâneo do que vigorou em Portugal até 1963, sem alguns dos seus aspectos mais chocantes. Este tinha então como objectivo “sujeitar a rigorosa inspecção as meretrizes “ a fim de “ prevenir e acautelar os males que resultam para a moral, saúde e segurança pública, da notável relaxação em que se acha esta classe miserável”. Pelas cadernetas de identificação e exames compulsivos passaram actos degradantes e atentatórios da dignidade das mulheres (3).

Antes disso, já em 1902, o professor Ângelo Fonseca apresentava uma proposta de regulamentação geral das doenças venéreas em que defendia a abolição do sistema de matrículas numa dissertação apresentada na Faculdade de Medicina do Porto. Baseava-se num inquérito realizado nas subdelegações de saúde, que revelava o fracasso do regulamentarismo e dos fins a que se propunha: “ a prostituição feminina em vez de diminuir aumentou; o número de matriculadas é diminuto e o número de clandestinas cresce regularmente em especial no Porto e em Lisboa; os regulamentos locais são contraditórios e, sobretudo, não são aplicados; a inspecção sanitária é insuficiente e mal organizada, não cobre sequer as matriculadas e tão pouco abrange as clandestinas e os clientes. O sistema até hoje seguido degrada a mulher, sem que dessa degradação possa resultar profilaxia das doenças venéreas”.

Em 1949, foi elaborada uma dura lei sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST) impondo mais restrições àqueles que se prostituíam, e proibindo a abertura de novas casas de prostituição. As casas existentes podiam ser encerradas caso se suspeitasse que podiam ser um perigo para a saúde pública. Um estudo da época estimou que existiam 5.276 prostitutas e 485 casas, concentradas nas principais áreas urbanas, nomeadamente Lisboa, Porto, Coimbra e Évora. No entanto, aquelas prostitutas registadas representavam uma pequena percentagem do total do conjunto. Esta lei pretendia erradicar a prostituição.

Em 1963, o regime fascista proibiu o exercício da prostituição pelo Decreto - Lei nº 44579 de 19 de Setembro, introduzindo o modelo proibicionista, com o seu rosário de prisões, violações, fecho de casas de passe para os meios operários e outras camadas de estatuto social secundarizado, que coexistia com os “meios” da alta burguesia onde a prostituição, sem referência a tal nome, era praticada. Os bordéis e outras instalações foram encerrados. Esta lei proibicionista punha um termo à era em que a prostituição era regulamentada, incluindo consultas médicas regulares das prostitutas. No entanto, esta lei pouco efeito prático obteve.

Um novo abolicionismo surgiu com a legislação em vigor, através do Código Penal de 1983, que descriminaliza as mulheres que se prostituem, renovado no Art.º 169º do Código Penal em vigor, que pune, com pena de prisão de 6 meses a 5 anos, quem, profissionalmente ou com intenção lucrativa, fomentar, favorecer ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição ou de actos sexuais de relevo (o chamado lenocínio simples). Esta conduta é mais severamente punida (com pena de prisão de 1 a 8 anos) se o agente usar de violência, ameaça grave, ardil, manobra fraudulenta, de abuso de autoridade resultante de uma dependência hierárquica, económica ou de trabalho, ou se aproveitar de incapacidade psíquica da vítima ou de qualquer outra situação de especial vulnerabilidade (o chamado lenocínio qualificado).

As mulheres que se prostituem têm acesso ao Serviço Nacional de Saúde e a isenções de taxas moderadoras, como qualquer pessoa desempregada, inscrita no Centro de Emprego ou que faça prova de insuficiência económica, ou que não tenha uma carreira contributiva, e descontos nos medicamentos como as restantes pessoas. Isto é garantido sem qualquer disposição particular que as contemple.

O trabalho de “O Ninho”, instituição particular de solidariedade social, sempre me pareceu exemplar, agindo com orientações idêntica, pelas acções que tem vindo a realizar num caminho que é lento mas que não pactua com demagogias liberalizantes ou “fracturantes” que são um precioso auxiliar do lenocínio. Realiza um trabalho de aconselhamento em meio prostitucional, dispondo de um centro de acolhimento, garantiu um lar para mulheres e seus filhos, uma oficina para aprendizagens profissionais, com uma cantina – acções viradas para a reinserção social através do trabalho com resultados muito positivos - e garantindo para estas mulheres um subsídio de reinserção. Tem três acordos de cooperação com a Segurança Social para garantir o funcionamento do centro de acolhimento, com equipas intervindo em meio prostitucional, das oficinas e o lar. E um acordo de cooperação com a CML que garante formação profissional em contexto laboral, elaborado em 2001 com a então vereadora Alexandra Gonçalves, que continua até hoje sucessivamente renovado por unanimidade em reuniões de Câmara.

Para Sandra Benfica, dirigente do MDM, referindo-se aos instrumentos legislativos disponíveis na Europa, “Muitos destes instrumentos legais são taxativos na consideração da prostituição como uma forma de violação dos direitos humanos de mulheres e raparigas, bem como na determinação da não valorização do consentimento em matéria de tráfico, pelo que é absoluta contradição a qualificação – seja política, seja legal – da prostituição ou do alegado “trabalho” sexual como consentido ou não consentido. Seria o mesmo que considerar a violência doméstica ou de género como consentida ou não consentida e, como tal, legal.” E aponta que “na prostituição não existem “zonas seguras” para mulheres e raparigas: nos países onde a “indústria do sexo” foi promovida a um negócio legítimo, os proxenetas passaram a respeitáveis homens de negócios, enquanto a situação das mulheres e crianças registou agravamento de todas as formas de exploração e violência a que estão sujeitas.” (5)

 A legalização implicaria, de facto, a descriminalização do proxenetismo, que é actualmente criminalizado, nos termos atrás referidos, contrariando assim a já referida Convenção sobre a Supressão do Tráfico de Pessoas e Exploração da Prostituição de Outrem, que vincula o Estado português. Foi o que afirmou o juiz P. V. Patto, sublinhando que “ não se limitaria a isso. O exercício da prostituição passaria a ser encarado como qualquer outra profissão, sujeito ao mesmo regime laboral e fiscal de qualquer outra profissão. O proxenetismo deixaria de ser encarado como actividade criminosa e passaria a ter o reconhecimento social e jurídico de qualquer outra actividade empresarial. Com a legalização o Estado transmite uma mensagem cultural: a prostituição equipara-se a qualquer outra profissão, resulta de uma opção autenticamente livre e não implica a violação da dignidade da pessoa humana.”

Uma participante no “Prós e Contra”, do projecto Porto G, defendeu a descriminalização do lenocínio. A tese de doutoramento de outra participante, tendo aspectos interessantes, está muito condicionada pela conclusão, muito pouco fundamentada, de que a prostituição deva ser legalizada. Como, aliás, já expressara em entrevista ao Público há oito anos (7). A regulamentação/ legalização é uma narrativa neoconservadora assente numa percepção anarco-burguesa, de fachada fracturante, do fenómeno da prostituição. E a moção da JS, se vingasse como medida legislativa, seria um assinalável retrocesso histórico nos direitos e dignificação das mulheres fazendo delas novamente objectos sexuais e lucrativos para quem as explora.

No actual quadro legal, e trabalhando-se a diversos níveis para que a prostituição se extinga num prazo indeterminado, e na opinião de muitas pessoas que trabalham com mulheres que se prostituem importa que se progrida: numa acção consequente das organizações que apoiam as prostitutas, com vista à (re)inserção no trabalho, apoio à documentação para garantir serviços de saúde, habitação e lares e escolas para os filhos; que a Segurança Social e as câmaras municipais se disponibilizem para acordos de cooperação com elas e para acções próprias; na isenção de custas judiciais com apoio jurídico gratuito; no combate ao “turismo sexual”; em cursos de educação sexual e planeamento familiar desde idades jovens, direito e acesso universal a serviços de saúde e planeamento familiar; em direitos e salário iguais aos restantes cidadãos.

(1)    Comunicação ao Congresso Virtual HIV/AIDS em 19/10/2001


       (2)  Correio da Manhã, de 31 de Outubro de 2004.

       (3)  Regulamento Policial de Meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa”, 1858.

(4)    Relatório de Jean Fernand Laurent, a pedido da ONU, 1983.

(5)    Pedro Vaz Patto, “Prostituição – o quadro legal português”. 2013.
                http://www.oninho.pt/ficheiros/documentacao/Quadro%20legal%20portugu%C3%AAs.pdf

(6)    Sandra Benfica, “Consulta da ONU Mulheres - política sobre "trabalho Sexual", comércio sexual e prostituição”, Outubro 2016.


(4)    https://jpn.up.pt/2009/09/01/alexandra-oliveira-prostituicao-devia-ser-legal-para-ser-       
              socialmente-aceite.                     

 

Os pobrezinhos, de António Lobo Antunes

Dedicamos este post à Dra. Isabel Jonet - antreus



"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria: - Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente».

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. 

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável.

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:

- O que é que o menino quer, esta gente é assim.

 E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"