quarta-feira, 29 de junho de 2016

Quo vadis, United States of America?


Quando há quinze dias, a presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), Janet Yellen, depois de ter reunido com o Comité Federal do Mercado Aberto (FOMC), fez o anúncio de que a taxa de juros de referência se mantinha entre os 0,25 e os 0,50%, confirmou-se que a recuperação em pleno da economia norte-americana tinha falhado, contrariando anterior anúncio de Obama. Isso foi acompanhado por previsões de crescimento económico que em Dezembro apontavam para entre os 2,3 e os 2,5% no crescimento do PIB, já em Março deste ano, a previsão já era entre os 2,1 e 2,3%, e, recentemente, esse valor desceu para entre 1,9 e 2,0%.

No primeiro trimestre deste ano, a taxa de crescimento do PIB da economia dos EUA foi apenas 0,80%. A recuperação do mercado de trabalho, entretanto, permaneceu muito frágil, apesar de que é suposto ser o principal sucesso das políticas implementadas pelo Fed. Lembre-se que em Dezembro, quando o Fed elevou 25 pontos base a sua taxa de juro de referência, a taxa de desemprego oficial foi de 4,7%, valor que alguns membros do FOMC, consideraram ser uma situação de "pleno emprego". Mas o Fed estava errado. Os dados mais recentes não deixam dúvidas: os ventos de alerta de recessão ameaçam aquela que já foi a maior economia mundial. Em Maio passado, o sector não-agrícola aumentou apenas em 38 mil postos de trabalho, o menor aumento desde 2010. Além disso, os dados de Março e Abril foram revistos em baixa, os empregadores contrataram 59.000 pessoas menos do que o esperado.

A taxa de desemprego caiu para 4,7%, mas a taxa de actividade diminuiu para 62,6% com os milhares de pessoas -se à procura de um trabalho tendo em conta a falta de oportunidades. A realidade é que a taxa de desemprego oficial esconde um enorme subemprego. Tendo em conta as pessoas que tinham empregos a tempo parcial e aqueles que recentemente deixaram de constituir força de trabalho, a taxa de desemprego estaria em 9,7%, mais que o dobro da taxa oficial de desemprego.

A economia norte-americana sofre de um anémico investimento empresarial, em resultado de uma escassa taxa de retorno desse capital que não gera a criação de novas empresas e de importante criação de empregos, sendo que muitos empresários não elevam os salários com as consequências imediatas no dificultar o aumento da inflação – o índice de preços ao consumidor aumentou apenas em 1.1%.

Por outro lado, a instituição responsável pela supervisão da competitividade a nível mundial assinalou que a economia americana sofrerá este ano a primeira contração no seu nível de produtividade ao longo dos últimos trinta anos. A imagem de uma economia dinâmica está em contínuo recuo. Na ausência de inovação, a produtividade dos EUA cairá este ano em 0,2%.

A questão é em quanto os EUA poderiam aumentar a sua dívida para tirar a economia da próxima recessão. A experiência de crises passadas gerou uma grande discordância entre os economistas sobre estas respostas.

Embora a dívida do governo — que avançou para 74% do produto interno bruto, face aos 39% em 2008 — seja alta para os padrões históricos, o déficite orçamental recuou para 2,4% do PIB, o que dá ao país um pouco mais de margem de manobra fiscal. Mas, mesmo que a economia cresça a um ritmo constante, o déficite deve ultrapassar os 3% do PIB no fim da década, aumentando ainda mais a dívida.

“Se houver outra recessão, haverá pressão para aumentar a dívida rapidamente, para um nível sem precedentes nos tempos modernos”, escreveu Stephen King, economista sénior do HSBC, num relatório recente.

A tentativa de atribuir as dificuldades à redução da taxa de crescimento chinesa não resulta. A economia chinesa aguentou à sua custa com os males da economia mundial decorrentes da crise do sub-prime gerada nos EUA. Consequências negativas doBrexit para a economia dos EUA são algo que qualquer país da UE poderá prever para si próprio. Entretanto, os EUA querem vencer as dificuldades impondo aos países europeus e outros um TTIP que corresponde aos interesses dos EUA, que seria um novo passo na globalização económica enquadrada por instituições supranacionais não controladas pelos povos, contrário a regras que são adoptadas na UE de protecção da qualidade e do ambiente e que liquidaria as soberanias.

Se as dificuldades persistirem, os EUA poderão lançar-se numa nova guerra, maior do que aquela em que estão já envolvidos. As manobras da NATO nos próximos dias 8 e 9 na Polónia, numa lógica de confronto com a Rússia são preocupantes.

A realidade económica dramática dos EUA vai prevalecer face a todos os disfarces. Mas os EUA terão que passar a saber relacionar-se de outra maneira com os outros países, praticar a cooperação mesmo no quadro das economias capitalistas. Abandonar a lógica do Império, ainda mais quando as debilidades exigiriam uma maior prudência.