Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Poema de "A Terceira Miséria", nº 23, De Hélia Correia





 
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
 
(in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ai, esta tropa fandanga!...

Ontem Marques Mendes disse, na SIC, ter tido acesso a uma carta do BCE enviada há dias ao Governo. Hoje, Helena Garrido, directora do Jornal de Negócios, citou essa "revelação" de Marques Mendes para meia-hora depois dizer que já se não lembrava mas essa fuga de informação já tinha sido publicada no seu jornal uns dias antes...
E, pelos vistos, Marques Mendes não citou como fonte o...referido jornal.
Isto é que é uma tropa competente! É o estado em que vai o PSD...
Oremos, que trapalhões já temos...

domingo, 17 de julho de 2016

Poucas são as nações em desenvolvimento que convergiram linearmente com as economias ricas



Recuperar do atraso é difícil poderá ter sido a descoberta de muitos países emergentes.

Tendo passado mais de um século a ver o seu rendimento cair face aos países ricos, muitos países em vias de desenvolvimento ao longo dos últimos vinte anos deram passos para se aproximarem deles. No entanto, a recuperação do passado tem abrandado consideravelmente.

Um estudo divulgado em Junho pelo Banco Mundial mostrou que a velocidade a que os mercados emergentes estão a convergir com o rendimento do mundo rico caiu em poucos anos, mesmo antes da crise financeira.

Não há solução mágica que leve os mercados emergentes como um todo para um caminho de maior crescimento. Para o Banco Mundial, como é óbvio, deveriam garantir “ previsibilidade e transparência” na elaboração de políticas, para que os consumidores, as empresas nacionais e investidores estrangeiros tivessem um “ambiente mais confiável”.

Para o Banco Mundial há poucos assuntos em que as panaceias da economia convencional se revelaram” tão espetacularmente erradas por tanto tempo” como a afirmação de que “os países pobres devem recuperar do atraso para com os ricos” (sic).

Com a retoma do investimento e a adopção de novas tecnologias muito superiores às das economias maduras, a recuperação do atraso deveria ter sido uma simples questão de “deixar os mercados fazerem o seu trabalho”.

Quando a crise financeira global atingiu o mundo em 2008, cerca de 80 por cento das economias emergentes estavam a convergir para níveis do produto interno bruto per capita próximos do dos EUA, duplicando a proporção do início de 1990.

Mas esses dias têm diminuído.

A crise do subprime, vinda do Goldman Sachs, a que com tão grande sapiência,  Durão Barroso passou agora a presidir, teve também essa consequência de refrear de maior convergência das economias. As coisas não acontecem por acaso.

Desde 2008, a proporção de países que recuperou o atraso em relação aos EUA caiu para os níveis de 1990. Entre 2003 e 2008, os mercados emergentes, foram crescendo, em média, a uma taxa que teria apanhado até 2015 os níveis do PIB percapita dos EUA em 40 anos. Em 2013-2015, esse lapso de tempo já se tinha alargado para mais de 60 anos…

Dado o ambiente de grande apoio para muitos mercados emergentes nos primeiros anos após a crise - altos preços das commodities e empréstimos externos baratos, em parte graças à flexibilização da Reserva Federal, criados para melhorar as economias dos mais ricos, é preocupante que não tenham feito mais progressos. Agora que esses apoios têm diminuído, a sua tarefa tornou-se ainda mais difícil.

E o Banco Mundial insiste, pois, na desregulamentação se for caso disso, a política macroeconómica de apoio onde for possível. Outro factor, também sublinhado pelo Banco Mundial, é a necessidade de uma política que torne as situações transparentes e previsíveis.

Por exemplo, a volatilidade nos mercados financeiros em 2015 e no início deste ano foi atribuída à “incerteza” na China, e, particularmente, como as autoridades chinesas reagiram à fuga de capitais e às pressões sobre o renminbi. Por altura deste relatório do BM, o Banco Popular da China deixou a "taxa de referência" e adoptou um cabaz de outras moedas que levou a um deslizar consideravelmente menor do que os comerciantes esperavam, e o seu compromisso pôs em causa uma taxa determinada pelo mercado.

As razões para o declínio da grande convergência são complexas e variadas. Mas a receita geral de realizar políticas numa base previsível, insiste o Banco Mundial, irá tranquilizar os consumidores, os dirigentes de empresas e os investidores em todo o mercado emergente mundial.

São hoje menos as nações em vias de desenvolvimento que estão a convergir com as economias ricas, pelo que são necessárias alternativas às receitas do Banco Mundial. Essas são questões que têm vindo a ser estudadas e implementadas por esses países emergentes. O caminho terá que ser esse mesmo que o sistema capitalista gere as defesas para apenas garantir o desenvolvimento dos mais ricos.

Canção porque (não) Morres, de Manuel Gusmão

 
 
 
 
 
 
 
 
Este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido - aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.
- Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis já gastos
com que pensava e não pensava
enganar a morte branca e vermelha.
- Ah e não esqueças: - deitar fora a chave

Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das árvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?

Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
            - já sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? - Que importa quem falou?
- Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.

Canção, o teu sopro é quente
e têm sede os teus ventos, esses animais
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno
beijara até à flor do sangue.
depois, as palavras em que te perderas serão
cinzas sobre o mar e espuma suja
entre as rochas. Que atraso ou afecto
te prende ainda a esta margem
Por quem esperas tu
canção ainda
agora
que já por todo o céu
a terra nos esqueceu

Morresses, agora, canção
enquanto corres ainda pelo sangue
de quem escuta - e
morrerias no fulgor último
que ao fundo, no horizonte
da linguagem,
da própria linguagem
se afasta já, e abandonando vai
os seus bairros periféricos, despedindo-se
da tristeza dos migrantes derradeiros;
queimando página a
página
os últimos barcos.

Manuel Gusmão, in 'Migrações do Fogo'

A música é natural ou é cultural?, por Jorge

O professor Ricardo Godoy da Universidade de Brandeis, de Boston,  a fazer um teste numa aldeia na floresta tropical na Bolívia
  
A música é um fenómeno que tem características universais, verificáveis em todas as culturas humanas conhecidas, por exemplo:
 
- em todas, existe uma pulsação ou ritmo
- em todas, se distingue o timbre do som produzido
- em todas, os sons são seriados pela sua frequência ou altura
- em todas, é reconhecida a oitava (dobro ou metade da frequência) como correspondendo à mesma nota
- em todas, se usa como base uma reduzida escala de notas
- em todas, há uma nota tónica à volta da qual gravitam as restantes
- todos os humanos distinguem uma melodia de outra melodia a partir das respetivas sequências de notas e ritmos.
A razão para a existência destas características universais é atribuída à fisiologia do ouvido humano e à forma como a vibração do tímpano, transmitida pelo nervo auditivo ao cérebro, aí sofre a fase final de um processamento bio-psicológico especifico da nossa espécie.
Outras características da música podem porém não ser universais, mas específicas de cada cultura.
Será que por exemplo a sensação de consonância e dissonância, ou seja, o agrado ou desagrado por certas combinações de notas, é inata? Será que todos os humanos acham consonante o intervalo de "quinta perfeita" dó+sol e dissonante o "intervalo do diabo" dó+fá/sustenido, como acontece na harmonia musical europeia?
Será que há notas "erradas", como a nota blue do jazz?
Pois o artigo junto mostra que não, que nestes casos se trata do "gosto cultural" adquirido pela exposição precoce e permanente a regras de composição de natureza histórica e cultural e não necessariamente partilhado por outras culturas por elas não "contaminadas" (cada vez mais difíceis de encontrar).
Como em relação a outras coisas, também em música o eurocentrismo deve ser relativizado: a "nossa" música poderá ser a mais evoluída, mas nem por isso é a única e a "melhor".
 
 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A frase de fim de semana, por Jorge

"O futebol é o ópio do povo. E o narcotráfico dos media."




Millôr Fernandes
humorista brasileiro
1923-2012
em A Bíblia do Caos, 1994

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Agitado o Mar do Sul da China


O Mar do Sul da China (Nanhai Zhudao)
 Nos últimos meses tem-se acentuado a tensão entre as Filipinas, com os EUA por detrás, e a China a propósito duma disputa territorial sobre quem detém os direitos do mar e ilhas, recifes e ilhéus do Mar do Sul da China (Nanhai Zhudao).
Os EUA, as Filipinas e outros países da região, que já têm bases de mísseis dirigidas a território da China, defendem a livre circulação naquele Mar como se ele não pertencesse à China e contestam que a China possa nele instalar meios de defesa próprios.
Acresce que o governo das Filipinas rasgou os esforços de negociações bilaterais com a China, optando em 2013 por propor uma arbitragem internacional que trariam os EUA para o Mar do Sul da China como parte que procuraria a sua instalação nele.
Ainda ontem, dia 13, dois aviões de passageiros fretados pelo governo chinês desembarcaram nos aeródromos dos Recifes Meiji e Zhubi, localizados no Mar do Sul da China e regressaram a Haikou, na província de Hainan, no mesmo dia. Este foi o segundo voo experimental realizado pela China nos recifes do Mar do Sul da China desde o início do ano. Em resposta às dúvidas levantadas pelos EUA, a China referiu que se trataram de acções no âmbito da soberania territorial chinesa, não devendo entender-se como contra terceiros. E que a construção das ilhas e recifes no Mar do Sul da China tem como objetivo atender às diversas necessidades civis e oferecer melhores serviços à China e aos países vizinhos, bem como às embarcações de todos os países que naveguem nas águas da região.
Ilha artificial em construção
Em Maio, a China tinha conduzido para fora dessas águas um avião-espião norte-americano, depois de o ter avisado oito vezes consecutivas de que estava a violar território marítimo chinês, sem qualquer contacto prévio.
A questão da pertença deste vasto território só agora é contestada pelos EUA, Filipinas e outros países.
Segundo a China, os factos históricos demonstram que o povo chinês sempre tratou Nanhai Zhudao e as suas águas adjacentes como local de vida e actividade produtiva onde se realizava todo tipo de atividades de exploração e utilização. Os governos de diferentes períodos da China têm exercido jurisdição sobre essas ilhas de maneira contínua, pacífica e eficaz. Ao longo da história, a China estabeleceu a sua soberania sobre Nanhai Zhudao, bem como os seus direitos e interesses no Mar do Sul da China. O povo chinês é, desde há muito tempo, dono de Nanhai Zhudao.
Ao longo dos séculos os sucessivos impérios da China consideraram este território como seu e há múltiplas publicações francesas, japonesas, inglesas e americanas que assim o consideram, adoptando até as designações chinesas em roteiros e mapas de navegação dos séculos XIX e XX para diversos pontos deste Mar. A actual reivindicação de livre circulação nesse mar e da soberania sobre arquipélagos como os das ilhas Paracel ou as Spratley carece de uma visão histórica de como aqui se chegou.
Em 1933 a França e o Japão ocuparam parte destes arquipélagos. Isso viria a acentuar-se por parte do Japão durante a 2ª Guerra Mundial, finda a qual a soberania chinesa foi reconhecida através dos acordos de Potsdam. Desde então a progressão do exercício da soberania chinesa neste mar e as suas ilhas e recifes verificou-se continuamente.
Recife Mieschie nas Ilhas Spratley
Recentemente os EUA e Filipinas recriminaram a China por estar, com as construções nestas ilhas e recifes, a agredir o ambiente. Em resposta a China afirmou dar grande importância à preservação da ecologia e dos recursos pesqueiros no Mar do Sul da China, quando adoptou desde 1999 o sistema de defeso nesse mar. Até ao final de 2015, a China já tinha  criado seis reservas nacionais biológicas de seres aquáticos e seis reservas provinciais do mesmo género na região numa área total de 2,69 milhões de hectares, além de sete reservas de recursos de germoplasma aquático com uma área total de 1,28 milhão de hectares.
Segundo a China, desde os anos 1970, que as Filipinas têm invadido e ocupado algumas ilhas e recifes de Nansha Qundao da China por meio da força, além de fazer reivindicações territoriais ilegítimas, não mostrando recuar nessas atitudes.
Em 1975, a China e as Filipinas normalizaram relações. No comunicado conjunto, os governos de ambas as partes concordaram em resolver todas as disputas por via pacífica sem recorrer ao uso da força nem à ameaça do seu uso.
Desde que em 1982 foi aprovada e entrou em vigor a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), as disputas entre a China e as Filipinas no Mar do Sul da China têm-se intensificado gradualmente. No Mar do Sul da China, China e Filipinas são estados que possuem territórios terrestres com costas opostas, cuja distância entre ambas é de menos de 400 milhas náuticas. As áreas marítimas reclamadas pelos dois países sobrepõem-se, dando origem às disputas envolvendo a delimitação marítima.

Em 1988, realizou-se um encontro entre a presidente filipina Corazón Aquino e o presidente Deng Xiaoping. Desde então a China sempre tem aplicado aquilo a que se comprometeu então Deng Xiaoping de que "a soberania pertence à China, mas podemos deixar de lado as disputas e buscar o desenvolvimento conjunto". Seguem-se então frequentes reuniões entre os dois governos sobre a solução das suas disputas no Mar do Sul da China, tendo-se chegado aos seguintes consensos e compromissos: primeiro, as disputas devem ser resolvidas entre os países soberanos directamente envolvidos; segundo, as disputas devem ser resolvidas pacificamente por meio de consultas e negociações com base na igualdade e no respeito mútuo; e terceiro, os países soberanos directamente envolvidos devem "finalmente, negociar uma solução para as disputas bilaterais" conforme os princípios estabelecidos nas leis internacionais universalmente reconhecidos, incluindo a CNUDM de 1982.

Depois disso a China lamentou que, devido à falta da vontade de cooperação por parte das Filipinas, a Reunião do Grupo de Especialistas China-Filipinas sobre Medidas de Construção da Confiança tenha ficado estagnada, e que a pesquisa tripartida China-Filipinas-Vietname não tenha prosseguido.
Para a China, desde os anos 80 as Filipinas tentam ampliar sua ocupação ilegal de parte das ilhas e recifes de Nansha Qundao da China, têm intensificado a violação dos direitos e interesses marítimos da China, incluindo a extracção de petróleo e a venda de plataformas, a partir de 1997 começam, pela primeira vez, a apresentar pretensões sobre Huangyan Dao, da China. Um passo que pode ser grave, avançado pelo governo das Filipinas em 2013 foi o pedido unilateral de arbitragem, rompendo anteriores acordos com a China. É evidente a intenção de internacionalizar o conflito e trazer as grandes potências capitalistas da Europa, América do Norte e Austrália a garantir “o seu bocado” num território de soberania chinesa.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma questão de etiqueta?



As etiquetas comerciais estão a tornar-se num factor de tensão entre alguns países da UE e os EUA a propósito das negociações do TTIP.

O Le Monde do passado dia 9 dava conta de que a indústria agroalimentar e a grande distribuição se opõem ao projecto, resultante de um estudo encomendado pelo governo francês, de colocar um logotipo colorido nos alimentos em função da sua qualidade nutricional. Não só agora mas nos últimos anos têm-se sucedido os trabalhos científicos que mostram a eficácia deste tipo de etiquetas na informação aos consumidores para reduzir os riscos sanitários. Esta questão também vai exigir a clarificação do governo francês já que uma parte dos peritos mandatados pelo Ministério da Saúde mantém ligações, nem sempre declaradas, com a indústria.
As cinco doenças mais comuns em muitos países estão ligadas, no todo ou em parte, à produção e ao consumo de alimentos provenientes da cadeia agroalimentar industrial: diabetes, hipertensão, obesidade, cancro e doenças cardiovasculares.. Isto não só se traduz em má qualidade de vida e tragédias pessoais, mas também em altos gastos com consultas médicas e com o orçamento de saúde pública, e num enorme subsídio oculto para as multinacionais que dominam a cadeia agroalimentar, das sementes ao processamento de alimentos e à venda em supermercados. Fortes são pois as razões para questionar esse modelo de produção e consumo de alimentos. E fortes são também as razões para a etiquetagem desses produtos confira segurança aos cidadãos.
Quer neste caso de França quer no das negociações entre a UE e os EUA sobre o TTIP, também na etiquetagem destes e outros tipos de produtos, conhecem-se genericamente os tipos de questões a ser tratadas mas não as opções concretas. E são estas que os cidadãos reclamam conhecer. Os relatórios são um “faz de conta” e escondem o que, no concreto, está a ser acordado. Uma entre centenas de perguntas a esclarecer: como vai a UE reagir ou a que acordou chegou sobre a oposição dos EUA à referência nas etiquetas a “produto geneticamente modificado”?
Em relação ao TTIP, esta questão da etiquetagem e da segurança, coloca-se não só no sector agroalimentar mas no vestuário/têxtil e em em todas as áreas
Fazer o exercício de ler os relatórios das 13 reuniões já realizadas entre os EUA e a EU mostra isto à evidência e quem negoceia nas costas dos cidadãos não pode considerar.
Os grupos económicos apelam à simplificação e harmonização das normas de etiquetagem relativas a peças de vestuário vendidas na União Europeia e Estados Unidos da América, como forma de impulsionar o comércio inter-regional, reduzir o número de requisitos de etiquetagem obrigatórios e permitir que as etiquetas dos produtos sejam o mais simples possível. Isto é “esconder mais para vender melhor”.

Entre os grupos norte-americanos estão a Aliança Europeia de Marcas de Vestuário (EBCA), a Associação de Vestuário e Calçado Americana (AAFA) e a Associação Indústria da Moda dos Estados Unidos (USFIA). Todos eles destacam que as práticas empresariais modernas requerem a capacidade de transferência de produtos entre as regiões, como ditam as condições de mercado. Afirmam que “Se um produto não se vende bem na Europa, deveria ser possível transferir esse produto para os EUA e vice-versa, assegurando que o produto encontra a melhor mercado. O produto, portanto, deve estar pronto a ser vendido em qualquer jurisdição, incluindo no que diz respeito à etiquetagem e línguas”, referem. Em última análise, pretendem que o TTIP “permita a eficiência do comércio inter-regional, simplificando os requisitos de etiquetagem e idiomas, reduzindo assim o comprimento das etiquetas, resíduos, custos e confusão do consumidor, resultante de quantidades excessivas de informação. Chegam mesmo ao ponto de, como a Ginetex-Associação Internacional para a Etiquetagem, dizerem que alguma etiquetagem e a contemplação nela de direitos de propriedade intelectual se acabam por reflectir nos preços ao consumidor. E portanto, “cortem nas etiquetas”…
Harmonização, redução das palavras a símbolos, necessidade de reduzir o número e línguas usadas pela EU e o excesso de informação. Tudo são facilidades.
Por detrás de tão bons corações, está a cupidez do aumento dos lucros de quem quer ver alargados os seus mercados e amortizados mais rapidamente os investimentos realizados na exportação/produção, procurando, assim, que “o gato passe por lebre”.
No tocante à indicação do país de origem de produtos que são importados, neste momento a Comunidade Europeia não dispõe de legislação sobre a etiquetagem de origem de produtos industriais importados de países terceiros ("made in").
No decurso da consulta que a Comissão organizou em 2004, certos estados-membros e vários organismos interessados (indústrias, sindicatos, consumidores e outras instituições) tinham expresso a sua preocupação crescente com o aumento da incidência de etiquetas de origens enganosas e/ou fraudulentas apostas em produtos importados e tinham requerido o estabelecimento de regras que impusessem a etiquetagem de origem das importações e/ou dos produtos UE. A proposta que a Comissão apresentou em 2005 permitia conceber a determinação, pelo menos parcial, da origem de um produto em função de regras aduaneiras.

No triénio 2009-2011, os eurodeputados comunistas defenderam o conhecimento, tão completo quanto possível e justificável, da composição dos géneros alimentícios, que constitui um direito fundamental dos consumidores. Consideraram que deve também existir informação sobre aditivos alimentares com efeitos alergénicos e a obrigatoriedade de indicação de origem em determinados produtos, tendo condenado a inexistência de obrigatoriedade de informação relativa à presença de organismos geneticamente modificados (OGM) nos alimentos.

Em Portugal, em 8/2/2011, a Comissão Parlamentar de Assuntos Económicos elaborou um parecer que, face à disposição da Comissão Europeia alterar alguns requisitos da etiquetagem, não deveria antes de se concluir tal processo, ser revogado o Regulamento nº1548/98 de definia os requisitos em vigôr à altura.
Em Março deste ano, um grupo de produtores de leite do Norte do país juntou-se num hipermercado da Póvoa de Varzim para comprar mil litros de leite nacional e colocar etiquetas em produtos lácteos importados, para alertar para as dificuldades que o setor atravessa e sensibilizar as superfícies comerciais e os consumidores a comprarem produtos lácteos produzidos no nosso país.
Também nesse mês, a CNA referia que tem de haver coragem para enfrentar a grande distribuição, que continua a acumular lucros, mesmo quando aqueles que produzem para ela só acumulem prejuízos. Tem de haver exigência na rotulagem da produção nacional à qual a grande distribuição tem resistido. Tem de se verificar se não há dumping na importação de carne e leite que fazem baixar os preços pagos em Portugal. Exige-se também por parte da ASAE uma maior atenção através de uma ação forte, visível e dissuasora.

É de esperar que, também em Portugal, os grandes grupos económicos e as grandes distribuidoras assumam atitudes semelhantes ao que está a acontecer em França.