sexta-feira, 9 de março de 2018

Sobre as eleições em Itália no passado domingo, por António Abreu

 
Nas previsões anteriores às eleições italianas várias coisas se confirmaram como o reforço global da direita e da extrema-direita e a quebra da coligação “centro-esquerda” (de facto liberal) com o peso hegemónico do Partido Democrático (PD), partido de governo. Mas outras não se confirmaram como o Força Itália de Silvio Berlusconi, em aliança com a Liga (ex-Liga Norte), e os Fratelli d’Italia e Noi com Italia, poder ser o partido mais votado no bloco da direita. A Liga ultrapassou o FI, em que se vai reduzindo o apoio de eleitores de direita.
O Movimento Cinco Estrelas (M5S) acabou por ser o mais votado.
Só estas três formações políticas, mais o LeU, elegeram deputados e senadores, ficando o M5S com 32,6%, a coligação da direita com 31,4% e o PD com 18,7%. O LeU baixou para 9 deputados e 4 senadores.
O M5S irá liderar o processo de contactos para poder obter apoio maioritário na Câmara eleita.
 
Na coluna da direita CDX é a coligação da direita, M5S o Movimento 5 Estrelas e  CSX a coligação da esquerda, maioritàriamente do PD
 
O PD do ex-primeiro ministro Matteo Renzi, tinha vencido, muito dificilmente, as eleições de 2013. Tem na sua origem a transformação sucessiva do antigo Partido Comunista Italiano (PCI), que, sendo o maior da Europa ocidental, sofreu a deriva eurocomunista e perdeu com os últimos governos de Renzi e Gentiloni qualquer respeito com os interesses dos trabalhadores, que foram fustigados com alterações à legislação laboral e ataques à Saúde, Educação e Segurança Social públicas, de acordo com os padrões neoliberais dos dirigentes da União Europeia.
Destes resultados resulta com grande probabilidade não ser possível atingir-se a maioria necessária para governar, conforme tem sido largamente sustentado.
O cenário político italiano é, desde a queda de Berlusconi em 2011, formado por governos formados por “tecnocratas” não eleitos, ou através de coligações entre forças de centro-esquerda (que se tornou liberal., de facto e de centro-direita.
 
A crise económica pulverizou a prazo o sistema partidário italiano e o centro neoliberal acabou por não produzir a estabilidade nem estagnação, mas desespero social.
 
Disso beneficiou O Movimento 5 Estrelas, fruto da crise e de uma agregação populista, levantando a bandeira do anti partidarismo e atraindo os insatisfeitos a juntarem-se a eles, recorrendo a um discurso “antissistema”. Este movimento vai ter que corresponder às expectativas que criou para contribuir para a mudança do cenário político.
 
O partido de direita e conservador Força Itália (FI), de Berlusconi, fez aliança com a Liga, partido de extrema-direita, xenófobo e separatista. E, tendo este passado ater mais votos que a FI, será ele irá dirigir este bloco, podendo cada uma das forças agirem independentemente com vista às negociações para formar governo.
Por fim, a recém-lançada lista “Poder Para o Povo", composta pelo Partido da Refundação Comunista e pelo novo PCI, pretendeu- se consolidar como um “sujeito unitário da esquerda anti neoliberal”, tendo sido chamada de "a única novidade real na cena eleitoral italiana”. Para esta coligação de comunistas, "O voto para o Poder para as pessoas é um voto contra uma política ao serviço dos mais ricos e mais poderosos. É um voto para uma esquerda nova e radical que se oporá ao governo de "acordos amplos". A esquerda sem ifs e buts. Vamos trazer ao parlamento activistas que aprenderam nas ruas e nas lutas sociais e ambientais em oposição. É um voto para a implementação da Constituição e a abolição de todas as pseudo-reformas que tornaram este país mais pobre e mais injusto ".
Mas os seus 1,1 % são dececionantes. Passarão muitos anos até os comunistas italianos poderem ser o motor de uma alternativa.
 
O Partido Democrático, sob a liderança de Matteo Renzi, passou de um partido de centro-esquerda para o liberalismo. Ao longo da última legislatura, impôs uma "Lei do Emprego" flexível, reformas e medidas de educação neoliberal que obrigam os italianos em idade escolar a trabalhar em estágios não remunerados. Desde a sua tentativa fracassada de reescrever a constituição italiana (um assunto sensível, diga-se de passagem, já que a identidade republicana está intimamente ligado à queda do fascismo). Depois da demissão de Renzi das suas funções dirigentes, o PD enfrenta, além do Força Itália, seu inimigo histórico, uma oposição mais forte dos que constituem efectivamente a esquerda. Duas derrotas sucessivas no referendo e agora afectaram muito a popularidade do PD, acabaram com as pretensões de ocupar o centro político (seja lá o que isso for).
O jornal “O Vermelho” citando uma entrevista recente dada à apresentadora Barbara D’Urso em rede aberta, refere que Renzi defendeu a ideia fortemente neoliberal do papel primordial das empresas na educação dos jovens que, no cenário económico colocado pelo seu governo, representam boa parte da população desempregada e desiludida com a política. Em pesquisa feita pelo New York Times e divulgada pelo Estado de São Paulo, mais de 32% dos italianos com menos de 25 anos continuam desempregados. Esses mesmos jovens, conta a reportagem, deparam-se com elites que mantêm casas de praia e artigos de luxo, enquanto eles se mantêm na estagnação. Renzi provocou a desilusão e revolta nos italianos quando afirmou que os jovens estão desempregados enquanto grandes empresas italianas investem cada vez mais em tecnologia para poupar mão-de-obra e prevenir “gastos” com trabalhadores. As mesmas que ele diz serem imprescindíveis para a educação tecnológica e a inserção de jovens no mercado de trabalho. E não promovendo nada para compensar estes jovens com perspectivas de novos postos de trabalho.
É óbvio que o M5E  beneficiou do colapso deste “centro- esquerda” e da crise económica para se estabelecer como “voz dos excluídos”, em rebelião contra a “casta” representada pela corrente principal e pelo centro-direita. Tanto que o sucesso do “movimento”, continua “O Vermelho”, se deve pouco às propostas de políticas específicas, mas mais à promessa de revisão política e de uma suposta “novidade”. Tenta captar e expressar, por fim, o descontentamento de uma Itália abatida pelo desemprego.
 
Foi neste quadro que com imagem de “cavalheiro”, Berlusconi encontrou novo fôlego para se lançar numa nova candidatura, depois de algumas denúncias por evasão fiscal. Tocando nos pequenos problemas rotineiros que incomodam os italianos e que provariam, de forma supérflua, uma má gestão (como ruas esburacadas, por exemplo), Berlusconi comparou num programa televisivo que voltou para a política após o escândalo Mani Pulite (“Mãos limpas”), o maior esquema de corrupção política investigado na Itália. “Após o Mani Pulite, se não fosse por mim, os comunistas teriam tomado o poder” declarou, com orgulho, intitulando-se o herói anticomunista que salvou a Itália de um “grande perigo”. A sua retórica, claro, é fortemente conservadora; a crítica que fez aos candidatos do M5E baseia-se na meritocracia, acusando-os de “nunca terem trabalhado na sua vida”, enquanto se gaba de ser “um trabalhador antes de político”.
Apesar da xenofobia ter tomado o centro do debate eleitoral, o Manifesto, jornal comunista italiano, aponta outra grande promessa vendida pela direita: a estabilidade. “A poucos passos da chegada, com o pânico da instabilidade e da impossibilidade de governar que se aproxima cada dia mais, a única e verdadeira arma secreta da direita é essa: “ou nós, ou o “caos”
O mapa eleitoral italiano, aqui retirado do La Reppublica, modificou-se significativamente.
Mapa eleitoral
 
 
No mapa, o LeU, é o partido “Livres e Iguais”, liderado por Pietro Grasso, antigo juiz anti Máfia e atual presidente do Senado, eleito de novo para o Senado. Massimo D’Alema foi um dos senadores perdidos pelo LeU. D’Alema foi o responsável das relações internacionais do antigo PCI.
Entretanto Grasso já anunciou que admite discutir com o PD e o M5S mas não com os partidos à direita destes.
No mapa, de colégios eleitorais, relativamente às eleições de 2013 a mancha azul da direita e extrema-direita alargou-se para sul, a mancha vermelha do PDS reduziu-se muito e muito se alargou também a mancha amarela do Movimento 5 Estrelas

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