terça-feira, 20 de março de 2018

O que dizem os resultados das eleições de ontem na Rússia e a russofobia do Expresso, por António Abreu

 
A campanha russofóbica instalou-se na nossa comunicação social e no debitar de praticamente todos os comentadores neles creditados.
Então começando pelo número de candidatos. Foram oito. Até agora não falaram das críticas do candidato comunista, Pavel Gradinin, mas tão só do mais queridinho do “ocidente”, Alexei Novalny, que foi impedido judicialmente de se candidatar por crimes cometidos e dados como provados em tribunal.
Nos restantes, a variedade era expressiva, não faltando o direitista extremo, Vladimir Jirinovski, ou uma liberal socialite tipo Paris Hilton, Ksenia Sobchak, e que, aliás, num debate televisivo entre candidatos, o primeiro insultou em termos soezes, com insultos pessoais e sexistas, e afirmando que era uma marioneta de Putin.
Os resultados, quando estavam contadas 99,82% das urnas eleitorais, davam uma vitória a Vladimir Putin com76,66%, acima das sondagens, seguindo-se-lhe também muito acima das sondagens, Pavel Gradinin, do Partido Comunista da Federação Russa, com 11,01% (não confundir com outro candidato que se reclama do comunismo, Maksim Suraikin), Jirinovski com 5,66%, ligeiramente abaixo das sondagens e Ksenia Sobchak com 1,67%. Os restantes quatro candidatos não alcançaram a fasquia dos 1%.
Gradinin criticou a falta de transparência das eleições. Para ele "Está claro que as eleições não são justas".
A ONG Golos, especializada em vigilância eleitoral, disponibilizou um mapa das fraudes no seu site na internet, no qual denunciou mais de 2.700 presumíveis irregularidades como a colocação de mais votos nas urnas, votos múltiplos ou obstáculos ao trabalho dos observadores.
Mas a Presidente da Comissão Eleitoral Central, Ella Panfilova, na sua última conferência de imprensa afirmou que as irregularidades comprovadas foram "relativamente baixas" e acrescentou que a votação foi transparente. E que "Qualquer violação deve ser, antes de mais, comunicada, e então os resultados devem ser cancelados, se houver um motivo para isso. E também é necessário punir os responsáveis em plena conformidade com a lei, incluindo com base no artigo do Código Penal relativo a conspirações organizadas ", e que não houve reclamações graves durante as eleições presidenciais. Face à atitude da porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Heather Nauert, que escreveu na sexta-feira anterior à eleição que a Comissão Eleitoral Central russa teria negado o estatuto de observador a 5.000 jornalistas “independentes”, e que isso seria uma prova de que as autoridades do Kremlin "temiam a transparência", Panfilova reagiu “É uma mentira grosseira e incompetente…que faz cair no ridículo o nível de competência das pessoas que representam o Departamento de Estado",
Com a divulgação destes resultados, o Centro de Imprensa da Comissão Eleitoral Central da Rússia terminou ontem seu trabalho.
Um total de 1.649 jornalistas, entre os quais 449 representantes de órgãos de comunicação social estrangeiros, esteve credenciado no centro de imprensa, onde cientistas políticos, sociólogos e observadores internacionais foram fazendo para eles os seus comentários sobre as eleições.
Agora, a Comissão Eleitoral Central russa tem 10 dias, desde ontem, para divulgar o resultado final das eleições.
O Bureau para as Instituições Democráticas e Direitos Humanos da OSCE preparará, dentro de dois meses (!), um relatório com críticas ao processo eleitoral russo. Para já um observador seu no terreno manifestou preocupações quanto a Alexei Novalny não ter sido aceite como candidato, alguma “falta de transparência e de competição efectiva”, que não concretizou, embora tenha afirmado ainda que "em geral, o dia das eleições esteve bem organizado, apesar de pequenas falhas no princípio do voto secreto e da transparência da contagem".
Um ou outro comentador sublinha o facto de a participação ter sido de 67,4% e não os70% desejados por Putin. Essa participação não foi, de facto, atingida. Mas se compararmos esta situação com a participação em eleições presidenciais na União Europeia e EUA, verificamos que nas últimas em Portugal foi de 48,84%, no Reino Unido (que não tem presidenciais, graças à monarquia), nas legislativas, foi de 68,7%, na França de 75,34 % e nos EUA 52,16%, sendo que nestes três últimos casos as eleições foram muito disputadas entre dois candidatos, enquanto, na Rússia, como era esperado por toda a gente, isso não aconteceu.
Quanto a últimas eleições europeias na UE, a participação média foi de 43,11%. Em Portugal foi de 34,5%, a mais baixa registou-se na Eslováquia com 13% e as mais altas foram de 90%.
Não há ainda notícias sobre a forma como decorreram as eleições presidenciais noutros países com cidadãos russos. A excepção para já foram os EUA onde, segundo o embaixador russo “Tudo correu bem, de forma democrática, de acordo com as leis russas. Eu não posso dizer que foi 100% da forma como queríamos, porque, infelizmente, houve actos de provocação. Havia aquelas pessoas que, acho, não entendem o que é uma eleição presidencial e a importância de não interferir com a condução destas" e que “pessoas que, ao chegar às instalações para votarem, foram ameaçadas e forçadas a abandonar o local".
 
O caso particular da votação na Crimeia
Para os interessados em conhecer os sentimentos populares na Crimeia sobre o regresso desta à Rússia, importará sublinhar que o resultado de Putin foi aqui de 92,14 %. “O povo de Crimeia sempre soube que a decisão tomada em 2014, sobre a adesão à Rússia, era correta, mas ontem, nas eleições, foi colocado um ponto final nesta questão", afirmou o observador alemão Andreas Maurer. Este observador é Professor de Ciência Politica e Integração Europeia da Universidade de Innsbruck.
O ex-ministro do Interior da Ucrânia, Anatoly Mogilev, em entrevista ao canal 112 comentou por que Kiev não tentou impedir a península da Crimeia de se tornar parte da Rússia. Mogilev afirmou que os efetivos ucranianos instalados na Crimeia tinham capacidades para impedir militarmente a alteração do estatuto territorial da península, contudo, as autoridades ucranianas acharam desnecessário fazê-lo. "Na minha opinião, esta decisão não foi tomada por as autoridades da Ucrânia terem achado a Crimeia desnecessária. Mas porque tinham a certeza que em futuras eleições, a Crimeia votaria pela oposição. Por isso, a península foi deixada de lado e esquecida, traindo assim os oficiais ucranianos instalados naquele território”.
Também o ex-deputado ucraniano Andrey Senchenko relatou que, quando a crise ucraniana estava no seu auge, o presidente interino mandou os militares de Kerch, cidade da Crimeia, abrir fogo. Mas os militares recusara-se a cumprir a ordem.
Importa recordar a verdade sobre o eterno pretexto da Crimeia para confrontação ocidental com a Rússia desde 2014.
A península da Crimeia reintegrou-se na Rússia após um referendo realizado em março de 2014. Na votação 96,77% dos eleitores da República da Crimeia e 95,6% dos residentes da cidade de Sebastopol manifestaram-se pela reunificação com a Rússia. Este referendo foi convocado após o golpe de Estado na Ucrânia, que levou os partidos fascistas e saudosos do nazismo ao poder, sem validação eleitoral posterior. Desde esse golpe, as populações de origem russa foram Ucrânia descriminadas, despojadas do ensino da língua e da sua história, tendo-se registado assassinatos, espancamentos, saneamentos brutais da administração de cidadãos de origem russa. Nisso residiu a motivação da consulta popular que também viria a ocorrer nas regiões de Donetsk e Luhanski.
 
O “Expresso”, campeão da russofobia
Limito-me a transcrever este naco de prosa do jornalista Filipe Santos Costa, da secção política, porque os comentários são tão óbvios que não vale a pena consumir bytes com ele.
"Vladimir Putin esmagou a concorrência e foi reeleito com mais de 76% dos votos, numa eleição desenhada à sua medida, como escreve o El País. Confirma-se: Putin é o czar do século XXI. Quando terminar este quarto mandato, em 2024, com 71 anos, Putin terá governado o país por um quarto de século - e só ficará atrás de Estaline em termos de longevidade no poder, nota o Guardian.
A vitória de Putin surge depois de uma campanha marcada por violência, ameaças, intimidação e instrumentalização da comunicação social. O Observador fez um bom retrato desta “máquina perfeita do Kremlin para anular os adversários de Putin”. Se a campanha foi assim, a eleição não foi melhor. As denúncias de fraudes foram muitas.
Na consagração, o senhor todo poderoso da Rússia continuou tão vago sobre os seus propósitos e tão ameaçador como ao longo da campanha. Convocou o país para um "salto radical" e ironizou com a sua perpetuação no poder. "Acha que vou ficar aqui por cem anos?", retorquiu a um jornalista que o questionou sobre planos para se manter para além deste mandato.
O meu camarada de redação Pedro Cordeiro sublinha o contexto em que Putin relegitimou o seu poder: "em nenhum ponto do século XXI as relações da Rússia com o Ocidente foram piores". Vale a pena ler esta análise e recordar a coincidência da retórica violenta de Moscovo com as suspeitas de interferência russa na política doméstica de vários paises ocidentais - e veremos até onde vai a investigação ao conluio entre Trump e os russos.
O conflito entre Londres e Moscovo por causa do ex-espião russo assassinado no Reino Unido parece uma cena de um filme de época. Mas é bem real. Ontem, Boris Johnson, o ministro dos negócios estrangeiros britânico, garantiu ter provas da responsabilidade russa no assassinato do ex-espião Skripal. É mesmo como se tivéssemos voltado aos dias da guerra fria."
Resistiram? Se sim a casa oferece um novo gel desintoxicante. Se não, tem bom remédio também: deixe de ler o pasquim.

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