sexta-feira, 15 de março de 2019

Bom fim de semanma, por jorge


We are close to the tipping point where 
global warming becomes irreversible."
"Estamos perto do ponto de viragem em que 
o aquecimento global se torna irreversível."
Stephen Hawking 
físico e cosmologista inglês, 1942-2018







"Nobody made a greater mistake 
than he who did nothing 
because he could do only a little."
"Não há maior erro que o 
de não fazer nada 
porque só se pode fazer pouco."

Edmund Burke 
político e filósofo irlandês, 1729-1797)

Para onde vai a Argélia?, por António Abreu




As causas das manifestações

A Argélia sofreu duas guerras mortíferas em 65 anos de existência. Terão morrido cerca de um milhão e setecentas mil pessoas. Os argelinos não quererão que a situação do país fique descontrolada para benefício de atores que ainda não subiram ao palco. Agora isso exige negociações entre as partes envolvidas.



A Argélia escapou às “primaveras árabes”, mas teve de defrontar uma guerra contra grupos radicais islâmicos (1991-2004). Em 1989 foi aceito o multipartidarismo, de que resultou numa reforma constitucional que acabou com o regime de partido único. Criou-se a FIS (Frente de Libertação Islâmica), principal organização oposicionista da Frente de Libertação Nacional, e que ganhou as eleições desse ano, com Bendjedid, mas, por incompatibilidades verificadas pelos tribunais do programa e ações da FIS em relação à constituição argelina. No entanto, em 1992 ocorreu um golpe militar que forçou Bendjedid a renunciar o cargo.
Seguiu-se uma recuperação notável até 2017 seguida do efeito da queda do preço do petróleo
Estas primeiras manifestações, iniciadas em 22 de fevereiro foram motivadas pelo anúncio da intenção do Presidente, visivelmente diminuído, se candidatar a um 5º mandato nas presidenciais previstas para 18 de abril.

Um dirigente das FLN afirmou no iníscio destas manifestações tiveram origem no exterior no quadro das guerras de 5ª geração e do papel das redes sociais, que elas e os telemóveis pemitiram.
Face a isto, Bouteflika acabou por anunciar não se recandidatar, mas adiando as presidenciais até estar concluída a Conferência da Unidade Nacional.
Porém as manifestações seguintes recusaram o adiamento da eleição e reclamaram a imediata demissão do Presidente e já vão no quarto sábado consecutivo.

Depois de vencida a guerra provocada por diferentes correntes islamitas, que entre 1991 e 2014 provocou mais de 200 mil mortos, o país conseguiu uma notável recuperação, comprometida pela queda do preço do petróleo, o que levou à redução de alguns índices económicos, como o saldo da balança comercial (que há muito era positivo e passou a negativo em 2017) e à redução dos ritmos de crescimento económico. O Le Monde, em editorial nos primeiros dias destes acontecimentos, afirmou que a candidatura de Bouteflika foi a centelha que acendeu um rastilho de anos e anos de má governação. Alguma oposição de esquerda refere que salários baixos e deficientes condições de vida coexistem com grandes privilégios do Estado para com a camada dirigente do país. A maioria dos manifestantes são jovens estudantes.
Até ao dia de hoje a cobertura mediática dos incidentes, quer entre nós, quer noutros países, tende a considerar com simpatia estas ações, não recolhendo opiniões do governo.

Da imprensa consultada só o Avante! citando a agência Sputnik, transmitiu a opinião de um dirigente da Frente de Libertação Nacional (FLN), o partido que dirigiu a luta independentista e que, com outras forças políticas, integra a aliança presidencial, Walid ben Qarun. Ele explicou que as manifestações provam que a Argélia é um país democrático, onde os cidadãos são livres de expressar as suas posições políticas. Considera, no entanto, que estes protestos não são promovidos por nenhuma força política argelina, tratando-se antes de ataques manipulados do exterior. «É uma guerra de quinta geração. Forças estrangeiras atacam o país com a ajuda dos meios de comunicação e das redes sociais»1.
Entretamndo o governo com movo promeiro-ministro fez apelo à criação de uma comissão inclusiva, que represente todos os grupos da sociedade, incluindo a juventude que protesta, que leve à criação de uma "nova república democráticaplural e florescente". Uma centena de asociações juvenis, declarou objectivos semelhantes mas sendo garantida uma ruptura com métodos passadod.
Pode consultar noticiário actualizado, por exemplo, em

agence press serrvice
www.aps.dz

jornal mais oficioso
www.elmoudjahid.com

jornal que confronta as soluções propostas pelo novo primeiro-ministro
www.alwatan.com


A posição da União Africana

O presidente da Comissão, M. Faki Mahamat fez um apelo a um diálogo nacional para obter um consenso que permita por em prática essas reformas em paz.
O presidente da Comissão expressou a total solidariedade da União Africana com a Argélia nesta fase particular da sua história. E está convencido que o povo argelino encontrará os recursos necessários para ultrapassar os desafios do momento e lançar as bases de uma desejada renovação nacional. Também transmitiu a satisfação pelas manifestações estarem a decorrer de forma pacífica, revelando um alto espírito de responsabilidade.

A Argélia e a França

Desde o surgimento na Argélia de uma mobilização contra um quinto mandato de Abdelaziz Bouteflika, a França, antiga potência colonial, interveio com muito cuidado. Mas se ela garante não interferir na situação, esta não lhe é obviamente indiferente. E a pressão e ingerência são evidentes na evolução das intenções de Bouteflika nestas duas semanas.
A França e a Argélia têm laços de interdependência. Devido à sua história comum e apesar da conflitualidade com a Argélia quando, nos anos 50, esta lutava pela independência, a França dificilmente pode ignorar a situação neste país. A presença no seu território de um grande número de argelinos de nacionalidade ou origem é um sinal muito concreto dos laços que unem os dois países. Além dos aspetos humanos e históricos, os dois países também estão economicamente vinculados. A Argélia é o principal parceiro económico da França na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA). O comércio entre os dois países atinge o valor de cinco mil milhões de dólares e mais de 500 empresas francesas estão sediadas na Argélia.
Além disso, embora Paris e Argel tenham expressado repetidamente as suas diferenças em relação à resolução de conflitos internacionais como os da Síria ou da Líbia, a sua cooperação em termos de segurança continua a ser indispensável por motivos comuns. A estabilidade da Argélia, interface geográfico entre o Mediterrânico e uma faixa saheliana – sempre muito instável – a sul desta, constitui motivo de preocupação elevado para a França e outros países da União Europeia.
No dia 4 de Março, o Quai d’Orsay dava prova de que Paris se manteria neutra face aos acontecimentos, apesar de contactos diplomáticos de conteúdo não revelado.
A perspectiva de crescer o ritmo da imigração para a França «é um assunto real», segundo afirmou à France Press um ministro, cuja identidade não foi revelada, acrescentando pensar «este é o maior “objetivo” político dos próximos dias e semanas, num cenário de eleições europeias. Mobiliza o Presidente da República e o Primeiro Ministro». Segundo este ministro francês, as repercussões possíveis desta crise são numerosas: «instabilidade, questões de segurança, imigração, questões económicas, sentimentos e comportamentos de nossos compatriotas franco-argelinos». Essa atenção à Argélia também está a envolver os políticos franceses. «A desestabilização do regime argelino levaria a uma inundação migratória sem precedentes na Europa, por isso é do interesse da França», alertou em 4 de março, na France 2, Jordana Bardella, líder do Rassemblement Nacional (RN) para as próximas eleições europeias. Por seu lado, o deputado socialista Luc Carvounas, vice-presidente do grupo parlamentar de amizade França-Argélia, disse no mesmo dia, na Radio Sud, estar «muito preocupado» e «muito atento e vigilante» à situação argelina. No dia seguinte, Marine le Pen defendeu que cessassem os vistos para imigrantes argelinos. Só em 2018 chegaram a França cerca de 300 mil argelinos com vistos
Neste contexto, Paris é forçada a pesar cada palavra. Uma crítica às autoridades argelinas seria interpretada como uma interferência, um silêncio seria interpretado pelos opositores de Abdelaziz Bouteflika como um apoio implícito das autoridades francesas a este último. Também no cenário político francês, a política do Quai d'Orsay em relação à situação argelina é minuciosamente examinada. Em outras palavras: um posicionamento agudo da França poderia causar uma profunda turbulência na Argélia, mas também na França, havendo nos meios diplomáticos quem expressasse preocupações. «Registamos a candidatura do presidente Bouteflika. Desejamos que a eleição presidencial decorra em boas condições. É ao povo argelino que cabe escolher os seus dirigentes e decidir do seu futuro».

Pela primeira vez Macron pronunciou-se no dia 13, sobre a questão após o anúncio da renúncia de Abdelaziz Bouteflika a candidatar-se a um quinto mandato como chefe de Estado argelino. «Congratulo-me com a decisão do Presidente Bouteflika, que assinou uma nova página no desenvolvimento da democracia argelina», disse Emmanuel Macron numa conferência de imprensa com o seu homólogo do Djibouti, Ismaïl Omar Guelleh. Mas acrescentou também: «saúdo a dignidade com que as pessoas, especialmente os jovens da Argélia, foram capazes de expressar as suas esperanças, o seu desejo de mudar, e o profissionalismo das forças de segurança».
O chefe de Estado francês não ficou por aí, expressando também o desejo de que a «conferência nacional», com o objetivo de redigir um projeto de Constituição até ao final de 2019, possa ser organizada «nas próximas semanas e meses para permitir  uma "transição razoável». «Acho que é um sinal de maturidade [e] faremos de tudo para acompanhar a Argélia nessa transição de amizade e respeito».

Os mandatos de Bouteflika


Em 1999, Bouteflika concorreu como candidato único às eleições presidenciais da Argélia, sendo eleito com 74% dos votos, segundo números oficiais. Os outros seis candidatos de oposição denunciaram um esquema de fraude em favor de Bouteflika, candidato apoiado pelos militares, e desistiram de suas candidaturas. Como presidente, Bouteflika conduziu o processo de pacificação da Argélia para colocar fim ao longo conflito civil iniciado em 1992, concedendo ampla amnistia a grupos militantes islâmicos que atuavam dentro do país. Também se concentrou na reconstrução e na recuperação e reforço da sua reputação internacional, por exemplo, mediando um acordo de paz entre Eritreia e Etiópia.
A 14 de Janeiro de 2003 foi agraciado com o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal, numa altura em que a Argélia já se tornara no fornecedor do gás natural em Portugal.

Em 8 de Abril de 2004, foi reeleito para um segundo mandato presidencial com 83,49% dos votos, numa eleição dentro da legalidade, segundo observadores internacionais, apesar da contestação de seu rival e antigo primeiro-ministro Ali Benflis. Em 2005 organizou um referendo à «Carta presidencial para a Paz e a Reconciliação Nacional», numa tentativa de colocar um ponto final à guerra civil de 1992. Um dos aspetos mais relevantes desta iniciativa foram as concessões que o FIS aceitou fazer em nome da resolução do conflito. O partido comprometeu-se a rejeitar a violência como forma de conquistar o poder e a cessar os ataques contra civis e estrangeiros, bem como a destruição da propriedade privada. Tal interpretação não excluía, segundo o FIS, a utilização de violência na sua forma legítima de rebelião contra um Estado considerado ilegítimo e exclusivamente com o propósito de assegurar o retorno à legalidade.
Mas o terrorismo manteve-se ativo. Já depois de iniciada a série de manifestações contra Bouteflika, o Estado Islâmico reivindicou o atentado falhado de um suicida armadilhado contra uma esquadra de Argel.
Apesar da aprovação em massa no referendo e dos esforços para restaurar a paz e reduzir a atividade e a violência de grupos rebeldes do país, alguns dos quais se articulavam já com a rede da Al-Qaeda e formaram o grupo Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, responsável por uma série de atentados suicidas durante o seu segundo mandato.
Mas deu continuidade a uma atitude do antecessor na Presidência, Bouteflika, de manter afastados os militares do poder e protegeu uma camada de ricos empresários que entre si espalharam benesses enquanto as camadas populares sofram os efeitos da austeridade. Este grupo terá querido manter o presidente em funções, mesmo quando era evidente já não ter condições físicas para continuar.
Embora se especulasse continuamente sobre o seu estado de saúde, Bouteflika concorreu a um terceiro mandato presidencial em 2009, sendo reeleito com 90,24% dos votos, enquanto os seus adversários denunciaram supostas fraudes e manipulações na campanha. Em abril de 2013 sofreu um acidente vascular cerebral, mas manteve-se no cargo.
Considerado grande favorito para um quarto mandato em 2014, apesar do boicote e denúncias de fraude de oposicionistas, foi reeleito em 17 de Abril pela quarta vez consecutiva, com 81,53% dos votos, à frente do ex-primeiro-ministro Ali Benflis.
Abdelaziz Bouteflika faz parte do grupo de dirigentes da Frente de Libertação Nacional (FLN) que combateu na guerrilha contra a ocupação colonial dos franceses. É o décimo presidente desde a declaração da independência em 1962 e teve papel decisivo na vitória contra os grupos islamitas desde 1999 até 2004.
Com a eventual recandidatura, que chegou a registar nos tribunais, Bouteflika jurou «solenemente diante de Deus e do povo argelino» que, caso vencesse as eleições, iria mais tarde convocar «uma eleição presidencial antecipada». Essa futura eleição, acreditava, iria assegurar a «sucessão nas condições incontestáveis de serenidade, liberdade e transparência». Entretanto nos últimos dias comprometeu-se a «não ser candidato3, adiando as eleições para data posterior, depois de concluído o seu projeto de realizar uma Conferência Nacional sobre o futuro da Argélia».

Mensagem de Bouteflika ao país

Nesta mensagem o Presidente referiu que o fim da guerra com grupos islamitas permitiu, desde o seu primeiro mandato, um largo desenvolvimento económico, vencer as baixa nos preços do petróleo, proceder à reconstrução maciça das infraestruturas básicas, a possibilidade da diversificação da economia e outras exportações além dos hidrocarbonetos, reformas na justiça, educação, administração e economia. Equacionou progressos e recuos dependentes de condições externas.
Sublinhou que a Argélia defronta desafios relacionados com a consolidação de uma sociedade de progresso, justiça e equidade, política e consenso, socialmente inclusiva, baseada em uma economia produtiva e competitiva, gradualmente libertada, na economia e sistema financeiro, da dependência no que diz respeito aos hidrocarbonetos.

Afirmou também que os argelinos devem agora enfrentar várias restrições, incluindo os relacionados com o crescimento populacional, a multiplicação das necessidades a satisfazer, a erosão dos recursos financeiros externos, as incertezas da economia global, os problemas regionais e internacionais. E que devem trabalhar para evitar uma sociedade de comportamento contrário aos princípios de integridade e valores éticos de respeito para com o trabalho e sentido do esforço coletivo.
Referiu que, no entanto, é especialmente na conjunção de vontades e energias, ao serviço do interesse nacional, que os argelinos serão capazes de ter sucesso na transformação para esta sociedade de progresso, justiça e equidade, «à qual todos nós aspiramos».

Afirmou que é com essa convicção que apelava, há vários meses, às forças da Nação, para promover um consenso patriótico e político que lhes permita mobilizar-se melhor para preservar a conquistas, defender os melhores interesses e permitir que o país continue a progredir em unidade e estabilidade, no meio de um ambiente regional altamente perturbado e num contexto internacional carregado de incerteza.

Concluiu afirmando a sua convicção que o consenso é uma virtude essencial, graças ao qual o povo conseguiu assegurar a coesão nas suas fileiras para enfrentar grandes desafios, como o da gloriosa Revolução de Novembro e, «mais perto de nós» os da Concórdia e Reconciliação Civil e Nacional.

Argélia uma grande potência regional

De acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Argélia tem a 17.ª maior reserva de petróleo do mundo e a segunda maior da África, ao mesmo tempo que tem a 9.ª maior reserva de gás natural no mundo. A Sonatrach, a empresa nacional de petróleo, é a maior empresa na África.
A Argélia tem uma das maiores forças armadas na África e um dos maiores orçamentos de defesa no continente. A maioria das armas da Argélia são importadas da Rússia, com quem mantém uma aliança próxima.
O país é membro da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Africana (UA) e da Liga Árabe praticamente depois de sua independência, em 1962, e integra a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) desde 1969. Em fevereiro de 1989 a Argélia participou, com os outros estados magrebinos, na criação da União do Magrebe Árabe. A Constituição argelina define «o Islão, os árabes e os berberes» como «componentes fundamentais» da identidade do povo argelino, e o país como «terra do Islão, parte integrante do Grande Magreb, do Mediterrâneo e da África».

A Revolução anticolonial e a independência

Antes da Revolução, a crise social chegou ao seu limite, com índices de analfabetismo subindo cada vez mais enquanto que a população nativa era expropriada das suas terras. A Argélia foi obrigada a enfrentar uma guerra prolongada de libertação em virtude da resistência dos colonos franceses, que dominavam as melhores terras. Em 1947, a França estende a cidadania francesa aos argelinos e permite o acesso dos muçulmanos aos postos governamentais, mas os franceses da Argélia resistem a qualquer concessão aos nativos. Nesse mesmo ano é fundada a Frente de Libertação Nacional (FLN), para organizar a luta pela independência. Uma campanha de atentados contra árabes (1950-1953) desencadeada por colonos direitistas, tem como reação da FLN uma onda de atentados nas cidades e a guerrilha no campo. Em 1958, rebeldes exilados fundam no Cairo um governo provisório republicano. A intervenção de tropas de elite da metrópole (Legião Estrangeira e paraquedistas) amplia a guerra. Ações terroristas, assassinatos, torturas terríveis e deportações caracterizam a ação militar da França.

Os nacionalistas e oficiais de ultradireita dão um golpe militar na Argélia em 1958. No ano seguinte, em 1959, o presidente francês, Charles de Gaulle, concedeu a autodeterminação aos argelinos.

Mas a guerra intensifica-se em 1961, com a entrada em ação da organização terrorista de direita OAS (Organização do Exército Secreto), comandada pelo general Salan, um dos protagonistas do golpe de 1958. Ao terrorismo da OAS a FLN respondeu, defendendo-se e atacando. No mesmo ano fracassam as negociações franco-argelinas, por discordâncias em torno do aproveitamento do petróleo descoberto em 1945. Em 1962 é acertado o Armistício de Évian, com o reconhecimento da independência argelina pela França em troca de garantias aos franceses na Argélia. A República Popular Democrática da Argélia é proclamada após eleições em que a FLN se apresenta como partido único e Ben Bella torna-se presidente. Na cúpula do estado manteve-se em geral a FLN com mais nove presidentes.

Na guerra de libertação registaram-se cerca de 1,5 milhões de mortos.

Com o atual presidente, a Argélia alterou a sua constituição, depois do seu segundo mandato (o limite legal era de dois mandatos) de maneira a passarem a existir três novos mandatos que, se se confirmasse a vitória em 18 de abril, seria o último e de duração breve.

Apesar do domínio da cultura e da etnia berbere na Argélia, a maioria dos argelinos identifica-se com uma identidade árabe, especialmente depois de o nacionalismo árabe se ter levantado, no século XX. Os berberes e os argelinos que falam berbere são divididos em muitos grupos com línguas variadas. O maior destes são os cabilas, que vivem na região de Cabília ao leste de Argel, os chamou do Nordeste Argélia, os tuaregues no deserto do sul e os shenwa do norte do país.

Durante o período colonial, havia uma grande parte da população (10% em 1960) de europeus, que se tornou conhecida como pied-noirsExpressão francesa que designa os europeus que apoiaram os colonizadores franceses contra os nacionalistas que, em geral, abandonaram a Argélia durante e depois da independência. Eles eram principalmente de origem francesa, espanhola e italiana. Quase toda esta população partiu durante a guerra da independência ou depois dela.

A Argélia e o apoio aos movimentos de libertação das colónias portuguesas e aos exilados portugueses 

Após a independência, e no seguimento de uma política de não-alinhamento com os dois grandes blocos, mas de solidariedade ideológica, os líderes argelinos prestaram um grande auxílio a alguns movimentos de africanos de libertação, nomeadamente aos angolanos, moçambicanos guineenses e cabo-verdianos, mas também a grupos de exilados políticos portugueses. Esta política de solidariedade permitiu o acentuar da luta contra os colonizadores desses territórios, por parte destes movimentos autónomos, e dos exilados políticos portugueses contra a ditadura fascista de Oliveira Salazar (Frente Patriótica de Libertação Nacional-FPLN).

Também tem apoiado a Frente Polisário para a independência do território Sahara ocidental do reino de Marrocos, e não apenas da sua autonomia dentro do reino como defendeu há quatro dias Mohamed VI, o rei de Marrocos.
Pintura de um grupo de músicos


1. Ver «Argélia enfrenta grandes desafios», em Avante! 7 de Março de 2019.
2. Ver «Bouteflika candidata-se e manifestantes voltam à rua», em Público, 4 de março de 2019.
3. Ver «Mensaje de candidature d’Abdelaziz Bouteflika», em 10 de fevereiro de 2019, em Voltairenet.

Versão atualizada e revista da publicada em www.abrilabril.pt mo passado dia 13.

versão ac

sábado, 2 de março de 2019

Bom fim de semana, por Jorge

"La pauvreté des biens est facile à guérir,
la pauvreté de l'âme, impossible"

"A pobreza de bens é fácil de tratar, 
a do espírito, impossível."

Michel de Montaigne 
filósofo da Renascença francesa, 1532-1592)

Governo norte-americano critica Guaidó..., por António Abreu

De acordo com o portal de notícias argentino La politica on-line, desta 4ªf, na reunião do grupo de Lima de 2ª f, Mike Pence criticou Guaidó por ter falhado numa série de questões que teriam permitido a intervenção militar norte-americana, nomeadamente:
- As forças armadas terem mantido a fidelidade a Maduro (Guaidó tinha garantido que se fosse reconhecido por metade dos países da ONU, que são 194, os militares se deslocariam para o seu lado). De facto só 40 o reconheceram;
- Guaidó tinha garantido que a base social de apoio ao regime socialista se “desintegraria” e isso também não aconteceu;
- Um funcionário dos EUA também questionou a atitude descomprometida dos milionários venezuelanos que vivem no exterior. "Esperava-se uma contribuição mais determinada dos milionários venezuelanos, que vivem no exterior, em contribuir com mais dinheiro para per
mitir que passassem a opôr-se a Maduro militares e oficiais venezuelanos"...
Diante desses fatos, importantes centros de decisão internacionais aliados de Donald Trump começaram a alertar que a oposição venezuelana "poderia perder a oportunidade" que supostamente ganhara com o surgimento de Guaidó, anterior activista de extrema direita das guarimbas, formado na porrada e na destruição de bens públicos
Porém estas recriminações a Gaidó não podem iludir que a responsabilidade da operação falhada no passado dia 23 foi dos próprios EUA que lhe criaram a dinâmica, deslocaram tropas especiais para a Colômbia e Porto Rico e que, contra a vontade dos venezuelanos e da maior parte dos países do mundo, queriam levar, à força a Venezuela “para a democracia”, queriam “remover” Maduro, que consideraram um ditador...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Aviso da Rússia aos EUA - Putin sobre política internacional, perante a Assembleia Federal Russa, na semana passada

(excerto do discurso)

Colegas, a Rússia tem sido e será sempre, um Estado soberano e independente. Isso é um dado adquirido, uma verdade. Sê-lo-á sempre ou, simplesmente, deixará de existir. Devemos compreendê-lo claramente. Sem soberania, a Rússia não pode ser um Estado. Alguns países podem fazê-lo, mas não a Rússia.
Construir relações com a Rússia significa trabalhar em conjunto para encontrar soluções para os assuntos mais complexos, em vez de tentar impor soluções. Não fazemos segredo sobre as nossas prioridades na política externa. Elas incluem o fortalecimento da confiança, o combate às ameaças globais, promoção de cooperação na economia e no comércio, educação, cultura, ciência e tecnologia, bem como facilitar o contacto entre as pessoas. Esses princípios advogam o nosso trabalho na ONU, na Comunidade de Estados Independentes, bem como no Grupo dos 20, nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai.
Acreditamos na importância de promover uma cooperação mais estreita e essencial no interior do Estado da União da Rússia e da Bielorrússia, incluindo na política externa e na coordenação económica. Juntamente com nossos parceiros de integração dentro da União Económica Eurasiática, continuaremos a criar mercados comuns e esforços de disseminação. O que inclui estabelecer decisões para coordenar as actividades da EAEU com a iniciativa ‘Belt and Road’ da China, em direcção a uma parceria eurasiática mais alargada.
Actualmente, as relações iguais e mutuamente benéficas da Rússia com a China, agem como um factor importante de estabilidade nos assuntos internacionais e em termos de segurança euroasiática, oferecendo um modelo de cooperação económica produtiva. A Rússia valoriza a realização do potencial de parceria estratégica privilegiada especial com a Índia. Continuaremos a promover o diálogo político e a cooperação económica com o Japão. A Rússia está pronta para trabalhar com o Japão na procura de termos mutuamente aceitáveis para a assinatura de um tratado de paz. Pretendemos promover laços mais profundos com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.
Também esperamos que a União Europeia e os principais países europeus finalmente tomem as medidas necessárias para regressar às relações políticas e económicas normais com a Rússia. Os povos desses países estão ansiosos por cooperar com a Rússia, incluindo as grupos económiocos, bem como pequenas e médias empresas e empresas europeias em geral. Escusado será dizer que isso serviria aos nossos interesses comuns.
A retirada unilateral dos EUA do Tratado INF é a questão mais urgente e mais discutida nas relações russo-americanas. Por esse motivo é que sou obrigado a falar sobre este assunto com mais detalhes. De facto, ocorreram mudanças preocupantes no mundo, desde que o Tratado foi assinado, em 1987. Muitos países desenvolveram e continuam a desenvolver estas armas, mas a Rússia ou os EUA não o fizeram – limitamo-nos, a esse respeito, por livre e espontânea vontade. Compreensivelmente, esse estado de coisas levanta questões. Os nossos parceiros americanos deveriam tê-lo dito com honestidade, em vez de fazerem acusações forjadas contra a Rússia, para justificar a sua retirada unilateral do Tratado.
Teria sido melhor se tivessem feito o que fizeram em 2002, quando abandonaram o Tratado ABM e o fizeram, aberta e honestamente. Se foi bom ou mau, é outro assunto. Penso que foi mau, mas eles fizeram-no e é o que aconteceu. Desta vez, também deveriam ter feito o mesmo. O que é que eles estão, realmente, a fazer? Primeiro, violam tudo, depois procuram desculpas e acusam a outra parte de ser culpada. Mas também estão a mobilizar os seus Estados satélites que são cautelosos, mas ainda fazem ruído, ao apoiarem os EUA. Ao princípio, os americanos começaram a desenvolver e a usar mísseis de médio alcance, designando-os como “mísseis alvo” para defesa anti-mísseis. Depois, começaram a instalar sistemas de lançamento universal Mk-41, que podem possibilitar o uso de combate ofensivo dos Tomahawk, mísseis de cruzeiro de médio alcance.
Estou a falar sobre este assunto e a usar o meu tempo e o vosso, porque temos de responder às acusações que nos são feitas. Mas tendo feito tudo o que acabei de descrever, os americanos ignoraram, completamente, as disposições previstas pelos Artigos 4 e 6 do Tratado INF. De acordo com a Cláusula 1, do Artigo VI (estou a citar): “Cada Parte eliminará todos os mísseis de alcance intermédio e os lançadores de tais mísseis… de modo que… nenhum desses mísseis e lançadores… será possuído por nenhuma das Partes”. O parágrafo 1 do Artigo VI estabelece que (e passo a citar): “Após a entrada em vigor do Tratado e posteriormente, nenhuma das Partes poderá produzir ou testar em voo, qualquer míssil de alcance intermédio ou produzir quaisquer estágios ou lançadores de tais mísseis”. Fim da citação.
Ao utilizar mísseis-alvo de médio alcance e ao instalar lançadores na Roménia e na Polónia que são adequados para o lançamento de mísseis de cruzeiro Tomahawk, os EUA violaram abertamente essas cláusulas do Tratado. Eles fizeram-no há algum tempo. Esses lançadores já estão estacionados na Roménia e nada acontece. Parece que nada está a acontecer. Isso é mesmo estranho. Não é completamente estranho para nós, mas as pessoas devem ser capazes de ver e compreender.
Como é que estamos a avaliar a situação neste contexto? Já disse e quero repetir: a Rússia não pretende - e isto é muito importante, estou a repeti-lo de propósito - a Rússia não pretende ser a primeira a colocar esses mísseis na Europa. Se eles realmente forem construídos e instalados no continente europeu, e os Estados Unidos têm planos para fazê-lo, pelo menos não ouvimos o contrário, irá exacerbar dramaticamente a situação de segurança internacional e criará uma séria ameaça à Rússia, porque alguns desses mísseis podem chegar a Moscovo em apenas 10 a 12 minutos. É uma ameaça muito perigosa para nós. Neste caso, seremos forçados, gostaria de salientar, seremos forçados a responder com acções idênticas ou assimétricas. O que é que isto significa?
Estou a dizê-lo, directa e abertamente, agora, para que ninguém possa culpar-nos mais tarde, para que fique claro para todos, com antecedência, o que está a ser dito aqui. A Rússia será forçada a criar e instalar armas que possam ser usadas, não apenas nas áreas onde somos ameaçados directamente, mas também nas áreas que contenham centros de tomada de decisão para os sistemas de mísseis que nos ameaçam.
O que é importante a este respeito? Há alguma informação nova. Estas armas corresponderão totalmente às ameaças dirigidas contra a Rússia nas suas especificações técnicas, incluindo os tempos de vôo para esses centros de tomada de decisão.
Sabemos como fazê-lo e accionaremos esses planos imediatamente, logo que as ameaças para nós se tornarem reais. Não creio que precisemos de mais nenhuma exacerbação irresponsável da situação internacional actual. Não queremos fazê-lo.
O que é que gostaria de acrescentar? Os nossos colegas americanos já tentaram obter superioridade militar absoluta com o seu projecto global de defesa antimíssil. Eles precisam não ter mais ilusões. A nossa resposta será sempre eficiente e eficaz.
O trabalho sobre protótipos promissores e sistemas de armas sobre os quais falei no meu discurso do ano passado, continua conforme programado e sem interrupções. Lançamos a produção em série do sistema Avangard, que já mencionei hoje. Como foi planeado, este ano, o primeiro regimento de Tropas de Mísseis Estratégicos será equipado com o Avangard. O míssil intercontinental super-pesado Sarmat, de potência sem precedentes, está a ser submetido a uma série de testes. A arma laser Peresvet e os sistemas de aviação equipados com mísseis balísticos hipersónicos Kinzhal, deram prova das suas características únicas durante as missões de alerta de teste e combate, enquanto o pessoal aprendia a manobrá-los. No próximo mês de Dezembro, todos os mísseis Peresvet fornecidos às Forças Armadas serão colocados em alerta. Continuaremos a expandir a infraestrutura dos interceptores do MiG-31,com capacidade de transportar mísseis Kinzhal. O míssil de cruzeiro nuclear Burevestnik de alcance ilimitado e o veículo submarino não tripulado nuclear Poseidon, de alcance ilimitado, estão a ser submetidos a testes, com sucesso.
Neste contexto, gostaria de fazer uma declaração importante. Não o anunciamos antes, mas podemos dizer hoje que, nesta primavera, será lançado o primeiro submarino movido a energia nuclear transportando este veículo não tripulado. O trabalho está a prosseguir como foi planeado.
Hoje também penso que posso informar-vos, oficialmente, sobre outra inovação promissora. Como se podem recordar, da última vez eu disse que tínhamos algo mais para mostrar, mas era um pouco cedo para fazê-lo. Então vou revelar, pouco a pouco, o que mais temos na manga. Outra inovação promissora, que está a ser desenvolvida com sucesso, de acordo com o planeado, é o Tsirkon, um míssil hipersónico que pode atingir velocidades de aproximadamente Mach 9 e atingir um alvo a mais de 1.000 km de distância, tanto debaixo d’água quanto no solo. Pode ser lançado a partir da água, de navios de superfície e de submarinos, incluindo aqueles que foram desenvolvidos e construídos para transportar mísseis Kalibr de alta precisão, o que significa que, para nós, não existe custo adicional.
Numa nota relacionada, quero ressaltar que, para a defesa dos interesses nacionais da Rússia, dois ou três anos antes do cronograma estabelecido pelo programa estatal de armamentos, a Marinha Russa receberá sete novos submarinos polivalentes e a construção começará com cinco embarcações projectadas para oceano aberto. Dezasseis embarcações suplementares desta classe, entrarão em serviço na Marinha Russa, até 2027.
Para concluir, sobre a retirada unilateral dos EUA do Tratado sobre a Eliminação de Mísseis de Alcance Intermédio e de Curto Alcance, aqui está o que eu gostaria de dizer: A política dos EUA em relação à Rússia, nos últimos anos, dificilmente pode ser considerada amigável. Os interesses legítimos da Rússia estão a ser ignorados, há campanhas constantes contra a Rússia e cada vez mais sanções, que são ilegais nos termos do Direito Internacional e são impostas sem nenhum motivo. Deixem-me salientar que não fizemos nada para provocar estas sanções. A arquitetura de segurança internacional que tomou forma nas últimas décadas está a ser completa e unilateralmente desmantelada, ao mesmo tempo que refere a Rússia, como sendo, práticamente, a principal ameaça contra os EUA.
Deixem-me dizer abertamente que isso não é verdade. A Rússia quer ter relações sólidas, iguais e amistosas com os EUA. A Rússia não está a ameaçar ninguém e tudo o que fazemos em termos de segurança, é simplesmente uma resposta, o que significa que as nossas ações são defensivas. Não estamos interessados em confrontos e não o queremos, especialmente com um poder global como os Estados Unidos da América. No entanto, parece que nossos parceiros não percebem a profundidade e o ritmo das mudanças em todo o mundo e para onde estão indo. Eles continuam com a sua política destrutiva e claramente equivocada. O que, dificilmente, vai ao encontro dos interesses dos próprios EUA. Mas, não cabe a nós, decidirmos.
Podemos ver que estamos a lidar com pessoas pró-activas e talentosas, mas dentro da elite, há também muitas pessoas que têm uma fé excessiva no seu excepcionalismo e supremacia sobre o resto do mundo. Claro que têm o direito de pensar o que quiserem. Mas eles sabem contar? Provavelmente, sim. Então, deixem que eles calculem o alcance e a velocidade dos nossos futuros sistemas de armas. É tudo o que pedimos: primeiro façam as contas e depois, tomem as decisões que criem novas ameaças perigosas para o nosso país. Escusado será dizer que estas decisões levarão a Rússia a responder a fim de garantir a sua segurança de forma fiável e incondicional.
Já disse e vou repetir: Estamos prontos para entabular conversações sobre desarmamento, mas jamais iremos bater a uma porta fechada. Esperaremos até que os nossos parceiros estejam preparados e conscientes da necessidade de dialogar sobre este assunto.
Continuamos a desenvolver as nossas Forças Armadas e melhorar a intensidade e a qualidade de treino de combate, em parte, usando a experiência que adquirimos na operação anti-terrorista na Síria. Foi adquirida muita experiência por praticamente todos os comandantes das Forças Terrestres, pelas forças de operações secretas e pela polícia militar, pelas tripulações dos navios de guerra, pelo exército, pela aviação táctica, estratégica e de transporte militar.
Gostaria de salientar, novamente, que precisamos de paz para um desenvolvimento sustentável a longo prazo. Os nossos esforços para aumentar a nossa capacidade de defesa têm, apenas, um propósito: garantir a segurança deste país e dos nossos cidadãos, para que ninguém sequer pensar em nos pressionar ou lançar uma agressão contra nós.
Colegas, estamos perante metas ambiciosas. Estamos a abordar soluções de maneira sistemática e consistente, a construir um modelo de desenvolvimento socio-económico que nos permitirá assegurar as melhores condições para a auto-realização da nossa gente e, assim, fornecer respostas adequadas aos desafios de um mundo que está a mudar rapidamente, e estamos a preservar a Rússia como uma civilização e com identidade própria, enraizada em tradições seculares e na cultura do nosso povo, dos nossos valores e costumes. Claro que só seremos capazes de alcançar os nossos objectivos, combinando os nossos esforços, juntamente com uma sociedade unida, se todos nós, todos os cidadãos da Rússia, estivermos dispostos a ter sucesso em empreendimentos específicos.
Tal solidariedade na luta pela mudança é sempre a escolha deliberada das pessoas. Elas fazem essa escolha quando compreendem que o desenvolvimento nacional depende delas, dos resultados do seu trabalho, quando o desejo de serem necessárias e úteis goza de apoio, quando todos encontram um trabalho por vocação com o qual se sentem felizes e o que é mais importante, quando existe justiça e um vasto espaço de liberdade e igualdade de oportunidades de trabalho, estudo, iniciativa e inovação.
Esses parâmetros para desenvolver descobertas não podem ser traduzidos em números ou indicadores, mas são estas coisas - uma sociedade unificada, pessoas envolvidas nos negócios do seu país e uma confiança comum no nosso poder - que desempenham o papel principal para alcançar o sucesso.E, se for necessário, alcançaremos esse sucesso de qualquer maneira.
Grato pela vossa atenção. 

As tentativas, falhada e adiada, de intervenção militar dos EUA na Venezuela

No passado sábado falhou a tentativa norte-americana de fazer entrar ilegalmente na Venezuela, à força, camiões ditos de ajuda humanitária, com um conteúdo não controlável pelas autoridades. 

Em nenhum país do mundo isto poderia ser aceite quanto mais quando tropas especiais norte-americanas foram deslocadas na Colômbia, de presidente fascista, para virem a integrar o desenvolvimento da provocação.

Não é estranho que, face ao falhanço, grupos de guarinberos voltassem a estar presentes (oposicionistas de rosto tapado que desde 2014 atacam nas ruas de Caracas, recorrendo a pedras e cocktails molotov destruindo tudo à sua passagem e tendo chegado a queimar vivo um apoiante do regime em 2017). 
No passado sábado agiram do lado da Colômbia, pilhando os camiões que não passaram e, depois, deitando-lhes fogo, acusando Maduro de o ter feito.
Depois do falhanço da tentativa, estes miltares foram deslocados para outros pontos da Colômbia e para Porto Rico onde continuam os treinos. Se é certo que a chamada cimeira de
© Lillian Suwanrumpha / AFP
Lima, recusou a intervenção militar, no seu final o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, disse que a pedido de Guaidó, todas as hipóteses estavam na mesa, como se o auto-proclamado presidente interino da Venezuela, tivesse vontade própria, diferente da admnistração Trump...
As concepções estratégicas da Casa Branca, desde há quase vinte anos passam, entre outras coisas, por intervenções na região das Caraíbas, em concreto na Venezuela, Porto Rico, Nicarágua e Cuba.
(infografia do CUBADEBATE)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Duas cimeiras e os riscos para a paz no Médio Oriente, por António Abreu

 A mentira revelada

Nos dias 13 e 14, os EUA e Israel, com o apoio do anfitrião polaco, montaram uma operação que visava retirar os EUA do isolamento em que colocara a sua diplomacia no Médio Oriente na sequência de se ter retirado, em maio de 2018, do acordo nuclear com o Irão. A ausência do areópago dos estados-membros da EU, à exceção da Inglaterra, da Rússia, Turquia, Catar, Líbano, dos rebeldes houtis do Iémen e da Autoridade Palestiniana, e a responsável da política externa da UE, Federica Mogherini, do areópago e as declarações catastróficas de Benjamin Nethanyahu antes dele ter início. Para já, Gordon Sondland, o embaixador dos EUA na UE, afirmou que a não comparência dos líderes europeus teria sido “um ato inútil".
A ausência dos estados europeus, deveu-se à mentirola anterior dos EUA, logo retificada, de que não pretendiam uma mudança de regime em Teerão, à falta de convite ao Irão para participar, e à existência de uma agenda escondida sobre os objetivos da conferência, que se chamava “Futuro da Paz e da Segurança no Médio-Oriente”, mas que pretendia, de facto, prejudicar a vontade da UE em preservar esse acordo com o Irão.
Israel tirou o véu quando na véspera, Nethanyahu avançou que a reunião tinha como objetivo consolidar “o interesse comum da guerra contra o Irão”. E não terá sido, por acaso, “coincidência” que no primeiro dia da conferência em Varsóvia, o país tenha sofrido o pior ataque terrorista em anos quando 27 de seu Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram mortos em um ataque suicida reivindicado por um grupo jihadista. Teerã afirmou que o grupo terrorista tinha ligações com " serviços de inteligência estrangeiros ". Certo é que no início da semana passada, o Irão celebrou o 40º aniversário da sua revolução islâmica. O aniversário classificado por Trump como " 40 anos de terror ".  O seu conselheiro de segurança nacional, John Bolton, também enviou uma mensagem à liderança do Irão dizendo que seu tempo acabou. O Netanyahu emitiu um aviso assustador de que o aniversário poderia ser o último. E, no decurso da conferência um outro indefetível de Trump, Rudy Giuliani, pediu abertamente a mudança de regime no Irão. E, à margem da conferência, Giuliani, à margem da conferência, usou também da palavra numa manifestação em Varsóvia organizada pelo exilado iraniano Mujahideen-e Khalq (MEK). O grupo tem estado ligado a ataques terroristas no Irão que visam derrubar o governo de Teerão. Não está claro se o MEK teve algum envolvimento no atentado a bomba desta semana, mas em Varsóvia ao receberem Giuliani, aplaudiram o assassinato dos guardas iranianos.
A escolha da Polónia como anfitriã do evento não foi feita por acaso. A Polónia vem adquirindo de Washington sistemas de mísseis dos EUA e pediram para que os americanos construam uma nova base militar no país, que Varsóvia propõe chamar de "Fort Trump". Um ex-diplomata polaco reclamou que o governo de Varsóvia nem sequer teve participação na agenda da cimeira, afirmando que esta fora dominada por Washington, Israel e Arábia Saudita.
No período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ridicularizou a oposição da Alemanha e da França à guerra criminosa de agressão, referindo-se a esses países como "velha Europa" e exaltando o apoio ao imperialismo norte-americano. de uma “nova Europa”, composta pelos regimes do Leste Europeu e, principalmente, pela Polônia.

O eixo militar judaico-sunita

Um outro, o jornalista Thierry Meyssan, especialista das questões do Médio Oriente acha que os EUA pretendem “criar uma aliança militar judaico-sunita contra os xiitas”, que alguma imprensa tem chamado “a NATO árabe”. E refere que dias antes, a 10 de janeiro, durante uma conferência na Universidade americana do Cairo, o Secretário de Estado Mike Pompeo tinha identificado como objetivos para a região:
- Opor-se ao «regime iraniano» e aos «seus mandatários»;
- Pôr em ação uma Aliança estratégica judaico-sunita contra o Irão xiita (1).
Para ele esta confessionalização da política externa dos EUA deve ser conjugada com o retorno de Elliott Abrams (2) ao Departamento de Estado após 30 anos de ausência. Este trotskista, que se juntou em 1980 ao Presidente republicano Reagan, é um dos fundadores do movimento neoconservador. Ele é também um dos iniciadores da teopolítica, essa escola de pensamento aliando judeus e cristãos sionistas segundo quem a Terra só ficará em paz quando for dotada de um governo mundial sediado em Jerusalém (3).
Para Abrams e os trotskistas da revista “American Jewish Commitee, Commentary”, havia que lutar ao mesmo tempo contra a URSS, para prosseguir a luta de Leon Trotsky contra José Estaline, e montar um Golpe de Estado mundial. Abrams participou, na criação do Instituto da Paz dos EUA e na “National Endowment for Democracy” (NED), bem nossa conhecida pelas vultosas dotações financeiras que recolhe do Orçamento do Estado com que paga a todo o tipo de mercenários e “benfeitores” para organizarem revoluções coloridas, missões humanitárias e outras também “beneméritas”. A este grupo se deve a invenção da teopolítica, como uma justificação religiosa para uma tomada de poder mundial.
Os neocons são também conhecidos por likudnics que expressa a sua vinculação ao Likud israelita de Nethanyahu.
A obsessão do imperialismo norte-americano com o Irão deve-se essencialmente a nunca ter perdoado as massas de trabalhadores iranianos e pobres pela revolução de 1979 que derrubou a ditadura do Xá apoiada pelos EUA, o eixo da dominação dos EUA sobre a região. Embora essa revolução tenha sido usurpada pelo regime burocrático-teocrático estabelecido sob o ayatollah Khomeini, Washington recusou-se a aceitar qualquer mudança de regime, optando pela reimposição de uma ditadura fantoche dos EUA do tipo da do xá.

As debilidades do Irão

Há uma contradição entre o Irão em considerar Israel e a Arábia Saudita, quando antes e hoje existem entendimentos com esses países.
Há divisões entre os principais políticos: o Guia da Revolução, o Ayatollah Komeini, o Presidente da República xeque Rohani, “pai” do acordo nuclear e o antigo Presidente Ahmadinejad, com residência vigiada depois da prisão de vários dos seus colaboradores.
Rohani assinou o acordo nuclear com Obama, mas as sanções nunca foram levantadas e a economia iraniana entrou em colapso, com a agravante de Trump o ter rasgado.
A recusa de Rohani em prolongar apoios à Palestina, ao Hezbollah, e à Síria, retiraram um apoio importante de um país-chave a causas justas que careciam desse apoio, deixando os Guardas da Revolução a protegerem apenas os xiitas na Síria.
Os entendimentos entre o Irão, a Rússia e a Turquia podem já ter conhecido melhores dias.
As dificuldades económicas levaram à dificuldade em pagar as suas milícias no Iraque e o Hezbollah.
A saída da Rússia da intervenção militar direta na Síria tem facilitado os bombardeamentos contra forças iranianas e quanto à defesa da Síria, Moscovo ofereceu ao país mísseis S-300 para o país garantir a sua defesa anti-aérea.
A maioria democrata na Câmara dos Representantes não vai ajudar as dificuldades de Rohani.
A situação no Levante permanece complicada e não resolvida devido ao ceticismo em relação a uma retirada completa dos EUA do país e à falta de confiança entre os parceiros.
A Rússia parece pronta para tolerar temporariamente a presença turca na Síria onde se tem mantido há muito com o argumento de se proteger do Hezbollah.
O Irão, um parceiro próximo da Turquia, gostaria que as forças sírias assumissem o controle de todo o território, mas dá prioridade à partida final dos EUA.
Damasco e Teerão compartilham o mesmo medo de ver tropas turcas na Síria por um longo tempo.
Essas diferenças limitaram o sucesso da cimeira de Sochi, que se realizou ao mesmo tempo, e reunindo a Rússia, o Irão e a Turquia.
De facto, uma vez que o destino de Idlib e do nordeste da Síria ainda é desconhecido e ainda não foi acordado pelos aliados até agora. Não se pode esperar uma solução perfeita porque é claro que há uma falta de confiança, principalmente no papel e na presença da Turquia na Síria.
Independentemente desta observação, os curdos são, sempre e de novo, os maiores perdedores.

EUA e Europa

E quais foram as reações dos seus “aliados europeus” ao serem apontados por não seguirem a linha dos EUA em relação ao Irão. O vice-presidente dos EUA exigiu que a Alemanha, a França e o Reino Unido, todos signatários do acordo nuclear com o Irão de 2015, sigam a liderança de Washington em desmantelar o acordo e impor um bloqueio económico que equivaleria a um ato de guerra.
Pence acusou "alguns dos principais parceiros europeus" dos EUA de tentarem "quebrar as sanções americanas contra o regime revolucionário assassino do Irão". Referia-se a um mecanismo financeiro introduzido pelo Reino Unido, Alemanha e França para permitir a troca de bens entre empresas europeias e o Irã. sem transações financeiras diretas ou o uso do dólar americano para evitar as sanções extraterritoriais dos EUA.
O vice-presidente dos EUA exigiu que as potências europeias "fiquem connosco" para liquidar o acordo nuclear e, presumivelmente, para se prepararem para a guerra com o Irão. Reconhecendo que o Irão estava a agir em conformidade com o acordo nuclear, Pence declarou que a questão não era a conformidade, mas a indesejabilidade do “negócio” em si mesmo. E não deixou de dizer que qualquer tentativa de escapar do regime de sanções dos EUA "criaria ainda mais distância entre a Europa e os EUA".
Bill Van Auken, do world socialista website, recordou-nos nestes dias que “no período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ridicularizou a oposição da Alemanha e da França à guerra criminosa de agressão, referindo-se a esses países como "velha Europa" e exaltando o apoio ao imperialismo norte-americano de uma “nova Europa”, composta pelos regimes do Leste Europeu e, principalmente, pela Polónia.
#
As intenções enunciadas na Conferência de Varsóvia da semana passada, mesmo que denunciadas na contradição entre as suas belas intenções e a realidade da guerra enunciada contra o Irão, mesmo com as reservas da UE, constituem um pesado risco para a paz.
A frase de Mike Pence, repetida até à exaustão, que caracterizava o Irão como "principal patrocinador estatal do terrorismo", foi apresentada sem factos nem provas. Os EUA nunca deveriam emitir tal declaração porque especialmente os seus dois últimos governos aplicaram milhares de milhões de dólares no financiamento de guerras terroristas por milícias ligadas à Al Qaeda para provocar mudanças de regime na Líbia e na Síria.
Quanto ao “estado que semeia o maior dano e a maior discórdia”, alguém pode afirmar com franqueza que Washington, que travou um quarto de século de guerras intermináveis e ruinosas na região, arrasando sociedades inteiras e deixando milhões de mortos, mutilados e deslocados, tem concorrentes à sua altura para lhe arrebatarem esse título?
O imperialismo norte-americano está determinado a afirmar sua hegemonia sobre o Irão, o Médio Oriente, a Ásia Central e a Venezuela, a fim de estabelecer seu controle incontestado sobre todas as reservas de energia do mundo, dando-lhe a capacidade de negar acesso a sua principal rival global, a China.

(1) “Observações de Mike Pompeo na American University do Cairo”, Rede Voltaire, 10 janeiro, 2019.
(2) «Elliott Abrams, o "gladiador" convertido à "teopolítica"», Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 14 fevereiro 2005.
(3) «Cimeira histórica para selar a Aliança dos guerreiros de Deus», Rede Voltaire, 17 outubro 2003

Versão actualizada da publicada originalmente em www.abrilabril.pt, em 18/2/19