sábado, 2 de março de 2019

Bom fim de semana, por Jorge

"La pauvreté des biens est facile à guérir,
la pauvreté de l'âme, impossible"

"A pobreza de bens é fácil de tratar, 
a do espírito, impossível."

Michel de Montaigne 
filósofo da Renascença francesa, 1532-1592)

Governo norte-americano critica Guaidó..., por António Abreu

De acordo com o portal de notícias argentino La politica on-line, desta 4ªf, na reunião do grupo de Lima de 2ª f, Mike Pence criticou Guaidó por ter falhado numa série de questões que teriam permitido a intervenção militar norte-americana, nomeadamente:
- As forças armadas terem mantido a fidelidade a Maduro (Guaidó tinha garantido que se fosse reconhecido por metade dos países da ONU, que são 194, os militares se deslocariam para o seu lado). De facto só 40 o reconheceram;
- Guaidó tinha garantido que a base social de apoio ao regime socialista se “desintegraria” e isso também não aconteceu;
- Um funcionário dos EUA também questionou a atitude descomprometida dos milionários venezuelanos que vivem no exterior. "Esperava-se uma contribuição mais determinada dos milionários venezuelanos, que vivem no exterior, em contribuir com mais dinheiro para per
mitir que passassem a opôr-se a Maduro militares e oficiais venezuelanos"...
Diante desses fatos, importantes centros de decisão internacionais aliados de Donald Trump começaram a alertar que a oposição venezuelana "poderia perder a oportunidade" que supostamente ganhara com o surgimento de Guaidó, anterior activista de extrema direita das guarimbas, formado na porrada e na destruição de bens públicos
Porém estas recriminações a Gaidó não podem iludir que a responsabilidade da operação falhada no passado dia 23 foi dos próprios EUA que lhe criaram a dinâmica, deslocaram tropas especiais para a Colômbia e Porto Rico e que, contra a vontade dos venezuelanos e da maior parte dos países do mundo, queriam levar, à força a Venezuela “para a democracia”, queriam “remover” Maduro, que consideraram um ditador...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Aviso da Rússia aos EUA - Putin sobre política internacional, perante a Assembleia Federal Russa, na semana passada

(excerto do discurso)

Colegas, a Rússia tem sido e será sempre, um Estado soberano e independente. Isso é um dado adquirido, uma verdade. Sê-lo-á sempre ou, simplesmente, deixará de existir. Devemos compreendê-lo claramente. Sem soberania, a Rússia não pode ser um Estado. Alguns países podem fazê-lo, mas não a Rússia.
Construir relações com a Rússia significa trabalhar em conjunto para encontrar soluções para os assuntos mais complexos, em vez de tentar impor soluções. Não fazemos segredo sobre as nossas prioridades na política externa. Elas incluem o fortalecimento da confiança, o combate às ameaças globais, promoção de cooperação na economia e no comércio, educação, cultura, ciência e tecnologia, bem como facilitar o contacto entre as pessoas. Esses princípios advogam o nosso trabalho na ONU, na Comunidade de Estados Independentes, bem como no Grupo dos 20, nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai.
Acreditamos na importância de promover uma cooperação mais estreita e essencial no interior do Estado da União da Rússia e da Bielorrússia, incluindo na política externa e na coordenação económica. Juntamente com nossos parceiros de integração dentro da União Económica Eurasiática, continuaremos a criar mercados comuns e esforços de disseminação. O que inclui estabelecer decisões para coordenar as actividades da EAEU com a iniciativa ‘Belt and Road’ da China, em direcção a uma parceria eurasiática mais alargada.
Actualmente, as relações iguais e mutuamente benéficas da Rússia com a China, agem como um factor importante de estabilidade nos assuntos internacionais e em termos de segurança euroasiática, oferecendo um modelo de cooperação económica produtiva. A Rússia valoriza a realização do potencial de parceria estratégica privilegiada especial com a Índia. Continuaremos a promover o diálogo político e a cooperação económica com o Japão. A Rússia está pronta para trabalhar com o Japão na procura de termos mutuamente aceitáveis para a assinatura de um tratado de paz. Pretendemos promover laços mais profundos com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.
Também esperamos que a União Europeia e os principais países europeus finalmente tomem as medidas necessárias para regressar às relações políticas e económicas normais com a Rússia. Os povos desses países estão ansiosos por cooperar com a Rússia, incluindo as grupos económiocos, bem como pequenas e médias empresas e empresas europeias em geral. Escusado será dizer que isso serviria aos nossos interesses comuns.
A retirada unilateral dos EUA do Tratado INF é a questão mais urgente e mais discutida nas relações russo-americanas. Por esse motivo é que sou obrigado a falar sobre este assunto com mais detalhes. De facto, ocorreram mudanças preocupantes no mundo, desde que o Tratado foi assinado, em 1987. Muitos países desenvolveram e continuam a desenvolver estas armas, mas a Rússia ou os EUA não o fizeram – limitamo-nos, a esse respeito, por livre e espontânea vontade. Compreensivelmente, esse estado de coisas levanta questões. Os nossos parceiros americanos deveriam tê-lo dito com honestidade, em vez de fazerem acusações forjadas contra a Rússia, para justificar a sua retirada unilateral do Tratado.
Teria sido melhor se tivessem feito o que fizeram em 2002, quando abandonaram o Tratado ABM e o fizeram, aberta e honestamente. Se foi bom ou mau, é outro assunto. Penso que foi mau, mas eles fizeram-no e é o que aconteceu. Desta vez, também deveriam ter feito o mesmo. O que é que eles estão, realmente, a fazer? Primeiro, violam tudo, depois procuram desculpas e acusam a outra parte de ser culpada. Mas também estão a mobilizar os seus Estados satélites que são cautelosos, mas ainda fazem ruído, ao apoiarem os EUA. Ao princípio, os americanos começaram a desenvolver e a usar mísseis de médio alcance, designando-os como “mísseis alvo” para defesa anti-mísseis. Depois, começaram a instalar sistemas de lançamento universal Mk-41, que podem possibilitar o uso de combate ofensivo dos Tomahawk, mísseis de cruzeiro de médio alcance.
Estou a falar sobre este assunto e a usar o meu tempo e o vosso, porque temos de responder às acusações que nos são feitas. Mas tendo feito tudo o que acabei de descrever, os americanos ignoraram, completamente, as disposições previstas pelos Artigos 4 e 6 do Tratado INF. De acordo com a Cláusula 1, do Artigo VI (estou a citar): “Cada Parte eliminará todos os mísseis de alcance intermédio e os lançadores de tais mísseis… de modo que… nenhum desses mísseis e lançadores… será possuído por nenhuma das Partes”. O parágrafo 1 do Artigo VI estabelece que (e passo a citar): “Após a entrada em vigor do Tratado e posteriormente, nenhuma das Partes poderá produzir ou testar em voo, qualquer míssil de alcance intermédio ou produzir quaisquer estágios ou lançadores de tais mísseis”. Fim da citação.
Ao utilizar mísseis-alvo de médio alcance e ao instalar lançadores na Roménia e na Polónia que são adequados para o lançamento de mísseis de cruzeiro Tomahawk, os EUA violaram abertamente essas cláusulas do Tratado. Eles fizeram-no há algum tempo. Esses lançadores já estão estacionados na Roménia e nada acontece. Parece que nada está a acontecer. Isso é mesmo estranho. Não é completamente estranho para nós, mas as pessoas devem ser capazes de ver e compreender.
Como é que estamos a avaliar a situação neste contexto? Já disse e quero repetir: a Rússia não pretende - e isto é muito importante, estou a repeti-lo de propósito - a Rússia não pretende ser a primeira a colocar esses mísseis na Europa. Se eles realmente forem construídos e instalados no continente europeu, e os Estados Unidos têm planos para fazê-lo, pelo menos não ouvimos o contrário, irá exacerbar dramaticamente a situação de segurança internacional e criará uma séria ameaça à Rússia, porque alguns desses mísseis podem chegar a Moscovo em apenas 10 a 12 minutos. É uma ameaça muito perigosa para nós. Neste caso, seremos forçados, gostaria de salientar, seremos forçados a responder com acções idênticas ou assimétricas. O que é que isto significa?
Estou a dizê-lo, directa e abertamente, agora, para que ninguém possa culpar-nos mais tarde, para que fique claro para todos, com antecedência, o que está a ser dito aqui. A Rússia será forçada a criar e instalar armas que possam ser usadas, não apenas nas áreas onde somos ameaçados directamente, mas também nas áreas que contenham centros de tomada de decisão para os sistemas de mísseis que nos ameaçam.
O que é importante a este respeito? Há alguma informação nova. Estas armas corresponderão totalmente às ameaças dirigidas contra a Rússia nas suas especificações técnicas, incluindo os tempos de vôo para esses centros de tomada de decisão.
Sabemos como fazê-lo e accionaremos esses planos imediatamente, logo que as ameaças para nós se tornarem reais. Não creio que precisemos de mais nenhuma exacerbação irresponsável da situação internacional actual. Não queremos fazê-lo.
O que é que gostaria de acrescentar? Os nossos colegas americanos já tentaram obter superioridade militar absoluta com o seu projecto global de defesa antimíssil. Eles precisam não ter mais ilusões. A nossa resposta será sempre eficiente e eficaz.
O trabalho sobre protótipos promissores e sistemas de armas sobre os quais falei no meu discurso do ano passado, continua conforme programado e sem interrupções. Lançamos a produção em série do sistema Avangard, que já mencionei hoje. Como foi planeado, este ano, o primeiro regimento de Tropas de Mísseis Estratégicos será equipado com o Avangard. O míssil intercontinental super-pesado Sarmat, de potência sem precedentes, está a ser submetido a uma série de testes. A arma laser Peresvet e os sistemas de aviação equipados com mísseis balísticos hipersónicos Kinzhal, deram prova das suas características únicas durante as missões de alerta de teste e combate, enquanto o pessoal aprendia a manobrá-los. No próximo mês de Dezembro, todos os mísseis Peresvet fornecidos às Forças Armadas serão colocados em alerta. Continuaremos a expandir a infraestrutura dos interceptores do MiG-31,com capacidade de transportar mísseis Kinzhal. O míssil de cruzeiro nuclear Burevestnik de alcance ilimitado e o veículo submarino não tripulado nuclear Poseidon, de alcance ilimitado, estão a ser submetidos a testes, com sucesso.
Neste contexto, gostaria de fazer uma declaração importante. Não o anunciamos antes, mas podemos dizer hoje que, nesta primavera, será lançado o primeiro submarino movido a energia nuclear transportando este veículo não tripulado. O trabalho está a prosseguir como foi planeado.
Hoje também penso que posso informar-vos, oficialmente, sobre outra inovação promissora. Como se podem recordar, da última vez eu disse que tínhamos algo mais para mostrar, mas era um pouco cedo para fazê-lo. Então vou revelar, pouco a pouco, o que mais temos na manga. Outra inovação promissora, que está a ser desenvolvida com sucesso, de acordo com o planeado, é o Tsirkon, um míssil hipersónico que pode atingir velocidades de aproximadamente Mach 9 e atingir um alvo a mais de 1.000 km de distância, tanto debaixo d’água quanto no solo. Pode ser lançado a partir da água, de navios de superfície e de submarinos, incluindo aqueles que foram desenvolvidos e construídos para transportar mísseis Kalibr de alta precisão, o que significa que, para nós, não existe custo adicional.
Numa nota relacionada, quero ressaltar que, para a defesa dos interesses nacionais da Rússia, dois ou três anos antes do cronograma estabelecido pelo programa estatal de armamentos, a Marinha Russa receberá sete novos submarinos polivalentes e a construção começará com cinco embarcações projectadas para oceano aberto. Dezasseis embarcações suplementares desta classe, entrarão em serviço na Marinha Russa, até 2027.
Para concluir, sobre a retirada unilateral dos EUA do Tratado sobre a Eliminação de Mísseis de Alcance Intermédio e de Curto Alcance, aqui está o que eu gostaria de dizer: A política dos EUA em relação à Rússia, nos últimos anos, dificilmente pode ser considerada amigável. Os interesses legítimos da Rússia estão a ser ignorados, há campanhas constantes contra a Rússia e cada vez mais sanções, que são ilegais nos termos do Direito Internacional e são impostas sem nenhum motivo. Deixem-me salientar que não fizemos nada para provocar estas sanções. A arquitetura de segurança internacional que tomou forma nas últimas décadas está a ser completa e unilateralmente desmantelada, ao mesmo tempo que refere a Rússia, como sendo, práticamente, a principal ameaça contra os EUA.
Deixem-me dizer abertamente que isso não é verdade. A Rússia quer ter relações sólidas, iguais e amistosas com os EUA. A Rússia não está a ameaçar ninguém e tudo o que fazemos em termos de segurança, é simplesmente uma resposta, o que significa que as nossas ações são defensivas. Não estamos interessados em confrontos e não o queremos, especialmente com um poder global como os Estados Unidos da América. No entanto, parece que nossos parceiros não percebem a profundidade e o ritmo das mudanças em todo o mundo e para onde estão indo. Eles continuam com a sua política destrutiva e claramente equivocada. O que, dificilmente, vai ao encontro dos interesses dos próprios EUA. Mas, não cabe a nós, decidirmos.
Podemos ver que estamos a lidar com pessoas pró-activas e talentosas, mas dentro da elite, há também muitas pessoas que têm uma fé excessiva no seu excepcionalismo e supremacia sobre o resto do mundo. Claro que têm o direito de pensar o que quiserem. Mas eles sabem contar? Provavelmente, sim. Então, deixem que eles calculem o alcance e a velocidade dos nossos futuros sistemas de armas. É tudo o que pedimos: primeiro façam as contas e depois, tomem as decisões que criem novas ameaças perigosas para o nosso país. Escusado será dizer que estas decisões levarão a Rússia a responder a fim de garantir a sua segurança de forma fiável e incondicional.
Já disse e vou repetir: Estamos prontos para entabular conversações sobre desarmamento, mas jamais iremos bater a uma porta fechada. Esperaremos até que os nossos parceiros estejam preparados e conscientes da necessidade de dialogar sobre este assunto.
Continuamos a desenvolver as nossas Forças Armadas e melhorar a intensidade e a qualidade de treino de combate, em parte, usando a experiência que adquirimos na operação anti-terrorista na Síria. Foi adquirida muita experiência por praticamente todos os comandantes das Forças Terrestres, pelas forças de operações secretas e pela polícia militar, pelas tripulações dos navios de guerra, pelo exército, pela aviação táctica, estratégica e de transporte militar.
Gostaria de salientar, novamente, que precisamos de paz para um desenvolvimento sustentável a longo prazo. Os nossos esforços para aumentar a nossa capacidade de defesa têm, apenas, um propósito: garantir a segurança deste país e dos nossos cidadãos, para que ninguém sequer pensar em nos pressionar ou lançar uma agressão contra nós.
Colegas, estamos perante metas ambiciosas. Estamos a abordar soluções de maneira sistemática e consistente, a construir um modelo de desenvolvimento socio-económico que nos permitirá assegurar as melhores condições para a auto-realização da nossa gente e, assim, fornecer respostas adequadas aos desafios de um mundo que está a mudar rapidamente, e estamos a preservar a Rússia como uma civilização e com identidade própria, enraizada em tradições seculares e na cultura do nosso povo, dos nossos valores e costumes. Claro que só seremos capazes de alcançar os nossos objectivos, combinando os nossos esforços, juntamente com uma sociedade unida, se todos nós, todos os cidadãos da Rússia, estivermos dispostos a ter sucesso em empreendimentos específicos.
Tal solidariedade na luta pela mudança é sempre a escolha deliberada das pessoas. Elas fazem essa escolha quando compreendem que o desenvolvimento nacional depende delas, dos resultados do seu trabalho, quando o desejo de serem necessárias e úteis goza de apoio, quando todos encontram um trabalho por vocação com o qual se sentem felizes e o que é mais importante, quando existe justiça e um vasto espaço de liberdade e igualdade de oportunidades de trabalho, estudo, iniciativa e inovação.
Esses parâmetros para desenvolver descobertas não podem ser traduzidos em números ou indicadores, mas são estas coisas - uma sociedade unificada, pessoas envolvidas nos negócios do seu país e uma confiança comum no nosso poder - que desempenham o papel principal para alcançar o sucesso.E, se for necessário, alcançaremos esse sucesso de qualquer maneira.
Grato pela vossa atenção. 

As tentativas, falhada e adiada, de intervenção militar dos EUA na Venezuela

No passado sábado falhou a tentativa norte-americana de fazer entrar ilegalmente na Venezuela, à força, camiões ditos de ajuda humanitária, com um conteúdo não controlável pelas autoridades. 

Em nenhum país do mundo isto poderia ser aceite quanto mais quando tropas especiais norte-americanas foram deslocadas na Colômbia, de presidente fascista, para virem a integrar o desenvolvimento da provocação.

Não é estranho que, face ao falhanço, grupos de guarinberos voltassem a estar presentes (oposicionistas de rosto tapado que desde 2014 atacam nas ruas de Caracas, recorrendo a pedras e cocktails molotov destruindo tudo à sua passagem e tendo chegado a queimar vivo um apoiante do regime em 2017). 
No passado sábado agiram do lado da Colômbia, pilhando os camiões que não passaram e, depois, deitando-lhes fogo, acusando Maduro de o ter feito.
Depois do falhanço da tentativa, estes miltares foram deslocados para outros pontos da Colômbia e para Porto Rico onde continuam os treinos. Se é certo que a chamada cimeira de
© Lillian Suwanrumpha / AFP
Lima, recusou a intervenção militar, no seu final o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, disse que a pedido de Guaidó, todas as hipóteses estavam na mesa, como se o auto-proclamado presidente interino da Venezuela, tivesse vontade própria, diferente da admnistração Trump...
As concepções estratégicas da Casa Branca, desde há quase vinte anos passam, entre outras coisas, por intervenções na região das Caraíbas, em concreto na Venezuela, Porto Rico, Nicarágua e Cuba.
(infografia do CUBADEBATE)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Duas cimeiras e os riscos para a paz no Médio Oriente, por António Abreu

 A mentira revelada

Nos dias 13 e 14, os EUA e Israel, com o apoio do anfitrião polaco, montaram uma operação que visava retirar os EUA do isolamento em que colocara a sua diplomacia no Médio Oriente na sequência de se ter retirado, em maio de 2018, do acordo nuclear com o Irão. A ausência do areópago dos estados-membros da EU, à exceção da Inglaterra, da Rússia, Turquia, Catar, Líbano, dos rebeldes houtis do Iémen e da Autoridade Palestiniana, e a responsável da política externa da UE, Federica Mogherini, do areópago e as declarações catastróficas de Benjamin Nethanyahu antes dele ter início. Para já, Gordon Sondland, o embaixador dos EUA na UE, afirmou que a não comparência dos líderes europeus teria sido “um ato inútil".
A ausência dos estados europeus, deveu-se à mentirola anterior dos EUA, logo retificada, de que não pretendiam uma mudança de regime em Teerão, à falta de convite ao Irão para participar, e à existência de uma agenda escondida sobre os objetivos da conferência, que se chamava “Futuro da Paz e da Segurança no Médio-Oriente”, mas que pretendia, de facto, prejudicar a vontade da UE em preservar esse acordo com o Irão.
Israel tirou o véu quando na véspera, Nethanyahu avançou que a reunião tinha como objetivo consolidar “o interesse comum da guerra contra o Irão”. E não terá sido, por acaso, “coincidência” que no primeiro dia da conferência em Varsóvia, o país tenha sofrido o pior ataque terrorista em anos quando 27 de seu Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram mortos em um ataque suicida reivindicado por um grupo jihadista. Teerã afirmou que o grupo terrorista tinha ligações com " serviços de inteligência estrangeiros ". Certo é que no início da semana passada, o Irão celebrou o 40º aniversário da sua revolução islâmica. O aniversário classificado por Trump como " 40 anos de terror ".  O seu conselheiro de segurança nacional, John Bolton, também enviou uma mensagem à liderança do Irão dizendo que seu tempo acabou. O Netanyahu emitiu um aviso assustador de que o aniversário poderia ser o último. E, no decurso da conferência um outro indefetível de Trump, Rudy Giuliani, pediu abertamente a mudança de regime no Irão. E, à margem da conferência, Giuliani, à margem da conferência, usou também da palavra numa manifestação em Varsóvia organizada pelo exilado iraniano Mujahideen-e Khalq (MEK). O grupo tem estado ligado a ataques terroristas no Irão que visam derrubar o governo de Teerão. Não está claro se o MEK teve algum envolvimento no atentado a bomba desta semana, mas em Varsóvia ao receberem Giuliani, aplaudiram o assassinato dos guardas iranianos.
A escolha da Polónia como anfitriã do evento não foi feita por acaso. A Polónia vem adquirindo de Washington sistemas de mísseis dos EUA e pediram para que os americanos construam uma nova base militar no país, que Varsóvia propõe chamar de "Fort Trump". Um ex-diplomata polaco reclamou que o governo de Varsóvia nem sequer teve participação na agenda da cimeira, afirmando que esta fora dominada por Washington, Israel e Arábia Saudita.
No período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ridicularizou a oposição da Alemanha e da França à guerra criminosa de agressão, referindo-se a esses países como "velha Europa" e exaltando o apoio ao imperialismo norte-americano. de uma “nova Europa”, composta pelos regimes do Leste Europeu e, principalmente, pela Polônia.

O eixo militar judaico-sunita

Um outro, o jornalista Thierry Meyssan, especialista das questões do Médio Oriente acha que os EUA pretendem “criar uma aliança militar judaico-sunita contra os xiitas”, que alguma imprensa tem chamado “a NATO árabe”. E refere que dias antes, a 10 de janeiro, durante uma conferência na Universidade americana do Cairo, o Secretário de Estado Mike Pompeo tinha identificado como objetivos para a região:
- Opor-se ao «regime iraniano» e aos «seus mandatários»;
- Pôr em ação uma Aliança estratégica judaico-sunita contra o Irão xiita (1).
Para ele esta confessionalização da política externa dos EUA deve ser conjugada com o retorno de Elliott Abrams (2) ao Departamento de Estado após 30 anos de ausência. Este trotskista, que se juntou em 1980 ao Presidente republicano Reagan, é um dos fundadores do movimento neoconservador. Ele é também um dos iniciadores da teopolítica, essa escola de pensamento aliando judeus e cristãos sionistas segundo quem a Terra só ficará em paz quando for dotada de um governo mundial sediado em Jerusalém (3).
Para Abrams e os trotskistas da revista “American Jewish Commitee, Commentary”, havia que lutar ao mesmo tempo contra a URSS, para prosseguir a luta de Leon Trotsky contra José Estaline, e montar um Golpe de Estado mundial. Abrams participou, na criação do Instituto da Paz dos EUA e na “National Endowment for Democracy” (NED), bem nossa conhecida pelas vultosas dotações financeiras que recolhe do Orçamento do Estado com que paga a todo o tipo de mercenários e “benfeitores” para organizarem revoluções coloridas, missões humanitárias e outras também “beneméritas”. A este grupo se deve a invenção da teopolítica, como uma justificação religiosa para uma tomada de poder mundial.
Os neocons são também conhecidos por likudnics que expressa a sua vinculação ao Likud israelita de Nethanyahu.
A obsessão do imperialismo norte-americano com o Irão deve-se essencialmente a nunca ter perdoado as massas de trabalhadores iranianos e pobres pela revolução de 1979 que derrubou a ditadura do Xá apoiada pelos EUA, o eixo da dominação dos EUA sobre a região. Embora essa revolução tenha sido usurpada pelo regime burocrático-teocrático estabelecido sob o ayatollah Khomeini, Washington recusou-se a aceitar qualquer mudança de regime, optando pela reimposição de uma ditadura fantoche dos EUA do tipo da do xá.

As debilidades do Irão

Há uma contradição entre o Irão em considerar Israel e a Arábia Saudita, quando antes e hoje existem entendimentos com esses países.
Há divisões entre os principais políticos: o Guia da Revolução, o Ayatollah Komeini, o Presidente da República xeque Rohani, “pai” do acordo nuclear e o antigo Presidente Ahmadinejad, com residência vigiada depois da prisão de vários dos seus colaboradores.
Rohani assinou o acordo nuclear com Obama, mas as sanções nunca foram levantadas e a economia iraniana entrou em colapso, com a agravante de Trump o ter rasgado.
A recusa de Rohani em prolongar apoios à Palestina, ao Hezbollah, e à Síria, retiraram um apoio importante de um país-chave a causas justas que careciam desse apoio, deixando os Guardas da Revolução a protegerem apenas os xiitas na Síria.
Os entendimentos entre o Irão, a Rússia e a Turquia podem já ter conhecido melhores dias.
As dificuldades económicas levaram à dificuldade em pagar as suas milícias no Iraque e o Hezbollah.
A saída da Rússia da intervenção militar direta na Síria tem facilitado os bombardeamentos contra forças iranianas e quanto à defesa da Síria, Moscovo ofereceu ao país mísseis S-300 para o país garantir a sua defesa anti-aérea.
A maioria democrata na Câmara dos Representantes não vai ajudar as dificuldades de Rohani.
A situação no Levante permanece complicada e não resolvida devido ao ceticismo em relação a uma retirada completa dos EUA do país e à falta de confiança entre os parceiros.
A Rússia parece pronta para tolerar temporariamente a presença turca na Síria onde se tem mantido há muito com o argumento de se proteger do Hezbollah.
O Irão, um parceiro próximo da Turquia, gostaria que as forças sírias assumissem o controle de todo o território, mas dá prioridade à partida final dos EUA.
Damasco e Teerão compartilham o mesmo medo de ver tropas turcas na Síria por um longo tempo.
Essas diferenças limitaram o sucesso da cimeira de Sochi, que se realizou ao mesmo tempo, e reunindo a Rússia, o Irão e a Turquia.
De facto, uma vez que o destino de Idlib e do nordeste da Síria ainda é desconhecido e ainda não foi acordado pelos aliados até agora. Não se pode esperar uma solução perfeita porque é claro que há uma falta de confiança, principalmente no papel e na presença da Turquia na Síria.
Independentemente desta observação, os curdos são, sempre e de novo, os maiores perdedores.

EUA e Europa

E quais foram as reações dos seus “aliados europeus” ao serem apontados por não seguirem a linha dos EUA em relação ao Irão. O vice-presidente dos EUA exigiu que a Alemanha, a França e o Reino Unido, todos signatários do acordo nuclear com o Irão de 2015, sigam a liderança de Washington em desmantelar o acordo e impor um bloqueio económico que equivaleria a um ato de guerra.
Pence acusou "alguns dos principais parceiros europeus" dos EUA de tentarem "quebrar as sanções americanas contra o regime revolucionário assassino do Irão". Referia-se a um mecanismo financeiro introduzido pelo Reino Unido, Alemanha e França para permitir a troca de bens entre empresas europeias e o Irã. sem transações financeiras diretas ou o uso do dólar americano para evitar as sanções extraterritoriais dos EUA.
O vice-presidente dos EUA exigiu que as potências europeias "fiquem connosco" para liquidar o acordo nuclear e, presumivelmente, para se prepararem para a guerra com o Irão. Reconhecendo que o Irão estava a agir em conformidade com o acordo nuclear, Pence declarou que a questão não era a conformidade, mas a indesejabilidade do “negócio” em si mesmo. E não deixou de dizer que qualquer tentativa de escapar do regime de sanções dos EUA "criaria ainda mais distância entre a Europa e os EUA".
Bill Van Auken, do world socialista website, recordou-nos nestes dias que “no período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ridicularizou a oposição da Alemanha e da França à guerra criminosa de agressão, referindo-se a esses países como "velha Europa" e exaltando o apoio ao imperialismo norte-americano de uma “nova Europa”, composta pelos regimes do Leste Europeu e, principalmente, pela Polónia.
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As intenções enunciadas na Conferência de Varsóvia da semana passada, mesmo que denunciadas na contradição entre as suas belas intenções e a realidade da guerra enunciada contra o Irão, mesmo com as reservas da UE, constituem um pesado risco para a paz.
A frase de Mike Pence, repetida até à exaustão, que caracterizava o Irão como "principal patrocinador estatal do terrorismo", foi apresentada sem factos nem provas. Os EUA nunca deveriam emitir tal declaração porque especialmente os seus dois últimos governos aplicaram milhares de milhões de dólares no financiamento de guerras terroristas por milícias ligadas à Al Qaeda para provocar mudanças de regime na Líbia e na Síria.
Quanto ao “estado que semeia o maior dano e a maior discórdia”, alguém pode afirmar com franqueza que Washington, que travou um quarto de século de guerras intermináveis e ruinosas na região, arrasando sociedades inteiras e deixando milhões de mortos, mutilados e deslocados, tem concorrentes à sua altura para lhe arrebatarem esse título?
O imperialismo norte-americano está determinado a afirmar sua hegemonia sobre o Irão, o Médio Oriente, a Ásia Central e a Venezuela, a fim de estabelecer seu controle incontestado sobre todas as reservas de energia do mundo, dando-lhe a capacidade de negar acesso a sua principal rival global, a China.

(1) “Observações de Mike Pompeo na American University do Cairo”, Rede Voltaire, 10 janeiro, 2019.
(2) «Elliott Abrams, o "gladiador" convertido à "teopolítica"», Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 14 fevereiro 2005.
(3) «Cimeira histórica para selar a Aliança dos guerreiros de Deus», Rede Voltaire, 17 outubro 2003

Versão actualizada da publicada originalmente em www.abrilabril.pt, em 18/2/19

sábado, 19 de janeiro de 2019

Bom fim de semana,por Jorge



"Livet må forstås baglæns, men må leves forlæns."

"A vida deve ser compreendida recuando, mas vivida avançando."


Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês, 1813-1855)


Armas nucleares: regresso ao passado?, por António Abreu

Os países da União Europeia, em cujas Constituições figura o princípio de que a “soberania pertence aos povos”, parecem considerar que parte dessa soberania já não lhes pertence, reservando-a para os círculos supranacionais que decidem sobre a guerra.


A União Europeia, em que 21 dos 27 estados-membros fazem parte da OTAN, colou-se assim à posição da OTAN, que por sua vez é cópia da posição dos Estados Unidos. O governo Obama primeiro, e depois o governo Trump acusaram a Rússia, sem qualquer prova, de ter experimentado um míssil de categoria proibida e anunciaram a intenção de se retirar do Tratado INF. Ao mesmo tempo, lançaram um programa para instalar mísseis nucleares novamente na Europa contra a Rússia, que também seria baseado na região da Ásia-Pacífico contra a China.
Os países da UE decidiram deixar instalar, nos seus territórios, mísseis de médio alcance para atingirem a Rússia.
Em matéria de armas nucleares de alcance intermédio, com a instalação de novos mísseis apontados à Rússia, depois da rejeição unilateral do Tratado INF, os EUA querem ver-se livres das consequências, que passam para os países europeus que, deixando instalar no seu território, para ficarem sob a direção dos EUA, mísseis que, alcancem a Rússia, necessariamente lhes acarretarão uma resposta russa dirigida a esses países por armas equivalentes. Os povos destes países aprovam estas decisões? Não foram sobre isso perguntados.
O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (do inglês: Intermediate-Range Nuclear Forces), assinado por Reagan e Gorbatchev em 1987 previa a eliminação dos mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, cujo alcance estivesse entre 500 e 5 500 km. Até a data-limite de 1 de junho de 1991, prevista no tratado, tinham sido destruídos 2 692 mísseis, 846 por parte dos Estados Unidos e 1 846 por parte da União Soviética. O acordo permitia a qualquer das partes inspecionar as instalações militares da outra

Os países da União Europeia, em cujas Constituições figura o princípio de que a “soberania pertence aos povos”, parecem considerar que parte dessa soberania já não lhes pertence, reservando-a para os círculos supranacionais que decidem sobre a guerra.
A União Europeia, em que 21 dos 27 estados-membros fazem parte da OTAN, colou-se assim à posição da OTAN, que por sua vez é cópia da posição dos Estados Unidos. O governo Obama primeiro, e depois o governo Trump acusaram a Rússia, sem qualquer prova, de ter experimentado um míssil de categoria proibida e anunciaram a intenção de se retirar do Tratado INF. Ao mesmo tempo, lançaram um programa para instalar mísseis nucleares novamente na Europa contra a Rússia, que também seria baseado na região da Ásia-Pacífico contra a China.
Os países da UE decidiram deixar instalar, nos seus territórios, mísseis de médio alcance para atingirem a Rússia.
Em matéria de armas nucleares de alcance intermédio, com a instalação de novos mísseis apontados à Rússia, depois da rejeição unilateral do Tratado INF, os EUA querem ver-se livres das consequências, que passam para os países europeus que, deixando instalar no seu território, para ficarem sob a direção dos EUA, mísseis que, alcancem a Rússia, necessariamente lhes acarretarão uma resposta russa dirigida a esses países por armas equivalentes. Os povos destes países aprovam estas decisões? Não foram sobre isso perguntados.
O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (do inglês: Intermediate-Range Nuclear Forces), assinado por Reagan e Gorbatchev em 1987 previa a eliminação dos mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, cujo alcance estivesse entre 500 e 5 500 km. Até a data-limite de 1 de junho de 1991, prevista no tratado, tinham sido destruídos 2 692 mísseis, 846 por parte dos Estados Unidos e 1 846 por parte da União Soviética. O acordo permitia a qualquer das partes inspecionar as instalações militares da outra.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

China faz germinar semente de algodão na Lua

China revelou há alguns dias que uma semente de algodão germinou na Lua (foto em baixo)



Os responsáveis da missão chinesa Chang-4, que pousou na lado oculto da Lua no dia 3 de janeiro, anunciaram que uma semente de algodão germinou e está a crescer dentro de uma pequena biosfera selada que a sonda transportou para a superfície lunar.

"É a primeira vez que os seres humanos fazem experiências biológicas na Lua", afirmou Xie Gengxin, o cientista responsável pela experiência.

A equipa da Universidade de Chongqing que criou a experiência para a missão Chang-4, desenvolveu uma pequena caixa estanque com 18 centímetros (cm) de comprimento, na qual colocou água, ar e um pouco de terra, juntamente com sementes de algodão, de trigo e de batatas, bem como ovos de mosca-da-fruta.

As imagens divulgadas pelos responsáveis da missão mostram que uma semente de algodão já germinou e que a planta está a crescer. Mas para já, é a única, adianta a equipa.

A missão conta também com experiências de cientistas da Suécia, da Alemanha e de outras equipas da China para estudar as condições ambientais na Lua, incluindo os índices das radiações cósmicas e a interações entre os ventos solares e o solo lunar.

A Chang-4 encontra-se na cratera Von Kármán, na bacia de Aitken, no Polo Sul lunar, uma planície ampla e sem grandes acidentes, onde aterrou a 3 de janeiro, numa manobra considerada histórica por ter sido a primeira que desceu naquele lado da Lua que nunca se consegue ver da Terra.

A sonda libertou, entretanto, um pequeno rover, o Yutu-2, que está a fazer outras medições e experiências, mas sobre as quais nada foi adiantado ainda.

A agência espacial chinesa já tem planeadas mais quatro missões lunares. Uma delas, que será lançada no final do ano, de acordo com o calendário divulgado, tem por objetivo trazer de volta para a Terra amostras do solo.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Bom fim de semana, por Jorge

Live as if you were to die tomorrow. Learn as if you were to live forever.”

"Vive como se morresses amanhã. Aprende como se vivesses para sempre."

Mahatma Gandhi 
fundador do estado indiano, 
1869-1948


A terrível destruição futura da «Bacia das Caraíbas», por Thierry Meyssan, em 19 janeiro na voltairenet.org



Na altura em que o Presidente Trump anunciou a retirada das tropas de combate dos EUA do «Médio-Oriente Alargado», o Pentágono prossegue a implementação do plano Rumsfeld-Cebrowski. Trata-se, desta vez, de destruir os Estados da «Bacia das Caraíbas». Não do derrube de regimes pró-soviéticos, como nos anos 70, mas da destruição de todas as estruturas estatais regionais, sem levar em consideração se são amigos ou inimigos políticos. Thierry Meyssan analisa a preparação desta nova série de guerras.



Numa série de artigos precedentes, tínhamos apresentado o plano do SouthCom visando provocar uma guerra entre Latino-americanos a fim de destruir as estruturas de Estado de todos os países da «Bacia das Caraíbas» [1].
Preparar uma tal guerra, que deveria suceder aos conflitos do «Médio-Oriente Alargado», no quadro da estratégia Rumsfeld-Cebrowski, exige uma década [2].
Após o período de desestabilização económica [3] e o de preparação militar, a operação propriamente dita deveria começar, nos anos a seguir, por um ataque à Venezuela desde o Brasil (apoiado por Israel), da Colômbia (aliada dos Estados Unidos) e da Guiana (ou seja, do Reino Unido). Ele seria seguido por outros, a começar contra Cuba e a Nicarágua (a «troïka da tirania» segundo John Bolton).
No entanto o plano inicial é susceptível de modificações, nomeadamente em razão do regresso das ambições imperiais do Reino Unido [4], que poderia influir sobre o Pentágono.
Eis aqui onde nos encontramos:

Evolução da Venezuela

O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, desenvolvera relações com o «Médio-Oriente Alargado» dentro de uma base ideológica. Ele tinha-se aproximado particularmente do Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e do Presidente sírio, Bashar al-Assad. Juntos, haviam imaginado a possibilidade de fundar uma organização intergovernamental, o «Movimento dos Aliados Livres», sobre o modelo do «Movimento dos Não-Alinhados», ao encontrar-se este paralisado, no decorrer do tempo, pelo alinhamento de alguns dos seus membros com os Estados Unidos [5].
Se Nicolas Maduro mantém o mesmo discurso que Hugo Chávez, ele escolheu, no entanto, uma política externa completamente diferente. Prosseguiu, é certo, a aproximação com a Rússia e acolheu, por sua vez, bombardeiros russos na Venezuela. Assinou um contrato de importação de 600 000 toneladas de trigo para fazer face à escassez no seu país. Acima de tudo, prepara-se para receber US $ 6 mil milhões (bilhões-br) de dólares em investimentos, dos quais 5 no sector petrolífero. Os engenheiros russos irão tomar o lugar que pertencia aos venezuelanos, mas que estes deixaram vago.
Nicolas Maduro reorganizou as alianças do seu país sobre novas bases. Assim, forjou laços estreitos com a Turquia que é membro da OTAN, e cujo exército ocupa actualmente o Norte da Síria. Maduro deslocou-se quatro vezes a Istambul e Erdoğan uma vez a Caracas.
A Suíça era uma aliada de Hugo Chávez, que ele havia consultado a fim de redigir a sua Constituição. Temendo não poder mais refinar o ouro do seu país na Suíça, Nicolas Maduro encaminha-o agora para a Turquia que transforma o minério bruto em lingotes. No passado, este ouro ficava nos bancos suíços a fim de garantir os contratos petrolíferos. Agora, a liquidez foi igualmente transferida para a Turquia, enquanto o novo ouro tratado regressa à Venezuela. Esta orientação pode ser interpretada como estando baseada não mais em ideologia, mas, sim em interesses. Resta definir quais.
Simultaneamente, a Venezuela é alvo de uma campanha de desestabilização que começou com as manifestações das guarimbas, prosseguiu com a tentativa de Golpe de Estado de 12 de Fevereiro de 2015 («Operação Jericó»), depois por ataques sobre a moeda nacional e a organização da emigração. Neste contexto, a Turquia forneceu à Venezuela a oportunidade de contornar as sanções dos EUA. As trocas comerciais entre os dois países multiplicaram-se por quinze em 2018.
Qualquer que seja a evolução do regime venezuelano, nada justifica o que se prepara contra a sua população.

Coordenação de meios logísticos

De 31 de Julho a 12 de Agosto de 2017, o SouthCom organizou um vasto exercício com mais de 3 000 homens vindos de 25 Estados aliados, entre os quais a França e o Reino Unido. Tratava-se de preparar um desembarque rápido de tropas na Venezuela [6].

A Colômbia

A Colômbia é um Estado, mas não uma nação. Nela, a sua população vive geograficamente separada segundo classes sociais, com enormes diferenças de nível de de vida. Quase nenhum colombiano se aventurou num bairro destinado a outra classe social que não a sua. Essa estrita separação tornou possível a multiplicação de forças paramilitares e, consequentemente, dos conflitos armados internos que fizeram mais de 220 000 vítimas numa trintena de anos.
No poder desde Agosto de 2018, o Presidente Iván Duque pôs em causa a frágil paz interna, concluída por seu predecessor, Juan Manuel Santos, com as FARC (mas não com o ELN). Ele não descartou a opção de uma intervenção militar contra a Venezuela. Segundo Nicolas Maduro, actualmente os Estados Unidos treinam 734 mercenários num campo de treino situado em Tona, tendo em vista uma acção de bandeira-falsa para desencadear a guerra contra a Venezuela. Tendo em vista as particularidades sociológicas da Colômbia, não é possível dizer, com certeza, se este campo de treino é controlado ou não por Bogotá.
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Rex Tillerson era o Director da Exx
onMobil no momento da descoberta das jazidas petrolíferas da Guiana. Pouco depois, tornou-se no Secretário de Estado dos Estados Unidos

A Guiana
No século XIX, as potências coloniais acordaram a fronteira entre a Guiana britânica (a actual Guiana) e a Guiana holandesa (actual Suriname), mas nenhum texto fixou a fronteira entre a zona britânica e a zona espanhola (actual Venezuela). De facto, a Guiana administra 160 000 km2 de florestas que continuam em disputa com o seu grande vizinho. Em virtude do Acordo de Genebra, de 17 de Fevereiro de 1966, os dois Estados recorreram ao Secretário-Geral das Nações Unidas (à época o birmanês U Thant). Mas, nada mudou desde aí, propondo-se a Guiana levar o assunto ao Tribunal (Corte-br) de Arbitragem da ONU, enquanto a Venezuela privilegia negociações directas.
Este diferendo territorial não parecia de urgente resolução porque a área contestada é uma floresta despovoada que se acreditava sem valor, mas é um imenso espaço que representa dois terços da Guiana. O acordo de Genebra foi violado 15 vezes pela Guiana, a qual autorizou, nomeadamente, a exploração de uma mina de ouro. Acima de tudo, surgiu em 2015 um grande desafio com a descoberta, pela ExxonMobil, de jazidas petrolíferas no Oceano Atlântico, precisamente nas águas territoriais da área contestada.
A população da Guiana é composta por 40% de Indianos, 30% de Africanos, 20% de Mestiços e por 10% de Ameríndios. Os Indianos estão muito presentes na função pública civil e os Africanos no exército.
Em 21 de Dezembro, uma moção de censura foi apresentada contra o governo do Presidente David Granger, um General pró-britânico e anti-venezuelano, no poder desde 2015. Para surpresa geral, um deputado, Charrandas Persaud, votou contra o seu próprio partido e, numa indescritível barracada, provocou a queda do governo, que apenas dispunha de um voto de maioria. Desde aí, reina a maior instabilidade: não se sabe se o Presidente Granger, que recebe tratamento de quimioterapia, estará à altura de assegurar a gestão dos assuntos correntes, enquanto, por uma porta traseira, Charrandas Persaud deixou o Parlamento com uma escolta e se escapou para o Canadá.
A 22 de Dezembro de 2018, na ausência de governo, o Ramform Thethys (arvorando o pavilhão das Baamas) e o Delta Monarch (Trinidad e Tobago) realizaram explorações submarinas na zona por conta da Exxon-Mobil. Considerando que esta intrusão viola o acordo de Genebra, o exército da Venezuela perseguiu os dois navios. O Ministério guianês dos Negócios Estrangeiros, em mera gestão corrente, denunciou o acto como hostil.
O Ministro da Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, declarou por outro lado ao Sunday Telegraph, de 30 de Dezembro de 2018, que a Coroa punha fim a filosofia de descolonização que, desde o caso do Suez em 1956, era a doutrina de Whitehall. Londres prepara-se para abrir uma nova base militar nas Caraíbas (de momento o Reino está apenas presente em Gibraltar, Chipre, Diego Garcia e nas Ilhas Falklands). Esta poderia ser em Montserrat (Antilhas) ou, mais provavelmente, na Guiana e deveria estar operacional em 2022 [7].
A Guiana é vizinha do Suriname (a Guiana Holandesa). O seu Presidente, Dési Bouterse, é acusado na Europa por tráfico de drogas, um caso anterior à sua eleição. Mas o seu filho, Dino, foi preso no Panamá, em 2013, muito embora tenha entrado com um passaporte diplomático. Ele foi extraditado para os Estados Unidos onde foi condenado a 16 anos de prisão por tráfico de drogas mas na realidade porque acolheu o Hezbollah libanês no Suriname.
O baptismo de Jair Bolsonaro nas águas 

do Jordão (Israel)


O Brasil

Em Maio de 2016, o Ministro das Finanças do Governo de transição do líbano-brasileiro Michel Temer, Henrique Meirelles, designou o israelo-brasileiro Ilan Goldfajn como Director do Banco Central. Mereilles, ao presidir ao Comité Preparatório dos Jogos Olímpicos, também apelou ao Tsahal (FDI-ndT) para coordenar a Polícia e o Exército brasileiros e garantir, assim, a segurança dos Jogos. Controlando, ao mesmo tempo, o Banco Central, o Exército e a Polícia brasileiros, Israel não teve dificuldade em dinamizar o movimento de contestação face à incúria do Partido dos Trabalhadores.
Crendo que a Presidente Dilma Rousseff havia maquilhado as contas públicas, no quadro do escândalo Petrobras, muito embora sem que nenhum facto ficasse provado, os parlamentares destituíram-na em Agosto de 2016.
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Eduardo e Carlos, os filhos do Presidente Jair Bolsonaro.
Aquando da eleição presidencial de 2018, o candidato Jair Bolsonaro foi a Israel para ser baptizado nas águas do Jordão. Assim conquistou de forma massiva os votos dos evangélicos.
Ele fez-se eleger tendo o General Hamilton Mourão como Vice-presidente. Este último declarou, durante o período de transição, que o Brasil deveria preparar-se para enviar homens para a Venezuela como «força de manutenção de paz», assim que o Presidente Maduro fosse derrubado; declarações que constituem uma ameaça pouco velada e que o Presidente Bolsonaro tentou minorar.
Entretanto, numa entrevista, a 3 de Janeiro de 2019, ao canal SBT, o Presidente Bolsonaro referiu negociações com o Pentágono tendo em vista acolher uma base militar dos EUA no Brasil [8]. Esta declaração levantou uma forte oposição no seio das Forças Armadas para quem o país é capaz de se defender sozinho.
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Benjamin Netanyahu aquando da investidura do Presidente Bolsonaro. Israel tomou posições no Brasil.
Durante a sua investidura, a 2 de Janeiro de 2019, o novo Presidente acolheu o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Foi a primeira vez que uma personalidade israelita desta importância visitou o Brasil. Na ocasião, o Presidente Bolsonaro anunciou a próxima transferência da embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém.
O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que também esteve presente na investidura, anunciou com o Presidente Bolsonaro a sua intenção de lutar contra os «regimes autoritários» da Venezuela e de Cuba. De regresso aos Estados Unidos, ele fez escala em Bogotá para se encontrar com o Presidente colombiano, Iván Duque. Os dois homens acordaram em trabalhar para isolar diplomaticamente a Venezuela. A 4 de Janeiro de 2019, os 14 Países do Grupo Lima (entre os quais o Brasil, a Colômbia e a Guiana) reuniram-se para declarar como «ilegítimo» o novo mandato de Nicolas Maduro, que começa a 10 de Janeiro [9], num comunicado que não foi subscrito pelo México. Além disso, seis dos Estados-membros apresentarão uma queixa ao Tribunal Penal Internacional contra o Presidente Nicolas Maduro por crimes contra a humanidade.
É hoje perfeitamente claro que está já em marcha o processo para a guerra. Forças enormes estão em jogo e, agora, pouco há que possa pará-las. É neste contexto que a Rússia estuda a possibilidade de estabelecer uma base aeronaval permanente na Venezuela. A ilha de La Orchila —onde o Presidente Hugo Chávez fora mantido prisioneiro durante o golpe de estado de Abril de 2002— permitiria estacionar bombardeiros estratégicos. O que seria uma ameaça muito maior para os Estados Unidos do que foram, em 1962, os mísseis soviéticos estacionados em Cuba.
Tradução
Alva