sábado, 9 de janeiro de 2016

Médio Oriente, as tensões que se agravam, um processo de paz que tarda

Os factos aí estão: execução de 47 militantes xiitas na Arábia Saudita, as reações populares e do Irão, o atentado não reivindicado em Cabul, o abate pela Turquia de um avião russo com o apoio de um AWAC da Arábia Saudita, os atentados de Paris, o abate de um avião de passageiros russos, atentados na Nigéria, agressões externas ao Iémen e Somália, os massacres do Daesh na Síria e no Iraque, as consequências de tudo isto numa vaga emigratória com aspectos desumanos e muitas mortes.
 
Estes factos deixam, no ano que passou e já neste ano, um rasto crescente de violência onde as vidas são sacrificadas a agendas ocultas, onde há o apelo mais ou menos explícito à violência sectária, iludindo as verdadeiras causas destes acontecimentos.
 
Só no Iraque, Paquistão e Afeganistão, desde o início deste século já foram mortas mais de 4 milhões de pessoas.
 
Em torno da agressão à Síria, configuraram-se dois blocos. O primeiro envolve a Arábia Saudita, a Turquia, a França, Israel, Qatar, Dubai, Emiratos Árabes Unidos, Bahrein e Jordânia. O segundo envolve a Síria, Irão e Rússia.
 
Por detrás do primeiro bloco, os EUA têm também uma agenda própria. Os EUA combatem a Síria no sentido de garantirem o domínio do seu petróleo, de eliminar um aliado da Rússia na região, de inviabilizar o fornecimento de gás russo à Europa, de alargar o espaço caótico que lhe permita um vasto corredor de acesso à Rússia e depois contra a China.
 
Mas Israel também tem na sua agenda dividir o Próximo-Oriente, em particular no Levante em mini-estados de natureza étnica e confessional com dois objectivos: garantir a segurança das suas fronteiras e justificar a sua própria existência como estado dos judeus de todo o mundo, de acordo com a ideologia sionista.
 
Até ao momento só uma grande potência, a Rússia, deu resposta à altura dos acontecimentos, desdobrando-se em iniciativas de paz, propostas de acordos e de mediação de conflitos como o que acontece agora entre a Arábia Saudita e o Irão. Mas também coordenando acções com a Síria no plano militar que tem vindo a eliminar o Daesh e a sua ocupação do território, face à anterior inoperância de uma “coligação”, sem mandato para ali intervir, que numa primeira fase apoiou a progressão do Daesh no território e depois de desmascarada procedeu a bombardeamentos para cobrir o avanço dos curdos sírios contra o regime.
 
Desde a derrota do golpe na Síria, em Março de 2011, o conflito desenvolveu-se a ponto de se transformar numa complexa situação. O Exército Árabe Sírio leal ao presidente Bashar Al-Assad, grupos armados derrotados quando da tentativa do golpe e potências estrangeiras são peças de um intrincado jogo.
 
Segundo estimativas da ONU, mais de 200 mil pessoas já morreram nos mais de quatro anos de conflito na Síria e há pelo menos 4 milhões de pessoas deslocadas internamente, com alguns milhares chegando diariamente à Europa em busca de refúgio.
 
As tropas leais a Assad lutam contra vários grupos terroristas, que até há pouco tempo tinham sido absorvidos pelo Daesh, calculando-se terem uns 100 mil homens. Muitos destes grupos contam com mercenários estrangeiros. Por outro lado grupos libaneses e iranianos (Hezbollah) apoiam as fileiras do governo.
 
Entre as forças estrangeiras estão os Estados Unidos e seus aliados ocidentais, além de potências regionais como a Turquia, Israel e países do Golfo Pérsico. Que formaram uma “coligação com o pretexto de deslocar o Daesh da Síria e do Iraque. O governo sírio conta com o apoio da Rússia e do Irão.
 
O regime iraquiano está dependente dos EUA mas as fricções entre ambos aumentam. O Afeganistão não tem uma intervenção directa.
 
A monarquia saudita é nos dias de hoje uma ditadura anacrónica. A família Saoud é proprietária do país como, há décadas atrás, o rei belga Leopoldo II era proprietário do Congo em nome pessoal. É um regime que se sente ameaçado e se mantem pelo terror, mesmo dando alguns sinais de abertura como foi a permissão de candidaturas femininas quando…autorizadas pelos cônjuges. A execução,  de há dias atrás, quebrou com o efeito de tais « aberturas » e o Irão encara com simpatia uma revolta xiita neste estado vaabita.
 
A família Saoud  opõe-se a Assad. Apoia o Daesh e outros grupos terroristas.
Grande rival do Irão no Médio Oriente, a Arábia Saudita é parte da coligação dirigida pelos EUA “para atacar” o Daesh.
 
Em recente encontro de líderes em Nova Yorque, o governo saudita reiterou o seu desejo de ver Assad deposto. O ministro das Relações Exteriores, Adel Al-Jubeir, defendeu uma intervenção militar na Síria ou um armamento mais ostensivo dos grupos terroristas que actuam neste país.
 
A Arábia Saudita é um dos principais financiadores de rebeldes de orientação sunita, incluindo alguns mais radicais. Mas tem rejeitado acusações do Irão e de outros países de que também teria dado dinheiro e armas para o Daesh. No entanto, diversos milionários sauditas de uma forma clara já doaram dinheiro à causa jihadista do Daesh e há quem estime que cerca de 2.500 homens do país tenham viajado para a Síria e Iraque para se juntarem às fileiras do grupo terrorista.
 
Com Hollande a ser mais falcão que os EUA, insistindo no afastamento de Assad, como ainda se sentisse numa relação colonial com a Síria, com a Alemanha a querer afastar-se desta convergência anti-Assad, com a Bulgária, membro da UE e da NATO, governada por um bando de mafiosos a fornecerem droga ao Daesh e Al-Qaeda quer na Síria quer na Líbia, com o exército iraquiano a criticar os EUA pela falta de apoio e de um apoio à fuga dos membros do Daesh, tudo é muito complicado mas com oportunidades para se caminhar para verdadeiros acordos de paz.
 
Um novo ano que já começou mal com o passo da Arábia Saudita, pode ainda ser oportunidade a não perder.