terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Duas cimeiras e os riscos para a paz no Médio Oriente, por António Abreu

 A mentira revelada

Nos dias 13 e 14, os EUA e Israel, com o apoio do anfitrião polaco, montaram uma operação que visava retirar os EUA do isolamento em que colocara a sua diplomacia no Médio Oriente na sequência de se ter retirado, em maio de 2018, do acordo nuclear com o Irão. A ausência do areópago dos estados-membros da EU, à exceção da Inglaterra, da Rússia, Turquia, Catar, Líbano, dos rebeldes houtis do Iémen e da Autoridade Palestiniana, e a responsável da política externa da UE, Federica Mogherini, do areópago e as declarações catastróficas de Benjamin Nethanyahu antes dele ter início. Para já, Gordon Sondland, o embaixador dos EUA na UE, afirmou que a não comparência dos líderes europeus teria sido “um ato inútil".
A ausência dos estados europeus, deveu-se à mentirola anterior dos EUA, logo retificada, de que não pretendiam uma mudança de regime em Teerão, à falta de convite ao Irão para participar, e à existência de uma agenda escondida sobre os objetivos da conferência, que se chamava “Futuro da Paz e da Segurança no Médio-Oriente”, mas que pretendia, de facto, prejudicar a vontade da UE em preservar esse acordo com o Irão.
Israel tirou o véu quando na véspera, Nethanyahu avançou que a reunião tinha como objetivo consolidar “o interesse comum da guerra contra o Irão”. E não terá sido, por acaso, “coincidência” que no primeiro dia da conferência em Varsóvia, o país tenha sofrido o pior ataque terrorista em anos quando 27 de seu Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foram mortos em um ataque suicida reivindicado por um grupo jihadista. Teerã afirmou que o grupo terrorista tinha ligações com " serviços de inteligência estrangeiros ". Certo é que no início da semana passada, o Irão celebrou o 40º aniversário da sua revolução islâmica. O aniversário classificado por Trump como " 40 anos de terror ".  O seu conselheiro de segurança nacional, John Bolton, também enviou uma mensagem à liderança do Irão dizendo que seu tempo acabou. O Netanyahu emitiu um aviso assustador de que o aniversário poderia ser o último. E, no decurso da conferência um outro indefetível de Trump, Rudy Giuliani, pediu abertamente a mudança de regime no Irão. E, à margem da conferência, Giuliani, à margem da conferência, usou também da palavra numa manifestação em Varsóvia organizada pelo exilado iraniano Mujahideen-e Khalq (MEK). O grupo tem estado ligado a ataques terroristas no Irão que visam derrubar o governo de Teerão. Não está claro se o MEK teve algum envolvimento no atentado a bomba desta semana, mas em Varsóvia ao receberem Giuliani, aplaudiram o assassinato dos guardas iranianos.
A escolha da Polónia como anfitriã do evento não foi feita por acaso. A Polónia vem adquirindo de Washington sistemas de mísseis dos EUA e pediram para que os americanos construam uma nova base militar no país, que Varsóvia propõe chamar de "Fort Trump". Um ex-diplomata polaco reclamou que o governo de Varsóvia nem sequer teve participação na agenda da cimeira, afirmando que esta fora dominada por Washington, Israel e Arábia Saudita.
No período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ridicularizou a oposição da Alemanha e da França à guerra criminosa de agressão, referindo-se a esses países como "velha Europa" e exaltando o apoio ao imperialismo norte-americano. de uma “nova Europa”, composta pelos regimes do Leste Europeu e, principalmente, pela Polônia.

O eixo militar judaico-sunita

Um outro, o jornalista Thierry Meyssan, especialista das questões do Médio Oriente acha que os EUA pretendem “criar uma aliança militar judaico-sunita contra os xiitas”, que alguma imprensa tem chamado “a NATO árabe”. E refere que dias antes, a 10 de janeiro, durante uma conferência na Universidade americana do Cairo, o Secretário de Estado Mike Pompeo tinha identificado como objetivos para a região:
- Opor-se ao «regime iraniano» e aos «seus mandatários»;
- Pôr em ação uma Aliança estratégica judaico-sunita contra o Irão xiita (1).
Para ele esta confessionalização da política externa dos EUA deve ser conjugada com o retorno de Elliott Abrams (2) ao Departamento de Estado após 30 anos de ausência. Este trotskista, que se juntou em 1980 ao Presidente republicano Reagan, é um dos fundadores do movimento neoconservador. Ele é também um dos iniciadores da teopolítica, essa escola de pensamento aliando judeus e cristãos sionistas segundo quem a Terra só ficará em paz quando for dotada de um governo mundial sediado em Jerusalém (3).
Para Abrams e os trotskistas da revista “American Jewish Commitee, Commentary”, havia que lutar ao mesmo tempo contra a URSS, para prosseguir a luta de Leon Trotsky contra José Estaline, e montar um Golpe de Estado mundial. Abrams participou, na criação do Instituto da Paz dos EUA e na “National Endowment for Democracy” (NED), bem nossa conhecida pelas vultosas dotações financeiras que recolhe do Orçamento do Estado com que paga a todo o tipo de mercenários e “benfeitores” para organizarem revoluções coloridas, missões humanitárias e outras também “beneméritas”. A este grupo se deve a invenção da teopolítica, como uma justificação religiosa para uma tomada de poder mundial.
Os neocons são também conhecidos por likudnics que expressa a sua vinculação ao Likud israelita de Nethanyahu.
A obsessão do imperialismo norte-americano com o Irão deve-se essencialmente a nunca ter perdoado as massas de trabalhadores iranianos e pobres pela revolução de 1979 que derrubou a ditadura do Xá apoiada pelos EUA, o eixo da dominação dos EUA sobre a região. Embora essa revolução tenha sido usurpada pelo regime burocrático-teocrático estabelecido sob o ayatollah Khomeini, Washington recusou-se a aceitar qualquer mudança de regime, optando pela reimposição de uma ditadura fantoche dos EUA do tipo da do xá.

As debilidades do Irão

Há uma contradição entre o Irão em considerar Israel e a Arábia Saudita, quando antes e hoje existem entendimentos com esses países.
Há divisões entre os principais políticos: o Guia da Revolução, o Ayatollah Komeini, o Presidente da República xeque Rohani, “pai” do acordo nuclear e o antigo Presidente Ahmadinejad, com residência vigiada depois da prisão de vários dos seus colaboradores.
Rohani assinou o acordo nuclear com Obama, mas as sanções nunca foram levantadas e a economia iraniana entrou em colapso, com a agravante de Trump o ter rasgado.
A recusa de Rohani em prolongar apoios à Palestina, ao Hezbollah, e à Síria, retiraram um apoio importante de um país-chave a causas justas que careciam desse apoio, deixando os Guardas da Revolução a protegerem apenas os xiitas na Síria.
Os entendimentos entre o Irão, a Rússia e a Turquia podem já ter conhecido melhores dias.
As dificuldades económicas levaram à dificuldade em pagar as suas milícias no Iraque e o Hezbollah.
A saída da Rússia da intervenção militar direta na Síria tem facilitado os bombardeamentos contra forças iranianas e quanto à defesa da Síria, Moscovo ofereceu ao país mísseis S-300 para o país garantir a sua defesa anti-aérea.
A maioria democrata na Câmara dos Representantes não vai ajudar as dificuldades de Rohani.
A situação no Levante permanece complicada e não resolvida devido ao ceticismo em relação a uma retirada completa dos EUA do país e à falta de confiança entre os parceiros.
A Rússia parece pronta para tolerar temporariamente a presença turca na Síria onde se tem mantido há muito com o argumento de se proteger do Hezbollah.
O Irão, um parceiro próximo da Turquia, gostaria que as forças sírias assumissem o controle de todo o território, mas dá prioridade à partida final dos EUA.
Damasco e Teerão compartilham o mesmo medo de ver tropas turcas na Síria por um longo tempo.
Essas diferenças limitaram o sucesso da cimeira de Sochi, que se realizou ao mesmo tempo, e reunindo a Rússia, o Irão e a Turquia.
De facto, uma vez que o destino de Idlib e do nordeste da Síria ainda é desconhecido e ainda não foi acordado pelos aliados até agora. Não se pode esperar uma solução perfeita porque é claro que há uma falta de confiança, principalmente no papel e na presença da Turquia na Síria.
Independentemente desta observação, os curdos são, sempre e de novo, os maiores perdedores.

EUA e Europa

E quais foram as reações dos seus “aliados europeus” ao serem apontados por não seguirem a linha dos EUA em relação ao Irão. O vice-presidente dos EUA exigiu que a Alemanha, a França e o Reino Unido, todos signatários do acordo nuclear com o Irão de 2015, sigam a liderança de Washington em desmantelar o acordo e impor um bloqueio económico que equivaleria a um ato de guerra.
Pence acusou "alguns dos principais parceiros europeus" dos EUA de tentarem "quebrar as sanções americanas contra o regime revolucionário assassino do Irão". Referia-se a um mecanismo financeiro introduzido pelo Reino Unido, Alemanha e França para permitir a troca de bens entre empresas europeias e o Irã. sem transações financeiras diretas ou o uso do dólar americano para evitar as sanções extraterritoriais dos EUA.
O vice-presidente dos EUA exigiu que as potências europeias "fiquem connosco" para liquidar o acordo nuclear e, presumivelmente, para se prepararem para a guerra com o Irão. Reconhecendo que o Irão estava a agir em conformidade com o acordo nuclear, Pence declarou que a questão não era a conformidade, mas a indesejabilidade do “negócio” em si mesmo. E não deixou de dizer que qualquer tentativa de escapar do regime de sanções dos EUA "criaria ainda mais distância entre a Europa e os EUA".
Bill Van Auken, do world socialista website, recordou-nos nestes dias que “no período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ridicularizou a oposição da Alemanha e da França à guerra criminosa de agressão, referindo-se a esses países como "velha Europa" e exaltando o apoio ao imperialismo norte-americano de uma “nova Europa”, composta pelos regimes do Leste Europeu e, principalmente, pela Polónia.
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As intenções enunciadas na Conferência de Varsóvia da semana passada, mesmo que denunciadas na contradição entre as suas belas intenções e a realidade da guerra enunciada contra o Irão, mesmo com as reservas da UE, constituem um pesado risco para a paz.
A frase de Mike Pence, repetida até à exaustão, que caracterizava o Irão como "principal patrocinador estatal do terrorismo", foi apresentada sem factos nem provas. Os EUA nunca deveriam emitir tal declaração porque especialmente os seus dois últimos governos aplicaram milhares de milhões de dólares no financiamento de guerras terroristas por milícias ligadas à Al Qaeda para provocar mudanças de regime na Líbia e na Síria.
Quanto ao “estado que semeia o maior dano e a maior discórdia”, alguém pode afirmar com franqueza que Washington, que travou um quarto de século de guerras intermináveis e ruinosas na região, arrasando sociedades inteiras e deixando milhões de mortos, mutilados e deslocados, tem concorrentes à sua altura para lhe arrebatarem esse título?
O imperialismo norte-americano está determinado a afirmar sua hegemonia sobre o Irão, o Médio Oriente, a Ásia Central e a Venezuela, a fim de estabelecer seu controle incontestado sobre todas as reservas de energia do mundo, dando-lhe a capacidade de negar acesso a sua principal rival global, a China.

(1) “Observações de Mike Pompeo na American University do Cairo”, Rede Voltaire, 10 janeiro, 2019.
(2) «Elliott Abrams, o "gladiador" convertido à "teopolítica"», Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 14 fevereiro 2005.
(3) «Cimeira histórica para selar a Aliança dos guerreiros de Deus», Rede Voltaire, 17 outubro 2003

Versão actualizada da publicada originalmente em www.abrilabril.pt, em 18/2/19

sábado, 19 de janeiro de 2019

Bom fim de semana,por Jorge



"Livet må forstås baglæns, men må leves forlæns."

"A vida deve ser compreendida recuando, mas vivida avançando."


Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês, 1813-1855)


Armas nucleares: regresso ao passado?, por António Abreu

Os países da União Europeia, em cujas Constituições figura o princípio de que a “soberania pertence aos povos”, parecem considerar que parte dessa soberania já não lhes pertence, reservando-a para os círculos supranacionais que decidem sobre a guerra.


A União Europeia, em que 21 dos 27 estados-membros fazem parte da OTAN, colou-se assim à posição da OTAN, que por sua vez é cópia da posição dos Estados Unidos. O governo Obama primeiro, e depois o governo Trump acusaram a Rússia, sem qualquer prova, de ter experimentado um míssil de categoria proibida e anunciaram a intenção de se retirar do Tratado INF. Ao mesmo tempo, lançaram um programa para instalar mísseis nucleares novamente na Europa contra a Rússia, que também seria baseado na região da Ásia-Pacífico contra a China.
Os países da UE decidiram deixar instalar, nos seus territórios, mísseis de médio alcance para atingirem a Rússia.
Em matéria de armas nucleares de alcance intermédio, com a instalação de novos mísseis apontados à Rússia, depois da rejeição unilateral do Tratado INF, os EUA querem ver-se livres das consequências, que passam para os países europeus que, deixando instalar no seu território, para ficarem sob a direção dos EUA, mísseis que, alcancem a Rússia, necessariamente lhes acarretarão uma resposta russa dirigida a esses países por armas equivalentes. Os povos destes países aprovam estas decisões? Não foram sobre isso perguntados.
O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (do inglês: Intermediate-Range Nuclear Forces), assinado por Reagan e Gorbatchev em 1987 previa a eliminação dos mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, cujo alcance estivesse entre 500 e 5 500 km. Até a data-limite de 1 de junho de 1991, prevista no tratado, tinham sido destruídos 2 692 mísseis, 846 por parte dos Estados Unidos e 1 846 por parte da União Soviética. O acordo permitia a qualquer das partes inspecionar as instalações militares da outra

Os países da União Europeia, em cujas Constituições figura o princípio de que a “soberania pertence aos povos”, parecem considerar que parte dessa soberania já não lhes pertence, reservando-a para os círculos supranacionais que decidem sobre a guerra.
A União Europeia, em que 21 dos 27 estados-membros fazem parte da OTAN, colou-se assim à posição da OTAN, que por sua vez é cópia da posição dos Estados Unidos. O governo Obama primeiro, e depois o governo Trump acusaram a Rússia, sem qualquer prova, de ter experimentado um míssil de categoria proibida e anunciaram a intenção de se retirar do Tratado INF. Ao mesmo tempo, lançaram um programa para instalar mísseis nucleares novamente na Europa contra a Rússia, que também seria baseado na região da Ásia-Pacífico contra a China.
Os países da UE decidiram deixar instalar, nos seus territórios, mísseis de médio alcance para atingirem a Rússia.
Em matéria de armas nucleares de alcance intermédio, com a instalação de novos mísseis apontados à Rússia, depois da rejeição unilateral do Tratado INF, os EUA querem ver-se livres das consequências, que passam para os países europeus que, deixando instalar no seu território, para ficarem sob a direção dos EUA, mísseis que, alcancem a Rússia, necessariamente lhes acarretarão uma resposta russa dirigida a esses países por armas equivalentes. Os povos destes países aprovam estas decisões? Não foram sobre isso perguntados.
O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (do inglês: Intermediate-Range Nuclear Forces), assinado por Reagan e Gorbatchev em 1987 previa a eliminação dos mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, cujo alcance estivesse entre 500 e 5 500 km. Até a data-limite de 1 de junho de 1991, prevista no tratado, tinham sido destruídos 2 692 mísseis, 846 por parte dos Estados Unidos e 1 846 por parte da União Soviética. O acordo permitia a qualquer das partes inspecionar as instalações militares da outra.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

China faz germinar semente de algodão na Lua

China revelou há alguns dias que uma semente de algodão germinou na Lua (foto em baixo)



Os responsáveis da missão chinesa Chang-4, que pousou na lado oculto da Lua no dia 3 de janeiro, anunciaram que uma semente de algodão germinou e está a crescer dentro de uma pequena biosfera selada que a sonda transportou para a superfície lunar.

"É a primeira vez que os seres humanos fazem experiências biológicas na Lua", afirmou Xie Gengxin, o cientista responsável pela experiência.

A equipa da Universidade de Chongqing que criou a experiência para a missão Chang-4, desenvolveu uma pequena caixa estanque com 18 centímetros (cm) de comprimento, na qual colocou água, ar e um pouco de terra, juntamente com sementes de algodão, de trigo e de batatas, bem como ovos de mosca-da-fruta.

As imagens divulgadas pelos responsáveis da missão mostram que uma semente de algodão já germinou e que a planta está a crescer. Mas para já, é a única, adianta a equipa.

A missão conta também com experiências de cientistas da Suécia, da Alemanha e de outras equipas da China para estudar as condições ambientais na Lua, incluindo os índices das radiações cósmicas e a interações entre os ventos solares e o solo lunar.

A Chang-4 encontra-se na cratera Von Kármán, na bacia de Aitken, no Polo Sul lunar, uma planície ampla e sem grandes acidentes, onde aterrou a 3 de janeiro, numa manobra considerada histórica por ter sido a primeira que desceu naquele lado da Lua que nunca se consegue ver da Terra.

A sonda libertou, entretanto, um pequeno rover, o Yutu-2, que está a fazer outras medições e experiências, mas sobre as quais nada foi adiantado ainda.

A agência espacial chinesa já tem planeadas mais quatro missões lunares. Uma delas, que será lançada no final do ano, de acordo com o calendário divulgado, tem por objetivo trazer de volta para a Terra amostras do solo.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Bom fim de semana, por Jorge

Live as if you were to die tomorrow. Learn as if you were to live forever.”

"Vive como se morresses amanhã. Aprende como se vivesses para sempre."

Mahatma Gandhi 
fundador do estado indiano, 
1869-1948


A terrível destruição futura da «Bacia das Caraíbas», por Thierry Meyssan, em 19 janeiro na voltairenet.org



Na altura em que o Presidente Trump anunciou a retirada das tropas de combate dos EUA do «Médio-Oriente Alargado», o Pentágono prossegue a implementação do plano Rumsfeld-Cebrowski. Trata-se, desta vez, de destruir os Estados da «Bacia das Caraíbas». Não do derrube de regimes pró-soviéticos, como nos anos 70, mas da destruição de todas as estruturas estatais regionais, sem levar em consideração se são amigos ou inimigos políticos. Thierry Meyssan analisa a preparação desta nova série de guerras.



Numa série de artigos precedentes, tínhamos apresentado o plano do SouthCom visando provocar uma guerra entre Latino-americanos a fim de destruir as estruturas de Estado de todos os países da «Bacia das Caraíbas» [1].
Preparar uma tal guerra, que deveria suceder aos conflitos do «Médio-Oriente Alargado», no quadro da estratégia Rumsfeld-Cebrowski, exige uma década [2].
Após o período de desestabilização económica [3] e o de preparação militar, a operação propriamente dita deveria começar, nos anos a seguir, por um ataque à Venezuela desde o Brasil (apoiado por Israel), da Colômbia (aliada dos Estados Unidos) e da Guiana (ou seja, do Reino Unido). Ele seria seguido por outros, a começar contra Cuba e a Nicarágua (a «troïka da tirania» segundo John Bolton).
No entanto o plano inicial é susceptível de modificações, nomeadamente em razão do regresso das ambições imperiais do Reino Unido [4], que poderia influir sobre o Pentágono.
Eis aqui onde nos encontramos:

Evolução da Venezuela

O Presidente venezuelano, Hugo Chávez, desenvolvera relações com o «Médio-Oriente Alargado» dentro de uma base ideológica. Ele tinha-se aproximado particularmente do Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e do Presidente sírio, Bashar al-Assad. Juntos, haviam imaginado a possibilidade de fundar uma organização intergovernamental, o «Movimento dos Aliados Livres», sobre o modelo do «Movimento dos Não-Alinhados», ao encontrar-se este paralisado, no decorrer do tempo, pelo alinhamento de alguns dos seus membros com os Estados Unidos [5].
Se Nicolas Maduro mantém o mesmo discurso que Hugo Chávez, ele escolheu, no entanto, uma política externa completamente diferente. Prosseguiu, é certo, a aproximação com a Rússia e acolheu, por sua vez, bombardeiros russos na Venezuela. Assinou um contrato de importação de 600 000 toneladas de trigo para fazer face à escassez no seu país. Acima de tudo, prepara-se para receber US $ 6 mil milhões (bilhões-br) de dólares em investimentos, dos quais 5 no sector petrolífero. Os engenheiros russos irão tomar o lugar que pertencia aos venezuelanos, mas que estes deixaram vago.
Nicolas Maduro reorganizou as alianças do seu país sobre novas bases. Assim, forjou laços estreitos com a Turquia que é membro da OTAN, e cujo exército ocupa actualmente o Norte da Síria. Maduro deslocou-se quatro vezes a Istambul e Erdoğan uma vez a Caracas.
A Suíça era uma aliada de Hugo Chávez, que ele havia consultado a fim de redigir a sua Constituição. Temendo não poder mais refinar o ouro do seu país na Suíça, Nicolas Maduro encaminha-o agora para a Turquia que transforma o minério bruto em lingotes. No passado, este ouro ficava nos bancos suíços a fim de garantir os contratos petrolíferos. Agora, a liquidez foi igualmente transferida para a Turquia, enquanto o novo ouro tratado regressa à Venezuela. Esta orientação pode ser interpretada como estando baseada não mais em ideologia, mas, sim em interesses. Resta definir quais.
Simultaneamente, a Venezuela é alvo de uma campanha de desestabilização que começou com as manifestações das guarimbas, prosseguiu com a tentativa de Golpe de Estado de 12 de Fevereiro de 2015 («Operação Jericó»), depois por ataques sobre a moeda nacional e a organização da emigração. Neste contexto, a Turquia forneceu à Venezuela a oportunidade de contornar as sanções dos EUA. As trocas comerciais entre os dois países multiplicaram-se por quinze em 2018.
Qualquer que seja a evolução do regime venezuelano, nada justifica o que se prepara contra a sua população.

Coordenação de meios logísticos

De 31 de Julho a 12 de Agosto de 2017, o SouthCom organizou um vasto exercício com mais de 3 000 homens vindos de 25 Estados aliados, entre os quais a França e o Reino Unido. Tratava-se de preparar um desembarque rápido de tropas na Venezuela [6].

A Colômbia

A Colômbia é um Estado, mas não uma nação. Nela, a sua população vive geograficamente separada segundo classes sociais, com enormes diferenças de nível de de vida. Quase nenhum colombiano se aventurou num bairro destinado a outra classe social que não a sua. Essa estrita separação tornou possível a multiplicação de forças paramilitares e, consequentemente, dos conflitos armados internos que fizeram mais de 220 000 vítimas numa trintena de anos.
No poder desde Agosto de 2018, o Presidente Iván Duque pôs em causa a frágil paz interna, concluída por seu predecessor, Juan Manuel Santos, com as FARC (mas não com o ELN). Ele não descartou a opção de uma intervenção militar contra a Venezuela. Segundo Nicolas Maduro, actualmente os Estados Unidos treinam 734 mercenários num campo de treino situado em Tona, tendo em vista uma acção de bandeira-falsa para desencadear a guerra contra a Venezuela. Tendo em vista as particularidades sociológicas da Colômbia, não é possível dizer, com certeza, se este campo de treino é controlado ou não por Bogotá.
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Rex Tillerson era o Director da Exx
onMobil no momento da descoberta das jazidas petrolíferas da Guiana. Pouco depois, tornou-se no Secretário de Estado dos Estados Unidos

A Guiana
No século XIX, as potências coloniais acordaram a fronteira entre a Guiana britânica (a actual Guiana) e a Guiana holandesa (actual Suriname), mas nenhum texto fixou a fronteira entre a zona britânica e a zona espanhola (actual Venezuela). De facto, a Guiana administra 160 000 km2 de florestas que continuam em disputa com o seu grande vizinho. Em virtude do Acordo de Genebra, de 17 de Fevereiro de 1966, os dois Estados recorreram ao Secretário-Geral das Nações Unidas (à época o birmanês U Thant). Mas, nada mudou desde aí, propondo-se a Guiana levar o assunto ao Tribunal (Corte-br) de Arbitragem da ONU, enquanto a Venezuela privilegia negociações directas.
Este diferendo territorial não parecia de urgente resolução porque a área contestada é uma floresta despovoada que se acreditava sem valor, mas é um imenso espaço que representa dois terços da Guiana. O acordo de Genebra foi violado 15 vezes pela Guiana, a qual autorizou, nomeadamente, a exploração de uma mina de ouro. Acima de tudo, surgiu em 2015 um grande desafio com a descoberta, pela ExxonMobil, de jazidas petrolíferas no Oceano Atlântico, precisamente nas águas territoriais da área contestada.
A população da Guiana é composta por 40% de Indianos, 30% de Africanos, 20% de Mestiços e por 10% de Ameríndios. Os Indianos estão muito presentes na função pública civil e os Africanos no exército.
Em 21 de Dezembro, uma moção de censura foi apresentada contra o governo do Presidente David Granger, um General pró-britânico e anti-venezuelano, no poder desde 2015. Para surpresa geral, um deputado, Charrandas Persaud, votou contra o seu próprio partido e, numa indescritível barracada, provocou a queda do governo, que apenas dispunha de um voto de maioria. Desde aí, reina a maior instabilidade: não se sabe se o Presidente Granger, que recebe tratamento de quimioterapia, estará à altura de assegurar a gestão dos assuntos correntes, enquanto, por uma porta traseira, Charrandas Persaud deixou o Parlamento com uma escolta e se escapou para o Canadá.
A 22 de Dezembro de 2018, na ausência de governo, o Ramform Thethys (arvorando o pavilhão das Baamas) e o Delta Monarch (Trinidad e Tobago) realizaram explorações submarinas na zona por conta da Exxon-Mobil. Considerando que esta intrusão viola o acordo de Genebra, o exército da Venezuela perseguiu os dois navios. O Ministério guianês dos Negócios Estrangeiros, em mera gestão corrente, denunciou o acto como hostil.
O Ministro da Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, declarou por outro lado ao Sunday Telegraph, de 30 de Dezembro de 2018, que a Coroa punha fim a filosofia de descolonização que, desde o caso do Suez em 1956, era a doutrina de Whitehall. Londres prepara-se para abrir uma nova base militar nas Caraíbas (de momento o Reino está apenas presente em Gibraltar, Chipre, Diego Garcia e nas Ilhas Falklands). Esta poderia ser em Montserrat (Antilhas) ou, mais provavelmente, na Guiana e deveria estar operacional em 2022 [7].
A Guiana é vizinha do Suriname (a Guiana Holandesa). O seu Presidente, Dési Bouterse, é acusado na Europa por tráfico de drogas, um caso anterior à sua eleição. Mas o seu filho, Dino, foi preso no Panamá, em 2013, muito embora tenha entrado com um passaporte diplomático. Ele foi extraditado para os Estados Unidos onde foi condenado a 16 anos de prisão por tráfico de drogas mas na realidade porque acolheu o Hezbollah libanês no Suriname.
O baptismo de Jair Bolsonaro nas águas 

do Jordão (Israel)


O Brasil

Em Maio de 2016, o Ministro das Finanças do Governo de transição do líbano-brasileiro Michel Temer, Henrique Meirelles, designou o israelo-brasileiro Ilan Goldfajn como Director do Banco Central. Mereilles, ao presidir ao Comité Preparatório dos Jogos Olímpicos, também apelou ao Tsahal (FDI-ndT) para coordenar a Polícia e o Exército brasileiros e garantir, assim, a segurança dos Jogos. Controlando, ao mesmo tempo, o Banco Central, o Exército e a Polícia brasileiros, Israel não teve dificuldade em dinamizar o movimento de contestação face à incúria do Partido dos Trabalhadores.
Crendo que a Presidente Dilma Rousseff havia maquilhado as contas públicas, no quadro do escândalo Petrobras, muito embora sem que nenhum facto ficasse provado, os parlamentares destituíram-na em Agosto de 2016.
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Eduardo e Carlos, os filhos do Presidente Jair Bolsonaro.
Aquando da eleição presidencial de 2018, o candidato Jair Bolsonaro foi a Israel para ser baptizado nas águas do Jordão. Assim conquistou de forma massiva os votos dos evangélicos.
Ele fez-se eleger tendo o General Hamilton Mourão como Vice-presidente. Este último declarou, durante o período de transição, que o Brasil deveria preparar-se para enviar homens para a Venezuela como «força de manutenção de paz», assim que o Presidente Maduro fosse derrubado; declarações que constituem uma ameaça pouco velada e que o Presidente Bolsonaro tentou minorar.
Entretanto, numa entrevista, a 3 de Janeiro de 2019, ao canal SBT, o Presidente Bolsonaro referiu negociações com o Pentágono tendo em vista acolher uma base militar dos EUA no Brasil [8]. Esta declaração levantou uma forte oposição no seio das Forças Armadas para quem o país é capaz de se defender sozinho.
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Benjamin Netanyahu aquando da investidura do Presidente Bolsonaro. Israel tomou posições no Brasil.
Durante a sua investidura, a 2 de Janeiro de 2019, o novo Presidente acolheu o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Foi a primeira vez que uma personalidade israelita desta importância visitou o Brasil. Na ocasião, o Presidente Bolsonaro anunciou a próxima transferência da embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém.
O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que também esteve presente na investidura, anunciou com o Presidente Bolsonaro a sua intenção de lutar contra os «regimes autoritários» da Venezuela e de Cuba. De regresso aos Estados Unidos, ele fez escala em Bogotá para se encontrar com o Presidente colombiano, Iván Duque. Os dois homens acordaram em trabalhar para isolar diplomaticamente a Venezuela. A 4 de Janeiro de 2019, os 14 Países do Grupo Lima (entre os quais o Brasil, a Colômbia e a Guiana) reuniram-se para declarar como «ilegítimo» o novo mandato de Nicolas Maduro, que começa a 10 de Janeiro [9], num comunicado que não foi subscrito pelo México. Além disso, seis dos Estados-membros apresentarão uma queixa ao Tribunal Penal Internacional contra o Presidente Nicolas Maduro por crimes contra a humanidade.
É hoje perfeitamente claro que está já em marcha o processo para a guerra. Forças enormes estão em jogo e, agora, pouco há que possa pará-las. É neste contexto que a Rússia estuda a possibilidade de estabelecer uma base aeronaval permanente na Venezuela. A ilha de La Orchila —onde o Presidente Hugo Chávez fora mantido prisioneiro durante o golpe de estado de Abril de 2002— permitiria estacionar bombardeiros estratégicos. O que seria uma ameaça muito maior para os Estados Unidos do que foram, em 1962, os mísseis soviéticos estacionados em Cuba.
Tradução
Alva

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge


"L'illusione è la gramigna più tenace della 
coscienza collettiva: la storia insegna, ma non ha scolari."

"A ilusão é a erva daninha mais tenaz da 
consciência coletiva: a História ensina, mas não tem estudantes."

Antonio Gramsci 
filósofo e militante marxista italiano, 1831-1937 
em L'Ordine Nuovo nº.70 (1921)

A Nicarágua venceu o golpe de Estado mas enfrenta dificuldades económicas, por António Abreu



O presidente da Bolívia, Evo Morales, saiu em defesa do governo da Nicarágua nesta quarta-feira (25), dando a entender que a onda de desestabilização que assolou o país desde abril se tratou de uma tentativa dos Estados Unidos de tentarem um novo golpe de Estado no continente, desta vez contra Daniel Ortega.
A Presidente da Bolívia referiu que ao tentar interromper o processo constitucional da Nicarágua e forçar eleições antecipadas, os EUA “mostram sua obsessão pela ingerência em assuntos internos dos países soberanos”, esclareceu o presidente.
Na sua conta no Twitter, Evo acusou os EUA de ter uma postura de “patrão do mundo” e que a ingerência do país americano na Nicarágua é um “anúncio de golpe contra o diálogo e a paz”.
A onda de desestabilização começou em abril quando uma manifestação de estudantes da Universidade Politécnica pediu a revogação da reforma laboral apresentada por Daniel Ortega. O presidente atendeu o pedido popular com rapidez e não avançou com a reforma, porém, as manifestações continuaram, desta vez, no dia seguinte (!) com uma nova reivindicação: a renúncia do chefe de Estado.
Imediatamente começaram as ações violentas que resultaram em mortes de manifestantes a favor e contra o governo, destruição de prédios públicos incluindo bibliotecas e equipamentos de saúde, além de agressão gratuita contra militantes sandinistas.
O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), afirmou em julho estar disposto a voltar à mesa de diálogo com a oposição para encontrar uma saída pacífica e negociada para a grave crise social em que se encontra seu país. Os sectores mais agressivos da oposição rejeitaram-no.
O interesse norte-americano em mudar, de forma precipitada, o atual governo da Nicarágua está diretamente ligado às negociações do país com a China para a construção de um novo canal que será muito maior em capacidade que o Canal do Panamá, caminho dominado pelos EUA para receber importações e exportar sua produção.
Stephen Sefton, analista político da Global Research, salientou na passada 6ª feira (28) que, depois do falhado o golpe na Nicarágua e da OEA e Amnistia Internacional ignorarem as mortes e torturas de sandinistas, o povo da Nicarágua exige reparações por parte dos golpistas, apoiados pelos EUA.
Na passada quarta-feira (25) o Congresso dos Estados Unidos aprovou por unanimidade a resolução bipartidária (votada por 241 parlamentares republicanos e 194 democratas) que condena e responsabiliza o governo de Daniel Ortega pela violência nas manifestações.
O documento legislativo propõe, além disso, eleições presidenciais antecipadas no país centro-americano - os EUA a legislarem para os outros…
Entre abril e julho deste ano, a Nicarágua sofreu uma tentativa extremamente violenta de mudança de regime apoiada pelo governo dos EUA e aliados seus. Componentes essenciais e cruciais dessa tentativa de golpe foram os relatórios de má fé de organizações internacionais de direitos humanos e a cobertura de notícias extremamente tendenciosa pela comunicação social ocidental.
Todos eles mentiram ao acusar o governo sandinista da Nicarágua por quase todas as mortes durante o golpe, quando foi o contrário que aconteceu.
Milhares de pessoas voltaram a manifestar-se no último sábado (25), em Manágua, capital da Nicarágua, para exigir justiça e reparação para as vítimas da violência que marcou a intentona golpista, provocada pela extrema-direita, com apoio financeiro norte-americano.
Mais de duzentos sandinistas, transeuntes não envolvidos e policias foram mortos e centenas sofreram intimidações, abuso e tortura às mãos das forças de oposição apoiadas pelos EUA.
A mais falsa referência por elas ao conflito é a insistência em que a oposição nicaraguense realizou no essencial protestos pacíficos, o que é um absurdo, atendendo ao número de baixas sandinistas e policiais. Essa cobertura deliberadamente enganosa dos acontecimentos na Nicarágua reflete a ampla contaminação das sociedades ocidentais, a que o economista Bill Black e outros chamam de "fraude de controle" por meio da qual empresas, especialmente empresas financeiras poderosas, usam contas superficialmente legítimas e controles de auditoria deliberadamente para enganar os investidores. Essas empresas relatam ativos inflacionados e custos mínimos, dando uma visão deliberadamente falsa e enganosa da posição financeira da empresa. Essas poderosas empresas põem de lado as práticas empresariais honestas e manipulam os líderes políticos, e atraem os profissionais da justiça para escaparem ao processo criminal.

A fracassada tentativa de mudança de regimes pelo governo dos EUA na Nicarágua neste ano, como as ofensivas dos EUA contra a Venezuela ou o Irão, por exemplo, revelam como esses processos de corrupção atingem instituições ocidentais de todos os tipos. As organizações sem fins lucrativos, a comunicação social e as instituições multilaterais ocidentais operam como uma enorme combinação corrupta por meio de um ciclo de feedback infinito de desinformação, negando aos povos de seus países uma visão verdadeira e justa dos eventos mundiais. Alargam-se nos anúncios das suas boas intenções e superioridade moral, enquanto minimizam, mentindo, os custos, as incontáveis ​​vítimas e o sofrimento incalculável. Assim, as populações investidas nessa vasta preocupação fraudulenta pensam que os supostos controles do sistema, como a comunicação social e setores não-governamentais, funcionam muito bem quando, na verdade, quase todos são corruptos.

Segundo o autor, no caso da Nicarágua, dois acontecimentos demonstram essa realidade com muita clareza.
Em primeiro lugar, os relatórios ocidentais contra a Nicarágua foram completamente omissos quanto ao ataque assassino em maio do ano passado na rádio sandinista, Nuevo Radio Ya. O ataque resultou da falsa alegação sensacionalista de Miguel Mora, do canal de propaganda da oposição com 100% de noticias que lhe eram favoráveis, de que sua emissora de TV estava a ser atacada nesse dia. Mora pediu a ativistas da oposição que atacassem a Nuevo Radio Ya, o que fizeram, incendiando-a, mantendo mais de 20 funcionários de rádio reféns e disparando sobre bombeiros e policias que tentavam controlar o fogo e resgatar as pessoas. Apenas a bravura dos serviços de resgate e do pessoal da estação de rádio impediu lesões mais graves e perda de vidas.
Um segundo incidente, entre dezenas de casos semelhantes, também demonstra a corrupção da indústria ocidental de direitos humanos e dos seus cúmplices da comunicação social. Na semana passada, as autoridades nicaraguenses divulgaram os resultados de uma minuciosa investigação sobre uma das principais atrocidades atribuídas pela CIDH e pela Amnistia Internacional ao governo no dia 16 de junho. Naquele dia, uma família de seis pessoas, incluindo duas crianças, foi queimada até a morte num incêndio criminoso em sua casa. Imediatamente, a virulenta organização de defesa dos direitos humanos CENIDH teve seus ativistas em cena acusando falsamente o governo do crime. Em poucas horas, a CIDH também atribuiu o hediondo ataque ao governo. Agora, após meses de investigação, a polícia identificou quatro dos incendiários com base em acusações de sobreviventes do incêndio, identificação e testemunho de testemunhas, análise forense e material incriminatório da comunicação social da oposição. Dois dos acusados ​​foram enviados para julgamento e dois são fugitivos.
Desde os primeiros momentos da tentativa de golpe, o governo da Nicarágua convidou a OEA a enviar um Grupo Interdisciplinar de Peritos Independentes para ajudar as autoridades nicaraguenses nas suas investigações como parte da missão da CIDH na Nicarágua. Mas a CIDH apresentou o que chamou de relatório final ao Conselho Permanente da OEA, antes mesmo desse grupo de especialistas ter começado a trabalhar. Agora, o grupo de especialistas apresentou um relatório cobrindo eventos até 30 de maio que, e que, como era previsível, reproduziu as mesmas informações falsas do anterior relatório perentório da CIDH, com base em relatos da comunicação social da oposição e de organizações de direitos humanos. Como o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o grupo de peritos da CIDH quebrou os termos de seu acordo original com o governo, envolvendo-se em atividades que não tinha autoridade para empreender.
O termo da visita do grupo de especialistas já havia expirado quando, em 19 de dezembro, o governo decidiu suspender a presença dos corpos da CIDH na Nicarágua, acusando-os de apoiar a oposição minoritária do país e os seus esforços para derrubar o governo constitucional da Nicarágua. Antes disso, o Ministério do Interior confirmou em 14 de dezembro a medida da Assembleia Nacional que cancelou o estatuto legal de nove organizações sem fins lucrativos que fizeram uso ilegal dos seus recursos para participarem e apoiarem ativamente a tentativa de golpe. Essas ONGs representam 0,2% de cerca de 4300 organizações sem fins lucrativos registadas no Ministério do Interior do país. Num outro movimento para desmantelar as redes de oposição envolvidas na tentativa fracassada de golpe, o governo aplicou a legislação de longa data do país contra o incitamento ao ódio e prendeu Miguel Mora, diretor da rádio que foi organizadora das manifestações violentas, rádio essa que foi encerrada.

Como no caso das medidas tomadas pelas autoridades venezuelanas para proteger a sociedade de seus países contra crimes semelhantes, a cobertura da comunicação social ocidental sobre estes recentes acontecimentos na Nicarágua, deturpa-os apresentando-os como “ações de uma ditadura!” Mas para os nicaraguenses elas representam medidas legítimas para defender o Estado de Direito, a estabilidade económica e a segurança dos cidadãos.
Todos estes “paladinos” dos direitos humanos omitem a violência sádica e assassina da oposição e deturpam, de forma grotesca, os passos dos governos da Venezuela e da Nicarágua para proteger as pessoas contra ela. Ao encobrir os crimes da oposição, eles tornam-se cúmplices deles.

Recusando-se a reconhecer a realidade da violenta e opressiva violência da oposição durante a tentativa frustrada de golpe, a CIDH e seus seguidores em acampamentos de ONGs, como a Amnistia Internacional, confirmaram que ela foi acessória para o golpe tentado uma vez mais. Eles têm sido cúmplices com as práticas de matar, queimar, realizar violações, abusar sexualmente de mulheres.
O governo dos Estados Unidos anunciou na última terça, 27, novas sanções contra a vice-presidente e primeira-dama da Nicarágua, Rosário Murillo, como resposta a alegada repressão promovida por Daniel, aos protestos contra o governo. E estendeu essas sanções ao assessor de segurança nacional, Néstor Moncada Lau
Este é um dos golpes que o imperialismo norte-americano, de diferentes formas, tem implantado na América do Sul e Caraíbas. A mais recente vai ser agora os contratos que Bolsonaro vai assinar com Israel, na altura da sua investidura que incluem assuntos económicos e de “segurança”, ou seja, Israel vai tentar implantar, com a Mossad, mais uma plataforma logística de agressão contra os países de regimes progressistas da América Latina.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Bom fim de semana, bom Natal e smile... por Jorge


"A day without laughter 
is a day wasted."

"Um dia sem rir 
é um dia desperdiçado."

Charles Chaplin 
1889-1977 
num dia de Natal

A saída norte-americana da Síria e o impasse no novo muro dos EUA com o México

A saída da Síria de todos os norte americanos a curto prazo, declarada por Trump, na sequência de anteriores alusões nesse sentido, pode agravar a tensão dentro da administração norte-americana acelerando as tentativas de impeachment do presidente.

Esse facto, só por hipocrisia pode escandalizar a França ou o Reino Unido, que ainda mantêm forças suas na Síria, apoiadas pelos respetivos serviços secretos, a DGES e o MI6, antes alinhadas sob o comando dos EUA. E que em alguns casos recorrem a combatentes curdos para combates que lhes evite a perda das suas próprias forças.
Combatentes estes que foram recrutados ou “comprados” com a miragem da criação futura dum Curdistão constituído por parcelas da Síria, do Iraque e da Turquia, há muito desenhado pelos estrategas norte-americanos como meio para, dividindo, reinarem melhor. Isso constituiria uma tragédia com os enormes conflitos que iria gerar.
A saída da França e do Reino Unido da Síria, pode encalhar na sua tradição imperial na região e ser abrilhantada por lamúrias de que os curdos seriam agora… “abandonados às mãos da tropa de Assad” ou de presos do ISIS que saíssem das cadeias.
Na guerra imposta à Síria pelos EUA, que criaram o ISIS ou Estado Islâmico, com apoio doutros países ocidentais, nomeadamente os dois referidos, têm sido encontradas soluções para a saída do país desses combatentes, como aconteceu com a saída dos do ISIS de várias cidades recuperadas pelo Exército Árabe da Síria e Damasco encontrará, certamente, soluções semelhantes e que serão acompanhadas pelo apaziguamento e manutenção de autonomias, e desejavelmente também por ações semelhantes no Iraque e na Turquia.


Por outro lado, a Câmara dos Representantes aprovou por 217 votos contra 185 a nova versão do projeto de orçamento, que inclui o financiamento de 5,7 mil milhões de dólares para o muro com o México, de Trump,mas no Senado vários republicanos e democratas, rejeitarão qualquer financiamento do muro com clara alocação no Orçamento. Sem um acordo bem-sucedido, o financiamento para muitos departamentos governamentais expirará à meia-noite de hoje, sexta-feira, provocando inclusivamente o despedimento de centenas de milhares de trabalhadores precários.
Enquanto os republicanos têm uma maioria no Senado de 51 lugares contra 49 dos democratas, um projeto de lei precisa de 60 votos para aprovação, ao contrário da Câmara, onde a maioria simples é suficiente.

O início da construção do Muro do México ocorreu no ano de 1991 (Georges Bush), mas foi em 1994 (Bil Clinton) que as suas obras se intensificaram, durante a chamada “Operação Guardian”. Essa operação pretendia colocar um fim à onda de imigração ilegal que aumentava no país ano após ano, fruto das políticas impostas pelos EUA para a América Latina, que sempre a consierou o "seu quintal". O território mexicano era considerado a principal porta de entrada para esses imigrantes.
O conflito com o Senado sobre esta questão é um esticar de corda em que se Trump perder e beneficiará da crítica dos sectores que o elegeram aos que, ganhando, pensam usar isso no impeachment a Trump, ganhando algum novo fôlego alguma simpatia externa e dos meios urbans dos EUA.

Hoje a construção de um novo muro, é questão de “honra” para o Presidente dos EUA. Enquanto uma nova guerra mundial bate à porta de todos nós, resultante da irresponsabilidade da administração norte-americana, nomeadamente da sua componente militar.