sábado, 8 de abril de 2017

É mais difícil aceitar que tenha sido a Síria a usar armas químicas contra sírios do que fazer passar Trump pelo buraco de uma agulha


O governo sírio foi o único prejudicado, em termos de imagem, em todo o mundo, por um alegado ataque seu com armas químicas em Khan Sheikhun, província de Idlib. “Procurar o criminoso entre aqueles a quem aproveita o crime” é uma regra básica da investigação criminal. Se tais coisas levam o seu tempo a ser feitas e são motivo de reflexão, é mais difícil acreditar que a iniciativa coubesse à Síria do que “enfiar um camelo (ou Trump) no buraco de uma agulha”. Mas há os que continuam a querer que todos passemos por parolos…É o caso do Human Rights Watch, que lançou esta idéia (trabalham em Londres, bem longe destas refregas).

O momento do ataque dos EUA e da invocada utilização pela Síria de armas químicas é tanto mais suspeito do ataque, quando ocorreram poucos dias antes de uma grande conferência sobre a Síria, em Bruxelas.

A "Conferência de Bruxelas sobre o Apoio ao Futuro da Síria e da Região", co-presidida pela ONU e pelos governos da Alemanha, do Kuwait, da Noruega, do Qatar e do Reino Unido, realizou-se mesmo em Bruxelas em 4 e 5 de Abril, e não aceitou alterar a sua agenda que previa concentrar-se em "reforçar o apoio a uma resolução política duradoura para o conflito sírio através de um processo de transição política inclusivo e liderado pela Síria sob os auspícios da ONU", de acordo com o site oficial da Comissão Europeia. Aguardei, sem resultado, até agora que esse site se referisse às conclusões da conferência.

Charles Shoebridge, analista britânico de segurança e especialista em contra-terrorismo, afirmou à RT que "Há um padrão destes incidentes que acontecem em momentos críticos numa perspectiva geopolítica", acrescentando que um ataque químico maciço na cidade síria de Ghouta em 2013 aconteceu exactamente quando "os inspetores da ONU estavam a chegar a Damasco", e outro ataque químico em Setembro de 2016 ocorreu na véspera de uma "grande conferência em Londres, onde a oposição síria se reuniu com seus doadores estrangeiros".
Depois do ataque dos EUA
 

Vi ontem no Expresso da Meia-Noite, na SIC-N um debate sobre o ataque dos EUA a uma base síria com comentadores pouco recomendáveis. Retiro algumas das suas ideias-chave:

1.    O ataque foi combinado entre a Rússia e os EUA;

2.    O ataque foi pontual, difícil de ter continuidade, mas retira à Rússia a centralidade nas iniciativas diplomáticas para uma solução de paz e impõe os EUA nesse processo;

3.    Se o Estado Islâmico e a Al-Qaeda aceitarem integrar as negociações, isso alterará os dados do problema;

4.    Não há dúvida que foi a força aérea síria que, com apoio da Rússia, procedeu ao bombardeamento com armas químicas;

5.    Os EUA não podiam aceitar investigações no local do bombardeamento e junto do governo sírio porque isso iria mandar para as calendas eventuais conclusões;

6.    Afez Al-Assad fica desde já fora do quadro das negociações de paz que não quer;

7.    A Rússia está a gastar em várias frentes mais do que pode (Síria, Ucrânia, Europa de Leste, África,…) e foi por isso que a URSS caiu;

8.    O Irão não condenou o ataque (retiro a declaração iraniana “o ataque foi perigoso e destrutivo e viola o direito internacional”…);

9.    Os EUA regressaram à política de Obama e obtiveram o apoio de Israel, Turquia, Arábia Saudita, Bahrein, Emiratos Árabes Unidos (consabidamente países com lideranças respeitáveis,…)

A nenhuma daquelas cabeças, creditadas por Balsemão, ocorreu falar sobre:

1.    A circulação normal de jornalistas e meios de emergência na base depois do ataque (que destruiu aviões, depósitos de armamento, etc.) indiciar que da explosão não resultou a circulação de gases contaminadores;

2.    Só os terroristas, que estavam a sofrer derrotas sucessivas, beneficiaram temporariamente, em termos de imagem de um alegado ataque que é logo atribuído ao governo sírio;

 

De manhã tinha ouvido na Antena Um comentários semelhantes do comentador de política internacional, creditado como tal por esta estação, Bernardo Pires de Lima, que referiu nomeadamente, além disso que:

1.    A legalidade do ataque não é relevante para ser alvo de discussão, há que invocar sim a “legitimidade” e os “aspectos morais”;

2.    Se a Rússia e o Irão podem intervir na Síria, porque não poderiam os EUA?

3.    Assad estava à partida, antes do ataque, suspeito de vir a desencadear actos que a comunidade internacional não aceitaria (!).

Não há dúvida de que o ataque aéreo dos EUA é uma agressão, porque se se trata de uma questão interna a um país. O que aconteceu e de quem foi a culpa são assuntos que não respeitam aos Estados Unidos. Não há interesses norte-americanos de segurança nacional que tenham sido afectados, não morreram cidadãos norte-americanos ou cidadãos de outro Estado. Portanto, esta interferência é descabida a partir de países terceiros.

E o uso da força militar de um Estado contra as forças armadas de outro Estado, nos termos da Carta das Nações Unidas, constitui um acto de agressão.

A Rússia, uma unidade de elite iraniana e o Hezbollah intervieram na Síria a convite do governo legítimo desse país, que resultou de eleições, reconhecidas internacionalmente, e que está representado em várias instâncias internacionais, apesar de estar incluído na lista que Obama elaborou e Trump mantem, como estados

Nenhum Estado tem o direito de agir em nome do Conselho de Segurança da ONU. A situação é muito clara. Não há evidências de que armas químicas tenham sido aplicadas por Bashar Al-Asad e as suas forças. Se os americanos tinham qualquer prova, deveriam tê-la apresentado a todo o mundo, mas não usar a força, antes que tivessem sido obtidas conclusões exaustivas efectuadas por peritos independentes. Mas os EUA recusaram-no no Conselho de Segurança, preferido uma atitude de confronto com o governo sírio.

E se agora grupos terroristas tivessem tomado conta do aeródromo? Os EUA estariam em que campo? No campo dos terroristas, ao reduzir a capacidade da Síria os enxotar? Esses grupos (que Trump disse querer acabar com eles…) já rejubilaram e reclamaram mais…
E o ataque contra a Síria não será uma tentativa de desviar a atenção da acção conduzido pelos EUA em Mossul, no Iraque, que foi acompanhado por vítimas civis em massa, enquanto os progressos na libertação da cidade ainda não terminaram?

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