domingo, 16 de abril de 2017

Coreia do Norte: a revelação da grande mentira, por Christopher Black*


Nota prévia do editor – para não truncar este texto escrito em 2013, chamo a atenção do leitor para que os aspectos da actualidade referidos são hoje outros, igualmente negativos, com a actual administração Trump, como se tem visto nestes dias e juntaram-se informações adicionais para melhor entendimento destas questões.

Em 2003, com alguns advogados americanos, membros da Associação Nacional de Advogados, tive a oportunidade de viajar na Coreia do Norte, isto é, na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), a fim de ter uma experiência em primeira mão desse país, do seu governo socialista e do seu povo.

Publicado no nosso retorno, este artigo foi intitulado “A revelação da grande mentira”. O título foi escolhido porque descobrimos que o mito pejorativo da propaganda ocidental sobre a Coreia do Norte é um enorme embuste, concebido para esconder as realizações dos norte-coreanos, que conseguiram criar as suas próprias condições de desenvolvimento, o seu próprio sistema socioeconómico independente, baseado nos princípios do socialismo, livre do domínio das potências ocidentais.

Durante um dos nossos primeiros jantares em Pyongyang, o nosso anfitrião, Ri Myong Kuk, um advogado, disse em termos apaixonados, em nome do governo, que a força de dissuasão nuclear da RPDC é necessária dadas as ações e ameaças dos EUA e aliados contra o seu país. Ele disse-o, e foi-me repetido mais tarde durante a minha viagem, numa reunião de alto nível com representantes do governo da RPDC, que se os americanos assinassem um tratado de paz e um acordo de não-agressão com a RPDC, isso tornaria a ocupação ilegítima e levaria à reunificação da Coreia. Assim, não haveria mais necessidade de armas nucleares. Com sinceridade disse: “é importante que os advogados se reúnam para falar sobre isto, porque os advogados regulam as interações sociais no seio da sociedade e do mundo” e acrescentou que de boa-fé, “o caminho para a paz requer a abertura do coração”.

Pareceu-nos então, e é agora evidente, que, em absoluta contradição com o que dizem os meios de comunicação ocidentais, o povo da RPDC quer paz mais do que qualquer outra coisa. Ele quer continuar com as suas vidas e ocupações sem a ameaça constante de ser exterminado pelas armas atómicas dos EUA. Mas, na verdade, por que são ameaçados de serem exterminados e de quem é a culpa? Não é sua.

Mostraram-nos documentos dos EUA apreendidos durante a guerra da Coreia.

Tratam-se de provas irrefutáveis de que os EUA tinham planeado atacar a Coreia do Norte em 1950. O ataque foi realizado pelas forças armadas dos EUA e da Coreia do Sul, ajudadas por oficiais do exército japonês, que tinham invadido e ocupado a Coreia anteriormente, durante décadas. Os EUA pretenderam então que a defesa e o contra-ataque eram uma “agressão”, os média foram manipulados para incentivar as Nações Unidas a apoiar uma “operação policial”, eufemismo escolhido para descrever a sua guerra de agressão contra a Coreia do Norte. Daí  resultaram três anos de guerra e 3,5 milhões de vítimas coreanas.
Desde então, os EUA ameaçam com guerra iminente e aniquilação.
Em 1950, quando a Rússia não estava presente numa reunião do Conselho de Segurança, a votação das Nações Unidas a favor da “operação policial” foi ela própria ilegal. Ao abrigo dos regulamentos internos, o quorum no Conselho de Segurança exige a presença de todas as delegações membros. Todos os membros devem estar presentes, caso contrário não se pode realizar a sessão. Os americanos aproveitaram a ocasião de um boicote dos russos ao Conselho de Segurança, em defesa da República Popular da China, que deveria ter  o lugar à mesa do Conselho de Segurança e não o governo derrotado do Kuomintang. Como os americanos se recusaram a conceder esse direito, os
russos recusaram sentar-se à mesa até que o governo chinês legítimo o pudesse fazer.

Os americanos aproveitaram esta oportunidade para fazer uma espécie de golpe de estado nas Nações Unidas. Tomando o controlo dos seus mecanismos, utilizaram-nos para os seus próprios interesses. Organizaram-se com os britânicos, os franceses e os chineses do Kuomintang, para apoiar a guerra na Coreia, na ausência dos russos. Os aliados dos americanos, como estes  lhes tinham pedido, votaram a favor da guerra contra a Coreia, mas a votação foi inválida e a operação da polícia não foi uma operação de manutenção da paz, nem justificada pelo capítulo VII da carta das Nações Unidas, dado que o artigo 51, estipula que as nações têm o direito de se defender contra qualquer ataque armado – justamente o que tinham de fazer os norte coreanos. Mas os EUA nunca se preocuparam muito com a legalidade. E não se preocuparam no decurso de todo o seu projeto, que era conquistar e ocupar a Coreia do Norte, como um passo para invadir a Manchúria e a Sibéria e não seria a legalidade que os ia impedir de prosseguir esse caminho.

Muitos ocidentais não têm ideia das destruições infligidas pelos americanos e seus aliados na Coreia. Pyongyang encontrou-se sob um tapete de bombas, os civis fugindo à carnificina foram metralhados pelos aviões dos EUA em voos rasantes. O New-York Times escreveu na altura que 17 milhões de toneladas de napalm foram lançadas durante os 20 primeiros meses da guerra na Coreia. Os EUA deixaram cair um peso de bombas mais importante sobre a Coreia do que sobre o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. As forças armadas dos EUA assassinaram não apenas os membros do partido comunista, mas também as suas famílias. Em Sinchon, vimos provas de que soldados dos EUA obrigaram 500 civis a colocar-se numa vala, regaram-nos com gasolina e queimaram-nos. Estivemos num abrigo com paredes ainda enegrecidos com a carne queimada de 900 civis, incluindo mulheres e crianças que procuravam proteger-se durante um ataque dos EUA. Soldados americanos foram vistos a despejar gasolina em aberturas de ventilação do abrigo e fazê-los morrer carbonizados.

Esta é a realidade da ocupação dos EUA para os coreanos. É a realidade que eles ainda temem e não querem mais ver repetida. Podemos censurá-los?

Apesar de todos estes casos, os coreanos estão dispostos a abrir os seus corações aos seus antigos inimigos. O major Kim Myong Hwan, que na época era o principal negociador em Panmunjom, na linha da DMZ, revelou-nos que o seu sonho era ser escritor, poeta, jornalista, mas contou-nos com ar triste, como ele e os seus cinco irmãos estavam a fazer rondas de vigilância na linha da zona desmilitarizada, como os soldados, por causa do que aconteceu à sua família. Ele disse que a sua luta não era contra os americanos, mas contra o seu governo. Foram os único sobreviventes da família perdida em Sinchon. O seu avô tinha sido pendurado num poste e torturado, a avó dele morreu com uma baioneta no estômago.
“Veja, nós temos de o fazer. Temos de nos defender. Nós não nos opomos aos norte-americanos. Somos contra a política dos EUA e os seus esforços para controlar totalmente o mundo e infligirem calamidades aos povos”.

A opinião da nossa delegação foi que, devido à instabilidade que mantêm na Ásia, os EUA conservam uma presença militar maciça que dificulta as relações entre a China e a Coreia do Sul, a Coreia do Norte e o Japão. Usam a sua presença como moeda de troca contra a China e a Rússia. Com a constante pressão no Japão para eliminar as bases dos EUA em Okinawa, as operações militares na Coreia e as manobras de guerra são um aspeto central dos seus esforços, visando dominar a região.

A questão não é saber se a RPDC tem armas nucleares, porque tem esse direito, mas se os EUA – que têm capacidades nucleares na península coreana, e que ali instalam atualmente o seu sistema de defesa antimísseis THADD, um sistema que ameaça a segurança da Rússia e da China – estão dispostos a trabalhar com a Coreia do Norte num tratado de paz.

Encontrámos norte-coreanos ansiosos pela paz e que não fazem questão em manter armas nucleares se a paz puder ser estabelecida (nota do editor - apesar de no fim da guerra da Coreia ter sido assinado um armistício nunca foi assinado um tratado de paz por exigência dos EUA e, com isso, os EUA justificam a presença das suas forças na Coreia do Sul e nas costas da península coreana).

Mas a posição dos EUA continua mais arrogante, agressiva, ameaçadora e perigosa do que nunca. Na época das “mudanças de regime”, das “guerras preventivas” e das tentativas dos EUA desenvolverem armas nucleares em miniatura, bem como o sua não obediência e  manipulação do direito internacional, não é surpreendente que a Coreia do Norte jogue a carta nuclear. Esta escolha foi feita pelos coreanos do Norte desde que os EUA os passaram a ameaçar numa base diária com uma guerra nuclear (nota do editor - esta ameaça vem desde a própria Guerra da Coreia quando o general McArthur se propôs lançar uma bomba nuclear sobre a Coreia, o que não foi aceite e conduziu à sua demissão pelo presidente Truman, apesar de nas décadas seguintes ter continuado a ser apontado no seio das forças armadas e na sociedade americana em geral, como um grande herói nacional).

A Rússia e a China, dois países que a lógica levaria a apoiar os norte-coreanos contra a agressão norte-americana, juntar-se-ão aos norte-americanos para responsabilizar os coreanos por se terem armado com a única arma que pode atuar como dissuasor de um ataque. A razão para isto não está clara, uma vez que os russos e os chineses têm armas nucleares e estão equipados para dissuadir qualquer ataque dos EUA, exactamente como fez a Coreia do Norte. Algumas declarações dos governos russo e chinês indicam que eles temem não ter controlo da situação, e que as medidas defensivas da Coreia do Norte atraiam um ataque dos EUA e de serem também atacados.

Essa ansiedade é compreensível. Mas isso levanta a questão de saber por que não podem apoiar o direito da Coreia do Norte à autodefesa e exercer pressão sobre os americanos para concluírem um tratado de paz, um acordo de não-agressão e retirar sua forças armadas e nucleares da Península coreana. Mas a grande tragédia é a óbvia incapacidade dos norte-americanos em pensarem por si próprios perante as mentiras contínuas e exigirem dos seus líderes que se esgotem todos os canais de diálogo e seja restabelecida a paz antes de encararem uma agressão na península coreana.

A base essencial da política da Coreia do Norte é alcançar um pacto de não agressão e um Tratado de paz com os EUA. Os norte-coreanos afirmaram repetidamente que não querem atacar ninguém, nem ferir ninguém, não estão em guerra contra ninguém. Mas eles viram o que aconteceu com a Jugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria e inúmeros outros países, e não têm intenção de serem os próximos. É óbvio que vão defender-se vigorosamente contra qualquer invasão dos EUA e que a nação poderia suportar uma longa e difícil luta.

Num outro lugar da zona desmilitarizada, conhecemos um coronel que tinha instalado um par de binóculos, através do qual conseguimos ver para além da linha divisória entre o norte e o sul. Podemos ver uma parede de cimento construída no lado do Sul, em violação dos acordos de tréguas. O major Kim Myong Hwan disse que aquela estrutura fixa é uma “vergonha para os coreanos, que são um povo homogéneo”. Um alto-falante transmitia sem interrupção propaganda e música que vinha de alto-falantes do lado sul. Ele disse que esse barulho irritante dura 22 horas por dia. De repente, outro momento surreal, os alto-falantes do bunker começaram a entoar a Abertura Guilherme Tell de Rossini, mais conhecida nos Estados Unidos como o tema do” Lone Ranger”.

O coronel pediu-nos para ajudar as pessoas a entender o que realmente está a acontecer na Coreia do Norte, em vez de basearem as suas opiniões na desinformação. Disse: “Nós sabemos que, como nós, as pessoas amantes da paz na América têm crianças, parentes, famílias”. Dissemos-lhe que tínhamos a missão de ir para casa com uma mensagem de paz e esperamos voltar um dia e andar com ela livremente nestas belas colinas. Fez uma pausa e disse: “Também creio que é possível”.

Assim, enquanto o povo da Coreia do Norte espera a paz e a segurança, os EUA e o seu fantoche no sul da península coreana farão a guerra, ocupando-se durante os próximos três meses nos maiores jogos de guerra até agora organizados, com porta-aviões, submarinos carregados de armas atómicas e bombardeiros furtivos, aviões e um grande número de tropas, artilharia e tanques.

A campanha de propaganda atingiu níveis perigosos nos meios de comunicação, que acusam o Norte de ter assassinado um parente do líder da Coreia do Norte na Malásia, ainda que não haja provas e que o Norte não tivesse nenhum motivo para o fazer. Os únicos a beneficiar do assassinato são os EUA e os seus meios de comunicação controlados, que usam isso para atiçar a histeria contra a Coreia do Norte, que agora teria armas químicas de destruição em massa.

Sim, meus amigos, eles pensam que todos nós nascemos ontem e que não aprendemos nada sobre a natureza do domínio dos EUA e da sua propaganda. Será assim tão espantoso que os norte-coreanos temam que estes “jogos” de guerra se transformem um dia em realidade e que estes “jogos” não sejam senão a cobertura para um ataque e para criar ao mesmo tempo um clima de terror na população, coreana?

Haveria muitas coisas a dizer sobre a natureza real da RPDC, dos seus habitantes, do seu sistema socio-económico e da sua cultura. Mas não há espaço para isso agora neste texto. Espero que as pessoas sejam capazes de dar-se conta, por si próprias, da experiência do nosso grupo. Termino com o último parágrafo do relatório comum que fizemos no regresso da RPDC, e espero que as pessoas o compreendam bem, reflitam e ajam de forma a apelar à paz.

“Aos povos do mundo tem de ser divulgada a história completa acerca do que se passou na Coreia e o papel do nosso governo no estimular desequilíbrios e conflitos. Devem ser tomadas medidas pelos advogados, grupos comunitários e ativistas pela paz e todos os cidadãos do planeta, para impedir o governo dos EUA de levar a cabo uma campanha de propaganda visando apoiar a agressão contra a Coreia do Norte.

Os norte-americanos têm sido alvo de um grande embuste. O que está em jogo é muito importante para nos permitirmos ser enganados novamente. Esta delegação de paz aprendeu na Coreia do Norte um elemento importante da verdade essencial nas relações internacionais. É que só com ampla comunicação e negociação, seguida do respeito pelas promessas e profundo compromisso com a paz, se pode – literalmente – poupar o mundo a um sombrio futuro nuclear. A experiência e a verdade irão libertar-nos da ameaça de guerra. A nossa viagem à Coreia do Norte, este relatório e o nosso projeto atual são esforços para nos libertarmos dela”.

* Advogado especialista em direito penal internacional, com escritório em Toronto. É conhecido pelos casos de crimes de guerra mediáticos que analisou. Publicou recentemente o romance Beneath the Clouds . Escreve ensaios sobre direito internacional, política e acontecimentos mundiais.
original publicado em journal-neo.org/2017/03/13/north-korea-the-grand-deception-revealed/

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