quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Mais algumas questões a propósito das eleições na Alemanha no passado domingo


 
·      O peso dos imigrantes estrangeiros, registadas no Registo Central de Estrangeiros alcançou no ano passado o valor de 10 milhões, sendo que destes, 5,7 milhões são de países exteriores à União Europeia, tendo aumentado, desde 2014, cerca de 1,3 milhões (principalmente da Síria, Afeganistão e Iraque).

Depois da crise dos refugiados em 2015 em que entraram para a Alemanha cerca de 1,5 milhões, a nova imigração líquida estabilizou em 2016 em cerca de 480 mil.

A nacionalidade não-alemã mais frequente no território da antiga República Federal, incluindo Berlim, ainda é turca.
 


·    Existe uma outra questão muito importante na perda de votos da CDU/CSU: o conflito com a Turquia. Não nos podemos esquecer que a Alemanha tem 3 milhões de residentes e eleitores de origem turca (várias gerações) - os ausländer. Muitos desses votos terão ido para a extrema-direita, na sequência dos problemas com Erdogan e a Turquia.

Há cidadãos alemães residentes em Portugal que são categóricos em afirmar que o voto dos insländer (ou simplesmente länder) não fugiu da CDU/CSU.
 

·    O cientista político, professor da Universidade Livre de Berlim, Hajo Funke, disse à Sputnik News "Se procurarmos um bode expiatório, até pode aparecer alguém que parece sério e não ser de direita, a oferecer esse bode expiatório: os responsáveis pela integração dos imigrantes. Os refugiados deveriam regressar à Turquia, esses que votaram em Erdogan, que não pertencem à Alemanha… Mas esta é toda a minoria turca, que vive aqui há 40 anos, tendo até sido convidada pelo governo alemão para preencher a escassez de mão-de-obra...Só que a Alemanha não tentou ajudá-los a aprender a língua ou melhorar suas qualificações”. Segundo o cientista político não era de esperar resposta menos radical.
 

·    O partido do AfD (Alternativa para a Alemanha), que ficou em terceiro lugar nas eleições federais alemãs com 12,6% dos votos, obteve o maior apoio no leste, onde na Saxónia obteve 35,5% dos votos, e na Turíngia 22,7%.

Comentando o surgimento do partido de direita, Hajo Funke salientou que o seu sucesso está fortemente justificado na sociedade da Alemanha Oriental.

Para ele, aqui “o ressentimento em relação aos partidos estabelecidos baseia-se em parte na antiga experiência da RDA e com o desapontamento em torno da reunificação.

A palavra Treuhand ("Agência de confiança"), a agência criada pelo governo da República Democrática Alemã para privatizar as empresas do leste da Alemanha antes da reunificação, ainda é um insulto presente até hoje na população, referiu Funke. Muitas antigas tradições e práticas desapareceram. E, após a união monetária do país, as autoridades não ajudaram no desenvolvimento social, cultural e económico dos estados federais orientais”.

 
·    O “bloco central “ (CDU/CSU+SPD) que funcionou nos últimos quatro anos na Alemanha foi o grande derrotado pela política anti-social que realizou, perdendo, em conjunto, cerca de 20 pontos percentuais de votação e mais de 100 lugares no parlamento federal (Bundestag).

 
·    A CDU/CSU foi atingida pela abstenção que cresceu em 5 pontos percentuais e sendo uma importante componente dos seus eleitores também os restantes imigrantes, não é previsível que eles se tenham deslocado para a extrema-direita, abertamente xenófoba e racista. Uma parte de votos anteriores nela terão passado para o FDP, por ser o partido com quem, em termos de possíveis alianças mais se identificam, ao contrário do que aconteceu em eleições anteriores com os Verdes ou o SPD. Importa verificar se o eleitorado tradicional do SPD, com uma base trabalhadora significativa mas muito fustigada pelas políticas anti-sociais a que o PSD se associou, não se terá deslocado significativamente para a AfD. Particularmente em estados da antiga RDA.


·    Mal os votos estavam acabados de se contar na Alemanha, já Macron avançava com as suas propostas para uma «Europa repensada e simplificada», com quis já marcar terreno no quadro do eixo franco-alemão.

 
·    Claude Juncker saudou o discurso “muito europeu” do “seu amigo Macron”. Segundo o seu secretário, as ideias de Macron para "fortalecer a zona euro" serão discutidas na cimeira do euro em Dezembro, juntamente com as propostas de Juncker.

 
·    O resultado das eleições, apesar de ter fragilizado Merkl, não vai impedir que ela prossiga, não sem contradições, com a França, o aprofundamento do Tratado de Lisboa. A deslocação para direita do xadrez político vai fazer sentirem-se mais fortes as reclamações de uma Europa onde vinguem mais a ortodoxia orçamental e os regimes de austeridade que combatam o “despesismo” dos países do sul para que os alemães não tenham que lhes pagar os “vícios” (e … as “mulheres”, como diria o autorizado Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem).

 
Para já os trabalhos para formar o governo não recomendam a Merkl grandes considerações sobre o futuro da Europa.

 

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