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terça-feira, 28 de julho de 2015

A Turquia na corda bamba

O encontro de hoje do governo de Ankara com os embaixadores dos países da NATO não vai alterar o sentido dos acontecimentos dos últimos dias. Esses países decidiram apoiar os bombardeamentos de Erdogan contra curdos e contra (?) o Estado islâmico.

A perseguição aos curdos baseou-se num atentado, não reivindicado pelos curdos, e quebrou as tréguas entre as duas parte,s correndo-se agora o risco de se reacender esta guerra que já custou muitas vidas no passado. O partido de Erdogan, o AKP, e outro partido nacionalista, o MHP, por outro lado, já anunciaram a intenção de ilegalizar o partido pró-curdo, o HDP.
A “exigência” dos EUA de que a Turquia bombardeie o Estado Islâmico é um exercício de hipocrisia. O Estado Islâmico foi criado pelos EUA para combater a Síria, substituindo os “rebeldes sírios” que tinham sido derrotados nesse objectivo e criar um tapete de acesso à Rússia.

Hoje é sustentado, como já aqui referimos, por Israel, a Arábia Saudita e pela Turquia. Em território turco existe mesmo um hospital para tratar dos jihadistas do EI feridos em combate, dirigido pela própria filha de Erdogan, Tayyp Erdogan, responsável pelas relações internacionais do AKP. E é um outro filho de Erdogan, Bilal Erdogan quem negoceia o petróleo roubado pelos jihadistas nos territórios por onde passa, usando a sua companhia marítima, a BMZ Ltd.
Erdogan poderá fingir um recuo até porque a situação interna na Turquia está à beira de uma revolta popular e pairam de novo velhos projectos da cisão da Turquia em três partes. Mas, com vista às eleições lá vai tomando medidas para que o partido pró-curdo não participe nelas.

O Estado Islâmico é, assim, neste momento um instrumento da NATO e da União Europeia contra a Rússia. E chegará o dia em que também o será contra a China.

Não foi por acaso que a Rússia, no âmbito das conversações 5+1 com o Irão, fez consagrar cláusulas que, na sua óptica, poderão evitar o deslocar do Estado Islâmico do Levante para o Cáucaso, no que terá tido o apoio de Washington. Isso envolveria um acordo entre a Síria, que é atacada pelo EI, a Arábia Saudita, que é hoje o principal financiador dos terroristas e a Turquia, que garante o comando operacional do EI e lhe dá apoios que já atrás referimos. Estas diligências de Putin começaram há um mês e passaram a ser consideradas pelas partes envolvidas.
Os acordos de Viena do passado dia 14 entre o Irão e o Grupo 5+1 (as potências com assento permanente no Conselho de Segurança mais a Alemanha), levaram a que o presidente iraniano os saudasse, referindo que não tinham beliscado “as linhas vermelhas” do país e que iriam permitir o Irão concentrar-se noutras questões.

Mas há também quem veja neles uma partilha de zonas de influência entre Washington e Teerão. É o caso de José Goulão que sustenta no seu blogue O Mundo Cão, que os acordos se traduziram “ numa partilha de influências no Médio Oriente ampliado, envolvendo pois a chamada Eurásia, capaz de permitir ao Pentágono transferir o núcleo duro do seu impressionante aparelho de guerra do Médio Oriente para a Ásia, posicionando-se ante os novos inimigos, a China e a Rússia (…) “em termos gerais, os Estados Unidos e os seus principais aliados no Médio Oriente, leia-se Israel e Arábia Saudita, têm como zona de influência as petromonarquias da Península Arábica mais o Iémen e respectiva ponte para o Corno de África, a Jordânia, o Egipto e a Palestina – o acordo prevê que o processo de Oslo seja retomado, outra medida que deixa Netanyahu fora de si. O Irão, que se compromete a “não exportar a revolução”, mantém as suas influências na Síria, no governo iraquiano instalado em Bagdade e nas correntes islâmicas mais intervenientes no Líbano, devendo o Hamas adaptar-se ao que seja estabelecido em relação à Palestina.” Traduzindo-se num aparente recuo de Washington, importa, por exemplo, ter em conta que o Daesh está também já presente nas fileiras do exército ucraniano, como forma de compensar a desmoralização das tropas ucranianas. Mas não só. E isto numa altura em que NATO iniciou no passado dia 20, manobras militares no oeste da Ucrânia, com quase dois mil militares de 18 países, tendo Moscovo avisado dos riscos que isso envolvia para o processo de paz. Ucrânia em que o governo de Kiev anunciou a intenção de ilegalizar os partidos comunistas do país para não concorrerem às próximas eleições.

A diplomacia marca pontos mas os riscos de guerra estão bem presentes.

 

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