sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Visita do presidente Al-Sissi a Portugal. O Egipto e Djibuti

Registo a importância da visita de Abdel Fattah Al-Sissi, presidente do Egipto a Portugal nestes dias. A visita foi oportunidade para abordar as vias e os meios que permitam reforçar as relações políticas e diplomáticas entre os dois países, e dar melhores perspetivas à cooperação nos domínios económico, da pesquisa científica e da defesa. O desenvolvimento das trocas com Portugal podem alargar-se muito com o Canal do Suez alargado, que também permite a passagem de mais navios pelos portos portugueses.

Com mais de 85 milhões de habitantes, o Egito é um dos países mais populosos da África e do Médio Oriente, sendo o 15.º mais populoso do mundo. A população está concentrada, sobretudo, nas margens do rio Nilo, que é a única região não desértica do país. Cerca de metade da população egípcia vive nos centros urbanos, em especial no Cairo, em Alexandria e nas outras grandes cidades do delta do Nilo, de maior densidade demográfica.
Entre outras características gere o canal mais famoso o mundo: o Canal do Suez, cujo alargamento permitiu reduzir de 11 para 3 horas a travessia de 72 km que separam o Suez no Mar vermelho de PortPort Saïd, no Mediterrâneo.A expansão do canal, a primeira desde o início da sua existência, consistiu numa nova via paralela com 37 quilómetros, e no alargamento e aprofundamento da via original, de 72 quilómetros, numa extensão de 35 quilómetros.
Previa-se poder aumentar de 49 para 97 o número de navios a passar diariamente pelo canal e que o tempo de navegação fosse reduzido de cerca de 20 para 11 horas.
A inauguração desta expansão ocorreu há dois anos.
A obra foi executada pelo exército egípcio para estimular a economia egípcia e consolidar a popularidade do próprio presidente. O Canal, antes do alargamento, dava um lucro de 3,9 mil milhões de euros ao Egito e com a nova via, projecta-se um aumentado dos lucros para 10,5 mil milhões euros em 2023.

 O Canal do Suez tem 147 anos e foi nacionalizado por Nasser, em 1956, contra os acionistas franceses e britânicos.
Em 1975, reabriu, depois de oito anos de fecho na sequência da Guerra dos Seis Dias. Foi então que apareceram os grandes cargueiros de contentores.
 
 O alargamento teve um custo total calculado em 3 mil milhões de euros. Para o financiar, o Estado emitiu obrigações do tesouro que podiam dar a ganhar até 12% do investimento inicial. Só os egípcios residentes as puderam comprar. Este inédito modelo de financiamento da obra permitiu ao Estado arrecadar 7,8 mil milhões de euros. 
Objecto de uma das primeiras “revoluções coloridas”, dirigidas pela administração norte-americana (através dos apoios da National Endowment for Democracy) em 2011, levou à demissão do presidente Mubarak (episódios da Praça Tahrir). Os Irmãos Muçulmanos, radicais de correntes jihadistas, realizaram então um golpe de estado, tomando o poder e, após as eleições presidenciais de 2012, e pressionaram a Comissão Eleitoral Presidencial para que o seu dirigente Mohamed Morsi fosse por ela proclamado como presidente eleito.
A deriva islamista da sua acção contrariou o anterior laicismo do Estado e provocou grandes confrontos na sociedade egícia. Morsi concentrou poderes e fez aprovar uma Constituição islâmica.
Mais de 3 milhões de egípcios saíriam à rua para exigir o fim do governo Morsi enquanto desencadeava a violência contra os seus adversários. Em 2 anos, o número de pessoas vivendo abaixo do limiar da pobreza aumentou, pelo menos 50%, as reservas em divisas diminuíram para metade. A economia ficou num caos.

 
Esta situação levou a que as forças armadas o destituíssem, com o apoio da generalidade dos partidos políticos, incluindo o Partido Comunista do Egipto, à excepção dos Irmãos Muçulmanos, em Julho de 2013. Seguiram-se novas eleições presidenciais em 2014, ganhas pelo actual presidente, Al-Sissi, que teve mais 10 milhões de votos que Morsi obtivera no ano anterior.
 
Em 14 de Agosto de 2013, centenas de civis e militares confrontaram-se no Cairo durante um protesto contra a destituição de Morsi, que assumiu as proporções de um novo golpe. Quase duas mil pessoas foram presas e 529 condenadas à morte, num país onde o recurso a esta pena é frequente. O que gerou protestos que foram levando à libertação sucessiva de presos.
 
As  referências feitas em Portugal, agora nesta visita de Sissi, a que Morsi foi o primeiro presidente eleito democraticamente não contemplam os factos fundadores do Egipto moderno. A Constituição referendada em 1956 e a respectiva eleição do Presidente Nasser selaram democraticamente a revolta popular e de militares de patente intermédia que derrubaram o Rei Faruk e depois a monarquia, constituindo a República em 1953. Nasser foi eleito para três mandatos. Foi eleito sem oposição  nos referendos de 1956, 1958 e 1965.
O presidente Abdel Fattah Al-Sissi, na entrevista de 21 deste mês à RTP, garantiu o percurso democrático do país. Depois da entrevista à RTP as agências internacionais anunciavam já a decisão judicial egípcia de repetição dos julgamentos de Morsi e centenas de membros da Irmandade Muçulmana. Também manifestou o apoio a uma solução política na Síria, sem a presença de forças armadas estrangeiras e a liquidação do terrorismo.
No ponto oposto do Mar Vermelho, Djibuti torna-se num grande entreposto comercial e militar, uma nova porta de África
O Djibuti, pequeno país de 23.200 m2  e com 820 mil habitantes, cuja capital tem o nome do país, está transformado num grande entreposto comercial com uma diversificada presença militar de vários países, por força da competição internacional no tráfego de petróleo e não só. No decurso das transformações que estão a ocorrer, o país poderá tornar-se numa nova “porta de África”. Com um relacionamento com todos os países do mundo, só o não tem com a Eritreia que mantem um conflito de fronteira com a Etiópia.
 
Obras de envergadura no porto, realizadas por americanos e chineses, coexistem com bases militares de ambos os países, que irão fazer deste entreposto milenar uma nova realidade geo-estratégica. É neste território, com uma área que é um quarto da de Portugal, que Pequim está a instalar a sua base militar mais afastada do Mar da China. Outros países pretendem instalar-se aqui também. A Arábia Saudita assinou este ano um acordo com Djibuti para a instalação também de uma base militar. A Rússia viu negada tal pretensão mas está a negociar para lhe ser permitido que os seus navios acostem no cais controlado pela China.
 
 
Num raio de menos de 30 km, já se encontram a base dos EUA, onde estão sediadas as suas operações clandestinas no Corno de África e np Iémen. Também aí estão instladas a do Japão, que é a sua primeira-base no estrangeiro depois do pós-guerra, os campos e bases franceses, restos da sua presença colonial e, numa fase posterior à independência em 1977, potência estrangeira dominante, e também a única base no estrangeiro de Itália. A Alemanha está presente também mas sem este tipo de equipamentos.
 
A Etiópia tem em Djibuti, cuja economia abastece, uma saída natural das suas exportações que aumentarão com a potassa(1) que será produzida em fábricas que a China lá vai instalar. A principal atividade económica do Djibuti é a reexportação de produtos de países africanos sem acesso para o mar. O país importa a maior parte dos bens de consumo e de produção: máquinas, veículos, alimentos, produtos têxteis e derivados de petróleo, procedentes da França, Etiópia, Japão e vários países europeus.
 
O Djibuti é governado pela atual constituição promulgada em 1992. O sistema de governo adotado no país é a república presidencialista. Esmagadoramente habitada por muçulmanos de duas diferentes etnias, tem hoje uma situação interna estável
Dos muitos acordos que o Djibuti tem com muitos países, os de maior envergadura são, de longe, com os chineses, com quem assinaram acordos para 14 mega-projectos, no valor global de 8,9 mil milhões de dólares.

 
(1) A palavra potassa é usada em geral para indicar o carbonato de potássio (K2CO3), que pode substituir a soda no fabrico de vidro. A potassa foi originalmente obtida pela lixívia de cinzas de madeira queimada fervidas em solução em grandes caldeirões abertos. A potassa a partir da lixívia é usada na preparação de sabão cru. O carbonato de potássio é preparado comercialmente a partir do minério silvita, um composto quase puro de cloro e potássio.
É o nome comercial dado ao carbonato de potássio e ao cloreto de potássio utilizado como adubo.

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