sábado, 20 de fevereiro de 2016

O euro deu cabo da Europa, os europeus têm que dar cabo do euro (1)


Os países da UE que não aderiram ao euro (Inglaterra, Hungria, Polónia e Suécia) não estão mal de todo. Mas os que aderiram, depois da crise de 2010, ficaram paralisados pela austeridade, a que muitos eleitores reagiram virando o seu voto para partidos populistas ou “eurocépticos” (seguindo a terminologia dos eurocratas).

No plano dos “valores” de que a UE faz gala em ostentar, há que registar o seu desrespeito na agressão à Grécia e agora a Portugal. Com um orçamento comunitário reduzido a 1,25 % do PIB, o euro caiu e arrastou a sua influência recessiva e destruidora, que se faz sentir de há 15 anos a esta parte.

O euro provocou uma acentuada redução do crescimento nos países que o utilizaram. Comparando com as outras economias da Europa, a queda do crescimento médio anual foi de 1%.

A crise foi mais facilmente ultrapassada nos países que não são do euro.

Quadro 1

Comparação entre o crescimento dos países da zona Euro e 5 outros países da OCDE

 

PIB em 2015, indice 100=1999
Taxa de cr
Escimento médio em
1999-2015
Taxa média em 1999-2007
Taxa médiaem
 2008-2015
Impacto da crise
Belgica
125,6%
1,43%
2,23%
0,6%
-1,6%
Finlandia
128,2%
1,56%
3,73%
-0,6%
-4,3%
França
122,2%
1,26%
2,11%
0,4%
-1,7%
Alemanha
121,5%
1,23%
1,64%
0,8%
-0,8%
Grécia
104,7%
0,29%
4,07%
-3,4%
-7,4%
Italia
102,9%
0,18%
1,48%
-1,1%
-2,6%
Holanda
121,6%
1,23%
2,28%
0,2%
-2,1%
Portugal
106,2%
0,38%
1,52%
-0,8%
-2,3%
Espanha
130,6%
1,68%
3,74%
-0,3%
-4,1%
Total 9 países da zona Euro
119,1%
1,10%
2,18%
0,0%
-2,1%
Total sem Alemanha
118,1%
1,05%
2,40%
-0,3%
-2,7%
Canadá
142,3%
2,23%
2,80%
1,7%
-1,1%
Noruega
130,0%
1,65%
2,44%
0,9%
-1,6%
Suécia
140,2%
2,14%
3,24%
1,0%
-2,2%
Inglaterra
134,9%
1,89%
3,00%
0,8%
-2,2%
EUA
137,5%
2,01%
2,65%
1,4%
-1,3%

Fonte: base de dados do FMI

Quadro 2

Taxa de crescimento mundial média do PIB par habitante de 1999 a 2015

 

Taxa média em1999-2015
Taxa média em 1999-2007
Taxa média em  
 2008-2015
Impacto da crise
Bélgica
0,8%
         1,8%
-0,1%
-1,9%
Finlândia
1,0%
3,2%
-1,0%
-4,2%
França
0,7%
1,4%
-0,1%
-1,5%
Alemanha
1,3%
1,6%
0,9%
-0,7%
Grécia
0,2%
3,7%
-3,2%
-6,9%
Itália
-0,2%
1,2%
-1,5%
-2,7%
Holandas
0,8%
1,8%
-0,2%
-2,1%
Portugal
0,3%
1,1%
-0,6%
-1,7%
Espanha
0,7%
2,1%
-0,6%
-2,8%
Canadá
1,2%
1,8%
0,5%
-1,3%
Suécia
1,5%
2,8%
0,2%
-2,6%
Inglaterra
1,2%
2,5%
0,0%
-2,5%
EUA
1,1%
1,7%
0,6%
-1,1%

Fonte : FMI

Mas se se tivesse em conta o PIB por habitante que nos dá uma maior proximidade da situação em cada país, verificaríamos que desde 1999 só a Alemanha tem um crescimento contínuo deste índice quer dos países da zona Euro quer dos que estão de fora! Pelo contrário, a queda é significativa para os outros países: Grécia, Finlândia, Espanha, Portugal e Itália.
 
           Gráfico 1 - PIB por habitante


 Fonte: FMI

 O euro contribuiu para o empobrecimento relativo de uma grande parte da Europa mas o efeito também foi devastador com o investimento.

 

Queda do investimento produtivo

Investimento global
Investimento por habitante
Nível de 2015 em percentagem de 1999
Taxa de crescimento anual médio
Nível de 2015 em percentagem de 1999
Taxa de crescimento médio anual
Bélgica
120,8%
1,2%
109,8%
0,6%
Finlândia
114,9%
0,9%
107,9%
0,5%
França
122,9%
1,3%
111,9%
0,7%
Alemanha
96,2%
-0,2%
97,1%
-0,2%
Grécia
47,2%
-4,6%
46,7%
-4,7%
Itália
77,2%
-1,6%
73,0%
-2,0%
Holanda
97,0%
-0,2%
90,6%
-0,6%
Portugal
53,6%
-3,8%
52,6%
-3,9%
Espanha
100,5%
0,0%
86,5%
-0,9%
Total dos 9 países da zona euro
98,3%
-0,1%
92,5%
-0,5%
Canadá
163,2%
3,1%
138,2%
2,0%
Noruega
152,0%
2,7%
130,5%
1,7%
Suécia
157,8%
2,9%
142,2%
2,2%
Inglaterra
123,8%
1,3%
111,9%
0,7%
EUA
120,2%
1,2%
104,4%
0,3%

Fonte : base de dados do FMI

O investimento que mede o progresso e social dos países caiu na maior parte dos países e ainda mais no investimento por habitante
                                   Gráfico 2 - Investimento por habitante


Fonte: FMI

Se esta contração é importante para a Itália e a Espanha, é catastrófico para a Grécia ou Portugal (passam para níveis de investimento de meados dos anos oitenta do século passado). É uma cegueira continuar a ter ilusões sobre os efeitos positivos da austeridade. A quebra no investimento provoca a não renovação do stock de capital per capita. No que respeita ao capital fixo isso atinge todas as infraestruturas (estradas, pontes, caminho de ferro e outros transportes públicos, aeroportos, sistemas de captação, tratamento e distribuição de água, sistemas de comunicações). E no que respeita ao capital mais diretamente produtivo, as máquinas, etc. Isto põe em causa o futuro das populações dos países da zona euro, ao contrário do que acontece com os outros países europeus, os EUA ou o Canadá.

Este efeito induz também um efeito depressivo na economia mundial. Mas também, entre nós, no emprego, particularmente entre os jovens, e na confiança, o que pode gerar sérios conflitos sociais.

Não há fum-fum nem gaitinhas que defendam os aldrabões. Cavaco, Passos Coelho, os comentadores sabichões, os jornalistas dos fretes, por muito alienígenas que sejam, não podem contornar os dados da economia real: insistir na tragédia do euro, é a liquidação de Portugal e da Europa!