sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge


"If we don’t take action, the collapse of our civilisations and the extinction of much of the natural world is on the horizon.” 

"Se não tomarmos medidas, está no horizonte o colapso das nossas civilizações e a extinção de grande parte do mundo natural."

David Attenborough (naturalista inglês,1926-)
) na Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a decorrer em Katowice, Polónia

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A quem aproveita a provocação ucraniana no estreitol de Kerch?, por António Abreu

O presidente da Ucrânia teria 8% dos votos numa primeira volta das próximas presidenciais, longe de lhe permitir aceder a uma segunda volta.



Previsões eleitorais assustam Poroshenko
Em 31 de Março do próximo ano realizam-se eleições presidenciais na Ucrânia. Segundo uma sondagem do Instituto Sociopolis divulgada no fim da semana passada, o actual presidente, Piotr Poroshenko, não é desejado para continuar nessas funções por 81% da população.
Poroshenko teria 8% dos votos numa primeira volta das presidenciais, o que estaria longe de lhe permitir aceder a uma segunda volta. A referida sondagem deu como provável vencedora a candidata Iulia Timoshenko.
Acusada em tempos, pelos seus críticos, de ser pró-russa, Timoshenko respondeu que «tento apenas defender os nossos interesses de forma a que encontremos um equilíbrio no nosso relacionamento com a União Europeia (UE) e a Rússia»1. Em 2010 foi uma das mais duras críticas do presidente Viktor Ianukovich, acusando-o de estar a vender o país à Rússia em troca de estabilidade política2. Timoshenko esteve presa dois anos e meio, entre 2011 e o início de 2014. Quando foi libertada, no auge do golpe que afastou o presidente Ianukovich, pronunciou-se por uma «Ucrânia membro da União Europeia e membro de pleno direito da NATO»3.
Em 2002 fundou o Bloco Iulia Timoshenko, que teve 7,2% dos votos nas eleições legislativas ucranianas desse ano.
Iulia Timoshenko foi designada primeira-ministra interina em 2005, na presidência de Viktor Iuchenko. Depois de prolongadas negociações sobre a composição do gabinete, ela acabou por ser confirmada como primeira-ministra pelo parlamento ucraniano (Verhovna Rada, "Conselho Supremo") por uma maioria absoluta de 373 votos, muito acima dos 226 votos necessários. Em 2007 foi novamente eleita como primeira-ministra.
Nas eleições presidenciais de 2010, ficou em segundo lugar, perdendo para o candidato de oposição Viktor Ianukovich.
Desde 2011 esteve presa, acusada de abuso de poder, numa decisão que os meios ocidentais consideraram controversa. Em 2014, depois do golpe de direita e extrema-direita que derrubou Ianukovich, foi libertada.
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Candidatos diabolizados por Kiev
Esta e outros candidatos potenciais desde há um ano que têm vindo a ser diabolizados por Kiev com expressões como as utilizadas por Aleksei Arestovich, em entrevista ao Fakty.ua:
«À medida que se aproximam as eleições presidenciais e para a Suprema Rada, a Rússia vai usar cada vez mais recursos para obter o controle político e económico da Ucrânia». E «agora muitos querem que [Piotr] Poroshenko saia. Posso dizer com certeza absoluta: os outros candidatos, com exceção de Poroshenko, são da Rússia, infelizmente. Se vencer alguém que não seja Poroshenko, vão ser lançadas ideias sobre a responsabilidade do “regime de Poroshenko no início da guerra no Donbass, vão começar a reconciliar a Rússia com a Ucrânia. E, no final, Putin vai obter uma Ucrânia prontinha dentro de um ou dois anos. Com tal cenário, o nosso país ficaria muito dependente da Rússia: obrigar-nos-iam a comprar gás, petróleo e armas russas. E assim, a Ucrânia vai perder a sua independência». Por fim: «a situação será horrível: o Kremlin vai desestabilizar activamente a situação, em especial o Sul», concluiu Arestovich.

A "necessidade" das provocações
De facto, a extrema-direita e os fascistas, no poder desde o golpe de estado de Maidan, em 2014, cometeram uma série de sucessivas provocações e crimes, com as costas aquecidas pelos EUA e a NATO. Desde os assassinatos de centenas de ucranianos de origem russa, muitos deles enterrados em valas comuns – como revelaram os próprios autores desses crimes – até ao assalto violento dos organismos do estado e de órgãos de comunicação social; desde os muitos saneamentos acompanhados de agressões até à política económica, que não lhe ficou atrás, através da compra reiterada de armas aos EUA, o esfrangalhar da economia e o descurar do bem-estar da população – a qual, nesta altura do ano, em muitos apartamentos da capital, já não dispõe de aquecimento…
A «necessidade» de uma provocação à Rússia por parte de Poroshenko
Neste quadro aventureiro, Poroshenko precisava de provocar a Rússia, uma vez mais, mas em moldes que pudessem angariar novos e mais amplos apoios no Ocidente. A segurança russa tem longa experiência na prevenção destas provocações. Poroshenko está pronto para sacrificar toda a sua frota e as respectivas tripulações. Mas a Rússia, no quadro que ocorreu no passado dia 25, adquire o direito de responder. E o Ocidente já sabe que as respostas da Rússia são de relâmpago e inesperadas (assimétricas).


Os próprios EUA uma vez tentaram entrar nas águas territoriais da URSS, perto de Sebastopol, na Crimeia, porto onde aquela tinha parte essencial da sua marinha de guerra, invocando também, em apoio das suas acções o «direito de passagem livre». Naquela época, isso terminou com um barco de patrulha soviético a atacar um navio de combate americano. Já havia precedentes e Poroshenko e os seus chefes militares não o deveriam ignorar.

A provocação no estreito de Kerch

Na foto, o estreito de Kerch visto do espaço, após a construção da ponte que liga a Crimeia aos territórios russos do Cáucas onde ocorreu o incidente

CréditosAnton Shkaplerov / Roscosmos


A acção de Kiev violou os artigos 19 e 21 da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, ao fazer entrar em águas territoriais russas, sem permissão, três embarcações suas, e revelou incapacidade de responder às exigências legais russas de não realizar manobras perigosas.
Esta acção também não se compagina com o tratado de 2003, que estabeleceu que a Rússia e a Ucrânia tinham liberdade de direitos de navegação no estreito de Kerch, fornecendo regras definidas, a serem aplicadas através duma banda marítima estreita.
Na realidade, a referida convenção das Nações Unidas sobre a lei marítima estipula o direito de passagem de navios de guerra pelas águas territoriais de outro Estado. É o chamado «direito de livre passagem» e, para sua aplicação, basta uma simples notificação. Esta mesma convenção estipula o direito de qualquer estado de fechar as suas águas territoriais, temporariamente ou não, ou introduzir outras restrições nesse regime.
Isso foi o que a Rússia fez no Estreito de Kerch, accionando a segurança da navegação e da ponte de Kerch, que um oficial ucraniano e outros oficiais subalternos ameaçaram por em causa com o envio de cinco embarcações, saídas de Odessa, para aportarem em dois portos ucranianos do Mar de Azov. Os russos dispararam, com seria normal nesta situação, e detiveram a tripulação de três dos navios, tendo três dos seus marinheiros ficado feridos e estando a ser tratados no hospital de Kersh. Dois outros navios de guerra ucranianos regressaram à base de Odessa depois da reação dos barcos-patrulha russos.


E foram as próprias autoridades ucranianas que revelaram que seguiam a bordo vários oficiais dos seus serviços secretos, que obviamente conduziam a provocação, bem como várias armas ligeiras e metralhadoras.
Uma das três mbarcações aprisionadas no porto de Kerch
Alguns dos detidos, referiram nos interrogatórios – e gravaram depoimentos em vídeo, no mesmo sentido – que tinham recebido ordens superiores para montarem a provocação. Os dirigentes ucranianos tentaram, pois, obter uma posição política vantajosa com derramamento de sangue dos seus marinheiros. Kiev deixou de ter compaixão pelo seu povo há muito tempo…
Desde há alguns anos que a passagem, durante o Verão, de navios ucranianos através do Estreito de Kerch, observando todas as regras que agora Kiev critica, enfraquecem a posição ucraniana nesta aventura. De facto, a própria Ucrânia reconheceu o direito da Rússia de introduzir restrições à passagem de navios através do Estreito de Kerch e obedeceu a essas regras ainda no Verão passado. E, por isso, que a histeria de hoje não parece convincente.
Desta vez, violaram normas internacionais e acordos entre os dois países sobre a entrada e saída de navios entre o Mar de Azov e o Mar Negro.

A lei marcial
Logo de seguida, Poroshenko decretou a lei marcial (estado de excepção). Na Rada (assembleia legislativa) a oposição conseguiu reduzir a vigência da lei de 60 para 30 dias e garantir, sem condicionantes, a realização das eleições nas datas previstas.
Ainda assim, o compromisso alcançado na Rada jogou a seu favor, mesmo que isso possa ser apresentado pela oposição como um recuo. O mais importante é que a lei marcial foi introduzida, embora parcialmente. Agora ele tem a oportunidade de a usar nos seus decretos com as palavras «com base na lei marcial», e poderá exigir o que quiser.
Os efeitos e os riscos da lei marcial
É preciso ter em conta que falamos da Ucrânia, onde, como é sabido, desde a presidência de Yushchenko, as leis apenas se cheiram para sentir o odor do seu espírito e não para cumprir o que, na sua letra, estipulam.


Assim, depois da lei marcial e tentando adivinhar as acções adicionais de Poroshenko e da oposição, é muito provável que esta finja que não estará em vigor a lei marcial… Mas, como se costuma dizer, se Poroshenko for derrotado nas urnas, «enquanto o pau vai e vem, folgam as costas»…
Se o terror oculto da SBU (serviços de segurança) e dos «esquadrões da morte» nazis já não parecem suficientes para assustar a oposição, esta precisa mais do que nunca de actuar em condições democráticas, para bem do seu povo e por relações normais com a vizinha Rússia.
Na prática, esta medida dará poderes ao Governo para limitar as manifestações públicas, interferir com o que é divulgado pelos media, obrigar os cidadãos a realizar «tarefas socialmente necessárias», como trabalharem em instalações de defesa.
A lei marcial, que nunca foi declarada na Ucrânia depois na anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, nem durante a guerra que ainda se prolonga no leste do país com forças militares de duas regiões (Donbass e Donetsk) que em referendo declararam a sua independência de Kiev – e que mantêm poderes regionais próprios, eleitos, forças de ordem e de defesa próprias, certamente com o apoio do governo russo – poderá querer aplicar-se a elas, o que poderia elevar muito as consequências do conflito, que já provocou mais de dez mil mortos desde o seu início, apesar de silenciado na comunicação social ocidental.

Introduzir a lei marcial ou o estado de emergência é sempre mais simples do que cancelá-lo. Os órgãos governamentais acostumam-se a trabalhar em regime descontrolado e a burocracia e os políticos começam a entender o encanto de uma ditadura, porque fazem parte dessa ditadura. O trabalho da oposição é complicado, e vai perdendo a sua influência. Assim, prolongar a lei marcial será mais natural, para Poroshenko, do que pôr-lhe fim.

O que os EUA e a NATO querem da Ucrânia
A Ucrânia divide uma fronteira terrestre e marítima de quase 1500 milhas com a Federação Russa, a mais longa fronteira ocidental com o país.
Estreito de Kerch e a longa fronteira da Ucrânia com a Rússia


A NATO quer que a Ucrânia seja «o eixo decisivo dos planos dos EUA» e dos seus aliados da aliança, para criar «um cordão militar que separe a Rússia da Europa», componente de uma estratégia sinistra que arrisca o confronto Oriente/Ocidente.
Vladimir Putin referiu, porém, que «a aparição nas nossas fronteiras de um poderoso bloco militar [...] será considerada pela Rússia como uma ameaça directa à segurança de nosso país», acrescentando: «os mísseis russos terão como alvo a Ucrânia se esta ingressar na NATO ou permitirem que o escudo de defesa antimísseis de Washington seja instalado no seu território».

Histeria anti-russa
A histeria anti-russa continuou nos dias seguintes à provocação dos navios à entrada do Mar de Azov, com a manifestação de arruaceiros nazis nos últimos dias, com elevada capacidade de destruição, fazendo de um centro comercial o seu alvo. Os ocupantes usavam máscaras negras e ostentavam a bandeira da organização juvenil militante "Sokil" (Falcão), uma ramificação do partido de extrema-direita Svoboda (Liberdade). O Svoboda opõe-se violentamente à influência russa e à «decadência» do Ocidente liberal, e está ligado a grupos neonazis na Ucrânia. Inicialmente conhecido como o partido nacional-social da Ucrânia, os políticos do Svoboda descreveram o partido como «a última esperança da raça branca», citando com aprovação o Mein Kampf em reuniões de conselho e organizando acampamentos de verão para crianças, treinando os jovens para jogar, escalar montanhas e disparar sobre os russos.


No centro comercial, a polícia escoltou alguns dos ultranacionalistas para fora do prédio, mas muitos ficaram lá dentro, como relatou o Korrespondent.net. Lá dentro culparam empresários russos pelo conflito do seu país com a Rússia, e gritaram: «exigimos acabar com o financiamento do terrorismo e a morte de soldados ucranianos por dinheiro que está a ser retirado da Ucrânia através deste centro comercial» e «fora com os negócios russos na Ucrânia!».
Há dois dias, Poroshenko decidiu proibir a entrada de homens russos, com idades entre os 16 e os 20 anos, justificando a medida com a necessidade de evitar a criação de «exércitos privados russos». Na prática vai impedir a reunificação na época natalícia de famílias, pois muitos cidadãos têm as suas famílias na Ucrânia. O governo russo já declarou que não iria responder na mesma moeda.
Para além deste episódio ficaram para trás operações como a da falsificação do assassinato do jornalista russo Arkady Babchenko, a pretexto de ser anti-Putin, que acabou por ser desmascarada internacionalmente.

O caso da Igreja Ortodoxa Ucraniana

Nesta situação há que estar atento às consequências da lei marcial para a Igreja Cristã Ortodoxa Ucraniana.
É muito importante para Poroshenko controlar uma estrutura que é autoritária e ramificada e que pode ser usada como um mecanismo para arrebanhar votos. Poroshenko sabe muito bem que nas aldeias as pessoas geralmente votam «de acordo com o que o Padre diz durante o culto da igreja». Ele precisa que os padres preguem diariamente que Poroshenko é a única escolha digna entre os crentes em Cristo.


A Igreja Ortodoxa Ucraniana, do Patriarcado de Moscovo, é a única estrutura religiosa totalmente ucraniana, gozando de enorme autoridade e do apoio da população em praticamente todas as regiões da Ucrânia. Esta estrutura, apesar de todas as tentativas de a fazer permanecer fora da política, mobilizou-se abertamente em oposição a Poroshenko. Eventuais conflitos com a Igreja Ortodoxa Ucraniana não convêm, por isso, ser tornados públicos.

sábado, 24 de novembro de 2018

Estas coisas não podem voltar a acontecer, por António Abreu



Tem-se dado prioridade depois do abatimento da estrada Borba - Vila Viçosa, à recuperação dos corpos das vítimas encarcerados em viaturas e presos  nos blocos de mármore, resíduos da exploração.
Mas há que apurar os termos dos licenciamentos da exploração das  pedreiras, com particular relevo para as garantias de segurança a que as empresas se obrigavam, fiscalização continuada por parte da entidade licenciadora e as suas interações com as empresas e as conclusões a que ia chegando, quem fez os pedidos, e a quem, dos estudos de estabilidade e quem se devia pronunciar sobre eles, analisando os despachos que tiveram dessas entidades.
Ouvi um empresário dizer "que já tinha pedido a interdição do trânsito automóvel na estrada que abateu para ela ser apenas usados pelas viaturas e pelos trabalhadores das empresas”!!! Donde se deduz que o empresário sobre-explorador do mármore não se importaria que fossem trabalhadores das empresas e respetivas viaturas a serem vítimas da catástrofe!!! E tudo em nome da liberdade da circulação dessas viaturas.
Entretanto com a "desclassificação” da estrada nacional e a sua passagem a municipal (nome feio este da desclassificação quando se tratou apenas de desresponsabilização…), municípios passaram a ter engenheiros civis com capacidades de fiscalização e de reparação das estradas “confiadas? Não.
E receberam recursos para fazer as caras obras de recuperação nem para analisar a estabilidade das estruturas para fazerem adequada fiscalização? Também não. Todos estes processos de "descentralização estão viciados. Vários governos quiseram libertar-se de pessoal da administração central e local mas não criaram condições para que os municípios os poderem voltar a ter em especialidades essenciais para a sua ação.
É que uma responsabilidade desta natureza não é só poder contratar empreitadas de beneficiação -poder especialmente atrativo, só por si, para muitos autarca. Mas isso  não esgota a responsabilidade que se assume.
É um horror olhar para as imagens captadas por drone daquelas explorações e da estrada da morte que para ela contribuíram escavações para além de quaiquer razoabilidade.
A tais “empresários” só foi possível fazer tal barbaridade com  o “fechar de olhos” de alguns organismos do Estado. Isto tem que ser apurado.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge


"Ce n'est pas assez d'avoir l'esprit bon, mais le principal est de l'appliquer bien."

"Não basta ter boa cabeça, o importante é usá-la bem."

René Descartes (1596-1650) no Discours de la Méthode (1637)

Em Israel: depois dos ataques a Gaza e do cessar-fogo entre as partes, o quê?, por António Abreu

Bombardeamento a Gaza em 13 de Novembro



Os acontecimentos recentes
Esperava-se que hoje às oito da próxima 2ª feira (TMG) Netanyahu se dirigiria ao Knesset anunciando que eleições eram inevitáveis, remetendo-as para o fim do ano. Mas mnão é certo que isso aconteça já que o primeiro-ministro ainda continuou a pressionar os parceiros da coligação para não as precipitarem enquanto já acertava o cunho eleitoralista do próximo orçamento ano. 
Para trás ficou o leitmotiv  desta crise governamental:  milícias palestinianas de Gaza, incluindo o movimento islamita Hamas, terem concordado na terça-feira num cessar-fogo após o recrudescer de ataques do domingo anterior, com o lançamento em pouco mais de 24 horas de mais de 460 rockets da Gaza para Israel e 160 bombardeamentos israelitas sobre o enclave, para destruir casas, infraestruturas e cobrir os assassinatos a dirigentes palestinianos seletivos por agentes israelitas descaracterizados.
Nessa altura "os esforços do Egito permitiram alcançar um cessar-fogo entre a resistência e o inimigo sionista, e a resistência vai respeitá-lo enquanto o inimigo sionista o respeite", anunciaram os grupos num comunicado conjunto assinado pelo Centro de operações conjunto das organizações palestinianas.
O Egito, com apoio das Nações Unidas, foi intermediário para pôr termo à mais grave escalada de violência entre milícias palestinianas e Israel desde 2014, com um balanço de 16 mortos, onde se incluem 14 combatentes palestinianos, um militar israelita e um civil palestiniano em Israel.
Não se devem, porém, ignorar projetos de alguns para criar a partir deste pequeno território um “novo” estado que se prolongaria para a península do Sinai, gerido pelo Hamas e pelo Egipto e que formalizaria nova delapidação da Palestina. Mas também se deverão ter em conta os projetos da Rússia, no que respeita ao gás natural que exporta, cujas condutas poderão atravessar vários destes países até ao Egipto.

Os antecedentes imediatos
A escalada iniciou-se com a declaração de Netanyahu em Paris no 100º aniversário do armistício do final da Primeira Guerra de que não havia solução negocial para o seu conflito com Gaza.
Seguiu-se uma operação especial israelita no interior da Faixa de Gaza nessa noite de domingo, onde foram mortos sete milicianos palestinianos e o soldado israelita, seguida na tarde de segunda-feira pelo lançamento em massa de rockets durante 24 horas seguidas.
Por sua vez, as forças israelitas bombardearam dezenas de posições das milícias palestinianas, incluindo a Al-Aqsa, a estação televisiva do Hamas na Faixa de Gaza, que deixou de emitir após o ataque.

As reações
A Organização de Libertação da Palestina (OLP) responsabilizou Israel pela perigosa escalada da violência na faixa de Gaza bloqueada e pelo terror. As autoridades palestinianas denunciaram os ataques israelitas nos dois dias anteriores contra estruturas civis no enclave de Gaza, afirmando que os dois milhões de palestinianos que sofreram o bloqueio ilegal de Israel durante os últimos 12 anos foram atacados e não têm onde refugiar-se. Os bombardeamentos deliberados de Israel a edifícios residenciais, a uma estação de televisão e a outras instalações civis são para a OLP “crimes de guerra e Israel terá que sofrer as consequências das suas ações”.
A OLP declarou-se comprometida em defender o direito do seu povo a viver em paz, segurança e liberdade, utilizando todas as ferramentas diplomáticas e legais disponíveis. E concluíram que “com a ajuda do Egipto e de outras partes interessadas, continuaremos os nossos esforços sérios para conseguir a reconciliação e a unidade da Palestina
Em Ramallah, o ministro palestiniano dos Negócios Estrangeiros, Riyad al-Malik, solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para discutir os ataques militares israelitas contra a faixa de Gaza.
Por seu lado, a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) apelou a todos os amigos da Palestina no mundo para que se solidarizem com Gaza sob ataque de Israel. «Este ataque é uma tentativa de suprimir as conquistas da Grande Marcha de Retorno, na qual milhares de palestinianos na faixa de Gaza exigiram o direito fundamental de regressar e de romper o bloqueio», considera a FPLP.
O Hamas considerou a demissão de ministro israelita uma “vitória política para Gaza, que conseguiu pela sua resistência minar o cenário político de Israel", afirmou hoje num comunicado o Hamas, que governa o enclave palestiniano de Gaza. O Hamas já há algum tempo trocou uma relação preferencial apoios com o Irão por outra com o Qatar que lhe tem feito chegar diferentes tipos de apoios.
Para o jornal Haaretz, Netanyahu e as Forças Armadas de Israel agiram, contra vários ministros israelitas para evitar que a guerra fosse evitada no último minuto.

Os silêncios “justificados” de Netanyahu
Falando no Memorial a Ben-Gurion, fundador do estado de Israel, Netanyahu afirmou, e citamos, "Em tempos normais, um líder deve estar atento ao coração das pessoas e o nosso povo é sábio. Mas em tempos de crise, ao tomar decisões críticas no campo da segurança, o público nem sempre pode ser um parceiro nas considerações cruciais que devem ser ocultadas do inimigo.
Nesses momentos, a liderança não é fazer a coisa fácil. A liderança é fazer a coisa certa, mesmo que seja difícil. A liderança às vezes enfrenta críticas quando se conhecem informações confidenciais que se não podem compartilhar com os cidadãos de Israel e, nesse caso, com os residentes do Sul, que eu amo e aprecio muito.
Eu ouço as vozes dos moradores do sul. Acreditem em mim, eles são preciosos para mim, suas palavras penetram no meu coração. Mas junto com os chefes das forças de segurança, vejo o quadro geral da segurança de Israel, que não posso compartilhar com o público. Eu gostaria de poder compartilhar com os cidadãos de Israel tudo o que eu sei, mas com a segurança de Israel ela será essencialmente reservada. Os nossos inimigos pediram um cessar-fogo e sabem muito bem por quê.
Não posso elaborar nossos planos para o futuro. Determinaremos as condições certas e os tempos certos para o Estado de Israel, que são corretos para a segurança de nossos cidadãos".
Para o Haaretz, houve implicitamente referência à frente norte (Síria, Líbano, com influência russa) no discurso de Netanyahu no memorial.
Ainda segundo o mesmo jornal, o chefe do Exército apresentou ao conselho de ministros cenários sombrios: ou uma guerra na qual Israel conquistava a Faixa de Gaza, ou semanas de violência após as quais ambos os lados regressariam ao ponto de partida.

Condicionantes
Os interesses da Rússia na Síria e no Líbano, a norte, estão a limitar as opções militares de Israel. Para o jornal, jogar xadrez com o Hezbollah, que governa o Líbano, é uma coisa. Tentar descobrir o que a Rússia quer, na Síria e talvez também no Líbano, mesmo que o Hezbollah lá esteja a tentar fabricar armas, é um desafio completamente diferente. Daí a aparente “cautela” de Israel lidar com o Hamas na Faixa de Gaza, ao aceitar este cessar-fogo. O incidente em que caças F-16 se esconderam atrás dum avião russo, o que levou a que este fosse atingido por fogo sírio, levou a um sério aviso por parte da Rússia de que ambos os países têm que coordenar melhor as suas iniciativas políticas e militares na região.
Vários analistas, com preocupações bem diferentes dos falcões ultraortodoxos israelitas, sustentam que Israel tem todo o interesse em manter boas relações com a Rússia numa situação que é tão frágil e com interesses tão contraditórios e potencialmente violentos e que não é do interesse de ambos os países que a guerra na Síria se transfira para outros países, lembrando que fi a Rússia que manteve negociações com Teerão e vários grupos apoiados pelos iranianos para que estes retirassem do sudoeste sírio, próximo do norte de Israel.
Acordos entre Israel e China

Por outro lado, como referimos em artigo anterior a China passará a controlar nos próximos dois anos o essencial da indústria agroalimentar israelita, da sua alta tecnologia e das suas trocas internacionais, devendo seguir-se entre as partes um acordo de comércio livre, em que único sector importante da economia israelita fechado ao capital chinês é o do armamento. E não aceitará a instabilidade provocada pelas teorhinansões entre Israel e a Palestina. Os EUA poderão “puxar as orelhas” a Netanyahu por isso, mas não têm capacidade para se constituir como alternativa credível.
A confrontação permanente entre Israel e a faixa de Gaza não tem apenas motivações racistas. Israel quis controlar as fontes de gás natural existentes nas águas de Gaza, evitando assim acordos com a Turquia e o Egipto quanto a condutas de petróleo vindas da Rússia ou do Qatar. E apesar da soberania nessas águas não lhe pertencer fez apelos a investidores ocidentais para aí iniciarem a exploração.

A derrocada da coligação e a perspetiva de eleições antecipadas
O ex-ministro Lieberman já tinha entrado em confronto com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu durante o acordo que Israel estabeleceu permitindo ao Qatar armazenar combustível e transferir dinheiro para o Hamas.
Defensor da separação física de judeus e árabes, Lieberman considera insensato dar um poder ilegítimo em Gaza ao Qatar e recursos para o Hamas. Paras ele não há dúvida de que, se esta decisão faz descer a pressão a curto prazo, permitiria, porém, um ressurgimento de atos de guerra por parte da Irmandade Muçulmana, a longo prazo. Segundo o mesmo jornal, ao contrário da versão da imprensa internacional, Avigdor Lieberman estaria interessado na paz, enquanto o aparelho militar tinha a intenção de manter o status quo e que Netanyahu desse continuidade ao projeto da Grande Israel Zeev Jabotinsky (1).”
Nesta 6ª feira Netanyahu disse ao The Times de Israel que ainda tentaria "preservar o governo de direita", mas Israel poderá estar à beira de eleições agora quase inevitáveis, depois do primeiro-ministro ter rejeitado a exigência - um verdadeiro ultimato - do ministro da educação Naftali Bennett em ser designado ministro da Defesa. Essas eleições seriam consequência da saída, já anunciada, da coligação governamental do partido de Bennett. O sionista religioso Bennett é muito mais extremista que Lieberman.
Segundo o próprio Netanyahu a rejeição do ultimato baseou-se na sua intenção de manter a pasta da Defesa "à luz dos desafios críticos enfrentados atualmente pelo Estado de Israel".
De acordo com uma sondagem, realizada no próprio dia destes acontecimentos, quase três quartos dos israelitas apoiam as opiniões expressas por Liberman. Muitos israelitas que vivem a menos de 30 quilómetros da Faixa de Gaza, numa região alvo dos mísseis desde a governação de Gaza pelo Hamas em 2006, manifestaram-se pelo cessar-fogo, exigindo uma política de segurança a longo prazo.
A imprensa israelita não divulga sondagens de opinião sobre os habitantes de Gaza.
O Hadash e o Partido Comunista (PCC) de Israel pediram eleições logo após a demissão Avigdor Lieberman, afirmando que “chegou a hora de trazer um governo melhor para Israel. Chegou a hora de eleições democráticas e quanto mais cedo melhor. Os negócios correntes não podem ser deixados nas mãos de um bando de fascistas e colonos”, e que a renúncia de Lieberman “revelou o que já sabíamos há muito tempo - este governo não tem uma estratégia para acabar com o bloqueio continuado da Faixa de Gaza, a fome do povo palestino em Gaza, a ocupação contínua dos territórios palestinos e seu abandono dos moradores do sul de Israel”.
Através de um comunicado, o chefe do governo, reagiu de imediato sublinhando a importância de fazer todos os esforços para preservar o governo de direita e não repetir o “erro histórico” de 1992, quando o governo de direita foi derrubado, a esquerda chegou ao poder e trouxe, segundo ele o “desastre de Oslo” para o Estado de Israel.
Esqueceu-se de referir o assassinato de Isaac Rabin em 1995 por um adversário desses acordos estabelecidos com Yasser Arafat.
O ministro da Defesa cessante, Avigdor Liberman, ao anunciar a sua renúncia ao cargo na 4ª feira, disse que o cessar fogo e os acordos com o Hamas, tinham sido uma “capitulação face ao terror”.
Ao retirar também o seu partido, o Yisrael Beytenu, da coligação, Liberman deixou o governo com uma maioria estreita, com apenas 61 em 120 deputados no Knesset. O “Lar judaico” (Jewish Home), partido nacionalista, de extrema direita e religioso, que dispõe de 8 lugares, declarou então, rapidamente, que derrubaria o governo se o seu líder Bennett não recebesse a pasta da Defesa (2).
Quando da formação deste governo, a OLP referiu “Este Governo visa matar, e reforçar a colonização”. E acrescentou que era “um Governo de união para a guerra e contra a paz e a estabilidade na nossa região”.
Não devem ser ignorados, no início deste mês, e antes destes acontecimentos, ter começado a ser discutida no Knesset uma proposta de lei que prevê que os culpados de terrorismo possam ser condenados à morte e sem acordo unânime dos juízes do tribunal. Netanyahu saudou, dias depois, a reimposição de todas as sanções dos EUA ao Irão, com o argumento de que este país punha “em perigo o mundo inteiro”.
Bennett há muito criticava a relutância do governo Netanyahu em responder com mais força aos ataques com rockets sobre Gaza, e defendia incursões terrestres na Faixa de Gaza.
Embora, em teoria, Netanyahu pudesse trazer outro partido para a coligação em vez do “Lar Judaico”, todos os partidos da oposição declararam a sua intenção de concorrer contra ele e a possibilidade de se lhe juntarem é altamente improvável (3).
Fez uma série de telefonemas para os chefes da coligação dizendo que não havia razão para desmantelar a coligação neste momento. Contrariou as declarações de Bennett de que se iria para eleições antecipadas, apesar de uma fonte do “Lar Judaico”, no entanto, ter declarado que “ficou claro que, à luz da posição resoluta do Presidente do Kulanu (partido que nas eleições de 2015 apareceu pela primera vez, obtendo logo 10 deputados, e do Ministro Kahlon (que advogou eleições antecipadas], haver a necessidade de ir a eleições o quanto antes sem possibilidade de o atual governo continuar”. Um eventual convite ao ultraortodoxo Shas, que tem visto as suas propostas mais graves serem aplicadas pelo primeiro-ministro, não garante a maioria a novo governo liderado pelo Likud e os contactos com Khalom e o Kulanu parecerem ir ser tentados. O fim-de-semana passado terá sido decisivo para um “arranjo” de última hora.
Ainda não há, portanto, data para as eleições que estavam já normalmente marcadas para novembro de 2019. Alguns partidos esperam agora que elas sejam realizadas entre março e maio, com Netanyahu a pressionar para uma data posterior, se possível no final do ano.
Para as eleições de 2015 já vigorou a meta de 3,25% em vez dos anteriores 2% para poder haver representação parlamentar. Essa nova lei e as sondagens finais das intenções de voto para desse ano, impulsionaram a constituição, à esquerda, da Lista Conjunta (integrada por quatro pequenos partidos árabes, que no conjunto somaram 9 deputados e o Partido Comunista, o Hadash, com 4), que antes se estimava que pudesse ficar como terceira força parlamentar, com 13 deputados. Porém, também na oposição, a União Sionista alcançou os 24, Os Verdes ficaram apenas com 1. A barreira de 3,25% ameaçou a sobrevivência dos partidos Meretz (esquerda) e do “Lar Judeu” (ultradireita), do ministro de Assuntos Exteriores Avigdor Libermann, que poderiam ser excluídos da nova Knesset. O que não aconteceu, tendo o Meretz ficado pelos 5 e o “Lar judeu” pelos 8. A União Sionista, composta pelo Partido Trabalhista, de Herzog, defendendo o congelamento dos colonatos e a solução de dois estados, teve 18 deputados e o Hatnuah, de Tzipi Livni, 6. O primeiro social-democrata, de centro-esquerda e o segundo liberal, de centro com atitudes pacifistas, seculares e ambientalistas.  Os restantes partidos de oposição de direita ou esquerda, somaram 17 deputados.
Paradoxalmente, foi exatamente Libermann que, antes das eleições de 2015, propôs elevar o patamar que dá acesso à Câmara, para interromper a marcha dos partidos árabes e dos comunistas, que chamou de “traidores de Israel”, o que não conseguiu, mas arriscando a não entrada do seu próprio partido.

(1)    Foi o criador do revisionismo sionista do Likud, feroz opositor do socialista Ben Gurion. Os conflitos entre judeus e árabes na Palestina foram adquirindo contornos cada vez mais amplos, à medida que crescia a oposição dos líderes árabes ao estabelecimento de um estado nacional judaico na região. Em 1929 Jabotinsky viajou para participar do 16º Congresso Sionista. Sob pressão dos árabes, os ingleses não permitiram o retorno de Jabotinsky, que se assumiu como sionista fascista. Ao mesmo tempo, surgem novas lideranças sionistas mais radicais que Jabotinsky que pregavam o combate contra o mandato britânico. Surgem grupos como o Irgun e o Lehi. Mas este percurso político interno em Israel, mesmo antes da criação do estado pelas Nações Unidas até ao presente, poderá ser tema para um outro artigo.  A história de Israel está indissociavelmente ligada à continuada tensão no Médio Oriente.

(2)    Na atual composição do governo participam 5 dos 10 partidos com representação no Knessett: o Likud, de Benjamin Netanyahu, com 30 deputados, o Kulanu (dirigido por  Moshe Kahlon, anterior ministro do Likud), com 10, o ultraortodoxo Shas (acrónimo hebreu dos Guardiões Sefarditas da Torah, dirigido  pelo rabino, mentor espiritual, Ovadia Yosef e pelo chefe político Eli Yishai), com 7, o Judaísmo Unido da Tora (dirigido por Yaakov Litzman e por Moshe Gafni) com 6 e a formação ultranacionalista Bayit Yehudi (ou Lar Judaico, dirigida por  Naftali Bennett) com 8.


(3)    Na vigência dos governos de Netanyahu, chefe do Likud e chefe do governo de 1996 e 1998 e de 2009, por indigitação de Shimon Peres, até hoje (para não contar também com os governos de Ehud Barak de 1999 a 2009), têm havido sucessivas crises, na última das quais Netanyahu demitiu vários ministros e isso acarretou eleições em 2015 que deram origem à atual coligação de direita que, agora, corre o risco de não concluir a legislatura de 4 anos. Nessas eleições para garantir a vitória da direita, Netanyahu não se coibiu de fazer, em vídeo no Facebook, o apelo racista contra os seus concidadãos árabes: “O Governo de direita está em perigo. Os eleitores árabes estão acorrendo em manada às urnas. Organizações de esquerda estão a transportá-los”

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"When small men begin to cast big shadows, it means the sun is about to set."
"Quando homens baixos começam a lançar grandes sombras é sinal que o sol se vai pôr."
Lin Yutang (escritor chinês de expressão inglesa, 1895-1976)


"João Abel Manta, o Rigor da Ironia", por Manuel Augusto Araújo, publicado no seu blogue Praça do Bocage



JAMANTA1


João Abel Manta adquiriu um enorme reconhecimento público com os cartoons que publicou no pós-25 de Abril no Diário de Lisboa, onde, com grande ironia e bem fundada esperança na Revolução de Abril, registava, com uma pontaria que nunca falhava o alvo, os sucessos em que ela se enredava. Paradoxalmente, o que o tornou mais conhecido ocultou as várias disciplinas das artes, incluindo as artes gráficas, em que já tinha realizado um notável trabalho que o colocava e coloca entre os maiores artistas portugueses de sempre.

Na obra gráfica de João Abel Manta o grande destaque é o dos cartoons, anglicismo que propositadamente utiliza para acentuar o carácter de intervenção desse seu trabalho. Essa sua urgência de intervir, política e culturalmente, inicia-se nos anos 40 na revista da Arquitectura até à colaboração, relativamente recente, com o JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias. Fá-lo com uma imaginação transbordante, uma fina e sofisticada ironia impermeável ao demagógico e ao fácil e uma quase insuperável qualidade oficinal em que apoia esse empenho no detalhe, no pormenor que nunca se distrai de uma aguda visão global.

Presente aqui, como na sua pintura e na sua arquitectura, João Abel Manta tem um grau de exigência, de rigor, que é um valor acrescentado à sua criatividade, originalidade, saber, inteligência e erudição, à sua dignidade sem transigências com um mundo medíocre de que faz uma crítica aguda onde traça as geografias desse universo conceptual, do provincianismo e o anacronismo universal dessa mentalidade.

Isso está em toda a sua obra e está bem presente nos cartoons. Os mais conhecidos, como se referiu, são os cartoons que em 1974 e 1975 acompanharam o que se viveu em Portugal durante esses dois anos de todas as esperanças. Com o 25 de Novembro, o cartoonista João Abel Manta que tinha durante dezenas de anos enfrentado processos, lutado contra o impiedoso lápis azul da censura sem um desfalecimento, com uma coragem exemplar, desaparece do convívio público quase diário com que, entusiasticamente, cartografava a Revolução de Abril.
Eram comentários urgentes, acutilantes, em cima do acontecimento. O que era e continua a ser espantoso é nunca perderem o norte, acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu. A história de Portugal entre 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os cartoons de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do País está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Qualidade sem flutuações
A sua obra gráfica é muitíssimo mais extensa que essescartoons e é isso que se pode ver, embora que limitadamente, na exposição da Galeria Valbom no que possibilita a percepção do imenso trabalho, da diversidade desenvolvida pelo artista em mais de cinquenta anos com uma qualidade que nunca sofre flutuações.

João Abel Manta é o que aí se mostra e é muitíssimo mais que isso. Sem referir o seu trabalho de arquitectura, a sua formação académica, há que referir a sua pintura que é a afirmação da defesa da arte contra a banalidade, evidenciando um conhecimento, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

O novo, na pintura de João Abel Manta, nunca foi o desejo superficial de inovar, mas a ferramenta que usa como meio imprescindível para exprimir a sua visão própria. Decorre de uma necessidade do processo criativo. Não lhe é exterior, o que liberta a sua pintura do uso mecânico, burocrático, das linguagens pictóricas em uso ou desuso. Não tem a pretensão de explicar o mundo mas penetra na sua opacidade, descasca a sua insuportável estranheza. Humaniza-o e revela-o.

Num ano em que João Abel Manta comemora os seus 90 anos e em que a história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas mais diversas contradanças, o tem deliberadamente esquecido, é tempo para se realizar uma retrospectiva de toda a sua vasta e poliédrica obra.


domingo, 21 de outubro de 2018

O assassinato do jornalista saudita do Washington Post vai alterar em alguma coisa as relações dos EUA com a Arábia Saudita?

Apesar do grande suspense sobre o futuro das relações entre os EUA e a Arábia Saudita não se esperam grandes alterações nelas. Os dois países estão há muito ligado entre si por se completarem estrategicamente na cena mundial. A questão agora é, face ao repúdio universal do crime cujos contorno vão sendo conhecidos, os EUA acordarem com a Arábia Saudita uma interpretação do ocorrido que deixe de fora as responsabilidades do reino de Saud.
Em 2 de outubro, Khashoggi foi ao consulado saudita para obter os documentos necessários para que ele se pudesse se casar com a noiva turco; não foi visto desde então. As autoridades turcas acusaram Riad de matar Khashoggi, um fervoroso crítico do príncipe herdeiro saudita, o que este último negou veementemente. No entanto, à medida que surgem mais provas, parece difícil para Riade negar qualquer envolvimento.


Mas, apesar das duras advertências e ameaças trocadas entre Washington e Riade, é improvável que esse incidente cause grandes desajustes nas suas relações, embora certamente isso tenha um impacto no seu relacionamento no curto prazo. Como a base para a aliança estratégica entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita continua sólida e mutuamente benéfica, a sua relação bilateral interdependente permanecerá fundamentalmente inalterada. Mike Pompeo partiu para Riade na passada terça-feira para dar os retoques no cenário do crime perpretado pelos seus amigos e torná-lo credível para os amigos da NATO e da EU.

 Em concreto, a importância da Arábia Saudita para os EUA é a seguinte.
Em primeiro lugar, a Arábia Saudita desempenha um papel fundamental no mercado energético mundial por meio de sua cooperação com os EUA. Enquanto a administração Trump pretende cortar as exportações de petróleo do Irão, espera que a Arábia Saudita vá compensar a escassez, e, assim, a sua parceria se tornou ainda mais importante.
Em segundo lugar, a Arábia Saudita continua a ser um importante aliado dos EUA na sua luta contra concorrentes e rivais, incluindo o Irão. Em particular, os EUA podem manter a sua cooperação militar e de segurança com outros pequenos países árabes na região do Golfo, em virtude da influência da Arábia Saudita.
Em terceiro lugar, sem que a opinião pública saudita estivesse a seu favor e sem o apoio financeiro da Arábia Saudita, os Estados Unidos dificilmente poderiam apresentar-se como intervenientes em processos de paz no Médio Oriente.
Em quarto lugar, como um importante parceiro comercial dos EUA e comprador de armas, bem como um dos seus principais países credores e principais parceiros financeiros, a Arábia Saudita desempenha um papel essencial para ajudar a manter o emprego e a estabilidade económica nos EUA.
Em Quinto lugar, a Arábia Saudita ajuda a promover o intercâmbio entre os EUA e o mundo islâmico em geral.


 Mas os EUA também são essenciais para a Arábia Saudita.



Primeiro, os EUA fornecem um forte impulso para a modernização da Arábia Saudita e da sua indústria de petróleo.
Segundo, os EUA continuarão a ajudar a Arábia Saudita a manter a estabilidade económica e o desenvolvimento.
Terceiro, como uma protegida dos EUA, a Arábia Saudita pode resistir melhor à pressão do Ocidente e evitar uma "revolução de cores" que os EUA foram tão pressurosos a instigar noutros países árabes.
Quarto, os EUA é o melhor mercado de investimento para o enorme fundo soberano da Arábia Saudita.
Quinto, os EUA podem ajudar o reino do petróleo a melhorar os seus direitos de discurso e poder normativo internacionais. Por meio de sua aliança com os EUA, a Arábia Saudita pode manter um status internacional que supera a sua força nacional geral para verificar e equilibrar suas relações com outras grandes potências.

Olhando para trás, para o relacionamento EUA-Arábia Saudita nos últimos 70 anos, até mesmo grandes eventos, incluindo os ataques terroristas de 11 de setembro nos EUA em 2001, não abalaram as bases para a cooperação. O assassinato do jornalista só irá adicionar um pouco de atrito temporário ao relacionamento. Apesar disso, a Casa Branca está sob forte pressão para pressionar Riade e o Partido Democrata dos EUA certamente aproveitará a oportunidade para atacar o governo Trump por ignorar o "mau" histórico de direitos humanos de um país, especialmente quando a eleição de meio de mandato está próxima (esquecendo o forte aliado que, apesar disso, Barack Obama foi para si .
 
No entanto, o incidente não exercerá muita influência nas eleições intercalares, em comparação com o desempenho económico dos EUA e com o crescimento do emprego.
O incidente terá um impacto negativo na relação entre a Arábia Saudita e a Turquia, até certo ponto. Os dois países têm estado em desacordo muito antes disso, como resultado de divergências sobre a Irmandade Muçulmana, Catar e Síria. Mas mesmo assim, a Turquia e a Arábia Saudita criaram um grupo de investigação para analisar conjuntamente o caso.
Independentemente do boicote da conferência Future Investment Initiative em Riade, também chamada de "Davos in the Desert", o incidente também não deverá ter grande impacto na economia da Arábia Saudita ou no preço do petróleo enquanto a relação EUA-Arábia Saudita continuar geralmente estável.
 

sábado, 13 de outubro de 2018

Aznavour deixa-nos nos 40 anos da morte de Brel

A morte de Charles Aznavour nos 40 anos da morte de Brel, lembram-nos grandes perdas, que permanecerão vivas - espero eu - por futuras gerações
Dois estilos e poesias bem diferentes. Duas vozes inconfundíveis. Que sensibilidade para a poesia e a música teríamos nós sem alguns intérpretes e autores portugueses mas também franceses, norte-americanos, ingleses e galegos, que fizeram esta viagem connosco?
Referir aqui "Dans le Port d'Amsterdan" resulta de ser a sua canção mais popular, como outras, brejeira, aqui muito voltada para a a frugalidade, os sonhos e a bebedeira dos marinheiros e a infidelidade feminina que os procura no final do repasto.



Dans le port d'Amsterdan


Dans le port d'Amsterdan
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam

Dans le port d'Amsterdam

Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes


Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant


Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière



Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"Think of how stupid the average person is, and realize half of them are stupider than that."

"Pensemos na estupidez média das pessoas e notemos que metade delas é mais estúpida ainda."


George Carlin (humorista americano, 1937-2008)

(pensamos nos brasileiros...)