segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Venezuela, a América Latina e o Pentágono


Os crimes da oposição na Venezuela

No passado dia 14, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou manifestantes opositores de incendiarem um jovem por pensarem que não pertencia aos seus grupos de oposição, depois de um novo dia de confrontos com a polícia de jovens com máscaras, arremessando pedras e cocktails molotov contra a polícia. Ao longo das últimas semanas, com a oposição da MUD a usar o mesmo tipo de intervenções de destruições, saques, incêndios, delapidando um património incalculável, já morreram 60 pessoas, incluindo polícias, manifestantes e contramanifestantes, sendo que parte dessas mortes se devem a tiros certeiros na cabeça por parte de snipers não identificados.


 

Maduro garantiu no dia em que ocorreu o crime contra o jovem, que vários dos “chefes de grupos de mercenários” opositores já estão presos e pediu justiça por parte dos organismos do Estado competentes.

A ofensiva contra revolução bolivariana acentuou-se muito depois da morte de Hugo Chávez.

O Papa Francisco teve um papel de relevo na tentativa de parar as confrontações na Venezuela, quando em final do ano passado juntou antigos primeiros-ministros latino-americanos para se iniciar um diálogo. Por iniciativa de sectores da oposição esse diálogo então fracassou. Questionado agora por jornalistas sobre a possibilidade de relançar a iniciativa para o diálogo, o Papa Francisco criticou a falta de interesse da oposição: "Acho que (o diálogo) deve ocorrer agora, mas que as condições devem ser claras, muito claras. Mas a oposição não quer isso, é engraçado porque a oposição está dividida (…) ".

Os EUA sabem que não será pela via democrática que a revolução bolivariana será derrotada e, por isso, estimulam as confrontações civis armadas e procuram descobrir algum descontentamento em unidades militares devido à gravidade da situação no país.

E têm a situação ao nível dos media bem controlada. Toda a comunicação social e comentários nos grandes meios nacionais e internacionais estão feitos na lógica da criação de “pós-verdades” (mentiras ou “fake news”) que nos condicionam. São afirmações ou imagens lançadas que não permitem o contraditório e que nos querem fazer entrar na cabeça como se fossem verdades incontornáveis.

Os mais de 150 mil manifestantes que ocuparam há dias Brasília, defendendo os direitos do povo, a nação ameaçada pelos interesses estrangeiros e a democracia conspurcada pelo golpe, foram recebidos com bombas, balas de borracha e cassetetes. A meia dúzia de provocadores infiltrados que causou as cenas de depredação foi a única coisa que os media mostraram apesar de nada representarem diante da enorme multidão combativa e pacífica que foi a Brasília lutar pacificamente. Mas agora Temer quer acusar as organizações sindicais promotoras por esses actos. A Rede Globo divulgou os telefonemas comprometedores para Temer e está a trabalhar para apoiar o impeachment e impor a um corrupto um outro figurante alternativo em eleição indirecta pelo bando de jagunços, instalados no Congresso e Senado, muitos dele a contas com a justiça por corrupção.

Grande parte dos brasileiros e as forças de esquerda, sindicais e de agricultores defendem a eleição do novo presidente por eleições directas. É o caso do dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) Gilmar Mauro: "A Globo está numa crise econômica há bastante tempo e perdendo audiência. Além de tudo, também está perdendo o debate político na sociedade. Por isso, eles estão desembarcando, mas querendo construir uma alternativa por via indireta – e nós não podemos admitir. Vamos conseguir superar o golpismo não só com a saída do Temer, mas com a derrota política da Globo e a convocação de eleições diretas".














Que souberam os portugueses das grandes manifestações neste mês de Maio na Argentina contra a descriminalização dos torcionários da ditadura de Videla ou, mais recentemente, da grandes manifestação de professores universitários em defesa das suas instituições de ensino contra as investidas de Macri? Mas antes destas já no dia 6 a Argentina realizou uma greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) e pelas Centrais de Trabalho da Argentina (a CTA e a CTA Autônoma), contando com a adesão de todos os sindicatos de trabalhadores em meios de transporte do país, além de diversas categorias, como professores e lixeiros, e grande parte do comércio. Esta greve respondeu às políticas implementadas pelo presidente Mauricio Macri e a coligação neo-liberal que o apoia, numa altura em que se registam 40% de inflação, salários desvalorizados, aumento do desemprego (que subiu dois pontos percentuais) e da pobreza (que atinge 32% da população do país).

Num comício na 5ª feira, membros da Comissão Presidencial para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) da Venezuela, garantiram que “a Revolução Bolivariana realizará as acções necessárias para manter a estabilidade social e política do país, não caindo, por isso, em nenhuma provocação que fizesse perigar a soberania nacional.” “Temos a partir de agora de assumir a tarefa de nos convertermos em soldados para a guerra com que nos vão confrontar, (…) com a disciplina, consciência e organização, obedecendo à nossa liderança, e não caindo na provocação da guerra civil que leve a uma intervenção no país. Para além da República e do governo, está em jogo a Pátria”.

Também nesse dia Maduro em comunicação ao país apelava ““Já basta de ódio, de intolerância, de violência. Vamos a dar as mãos pela paz, pelo reconhecimento mútuo, pelo futuro. Vamos dar um abraço de paz. Basta de violência. Basta de dor. O caminho de Venezuela tem de ser de diálogo e de reencontro dos venezuelanos”. No dia seguinte, o vice-presidente do partido do governo (psuv) Diosdado Cabello, disse que o povo venezuelano deve aproveitar a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) para fazer uma revisão completa do Ministério Público e da Procuradoria geral da República para que esta não continue a ser promotora da impunidade na Venezuela. Cabello reiterou que o artigo 347º da Constituição da República Bolivariana da Venezuela prevê que o povo é o depositário do poder Constituinte original e que no exercício desse poder pode convocar uma ANC, para transformar o estado, redigir uma nova constituição e criar um novo ordenamento jurídico.
A juíza presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Tibisay Lucena, explicou que serão eleitos um total de 545 deputados constituintes. Desses, 364 representarão seus municípios, ou seja, cada município venezuelano terá um deputado e as capitais terão dois. Os povos indígenas terão oito deputados para representá-los. Os diversos setores sociais e econômicos da Venezuela terão 173 deputados no total.
A eleição dos membros da Constituinte está marcada para Julho.
A procura de soluções que legitimem outra constituição, que consagre direitos como o da habitação, podendo até constitucionalizar a Grande Missão Habitação Venezuela, que garantiu desde 2011 até hoje mais de um milhão e seis mil habitações dignas para quem as não tinha, e por essa forma ficar vedada uma eventual futura privatização desta Missão.

 A profunda crise política, económica e social na Venezuela, exige uma grande unidade das forças revolucionárias e patrióticas para deter tão forte ofensiva do imperialismo e do fascismo.

Mas importa verificar como compatíbilizar com a correlação de forças civis e militares face a uma guerra civil que o imperialismo prepara, para “justificar” uma intervenção militar externa.

Não são fáceis os caminhos dos revolucionários no seu próprio país. Mais fácil são os palpites que de fora se produzam, incluindo os do autor destas linhas.

 

Um relatório comprometedor para os EUA

O Comando Sul do Pentágono tem sido um observador atento da Venezuela, e não só, apresentando relatórios regulares ao Senado norte-americano (1).

Há cerca de duas semanas, o ministro venezuelano Padriño Lopes negou que os conspiradores possam encontrar nos meios militares algum apoio e que o “empurrão final” no governo, de que falam só pode entender-se à luz de um dos últimos relatórios do Almirante Kurt Tidd, chefe do Comando Sul do Pentágono, onde este afirma: “Com sectores políticos da MUD temos vindo a acordar uma agenda comum, que inclui um cenário abrupto que pode combinar acções de rua e emprego doseado de violência armada num quadro de cerco e asfixia”.

A MUD Mesa da Unidade Democrática é a força opositora, dirigida por Henrique Caprilles, candidato presidencial anteriormente derrotado, que é o chefe dos grupos armados que desencadeiam destruições e pilhagens de rua.

Aparecem ainda no relatório referências a treinos com a Força de Intervenção Conjunta Bravo, a unidade Leticia da Colômbia (2), tudo como concentração de Operações Avançadas FOL (3) com projecções sobre a região central de Venezuela onde se concentra o poder político-militar, para de seguida enumerar os activos militares disponíveis para a operação”.

O ministro venezuelano rematou que só com essa articulação que existe na guerra não convencional, entre a oposição venezuelana e sectores políticos e militares dos EUA, como o Comando Sul, pode entender-se o indefinido desenvolvimento dessas acções armadas e de vandalismo, e a confiança no “é agora ou nunca”. Até agora o Senado norte-americano não desmentiu a autenticidade do relatório.


A Venezuela e outros países da América Latina

As forças de esquerda e presidentes eleitos para a Venezuela, o Brasil, a Bolívia, o Equador, o Paraguai, o Uruguai, a Nicarágua, e as Honduras, e já décadas antes o Chile de Allende viveram numa permanente desestabilização por partes das classes sociais que sentiram poder vir a perder privilégios e sentiram em vários casos a ascensão social e a melhoria das condições de vida e de acesso ao que chamamos estado social: educação e serviços de saúde gratuitos ou de fácil acesso para todos, existência de uma segurança social garantida parcialmente por descontos de trabalhadores e empresas.

Os novos dirigentes sabiam da dureza da tarefa pelo fosso de desigualdade de rendimentos, entre ricos e pobres, da apropriação por aquisição ou contratos de concessão de exploração leoninos das matérias-primas e grandes empresas pelo vizinho do Norte, pela corrupção praticada pelos sectores que tinham sido afastados, mas que se mantinham a partir de grandes empresas e num ambiente geral de permeabilidade à pequena corrupção. Sabiam que em vários desses países os grupos económicos dominantes tinham a comunicação social na mão e que iriam condicionar muito a liberdade de expressão e o pluralismo político em favor dos anteriores privilégios. Sabiam que lhe iriam ser bloqueados financiamentos de instituições internacionais.

E, apesar disso, trabalharam para acabar com o peso dessas práticas, de regimes militares de direita e levaram à criação de verdadeiros regimes democráticos, assentes em eleições pluripartidárias, procurando garantir a liberdade de expressão das várias correntes de opinião, garantindo a concretização de importantes objectivos sociais, a liberdade de organização sindical e outros direitos dos trabalhadores.

Vencendo por vezes as hesitações das forças políticas que garantiram a direcção dos processos de transformação históricos, as populações agigantaram-se na conquista de sociedades diferentes e, mesmo quando hoje se registaram graves regressões nesses processos, elas resistem por não estarem de acordo em perder as conquistas feitas. O Brasil e a Argentina são importantes exemplos disso.

 

O Comando Sul do Pentágono e os seus recursos de intervenção em países latino-americanos

O Comando Sul, como outros Comandos regionais do Pentágono, prossegue a doutrina da guerra híbrida, pós-moderna ou líquida, criada na vigência de Obama, na qual campanhas de comunicação 2.0 (4) se combinam com o ciberterrorismo, manifestação de ruas dos “parceiros civis” (ONGs, políticos, estudantes, jornalistas, académicos, entre outros) financiados por Washington através da USAID, NED ou Freedom House e acções clandestinas de agentes especiais, privados ou combatentes substitutos para, em primeiro lugar, tentar quebrar a frente interna através de “revoluções coloridas”, ou então arrastar progressivamente o “inimigo ou adversário” para um cenário de guerra civil, onde os custos não sejam altos em intervenção e todo o peso político, social e económico recaia sobre o país atacado.

Os EUA têm 13 bases e pistas em países que fazem fronteira com a Venezuela e outras 13 em países que fazem fronteira com o Brasil, sendo que ambos os países não têm bases ou pistas nos dos EUA seus territórios. Outros países que fazem fronteira como a Colômbia e o Peru têm 9 cada e o Paraguai tem 2. Já com Temer foi retomado o projecto de uma nova base norte- americana para lançamento de mísseis, em Alcantara, no estado do Maranhão, junto à linha do Equador, acordado antes com Fernando Henriques Cardoso e depois abandonado por Lula e Dilma. O acordo, mesmo na lógica de Temer, muitíssimo humilhante para o Brasil, ainda não foi concluído.

Este Comando é uma organização militar regional unificada e um dos 10 Comandos de Combate (COCOM) do Departamento de Defesa dos EUA. A sua responsabilidade é espiar, realizar contactos com os meios de oposição dos países com governos de esquerda, articular acções com eles e planear o contingente, as operações e cooperação das forças de segurança da América do Sul, Central e Caribe (excepto os territórios e possessões dos EUA na região), Cuba e as Bahamas e suas águas territoriais. O Comando do Sul impôs-se como “segurança” de toda a região do Canal do Panamá.

O Comando do Sul reúne mais de 1.200 militares e civis, do Exército, Marinha, Força Aérea, Corpo de Fuzileiros, Guarda Costeira e outras diversas agências governamentais dos Estados Unidos. As Forças Armadas fornecem ao Comando do Sul recursos e pessoal para dois grupos de Operações Especiais, um de Inteligência, e gabinetes de segurança.

A experiência de intervenções militares em vários pontos recolocaram a intervenção militar como uma opção a ser considerada pelas elites dirigentes norte-americanas, no seguimento do seu aparente abandono depois das invasões de Granada (1983) e do Panamá (1989). O uso da força, para realizar objetivos considerados essenciais, voltou à luz do dia com a elevação do comércio e produção ilícitos de drogas a adquirir o estatuto de ameaça à segurança nacional dos EUA.

A assistência militar é um instrumento tradicional da política externa norte-americana. O treino de polícias e oficiais militares, com as ”lavagens ao cérebro” sobre as “ameaças prioritárias”, o municiar de meios os serviços secretos, o planeamento e transporte, exercícios conjuntos com militares latino-americanos, projetos cívicos e humanitários, fazem parte das atividades militares norte-americanas na região. As atividades de contra-insurgência perderam o seu papel central após a crise Irão-Contras e registou-se uma interrupção temporária de intervenções na América Central, embora tenham ocorrido operações na Colômbia e no Peru ao longo da década de 1990.

O contacto entre militares da região é estimulado por meio de um conjunto de instituições e práticas. A criação do Encontro de Ministros da Defesa das Américas intensificou as discussões estratégicas de alto nível na última década. Existem vários fóruns para as Forças Armadas da região: Conferências de Exércitos Americanos, Sistema de Cooperação das Forças Aéreas Americanas, Conferência Naval Inter-Americana, Simposium Internacional de Forças Marítimas, Junta de Defesa Inter-Americana, Colégio de Defesa Inter-Americana. Os programas de intercâmbios e treino são um aspecto fundamental deste contacto constante. As bases militares, a que já nos referimos, são outra forma importante da extensão da presença militar norte-americana no continente.


Por outro lado, outras instalações são utilizadas pelos militares norte-americanos, como é o caso do Centro de Treino de Iquitos no Peru e das bases na Colômbia. Colômbia que acabou por ser integrada na NATO…

 Esses arranjos, denominados Forward Operating Locations (3), permitem aos militares norte-americanos, à sua guarda costeira, ao serviço de alfândega e ao DEA (Drug Enforcemet Administration), usar instalações existentes como plataformas para a luta antidrogas e mantê-las preparadas para outras missões. O Comando Sul também opera radares no Peru (Iquitos, Andoas, Pucallpa) e na Colômbia (San José del Guaviare, Marandúa e Leticia), sendo outros móveis mas secretos.

A diversificação da presença militar norte-americana é uma estratégia consistente.

Tropas norte-americanas operam sistemas de radar, monitorizam a região a partir do espaço, garantem apoio operacional e de inteligência e treinam forças de segurança locais. Desta feita constituiu-se há alguns anos uma área de controlo em terra, ar e vias aquáticas na região andina, de acordo com a redefinição das fontes regionais de “ameaças”.

A presença militar norte-americana nos Andes é hoje muito significativa, e o já referido relatório relança a actualidade dos riscos de uma intervenção militar, mesmo considerada ”não convencional” na Venezuela mas também no Brasil e na Argentina – os três grandes países da América que tiveram nos últimos 15-20 anos viragens à esquerda mais ou menos acentuadas e que, de acordo com a nova doutrina da ”guerra híbrida”, têm sido alvos de intervenções “correctoras” a que os respectivos povos têm resistido.

Com o Comando Sul articula-se a acção de agências como o National Endowment for Democracy (NED), através de apoios financeiros a ONGs que trabalham como ambientalistas, a e programas como o Democratic Initiatives Program da Agencia International de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) e outras instituições regionais criadas no âmbito da OEA.

As capacidades e possibilidades de intervenção militar dos EUA, em conjunto ou por intermédio de “forças amigas” em cada país, são muito elevadas. Mas a experiência revolucionária dos povos da América Latina também.

 

Notas

(1)  Onde pontifica o senador republicano John MacCain, entusiasta anti-chavista que, na vigência da presidência Obama, teve papel fundamental na criação do Estado Islâmico (Daesh) e que, talvez não por acaso, se encontra nas primeiras filas, com Hillary Clinton, na procura do impeachment de Donald Trump, entre outras “razões” por ele ter passado informações à Rússia sobre planos do Estado Islâmico e até por “ter feito os russos intervirem em seu favor na eleição “presidencial”…

(2) Unidade adstrita à 6ª Divisão do Exército Colombiano, sediada em Letícia, na zona amazónica da Colômbia.

(3)  Os Centros Operacionais Avançados (FOL, em inglês) são comandos instalados em todas as bases que os EUA têm nestes países com pessoal militar, empresários, serviços de inteligência com recurso a satélites, patrulhas, etc.

(4)     Designam actualmente, e para o efeito aqui tratado, a utilização de sites, Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Google, aplicações digitais em telemóveis, etc.

sábado, 27 de maio de 2017

Bom fim de semana, por Jorge

"My relationship with death remains the same:
I'm strongly against it"

 "A minha relação com a morte continua na mesma:
sou fortemente contra"

Woody Allen
n.1935

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A RTP tem que se retratar por ter iludido a autoria do acto de incendiar um jovem em Caracas


Numa revoltante atitude, no noticiário de hoje, às 13 h, da RTP-1, foi remetida para o fim do alinhamento à referência feita ao incendiar dum jovem por bandos criminosos da oposição, ontem em, Caracas. Mas mais grave foi a referência a que não era conhecida qual das partes em confronto seria a autora do crime, misturando esse acto com a repressão governamental e os 47 mortos já registados (para quando a referência a quantos destes eram polícias e chavistas abatidos com tiros na cabeça por snipers?). Para já não falar da omissão da declaração do Presidente da Venezuela que teve repercussão em todo o mundo.

 

A bárbara agressão que grupos mercenários da oposição venezuelana, dirigida por Henrique Capriles, realizaram ontem ao regarem com gasolina e incendiarem um jovem, por o terem tomado por um chavista, devia obrigar os EUA, a UE e todos os seus aliados a distanciarem-se das hordas que têm apoiado de formas múltiplas.

Os EUA apoiam Capriles e já desistiram de uma reversão interna a seu favor pela via democrática e do funcionamento das instituições e, por isso, apostam nas confrontações civis armadas. E procuram descobrir algum descontentamento em unidades militares pela situação grave em que o país se encontra. A RTP é livre de não ter este entendimento e continuar a achar que Capriles quer a democracia...

Na semana passada, o ministro Padriño Lopes negou que os conspiradores possam aí encontrar algum apoio e que o “empurrão final” no governo, de que falam só pode entender-se à luz de um dos últimos relatórios do Almirante Kurt Tidd, chefe do Comando Sul do Pentágono, onde este afirma que: “Com sectores políticos da MUD temos vindo a acordar uma agenda comum, que inclui um cenário abrupto que pode combinar acções de rua e emprego doseado de violência armada num quadro de cerco e asfixia”. A RTP ignorou esta importante declaração,

A MUD Mesa da Unidade Democrática é a força opositora, dirigida por Enrique Caprilles, candidato presidencial anteriormente derrotado, que é o chefe dos grupos armados que desencadeiam destruições e pilhagens de rua.

O Comando Sul do Pentágono tem apresentando relatórios regulares sobre a Venezuela ao Senado dos EU onde pontifica o senador republicano John MaCain que, na vigência da presidência Obama, teve papel fundamental na criação do Estado Islâmico (Daesh) e que, talvez não por acaso, se encontra nas primeiras filas, com Hillary Clinton, na procura do impeachment de Donald Trump, entre outras “razões” por ele ter passado informações à Rússia sobre planos do Estado Islâmico. John MacCain e Hillary Clinton encabeçam o movimento pró-impeachment de Trump

Nicolás Maduro fez ontem uma alocução, condenando o crime e garantiu que vários dos “chefes de grupos de mercenários”, ligados ao acto de incendiar o jovem, foram já presos e pediu aos organismos do Estado que seja feita justiça.

Como cidadão, espero que a RTP seja verdadeira no que respeita  ao que se passa neste país, onde vivem tantos imigrantes portugueses, e quanto à autoria de atentados terroristas na Venezuela.

 

sábado, 20 de maio de 2017

"Amar pelos dois", alguns significados e naturais desejos

Passado que foi o Festival e que alguma poeira já assentou,  permitam-me expressar alguns desejos.
Espero que a repetição da canção na rádio não nos leve à saturação. Todos desejamos ao Salvador Sobral que o turbilhão em que tenderá a ser envolvido lhe não retire, como poderia acontecer, a serenidade e não o desvie do rumo de seriedade, de autenticidade, da valorização da música pelo que ela vale, dispensando encenações, bailarinos, coreografias, cenários e vídeos estonteantes, raios laser, complexos jogos de luz e fogos de artifício.
Espero ainda que não venha por aí uma onda de condecorações, nem por iniciativa das entidades nem pela aceitação por parte destas de uma pressão mediática nesse sentido. Ontem um jornalista perguntava ao Presidente da República quando é que ele iria receber uma medalha... 
Espero, acima de tudo, que se possa pensar mais no(s) significado(s) do que aconteceu.
"Amar pelos dois” recebeu uma votação transversal a todos os agrupamentos nacionais. Portugal venceu o Festival Eurovisão 2017 com a maior pontuação da história do concurso. Salvador Sobral e "Amar Pelos Dois" conquistaram 758 pontos, sendo 376 oriundos do televoto e 382 do júri. A candidatura portuguesa foi pontuada por todos os países no televoto, recebendo doze pontuações máximas. Por outro lado, na votação do júri foram dezoito os países a atribuir a pontuação máxima, sendo que apenas os júris de Montenegro e Bulgária não pontuaram Portugal.
Os resultados desta edição afastaram-se completamente de um estudo do Le Monde feito sobre as votações entre 1990 e 2016.
Esse estudo apresenta uma tendência para as votações dos países serem nos países vizinhos, formando verdadeiros e compreensíveis agrupamentos regionais de solidariedades que transportam proximidades culturais e sociológicas, para além de lógicas de mercados regionais. 

Assim, segundo esse estudo há (havia) um agrupamento estruturado em torno da Suécia, da Noruega e da Finlândia, um outro em torno da ex-Jugoslávia e a que se associava também a Turquia, e um outro em torno dos países da Europa Oriental, a que se juntavam Chipre e a Grécia. Fogem (fugiam) a esta lógica os países bálticos e anglo-saxónicos que se constituem como extensões do agrupamento escandinavo e a Espanha com um encosto ao agrupamento do leste europeu (Porquê? pergunto eu. Será a cultura cigana? Porque entre os dois países ibéricos também se podiam identificar permutas de votações...). A França, Portugal e também a Alemanha e outros países da Europa Central não entravam tão claramente em nenhum destes agrupamentos.
Ora a canção portuguesa fugiu a todas estas “lógicas”. Recebeu a votação máxima de países de todos estes agrupamentos e dos “não-alinhados”.

Todas as especulações sobre os efeitos neste tipo de concursos surgem naturalmente num quadro em que o interesse comercial, que comandou a globalização, também globalizou o gosto, as letras e músicas, as composições e arranjos, as distrações do essencial da música e onde um exemplo pode desencadear um “basta!” a uma escala muito vasta pelo menos no continente europeu.
No futuro importa que outras mudanças acabem com a inaceitáveis exclusões como foi este ano a de uma cantora russa por ter cantado antes…na Crimeia depois de esta ter  deixado a Ucrânia e ingressado na Federação Russa ou a confrontações desadequadas como a que há dois anos foi vertida para a letra da música vencedora da Ucrânia em jeito de confrontação com a Rússia. Para já não falar já na pressão dos organizadores ucranianos para que Salvador Sobral não vestisse uma t-shirt de apoio aos imigrantes!

Ganhou a qualidade da interpretação, da música, da simplicidade do que é feito com seriedade contra o poder dos estereótipos e da formatação do gosto. Mas também a votação do público e a do júri revelam que não há inevitáveis e há um espaço para o novo e a novidade. Nesta área como noutros aspectos da contemporaneidade. Mais uma vez a música apela ao nosso inconformismo e autoestima.

Mas também importa claramente reconhecer que esta não é a melhor canção, nem no nosso panorama musical nem mesmo das canções portuguesas que, há meio século, têm representado o país na Eurovisão. Há uma conjugação de factores conjunturais que facilitaram o resultado desta bela canção, desejando eu que tenha impacto para que mude muita coisa dos comportamentos formatados nesta globalização.
Salvador e Luísa fazem parte dessa riqueza que o país tem de intérpretes, músicos, compositores, letristas que são para ele um bem maior.

Parabéns a ambos e a todos os que construíram esta vitória.

 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Bom fim de semana!

"Per realitatem et perfectionem idem intelligo".

"Realidade e perfeição são para mim idênticas"


Baruch Spinoza
filósofo holandês de origem sefardita portuguesa,
1632-1677

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Os resultados das presidenciais em França e as legislativas que se aproximam

Perspetivas para as legislativas de França dos dias 11 e 18 de Junho
Muita gente em França está convicta de que seria importante que se constituísse, na futura Assembleia Nacional, uma maioria que contrabalançasse o liberalismo de Macron, e viabilizasse um governo com cores de esquerda.
Porém não se estão a esboçar acordos nesse sentido. Na 4ª feira, a “France insoumise”, de Mélenchon, em conferência de imprensa de Martine Billard, Manuel Bompard e Bastien Lachand, continuava a defender ser albergue para militantes de outros partidos, negando estar em curso uma “pesca à linha” de personalidades nomeadamente do PCF, querendo transpor os resultados que teve na 1ª volta das presidenciais para a 1ª volta das legislativas. E tencionando continuar nas legislativas a batalha contra Marine Le Pen, mas passando do que foi uma maioria contra Marine numa maioria com um programa de esquerda.


Afirmaram que o PCF interrompera abruptamente negociações entre ambos – coisa que este refutou. Pierre Laurent, secretário nacional do PCF no mesmo dia lamentou a interrupção pela França Insubmissa de um acordo alargado e nacional que permitisse uma concorrência conjunta às legislativas no maior número possível de circunscrições, acordo com que a França insubmissa só concordaria se fosse tutelada por ela, debaixo do seu programa com a diluição nele dos comunistas…E que dessa forma ficava prejudicada a vontade dos trabalhadores de barrarem o ataque ao Código de Trabalho por Macron e a entrada da Frente Nacional na Assembleia Nacional.
A ausência de acordos à esquerda poderá levar a uma Assembleia dominada pelo “En Marche!”, de Macron e pela FN, de Marine, atendendo ao perverso sistema uninominal eleitoral francês que nas 577 circunscrições, só permitirá a passagem à 2ª volta dos partidos que na 1ª atingiram 12,5%.
No Partido Socialista, que sofreu nas presidenciais uma pesada derrota resultante da política de Hollande e Macron, ambos como projecto de destruição do PS, também perfilhado por Emmanuel Valls, a situação é de debilidade tanto maior quanto ainda se mantem no seu seio um resto dessa corrente de direita, em torno de Didier Guillaume que quer apoiar sem condições ”a maioria presidencial”, a que se opõe uma corrente de esquerda que quer o PS na oposição. No passado dia 9 o PS aprovou um compromisso entre ambas as correntes, definindo uma linha de “autonomia construtiva”, anunciada pelo secretário nacional M Cambadélis.
Não são conhecidos contactos consistentes para acordos do PS quer com a “France Insoumise”, de Jean-Luc Mélenchon, quer com o Partido Comunista Francês.
Por outro lado, a maioria presidencial que o “Em Marche!” prepara, agora em torno da “Republique em Marche”, vai ser o albergue de boa parte da direita do PS, de restos dos republicanos (alguns dos quais resistem) e de outros partidos e movimentos de direita, mas com tensões resultantes do reduzido número de candidatos oferecido a tão vasta clientela, como acontece com Francis Bayrou e o seu MoDEM. E até de Valls, a quem foi recusada candidatura como deputado - cairiam a Torre Eiffel e o Arco de la Défense se tivesse sido aceite porque Macron ainda está em estado de graça - terá algumas compensações lá mais à frente.
Na Frente Nacional, o ex-presidente Jean Marie Le Pen, depois de ter deserdado Marine, criticou a deputada-neta Marion (sobrinha de Marine) por ter suspenso sine die a actividade política, classificando o acto como uma “deserção”. O velho Le Pen pretenderia talvez contar para se opor à reforma da FN, que está em curso e que poderá levar à sua transformação num novo partido, eventualmente com novo nome e com uma imagem que não seja de extrema-direita – projecto que Marine Le Pen anunciou antes da 2ª volta, e que o pai, há muito afastado pela filha de funções dirigentes, classifica de inaceitável “viragem à esquerda”.
 
Sobre a crítica à Marine Le Pen da extrema-direita e à sua suposta aproximação da esquerda
Que a FN de Marine comporta todos os riscos previsíveis para um partido de extrema-direita, é uma consideração que muitos (não todos) partilhamos mas com pressupostos e alcances diferentes. Mas a crítica feita por Macron para capitalizar a reacção ao Medo atingiu níveis pré-escatológicos… Para o sociólogo francês Jean-Claude Paye, na campanha presidencial francesa muitos eleitores foram bombardeados com mensagens enigmáticas que não tiveram tempo para analisar, mas de que ficam impregnados.
E refere que por exemplo, que durante no comício de Amiens, Emmanuel Macron acusou Marine Le Pen de se refugiar junto dos prussianos durante o cerco de Paris em 1870...e por compartilhar a ideologia destrutiva da Alemanha...em 1914. Exclamando exaltado: "Isso não! Isso não! Isso não! ". “É claro que não ouvimos esta mensagem, mas compreendemo-la: Marine Le Pen não seria a encarnação da Nação que afirmava ser, mas da Traição. Devemos barrá-la e, portanto, votar Macron”. O sociólogo Jean-Claude Paye explica por que poucos reagiram a este delírio cuidadosamente preparado e transmitido com firmeza por todos os canais de TV.
O sociólogo referiu outros casos como o da “acusação a Le Pen e aos seus amigos, "refugiados no castelo de Montretout" de compartilharem a mesma ideologia que o agressor e de quererem empurrar a França para uma guerra idêntica. E exclamando veementemente: " Isso não! Isso não! Isso não! ". O castelo de Montretout, onde Marine Le Pen foi educada, tinha sido tomado pelos prussianos durante o cerco de Paris em 1870...O termo "refugiados do castelo de Montretout" evoca, assim, uma ligação entre a Marine Le Pen, criança com o rei da Prússia e o imperador alemão Guilherme I.
 
É a primeira vez que se inventa um nexo de causalidade entre a guerra de 1870, a Primeira Guerra Mundial e a Frente Nacional. Ora Marine Le Pen nasceu em 1968...
Os resultados, que colocaram Macron à frente na 1ª e na 2ª volta, não são uma surpresa. As sondagens há muito que o apontavam. Para o sociólogo, a incapacidade de nos surpreendermos é o resultado da acção sobre o superego que "é precisamente esta instância que, tendendo a tirar ao homem a capacidade de se surpreender, a deixa afundar-se no "já conhecido" ("déjà vu”).
Ser imperioso que todas as candidaturas que não passaram à volta, terem de ir “votar Macron para barrar o fascismo” aparece como imperativo categórico, obra de um superego arcaico que aparece particularmente quando o indivíduo é levado a fazer uma escolha. Com que superego lidamos para votar em Macron? Para Jean-Claude Paye, não é o superego de natureza paternal, herdeiro do complexo de Édipo, apesar da insistência de comando para se constituir em dever, como uma consciência moral…
Muitos dos eleitores que acabaram por votar Macron fizeram-no a contra-gosto. Na verdade, o imperativo para votar em Macron, especialmente na 2ª volta, não era, geralmente, nem um verdadeiro "sim" nem um verdadeiro "não". Isto mais parece corresponder a uma estrutura psicótica em que nenhuma objecção pode defrontar esse apelo.
Dito isto, importa que fique claro que a identificação expressa de Marine Le Pen com reivindicações dos trabalhadores e com a saída do euro têm, de facto, um carácter populista, por serem alheias a uma perspectiva de diferenciados interesses de classe, que não encontrámos agora nem encontraremos na FN “reformada”.
 
Macron: o candidato que disse tudo e o seu contrário
Quanto à sua ideologia, no France-Inter, em Dezembro de 2014, afirmou “Eu sou socialista”. Mas em Agosto de 2016 afirmaria, no decurso de uma visita a Puy du Fou, em Agosto de 2016, “A honestidade obriga-me a dizer-vos que não sou socialista”. Já na 2ª volta disse que não era de esquerda nem de direita e que o seu programa era de uma economia liberal.
Em matéria de política fiscal, em entrevista à revista ”Risques”, em Maio de2016, afirmou sobre o IFS “é preciso preferir taxar a sucessão do que aumentar impostos do tipo do IFS” mas em 2 de Fevereiro deste ano já dizia “Eu vou suprimir a parte do IFS que financia a economia”, precisando que visava “a posse de acções e o financiamento das empresas.
Ou quanto à duração da jornada de trabalho, em entrevista ao “Obs”, em Novembro passado disse “Quando se é jovem, 35 horas não é muito. É necessário maleabilidade e flexibilidade”, já num comício em Novembro passado afirmou “A duração legal do tempo de trabalho vai manter-se nas 35 horas., remetendo, porém, para acordos de empresa o seu eventual aumento.
Outros exemplos se poderiam referir, nomeadamente já na 2ª volta. Mas, fiquemos por aqui.
 
Quanto ao que realmente quer Macron fazer
Procuramos reter aquilo que, de facto, lhe sentimos, no pulsar do entusiasmo, como o mais importante para ele.
Defensor da União Europeia, não está de acordo com a mutualização da dívida passada mas quanto à futura até poderá estar se houver reformas estruturais na UE como a criação de um Ministério Economia e das Finanças para todos os países…
Macron aposta ainda em mudanças na zona euro, como um orçamento próprio para os 19, a criação de um Parlamento dos países da moeda única e desse cargo de ministro da Economia e das Finanças do euro. O Presidente eleito aposta ainda na coesão, querendo trabalhar para uma harmonização dos direitos sociais – nomeadamente as regras do subsídio de desemprego e salário mínimo. O que, em termos práticos, quer dizer nivelar por baixo
Quer reforçar o eixo franco-alemão, o que, traduzido, quer dizer aceitar a liderança alemã da EU e continuar a isentar a França das consequências por déficite excessivo e saldos negativos, prerrogativas que não aceita para outros países como Portugal. Apesar de anunciar a intenção de reduzir a despesa pública na ordem dos 60 mil milhões de euros durante o seu mandato, comprometendo-se a conseguir o défice de três por cento exigido pelas autoridades europeias.
Macron defende a manutenção do acordo CETA de livre-comércio com o Canadá, cavalo de Troia do TTIP que está a ser discutido com os Estados Unidos, e que beneficia as multinacionais e não os cidadãos, desregulamenta o comércio, fazendo baixar os padrões sanitários e de qualidade na Europa. Um aspecto também muito grave é o da arbitragem dos denominados tribunais de investimento, sistema privado de administração da justiça entre os investidores e os Estados com que se pretende uniformizar interpretações e acelerar decisões, ultrapassando os tribunais nacionais e mesmo comunitários.
Quanto à legislação laboral, quer ir mais longe do que fizeram Hollande e Valls, introduzindo as “ordonnances”, mecanismo através do qual o Parlamento atribui ao Governo competência para legislar em matérias que são da responsabilidade da própria Assembleia da República. O diploma é depois votado no Parlamento, mas não é discutido nem pode ser alterado pelos deputados…O que revela, além do mais, um completo desrespeito pela democracia representativa. Já a mudança anterior da lei laboral, altamente contestada nas empresas e nas ruas, foi aprovada sem voto no Parlamento, com o Governo a recorrer ao já famoso artigo 49.3, que permite aprovar um diploma sem voto no Parlamento. 
Propõe-se, por outro lado, alargar os acordos de empresa, a que defende dever ser dada primazia, em detrimento da contratação colectiva, que também seria prejudicada
Quer manter a idade da reforma e o modelo geral das 35 horas de trabalho semanal, mas quer facilitar o aumento da carga laboral através de acordos nas próprias empresas.
Quanto à segurança social, Macron quer reduzir as contribuições pagas pelos trabalhadores de forma que quem ganhe 2200 euros brutos consiga …mais 500 euros ao fim do ano, grande truque par dar a ilusão de um aumento salarial sem revelar as consequências que isso terá nas prestações sociais.
Até 2022 quer reduzir em 120 mil os trabalhadores da função pública.
O Estado Social vai ser reduzido, aguardando-se intenções quanto a como serão afectados a Educação e a Saúde Pública.
Mas já em matéria de Defesa, quer que os gastos sejam aumentados, com o objetivo de chegar aos dois por cento do Produto Interno Bruto, como reclama o amigo americano.
Pretende reduzir em um terço o número de deputados e senadores, o que irá distorcer ainda mais a proporcionalidade do apuramento de eleitos, já hoje distorcida por uma 2ª volta que favorece, a “governabilidade” em detrimento do pluralismo. Se bem que fale ao regresso à proporcionalidade.
Macron pretende centralizar a administração local, reduzindo em um quarto o número de departamentos franceses (estrutura administrativa que se encontra entre as cidades e as regiões). O objetivo é agrupá-los às grandes metrópoles. 
Quanto à guerra contra Síria, repescando o requentado dossier das armas químicas que não seriam dos terroristas mas sim da Síria, é categórico: Com ou sem mandato da ONU, no quadro da coligação existente, tomará medidas para neutralizar as capacidades químicas de Bachar el-Assad…
Quanto à Rússia, não tenciona alterar o quadro de isolamento, sanções e diabolização praticado pelo amigo Hollande.
Fiquemo-nos por aqui.
 
O “todos com Macron!” e alguma manipulação rasteira de dados cá por casa
A comunicação social portuguesa, como outras de outros países, teve a pouco digna tarefa de imporem a votação em Macron contra a “ameaça fascista” de Le Pen.
E levaram a festa até aos resultados como o director do Público, David Dinis, que afirmou na edição do passado dia 8 que “dois terços dos franceses elegeram Macron Presidente”.
Das duas, uma: ou David Dinis é ignorante ao ponto de não saber fazer contas básicas (e não deveria ser director do jornal) ou não é, sabe que está a faltar à verdade (e então percebemos porque é director do Público).
Ora os resultados finais dizem o seguinte: no cômputo dos votos em ambos, Emmanuel Macron recolheu 66,10 % e Marine Le Pen 33,90%. 
Descontados que foram a Abstenção de 25,44% (os que não se deslocaram às urnas para votar) e os 11,47% de Brancos e Nulos (os que foram às urnas manifestando o seu desacordo com qualquer dos dois candidatos) dos 47 448 929 franceses inscritos nos cadernos eleitorais votaram, nos dois candidatos na 2ª volta, 31 340 814, isto é, apenas 66,05 % dos inscritos. Assim, em Macron votaram na 2ª volta 20 703 694 eleitores ou seja 43,63% dos inscritos (2 em cada 5 franceses) e em Le Pen votaram 10 637 120, ou seja 22,42 % (1 em cada 5 franceses)
Os eleitores que votaram na 1ª volta e se passaram a abster na 2ª volta foram 1 463 741. Na 1ª volta, o voto de protesto (branco ou nulo) que era de 944 733 votantes, passou a ser na 2ª volta 4 066 802.
Em Portugal 13.121 franceses estão inscritos como eleitores em Lisboa e no Porto. Desses votaram 26,5% em Macron (1 em cada 4) e 4,44% (1 em cada 23) em Le Pen.
 
Estas eleições, outros resultados eleitorais e o futuro da União Europeia
Não sendo aceitável escrever muito mais, terminarei dizendo que estes resultados vão ser, pelo que se disse, negativos para o povo francês, para os povos da União Europeia, que verão acentuar-se os seus traços mais negativos, mas também negativos para a Paz, sendo de registar que, uma vez mais o capital e a direita estimularam a fragmentação à esquerda.
Tal como prevíramos há uns meses a ameaça da extrema-direita na Europa, que tem, de facto, ficado em minoria, foi o mote para que os governos de “entendimento ao centro” tivessem mais um fôlego. Isso vai confirmar-se com as eleições na Alemanha e na Itália. Depois de isso se ter confirmado até hoje na Áustria, Holanda e agora na França.

Bom fim de semana!, por Jorge

"Plus ça change, plus c'est la même chose."
"Quanto mais isto muda, mais é a mesma coisa."

Jean-Baptiste Alphonse Karr
crítico e jornalista francês, 1808–1890

terça-feira, 9 de maio de 2017

Assinalar a derrota nazi é uma obrigação histórica, política e moral


E não é de mais relembrar que essa vitória assenta num contributo decisivo da URSS,depois do martírio que se seguiu à sua invasão em 1941 pelos nazis.

A URSS teve nesta guerra 24 milhões de mortos, 11 dos quais militares e 13 civis, sendo 7  milhões por actos de violência, 4 de mortos à fome durante o período da ocupação e 2 milhões em trabalhos forçados na Alemanha. Isto é a URSS perdeu na 2ª Guerra 14,2% da sua população!
Mas também importa ter em conta que, como país sozinho a conter a besta nazi, a URSS aguentou a ofensiva alemã desencadeada contra si em 1941 até ao final da guerra em 1945.
Stalinegrado
 
Apelou sucessivamente à abertura duma 2ª frente dos aliados ocidentais, desde então até depois das batalhas decisivas de Stalinegrado e Kursk.
 

Só depois da inversão da guerra a leste,depois destas importantes e mortíferas batalhas, e da URSS a partir daí nunca mais ter perdido a iniciativa estratégica, é que, em 1944, os aliados ocidentais abriram a 2ª frente, com o desembarque na Normandia…É a partir daí que se dá a progressiva libertação dos países europeus, onde sempre movimentos de resistência interna, maiores nuns casos do que noutros, tiveram um papel na libertação, mais parecendo que essa frente se desencadeou para deter a progressão da forças armadas soviéticas.
Na batalha de Stalinegrado em 1942/43 morreram cerca de um milhão e meio de pessoas.
Na batalha de Kursk, em Julho/Agosto de 1943, intervieram 6 mil tanques, 4 mil aviões, 2 milhões de soldados. Acabou a invencibilidade das divisões Panzer, elemento essencial da blietzkrieg que os nazis levaram a tantos países europeus...O comandante alemão Erich von Manstein, reconheceu que a Wehrmacht tinha então sido derrotada.
 
Kursk
Vários países europeus tiveram também um elevado número de mortos. Não tem sentido moral comparar sofrimentos, mas politicamente é importante não esquecer alguns números (que aqui arredondei para milhões, não devendo por isso serem usados fora desse grau de rigor).

Por isso, com todo o gosto, estive com outros portugueses, presente no domingo, na Alameda Afonso Henriques, no desfile do “Regimento Imortal”, organizado pelas Associações Iuri Gagarine e Chance+. Nele participaram centenas de russos e ucranianos que vivem e trabalham no nosso país, ostentando cartazes com fotos de familiares, civis e militares tombados na Grande Guerra Pátria, como então passou a ser conhecida essa gesta de quatro anos.