sábado, 23 de setembro de 2017

A aflição de Netanyahu, por Alastair Crooke

Numa tradução de António Ferrão, publicada em ferrao.org aqui vos deixo um artigo escrito pelo ex-diplomata do Reino Unido, Alastair Crooke

No passado dia 19, comentaria o artigo anteriormente publicado: "A análise de Alastair Crooke obteve uma confirmação brilhante logo passados quatro dias da sua publicação: a 5 de setembro, as tropas da Síria quabraram o cerco do Estado Islâmico a Der ez Zor, a capital da província mais rica em petróleo da Síria".


O primeiro-ministro Netaniahu está assustado com a derrota dos radicais apoiados conjuntamente pela Arábia Saudita e por Israel na Síria e ameaça agora desencadear um ataque aéreo de grande envergadura, segundo descreve o ex-diplomata britânico Alastair Crooke.
Uma delegação israelita de topo visitou Washington há uma semana. Logo a seguir, o primeiro-ministro israelita Benjamim Netaniahu interrompeu as férias de Verão do presidente Putin em Sochi onde, segundo fontes oficiais do governo israelita (citadas pelo Jerusalem Post), Netaniahu teria ameaçado bombardear o palácio presidencial em Damasco e torpedear ou anular o processo de cessar-fogo de Astana, caso o Irão continue a alargar a sua influência na Síria.
“Segundo testemunhos da parte pública das conversações, o primeiro-ministro israelita apresentou-se demasiado irritado, por vezes até em pânico. Descreveu ao presidente russo um possível apocalipse, caso não sejam envidados esforços para conter o Irão que, segundo Netaniahu, está disposto a destruir Israel”, escreveu o Pravda.
Que se passa aqui? Seja rigorosa ou não a citação do Pravda, ainda que haja confirmações por funcionários israelitas idóneos, aquilo que está claro é que (por fontes de Israel) tanto em Washington como em Sochi as palavras de Israel foram escutadas, mas em troca Israel conseguiu nada. Israel ficou isolado. É certo que Netaniahu procurou garantias sobre o papel reservado ao Irão na Síria, ao invés de pedir a Lua como a expulsão dos iranianos. Mas como poderia, em boa realidade, Washington ou Moscovo oferecer tais garantias?

Demasiado tarde, Israel deu-se conta de que na Síria apoiou o lado errado – e perdeu. Não está em condições de exigir. Não obterá dos americanos um compromomisso quanto à manutenção de uma zona tampão para além da linha do armistício definida pelos Golan, tampouco sobre o encerramento da fronteira Iraque-Síria ou o que quer que seja supervisionado por iniciativa de Israel.

A questão Síria é importante, mas se nos limitarmos a ela perdemos de vista a floresta a favor da árvore. Em 2006, a invasão do Líbano por Israel, (apoiada pelos EUA, Arábia Saudita e até por sectores do Líbano) foi um fiasco. Simbolicamente e pela primeira vez no Médio Oriente, um exército sofisticado e fortemente armado de uma nação ocidental, em suma, falhou. O que torna esta derrota mais chocante e dolorosa não foi só o facto do exército ter sido militarmente suplantado, foi ainda o de ter perdido a guerra electrónica e a dos serviços de espionagem – algo em que o Ocidente se considerava imbatível.

A queda depois da derrota

A derrota surpreendeu e atemorizou o Ocidente, mas também o Golfo Pérsico. Contra todas as apostas, um pequeno movimento armado revolucionário barrou a ofensiva de Israel, foi capaz de defender o seu território e venceu. Este precedente foi largamente percebido como um ponto de viragem no balanço de forças da região. Os autocratas feudais do Golfo Pérsico tremeram.
A reacção não se fez esperar. O Hezbolah foi colocado em quarentena, tanto quanto o levantamento de sanções pelos Estados Unidos da América poderiam alcançar. Em 2007, a guerra da Síria foi anunciada como uma punição pelos acontecimentos de 2006 – se bem que a sua implementação só em 2011 viria a assumir proporções exacerbadas.

Contra o Hezbolah, Israel lançou a plenitude da sua força militar, embora venha agora dizer o contrário, que poderia ter feito melhor; mas contra a Síria, os EUA, a Europa e os estados do Golfo (com Israel na sombra) lançaram todo o esgoto da cozinha: os radicais sunitas, al-Qaeda, o Estado Islâmico (sim); acresce fornecimento de armas, subornos, sanções e a campanha de imprensa de difusão mais ampla e intensa já observada. Porém a Síria – com os seus aliados – parece prevalecer; defendeu o país contra implausíveis expectativas.

Sejamos claros. Se em 2006 ocorreu uma inflexão, a capacidade da Síria manter o seu território é uma reviravolta histórica de amplitude muito maior. Deve ter-se em consideração que a Arábia Saudita (juntamente com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América) tomaram a iniciativa de impulsionar os radicais sunitas. Resultado? Os estados do Golfo e a Arábia Saudita em especial saíram enfraquecidos. O último confiou na força do wahabismo desde a sua fundação como reino: mas o wahabismo no Líbano, na Síria e no Iraque ficou profundamente desacreditado – mesmo entre os muçulmanos sunitas. Pode muito bem estar em vias de ser também derrotado no Iémen. Tal derrota irá alterar a imagem do Islão Sunita.
No Conselho de Cooperação do Golfo, organização fundada em 1981 pelos chefes das tribos do Golfo com o único objectivo de perpetuar a forma hereditária de poder na Península, já assistimos a uma disputa aberta, numa indisfarçável luta instestina, amarga e agonizante. O sistema Árabe, uma reminiscência das antigas estruturas otomanas com o beneplácito das potências vitoriosas da I Guerra Mundial, Grã-Bretanha e França, parece ter perdido o fôlego momentâneo de 2013 (com o golpe no Egipto) e retomado o seu inexorável declínio.

O lado perdedor

O alarme de Netanyahu, a confirmar-se, pode muito bem ser o reflexo de uma mudança drástica na relação de forças na região. Por muito tempo, Israel apoiou o lado perdedor – e agora descobre que foi deixado isolado e receoso até dos seus apaniguados mais seguros, os jordanos e os curdos. A nova estratégia correctiva de Tel Aviv parece apostada em atrair o Iraque para uma aliança com Israel, os Estados Unidos e a Arábia Saudita contra o Irão.
Se assim fôr, a cartada de Israel e da Arábia Saudita poderá ter chegado demasiado tarde; subestimaram o ódio visceral gerado entre iraquianos de todos os quadrantes pelos actos bárbaros do Estado Islâmico. Poucos deram crédito à narrativa ocidental que atribui o aparecimento do Estado Islâmico, magnificamente armado e financiado, a um alegado sectarismo do ex-primeiro-ministro iraquiano al-Maliki. Não! Por detrás de um movimento apetrechado desta maneira, há-de encontrar-se necessariamente a força de um estado.

Num artigo laudatório, Daniel Levy defende que os israelitas em geral não corroboram o que acabei de dizer. Vejamos a contestação:
A longevidade de Netaniahu no poder, as suas vitórias eleitorais consecutivas e a sua capacidade em segurar coligações de governo devem-se à ressonância que a sua mensagem encontra junto do grande público. É um argumento de peso que Netaniahu tenha conduzido o Estado de Israel à melhor situação da sua história, representando hoje uma força global crescente… florescente no campo diplomático. Netaniahu invalidou aquilo a que chamou de ‘falsa inevitabilidade’, que pretendia que Israel, na ausência de um entendimento com os palestinianos, acabaria isolado, enfraquecido e à beira de uma catástrofe diplomática.

Muito difícil de ser aceite pelos seus detractores políticos é o eco que a afirmação de Netaniahu encontra no público, pois reflecte algo consistente e que deslocou o centro de gravidade político do país acentuadamente para a Direita. É uma posição que, a verificar-se correcta e replicável no tempo, deixará um legado que perdurará muito para além do posto de primeiro-ministro de Netaniahu ou de qualquer acusação de que ele venha a ser alvo.
Netaniahu assevera que Israel não está condenado a ganhar tempo no conflito com os palestinianos, limitando-se a fortalecer as suas posições num compromisso futuro a que não pode escapar. Não! Israel aspira a algo diferente: uma vitória final, com a derrota completa e definitiva dos palestinianos, dos seus anseios colectivos e nacionais.
Persistente e inequívocamente, por mais de uma década como primeiro-ministro, Netaniahu rejeitou todos os planos ou medidas práticas conducentes, quanto mais não fosse, a abrir um processo contemplando aspirações palestinianas. Netaniahu está interessado somente em perpetuar e ampliar o conflito, não em geri-lo, quanto mais resolvê-lo… A mensagem é clara e é a seguinte: não haverá Estado Palestiniano, não haverá West Bank nem Jerusalém Oriental pela simples razão de que aquilo que existe é o Grande Israel.

Negação do Estado Palestiniano

Levi prossegue:
Esta abordagem revoga pressupostos que orientaram os esforços de paz e as iniciativas políticas norte-americanas por mais de um quarto de século, a saber: que, contra o futuro abandono dos colonatos por Israel, não restaria alternativa que não passasse pela aceitação de um estado palestiniano independente e soberano, com as fronteiras suficientemente próximas das que vigoravam em 1967. A recusa obstinada em aceitar tal perspectiva, foi dito, iria resultar na destruição da imagem de Israel como democracia. Para com os aliados, de quem Israel depende e que estão envolvidos nos esforços de paz, esta recusa seria insustentável.
Para com os países que são bastiões do seu apoio internacional, Netaniahu dispôs-se a um jogo arriscado. Face a um Israel cada vez menos liberal e mais etno-nacionalista, sería ou não possível manter o apoio dos judeus norte-americanos em número suficiente, garantindo dentro dos Estados Unidos da América a continuidade das tradicionais relações de privilégio para com Israel? Netaniahu apostou no Sim! e acertou.
Eis outra questão interessante que Levy referiu:
Foi então que os acontecimentos tomaram um rumo favorável a Netaniahu, com a subida ao poder nos Estados Unidos da América e partes da Europa de Leste, acompanhada de alargamento da influência por todo o Ocidente Europeu, de tendências etno-nacionalistas que lhe são tão caras; tendências apostadas em substituir democracias liberais por não liberais. Não se deve subestimar a importância de Netaniahu como vanguarda ideológica eficaz desta nova tendência.
Sem rodeios, o ex-embaixador dos Estados Unidos da América e conceituado analista político, Chas Freeman, afirmou recentemente:
O objectivo central da política dos Estados Unidos da América no Médio-Oriente tem sido, desde há muito tempo, o de granjear a aceitação regional para os colonatos judeus na Palestina.
Por outras palavras, para os Estados Unidos da América, a sua política – e todas as suas acções – estão subordinadas ao critério estar ou não estar. Entenda-se bem: estar com Israel, ou não estar com Israel.

Terreno perdido por Israel

O facto é que a região acabou de sofrer uma evolução decisiva para o campo do não estar. Haverá muito mais que os Estados Unidos da América possam fazer? Israel encontra-se agora basicamente sozinho, contando como aliado na região apenas com uma Arábia Saudita enfraquecida, incapaz de camuflar os limites do seu campo de manobra.
O apelo que os Estados Unidos da América fizeram aos países árabes para que reforcem os laços com o primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi parece fora do contexto. O Irão não está à procura de uma guerra com Israel, como foi reconhecido até por alguns analistas israelitas. É verdade que o presidente sírio foi claro ao afirmar que tenciona recuperar toda a Síria – e toda a Síria inclui os Montes Golan ocupados por Israel; tambem é verdade que esta semana Assã Nasralá incentivou o governo libanês a preparar um plano conducente à decisão soberana de libertar as quintas Chebá e os montes Kfarshoba da ocupação israelita.
Alguns comentadores políticos israelitas já começaram a replicar o que está escrito nas paredes – é melhor ceder território unilateralmente que pôr em risco a vida de centenas de soldados numa tentativa fútil de retê-lo. Isto não se enquadra bem no estilo “Não recuaremos um centímetro!” do primeiro-ministro em declarações recentes.

Será que o etno-nacionalismo irá garantir a Israel uma nova base de apoio? Desde logo, a caracterização de Israel como democracia iliberal é um eufemismo para o que não passa de regime de discriminação racial, feito para despojar os palestinianos dos seus direitos políticos fundamentais. E na mesma medida em que o cisma do Ocidente se vai agravando, cada um procurando retirar legitimidade ao outro com acusações mútuas de intolerância, racismo ou nazismo, mais se torna clara a vontade dos verdadeiros nacionalistas se demarcarem dos regimes extremistas.
Daniel Levy salienta que o dirigente da Direita, Richard Spencer, descreve o seu próprio movimento como Sionismo Branco. Serão estes os termos adequados para Israel angariar apoio? Há quanto tempo andam os globalistas a acusar a Direita de pretender instaurar o mesmo tipo de sociedade nos Estados Unidos da América, com os mexicanos e os pretos no papel dos palestinianos?

Nacionalismo étnico

A viragem cada vez mais nítida do Médio Oriente para o lado do não estar possui outra explicação mais simples que o etno-nacionalismo de Netaniahu: o colonialismo ocidental. O primeiro assalto da estratégia de Chas Freeman para colocar o Médio Oriente no lado do estar com Israel foi a operação Choque e Pavor contra o Iraque. Hoje, o Iraque está aliado ao Irão e as milícias populares do país estão em vias de se transformarem numa força de combate com uma mobilização respeitável. O Hezbolah, por seu lado, deixou de ser uma força estritamente libanesa e é já uma força militar a ter em conta a nível regional.
O terceiro assalto desenvolveu-se na Síria. Hoje, a Síria está aliada à Rússia, ao Irão, ao Hezbolah e ao Iraque. Que nos reservará o próximo assalto desta guerra entre os campos do estar e do não estar?
Ao não ceder aos que sobranceiramente apelidou profetas da desgraça (Israel acabaria isolado, enfraquecido, abandonado e à beira de uma catástrofe diplomática), Netaniahu conseguiu o quê? Nestas duas últimas semanas, tomando alguma desmobilização dos palestinianos como uma vitória sua, descobriu que afinal está sozinho dentro do seu almejado Novo Médio Oriente. Ironicamente, na hora em que celebrava o seu triunfo.
Teve razão o Pravda ao escrever que Netaniahu estava assustado na cimeira repentina de Sochi?
Eu diria:
– É provável!
Alastair Crooke
 
Artigo original: The reasons for Netanyahu's Panic, 1 de Setembro de 2017
Tradução de António Ferrão

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