domingo, 1 de setembro de 2019

Rússia: uma diplomacia diferente


Segundo a tradição, a diplomacia russa não procura, ao contrário dos Estados Unidos, redesenhar fronteiras e alianças. Ela tenta esclarecer os conflitos entre parceiros. Foi assim que ajudou o antigo Império Otomano e o antigo Império Persa a afastarem-se de uma sua definição religiosa (a Irmandade Muçulmana pela primeira vez, o Xiismo pela segunda) e a assumir uma definição nacional pós-imperial. Essa evolução é extremamente visível na Turquia, mas supõe uma mudança de mentalidades no Irão.
Quando há cinco anos a Rússia passou a intervir sistematicamente para que no Médio Oriente fosse respeitado o direito internacional, tinha que ter em conta o papel da Turquia, do Irão e dos Emiratos Árabes Unidos com quem tinha diferentes pontos de vista. O estilo de intervenção da diplomacia russa teve o acolhimento dos seus parceiros com resultados positivos.



Lá onde o poder militar dos EUA e a “sua visão do mundo” falharam, tem até agora vencido a muito delicada diplomacia russa. Um novo equilíbrio existe no vale do Nilo, no Levante e na península arábica, mas sem evitar novos riscos no Golfo Pérsico.
O pretenso emirato da Al-Qaeda, na Síria, dividido por cantões e sem administração central, esteve apoiado em ONGs ligadas aos serviços secretos de várias potências ocidentais que forneciam o necessário mantimento a esses cantões. Erdogan sofreu uma forte derrota eleitoral por ter aberto conversações sobre curdos presos, nomeadamente o presidente do PKK, Abdullah Öcalan. Os curdos tiveram papel muito negativo nos combates que a Síria com apoio da aviação russa, travaram, na reconquista do território perdido pela Síria. Isto depois de Erdogan ter decidido este ano, em 6 e 3/8/ uma nova identidade turca, deixando de ser religiosa para passar a ser a de um estado nacional, revelando ir trabalhar para expulsar as tropas curdas da Síria. Os EUA deixaram de apoiar o Rojava, estado curdo pretensamente em solo sírio, constituído por turcos que limparam etnicamente a área.
Os governos ocidentais mais interventivos na cena internacional, como a França e a Alemanha desejam o estado curdo na Turquia, onde têm a legitimidade da Conferência de Sèvres em 1920, Irão, Iraque ou Síria. Mas curiosamente não o querem criar na Alemanha, onde são cerca de um milhão.

A situação do Iémen
Os EUA e a Arábia Saudita têm apoiado o presidente Hadi para explorar as reservas de petróleo da fronteira, mas a revolta dos xiitas Zaidites tem cada vez mais recursos e ganha terreno. No passado dia 1 de agosto os guardas costeiros dos emiratos assinaram um acordo de cooperação transfronteiriço com a polícia iraniana de fronteira. No próprio dia o dirigente da milícia iemenita, apoiada pelos emiratos foi assassinado por um grupo islâmico apoiado pela Arábia Saudita. Obviamente, a aliança entre dois príncipes da Arábia e Emirados, Mohammed ben Salmane ("MBS") e Mohammed ben Zayed Al Nahyane ("MBZ"), ficou maltratada.
Em 11 de agosto, a milícia apoiada pelos Emirados Árabes Unidos invadiu o palácio presidencial e vários ministérios em Aden, apesar do apoio saudita ao presidente Hadi, foi refugiado de longa data em Riad. No dia seguinte, "MBS" e "MBZ" encontraram-se em Meca na presença do rei Salman. Eles rejeitaram o golpe de estado e chamaram suas respetivas tropas para se acalmarem. Em 17 de agosto, os militares pró-Emirados evacuaram em boa ordem da sede do governo. Durante a semana em que os "separatistas" tomaram Áden, os Emirados Árabes Unidos controlaram de fato os dois lados do estreito estratégico Bab el Mandeb, ligando o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Agora que Riyad preservou sua honra, terá que dar uma contrapartida a Abu Dhabi. Estes parecem ter concluído que a guerra é invencível e ensaiaram uma aproximação ao Irão.

Cadeiras musicais no Sudão
No Sudão, depois que o presidente Omar al-Bashir (irmão dissidente muçulmano) ter sido derrubado por manifestações da Aliança pela Liberdade e Mudança (ALC) e o aumento do preço do pão ter sido cancelado, um conselho militar de transição ocupou o poder. Na prática, essa revolta social e alguns milhares de milhões de petrodólares permitiram que os manifestantes transferissem o país da uma tutela para outra saudita.
Em 3 de junho, uma nova manifestação do LRA foi dispersa com um banho de sangue pelo Conselho Militar de Transição, provocando 127 mortos, o que provocou condenação internacional, tendo o Conselho Militar realizado negociações com organizações civis e assinado um acordo no dia 17. Por um período de 39 meses, o país será governado por um Conselho Supremo de 6 civis e 5 militares, não identificados, controlados por uma assembleia de 300 membros nomeados e não eleitos, compreendendo 67% dos representantes da ALC.
Solução tão pouco democrática não suscitou, porém, reservas de qualquer partido
O economista Abdallah Hamdok, ex-chefe da Comissão Económica das Nações Unidas para a África, será o novo primeiro-ministro, devendo obter o fim de sanções contra o Sudão e reintegrar o país na União Africana.  O ex-presidente Omar al-Bashir será julgado no país para garantir que ele não mais possa ser extraditado para Haia para o Tribunal Penal Internacional.
O poder real será mantido pelo "general" Mohammed Hamdan Daglo (conhecido como "Hemetti"), que não é um general ou mesmo um soldado, mas um líder da milícia empregada por "MBS" para subjugar a resistência iemenita. Durante esse jogo de cadeiras, a Turquia - que tem uma base militar na ilha sudanesa de Suakin para cercar a Arábia Saudita - não disse nada.
De fato, a Turquia concorda em perder em Idleb e no Sudão para ganhar contra os mercenários curdos pró-EUA. Só isso foi vital para ela. Foi precisa muita discussão para ela perceber que não podia vencer em todas os tabuleiros ao mesmo tempo e que devia hierarquizar as suas prioridades.

Os Estados Unidos contra o petróleo iraniano
Londres e Washington continuam sua competição, iniciada há setenta anos atrás, pelo controle do petróleo iraniano. Como nos dias de Mohammad Mossadegh, a coroa britânica pretende decidir sozinha o que pertence ao Irão. Embora Washington não queira que as suas guerras contra o Afeganistão e o Iraque beneficiem Teerão (consequência da doutrina Rumsfeld / Cebrowski) e pretenda fixar o preço mundial da energia (doutrina de Pompeo).
Essas duas estratégias foram combinadas durante a apreensão do navio-tanque iraniano Grace 1 nas águas da colónia britânica de Gibraltar. O Irão, por sua vez, apresou dois navios britânicos no Estreito de Ormuz, argumentando – supremo insulto! – que o principal carregava "óleo de contrabando", ou seja, o petróleo subsidiado pelo Irão comprado por Londres no mercado negro. Quando o novo primeiro ministro, Boris Johnson, percebeu que seu país tinha ido longe demais, ficou "surpreso" ao ver a justiça "independente" de sua colónia libertar o Grace 1 . Imediatamente Washington emitiu um mandado de apreensão novamente.
Desde o início deste caso, os europeus pagam o preço pela política norte-americana e protestam contra ela com poucas consequências. Somente os russos defendem não o seu aliado iraniano, mas o Direito Internacional, como fizeram sobre a Síria, o que lhes permite ter uma linha política consistente.



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