domingo, 31 de janeiro de 2016

Os EUA e a Arabia Saudita

Há días no Il Manifesto assinalava-se o facto de existirem nuances na forma de um tratamento mais distanciado Em relação à Arábia Saudita em sectores da administração norte-americana enquanto valorizavam mais o diálogo com a Síria. E que os media norte-americanos valorizam hoje mais os crimes da Arábia Saudita.

Porém os EUA ainda patrocinam como parte negociadora sobre o fim do conflito da Síria um homem e respectiva organização que combateram o regime sírio a partir da Arábia Saudita, e que ontem chegou a Genebra para a mesa negocial. Enquanto cooperam com este país nos bombardeamentos aos rebeldes houtis no Iémen.

A relação entre os serviços secretos dos EUA e do regime wahabita vem de longe.

A entrega de armas à Al-Qaeda e ao Daesh já fora antecedida por apoios à UNITA, o armar de mujahidines contra a URSS no Afganistão ou o financiamento aos contras na Nicarágua, antecederam outras cooperações na guerra contra a Síria (1).

A política de fazer cair, a partir da OPEP, o preço de venda do petróleo nos mercados internacionais para defender a sua posição dominante como produtora de novas grandes quantidades de petróleo vindos agora dos EUA (xisto) e do Irão, com o fim das sanções,  causa sérios problemas às economías russa, brasileira, venezuelana ou angolana.

Essas nuances têm, é claro, a ver com o progresso nas relações norte-americanas com o regime xiita de Teerão mas isso não foi suficiente para  que Obama tivesse condenado a execução do xeque xiita Nimr al-Nimr, há días, pela Arábia Saudita . Antes da sua execução, o xeque xiita descrevia assim a vida da população xiita: ”Desde o momento em que nascemos, vimo-nos rodeados do medo, da intimidação, perseguições e abusos. Nascemos numa atmosfera de intimidação. Temos medo até das paredes. Quem entre nós não está familiarizado com a intimidação e a injustiça a que fomos submetidos neste país? Eu tenho 55 anos, vivi mais de meio século. Desde que nasci nunca me sentí seguro neste país. Estamos sempre a ser acusados de alguma coisa. Sempre sofremos ameaças. Quando me prenderam disseram-me “Vocês, xiitas, deviam ser todos mortos” é essa a lógica deles”.

Os EUA têm três grandes aliados no Médio Oriente, a saber, a Arábia Saudita, Israel e a Turquia. Podem ter, por vezes,  ter diferentes atitudes face a este ou aquele problemas, mas a sua aliança é sólida.


Mas essa solidez poderá ser posta em causa com a normalização de relações com o Irão e com a possível queda da familia Saoun, que a execução do xeque xiita poderá acelerar. Os EUA tinham resolvido o complexo problema da sucessão do rei Abdallah. Mas agora a sucessão do rei Salman recaiu no príncipe Mohammed que se apoderou das grandes empresas do país, desencadeou os ataques contra o Iémene  e insistiu com a execução de Nimr al-Nimr. 

Ao nível religioso, o wahabismo é a religião do Estado mas a familia Saoud apoia-se apenas nos sunitas e pratica um verdadeiro apartheid para com as populações que têm outras religiões.

Neste quadro, a revolta alastra e pode ser aumentada  entre as camadas que têm apoiado o regime, em virtude da degradação das condições de vida internas decorrentes da desvalorização do petróleo, de uma possível bancarrota daqui a dois anos, nunca evitável com o endividamento acelerado já em curso.  Ou pela venda de parte da Aramco (empresa petrolífera da Arábia Saudita que produz, manufatura e comercializa em petroleiros o crude e o gás natural e os derivados do petróleo para corresponder à procura global).

O projeto há anos abandonado pelos EUA de dividir a Arábia Saudita em cinco partes renascerá neste quadro?

(1)   [1] “U.S. Relies Heavily on Saudi Money to Support Syrian Rebels”, Mark Mazzetti & Matt Apuzzojan, The New York Times, 23 de Janeiro de 2016.