sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Homenagem a Mariano Gago


Ontem, no salão Nobre do Instituto Superior Técnico, realizou-se uma homenagem a José Mariano Gago, por iniciativa da AEIST e da Ephemera, com apoio do IST, que com a Associação protocolou na altura a criação de bolsas que ficam com o nome do homenageado.
 Estiveram presentes mais de cem colegas da AEIST, investigadores, o director do IST e o Reitor da Universidade.
 Presente esteve também a mãe, a viúva e a sua companheira de dez anos, com quem saiu "a salto" do país e que deu conta de uma experiência de educação permanente junto de emigrantes que aspiravam a ter um acréscimo na sua formação.
 Colegas da direcção a que presidiu, o Rui Teives, o João Vieira Lopes e eu próprio referiram-se ao José Mariano, em várias facetas.
 Para quem esteja interessado, deixo aqui aquilo que pensava dizer, na íntegra, já que o tempo disponível só deu para me referir a parte disso.
A dimensão do seu contributo para a comunidade científica e para a Ciência e Investigação, do sistema científico nacional, anteriormente pouco desenvolvido, é muito grande e ultrapassa as considerações que aqui fazemos na qualidade de activista e dirigente da AEIST, ocorrida particularmente entre 1967 e 1970.
O José Mariano era um jovem muito vivo e Inteligente, arguto e determinado, muito difícil de convencer, apesar de uma grande disponibilidade para ouvir os outros mas com a intenção de os convencer das suas ideias.
Com uma formação de cultura geral superior à média no IST. E com uma atitude de formação integral permanente, que ultrapassava a Engenharia.
Juntámo-nos numa direcção unitária em resultado da intervenção dos estudantes do IST no cenário trágico das inundações de 67, e um ano depois, na luta pelo apoio financeiro dos serviços sociais do Estado à cantina da AEIST, e pela reabertura do IST, que fora encerrado na sequência dessa outra luta, com processos disciplinares contra vários de nós e a exigência, posterior, de eleições para a Associação, onde a lista por ele presidida foi a única concorrente, congregando um largo apoio na escola.
O José Mariano assumiu quase como um desígnio pessoal a introdução de mudanças na AEIST e no Movimento Estudantil na medida em que as pudesse influenciar em sentidos que, pelo menos eu, não partilhei integralmente. E refiro aqui concordâncias/discordâncias, resultantes do nosso percurso comum, também baseadas em entrevistas e depoimentos que deixou.
 
 
 
 
 
1. O José Mariano queria uma AEIST mais eficaz de luta contra um governo, que ele considerava retrógrado por não sintonizado com as mudanças da ciência e da técnica e da evolução das maneiras de pensar e por impedir o intercâmbio com outros países europeus;
 
2. E, nesse confronto, deu particular atenção à guerra colonial através do apoio a deserções e da difusão de informação dos movimentos de libertação. Sobre esta questão referia a existência de reservas por parte do PCP em a AEIST assumir esse papel, o que não correspondia à realidade, tanto mais que trabalhávamos juntos. Eu valorizava as deserções colectivas que, no estrangeiro pudessem ser factor de propaganda e solidariedade internacional contra guerra.
Mas defendia as incorporações militares dos nossos colegas depois de concluídos os períodos de adiamento concedidos para se concluírem os cursos. Para, a partir daí, fazer um trabalho político nas três frentes de guerra, trabalho que ele considerava impossível de realizar.
A experiência demonstrou que isso teve algum papel no acabar a guerra, de forma pacífica nos dias seguintes ao 25 de Abril, pelo trabalho de milicianos. Os próprios militares do Quadro Permanente (QP), pelo menos os que tinham passado pelos anos de formação no IST que os seus cursos militares incluíam, também contribuíram para esse contacto expedito com os movimentos de libertação na própria frente de combate.
 
3. Teve alguma elaboração teórica com o Félix Ribeiro, de Económicas, sobre o movimento estudantil mas não consegui conhecer a sua continuidade no tempo para a poder hoje aqui comentar, também no quadro da produção teórica que realizou quando da militância de um Comité Marxista-Leninista que ele e o Vieira Lopes formaram.
 
4. O distanciamento de dirigentes de outras gerações e alguma desconsideração por construir plataformas unitárias em luta por objectivos concretos e/ou imediatos, era nele evidente. Metia-se em iniciativas em que ele pudesse ter um papel determinante. Parecia que classificava essas como lutas de "1ª geração" (a expressão é minha), como a defesa dos estudantes presos, a luta contra a repressão, a defesa das AAEE contra encerramentos, o próprio IV Seminário dos Estudos Associativos, onde se discutiram diferentes perspectivas quanto ao passado, presente e futuro das AAEE. Para ele só seriam lutas de uma "2ª geração" a participação na reforma do ensino de engenharia, a emancipação sexual, a revolução dos costumes ou a aproximação de Portugal a outros países europeus (em que o turismo estudantil seria importante), para satisfazer a “vontade irreprimível de viver numa sociedade diferente” (a expressão é dele);
 
5. Mas, não contraditoriamente, compreendia a importância da resistência a tentativas do governo e reitores de retirarem a gestão pela Associação de importantes infraestruturas que queriam passar para os Serviços Sociais ou até para a Mocidade Portuguesa. Ora esses eram meios que eram melos essenciais da relação da AEIST com os estudantes: a Cantina, a Secção de Folhas (editorial), a Piscina e o próprio Turismo estudantil, ou mesmo a revista "Técnica" o Lar ou a Papelaria para já não falar da própria AEIST no seu todo.
 Situações destas geraram reivindicações de 1ª geração mas as de 2ª sem elas sentiriam dificuldades em progredir…;
 
6. Teve um papel importante na resolução das dívidas de que a AEIST padecia e em não deixar definhar o turismo por causa delas.
Fê-lo quer junto de banqueiros portugueses - curiosamente através de um dirigente do PCP, saído da prisão quando era quadro clandestino do PCP, que fora secretário-geral da RIA, dirigente da AEIST e da Casa dos Estudantes do Império, o José Bernardino - à beira de regressar à clandestinidade), quer junto dos partidos sociais-democratas sueco e alemão com o apoio do João Vieira Lopes. Que tinham razões para influenciar politicamente o movimento estudantil português.
 
7. Finalmente, não tendo sido o nosso mandato de 69/70 particularmente intenso em lutas internas na escola, o José Mariano e todos nós estimulamos a solidariedade com as lutas dos estudantes do Instituto Industrial, do Instituto Comercial e, particularmente de Coimbra, apesar de ele ter contrariado uma plataforma nacional contra o governo, que ficou conhecida por “8 pontos”, que poderia ter sido o motor para a criação de uma União Nacional dos Estudantes Portugueses...outra forma de nos aproximarmos de outros países europeus que dispunham destas uniões facilitadoras das trocas de informação e solidariedade internacional de que precisávamos.
 
Termino dizendo que, mesmo tendo tudo isto ocorrido num breve tempo de vida, o José Mariano foi um dos grandes dirigentes que a AEIST teve.

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