sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Os EUA e o desaire na segunda guerra do Afeganistão, por António Abreu

Os EUA e o desaire na guerra do Afeganistão  No passado dia 9 de dezembro, o Washington Post revelou um conjunto de documentos confidenciais do governo norte-americano que revela que  as mais altas autoridades deste país mentiram sobre a guerra no Afeganistão durante a campanha que já durou 18 anos, fazendo declarações positivas que sabiam serem falsas e escondendo evidências inconfundíveis de que a guerra não era susceptível de ser ganha. Estes elementos referem-se à segunda guerra no país, depois da primeira guerra (1). 

Os documentos foram produzidos por um projeto federal que examinava as falhas fundamentais do conflito armado mais longo da história dos EUA.  Incluem mais de 2.000 páginas de notas de entrevistas inéditas com pessoas que desempenharam um papel directo na guerra, de generais e diplomatas mas também trabalhadores auxiliares e autoridades afegãs.  

O jornal revela que o governo dos EUA tentou proteger as identidades da grande maioria dos entrevistados para o projeto e ocultar quase todas as suas observações. 

O Post ganhou a causa para serem libertados os documentos após uma batalha legal de três anos.

 "Faltava-nos uma compreensão fundamental do Afeganistão - não sabíamos o que estávamos a fazer", disse em 2015 Douglas Lute, um general do Exército de três estrelas - que serviu como pivot da Casa Branca na guerra conduzida neste país durante as administrações de Bush e Obama. E acrescentou: “O que estamos a fazer aqui? Não tínhamos a menor noção do que estávamos a fazer. " E Lute acrescentava “Se o povo americano soubesse a dimensão dessa disfunção com a perda de 2.400 vidas ”, referindo-se apenas as perdas de militares norte-americanos, culpando, por isso os colapsos burocráticos entre o Congresso, o Pentágono e o Departamento de Estado. "Quem poderia dizer que isso foi em vão?" Desde 2001, mais de 775.000 soldados dos EUA foram enviados para o Afeganistão, muitos por várias vezes. Desses, 2.300 morreram lá e 20.589 foram feridos em ação, segundo dados do Departamento de Defesa.  . As entrevistas realizadas no âmbito daquele projecto, através de uma extensa variedade de vozes, revelam as principais falhas da guerra que persistem até hoje. Eles ressaltam como três presidentes - George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump - e os seus comandantes militares foram incapazes de cumprir as suas promessas relativas à permanência no Afeganistão. 

Com a maioria dos entrevistados a pensar que as suas declarações não se tornariam públicas, as autoridades americanas reconheceram que as suas estratégias de combate tinham falido e que Washington estavam a desperdiçar enormes somas de dinheiro tentando reconstruir o Afeganistão num país moderno. 
As entrevistas também destacam as tentativas frustradas do governo dos EUA de reduzir a corrupção descontrolada, formar um exército afegão e uma força policial competentes e acabar com o próspero comércio de ópio do Afeganistão.  

O governo dos EUA não realizou uma contabilidade global sobre quanto gastou a guerra no Afeganistão, mas os custos são surpreendentes. Desde 2001, o Departamento de Defesa, o Departamento de Estado e a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (2) gastaram ou apropriaram-se de entre 934 mil milhões e 978 mil milhões de dólares, de acordo com uma estimativa corrigida pela inflação calculada por Neta Crawford, professora de ciências políticas e codiretora dos custos de Projeto de Guerra na Universidade Brown. Esses números não incluem o dinheiro gasto por outras agências, como a CIA e o Departamento de Assuntos dos Veteranos que era responsável pelos cuidados médicos aos veteranos feridos. 


“O que recebemos por esse esforço 1 trilião (3) de dólares? O que nos valeu esse 1 trilião? (3)”, perguntou Jeffrey Eggers, aposentado dos Navy SEAL e da Casa Branca de Bush e Obama, aos entrevistadores do governo. E acrescentava: "Após o assassinato de Osama bin Laden, eu disse que Osama provavelmente estaria a rir-se na sua cova aquática, ao olhar o quanto gastamos no Afeganistão"… 
Os documentos também contradizem um longo coro de declarações públicas de presidentes, comandantes militares e diplomatas dos EUA, que garantiam aos americanos, ano após ano, que estavam progredindo no Afeganistão e que valia a pena lutar nesta guerra.

  
(1) A primeira guerra no Afeganistão iniciou-se com os combates de diversos grupos fundamentalistas islâmicos contra o governo saído da revolução de Saur, em 1978, de carácter socialista, com apoio da maior parte das forças armadas e amplo apoio popular. Este governo promoveu um estado laico e moderno, a educação e a emancipação das mulheres, o ensino da língua e das tradições culturais.  As relações de cooperação militar com a União Soviética já se davam com carácter permanente desde 1919, depois da Revolução de Outubro na Rússia. Mas começaram, em efetiva e larga escala, apenas em 1956. Novos acordos foram assinados nos anos 70, com os soviéticos a enviar conselheiros militares e especialistas. A União Soviética financiou várias obras de infraestruturas diversas, deu assistência na construção da Universidade de Cabul, do Instituto Politécnico e também de hospitais, fábricas produtoras de energia e escolas. Nos anos 80, os soviéticos também financiaram a construção de universidades em Blakhe, Herate, Takhar, Nangarhar e Fariyab. Professores russos foram enviados para dar aulas no Afeganistão. Os combatentes mujahidins, vindos de vários países, tinham as suas bases no território vizinho do Paquistão. Um deles era dirigido pelo saudita Osama Bin Laden que criaria o grupo terrorista Al Qaeda. Os norte-americanos viam o Afeganistão como uma parte integrante da Guerra Fria e a CIA enviou ajuda às forças antissoviéticas através dos serviços de inteligência paquistaneses, num programa chamado Operação Ciclone. Estima-se que entre 850 000 e 1 500 000 afegãos morreram neste conflito. Os militares e agentes do KGB mortos foram cerca de 15 000.   Desde a intervenção a pedido do governo em 1979, os soviéticos concluíram a sua retirada em 1989. Foi a primeira guerra do Afeganistão.  

Os EUA, depois dos ataques às Torres Gémeas em 1 set 2001, lançaram, de imediato um ataque sobre o Iraque, invocando ter este armas de destruição maciça o que se revelou mais tarde ser uma ameaça inventada pelos EUA e seus aliados para “justificar” a agressão. 
Foram duas décadas de guerra, que ainda se mantem hoje com uma tentativa dos talibans reverterem a situação a seu favor e afastar o governo actual. 

(2) A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, mais conhecida pelo seu acrónimo em inglês USAID, é um organismo do governo dos Estados Unidos encarregado de distribuir a maior parte da “ajuda externa de carácter civil”, mas que de facto se traduz na entrega a instituições, que são a capa de organizações terroristas ou destinadas a organizar insurreições, de meios e agentes da CIA. Os EUA mantêm uma grande multiplicidade destas organizações em todo o mundo (alguns dos exemplos mais recentes as “insurreições” na Venezuela, Bolívia, Hong-Kong e em bolsas terroristas na Síria). 

(3) O número um seguido de 18 zeros.

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