sexta-feira, 4 de maio de 2018

Os estudantes do IST numa luta em condições difíceis, com uma negociação inédita em 1972


A AEIST fora encerrada e uma longa lista de activistas tinha processos disciplinares. Decorria a greve às aulas e a exames.

O grupo, já muito vasto, de estudantes que integravam uma perspectiva unitária oposta à direcção cessante da Associação, lutava por uma saída para o conflito criado pelas autoridades, contraaatitude irresponsável dessa direcção e movimentaram-se para isso, editando também um documento que dava a nossa perspetiva para a greve, claramente com o foco na exigência de reabertura da associação. Este encerramento deu-se na sequência de investida da polícia chamada pelo diretor quando de incidentes associados a greve dos estudantes do 1º ano. Na mesma data o ISEG e a respectiva associação tinham sido encerradas. Num primeiro comunicado a nova direcção unitária da AEIST rejeitava a reabertura condicionada da AEIST. Tinha sido eleita alguns dias antes. A eleição fora realizada em dois tempos. O resultado da primeira votação nunca foi conhecido pois as urnas estavam no interior da AEIST no dia em que esta foi encerrada pela polícia.

Correspondendo ao interesse verificado pelas várias partes, negociaram-se as condições que promovessem o fim da greve a aulas e exames. A contrapartida exigida era a reabertura da AEIST, o fim de processos disciplinares, etc. O processo ficou conhecido por “Condições prévias”. A imprensa censurada anunciou a reabertura da AEIST e nomeação do novo diretor Sales Luís em vez de Fraústo da Silva).

As negociações ocorreram na casa de meu pai, então assistente do IST, readmitido pouco tempo antes em funções docentes depois de ter sido afastado, quase vinte anos antes, de assistente do Professor Ferreira de Macedo, companheiro de Bento de Jesus Caraça na Universidade Popular, também demitido na mesma altura por Salazar.

Nelas participaram os Professores António Silveira, António Sales Luís, A. Trindade, os Assistentes J. Resina, Mário Lança, António Abreu (pai), João Cunha Serra (todos integravam um movimento pró-sindical docente, que apoiava a lutados estudantes) e os Estudantes, todos dirigentes eleitos da AEIST, Carlos Costa, João Sarmento, Leonor Castro, António Abreu (filho). Sobre isto, ver também Comunicado nº 2 da Direção, que está na posse da comissão.

Como resultado desta negociação, foi elaborada a lista das “Condições prévias” que os estudantes consideravam aceitáveis para reabrir a AEIST; não se tratava de subscrever o texto (que tinha algumas formulações ideológicas pouco interessantes), mas sim de o considerar aceitável para levantar a greve. Do lado das autoridades o compromisso era garantido pelo Prof. Sales Luís, que queria que os estudantes não cantassem vitória...

A imprensa censurada anunciou a reabertura da AEIST e nomeação do novo diretor Sales Luís em vez de Fraústo da Silva.

Era precisamente o Prof. Sales Luís que servia de intermediário com o governo (presumíamos o Ministro Hermano Saraiva da Educação e o Ministro do Interior (leia-se polícias e cacetada). Na sequência das nossas reuniões ele "levava a carta a Garcia" para garantir a sua concordância.

Para aprovar o resultado dessa negociação, realizou-se no pavilhão do estádio universitário em 20 de julho uma Reunião Geral de Alunos (RGA) do IST. A proposta aprovada foi apresentada pela nova direção da AEIST. Não havendo números exactos de participantes nessa reunião, estimou-se na altura que seriam cerca de 2 mil alunos, sendo a proposta da direção aprovada de forma significativa, e apesar da oposição a essa resolução da então direcção da AEIST - que seria substituída pouco depois por uma direcção unitária, presidida por Carlos Costa - os estudantes cantaram mesmo vitória! 

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