quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Nos 50 anos do genocídio na Indonésia (1965-1966)

Já aqui fiz referência a este genocídio há um ano. Volto a ele até porque se deu essencialmente em 1966.

A passagem de 50 anos sobre o massacre da Indonésia, superior duas a quatro vezes em número de mortes às de Hiroshima e Nagasaki, que se traduziu no assassinato de entre 500 mil e um milhão de comunistas, é um bom momento para pensar até onde podem ir os desígnios de uma política realizada por seres “humanos”.

O Partido Comunista da Indonésia era então o maior partido comunista da Ásia, depois do Chinês, e apoiava o governo liderado pelo presidente Sucarno, um dos mais destacados dirigentes do Movimento dos Não Alinhados.

Depois de uma provocação que custou a vida a oficiais-generais, mas em que Suharto “conseguiu” não ser um deles, este assumiu a direcção do golpe como seu principal responsável, que levou aos assassinatos em massa.

A revista Time em 15 de Julho de 1966 (P. 22-26) caracterizou o genocídio como "a melhor notícia da Ásia para o Ocidente durante anos", relatando despreocupadamente as mortes em Java Oriental, onde “os chefes "comunistas suspeitos" foram decapitados e empalados defronte das suas casas para as viúvas e os filhos verem”. Antes disso, em 19 de Junho, o título da coluna de James Reston, no New York Times, era “Raio de luz na Ásia”.

Tendo assumido o controlo da situação, Suharto declarou o Partido Comunista da Indonésia (PKI) como o dalang, ou "mestre de marionetes" por trás do assassinato dos generais, acusação que nunca foi sustentada em factos. Os anos seguintes viram não só a destruição do Partido Comunista mas também a morte de centenas de milhares de comunistas indonésios. Entre 1965 e 1966, uma série de assassinatos em massa ocorreram em todo o arquipélago, especialmente na Java Central e Oriental, Bali, e no Norte de Sumatra (1). Na Java Central e Oriental, onde alguns dos piores massacres aconteceram, a maioria das mortes foi feito por unidades do exército, em particular a unidade RPKAD, de comandos para-quedistas, juntamente com vigilantes civis associados em grupos anti-comunistas. Um deles era o Ansor, movimento juvenil da organização política muçulmana Nahdlatul Ulama (NU). Em geral, os militares tiveram um papel significativo no fornecimento de armas, treino e incentivo aos vigilantes em várias regiões do país. Os assassinatos em si mesmos, muitas vezes tiveram lugar ", quando unidades do exército anti-comunistas chegavam a uma região."

Não menos importante foi o papel desempenhado pelos Estados Unidos, juntamente com a Grã-Bretanha, que visavam destruir o comunismo indonésio com este crime. O Embaixador inglês, Andrew Gilchrist chamou "propaganda" e “guerra psicológica" ao genocídio. Os Estados Unidos ajudaram as forças de Suharto através do envolvimento direto da CIA, a estreita cooperação da Embaixada dos EUA e do Departamento de Estado, e a orientação do Conselho de Segurança Nacional da administração Johnson. Num memorando de Novembro de 1965, a CIA sugeriu que os Estados Unidos não deviam ser" demasiado hesitantes "quanto" à assistência desde que possamos fazê-la secretamente. "Assim, quando os generais indonésios pediram aos Estados Unidos armas necessárias" para armar muçulmanos e jovens nacionalistas na Java Central para uso contra o PKI, "os Estados Unidos rapidamente concordaram em dar ajuda secreta", sob a designação de "medicamentos" para evitar revelações embaraçosas "( 4 ). Talvez Bradley Simpson tenha resumido isto bem nestes termos:" A resposta dos EUA ao assassinato em massa na Indonésia foi de entusiasmo " - e nós estamos a falar dos mesmos acontecimento que a própria CIA referia como “um dos piores assassinatos em massa do século XX”( 5). Foi esta a CIA que quase fez desaparecer os testemunhos fotográficos e em filme.

As atrocidades não pararam aqui. Na década seguinte, mais de um milhão e meio de comunistas foram capturados, torturados e aprisionados, a maioria deles sem julgamento,  "por serem comunistas." E para aqueles que escaparam da morte em prisões, as suas vidas ficaram extremamente difíceis. Eles foram continuamente sujeitos a discriminação, tanto pelo Estado como pela sociedade tornada comunistofóbica.

Remato, referindo que Suharto, depois disto e de crimes posteriores no seu país e em Timor-Leste morreu…na cama. E que nenhum presidente ou administração norte-americanos pediram desculpas aos familiares que restaram das vítimas nem pediram desculpas ao mundo.
 

(1)              Mortimer,Indonesian Communism Under Sukarno,41–42, 366.

(2)              Robert Cribb, “Introduction: Problems in the Historiography of the Killings in Indonesia”, em edição de  Robert Cribb; “The Indonesian Killings, 1965–1966”,Clayton, Australia: Centre of Southeast Asian Studies, Monash University, 1990, 3, 12.

(3)              Bradley Simpson, “International Dimensions of the 1965–68 Violence in Indonesia,” edição de Douglas Kammen and Katherine McGreggor;”The Contours of Mass Violence in Indonesia”, Honolulu: University of Hawai’s Press, 2012, 58, 62–63; “Notes from the Editors,”Monthly Review 67, no. 5 (October 2015): c2; Kolko,Confronting the Third World, 181.

(4)              Simpson, “International Dimensions of the 1965–68 Violence in Indonesia,” 62; A citação da CIA é feita por Jonah Weiner, “The Weird Genius of ‘The Act of Killing,’”New Yorker, July 15, 2013. http://newyorker.com

1 comentário:

  1. 50 anos de um genocídio. E aqui bem perto, há precisamente 80 anos, dava-se a "matanza de Badajoz" que se iniciou com a queda da cidade em 14 de Agosto de 1936 e se prolongou pelos dias seguintes...

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