quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Revolução de Outubro", de José Manuel Jara para o jornalista Manuel de Carvalho


Caro jornalista Manuel Carvalho

Apreciei no seu texto de hoje, “Os dez dias que deixaram de abalar o mundo”, um esforço de pluralismo nas fontes e nas pessoas que cita. Os cartazes com que ilustra o texto estão escritos em russo e como não estão traduzidos ficam por compreender, mas são interessantes graficamente mesmo para quem não sabe a língua e o alfabeto cirílico.
Queria de qualquer modo fazer alguns comentários. Com a queda da União Soviética e dos
regimes socialistas da Europa de leste é natural que todos os ideólogos que já eram ou sempre foram anticomunistas e antimarxistas (ou não marxistas) tenham aproveitado para zurzir e confirmar a posteriori a falsidade, a impostura, a utopia e distopia do sistema socialista. E retrospetivamente a desnecessidade da Revolução russa. Daí também o retrato a negro e a vermelho (de sangue) da revolução, do comunismo e do processo histórico nesses países. Mas sabemos que a derrota política na história concreta de uma ideologia e de uma filosofia  não significa a sua refutação global definitiva. Por outro lado a perenidade imaginária de um sistema de crenças não certifica a sua veracidade como é o caso das religiões, por exemplo. E só por uma profissão de fé se acredita na perenidade do capitalismo, cujos pecados são imensos, desde logo as duas Guerras Mundiais do século passado. É provável que a União Europeia não tivesse surgido sem o antagonismo com o sistema do “outro lado”, mas a sua consistência sabe-se que não tem a solidez imaginada. Os ex-países socialistas caiem num extremismo nacionalista e vão debicando quanto podem de fundos e apoios financeiros, entre o independentismo e a vassalagem. Por sua vez, a independência económica e política da Rússia,  numa estratégia contrária ao sistema global unipolar, sofre sanções e campanhas comparáveis aos tempos da guerra fria.
A História é uma processo contraditório que envolve avanços e recuos, tentativas, experimentações, falhanços, insucessos, mitos. Mas o processo prossegue numa trajetória sinuosa. Nesse sentido se poderá dizer que a Revolução francesa vencedora e derrotada, que evoluiu para o império napoleónico, tem um ideário que está em parte por concretizar ainda, mas tem um legado que foi assimilado historicamente. É o passado mas não totalmente ultrapassado.
O mesmo se poderá dizer da Revolução de Outubro e do processo de construção socialista que lhe seguiu. Foi obra o homem, visou ideias justas, concretizou muitas, falhou noutras. O próprio sistema capitalista viu-se obrigado a integrar algumas das necessidades criadas pela revolução russa no plano social. O receio da revolução levou as classes burguesas, especialmente a grande burguesia europeia e americana a fazer cedências na luta de classes global, reconhecendo direitos às classes trabalhadoras. O papel histórico da URSS, determinante e heroico na luta contra o nazismo é essencial para entender o século XX; a equiparação entre a ideologia comunista e a nazi, no sincretismo do totalitarismo é obra de revisão do que apurou o Tribunal de Nuremberga. É interessante ver alguns intelectuais franceses desancarem tudo o que lhes cheire a soviético, esquecidos da vergonhosa traição de Petain e do Regime de Vichy. Outro domínio importante foi o impacto da revolução de Outubro e dos sistema socialista nas lutas de libertação nacional (China, Índia, Vietname, África, etc.) na emancipação de povos, no desfazer do colonialismo. Tente ler discursos de Ho Chi Minh sobre esse tema. Veja o pavor que a Revolução Cubana infundiu nas burguesias compradoras da América Latina. O caso da contrarrevolução no Chile e na Argentina deve merecer atenção. Sabe-se qual o império que apoiou os banhos de sangue das extremas direitas de então.
No texto que editou procura ouvir opiniões diversas, de vários quadrantes. Por exemplo, Jaime Nogueira Pinto é um politólogo que se identificou sempre com o salazarismo e o colonialismo, claramente contrário ao 25 de Abril; não surpreende o seu gáudio com a débacle da URSS. José Milhazes é um representante dos que uma vez acreditaram e viveram ideias comunistas e depois se transferem com armas e bagagens para o outro extremo; a sua opinião de sovietólogo (russólogo) coincide com a do equivocadamente autodesignado liberal-democrata Jirinovski, na extrema –direita, quase fascista, russa. O historiador que mais cita, Orlando Figes, cuja obra também li, não tem a isenção própria a um investigador, sendo aliás criticado por esse motivo por vários autores; faz ao socialismo com base na Rússia o mesmo que Fukuyama fez da História quando anunciou profeticamente o seu fim no termo do século XX. Mas a História prosseguiu, com guerras, lutas, violências renovadas, a  par de progressos e avanços. Não sendo partidário das teses anti-historicistas de Karl Popper, creio que o real é racional, o real social, o real histórico também, não num sentido fatalista, mas segundo leis tendenciais. Não numa linha reta. História assíncrona. Atrasos e evoluções. Tentativas justas que fracassam, por erros humanos, por serem derrotadas pelo adversário, porque foram precoces, porque o imaginário empolgante não se materializou e concretizou de modo justo e estável
A filosofia marxista e muitas das teses de Lenine não foram refutadas. Por exemplo, o seu opusculo o “Imperialismo, estado supremo do capitalismo” contém verdades bem atuais. As atuais crises financeiras globais são a prova das contradições insanáveis do capitalismo já desvendadas por Marx, da oligarquia financeira, contrária a uma verdadeira democracia planetária, muito menos para uma igualdade de povos e pessoas.

As religiões são utopias sob o ponto de vista gnosiológico, não contêm conhecimentos que encerrem verdades sobre a realidade objetiva. Mas sobrevivem e prolongam-se. O seu conteúdo ético pode ser valioso mas isso não valida a questão da verdade da sua representação sobre o mundo, tanto da natureza como do próprio ser humano, o grande enigma que se tenta decifrar através da ciência e da história. Por isto, creio que não está ultrapassado nem o materialismo histórico nem o materialismo dialético, fundados na ciência e na evolução histórico-social, desde que não se tornem numa cartilha ou num livro vermelho.
Não me aprece que a evocação da Revolução Russa na sua etapa bolchevique seja apresentada de modo “frio” e “distante”, como repete várias vezes. É um passado, mas não está ultrapassada. É uma importante experiência histórica da humanidade. Se nos basearmos no real sem rótulos, afinal a China Popular, estado “ socialista” fundado em 1949, é governada pelo Partido Comunista que realizou agora o seu XIX Congresso, sendo hoje uma das maiores potências económicas mundiais com o seu contraditório ‘Sistema’ com dois sistemas. A Rússia, depois da subserviência calamitosa ao liberalismo económico ieltisiniano, como bem reconhece no seu texto, não apagou a história nem recalcou o seu passado soviético. Em muitos países ocidentais a esquerda clássica ou nova integra muitos dos valores da revolução russa e do socialismo, embora sem o impulso doutros tempos. O que virá não se sabe…Veja-se, apenas como exemplo, a orientação do Partido Trabalhista inglês de Jeremy Corbin… E o nosso país, que tanta irritação reacionária produz num António Barreto, no DN de hoje. Na América Latina não está morta a luta por sociedades em que as oligarquias do capital não sejam donas e senhoras “disto tudo”.
Vejo livros e revistas a falarem sobre a Revolução de Outubro em todas as línguas. Tenho o maior gosto em lhe enviar a referência a um colóquio na Bélgica, em Bruxelas,sobre o tema. E não para depreciar!
Permita-me dar-lhe a conhecer um autor italiano que poderá ler com interesse, Domenico Lossurdo, no seu livro “Fugir da História” e no seu opúsculo sobre a “Revolução de Outubro e a democracia” (edição Delga) .
Para concluir, apenas uma pequena correção. John Reed não está sepultado no Mausoléu de Lenine, mas sim na álea  adjacente aos muros do Kremelin, onde jazem muitos  dos líderes soviéticos mais destacados.
Obrigado pela paciência que teve em me ler.

José Manuel Jara





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