sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge









"Possunt quia posse videntur"

"Conseguem porque acreditam que conseguem."

Virgílio
poeta romano, 70-19 aC,
no Canto V da Eneida

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Médio Oriente: sinais contraditórios, por António Abreu

 
No complexo xadrez do Médio Oriente, Afeganistão, Iraque, Síria e vários grupos curdos têm interagido com potências como a Turquia, Rússia, EUA, França, Inglaterra, Arábia Saudita e Israel.
Recentemente a Turquia propôs aos EUA colocar tropas norte-americanas e turcas na cidade síria de Manbij, como forma de isolar a parte leste e norte da Síria, controlar os grupos curdos, alimentar-lhes uma autonomia regional que se vire não contra a Turquia mas contra a Síria.
Nos territórios a leste do Rio Eufrates, os EUA jogam com milícias curdas para criar uma Força de Segurança de Fronteiras, compostos por 30 mil militares, metade dos quais das Forças Democráticas da Síria (FDS), que se têm oposto ao processo de paz para Síria, da iniciativa do presidente russo e acompanhado pelas Nações Unidas.
 
Prosseguem movimentações de grupos terroristas do Iraque para Síria e Afeganistão, da Síria e Iraque para o Afeganistão. Os EUA formam os terroristas, combatentes das FDS, a partir de membros do Daesh e da Al-Nusra, derrotados mas com dirigentes activos, que foram salvos pelos EUA.
 
Entre a Síria e os Curdos poderá ocorrer uma reviravolta nas relações entre ambos. Houve um recente pedido de apoio dos curdos à Síria, a propósito da ofensiva turca contra Afrín, que teve resposta positiva desde que só forças sírias combatessem os terroristas, por ser tarefa de defesa da soberania do país.
 
Os EUA têm, em várias situações, removido com helicópteros, dirigentes do Daesh de situações de aflição como também tem libertado presos seus de cadeias como aconteceu com a libertação por helicópteros de dirigentes presos na cadeia de Al-Hasakah, levando-os para perto da aldeia de Abu Hajar, na parte oriental da Síria, em condições de retomarem a sua actividade. 
 
As negociações para a paz iniciadas em Geneve, prosseguidas em Astana e agora em Sotchi, têm sido sucessivamente boicotados por quem nelas não participa porque não as quer, incluindo as potências ocidentais que as apoiam (EUA, França).
 
Nos últimos dias
- Em Afrín milícias sírias têm levado ajuda humanitária aos curdos apesar da resistência turca 
- Em Ghouta Oriental, terroristas, escudados com a população local lançaram mais de    
  1500  obuses sobre Damasco com dezenas de mortos nas últimas 7 semanas). Damasco reagiu
  bombardeando essa zona da cidade (segundo OSDH cerca de 300 mortos da população), atrás da
  qual os terroristas se escondem.
 
O balanço da presença dos EUA no Afeganistão é muito negativa ( ver post anterior de dia 16 aqui no blogue: terra queimada, narcotráfico, apoio a grupos talibans uns contra os outros,etc.). Apesar das acções dos EUA, que diz ter acabado com Daesh, ainda se mantêm cerca de mil combatentes do grupo no Norte e Oriente do país. Os EUA nestas acções contra o ISIS têm morto milhares de civiis, segundo a ONU. Depois de uma aparente redução do envolvimento em acções militares, Trump e o Pentágono alteram essa aparência, quando a prioridade devia ser um processo de reconciliação nacional, dirigido pelos próprios afegãos.
 
Em 2017, o balanço dos bombardeamentos das forças da coligação ocidental no Iraque e na Síria foi de cerca de 6 mil civis mortos (Organização de Jornalistas Independentes AirWars).
 
Quanto à legitimidade da intervenção estrangeira na Síria, importa ter em conta que da parte de Israel, Turquia, EUA, França foram invasões e agressões ilegais enquanto a intervenção russa e de combatentes do Hezbollah e milícias iranianas foram pedidas pelas autoridades sírias.
 
No Conselho de Segurança das Nações unidas têm ocorrido 2 atitudes contraditórias e ontem um apelo
- as pró-ocidentais tentando criminalizar bombardeamentos russos e sírios
- as dos aliados da Síria procurando condenar países que apoiam grupos terroristas na Síria.
. ontem houve um apelo a cessar-fogo de 30 dias, que terá que ser confirmado pelas partes

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Afeganistão, onde as pessoas são o que menos interessa, por António Abreu


Passado e presente de um país ainda com futuro. História, política e economia de uma região na encruzilhada de continentes e de civilizações, devastada pela geoestratégia imperial dos EUA.

 
Compreender um percurso de dor

Falar do Afeganistão, 16 anos depois de as Twin Towers ainda esperarem a verdade desse massacre fundador, é um percurso de dor e de uma consciência que se vai construindo, através das peças de um puzzle onde as pessoas parecem ser o que menos interessa.

Mas também constitui uma oportunidade para recuperar hoje elementos essenciais da situação no Afeganistão para se compreender como tudo surgiu e porque muito ainda se mantém.

Os atentados do Daesh em 29 Janeiro
 
A recente série de atentados terroristas no Afeganistão

Há duas semanas, no dia 29 de Janeiro, um ataque suicida perpetrado por cinco atacantes, contra um posto militar em Cabul, próximo da principal academia militar do país, deixou 11 soldados mortos e 15 feridos. Quatro dos atacantes foram mortos ou fizeram-se explodir e um quinto terrorista foi preso. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico (EI, Al-Qaeda e Talibans interpenetram-se num jogo de espelhos comandado por serviços secretos ocidentais que os criaram e/ou assessoraram).

Foi mais um de uma série recente de ataques no Afeganistão. No sábado anterior, dia 27, outros terroristas usaram uma ambulância-bomba para matar 103 pessoas e ferir outras 235. O chefe da missão da ONU no Afeganistão, Tadamichi Yamamoto, classificou o ataque como uma «atrocidade». No dia 24, um grupo tinha atacado a sede da ONG «Save the Children» em Jalalabad, provocando três mortos e 24 feridos. No dia 20, um ataque armado ao luxuoso Hotel Intercontinental de Cabul causara 19 mortos, 14 dos quais estrangeiros, provocando um grande incêndio em vários andares do prédio.

Tropas internacionais
 

Para compreender esta agressividade assassina crescente, o jornalista afegão Masud Waganas referia, há dias, existirem fortes rivalidades geopolíticas entre poderes, imperialistas e hegemónicos, relativas aos recursos naturais do Afeganistão e às rotas comerciais e de trânsito, atendendo à localização geoestratégica do país, tendo essas rivalidades crescido de forma significativa nos últimos anos.

 

O legado do Império Britânico, o regime democrático e socialista, a intervenção soviética e o regime Taliban

 Desde o século XVIII a Inglaterra deteve o monopólio da produção de ópio na Índia, que estendeu depois ao Afeganistão. No Afeganistão a resistência à ocupação malogrou uma primeira tentativa de os ingleses destronarem o rei Dost Mohammad. No início de 1842 os ingleses foram forçados a deixar Cabul e, na retirada para Jalalabad, deixaram na neve 17 mil corpos de militares e auxiliares. A Inglaterra torneou a questão cortando os acessos do Afeganistão ao mar, retirando-lhe o território para cá das cordilheiras do Hindu Kush.

 
Preocupada com o vizinho Império Russo, a Inglaterra realizou novas intervenções e, sem consultar os afegãos, acabou por assinar com aquele uma convenção, em 1907, que retirou parcelas ao país e resultou no afastamento dos Pashtuns, que integravam o Afeganistão desde tempos imemoriáveis.

 

Cerca de 90 anos tarde foi precisamente entre as rebeldes tribos Pashtun que nasceu o movimento Taliban, que, em poucos anos, ganhou a guerra civil e se estabeleceu no poder no Afeganistão. Desalojado do governo de Cabul pela intervenção americana, ainda hoje dominam boa parte do território afegão e mantêm em cheque o governo de Karzai e os seus aliados americanos.

 
Em 22 de Novembro de 1917, menos de uma semana após a Revolução Bolchevique, o governo soviético denunciou e tornou públicos os tratados assinados pelo governo czarista, anulando os entendimentos entre britânicos e russos acerca do Afganistão. O rei Amanullah declarou a independência do país em relação ao império britânico em 1915 e tentou fazer regressar os Pashtun ao país mas os ingleses reagiram com mais uma guerra anglo-afegã (a terceira em 80 anos) e o objectivo não foi atingido. Face às tentativas de reunificação pacífica, os britânicos, em 1920, enviaram uma força conjunta de dois mil ingleses e indianos que mataram quatro mil habitantes de aldeias no Noroeste.

 
O rei tornou-se um liberalizador: reforçou o exército; aboliu a escravatura e os trabalhos forçados; defendeu maiores liberdades para as mulheres, desencorajou o uso do véu e a opressão feminina; e introduziu oportunidades educativas para as mulheres.

 
Em 1924 ocorreram violentas revoltas dos islamitas conservadores na cidade fronteiriça de Khost, que foi dominada pelo exército afegão. A revolta foi uma reacção às reformas sociais de Amanullah, particularmente a educação pública para meninas e uma maior liberdade para as mulheres. O historiador afegão Abdul Samad Ghaus escreveu em 1988: «A Grã-Bretanha foi vista como culpada no caso, manipulando as tribos contra Amanullah na tentativa de provocar a sua queda.» Em 1929 grandes revoltas das tribos conservadoras levaram à queda do rei, com a suspeição geral que os ingleses tinham estado por detrás disso.

A intervenção norte-americana começa a ocorrer após a Segunda Guerra Mundial, em 1950, a partir da Directiva 68 de Segurança Nacional onde se afirmava que a URSS tinha o «desígnio do domínio do mundo». Em 1956 os EUA construíram em Kandahar um aeroporto internacional que servia a actividade de bombardeiros para a declarada eventualidade de um confronto com a URSS. No início dos anos 70 a CIA garantiu a retaguarda dos radicais islâmicos até ao início de 1973.

 
Entretanto no Afeganistão, em 1978, ocorreu uma revolução dirigida pelo Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA), comunista.

Em Agosto de 1979, um relatório classificado do Departamento de Estado afirmava: «os interesses maiores dos Estados Unidos (…) serão satisfeitos com o desaparecimento do actual regime afegão, apesar de quaisquer contratempos que isso possa significar para as futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão.»

Zbigniew Brzezinski, assessor de segurança nacional do presidente Carter, admitiu, após a guerra contra os soviéticos, que a CIA fornecia ajuda secreta aos Mujahideen afegãos seis meses antes da invasão soviética. E salientou que a intenção dos EUA ao fornecer essa ajuda era «atrair os russos para a armadilha afegã». No dia em que os soviéticos cruzaram oficialmente a fronteira, afirmou ter escrito ao presidente Carter: «agora temos a oportunidade de dar à URSS a sua Guerra do Vietname.» A intervenção soviética no Afeganistão, a 26 de Dezembro de 1979, a pedido do governo afegão, envolveu as forças soviéticas no apoio ao governo marxista do PDPA contra os fundamentalistas islâmicos, principalmente Mujahideen.
Após a intervenção, os Estados Unidos foram rápidos em fornecer armas aos Mujahideen. Em Fevereiro de 1980, o Washington Post informou que eles estavam a receber armas provenientes do governo dos EUA. Os montantes foram significativos: 10 mil toneladas de armas e munições em 1983, que foram crescendo e atingiram 65 mil toneladas 1987, de acordo com Mohammad Yousaf, general paquistanês que supervisionou a guerra secreta de 1983 a 1987. Milton Bearden, chefe da estação da CIA no Paquistão de 1986 a 1989, que foi responsável por armar os Mujahideen, comentou: «Os EUA estavam a lutar contra os soviéticos até ao último afegão».

Estima-se que os EUA e a Arábia Saudita deram 40 mil milhões de dólares em armas e dinheiro aos Mujahideen fundamentalistas ao longo da guerra. O dinheiro foi canalizado através do governo do Paquistão, que usou algum dele para criar milhares de escolas religiosas islâmicas fundamentalistas (madrassas) para as crianças refugiadas afegãs que inundaram o país. Estas tornaram-se as instituições de formação para os Talibans.

Em Maio de 1988 a União Soviética começou a retirada das suas tropas do território afegão, uma retirada que só completou em Fevereiro de 1989. Porém, mesmo após a retirada, a guerra civil continuou no país até os rebeldes tomarem Cabul, em Abril de 1992, assassinando o presidente deposto, Mohamed Najibulah, que tivera o apoio dos soviéticos.

O país passou a ser uma república islâmica e, no ano seguinte, uma assembleia nacional, composta por várias facções rivais, líderes tribais e religiosos, aprovou a criação de um novo parlamento. Esta união entre as várias facções durou pouco tempo. Violentas disputas internas favoreceram a ascensão de uma nova força política, os Talibans, grupo fundamentalista islâmico financiado pelo Paquistão. A partir daí foram anos de destruição do país, da sua cultura, dos direitos dos cidadãos, de assassinatos em massa que conduziram o país ao que hoje existe: um país de privações alimentares; de habitação, saúde, e de direitos democráticos condicionados; com regras rígidas para as mulheres e destruído por sucessivas guerras.

 As potências ocidentais mantiveram-se impávidas e serenas. Para elas o importante tinha sido a queda de um regime alinhado com a URSS e a saída desta do país. Assistiram a anos de uma loucura indescritível e os EUA só lá entraram em 2001 por razões relacionadas com os seus interesses económicos de exploração das riquezas naturais e estratégicos de expansão para leste.

 

O regime socialista e as transformações no Afeganistão (1978-1992)

 Atendendo ao que fui estudando nestes anos, de entre as diferentes narrativas sobre este período subscrevo a de Dana Visalli, agricultora biológica norte-americana e comentadora de política internacional.

 

1. Legislação. Direitos.
O novo governo iniciou um programa de reformas que eliminou a usura, lançou uma campanha de alfabetização, eliminou a cultura do ópio, legalizou os sindicatos, estabeleceu um salário mínimo e diminuiu entre 20% e 30% os preços dos bens mais necessários, introduziu o ensino superior qualificado para os trabalhadores, aumentou os salários numa média anual de 26% e os salários mais baixos em 50%.

O Estado subsidiou, para os manter, os preços de bens básicos, como a gasolina, o gasóleo, o querosene («petróleo») ou o açúcar, enquanto outros, como o trigo, a farinha e a lenha, passaram a ser vendidos a preços fixos.
Quanto aos direitos das mulheres, o regime socialista concedeu a permissão para não usar véu, aboliu o dote, promoveu a integração das mulheres no trabalho (245 mil trabalhadoras, sendo 40% dos médicos mulheres) e a alfabetização (o analfabetismo feminino foi reduzido de 98% para 75%); 60% do corpo docente da Universidade de Cabul passou a ser de mulheres, 440 mil mulheres passaram a trabalhar na educação e 80 mil participaram na campanha de alfabetização. O mesmo aconteceu na vida política. As mulheres passaram a ter, por lei, direitos iguais aos dos homens.

A taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos diminuiu de 38% em 1960 para 30% em 1988, 80% da população urbana passou a ter acesso aos serviços de saúde e a expectativa de vida, de 33 anos em 1960, passou para 42. Duplicou o número de camas hospitalares. Aumentou em 50% o número de médicos. Pela primeira vez foram criados jardins-de-infância e casas de repouso para os trabalhadores.

Foi realizada a cobertura hospitalar e de centros de saúde, mesmo nas regiões rurais remotas. O acesso aos cuidados de saúde era gratuito e os medicamentos eram vendidos a preços acessíveis, e para os mais pobres, os medicamentos eram entregues gratuitamente.

Centenas de milhares de pessoas foram alfabetizadas e 63% das crianças frequentaram o ano escolar em 1985.

Foi fundada a Academia de Ciências (1980), o Instituto Pedagógico (1987) e universidades em Balha (1988), Herat (1988) e Kandahar (1990). O Afeganistão enviou para o espaço o primeiro e único cosmonauta da sua história, Abdul Ahad Mohmand, em 1988. Também desenvolveu a cinematografia nacional.

 Inicialmente a religião foi separada do Estado, mantendo-se a liberdade de culto. Mais tarde, foi criado um fundo estatal para a reparação e construção de mesquitas e anulada a expropriação de terras do clero. Em 1987, o Islão foi restaurado como a religião oficial do Estado.

 

2. Economia

 Depois da revolução, o governo Taraki nacionalizou sectores estratégicos da economia e a realizou uma reforma agrária, que incluiu a formação de cooperativas agrícolas e a expropriação de terras dos latifundiários e sua distribuição entre os camponeses (o limite da propriedade privada da terra era de seis hectares).

 A proporção de indústrias extractivas e transformadoras cresceu de 3,3% do PIB em 1978 para 10% em 1985. No mesmo período, o investimento na indústria nacional ultrapassou em 80% todos os investimentos nos vinte anos anteriores à Revolução. Em 1984, os investimentos em sectores estatais e mistos aumentou em 50%. Nesse ano foram criadas 100 novas empresas. Em 1984, as colheitas ultrapassaram significativamente as anteriores.

 O reforço do sector público não excluiu o sector privado. No governo Karmal foi fundada a Câmara de Comércio e Indústria, com o objectivo de reunir representantes de capitais privados de mais de vinte associações de comerciantes.

 Com a ajuda da União Soviética, no sector estatal da economia foram construídas cerca de 200 empresas, que passaram a fornecer a maior parte da produção global. Entre elas as empresas hidro-eléctricas e a Puli-Humri Naghlu, a fábrica de fertilizantes de azoto em Mazar-i-Sharif, uma empresa de panificação e outra de casas pré-fabricadas em Kabul.

A Checoslováquia abriu um alinha de crédito para ser construída uma linha de eléctricos em Cabul, equipadas minas de carvão e construída uma fábrica de cimento em Herat. Com créditos da Bulgária, foi construída uma grande exploração aviária, explorações de ovinos e de seda, outras empresas de aves, de produtos lácteos, tijolo e curtumes, e duas empresas para o sector das pescas. A Alemanha Oriental participou da criação de uma central telefónica automática em Cabul, que estabeleceu as linhas de comunicação e a ampliação do sistema de fornecimento de electricidade em várias cidades. A Hungria participou da construção de uma empresa farmacêutica.

Para além do comércio com o campo socialista, no início dos anos 80, o volume de comércio entre o Afeganistão e o Japão tinha aumentado 33% e ambos os países criaram a empresa comercial conjunta Nichi-afegã Lda. Também o comércio com a Índia aumentou em 50%.

A guerra civil viria a provocar graves danos para a economia afegã. Só até 1985 o número de perdas tinha sido de 35 mil milhões de afegãos (moeda). Com os Talibans todos os avanços do país foram destruídos e regressou-se a um profundo obscurantismo.

 

2001: a invasão norte-americana

 Em 2001, os EUA e a NATO invadiram o Afeganistão, fizeram dele um protectorado, com dirigentes que, apesar de formalmente eleitos, foram sendo afastados em função dos «superiores interesses dos EUA». O caso mais notório foi o de Hamid Karzai, que foi presidente do país entre 2004 e 2014, afastado por não aceitar o estatuto do Paquistão como base de grupos terroristas como os EUA queriam.
Exército

Os EUA ensaiaram para 2014 uma «saída» das suas tropas que acabou por se traduzir apenas num outro modelo de protectorado, com os Talibans e outros grupos terroristas a servirem os interesses dos estado-unidenses de desestabilização regional, incluindo em outros países, como a Síria ou as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central que fazem fronteira com a Rússia e a China.
Em 30 de Setembro de 2014, o Afeganistão, os Estados Unidos e a NATO assinaram um acordo para justificar formalmente a presença de um contingente militar limitado no estado da Ásia Central, após a retirada formal das forças internacionais. Uma força de seguimento de cerca de 12 mil soldados permaneceu em 2015 em tarefas de treino e apoio. No final desse ano, cerca de 41 mil soldados da NATO permaneciam no Afeganistão lutando contra a revolta de Talibans, ao lado de soldados e polícias afegãos, com o mandato de missão de combate da NATO a terminar em Dezembro. Os EUA falharam redondamente o seu programa de formação de polícias e os afegãos passaram a confiar ainda menos neles.

Em Agosto passado Trump anunciou ir continuar a guerra no Afeganistão. Em reacção, um porta-voz dos Talibans condenou essa decisão de Trump e disse, citado pela France Press, que o grupo terrorista continuaria a jihad no país, afirmando ainda que o país se tornaria num «cemitério» dos EUA após a decisão de Trump de enviar mais tropas para o Afeganistão. Na sequência disso, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, declarou que o movimento Taliban seria incapaz de alcançar uma vitória militar no Afeganistão mas que, no entanto, poderia receber um estatuto legal através de negociações…

A nova estratégia dos EUA no Afeganistão inclui a expansão de forças de autoridade para atacar terroristas. No entanto, Trump disse que os Estados Unidos não revelariam o número de tropas ou quaisquer futuros planos de acção militar no Afeganistão.

 A vaga de atentados em Janeiro de 2018 revela a falência dessas e anteriores estratégias e a liberdade de circulação dos Talibans, al-Qaeda e Estado Islâmico.

 

Os objectivos geoestratégicos

 Apesar de 16 anos de uma pesada presença dos EUA, a fim de estabelecer a sua hegemonia no Afeganistão e para além dele, a influência de potências regionais como a Rússia, China, Irão, Paquistão e a Índia está a crescer. No entanto, os EUA mantêm um papel desestabilizador na região, tendo em vista estabelecer um domínio imperial alargado numa situação internacional onde já não têm a mesma capacidade de influência.

Esta estratégia tem girado em torno de variantes da chamada Doutrina Wolfowitz (subsecretário de Estado de George Bush pai), que visou «prevenir o surgimento de um poder regional ou global que pudesse desafiar o estatuto hegemónico único por parte dos EUA» e a sua cavalgada até à China, para garantirem recursos energéticos e minerais que implicariam uma ocupação logística de uma vasta parte da Eurásia, com governos de fidelidade garantida.

Era um sonho louco, desmentido após as invasões do Iraque e do Afganistão, de várias «revoluções coloridas», da introdução do «caos» como melhor forma de gerir o terrorismo, do narcotráfico, da exploração sem regras de petróleo e riquezas minerais. Evitar um trajecto comercial normal entre países, para o deixar entregue a bandidos que fazem a administração desses imensos espaços, destruiu o Afeganistão e outros países, como a Líbia. Mas há fortes realidades que hoje pesam em sentido diferente desta cavalgada diabólica.

Dezasseis anos depois da guerra mais longa da sua história, os EUA no Afeganistão tomam atitudes que dependem mais do que entendem ser a necessidade de reagirem à derrota na Síria, podendo acrescentar-se-lhe a do Iraque, onde hoje é significativa a influência da Rússia e do Irão, com a China mais distanciada, apesar de já estar a fechar contratos com o Afeganistão.
Trump pode estar a transformar esta guerra «em aberto» desde 2001 numa guerra em termos qualitativos e quantitativos muito diferentes da dos seus antecessores na Casa Branca. Mas está limitado, pese embora a pressão do Pentágono para o aventureirismo sem medir consequências.

 

A CIA, os terroristas e o controlo da heroína

 Vale a pena lembrar aqui a história do comércio de drogas do Crescente Dourado, que está intimamente relacionado com as operações secretas da CIA na região desde a guerra contra os soviéticos e as consequências que isso teve.

 Ate à revolução socialista a cultura do ópio (papoila) era vasta e controlada pelos ingleses. Depois da revolução, a produção de ópio foi proibida no Afeganistão e no Paquistão, e foi dirigida a pequenos mercados regionais. Não existia produção local de heroína (Alfred McCoy, «Drug Fallout: quarenta  anos de cumplicidade da CIA no comércio de narcóticos», The Progressive, 1/08/1997).

A economia afegã de narcóticos foi um projecto cuidadosamente preparado pela CIA, apoiado pela política externa dos EUA e intimamente relacionado com as operações secretas da CIA na região, desde a guerra contra os soviéticos.

Conforme revelado nos escândalos Irão-Contra e Bank of Commerce e Credit International (BCCI), as operações secretas da CIA em apoio aos Mujahideen afegãos foram financiadas através da lavagem de dinheiro da droga. O «dinheiro sujo» foi reciclado - através de várias instituições bancárias (no Médio Oriente), bem como através de empresas anónimas da CIA, com «dinheiro encoberto» usado para financiar vários grupos insurgentes durante a guerra contra os soviéticos.

 Em «The Dirtiest Bank of All» pode ler-se que «os EUA queriam fornecer aos rebeldes Mujahideen no Afeganistão mísseis stinger e outros equipamentos militares, E precisavam da cooperação total do Paquistão. Em meados da década de 1980, a estação da CIA em Islamabad era uma das maiores estações de inteligência dos EUA no mundo. A revista Time de 29/07/1991, a páginas 22, revelava que «os EUA se voltaram para o tráfico de heroína no Paquistão», citando um oficial dos serviços secretos dos EUA.

O estudo do investigador Alfred McCoy confirmou que, depois da operação secreta da CIA no Afeganistão em 1979, «as fronteiras do Paquistão e o Afeganistão tornaram-se o maior produtor de heroína do mundo, fornecendo 60% da procura dos EUA. No Paquistão, a população viciada em heroína passou de quase zero em 1979 para 1,2 milhões em 1985, um aumento muito mais acentuado do que em qualquer outra nação».

E que «os activos da CIA controlaram novamente esse comércio de heroína. À medida que os guerrilheiros Mujahideen ocuparam território dentro do Afeganistão, pediram que os camponeses plantassem o ópio como um "imposto revolucionário". Em toda a fronteira no Paquistão, líderes afegãos e grupos de bandidos locais, sob a protecção dos serviços secretos do Paquistão, faziam funcionar centenas de laboratórios de heroína. Durante esta década de 1979 a 1989 de tráfico aberto de drogas, a Agência de Controle de Drogas (DEA) dos EUA em Islamabad não levantou processos ou fez prisões».

Continua McCoy: «funcionários dos EUA recusaram-se a investigar acusações de heroína por parte de seus aliados afegãos porque a política de narcóticos dos EUA no Afeganistão foi subordinada à guerra contra a influência soviética. Em 1995, o ex-diretor da CIA em operação no Afeganistão, Charles Cogan, admitiu que a CIA realmente sacrificou a guerra contra as drogas para fazer a Guerra Fria.»

 

As vastas reservas de minerais e gás natural do Afeganistão: a cereja em cima do bolo que os afegãos estão impedidos de comer
De acordo com um relatório conjunto do Pentágono, do U.S. Geological Survey (USGS) e a USAID, revelaram-se no Afeganistão em 2010 reservas de minerais «anteriormente desconhecidas» e inexploradas, estimadas na ordem dos mil milhões de dólares («EUA identificam grandes riquezas minerais no Afeganistão», New York Times, 14/06/2010; veja-se também a BBC, 14/06/2010): «os depósitos anteriormente desconhecidos - incluindo grandes veias de ferro, cobre, cobalto, ouro e metais para industrias críticos como o lítio - são tão grandes e incluem tantos minerais que são essenciais para a indústria moderna, que o Afeganistão poderia eventualmente ser transformado num dos mais importantes centros mineiros mundiais, acreditam os funcionários dos Estados Unidos.»

Um memorando interno do Pentágono, por exemplo, afirma que o Afeganistão poderia tornar-se a «Arábia Saudita do lítio», uma matéria-prima chave na fabricação de baterias para laptops e blackberrys.

A vasta escala da riqueza mineral do Afeganistão foi descoberta por uma pequena equipa de funcionários do Pentágono e geólogos americanos. O governo afegão e o presidente Hamid Karzai foram posteriormente informados, segundo afirmaram autoridades americanas.

Embora possa levar muitos anos para desenvolver uma indústria de mineração, o potencial é tão grande que funcionários e executivos da indústria acreditam que isso poderia atrair investimentos pesados mesmo antes de as minas se tornarem lucrativas, proporcionando a possibilidade de empregos que acabassem com o estado de guerra.

O valor dos depósitos minerais recém-descobertos diminui o peso relativo da economia de guerra do Afeganistão, baseada em grande parte na produção de ópio e tráfico de narcóticos, e poderá abrir perspectivas para uma economia livre dessa actividade criminosa.

 
Rematemos, regressando ao título deste artigo: «Afeganistão, onde as pessoas parecem ser o que menos interessa».
 
Originalmente publicado em www.abrilabril.pt
 

Frase de fim de semana por Jorge



"O amor é um estado de graça."
 


 
Natália Nunes

escritora,
companheira de Rómulo de Carvalho,
1921-2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Os comunistas, a valorização da floresta portuguesa e o faz-de-conta das preocupações de outros partidos


Numa altura em que membros de governo se entregam a falar soibre questõesmenos relevantes sobreva floresta e que a comunicação social procura novos alvos que lhe alimentem audiências degradas, como a questão dos eucaliptos já estarem a renascer nas terras anteriormente queimadas, por características próprias ´que lhe conferem maior rentabilidade de exploração importa relembrar que, por isso, não pode ser o mercado a decidir, pois toda ou parte significativa da área florestal portuguesa seria «colonizada» pelo eucalipto.

Aliás, a brutal expansão verificada do eucalipto nas últimas décadas é a prova provada da força de um mercado (ou, talvez melhor, da força dos interesses económicos que movem esse mercado) que atropela a lei e a regulação pública e extravasa para lá do que lhe estava autorizado. A ENF, legislada em 2006, estabelecia como área máxima do eucalipto 600 mil hectares. O «novo» Inventário Florestal vai seguramente mostrar que a área hoje é superior a 800 mil hectares!

A propósito desta questão importa revisitar um Projecto de Resolução do PCP de 14 de Julho  passado com soluções para os problemas da produção lenhosa que foi há dias votada na AR mas com o PS e a direita a rejeitar os aspectos mais relevantes dele e dum outro projecto do PCP sobre criação de um Programa para a redução e controlo da biomassa florestal.


Nele se referia que na floresta portuguesa actual, a produção de lenha é a base da rentabilidade florestal, o que significa a comercialização a preço remunerador do eucalipto e pinheiro, da cortiça e também da madeira de espécies autóctones, como o carvalho, o castanheiro e outros.

No preâmbulo desse projecto de resolução era referido que “o mercado lenhoso, particularmente das suas espécies mais rentáveis, o eucalipto e o pinheiro, assim como a cortiça, são mercados dominados/monopolizados pelos oligopólios da celulose/pasta de papel, dos aglomerados e da transformação da cortiça. Mas mesmo outras produções de madeira serrada de outras espécies estão sujeitas a não poucos condicionamentos de mercado, face ao comércio e importação de madeira exótica e a algumas indústrias dominantes no sector do mobiliário, que asseguram o grosso da matéria-prima da importação.”

O mercado actual ou que se pretende que exista não é viável para as necessidades de uma produção lenhosa que permita a rentabilidade de todos os produtores e não a asfixie a produção de quem trabalha na floresta.” Será sempre um mercado restrito, parcial, não abrangendo áreas imensas de terras florestais. Será sempre um mercado que exige uma fortíssima e permanente resposta e intervenção do Estado, na supressão/atenuação das ditas «falhas de mercado», mesmo nas áreas em que possa funcionar.

O Estado tem de assegurar escoamento e preços que garantam a floresta de que o país precisa.”

Esse projecto referia que “a floresta portuguesa exige, reclama do Estado, uma ampla e determinada intervenção no mercado da produção lenhosa. Mas, com a lucidez de que tal não resolverá muitos dos principais problemas da floresta portuguesa, pelo menos em tempo oportuno, para responder às questões do ordenamento e prevenção da floresta contra os incêndios. O que não significa desvalorizar o possível impacto de um mercado de produção lenhosa a funcionar com transparência e informação, assegurando à produção preços remuneradores da matéria-prima florestal.”

E terminava com uma série de recomendações.

Em primeiro lugar, “a Intervenção junto da Autoridade da Concorrência (AdC) para que esta proceda, com a urgência necessária, em prazo que não poderá ser superior a um ano, à análise dos mercados e dos preços da produção lenhosa, dando prioridade para um Relatório Preliminar aos sectores do eucalipto e do pinho, a que se seguirá o das madeiras autóctones (carvalho, castanho e outras) e da cortiça “

Continuava propondo a Identificação de manchas de eucalipto e pinheiro bravo suscetíveis de uso imediato pela indústria, através do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), em conjunto com as equipas de gestão dos Planos Regionais de Ordenamento Florestal (PROF), as estruturas representativas de produtores florestais (Forestis, Baladi, Fenaflorestas, entre outras e as suas associações locais), tendo como ponto de partida o novo Inventário Florestal”, com base num conjunto de critérios identificados.

E propunha que se criasse,” através do ICNF, bolsas para a comercialização da produção lenhosa, em articulação com o conjunto dos representantes dos agentes económicos da fileira – produção, comercialização e indústria”, identificando-as.

E que se criasse, mediante certas condições “uma Plataforma de informação para as transacções comerciais de madeira, através do ICNF, a disponibilizar nos sítios eletrónicos deste instituto e do ministério da agricultura e do ICNF.

Finalmente propunha a criação de uma empresa com participação maioritária do Estado para a comercialização da madeira, dirigida preferencialmente à comercialização de produção das matas públicas, da produção de pequenos e médios produtores florestais e de baldios, e que tivesse uma intervenção reguladora e comercializadora de último recurso.

Essa empresa deveria procurar que os preços de mercado não descessem abaixo de um valor limiar mínimo, capaz de assegurar a rentabilidade numa exploração florestal média em solos de produtividade média. Deveria ainda estar atenta aos preços correntes nas bolsas de madeira, devendo o  ICNF fixar, em cada semestre, um valor limiar mínimo por área do Planos Regionais de Ordenamento Florestal (PROF) e por espécie.

Ver na íntegra o projecto de resolução em


projecto que foi acompanhado por um outro sobre a criação de um Programa para a redução e controlo da biomassa florestal


Recomendo vivamente a sua leitura, não me estendendo mais aqui, porque reflectem a capacidade do PCP em projectar soluções para importantes problemas do país

 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Bom fim de semana

"A vida serve é para se morrer dela."


Clarice Lispector
escritora brasileira,
1920-1977

EUA e Israel bombardeiam a Síria e querem impedir a paz que está a ser negociada em Sotchi


Nos últimos dias, ocorreram acontecimentos de carácter contraditório relativamente ao processo de paz na Síria.

1. Por um lado, por iniciativa de Vladimir Putin, e com o patrocínio do Irão, da Rússia e da Turquia, realizou-se o Congresso do Diálogo Nacional Sírio na cidade de Sotchi.
Este reuniu cerca de 1500 delegados sírios de todas as origens, confissões e quase todos os pensamentos políticos. Só o “Comité das Negociações (pró-saudita) e o YPG (pró-francês)
Se bem que não ...tenha posto fim ao conflito, marginalizou os grupos que pretendem representar os sírios por conta de alguns países ocidentais. O consenso traduziu-se na criação de uma comissão constituinte. As bases para a paz foram colocadas mas sem a presença de países ocidentais.
Ao contrário de várias expectativas, o representante especial do secretário-geral da ONU, Stefan de Mistura, esteve em Sotchi, reconheceu a legitimidade do Congresso e deu o seu apoio à comissão constituinte. Se não reconsiderar esta posição, isso seria um passo decisivo para se poder aplicar o Plano al-Assad. De 12 de Dezembro de2q01\2, adoptada pela comunidade internacional como resolução 2254 do Conselho de Segurança. Isso seria, ao mesmo tempo, uma derrota do nº 2 da ONU, Jeffrey Feltman que corre em pista própria há seis anos (e mesmo antes, durante 13 meses, noutras funções) para obrigar a República Árabe Síria. E que foi o autor do “plano Feltman”, do tempo de Obama, que defendia a abolição da soberania do povo sírio, a revogação da Constituição, a destituição do Presidente, a dissolução da Assembleia Popular, a interdição do exercício de funções políticas a 120 dirigentes, a dissolução de todos os organismos de defesa da República, a libertação dos presos acusados de terrorismo que considerava como presos políticos e a criação de um “Órgão” de direcção provisória do país.


2. Por outro lado o bombardeamento pela Força Aérea dos EUA de uma coluna de militares sírios e aliados que causou cerca de cem mortos, com o pretexto de que ia atacar posições da SDF, onde estavam conselheiros militares de países ocidentais.
É de notar que os norte-americanos e os franceses actuam militarmente no território sírio, apoiando e dando cobertura aos grupos que combatem o governo sírio, hoje já integrados por um número considerável de terroristas do ISIS. E fazem-no ilegalmente pois não foram convidados pelo governo do país, ao contrário do que acontece com as forças russas e apoiadas pelo Irão, estas sim convidadas pelos órgãos de soberania sírios.

Caça F-16 israelita abatido quando bombardeava alvos na Síria

3. No dia de ontem um avião F-16 israelita foi abatido pelo fogo anti-aéreo sírio e veio a despenhar-se no lado israelita da fronteira. Isto aconteceu quando os caças israelitas destruíam alvos sírios e do Hezbollah.

A Rússia e a ONU manifestaram preocupações quanto a este ataque de Israel que configura uma operação conjunta com os EUA. Os dirigentes russos manifestaram que é sua preocupação a ameaça de escalada de tensão dentro e ao redor das zonas de desagravamento do conflito na Síria, cuja criação se tornou um factor importante para a redução da violência no solo sírio. As quatro zonas, incluindo uma no sul da Síria, são um mecanismo apoiado pela Rússia, Turquia e Irão, destinado a esvaziar o potencial de conflito na Síria e levar a uma transição pacífica negociada.
Moscovo acrescentou que militares russos estacionados na Síria e que considerava inaceitável qualquer ameaça para suas vidas.
Em Agosto passado Netanyahu esteve com Putin, em visita à Rússia.
Ia preocupado com vários objectivos que vira derrotados, como a queda da Síria e de Assad, à mão de terroristas da al-Qaeda e do ISIS e a derrota do “ eixo da resistência” Irão-Síria-Hezbollah. E queria reverter parcialmente essa situação. Só que Moscovo não aceitou intervir na retirada da presença iraniana junto das suas fronteiras ou suspender o fornecimento de armas ao Hezbollah.
O dirigente israelita estava com debilidades evidentes: em Israel há resistência à preparação de uma guerra, o domínio dos céus da Síria e do Líbano já não é seu exclusivo,  conta com duas novas grandes potências perto das suas fronteiras, vários grupos que actuam no terreno apoiando a Síria adquiriram grande formação do Hezbollah,  e este movimento já detém e usa armamento avançado e, pese embora a investida dos EUA e Israel a guerra no Médio Oriente, que tão cara era aos dirigentes de ambos os países, caminha para um final.
O que, resumidamente, deveria conduzir a que Israel se adaptasse às novas realidades do “Eixo da Resistência” e da Rússia junto a ele.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge


"Many eyes go through the meadow, but few see the flowers."


"Passam muitos olhos pelos campos, mas poucos vêem as flores."

Ralph Waldo Emerson
escritor americano,
1803-1882

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O governo compra mais um quadro do pintor quinhentista Alvaro Pires de Évora

Segundo o DN, foi ontem vendido em leilão ao Estado português, ao fim do dia, em Nova Iorque a pintura em tábua “Anunciação”, do pintor português Álvaro Pires de Évora, pintado entre 1430 e 1434, por 280 mil euros.
 
Segundo o catálogo da Sotheby's, o quadro fez parte dos lotes do leilão da chamada "Coleção Konrad Adenauer", realizado pela Christie's, em Londres, em junho de 1970, tendo ficado então sem comprador. No mesmo catálogo refere-se que a posse do quadro remonta à família do colecionador suíço Heinz Kisters (1912-1977), que o vendeu ao antigo chanceler alemão Konrad Adenauer (1876-1967), e o adquiriu de novo, mais tarde, aos herdeiros do primeiro chefe de Governo da Alemanha Ocidental, chegando o quadro por herança ao actual dono.
A pintura, que tem 30,5 por 22 centímetros, tinha uma base de licitação entre 150 mil e 250 mil dólares (entre 122.400 euros e 204 mil euros), antes de ser arrematada pelo Estado português por 280 mil.
O director do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa apresentou formalmente uma proposta à DGPC no sentido de a obra ser adquirida pelo Estado português, com base na sua relevância para o património nacional.
O PSD entregou, entretanto, um requerimento, no parlamento, defendendo que o Governo deve comprar a obra de arte quinhentista.
 
A” Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação”, comprada pelo Estado português em 2001, por 64 mil contos (320 mil euros) é a única deste pintor num museu nacional, neste caso o Museu de Évora. A obra foi adquirida em 2001 para aquela instituição quando o diretor era Joaquim Caetano, atual conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, que agora solicitou à Direção Geral do Património Cultural a compra da “Anunciação”.
 
A Direção Geral do Património Cultural (DGPC) deu início, também, ao processo de abertura do procedimento de classificação da pintura “São Cosme”, da autoria do mesmo pintor (dimensão 28x21,5 cm). Segundo o DN, a pintura pertence a um privado, está em Portugal e deverá ir a leilão ainda este mês, no nosso país.
Quase com as mesmas dimensões da “ Anunciação” (30,5 x 22 cm),” São Cosme” (28 x 21,5 cm) foi leiloada a 10 de novembro de 2010 pelo Palácio do Correio Velho por 15 mil euros.
Com a classificação, a pintura “S.Cosme”, ao abrigo da Lei de Bases do Património, só poderá sair de Portugal com autorização das entidades competentes e a título exclusivamente temporário. Como seria o caso de uma cedência para uma exposição. Além disso, o Estado pode exercer o direito de preferência para sua aquisição, em caso de venda.
Pedro Dias, catedrático do Porto em História de Arte, comissário da única exposição de obras do pintor português realizada na Torre do Tombo, no âmbito da” Lisboa 1994”, apontava ontem como exagerada (especulativa, digo eu) a base de licitação da “Anunciação”. Presumo eu que este movimento especulativo possa agora arrastar-se à segunda venda do “São Cosme”.
Álvaro Pires de Évora é referido por Giorgio Vasari, o grande biógrafo dos pintores do Renascimento, que se refere a ele como Alvaro di Piero di Portogallo. De facto, nasceu em Portugal masa passou a vida de trabalho artístico em Itália.