sábado, 11 de janeiro de 2020

Hong Kong – uma das apostas fortes dos EUA contra a China, por António Abreu





A destruição de lojas chinesas, as fogueiras de material roubado de lojas e de mobiliário urbano, as barricadas, o arremesso de cocktails molotov e o disparo de setas, armas e explosivos perigosos, as agressões a transeuntes, a polícias e a jornalistas, o espancamento de pessoas que se opunham ao vandalismo, a tentativa de assalto das instalações da agência noticiosa Xinhua e da sede do governo de Hong Kong – é este o novo modelo dos «combatentes pela democracia»…
Claramente treinados para combates urbanos – como registam as imagens –, ostentavam muitas bandeiras dos EUA, uma réplica da Estátua da Liberdade norte-americana e foram publicamente animados pelo embaixador norte-americano para tais actos.
Mas como se chegou aqui?
1. Sobre Hong Kong pesa ter sido uma colónia britânica durante 150 anos, desde as Guerras do Ópio (1839 a 1860).
A saída da China, com a revolução de Outubro de 1949, da esfera do controlo dos EUA, foi um dos golpes mais fortes que atingiu a hegemonia global americana depois da Segunda Guerra Mundial.
2. De entre as muitas intervenções e provocações que os EUA organizaram contra a China, nestas décadas, salientamos algumas, mais recentes.
O Partido Islâmico do Turquestão, uma organização terrorista, foi fundada por jihadistas uigures em 1988, quando as revoltas separatistas começaram na província de Xinjiang, no noroeste da China. Nos dez anos seguintes realizaram mais de 200 actos terroristas, incluindo fazer explodir veículos em mercados e o assassínio de funcionários do governo chinês.
Um destacado separatista uigur, Anwar Yusuf Turani, nascido em Xinjiang e fundador do governo do Turquestão Oriental no exílio, reside no estado da Virgínia, na costa leste dos Estados Unidos. Uma outra, Rebiya Kadeer, cinco vezes proposta para Prémio Nobel da Paz, nascida em Xinjiang também reside no estado americano da Virgínia. Durante 11 anos, até Novembro de 2017, foi a líder do Congresso Mundial Uigur (WUC), criado por Erkin Alptekin, ex-conselheiro da CIA, que tem sede em Munique e é parcialmente financiado pelo National Endowment for Democracy (NED) – através do qual a CIA financia diferentes grupos para este tipo de intervenções, em países que os EUA hostilizam.
A China defende Xinjiang porque esta região é rica em petróleo (21 mil milhões de toneladas) e em depósitos de carvão (40% de todas as reservas da China).
O governo de Xi Jinping tem-se empenhado em ligar Xinjiang a Gwadar, um porto estratégico situado no sul do Paquistão e que fica no mar da Arábia. A China é o maior parceiro comercial do Paquistão, e Pequim vê o seu vizinho como um importante aliado, confirmado pelo Corredor Económico China-Paquistão – um programa de infra-estruturas entre essas duas nações, avaliado em dezenas de milhares de milhões de dólares.
Os britânicos estabeleceram um sistema capitalista em Hong Kong, que nunca fora autónoma da China. No final de 1997, a Grã-Bretanha negociou um acordo de transferência da soberania de Hong Kong para a China que impedia esta de mudar os sistemas políticos e económicos nos 50 anos seguintes.
Desde a década de 1970, o número de imigrantes não parou de aumentar e a grande maioria veio da China. Além disso, as relações entre as duas nações eram amistosas. Nos anos seguintes vieram inclusivamente a verificar-se operações militares e financeiras conjuntas da China e Hong Kong.
Em 1982, iniciaram-se conversações para a devolução da soberania de Hong Kong à China e num acordo assinado em 1984, em Pequim, ficou decidido que o território voltasse a soberania chinesa em 1 de Julho de 1997.
O agora território chinês tem o estatuto de Região Administrativa Especial, de acordo com a fórmula «um país, dois sistemas», que também foi aplicada a Macau, que passou a integrar as China a partir de 20 de Dezembro de 1999. Deste modo, o território continua a ser um porto livre e um centro financeiro internacional, e, excepto nas áreas da defesa e da política externa, tem uma autonomia interna, inclusive a fiscal. Foi mantida a liberdade de imprensa.
«Um país, dois sistemas» significa que o capitalismo extremo de Hong Kong coexiste com o sistema socializado chinês. Hong Kong tem um sistema político invulgar. Por exemplo, metade dos lugares do parlamento são reservados para representantes de interesses comerciais e, portanto, as multinacionais votam as leis.
3. Hong Kong é um centro da alta finança, bem como um centro de crimes financeiros. Fontes oficiais revelam que, entre 2013 e 2017, o número de transacções suspeitas denunciadas à polícia aumentou de 32 907 para 92 115. Mas houve uma redução de processos instaurados – passaram de um máximo de 167 em 2014 para apenas 103 em 2017. As condenações reduziram-se até que, em 2017, apenas uma pessoa foi condenada a mais de seis anos de prisão… O problema não vem do projecto de extradição, que foi apresentado para desencadear os protestos, nem vem da China. O problema de Hong Kong vem da sua economia e das contradições na sua governação.
4. O projecto de extradição foi desenvolvido pelo governo de Hong Kong, porque até agora não existe uma maneira legal de impedir que criminosos evitem a acusação quando se refugiam em Hong Kong. O projecto de lei havia sido proposto em Fevereiro de 2019, a fim de estabelecer um mecanismo para a transferência de fugitivos de Hong Kong para Taiwan, Macau ou China continental. As leis de extradição cumprem a norma legal entre e dentro dos países (por exemplo, entre estados federados). Como Hong Kong faz parte da China, esse é um direito essencial.
Em 1998, Martin Lee, um deputado «pró-democracia», propôs uma lei, semelhante à que ele hoje se opõe, para garantir que uma pessoa seja processada e julgada na cena do crime.
Meses antes do início dos protestos, foi a comunidade empresarial que manifestou oposição ao projecto. As passagens que viria depois a pedir ao governo para serem removidas do projecto eram os crimes de colarinho branco e a lista de crimes cobertos por qualquer acordo de extradição futuro.
A Câmara de Comércio dos EUA, AmChan, organização com 50 anos que representa mais de 1200 empresas americanas que operam em Hong Kong, opôs-se também ao projecto, anunciando que isso prejudicaria a reputação da cidade: «qualquer modificação nos acordos de extradição aumentaria consideravelmente as possibilidades de prisão e extradição de dirigentes [...] de empresas internacionais, residentes ou em trânsito através de Hong Kong, resultante de alegações de crimes económicos feitas pelo governo do continente, minaria a percepção de Hong Kong como um refúgio seguro para operações comerciais internacionais».
Seguiu-se o pronunciamento de Kurt Tong, o principal diplomata dos EUA em Hong Kong, feito em Março, de que esta proposta poderia complicar as relações entre Washington e Hong Kong. De facto, o Centro de Empreendedorismo Privado Internacional, uma filial da National Endowment for Democracy (NED) – por sua vez subsidiária da CIA – disse que esse projecto minaria a liberdade económica, causaria fuga de capitais e ameaçaria o estatuto de Hong Kong como um centro para o comércio global.
Procurando corresponder, os proponentes do projecto responderam isentando nele nove dos crimes económicos e prevendo a extradição apenas para crimes puníveis com pelo menos sete anos de prisão.
Mas essas mudanças não satisfizeram os patrões dos grandes negócios. Queriam mais…
5. Criaram então uma frente, constituída pelos grandes meios de comunicação social do território, nomeadamente o South China Morning Post e o Hong Kong Free Press, como organizadora dos protestos anti-extradição, a que chamaram «Frente Civil dos Direitos Humanos» e também o HKHRM (Monitor de Direitos Humanos de Hong Kong), também financiado pelo NED, a Federação dos Sindicatos de Hong Kong, a Associação de Jornalistas de Hong Kong, o Partido Cívico, o Partido Trabalhista e o Partido Democrático.
Segundo fonte chinesa, só entre 1995 e 2013, o HKHRM obteve mais de um milhão e novecentos mil dólares do NED. Desde 1996 que o NED vinha promovendo um projecto de longo prazo para desenvolver o movimento anti-chinês em Hong Kong.
6. E assim, depois desta frente ter contactos com os «falcões» de Washington, incluindo Mike Pence, John Bolton e Mike Pompeo, passou à organização de protestos de massas a partir de Junho, com a características já referidas e que seguem um padrão comum ao usado na Ucrânia, na Nicarágua e na Venezuela. Em muitos países só foi noticiada a repressão aos manifestantes e não a actuação anterior destes que justificou a intervenção policial.
Em 9 de Julho a chefe de governo Carrie Lam declarou o projecto revogado.
Mas os manifestantes queriam mais…
Passaram a exigir, em novas e cada vez mais violentas manifestações, a renúncia de Carrie Lam das funções assumidas depois da vitória nas eleições de 2017, e uma investigação à actuação da polícia.
Essas manifestações passaram a ser rejeitadas também na rua pelos cidadãos a quem a «Frente» tinha retirado a segurança no dia-a-dia. Por isso foi perdendo a grandeza inicial dos protestos, o que ainda mais assanhou pequenos grupos que se entregaram à destruição de lojas chinesas.
7. A economia de Hong Kong contraiu-se no último trimestre, após 6 meses de instabilidade social, segundo o secretário financeiro de Hong Kong. «Com base na situação destes últimos meses, é inevitável que o crescimento negativo continue». A chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, já tinha declarado que o governo tinha cerca de 1,1 triliões de dólares (1,1 000 000 000 000 de dólares) em reservas fiscais de Hong Kong para conter as pressões dos protestos prolongados, assim como das consequências das disputas comerciais entre a China e os EUA. O governo deverá registar o primeiro deficit orçamental em 15 anos.
8. A China apelou, entretanto, às suas maiores empresas públicas para assumirem um papel mais activo em Hong Kong, com mais investimento e controlo das empresas daquele centro financeiro, disseram fontes conhecedoras do assunto, numa altura em que Pequim tenta pôr fim a meses de contestação na cidade.
Seria uma das medidas para tentar acalmar os protestos que duram há largos meses. Segundo a Reuters, dirigentes das 100 maiores empresas estatais chinesas, reunidos em Shenzen, cidade fronteiriça de Hong Kong, foram há algumas semanas instados a contribuírem para minorar a crise política com que a China se deparou nos últimos anos, afirmaram à agência noticiosa três executivos, um deles presente na reunião.
Não oficiosamente, dois dirigentes de empresas estatais explicaram que estas prometeram investir mais, sem especificarem em que montante, nas indústrias de Hong Kong, incluindo no sector do imobiliário e no turismo, para criarem empregos para cidadãos locais e contribuírem para estabilizar os mercados financeiros.
Entre as empresas públicas participantes, estavam, de acordo com essas fontes, a gigante petrolífera Sinopec e o grupo China Merchants.
O encontro foi organizado pela Assets Supervision and Administration Commission (SASAC), o poderoso órgão central que fiscaliza o sector público chinês e que inclui algumas das maiores empresas do mundo em indústrias como a do aço, energia, transportes marítimos e telecomunicações.
Uma das fontes, segundo a Reuters, referiu que nesta reunião teria sido pedido às empresas que procurassem formas de deter o poder de decisão e controlar as empresas em Hong Kong e não apenas deterem participações.
Trata-se de conjurar o intento de empresários que querem a ruptura com os acordos feitos de transferência de soberania do território para a China.
Também nesta altura, O dirigente do Partido Comunista na SASAC, Hao Peng, apareceu num fórum para a iniciativa da Nova Rota da Seda, em Hong Kong e disse que as empresas estão a procurar formas de cooperar em grandes projectos no território. Este dirigente comunista, acompanhado por um grupo de executivos de empresas públicas chinesas, encontrou-se com Carrie Lam. Na reunião foi referido que, apesar de as maiores empresas estatais chinesas estarem orientadas para o lucro e serem cotadas na bolsa, espera-se que defendam o interesse nacional, incluindo a manutenção de níveis de emprego elevados, e ajudem Pequim na Nova Rota da Seda, em que Hong Kong desempenha um importante papel.
9. O isolamento dos provocadores é, pois, o esforço que as autoridades estão a fazer, face às intenções daqueles em criarem uma situação de confronto mais grave com a China. A actuação firme do governo da região e a intervenção proporcional da polícia, o início de grandes contra-protestos, parecem confirmar que nesta fase os terroristas foram derrotados. Mas a alta finança de Hong Kong e a administração norte-americana não vão ceder até porque podem aproveitar razões objectivas de insatisfação popular – que, aliás, eles próprios criaram.
A insegurança económica tem tido origem na componente capitalista do sistema misto. Em 1997, a Grã-Bretanha e a China concordaram em deixar o «antigo sistema capitalista» em vigor por 50 anos enquanto Hong Kong era e ainda é liderada pela economia mais liberal do mundo do Índice de Liberdade Económica do Património (Índice da Liberdade Económica da Heritage Foundation).
Em 1990, Milton Friedman descreveu Hong Kong como o melhor exemplo de economia de livre mercado.
Há dois anos Carrie Lam caracterizou Hong Kong como desejavelmente integrada no plano de desenvolvimento da Zona da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau (ou «Grande Baía») que poderia trazer nova energia ao território e oportunidades para os jovens empreendedores, considerando que algum proteccionismo tem posto em causa a influência de Hong Kong. A participação de Macau na construção da Grande Baía consta de um anexo que foi agregado ao primeiro Plano de Desenvolvimento Quinquenal da Região Administrativa Especial de Macau (2016-2020).
Entretanto, a China experimentou um tremendo crescimento com a sua economia de mercado, inclusive na cidade de Shenzhen, quando não se vê isso em Hong Kong. A médica norte-americana Sara Flowers, candidata pelos Verdes ao lugar de senadora nas eleições de 2016, referiu: «Há 10 anos que os salários estão estagnados em Hong Kong, enquanto os alugueres subiram 300% no mesmo período. Esta é a cidade mais cara do mundo. Em Shenzhen, os salários aumentaram 8% ao ano e foram construídas mais de um milhão de novas casas «verdes» enquanto em Hong Kong se registam os alugueres mais altos do mundo, com uma crescente diferença entre ricos e pobres e uma taxa de pobreza de 20%. Na China, no entanto, a taxa de pobreza caiu de 88% em 1981 para 0,7% em 2015, de acordo com o Banco Mundial.
A alta finança e os autores de crimes económicos não podem esperar tolerância se não contribuírem para que esta situação em Hong Kong se inverta e a cidade possa contribuir mais para a iniciativa Cinturão e Rota, projecto de desenvolvimento verde fundado na inovação, e marcado por uma «cooperação global e sinergética».
Artigo originalmente publicado em abrilabril

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Os EUA e o desaire na segunda guerra do Afeganistão, por António Abreu

Os EUA e o desaire na guerra do Afeganistão  No passado dia 9 de dezembro, o Washington Post revelou um conjunto de documentos confidenciais do governo norte-americano que revela que  as mais altas autoridades deste país mentiram sobre a guerra no Afeganistão durante a campanha que já durou 18 anos, fazendo declarações positivas que sabiam serem falsas e escondendo evidências inconfundíveis de que a guerra não era susceptível de ser ganha. Estes elementos referem-se à segunda guerra no país, depois da primeira guerra (1). 

Os documentos foram produzidos por um projeto federal que examinava as falhas fundamentais do conflito armado mais longo da história dos EUA.  Incluem mais de 2.000 páginas de notas de entrevistas inéditas com pessoas que desempenharam um papel directo na guerra, de generais e diplomatas mas também trabalhadores auxiliares e autoridades afegãs.  

O jornal revela que o governo dos EUA tentou proteger as identidades da grande maioria dos entrevistados para o projeto e ocultar quase todas as suas observações. 

O Post ganhou a causa para serem libertados os documentos após uma batalha legal de três anos.

 "Faltava-nos uma compreensão fundamental do Afeganistão - não sabíamos o que estávamos a fazer", disse em 2015 Douglas Lute, um general do Exército de três estrelas - que serviu como pivot da Casa Branca na guerra conduzida neste país durante as administrações de Bush e Obama. E acrescentou: “O que estamos a fazer aqui? Não tínhamos a menor noção do que estávamos a fazer. " E Lute acrescentava “Se o povo americano soubesse a dimensão dessa disfunção com a perda de 2.400 vidas ”, referindo-se apenas as perdas de militares norte-americanos, culpando, por isso os colapsos burocráticos entre o Congresso, o Pentágono e o Departamento de Estado. "Quem poderia dizer que isso foi em vão?" Desde 2001, mais de 775.000 soldados dos EUA foram enviados para o Afeganistão, muitos por várias vezes. Desses, 2.300 morreram lá e 20.589 foram feridos em ação, segundo dados do Departamento de Defesa.  . As entrevistas realizadas no âmbito daquele projecto, através de uma extensa variedade de vozes, revelam as principais falhas da guerra que persistem até hoje. Eles ressaltam como três presidentes - George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump - e os seus comandantes militares foram incapazes de cumprir as suas promessas relativas à permanência no Afeganistão. 

Com a maioria dos entrevistados a pensar que as suas declarações não se tornariam públicas, as autoridades americanas reconheceram que as suas estratégias de combate tinham falido e que Washington estavam a desperdiçar enormes somas de dinheiro tentando reconstruir o Afeganistão num país moderno. 
As entrevistas também destacam as tentativas frustradas do governo dos EUA de reduzir a corrupção descontrolada, formar um exército afegão e uma força policial competentes e acabar com o próspero comércio de ópio do Afeganistão.  

O governo dos EUA não realizou uma contabilidade global sobre quanto gastou a guerra no Afeganistão, mas os custos são surpreendentes. Desde 2001, o Departamento de Defesa, o Departamento de Estado e a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (2) gastaram ou apropriaram-se de entre 934 mil milhões e 978 mil milhões de dólares, de acordo com uma estimativa corrigida pela inflação calculada por Neta Crawford, professora de ciências políticas e codiretora dos custos de Projeto de Guerra na Universidade Brown. Esses números não incluem o dinheiro gasto por outras agências, como a CIA e o Departamento de Assuntos dos Veteranos que era responsável pelos cuidados médicos aos veteranos feridos. 


“O que recebemos por esse esforço 1 trilião (3) de dólares? O que nos valeu esse 1 trilião? (3)”, perguntou Jeffrey Eggers, aposentado dos Navy SEAL e da Casa Branca de Bush e Obama, aos entrevistadores do governo. E acrescentava: "Após o assassinato de Osama bin Laden, eu disse que Osama provavelmente estaria a rir-se na sua cova aquática, ao olhar o quanto gastamos no Afeganistão"… 
Os documentos também contradizem um longo coro de declarações públicas de presidentes, comandantes militares e diplomatas dos EUA, que garantiam aos americanos, ano após ano, que estavam progredindo no Afeganistão e que valia a pena lutar nesta guerra.

  
(1) A primeira guerra no Afeganistão iniciou-se com os combates de diversos grupos fundamentalistas islâmicos contra o governo saído da revolução de Saur, em 1978, de carácter socialista, com apoio da maior parte das forças armadas e amplo apoio popular. Este governo promoveu um estado laico e moderno, a educação e a emancipação das mulheres, o ensino da língua e das tradições culturais.  As relações de cooperação militar com a União Soviética já se davam com carácter permanente desde 1919, depois da Revolução de Outubro na Rússia. Mas começaram, em efetiva e larga escala, apenas em 1956. Novos acordos foram assinados nos anos 70, com os soviéticos a enviar conselheiros militares e especialistas. A União Soviética financiou várias obras de infraestruturas diversas, deu assistência na construção da Universidade de Cabul, do Instituto Politécnico e também de hospitais, fábricas produtoras de energia e escolas. Nos anos 80, os soviéticos também financiaram a construção de universidades em Blakhe, Herate, Takhar, Nangarhar e Fariyab. Professores russos foram enviados para dar aulas no Afeganistão. Os combatentes mujahidins, vindos de vários países, tinham as suas bases no território vizinho do Paquistão. Um deles era dirigido pelo saudita Osama Bin Laden que criaria o grupo terrorista Al Qaeda. Os norte-americanos viam o Afeganistão como uma parte integrante da Guerra Fria e a CIA enviou ajuda às forças antissoviéticas através dos serviços de inteligência paquistaneses, num programa chamado Operação Ciclone. Estima-se que entre 850 000 e 1 500 000 afegãos morreram neste conflito. Os militares e agentes do KGB mortos foram cerca de 15 000.   Desde a intervenção a pedido do governo em 1979, os soviéticos concluíram a sua retirada em 1989. Foi a primeira guerra do Afeganistão.  

Os EUA, depois dos ataques às Torres Gémeas em 1 set 2001, lançaram, de imediato um ataque sobre o Iraque, invocando ter este armas de destruição maciça o que se revelou mais tarde ser uma ameaça inventada pelos EUA e seus aliados para “justificar” a agressão. 
Foram duas décadas de guerra, que ainda se mantem hoje com uma tentativa dos talibans reverterem a situação a seu favor e afastar o governo actual. 

(2) A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, mais conhecida pelo seu acrónimo em inglês USAID, é um organismo do governo dos Estados Unidos encarregado de distribuir a maior parte da “ajuda externa de carácter civil”, mas que de facto se traduz na entrega a instituições, que são a capa de organizações terroristas ou destinadas a organizar insurreições, de meios e agentes da CIA. Os EUA mantêm uma grande multiplicidade destas organizações em todo o mundo (alguns dos exemplos mais recentes as “insurreições” na Venezuela, Bolívia, Hong-Kong e em bolsas terroristas na Síria). 

(3) O número um seguido de 18 zeros.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Bom fim de semana, por Jorge



"O aprendes a ser feliz con las cosas elementales de la vida, o no serás nunca feliz"

"Ou aprendes a ser feliz com as coisas elementares da vida, ou nunca serás feliz."

Pepe Mujica 
Agricultor, ex-presidente uruguaio, 
n. 1935,

num encontro com jovens em 11/10 deste ano no Colegio Nacional de Buenos Aires.


num encontro com jovens em 11/10 deste ano no Colegio Nacional de Buenos Aires.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Confirma-se quadro sombrio da saúde nos EUA, por António Abreu



Os Estados Unidos, apesar de gastarem mais em assistência médica do que qualquer outro país, registaram uma mortalidade crescente e uma esperança de vida decrescente para pessoas de 25 a 64 anos, que deveriam estar no auge de suas vidas.

Um novo relatório publicado no Journal of the American Medical Association pelos investigadores Steven H. Woolf e Heidi Schoomaker, mostra um quadro sombrio: a esperança de vida geral nos Estados Unidos, que havia aumentado nos últimos 60 anos, caiu em três anos consecutivos. Mas essa não é apenas uma tendência recente. A expectativa de vida dos EUA começou a perder ritmo com outros países na década de 1980 e, em 1998, havia caído para um nível abaixo da esperança de vida média entre os países da OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico. Embora a esperança de vida nesses países continue a aumentar, a esperança de vida nos EUA parou de aumentar em 2010 e vem diminuindo desde 2014 (1).





A recente diminuição da esperança de vida nos EUA esteve relacionada, em grande parte, com o aumento da mortalidade por todas as causas entre adultos jovens e de meia-idade, em comparação com outros grupos (bebés, crianças e idosos) para os quais as taxas de mortalidade caíram. Para indivíduos de 25 a 64 anos, as taxas de mortalidade por todas as causas que estavam em declínio desde 2000, atingiram o ponto mais baixo em 2010 e aumentaram a partir de então.

Mas as raízes da crise na expectativa de vida dos EUA já vêm de trás. As taxas de mortalidade na meia-idade para uma variedade de causas específicas (por exemplo, overdoses de medicamentos e doenças hipertensivas) começaram a aumentar mais cedo. Mas isso não se refletiu nas tendências de mortalidade por todas as causas porque foram compensadas por grandes reduções simultâneas na mortalidade das doenças cardíacas isquémicas, cancro, infeção por HIV, lesões em veículos motorizados e outras causas principais de morte.
No entanto, os aumentos nas taxas de mortalidade por causas anteriores a 2010 diminuíram a taxa em que a mortalidade por todas as causas diminuiu (e a expectativa de vida aumentou) e culminou numa reversão.
O resultado final foi que a mortalidade por todas as causas aumentou após 2010 (e a esperança de vida diminuiu depois de 2014).
Os autores do relatório deixam claro que as deficiências no sistema de saúde explicam o aumento da mortalidade por pelo menos algumas condições.

Embora o sistema de saúde dos EUA seja excelente em certos aspectos, os países com maior expectativa de vida superaram os Estados Unidos ao garantirem acesso universal aos cuidados de saúde, removendo os custos como uma barreira ao acesso a esses cuidados.

Transformar radicalmente a maneira como os cuidados de saúde são financiados, como é proposto no Programa de Seguro de Saúde do Medicare for All Act de 2017, ajudaria bastante a reverter o declínio na expectativa de vida nos Estados Unidos. Eliminaria as barreiras financeiras a cuidados de saúde decentes, fornecendo a todos acesso a hospitalização, serviços primários e preventivos, medicamentos prescritos e outros serviços (como saúde bucal, audiologia e serviços de visão) e assim por diante.

Mas o seguro de saúde universal não vai, por si só, resolver o problema nos Estados Unidos. Uma razão, claramente, é que uma das causas da diminuição da esperança de vida é o aumento das mortes por overdose de drogas, iniciadas na década de 1990, que surgiram do próprio sector da saúde americano, com fins lucrativos e privado (2).

A crescente mortalidade e a queda da expectativa de vida entre jovens americanos e de meia-idade foram exacerbadas por outras dimensões do capitalismo americano. Sabemos, por exemplo, que, desde o final da década de 1970, as desigualdades no rendimento aumentaram, superando os níveis noutros países, concomitantemente ao aprofundamento da crise da saúde nos EUA.
Além disso, os mais vulneráveis ​​à nova economia (por exemplo, adultos com educação limitada e homens mais jovens) sofreram os maiores aumentos nas taxas de mortalidade, assim como aqueles que trabalhavam em áreas que sofreram deslocamentos da actividade económica, como nas áreas rurais dos EUA e industriais no centro-oeste. Embora os autores admitam que os vínculos causais não tenham sido firmemente estabelecidos, observaram que "as pressões socioeconómicas e o emprego instável podem explicar alguns dos aumentos observados na mortalidade em várias causas de morte".

Não é apenas uma questão absoluta de rendimento ou de património líquido. Segundo o relatório, as causas do desespero económico podem ser mais "matizadas", decorrentes de "percepções e expectativas frustradas" dentro da classe trabalhadora americana. Qualquer que tenha sido a esperança ligada ao sonho americano, ela foi minada à medida que a desigualdade económica alcançava níveis obscenos e a mobilidade intergeracional diminuía.

Além disso, essas causas potenciais provavelmente não são independentes e podem, juntas e de maneira complexa, moldar os padrões de mortalidade.

Os principais responsáveis, como o tabagismo, abuso de drogas e dietas geradoras de obesidade, são moldados por condições ambientais, sofrimento psicológico e estatuto socioeconómico. As mesmas pressões económicas que forçam os pacientes a renunciar aos cuidados médicos também podem induzir estresse e comportamentos insalubres.
Os principais responsáveis importantes, como o tabagismo, abuso de drogas e dietas geradoras de obesidade, são moldados pelas condições ambientais, pelo sofrimento psicológico e pelo estatuto socioeconómico. As mesmas pressões económicas que forçam os pacientes a renunciar aos cuidados médicos também podem induzir stress e comportamentos insalubres, além de fraturar as comunidades.

Os americanos enfrentam, então, um enorme problema: um sistema económico que, especialmente nas últimas décadas, elevou a mortalidade e diminuiu a esperança de vida dos trabalhadores jovens e de meia idade, um sistema de saúde privado que foi incapaz de cuidar dessas pessoas e, no caso de certas classes de medicamentos, piorou o problema, e um sistema de seguro de saúde que deixou milhões de pessoas sem acesso à assistência médica.

O Medicare for All (seguros de vida para todos) representa uma solução para uma dimensão do problema. Mas não para os outros dois. A menos que e até que o sistema económico dos EUA (incluindo a forma como os cuidados de saúde são prestados) seja radicalmente transformado, os americanos continuarão morrendo jovens demais.



(1) De acordo com o relatório, a expectativa de vida começou a avançar mais lentamente na década de 1980 e atingiu o platô em 2011. A expectativa de vida nos EUA atingiu o pico em 2014 e, posteriormente, diminuiu significativamente por três anos consecutivos, atingindo 78,6 anos em 2017.

(2) Começou com a introdução do OxyContin em 1996. Foi seguido pelo aumento do uso de heroína, geralmente por pacientes que se tornaram viciados em opióides prescritos. E depois foi agravado pelo surgimento de opióides sintéticos potentes, que provocaram um grande aumento nas mortes por overdose depois de 2013 .

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Bom fim de semana, por Jorge

"Un hombre hace lo que puede; 
una mujer hace lo que un hombre no puede."

"Um homem faz o que pode, uma mulher faz o que um homem não pode."

Isabel Allende 
escritora chilena, n.1942

Alexandrópolis, a nova base dos EUA contra a Rússia, por Manlio Dinucci, em il manifesto



 A Arte da Guerra


“Acabei de voltar de Alexandrópolis, uma visita estrategicamente importante que se concentrou nas relações militares excecionais entre os Estados Unidos e a Grécia e no investimento estratégico que o governo dos EUA está a fazer em Alexandrópolis”: declarou, em 16 de setembro, o Embaixador dos EUA na Grécia, Geoffrey Pyatt (nomeado em 2016 pelo Presidente Obama).

O porto de Alexandrópolis, no nordeste da Grécia, confinante com a Turquia e a Bulgária, está localizado no mar Egeu, perto do Estreito de Dardanelos, que, ligando o Mediterrâneo e o Mar Negro ao território turco, constitui uma rota de trânsito marítimo fundamental, sobretudo para Rússia. Qual é a importância geoestratégica deste porto, que Pyatt visitou, juntamente com o Ministro da Defesa grego, Nikolaos Panagiotopoulos, explica a Embaixada dos EUA em Atenas: “O porto de Alexandrópolis, graças à sua localização estratégica e infraestrutura, está bem posicionado para apoiar exercícios militares na região, como demonstrado pelo recente Sabre Guardian 2019 “.
O “investimento estratégico”, que Washington já está a realizar nas infraestruturas portuárias, tem como objetivo tornar Alexandrópolis uma das bases militares americanas mais importantes da região, capaz de bloquear o acesso dos navios russos ao Mediterrâneo. Isto é possível pelas “relações militares excecionais” com a Grécia, que há muito tempo disponibilizam as suas bases militares para os EUA: em particular Larissa, para os drones armados Ripers e Stefanovikio para os caças F-16 e para os helicópteros Apache. Esta última, que será privatizada, será comprada pelos EUA.
O Embaixador Pyatt não esconde os interesses que levam os EUA a reforçar a sua presença militar na Grécia e noutros países da região mediterrânea: “Estamos trabalhando com outros parceiros democráticos da região para rejeitar personagens malignas, como Rússia e China, que têm interesses diferentes dos nossos”, em particular” a Rússia que usa a energia como instrumento da sua influência maléfica”.
Sublinha, assim, a importância assumida pela “geopolítica da energia”, afirmando que “Alexandrópolis tem um papel crucial na ligação da segurança energética e na estabilidade na Europa”. A Trácia Ocidental, a região grega onde o porto está situado, é, de facto, “uma encruzilhada energética para a Europa Central e Oriental”. Para compreender o que o Embaixador significa, basta lançar um olhar à carta geográfica.
A vizinha Trácia Oriental, ou seja a pequena parte europeia da Turquia – é o ponto em que chega, depois de atravessar o Mar Negro, o gasoduto TurkStream vindo da Rússia, na fase final da construção. A partir daqui, através de outro gasoduto, o gás russo deve chegar à Bulgária, à Sérvia e a outros países europeus. É a contramedida da Rússia ao movimento dos Estados Unidos que, com a contribuição decisiva da Comissão Europeia, bloquearam, em 2014, o oleoduto South Stream que deveria levar gás russo para a Itália e de lá, para outros países da UE.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Bom fim de semana, por Jorge



"Stress is caused by being 'here' 
but wanting to be 'there'."

"O stress é provocado por estarmos aqui, 
mas querermos estar ali."

Eckhart Tolle 
conferencista alemão, residente no Canada, n.1948)

De Olho no Mundo, por Ana Prestes, do Portal Vermelho


  
Correm 10 dias do golpe de Estado na Bolívia que desalojou Evo Morales da presidência, seu vice Alvaro Garcia Linera e todo seu governo. No momento em que escrevo há dados que contabilizam 26 mortos e cerca de 1000 feridos nos enfrentamentos que se deram pós-golpe. Evo, Linera e Montaño (ministra da saúde) estão no México, após oferecimento de asilo político por parte do presidente mexicano Lopez Obrador. Um golpe que se consumou com o financiamento pelos EUA de generais de alta patente, derrubada do sistema de comunicações telefonicas, bloqueio da imprensa, repressão policial, ousadia de um empresário fundamentalista religioso, instrumentalização da OEA e seus providenciais relatórios de “observação eleitoral” e um ex-presidente (Mesa) derrotado nas urnas e ressentido.

Uma das então ministras do governo Evo, Gabriela Montaño, que viajou com Evo para o exílio no México, falou à HispanTV (com sede no Irã) logo no dia do golpe e disse que a derrubada de Morales foi gestada nas entranhas da Polícia Nacional da Bolívia, com um importante grupo de membros das Forças Armadas Bolivianas. Segundo ela, dirigentes da oposição ameaçaram e tentaram dissuadir membros do MAS para em um ato de traição testemunharem contra Evo. Enquanto isso perseguiam membros do governo e familiares de Evo e Linera. Colocavam fogo em suas casas.

O governo brasileiro foi um dos primeiros a reconhecer a senadora Jeanine Añez como presidente interina da Bolívia. No texto da nota do Itamaraty está: “governo brasileiro congratula a senadora Jeanine Añez por assumir constitucionalmente a Presidência da Bolívia e saúda sua determinação de trabalhar pela pacificação do país e pela pronta realização de eleições gerais. O Brasil deseja aprofundar a fraterna amizade com a Bolívia”. Añez se autoproclamou presidente em uma sessão legislativa sem quórum suficiente da Assembleia boliviana.

Os confrontos mais recentes foram em Senkata, em El Alto, nos arredores de uma distribuidora de combustíveis, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), bloqueada por manifestantes desde o golpe. A repressão foi duríssima, com ataque aéreo, por helicóptero, e por terra deixando pelo menos 6 bolivianos mortos. A situação de desabastecimento em La Paz é dramática e o governo auto-proclamado de Añez decidiu comprar combustível do Chile e do Peru. Ao mesmo tempo em que se davam os eventos na distribuidora YPFB em Senkata (El Alto), ocorriam confrontos também na zona sul de Cochabamba em uma localidade chamada Sebastián Pagador (zona de migrantes mineiros) e também em Achocaya, entre a cidade de La Paz e El Alto. Ambos com reporte de feridos e falecidos.

Assim como em Senkata, Sebastián Pagador e Achocaya no dia de ontem (19), na última sexta (15) um massacre foi realizado em Sacaba, no departamento de Chapare, com o mesmo método de disparos a partir de helicópteros e deixou pelo menos 9 mortos (todos manifestantes) e um número indefinio de feridos e presos. A repressão se deu quando um grupo de manifestantes leais a Evo iniciou uma marcha em direção à cidade de Cochabamba, a 13 km de Sacaba. Próximo à ponte Hyayllani, policiais de Cochabamba, fizeram um cerco e atacaram os manifestantes.

A capital La Paz também teve sua Praça Murillo cercada por tanques militares desde segunda (18) quando se organizava uma marcha de professores das escolas rurais. Segundo denúncia do próprio Evo por twitter a tentativa era de fechar a Assembleia Legislativa Plurinacional e reprimir camponeses, indígenas, professores, estudantes, mulheres que têm se manifestado pela saída da autoproclamada Añez. Tais manifestantes, entre os quais se encontram inclusive muitas pessoas mais velhas, foram agredidos com ataques de gases químicos. A autodenominada presidente emitiu decreto (número 4078) eximindo de responsabilidade penal os militares que atuam contra as manifestações. O decreto é de sexta (15), mesmo dia em que 9 manifestantes foram mortos em Cochabamba.

O governo argentino de Macri sabia do golpe em curso na Bolívia antes de sua consumação. Seis dias antes daquele 10 de novembro, o golpista Luis Fernando Camacho realizou uma reunião com diplomatas argentinos do consulado de Santa Cruz de la Sierra. Também estavam diplomatas espanhóis. Nesta reunião Camacho pediu asilo no consulado caso o golpe fracassasse. Na reunião se falava do golpe como uma “insubordinação civil”. Na reunião teria sido informado que no mais tardar em 48 horas as Forças Armadas ocupariam o palácio presidencial. A informação foi divulgada pelo meio argentino “El Cohete A La Luna” que teve acesso a uma comunicação entre o consulado e a chancelaria argentina. No relato está informado que os dois cônsules (argentino e espanhol) teriam tentado dissuadir Camacho do que consideravam “uma loucura”.

Durante os dias prévios ao golpe o general Williams Kaliman, comandante das Forças Armadas da Bolívia não se pronunciou sobre a situação de tensão que se agravava. Em sua primeira comunicação disse que “os políticos deveriam resolver”, depois silêncio novamente até que por fim sugeriu a renúncia do presidente. Com a autoproclamação de Añez, se retirou, pediu aposentadoria e foi viver nos EUA. Kaliman foi aluno da escola de Fort Benning, a Escola das Américas, nos EUA em 2004, enviado pelo então presidente Carlos Mesa, atual derrotado por Evo nas eleições de outubro. Circulam informações de que Kaliman teria recebido um milhão de dólares por parte de Bruce Williamson, encarregado de negócios da embaixada dos EUA na Bolívia, enquanto outros generais teriam recebido valores semelhantes e vários chefes da polícia receberam 500 mil dólares.

Um dos pontos débeis para se compreender o golpe na Bolívia é a posição da COB – Central Obrera Boliviana – principal organização sindical do país. A entidade apoiou os governos Evo ao longo dos últimos anos, mas caiu na “trampa” de pedir a renúncia de Evo no dia 10/11 para “pacificar o país”. O líder da central, Juan Carlos Huarachi, acreditou na narrativa de que “o povo está pedindo novas eleições” e não tinha dimensão do golpe que estava se armando. Prova disso é que agora pedem revogação do decreto 4078, que anistia militares repressores, e a renúncia de Añez. Agora ameaçam com greve geral.

Luis Fernando Camacho é um nome importante para entender o golpe. Presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, cidade mais populosa do país. Tem atuado nas costuras e articulações entre elementos golpistas, como diplomatas, militares, chefes da polícia e até mesmo setores sindicais e sociais anti-evo. Camacho foi um dos primeiros a entrar no palácio presidencial após a saída de Evo e com uma bíblia nas mãos disse: “a Bíblia voltará ao palácio do Governo”. Camacho tem 40 anos, veio das elites empresariais, com a família prejudicada pelas nacionalizações de Evo, inclusive. Diz não fazer política e sempre faz uma “oração ao todo-poderoso” nos eventos em que participa. Uma espécie de Bolsonaro boliviano. Só pra termos uma idéia o apelido que ele recebeu dos que o apoiam é “Macho Camacho”.

Na terça (19) a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu uma nota registrando que desde o da 20 de outubro um total de 23 pessoas morreram na Bolívia no contexto de “tensão social” (eles não falam de golpe), 715 ficaram feridas e 624 foram presas. Também mencionam os 9 mortos em Sacaba e 122 pessoas feridas. A nota diz também que causa “particular preocupação” o fato de que há operações combinadas entre a Polícia Nacional e as Forças Armadas para o “controle da ordem pública” sem que haja amparo legal para esse tipo de operações. A CIDH denuncia a restrição ao trabalho dos jornalistas e meios de comunicação. Também condena o decreto 4078 que exime militares de responsabilidades penais decorrentes da repressão. A CIDH registra que no dia 12 de novembro o bloco minoritário do senado votou sem quórum a assumção da interinidade de Añez na presidencia.

Na tarde desta quarta-feira (20) com uma manobra dos governos do Brasil e da Colômbia a OEA aprovou uma resolução sobre a situação da Bolívia que obteve 26 votos a favor, três contra (México, Nicarágua e San Vicente y las Granadinas), quatro abstenções e uma ausência. Um dos governos que se absteve na votação foi o do Uruguai e informou que a resolução “brasileira/colombiana” omite o fato de que na Bolívia se produziu uma ruptura da ordem institucional quando os procedimentos constitucionais não foram seguidos para aprovar a renúncia de Evo na Assembleia Legislativa, como determina o artigo 170 da constituição boliviana. A chancelaria uruguaia alerta ainda que a OEA não possui legitimidade para reconhecer governos de fato a partir de sua secretaria geral, como fez Almagro em relação à Añez. As negociações para a elaboração da resolução foram feitas às margens do Conselho Pemanente da OEA, também denunciou o Uruguai.

Seguindo uma matriz desestabilizadora “fake news + bots replicando a info” como a que elegeu Bolsonaro no Brasil, na tarde de hoje (20) os golpistas venezuelanos fizeram circular um áudio que contém uma conversa supostamente entre Evo e um líder sindical em que Evo orientaria para que os manifestantes bloqueassem a entrada de alimentos e bens de consumo em La Paz. Se o áudio é realmente de Evo, não é de se espantar que siga sendo o líder, agora da resistência ao golpe, se não é a voz de Evo, já sabemos bem como funcionam esses expedientes de manipulação das consciências.

Também em um movimento midiático, coordenado com a publicação da resolução da OEA, a presidente autoproclamada entregou em nome de “seu governo” um projeto à Assembleia Legislativa da Bolívia um projeto para que se inicie o “processo eleitoral 2020” no país. Ocorre que há uma quebra da institucionalidade e do próprio reconhecimento da vacância de poder uma vez que a própria Assembleia não aprovou a renúncia de Evo/Linera e muito menos teve quórum para a interinidade de Añez. A constituição prevê que um interino legítimo tem até três meses para chamar eleições e que o calendário é estabelecido pelo Tribunal Supremo Eleitoral que neste momento está sem titulares.

domingo, 1 de setembro de 2019

Rússia: uma diplomacia diferente


Segundo a tradição, a diplomacia russa não procura, ao contrário dos Estados Unidos, redesenhar fronteiras e alianças. Ela tenta esclarecer os conflitos entre parceiros. Foi assim que ajudou o antigo Império Otomano e o antigo Império Persa a afastarem-se de uma sua definição religiosa (a Irmandade Muçulmana pela primeira vez, o Xiismo pela segunda) e a assumir uma definição nacional pós-imperial. Essa evolução é extremamente visível na Turquia, mas supõe uma mudança de mentalidades no Irão.
Quando há cinco anos a Rússia passou a intervir sistematicamente para que no Médio Oriente fosse respeitado o direito internacional, tinha que ter em conta o papel da Turquia, do Irão e dos Emiratos Árabes Unidos com quem tinha diferentes pontos de vista. O estilo de intervenção da diplomacia russa teve o acolhimento dos seus parceiros com resultados positivos.



Lá onde o poder militar dos EUA e a “sua visão do mundo” falharam, tem até agora vencido a muito delicada diplomacia russa. Um novo equilíbrio existe no vale do Nilo, no Levante e na península arábica, mas sem evitar novos riscos no Golfo Pérsico.
O pretenso emirato da Al-Qaeda, na Síria, dividido por cantões e sem administração central, esteve apoiado em ONGs ligadas aos serviços secretos de várias potências ocidentais que forneciam o necessário mantimento a esses cantões. Erdogan sofreu uma forte derrota eleitoral por ter aberto conversações sobre curdos presos, nomeadamente o presidente do PKK, Abdullah Öcalan. Os curdos tiveram papel muito negativo nos combates que a Síria com apoio da aviação russa, travaram, na reconquista do território perdido pela Síria. Isto depois de Erdogan ter decidido este ano, em 6 e 3/8/ uma nova identidade turca, deixando de ser religiosa para passar a ser a de um estado nacional, revelando ir trabalhar para expulsar as tropas curdas da Síria. Os EUA deixaram de apoiar o Rojava, estado curdo pretensamente em solo sírio, constituído por turcos que limparam etnicamente a área.
Os governos ocidentais mais interventivos na cena internacional, como a França e a Alemanha desejam o estado curdo na Turquia, onde têm a legitimidade da Conferência de Sèvres em 1920, Irão, Iraque ou Síria. Mas curiosamente não o querem criar na Alemanha, onde são cerca de um milhão.

A situação do Iémen
Os EUA e a Arábia Saudita têm apoiado o presidente Hadi para explorar as reservas de petróleo da fronteira, mas a revolta dos xiitas Zaidites tem cada vez mais recursos e ganha terreno. No passado dia 1 de agosto os guardas costeiros dos emiratos assinaram um acordo de cooperação transfronteiriço com a polícia iraniana de fronteira. No próprio dia o dirigente da milícia iemenita, apoiada pelos emiratos foi assassinado por um grupo islâmico apoiado pela Arábia Saudita. Obviamente, a aliança entre dois príncipes da Arábia e Emirados, Mohammed ben Salmane ("MBS") e Mohammed ben Zayed Al Nahyane ("MBZ"), ficou maltratada.
Em 11 de agosto, a milícia apoiada pelos Emirados Árabes Unidos invadiu o palácio presidencial e vários ministérios em Aden, apesar do apoio saudita ao presidente Hadi, foi refugiado de longa data em Riad. No dia seguinte, "MBS" e "MBZ" encontraram-se em Meca na presença do rei Salman. Eles rejeitaram o golpe de estado e chamaram suas respetivas tropas para se acalmarem. Em 17 de agosto, os militares pró-Emirados evacuaram em boa ordem da sede do governo. Durante a semana em que os "separatistas" tomaram Áden, os Emirados Árabes Unidos controlaram de fato os dois lados do estreito estratégico Bab el Mandeb, ligando o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Agora que Riyad preservou sua honra, terá que dar uma contrapartida a Abu Dhabi. Estes parecem ter concluído que a guerra é invencível e ensaiaram uma aproximação ao Irão.

Cadeiras musicais no Sudão
No Sudão, depois que o presidente Omar al-Bashir (irmão dissidente muçulmano) ter sido derrubado por manifestações da Aliança pela Liberdade e Mudança (ALC) e o aumento do preço do pão ter sido cancelado, um conselho militar de transição ocupou o poder. Na prática, essa revolta social e alguns milhares de milhões de petrodólares permitiram que os manifestantes transferissem o país da uma tutela para outra saudita.
Em 3 de junho, uma nova manifestação do LRA foi dispersa com um banho de sangue pelo Conselho Militar de Transição, provocando 127 mortos, o que provocou condenação internacional, tendo o Conselho Militar realizado negociações com organizações civis e assinado um acordo no dia 17. Por um período de 39 meses, o país será governado por um Conselho Supremo de 6 civis e 5 militares, não identificados, controlados por uma assembleia de 300 membros nomeados e não eleitos, compreendendo 67% dos representantes da ALC.
Solução tão pouco democrática não suscitou, porém, reservas de qualquer partido
O economista Abdallah Hamdok, ex-chefe da Comissão Económica das Nações Unidas para a África, será o novo primeiro-ministro, devendo obter o fim de sanções contra o Sudão e reintegrar o país na União Africana.  O ex-presidente Omar al-Bashir será julgado no país para garantir que ele não mais possa ser extraditado para Haia para o Tribunal Penal Internacional.
O poder real será mantido pelo "general" Mohammed Hamdan Daglo (conhecido como "Hemetti"), que não é um general ou mesmo um soldado, mas um líder da milícia empregada por "MBS" para subjugar a resistência iemenita. Durante esse jogo de cadeiras, a Turquia - que tem uma base militar na ilha sudanesa de Suakin para cercar a Arábia Saudita - não disse nada.
De fato, a Turquia concorda em perder em Idleb e no Sudão para ganhar contra os mercenários curdos pró-EUA. Só isso foi vital para ela. Foi precisa muita discussão para ela perceber que não podia vencer em todas os tabuleiros ao mesmo tempo e que devia hierarquizar as suas prioridades.

Os Estados Unidos contra o petróleo iraniano
Londres e Washington continuam sua competição, iniciada há setenta anos atrás, pelo controle do petróleo iraniano. Como nos dias de Mohammad Mossadegh, a coroa britânica pretende decidir sozinha o que pertence ao Irão. Embora Washington não queira que as suas guerras contra o Afeganistão e o Iraque beneficiem Teerão (consequência da doutrina Rumsfeld / Cebrowski) e pretenda fixar o preço mundial da energia (doutrina de Pompeo).
Essas duas estratégias foram combinadas durante a apreensão do navio-tanque iraniano Grace 1 nas águas da colónia britânica de Gibraltar. O Irão, por sua vez, apresou dois navios britânicos no Estreito de Ormuz, argumentando – supremo insulto! – que o principal carregava "óleo de contrabando", ou seja, o petróleo subsidiado pelo Irão comprado por Londres no mercado negro. Quando o novo primeiro ministro, Boris Johnson, percebeu que seu país tinha ido longe demais, ficou "surpreso" ao ver a justiça "independente" de sua colónia libertar o Grace 1 . Imediatamente Washington emitiu um mandado de apreensão novamente.
Desde o início deste caso, os europeus pagam o preço pela política norte-americana e protestam contra ela com poucas consequências. Somente os russos defendem não o seu aliado iraniano, mas o Direito Internacional, como fizeram sobre a Síria, o que lhes permite ter uma linha política consistente.



segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"Homo sapiens non urinat in ventum"
"Gente sensata não mija contra o vento" (?)

inscrição no grande pórtico entre a 
Praça Leidse e a Praça Max Euwe em Amsterdão