segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Aldo Rebelo: A tragédia argentina e a ortodoxia económica



“Você sai da Argentina e volta 20 dias depois, e está tudo mudado. Você sai da Argentina e volta 20 anos depois, e nada mudou.” (ouvido de um argentino)
O presidente Maurício Macri enfrenta, na véspera das eleições de outubro, o momento mais difícil de sua trágica gestão, agravado pela retumbante e aparentemente imprevista derrota nas eleições prévias eleitorais, quando ficou 15 pontos atrás de seu adversário peronista Alberto Fernandez e da sua vice Cristina Kirchner.

Por Aldo Rebelo (1)
A tragédia argentina e a ortodoxia económica



 A presidência de Macri consolidou-se como um grande fracasso, com três anos de crescimento negativo, acordos desastrados com o FMI e uma desorientação completa ao final do governo 
Os números são implacáveis contra Macri: o aumento da pobreza e do desemprego, o disparar da inflação e dos juros e o peso argentino que se derreteu frente ao dólar. Exatamente o contrário de tudo o que prometera Macri na sua tomada de posse.

A vitória de Macri foi recebida nos meios económicos e políticos conservadores e partidários do liberalismo económico ortodoxo como uma promessa. Os descendentes pouco habilitados da economia liberal encheram a comunicação social do fenómeno Macri como a boa nova que salvaria a Argentina e, conseguindo-o, salvaria também o Brasil.

O atual presidente da República, então deputado federal, Jair Bolsonaro, ao comentar minha nomeação para o Ministério da Defesa em 2015, deu a eleição de Macri como exemplo de mudança na Argentina e esperança para o Brasil.

A verdade é que a presidência de Macri consolidou-se como um grande fracasso. Três anos de crescimento negativo, uma negociação desastrada com o FMI, e uma desorientação completa no final do governo, deixou a sua candidatura à reeleição ameaçada de substituição pela governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal.

Nas vésperas das eleições prévias e da humilhante derrota, Macri já não fazia a defesa de seu legado ou do seu futuro governo. Desalentado, apenas agitava o espantalho do regresso de Cristina Kirchner ao poder.

O fantasma que ronda a ortodoxia liberal argentina não se apela do nome de Kirchnerismo. É o velho peronismo que, entre êxitos e fracassos, permanece na memória do povo argentino nos seus dias promissores de crescimento e bem-estar.

O primeiro governo de Perón (1946-1952) deu aos argentinos rápido crescimento da economia, elevação do padrão de vida material e espiritual dos trabalhadores, liquidou a dívida externa de 12,5 mil milhões e tornou a Argentina credora de 5 mil milhões de dólares perante o mundo. A França tomava dinheiro emprestado da Argentina e a Espanha escapava da fome pela generosidade do general Perón e de sua esposa Evita.


Os casais Perón e Kirchner: a memória de seus governos dá a tónica da eleição argentina



No governo Nestor Kirchner, a Argentina cresceu a taxas superiores a 8% e os trabalhadores receberam de volta uma parte do que tinham perdido nos períodos da ortodoxia liberal. É verdade que, na fase final de Cristina Kirchner no poder, a economia argentina desabou, mas nada que se compare aos maus momentos dos governos militares com Martinez de Hoz, ou à fase de Domingo Cavallo e seu corralito, espécie de confisco que limitava o saque em conta por parte da população.

O governo militar acumulou a humilhação nas Malvinas, o sequestro, tortura e morte de opositores e a liquidação de 400 mil empresas argentinas, tragédia que isolou e transformou em párias as forças armadas do país.

É esse o confronto de fundo que fragiliza as pretensões de Macri para um novo governo. Em eleição tudo, ou quase tudo, pode acontecer, mas é provável que a memória antiga do peronismo dê a Alberto Fernandez o trunfo definitivo contra o seu adversário.

Quando não resta nada, resta a esperança, e parece que Macri deixou de ser a esperança para os argentinos. Restaram, então, a memória, e cavalgando a memória, Alberto Fernandez, Cristina Kirchner e o peronismo.

(1)    Aldo Rebelo, jornalista, foi ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Desporto; da Ciência, Tecnologia e Inovação; e da Defesa (governos Lula e Dilma) e publicou ontem no Vermelho do PC do B este artigo que reproduzimos.

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