sexta-feira, 8 de abril de 2016

Se ganhar as primárias em Nova Iorque, Bernie Sanders será o próximo Presidente dos EUA


Nas eleições primárias no estado de Nova Iorque, que se realizarão no próximo dia 19 de Abril, se Bernie Sanders ganhar a eleição das primárias dos democratas, ficará a ser automaticamente o candidato democrata às eleições presidenciais e, segundo indicam muitas sondagens, o futuro Presidente dos EUA.
 
Há alguns dias, um texto que corria na net apresentava Hillary Clinton como a “candidata dos bancos e grandes corporações” e Bernie Sanders como o “candidato do povo”, a partir da análise de quem são os financiadores de ambas as campanhas, provocou desmentidos de Hillary mas a agência de renome Politifact, constatou que os dados estavam corretos. Este é só um dos aspectos em que a candidatura de Sanders cala fundo na classe média, trabalhadores, entre diferentes comunidades étnicas bem como os pobres a quem foi reservado um gueto de abstenção.
As suas propostas, muito claras, para as mais diversas áreas correspondem aos anseios profundos destas camadas. A sua coragem para afrontar o sistema injusto galvaniza as pessoas.
Poder-se-á dizer que os aparelhos dos estados e as corporações não permitirão nunca a vitória de Sanders ou a realização do seu programa se for eleito. É do mais elementar bom senso os que conhecem a vida nos EUA ter esta opinião. Mas também é verdade que o desejo de mudança nunca foi tão forte, mesmo depois da desilusão com o “Yes, we can” de Obama.
E Bernie Sanders poderá não ganhar Nova Iorque, o que é muito provável, atendendo à concentração no pequeno estado de grande apoio ao stato-quo.
Poderemos, por exemplo, compreender porque a Wall Street não está particularmente satisfeita com os dez pontos da reforma do sistema financeiro norte-americano defendidos por Bernie Sanders, que sintetizamos do seu programa.

1. Acabar com os bancos “grandes demais para falir” (ou too big to fail)

Bernie Sanders sugere reeditar uma lei anti-trust contra os grandes bancos, nos mesmos moldes da Lei Antitruste Sherman, na base de dados fornecidos pelo próprio sistema financeiro.
Em 2008 os contribuintes americanos foram obrigados a socorrer os grandes bancos de Wall Street com a desculpa de que estes eram “grandes demais para falir”. No entanto, hoje, três das quatro maiores instituições financeiras nos Estados Unidos – JP Morgan Chase, Bank of America e Wells Fargo – são quase 80% maiores do que eram  antes do auxílio financeiro de 2008. Por incrível que pareça, os seis maiores bancos americanos respondem por 2/3 de todos os cartões de crédito no país e por mais de 35% das hipotecas. Juntos, esses seis bancos controlam mais de 95% das aplicações financeiras e detêm mais de 40% dos depósitos bancários. Os ativos destes bancos equivalem a 60% do PIB norte-americano.

2. Desmantelar os grandes bancos
Se eleito, Sanders diz que logo no primeiro ano de mandato vai pedir ao Departamento do Tesouro uma lista das instituições financeiras cujo colapso representa um risco catastrófico para a economia dos Estados Unidos.
E promete acabar com as grandes instituições financeiras, dividindo-as em companhias menores e pode fazê-lo sem a aprovação do Congresso, pois o presidente Barack Obama aprovou em 2010 a Lei Dodd-Frank, consolidando as diversas agências reguladoras que existiam na altura numa só agência federal, e estipular regras mais rígidas para as fusões dos bancos.

3. Aprovar no Congresso uma Lei Glass-Steagall do século XXI
A Lei Glass-Steagall foi aprovada pelo presidente Franklin D. Roosevelt,em 1933, devido à Grande Depressão de 1929.
Para evitar uma nova crise, Roosevelt dividiu então as instituições em comerciais e financeiras.
Os bancos comerciais, onde a população guarda suas economias, teriam que cumprir regras rígidas de alavancagem, ficando proibidos de especular no mercado financeiro.
Já as instituições financeiras, como corretoras, estariam livres para as aplicar em investimentos mais arrojados, e por isso, também mais arriscados.

A lei servia para proteger os pequenos aforradores e a classe média dos abusos praticados pelos bancos antes de 1929. Porém a lei foi revogada pelo presidente Bill Clinton em 1999. Mas se estivesse em vigor, teria evitado a cananilzação dos empréstimos dos grandes bancos para a especulação, com os conhecidos resultados de 2008.

4. Acabar com a política do “grande demais para prender” (ou too big to jail)

Sanders afirma que na sua administração é o governo quem irá regular Wall Street e não o contrário. Defende uma “justiça igual para todos”, o que significa incriminar os altos executivos dos bancos e das demais instituições financeiras cujas apostas imprudentes tenham vierem a lesar a vida de pessoas simples e da classe média.

“Os americanos veem todos os dias jovens sendo presos, às vezes até mesmo por posse de pequenas quantidades de haxixe. (...) Mas quando se trata dos altos executivos de Wall Street, algumas das pessoas mais ricas e poderosas deste país, cujo comportamento corrupto e irresponsável causou dor e sofrimento a milhões de cidadãos, nada acontece. Nem sequer um registo policial ou uma passagem pela prisão. Não há justiça igual para todos nos Estados Unidos.”

5.  Criminalizar o atual modelo de negócios na Wall Street
Um dos comentários mais incisivos de Bernie Sanders nesta campanha presidencial é o modo como Wall Street faz os seus negócios.
“A verdade é que a fraude se tornou o modelo de negócios na Wall Street. Não é uma exceção à regra. É a regra. Sem uma regulamentação mais rígida, é provável que os investidores e operadores em Wall Street continuem com o comportamento corrupto que todos já conhecemos. Quantas vezes já ouvimos o mito de que os desvios em Wall Street podem até ser errados, mas não são ilegais?
As práticas de Wall Street só não são ilegais porque ao longo da história os bancos fizeram lobby no Congresso para legalizar o que deveria ser considerado crime.

O documentário Trabalho Interno (Inside Job, em inglês), ganhador do Oscar em 2011, mostra muito bem isso. Todos os principais bancos internacionais já foram pegos em atos ilícitos e inclusive aqueles que foram condenados pela Justiça voltaram a praticar os mesmos crimes.

Um estudo da University of Notre Dame, em Indiana, sobre ética no mercado financeiro, publicado no The Atlantic em Maio de 2015, mostrou que 51% dos executivos de Wall Street acreditam que seus concorrentes praticam atividades antiéticas ou ilegais para obter vantagens no mercado; 1/3 dos executivos também admitiram ter presenciado ou ter conhecimento em primeira mão de atividades ilegais no ambiente de trabalho; e 1/5 dos operadores no mercado financeiro afirmaram que é preciso  envolver-se em alguma atividade antiética ou ilegal para ser bem-sucedido na carreira.
 
 

6. A criação de um imposto sobre a especulação no mercado financeiro

Um dos pontos-chave da reforma de Sanders sobre Wall Street é a criação de um imposto sobre transações financeiras. E uma de suas promessas de campanha é destinar toda a receita dos impostos da Wall Street para extinguir as propinas nas universidades públicas.

“Vamos usar a receita do imposto [sobre Wall Street] para tornar as faculdades e universidades públicas gratuitas. Durante a crise financeira de 2008, a classe média deste país socorreu os bancos de Wall Street. Agora, é a vez de Wall Street ajudar a classe média.”

7. Reforma das Agências de Notação de Risco

Depois do crash de 2008, as agências de notação perderam completamente a sua credibilidade. O Lehman Brothers, por exemplo, banco de investimentos que faliu durante a crise, recebeu da Standard & Poor’s um nível ‘A’ no mesmo mês em que decretou falência.

Após a crise, ficou claro que as agências de risco davam notas altas para aqueles que lhes pagavam suficientemente bem para obterem essas notações.

Na opinião de Sanders, estas companhias são como “raposas de guarda ao galinheiro”. Promete intervir nas agências de notação de risco, transformando-as em empresas sem fins lucrativos.

8. Reduzir os juros do cartão de crédito e as taxas cobradas pelos bancos

Nas palavras de Bernie Sanders, os bancos e as companhias de cartões de crédito têm que acabar com a “extorsão ao povo americano com a cobrança de juros altíssimos e taxas ultrajantes”.

“É inaceitável saber que os americanos pagam uma taxa de 4 ou 5 dólares de  cada vez que vão a um caixa multibanco levantar dinheiro. E é inaceitável saber que milhões de americanos estão a pagar taxas de juros nos cartões de crédito superiores a 20% ou 30% ao ano. A Bíblia tem um termo para esta prática, chama-se usura.”
 
Bernie Sanders propõe uma lei limitando os juros nos cartões de crédito em 15% ao ano e uma taxa máxima no caixa multibanco de 2 dólares por lev antamento.

“Os grandes bancos precisam deixar de agir como agiotas e começar a agir como credores responsáveis.”

9. Permitir aos correios oferecer serviços bancários

O Serviço Postal dos Estados Unidos (United States Postal Service, ou USPS, em inglês) é motivo de orgulho para os norte-americanos. Presente em todo o país, Bernie Sanders propõe transformar os correios num banco estatal, precisamente para atender às comunidades mais pobres que são ignoradas pelos bancos comerciais.

“A triste realidade é que, incrivelmente, milhões de americanos de baixos rendimentos vivem em guetos onde não existem serviços bancários normais. Hoje, se você viver  numa comunidade destas e precisar de descontar um cheque, ou obter um empréstimo para consertar o carro, onde vai? A única opção nestas comunidades é procurar um agiota que pode cobrar uma taxa de juros de 300% ao ano, gerando um ciclo vicioso de dívida. Isso é inaceitável.”

10. Reforma do Federal Reserve Bank (FED)

Por último, Bernie Sanders propõe uma reforma no Banco Central norte-americano, de modo a que este passe a atender aos interesses da população, e não aos dos  grandes bancos.

“Quando a Wall Street estava à beira do colapso, o FED agiu rapidamente para salvar o sistema financeiro. Precisamos que o Fed aja da mesma maneira para combater o desemprego e os baixos salários. É inaceitável ver o FED sequestrado pelos banqueiros, logo ele que é responsável pela regulação dos bancos. Eu acho que o povo americano ficaria chocado se soubesse que Jamie Dimon, atual CEO do JP Morgan Chase, foi membro do conselho do Fed de Nova York, ao mesmo tempo em que seu banco recebia um resgate de  391 mil milhões do FED. Este é o tipo de conflito de interesses que pretendo proibir. Se fôr eleito, as raposas deixarãoi de ser as guardiãs do galinheiro no FED.