sábado, 24 de agosto de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"Le savant n’est pas l’homme qui 
fournit les vraies réponses ;


 c’est celui qui 
pose les vraies questions". 

"Sábio não é o que dá 
as respostas verdadeiras,

 é o que coloca 
as verdadeiras questões."

Claude Lévi-Strauss 
antropólogo e etnólogo 
1908-2009) 
em Le cru et le cuit (1969)

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Aldo Rebelo: A tragédia argentina e a ortodoxia económica



“Você sai da Argentina e volta 20 dias depois, e está tudo mudado. Você sai da Argentina e volta 20 anos depois, e nada mudou.” (ouvido de um argentino)
O presidente Maurício Macri enfrenta, na véspera das eleições de outubro, o momento mais difícil de sua trágica gestão, agravado pela retumbante e aparentemente imprevista derrota nas eleições prévias eleitorais, quando ficou 15 pontos atrás de seu adversário peronista Alberto Fernandez e da sua vice Cristina Kirchner.

Por Aldo Rebelo (1)
A tragédia argentina e a ortodoxia económica



 A presidência de Macri consolidou-se como um grande fracasso, com três anos de crescimento negativo, acordos desastrados com o FMI e uma desorientação completa ao final do governo 
Os números são implacáveis contra Macri: o aumento da pobreza e do desemprego, o disparar da inflação e dos juros e o peso argentino que se derreteu frente ao dólar. Exatamente o contrário de tudo o que prometera Macri na sua tomada de posse.

A vitória de Macri foi recebida nos meios económicos e políticos conservadores e partidários do liberalismo económico ortodoxo como uma promessa. Os descendentes pouco habilitados da economia liberal encheram a comunicação social do fenómeno Macri como a boa nova que salvaria a Argentina e, conseguindo-o, salvaria também o Brasil.

O atual presidente da República, então deputado federal, Jair Bolsonaro, ao comentar minha nomeação para o Ministério da Defesa em 2015, deu a eleição de Macri como exemplo de mudança na Argentina e esperança para o Brasil.

A verdade é que a presidência de Macri consolidou-se como um grande fracasso. Três anos de crescimento negativo, uma negociação desastrada com o FMI, e uma desorientação completa no final do governo, deixou a sua candidatura à reeleição ameaçada de substituição pela governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal.

Nas vésperas das eleições prévias e da humilhante derrota, Macri já não fazia a defesa de seu legado ou do seu futuro governo. Desalentado, apenas agitava o espantalho do regresso de Cristina Kirchner ao poder.

O fantasma que ronda a ortodoxia liberal argentina não se apela do nome de Kirchnerismo. É o velho peronismo que, entre êxitos e fracassos, permanece na memória do povo argentino nos seus dias promissores de crescimento e bem-estar.

O primeiro governo de Perón (1946-1952) deu aos argentinos rápido crescimento da economia, elevação do padrão de vida material e espiritual dos trabalhadores, liquidou a dívida externa de 12,5 mil milhões e tornou a Argentina credora de 5 mil milhões de dólares perante o mundo. A França tomava dinheiro emprestado da Argentina e a Espanha escapava da fome pela generosidade do general Perón e de sua esposa Evita.


Os casais Perón e Kirchner: a memória de seus governos dá a tónica da eleição argentina



No governo Nestor Kirchner, a Argentina cresceu a taxas superiores a 8% e os trabalhadores receberam de volta uma parte do que tinham perdido nos períodos da ortodoxia liberal. É verdade que, na fase final de Cristina Kirchner no poder, a economia argentina desabou, mas nada que se compare aos maus momentos dos governos militares com Martinez de Hoz, ou à fase de Domingo Cavallo e seu corralito, espécie de confisco que limitava o saque em conta por parte da população.

O governo militar acumulou a humilhação nas Malvinas, o sequestro, tortura e morte de opositores e a liquidação de 400 mil empresas argentinas, tragédia que isolou e transformou em párias as forças armadas do país.

É esse o confronto de fundo que fragiliza as pretensões de Macri para um novo governo. Em eleição tudo, ou quase tudo, pode acontecer, mas é provável que a memória antiga do peronismo dê a Alberto Fernandez o trunfo definitivo contra o seu adversário.

Quando não resta nada, resta a esperança, e parece que Macri deixou de ser a esperança para os argentinos. Restaram, então, a memória, e cavalgando a memória, Alberto Fernandez, Cristina Kirchner e o peronismo.

(1)    Aldo Rebelo, jornalista, foi ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Desporto; da Ciência, Tecnologia e Inovação; e da Defesa (governos Lula e Dilma) e publicou ontem no Vermelho do PC do B este artigo que reproduzimos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

NATO E nazismo, uma irmandade, por José Goulão


Que haverá de comum entre um grupo armado formado por membros das Waffen SS em Estados bálticos, designado Irmãos da Floresta, o regimento Azov da Guarda Nacional ucraniana, o emir do Daesh no Magrebe, de seu nome Abdelhakim Belhadj, e o mistério do armamento sofisticado descoberto recentemente num santuário neonazi em Turim, Itália?
Por muito que seja considerada inadmissível pela comunicação mainstream e seus fiéis seguidores, a resposta é: NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte.«Que haverá de comum entre um grupo armado formado por membros das Waffen SS em Estados bálticos, designado Irmãos da Floresta, o regimento Azov da Guarda Nacional ucraniana, o emir do Daesh no Magrebe, de seu nome Abdelhakim Belhadj, e o mistério do armamento sofisticado descoberto recentemente num santuário neonazi em Turim, Itália? Por muito que seja considerada inadmissível pela comunicação mainstream e seus fiéis seguidores, a resposta é: NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte»


                          José Goulão
É a linguagem objectiva dos factos. E se contra factos pode haver quantos argumentos quiserem, todos eles serão rejeitados pela mais transparente realidade. As circunstâncias citadas têm em comum, sem dúvida, o culto do nazi-fascismo e, de uma maneira ou de outra, estão igualmente interligadas pela acção, protecção ou propaganda da NATO.
Vamos então a factos.

Os Irmãos da Floresta

A Segunda Guerra Mundial entrava na sua fase final quando foram criados os Irmãos da Floresta, grupos armados anticomunistas nascidos na Estónia, Letónia e Lituânia. Os membros, na sua maioria, foram recrutados entre os destacamentos locais das Waffen SS, integrados no aparelho de guerra hitleriano que tentou ocupar a União Soviética. Na Estónia, por exemplo, estes terroristas faziam juramento de fidelidade ao Fuhrer1.
Com a cumplicidade de serviços de espionagem de países ocidentais – nessa altura, formalmente em aliança com o lado soviético – os Irmãos da Floresta, ex-Waffen SS, foram reciclados como tampões contra o avanço do Exército Vermelho para Oeste depois de este ter vergado o nazismo na decisiva e sangrenta batalha de Estalinegrado.
Em suma, os Irmãos da Floresta, tal como os destacamentos bálticos das Waffen SS, tinham como missão, de facto, impedir que os soviéticos esmagassem completamente os nazis – o que também significava travar a libertação dos seres humanos que ainda sobreviviam nos campos da morte hitlerianos2.
«é pena que os propagandistas da aliança não tenham podido dedicar um segundo sequer às origens hitlerianas e terroristas da gloriosa irmandade – certamente por falta de tempo. Que outras razões haveria para esconder uma matriz tão inspiradora?»

o heróis de uma gesta democrática, através de um documentário da NATO inserido no seu espaço de propaganda noYouTube. São oito minutos e alguns segundos de pura heroicidade ao melhor estilo de Hollywood, durante os quais os feitos dos Irmãos da Floresta são apresentados como inspiradores das forças especiais das repúblicas bálticas que agora «estão na linha da frente» contra a temível «ameaça russa». Afinal, hoje como ontem, explica-nos a NATO.
Só é pena que os propagandistas da aliança não tenham podido dedicar um segundo sequer às origens hitlerianas e terroristas da gloriosa irmandade – certamente por falta de tempo. Que outras razões haveria para esconder uma matriz tão inspiradora?3

O regimento Azov

Dos Estados bálticos para a Ucrânia, dos Irmãos da Floresta dos anos quarenta para o actual e activo regimento Azov, um bastião da «pureza rácica» ucraniana, como estipula o seu fundador, Andriy Biletski, aliás o «Fuhrer Branco». Pretende assim que os genes dos seus compatriotas «não se misturem com os de raças inferiores», cumprindo «a sua missão histórica de comandar a Raça Branca mundial na sua cruzada final pela sobrevivência».
Ao contrário do que possam pensar, isto não é folclore nem delírio sob efeito de qualquer fumo. O grupo nazi designado Batalhão Azov, e outros do género, receberam treino de instrutores norte-americanos e da NATO e foram decisivos no êxito do golpe «democrático» de 2014 na Praça Maidan, em Kiev. Depois disso, foram transformados em regimentos integrados na Guarda Nacional, o novo corpo militar nascido da «revolução» e que se tornou a guarda pretoriana do regime fascista patrocinado pela Aliança Atlântica, os Estados Unidos e a União Europeia4 .
O regimento Azov e outros grupos neonazis, inspirados pela figura de Stepan Bandera, um executor do genocídio hitleriano contra as populações ucranianas, tornaram-se corpos fundamentais na agressão do actual regime contra as populações ucranianas russófonas da região de Donbass.
Os membros do regimento Azov orgulham-se de posar com as bandeiras nazi e da NATO, dando-se assim a conhecer ao mundo.
A gratidão é uma atitude que nunca fica mal. Mesmo aos nazis.
Sob o regime actual em Kiev, a Ucrânia tornou-se, de facto, membro da NATO. Trata-se, como nos Estados bálticos, de combater a terrível «ameaça russa». Para executar tão nobre missão até o nazismo engrossa as hostes da «democracia».

Abdelhakim Belhadj

Embora desempenhando, desde 2015, a tarefa mais recatada e menos mediática de emir do Daesh, ou Estado Islâmico, no Magrebe, Abdelhakim Belhadj não desapareceu como figura de referência das transformações «libertadoras» que galoparam pelo Médio Oriente e Norte de África sob as exaltantes bandeiras das «primaveras árabes».
Abdelhakim Belhadj, para quem não se recorda, foi um dos chefes terroristas islâmicos que contribuíram, em aliança com a NATO, para «libertar a Líbia» do regime de Khaddafi. Houve-se tão bem da missão que a aliança fez dele «governador militar de Tripoli» logo que as hordas fundamentalistas tomaram a capital líbia.
Quando ainda mal aquecera o lugar, a tutela atlantista enviou-o para a Síria formar o «Exército Livre», o grupo terrorista «moderado» no qual os Estados Unidos e os seus principais parceiros da NATO apostaram inicialmente todas as fichas com o objectivo de «libertar Damasco».
Abdelhakim Belhadj recebeu honrarias dos Estados Unidos, outorgadas pelo embaixador na Líbia e pelo falecido senador McCain, então movendo-se febrilmente entre a Líbia, a Síria e a Ucrânia, onde foi um dos principais timoneiros do golpe de Maidan e das suas frentes nazis.
A partir de 2015, segundo a Interpol, Belhadj tornou-se emir do Daesh – o tão proscrito Estado Islâmico – no Magrebe.
Porém, cada vez que algum jornalista a sério mexe em acontecimentos da história recente arrisca-se a encontrar-se com a figura de Belhadj. Foi o que sucedeu com profissionais do jornal espanhol Publico: ao investigarem o envolvimento dos serviços de informações de Madrid (CNI) no atentado terrorista de 11 de Março de 2004, que provocou 200 mortos, depararam com outras situações que dizem muito sobre o tipo de «democracia» em que vivemos.
Segundo o próprio chefe do governo espanhol da época, José María Aznar – invasão do Iraque, lembram-se? –, Abdelhakim Belhadj foi um dos estrategos do atentado, embora nunca tenha sido preso nem julgado.
O curioso é que o atentado começou por ser atribuído à ETA e depois à al-Qaida; e que a maior parte dos operacionais detidos eram informadores dos serviços secretos espanhóis.
Mais curioso ainda é o facto de o tema do exercício europeu CMX 2004 da NATO, que decorreu de 4 a 10 de Março, tenha sido precisamente o da simulação de um atentado com as características do que aconteceu em 11 de Março na capital espanhola. «A semelhança do cenário elaborado pela NATO com os acontecimentos ocorridos em Madrid provoca calafrios na espinha e impressionou os diplomatas, militares e serviços de informações que participaram no exercício apenas algumas horas antes», escreveu o jornal El Mundo, inconformado com a tese que acabou por ficar para a história: atentado cometido por uma rede islamita sem ligações à al-Qaida.
Entre as névoas do caso avultam, porém, algumas circunstâncias que é possível focar: a declaração de Aznar envolvendo Abdelhakim Belhadj, que se revelou vir a ser uma aposta da NATO antes de ter ascendido ao topo do Estado Islâmico no Magrebe; e os dons proféticos desta mesma NATO, concebendo um tema para exercícios que se tornou realidade menos de 24 horas depois.

O santuário nazi de Turim

Há poucos dias, a polícia italiana descobriu um arsenal de armamento num santuário nazi em Turim, Itália.
O que à primeira vista poderia ser mais um armazém de velhas e nostálgicas recordações dos fãs do Fuhrer mudou de figura quando foram desembalados alguns sofisticados mísseis que não costumam estar ao alcance de pequenos e médios traficantes de armas.
Diz a imprensa italiana que os investigadores do caso seguiram pistas que conduziam até aos grupos nazis ucranianos mas não obtiveram dados consistentes. E provavelmente não encontrarão esses e outros elementos: a verdade é que as notícias sobre o assunto quase desapareceram. O caso é um nado-morto.
Já as redes clandestinas formadas pela NATO, do tipo Gládio, não estarão mortas, desafiando todas as propagandas, como recordaram alguns jornalistas italianos.
A história do arsenal está mal contada e, previsivelmente, será arquivada com celeridade; já o apoio da NATO aos grupos nazis ucranianos não suscita dúvidas: os próprios beneficiários o confessam. Porém, não é um auxílio que deva ser feito aos olhos de todos, tratando-se da NATO, uma aliança que existe para «defender a democracia» – a NATO só defende, nunca ataca, como se sabe. A verdade é que desde que passou de batalhão a regimento da Guarda Nacional o grupo terrorista Azov foi equipado com armas pesadas, incluindo tanques, que chegaram de algum lado. Talvez agora seja a hora dos mísseis, quem sabe? Ainda recentemente as forças policiais italianas e o regimento Azov assinaram um acordo de cooperação desbravando novos caminhos.
É provável que todas estas relações dêem os seus frutos; é improvável, porém, que cheguem ao conhecimento dos cidadãos comuns, tal como o desfecho do mistério dos mísseis nazis de Turim.

A grande irmandade

Irmãos da Floresta, regimento Azov, Abdelhakim Belhadj, o Estado Islâmico e o terrorismo «moderado», fornecimento clandestino de armamento sofisticado. Não é necessário escavar muito estas histórias, casos e mistérios para tropeçarmos na associação entre a NATO e os nazi-fascismos, duas correntes que, a acreditar na propaganda oficial, deveriam ser como a água e o azeite.
Afinal não. Trata-se de uma fluida cooperação nos tempos em que se fala no risco de uma nova guerra mundial e que traz raízes consolidadas na altura em que o anterior conflito ainda não tinha acabado.
É, como se percebe, uma grande e frutífera irmandade. Factos são factos.
  • 1.Note-se que os teóricos nazis atribuíam desde os anos 30, na sua propaganda, o estatuto de «raça superior» aos povos estónio e letão, facilitando a formação dos sanguinários esquadrões da morte bálticos integrados nas Waffen SS, tão ou mais temidos pelos povos e etnias que viviam no território soviético ocupado pela Alemanha nazi do que os próprios alemães.
  • 2.No período posterior à derrota hitleriana no Báltico os Irmãos da Floresta mantiveram-se activos até meados da década de 50. Actualmente, os próprios admiradores destes colaboradores nazis no Báltico reciclados reconhecem o carácter terrorista dos seus heróis, como é fácil de confirmar através do volume de baixas soviéticas nos anos de 1944-1958 no Báltico: mais de 25 mil civis foram assassinados e muitos torturados antes de executados, enquanto os polícias que combatiam os Irmãos da Floresta tiveram quatro mil baixas. Outro pormenor menos ventilado é que o maior apoio interno daquelas organizações provinha dos poderosos e ricos latifundiários da região, que tinham um profundo ódio aos camponeses que os tinham expropriado durante os anos da Revolução Russa. Após a deportação para a Sibéria, no final dos anos 40, da maioria dos grandes proprietários de terras no Báltico, a actividade dos Irmãos da Floresta decaiu consideravelmente, apesar de todos os esforços da CIA e dos serviços secretos britânicos para reactivá-los. O golpe final foi dado após a amnistia concedida pelas autoridades soviéticas após a morte de José Estaline, em 1953. O leitor terá de procurar em língua russa (mesmo que em sítios como a insuspeita Rádio Liberdade, financiada pelo governo americano) as fontes documentais sobre este assunto, visto os websites do Ocidente serem consideravelmente parcos a respeito destes dados e optarem habitualmente por uma visão puramente apologética dos Irmãos da Floresta, escondendo a sua verdadeira natureza.
  • 3.Neonazis e veteranos da Waffen-SS voltaram a marchar em Riga em Março de 2019, como denunciou o AbrilAbril em artigo publicado na altura.
  • 4.O regimento Azov [ou «Batalhão Azov», ou muito simplesmente «Azov»] é uma organização paramilitar criada em 2014, durante os protestos da praça Euromaidan e do golpe de Estado que lhe foi subsequente. É enquadrado e remunerado pelo Ministério do Interior da Ucrânia como um dos membros da chamada Guarda Nacional, que confere poderes estatais a este e outros grupos fascistas ucranianos. Originalmente fundado como um grupo paramilitar voluntário, é acusado de ser uma organização neonazi e neofascista, além de estar envolvido em vários casos de abusos de direitos humanos e crimes de guerra leste da Ucrânia, principalmente em casos de torturas, estupros, saques, limpeza étnica e perseguição de minorias como homossexuais, judeus e russos. O Azov tem ligações a grupos nazi-fascistas internacionais, como em Itália ou no Brasil onde recruta combatentes na guerra que move contra as populações do Donbass, no leste da Ucrânia.
Nota - Reproduzimos este artigo de www.abrilabril.pt, saudando José Goulão

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Bom fim de Semana, por Jorge


"La crisi consiste appunto nel fatto che                        
il vecchio muore e il nuovo non può nascere
: in questo interregno si verificano i fenomeni 
morbosi più svariati."


"A crise consiste precisamente no facto de 
o antigo estar a morrer e o novo não conseguir nascer: 
neste interregno verificam-se os mais variados 
fenómenos mórbidos."


Antonio Gramsci 
filósofo comunista italiano, 1891-1937 
em I Quaderni del Carcere Q.3 (1930)

domingo, 28 de julho de 2019

Tensão no Golfo Pérsico

Segundo o RT, um porta-voz do governo iraniano alertou para que, Enquanto Teerão e Londres estão presos por causa das apreensões de navios-tanque, a proposta britânica de enviar uma missão naval da UE ao Golfo Pérsico só aumentará as tensões atuais.
A ideia de implantar uma frota europeia para patrulhar o Golfo Pérsico "envia uma mensagem hostil " e é "provocatória e aumentará as tensões", disse Ali Rabiei neste domingo, citado pela agência de notícias Fars.
A segurança na região deve ser mantida pelas próprias nações do Golfo, e não pelas potências estrangeiras, ressaltou o porta-voz.
As tensões entre o Irã e o Reino Unido começaram a aumentar em 4 de julho, quando a polícia britânica da Royal Navy e Gibraltar apreendeu o super petroleiro iraniano Grace 1 na costa sul da Espanha. Autoridades em Londres disseram que o navio era suspeito de transportar petróleo para a Síria, violando as sanções da UE. Teerão negou qualquer irregularidade.

Em 19 de julho, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irão apreendeu o petroleiro Stena Impero, de bandeira britânica, no Estreito de Ormuz, que, segundo ele, violou as regras marítimas.
Esses incidentes levaram Teerão e Londres a acusarem-se um ao outro de "pirataria".
Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Jeremy Hunt, pediu que uma missão naval europeia combinada seja enviada para garantir a segurança dos navios no Estreito de Hormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico.
O ministro alemão da Defesa, Annegret Kramp-Karrenbauer, disse que Berlim considerará aderir à missão desde que haja "clareza" sobre sua forma. A França, a Itália e a Dinamarca também expressaram interesse em aderir.
O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, acusou os conservadores da política externa de Washington de tentar empurrar Londres para um conflito com o Irão "na esperança de o arrastarem para um pântano". No sábado, alertou autoridades dos EUA contra as perspectivas de uma acção militar limitada contra Teerão. "A guerra curta com o Irão é uma ilusão" , disse ele.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"Power does not corrupt men; 
fools, however, if they get into a position of power, 
corrupt power."

"O poder não corrompe as pessoas,
 os doidos que o alcançam é que o corrompem."

George Bernard Shaw 

dramaturgo e ativista político irlandês, 
1856-1950

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Os maiores gastos e maiores arsenais nucleares do mundo, por António Abreu


Os dados abaixo referidos foram obtidos pelo SIPRI - Instituto Internacional de Investigações para a Paz, de Estocolmo

 
1. Estados Unidos da América
> Arsenal nuclear: 6.185 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 1945
>  Gastos militares de 2018:  648,8 mil milhões de dólares
> PIB de 2018:  20,5 milhões de milhões de dólares

2. Rússia
> Arsenal nuclear: 6.500 ogivas (2.170 das quais em fase de desmantelamento)
> Ano do primeiro teste nuclear: 1949
> Gastos militares de 2018:  61,4 mil milhões de dólares
> PIB de 2018: 1,7 milhões de milhões

3. França
> Arsenal nuclear: 300 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 1960
> Gastos militares de 2018:  63,8 mil milhões
> PIB de 2018:  2,8 milhões de milhões de dólares


4. China
> Arsenal nuclear: 290 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 1964
> PIB de 2018:  13,6 milhões de milhões de dólares

5. Reino Unido
> stock nuclear: 200 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 1952
> Gastos militares de 2018: 50,0 mil milhões de dólares
> PIB de 2018: 2,8 milhões de milhões

6. Paquistão
> Arsenal nuclear: 150-160 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 1998
> Gastos militares de 2018: 11,4 mil milhões de dólares
> PIB de 2018:  312,6 mil milhões de dólares

7. Índia
> Arsenal nuclear: 130-140 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 1974
> Gastos militares em 2018: 66,5 mil milhões de dólares
> PIB de 2018: 2,7 milhões de milhões de dólares


8. Israel
> Arsenal nuclear: 80-90 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: Não se conhece
> Gastos militares de 2018:  15,9 mil milhões
> PIB de 2018: 369,7 mil milhões

9. Coreia do Norte
> Stock nuclear: 20-30 ogivas
> Ano do primeiro teste nuclear: 2006
> Gastos militares em 2018: dados não obtidos pelo SIPRI
> PIB de 2018: idem

terça-feira, 16 de julho de 2019

Bom fim de semana, por Jorge

"They always say that time changes things, but you actually have to change them yourself."

"Dizem sempre que o tempo muda as coisas, mas agora somos nós que temos de as mudar."

Andy Warhol (artista plástico norte-americano, 1928-1987)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O afastamento da India dos EUA e a aproximação com a China e a Rússia




A Declaração de Bishkek, emitida após a reunião da cimeira de 14 e15 de junho da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) fez uma apreciação positiva à Iniciativa Cinturão e Rota da China: “A República do Cazaquistão, a República do Quirguistão, a República Islâmica do Paquistão, a Federação Russa, a República do Tadjiquistão e a República do Usbequistão reafirmam o seu apoio à Iniciativa do Cinturão e da Rota da China e elogiam os resultados do Segundo Fórum de Cooperação Internacional da Faixa e da Rota (realizado em 26 de abril). ”


Segundo escreveu MK Bhadrakumar no passado 17 de junho de 2019 no Indian Puchline, a Índia manteve-se distante. O comportamento teve a ver com alguma grosseria com que responsáveis indianos trataram dirigentes chineses e o próprio Xi-Jimping
Mas os tempos mudaram. Nem a Índia bloqueou a Declaração de Bishkek, nem outros países membros tentaram empurrar o projeto chinês pela garganta abaixo da Índia. Eles nem precisaram concordar em discordar. O fato é que a condenação do BRI por parte da Índia se reduziu a críticas ao longo do tempo e aumentou progressivamente para um silêncio ensurdecedor ao longo do último ano. O Primeiro Ministro Narendra Modi não prestou atenção ao BRI no discurso que proferiu na cimeira da SCO.
Modi preferiu trabalhar no “Espírito Wuhan”, transmitindo a Xi Jinping na reunião “extremamente frutífera”, que manteve com ele em Bishkek em 13 de junho que no período desde abril do ano passado, a comunicação estratégica entre os dois países “melhorou” a todos os níveis e, nesse contexto, apenas algumas das questões pendentes, como a designação de Masood Azhar como terrorista global, poderiam ser resolvidas.

O transporte comercial através da Rota do Mar do Norte da Rússia

Curiosamente, quando a comunicação social indiana insistia em que são os americanos omnipresentes que mudaram a designação de Azhar para a Índia em ataque a Pequim, Modi deu crédito à comunicação estratégica Índia-China! Os ventos da mudança são palpáveis. Para citar o Secretário de Relações Exteriores Vijay Gokhale, “Então vemos isso (encontro de Modi-Xi em Bishkek) como o início de um processo após a formação do governo na Índia, para lidar agora com as relações Índia-China de ambos os lados num contexto mais amplo, do século 21 e do nosso papel na região da Ásia-Pacífico a este respeito.
A cimeira da SCO tem sido uma grande surpresa. Modi passou a ter dois parceiros - com Xi Jinping e o presidente russo, Vladimir Putin, respetivamente, e eles destacam que as relações da Índia com esses dois países passaram a ser muito fortes. Modi e Xi devem-se reunir três vezes durante os seis meses restantes do ano - além, é claro, da esperada cimeira informal de Xi com Modi no outono (em Varanasi) em data a definir.
Igualmente, Modi aceitou o convite de Putin para ser o convidado principal do Fórum Económico Oriental em Vladivostok, no início de setembro, e os dois líderes também se encontrarão em Osaka na Cimeira do G20 e na Cimeira dos BRICS. Putin também deve visitar a Índia este ano para a cimeira anual e há também algumas conversas no ar sobre outra cimeira “informal”.



Terá ficado pouco evidente fora da cimeira da SCO que as lideranças da Rússia, Índia e China concordaram em ter uma reunião trilateral também no formato RIC, juntamente com as suas cimeiras bilaterais. E o local será em Osaka - à margem da cúpula do G20 (que terá o presidente Trump e onde se esera uma galáxia de líderes ocidentais).

Trump sabe da aproximação à Rússia e à China que, de acordo com os EUA, estão a trabalhar cada vez mais para assumirem poder à escala mundial A cúpula da SCO em Bishkek torna-se assim um momento decisivo na política externa da Índia. Modi molhou os dedos no eurasianismo. O seu desencanto com a "parceria definidora" com os EUA só, em parte, pode  explicar isso. O cerne da questão é que Modi está afastando a diplomacia indiana de sua obsessão pela geopolítica e tornando-a servidora das suas políticas nacionais. Tanto Xi quanto Putin percebem isso.

Segundo a agência Xinhua refere que o encontro de Xi com Modi teve uma abordagem  geoeconómica. Igualmente, um dos destaques da reunião de Putin-Modi foi o convite russo à Índia para se envolver na cooperação no Ártico. Agora, a China também é um país parceiro chave para a Rússia criar uma “Rota da Seda Polar” no Mar Ártico. Pequim anunciou que a China procurará investimentos em toda a Rota Ártica para encorajar o transporte comercial através da Rota do Mar do Norte da Rússia como parte da Iniciativa Faixa e Estrada.

Trata-se, na verdade, de um grande empreendimento que envolve programas de investimento. Segundo um despacho da agência Xinhua sobre o encontro de Xi com Modi refere que fez uma abordagem geoeconómica. Igualmente, um dos destaques da reunião de Putin-Modi foi o convite russo à Índia para se envolver na cooperação no Ártico.
Agora, a China também é um país parceiro chave para a Rússia criar uma “Rota da Seda Polar” no Mar Ártico. Pequim anunciou que a China procurará investimentos em toda a Rota Ártica para encorajar o transporte comercial através da Rota do Mar do Norte dRússia como parte da Iniciativa Faixa e Rota no valor de milhões de milhões de dólares, destinados à ligação entre a Ásia e a Europa por via marítima, para promover mais comércio entre os continentes. 



O Wall Street Journal informou na semana passada que “a China está invadindo de transportes o Ártico por meio de uma joint venture entre a maior transportadora marítima do país, a Cosco Shipping Holdings Co. e a sua parceira russa PAO Sovcomflot para transportar gás natural da Sibéria para os mercados ocidentais e asiáticos. "
O despacho da Xinhua acrescenta: “O novo empreendimento vai transportar gás natural liquefeito do gigantesco projeto Yamal LNG da região norte da Sibéria até uma lista de destinos que incluem o norte da Europa, o Japão, a Coreia do Sul e a China. A iniciativa começará com uma frota de uma dúzia de petroleiros quebra-gelo, e a China Shipping LNG Investment Co., da Cosco, operará com outros nove petroleiros.”

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Gokhale divulgou, numa entrevista à imprensa em Bishkek, que Modi decidiu que a Índia deveria envolver-se com a Rússia na região ártica de petróleo e gás e afirmou “que já começou esse envolvimento. Uma delegação do Ministério do Petróleo e Gás Natural já discutiu com o lado russo no mês passado e isso fez com que os líderes assumissem levar adiante o projeto.” O vice-primeiro-ministro russo e o representante especial do Presidente Putin para a região do Ártico, Yury Trutnev chegaram à Índia em 18 de junho para conversar a esse respeito. O Diálogo Económico Estratégico Indiano-Russo, que por sua vez, é liderado pelo Vice-Presidente do NITI Aayog, será realizado em julho.
É suficiente dizer que o grande quadro que surge de tudo isso é que Modi está ligando os pontos e criando sinergias entre a comunicação estratégica da Índia com a China e a Rússia, respetivamente. É uma estratégia audaciosa, mas contém infinitas possibilidades. Considere o seguinte.
A entente China-Rússia está se desenvolvendo rapidamente como uma aliança. Por outro lado, as relações da Índia com a Rússia não só se recuperaram da negligência da era da UPA, mas estão a transformar-se numa parceria verdadeiramente estratégica em sintonia com o século 21, graças à amizade calorosa entre Modi e Putin. De forma sucinta, a Rússia está em posição privilegiada para ajudar a fortalecer os sinais incipientes do Espírito Wuhan, amadurecendo um entendimento estratégico duradouro entre a Índia e a China como duas potências emergentes com muitos interesses comuns.

O fato de Modi e Xi transpirarem confiança para acelerar as negociações para um acordo de fronteira, só evidencia que o triângulo Rússia-Índia-China se tornou muito dinâmico. Realmente, a cúpula do RIC em Osaka fornece suporte para o entendimento das três potências asiáticas. Certamente o “Ocidente”, não vai gostar do que está a acontecer.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Bom fim de semana, por Jorge


"En la lucha del Bien contra el Mal, 
siempre es el pueblo quien pone los muertos."

"Na luta do Bem contra o Mal, 
os mortos são sempre por conta do povo."

Eduardo Galeano 
jornalista e escritor uruguaio, 
1940-2015