sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"When small men begin to cast big shadows, it means the sun is about to set."
"Quando homens baixos começam a lançar grandes sombras é sinal que o sol se vai pôr."
Lin Yutang (escritor chinês de expressão inglesa, 1895-1976)


"João Abel Manta, o Rigor da Ironia", por Manuel Augusto Araújo, publicado no seu blogue Praça do Bocage



JAMANTA1


João Abel Manta adquiriu um enorme reconhecimento público com os cartoons que publicou no pós-25 de Abril no Diário de Lisboa, onde, com grande ironia e bem fundada esperança na Revolução de Abril, registava, com uma pontaria que nunca falhava o alvo, os sucessos em que ela se enredava. Paradoxalmente, o que o tornou mais conhecido ocultou as várias disciplinas das artes, incluindo as artes gráficas, em que já tinha realizado um notável trabalho que o colocava e coloca entre os maiores artistas portugueses de sempre.

Na obra gráfica de João Abel Manta o grande destaque é o dos cartoons, anglicismo que propositadamente utiliza para acentuar o carácter de intervenção desse seu trabalho. Essa sua urgência de intervir, política e culturalmente, inicia-se nos anos 40 na revista da Arquitectura até à colaboração, relativamente recente, com o JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias. Fá-lo com uma imaginação transbordante, uma fina e sofisticada ironia impermeável ao demagógico e ao fácil e uma quase insuperável qualidade oficinal em que apoia esse empenho no detalhe, no pormenor que nunca se distrai de uma aguda visão global.

Presente aqui, como na sua pintura e na sua arquitectura, João Abel Manta tem um grau de exigência, de rigor, que é um valor acrescentado à sua criatividade, originalidade, saber, inteligência e erudição, à sua dignidade sem transigências com um mundo medíocre de que faz uma crítica aguda onde traça as geografias desse universo conceptual, do provincianismo e o anacronismo universal dessa mentalidade.

Isso está em toda a sua obra e está bem presente nos cartoons. Os mais conhecidos, como se referiu, são os cartoons que em 1974 e 1975 acompanharam o que se viveu em Portugal durante esses dois anos de todas as esperanças. Com o 25 de Novembro, o cartoonista João Abel Manta que tinha durante dezenas de anos enfrentado processos, lutado contra o impiedoso lápis azul da censura sem um desfalecimento, com uma coragem exemplar, desaparece do convívio público quase diário com que, entusiasticamente, cartografava a Revolução de Abril.
Eram comentários urgentes, acutilantes, em cima do acontecimento. O que era e continua a ser espantoso é nunca perderem o norte, acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu. A história de Portugal entre 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os cartoons de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do País está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Qualidade sem flutuações
A sua obra gráfica é muitíssimo mais extensa que essescartoons e é isso que se pode ver, embora que limitadamente, na exposição da Galeria Valbom no que possibilita a percepção do imenso trabalho, da diversidade desenvolvida pelo artista em mais de cinquenta anos com uma qualidade que nunca sofre flutuações.

João Abel Manta é o que aí se mostra e é muitíssimo mais que isso. Sem referir o seu trabalho de arquitectura, a sua formação académica, há que referir a sua pintura que é a afirmação da defesa da arte contra a banalidade, evidenciando um conhecimento, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

O novo, na pintura de João Abel Manta, nunca foi o desejo superficial de inovar, mas a ferramenta que usa como meio imprescindível para exprimir a sua visão própria. Decorre de uma necessidade do processo criativo. Não lhe é exterior, o que liberta a sua pintura do uso mecânico, burocrático, das linguagens pictóricas em uso ou desuso. Não tem a pretensão de explicar o mundo mas penetra na sua opacidade, descasca a sua insuportável estranheza. Humaniza-o e revela-o.

Num ano em que João Abel Manta comemora os seus 90 anos e em que a história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas mais diversas contradanças, o tem deliberadamente esquecido, é tempo para se realizar uma retrospectiva de toda a sua vasta e poliédrica obra.


domingo, 21 de outubro de 2018

O assassinato do jornalista saudita do Washington Post vai alterar em alguma coisa as relações dos EUA com a Arábia Saudita?

Apesar do grande suspense sobre o futuro das relações entre os EUA e a Arábia Saudita não se esperam grandes alterações nelas. Os dois países estão há muito ligado entre si por se completarem estrategicamente na cena mundial. A questão agora é, face ao repúdio universal do crime cujos contorno vão sendo conhecidos, os EUA acordarem com a Arábia Saudita uma interpretação do ocorrido que deixe de fora as responsabilidades do reino de Saud.
Em 2 de outubro, Khashoggi foi ao consulado saudita para obter os documentos necessários para que ele se pudesse se casar com a noiva turco; não foi visto desde então. As autoridades turcas acusaram Riad de matar Khashoggi, um fervoroso crítico do príncipe herdeiro saudita, o que este último negou veementemente. No entanto, à medida que surgem mais provas, parece difícil para Riade negar qualquer envolvimento.


Mas, apesar das duras advertências e ameaças trocadas entre Washington e Riade, é improvável que esse incidente cause grandes desajustes nas suas relações, embora certamente isso tenha um impacto no seu relacionamento no curto prazo. Como a base para a aliança estratégica entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita continua sólida e mutuamente benéfica, a sua relação bilateral interdependente permanecerá fundamentalmente inalterada. Mike Pompeo partiu para Riade na passada terça-feira para dar os retoques no cenário do crime perpretado pelos seus amigos e torná-lo credível para os amigos da NATO e da EU.

 Em concreto, a importância da Arábia Saudita para os EUA é a seguinte.
Em primeiro lugar, a Arábia Saudita desempenha um papel fundamental no mercado energético mundial por meio de sua cooperação com os EUA. Enquanto a administração Trump pretende cortar as exportações de petróleo do Irão, espera que a Arábia Saudita vá compensar a escassez, e, assim, a sua parceria se tornou ainda mais importante.
Em segundo lugar, a Arábia Saudita continua a ser um importante aliado dos EUA na sua luta contra concorrentes e rivais, incluindo o Irão. Em particular, os EUA podem manter a sua cooperação militar e de segurança com outros pequenos países árabes na região do Golfo, em virtude da influência da Arábia Saudita.
Em terceiro lugar, sem que a opinião pública saudita estivesse a seu favor e sem o apoio financeiro da Arábia Saudita, os Estados Unidos dificilmente poderiam apresentar-se como intervenientes em processos de paz no Médio Oriente.
Em quarto lugar, como um importante parceiro comercial dos EUA e comprador de armas, bem como um dos seus principais países credores e principais parceiros financeiros, a Arábia Saudita desempenha um papel essencial para ajudar a manter o emprego e a estabilidade económica nos EUA.
Em Quinto lugar, a Arábia Saudita ajuda a promover o intercâmbio entre os EUA e o mundo islâmico em geral.


 Mas os EUA também são essenciais para a Arábia Saudita.



Primeiro, os EUA fornecem um forte impulso para a modernização da Arábia Saudita e da sua indústria de petróleo.
Segundo, os EUA continuarão a ajudar a Arábia Saudita a manter a estabilidade económica e o desenvolvimento.
Terceiro, como uma protegida dos EUA, a Arábia Saudita pode resistir melhor à pressão do Ocidente e evitar uma "revolução de cores" que os EUA foram tão pressurosos a instigar noutros países árabes.
Quarto, os EUA é o melhor mercado de investimento para o enorme fundo soberano da Arábia Saudita.
Quinto, os EUA podem ajudar o reino do petróleo a melhorar os seus direitos de discurso e poder normativo internacionais. Por meio de sua aliança com os EUA, a Arábia Saudita pode manter um status internacional que supera a sua força nacional geral para verificar e equilibrar suas relações com outras grandes potências.

Olhando para trás, para o relacionamento EUA-Arábia Saudita nos últimos 70 anos, até mesmo grandes eventos, incluindo os ataques terroristas de 11 de setembro nos EUA em 2001, não abalaram as bases para a cooperação. O assassinato do jornalista só irá adicionar um pouco de atrito temporário ao relacionamento. Apesar disso, a Casa Branca está sob forte pressão para pressionar Riade e o Partido Democrata dos EUA certamente aproveitará a oportunidade para atacar o governo Trump por ignorar o "mau" histórico de direitos humanos de um país, especialmente quando a eleição de meio de mandato está próxima (esquecendo o forte aliado que, apesar disso, Barack Obama foi para si .
 
No entanto, o incidente não exercerá muita influência nas eleições intercalares, em comparação com o desempenho económico dos EUA e com o crescimento do emprego.
O incidente terá um impacto negativo na relação entre a Arábia Saudita e a Turquia, até certo ponto. Os dois países têm estado em desacordo muito antes disso, como resultado de divergências sobre a Irmandade Muçulmana, Catar e Síria. Mas mesmo assim, a Turquia e a Arábia Saudita criaram um grupo de investigação para analisar conjuntamente o caso.
Independentemente do boicote da conferência Future Investment Initiative em Riade, também chamada de "Davos in the Desert", o incidente também não deverá ter grande impacto na economia da Arábia Saudita ou no preço do petróleo enquanto a relação EUA-Arábia Saudita continuar geralmente estável.
 

sábado, 13 de outubro de 2018

Aznavour deixa-nos nos 40 anos da morte de Brel

A morte de Charles Aznavour nos 40 anos da morte de Brel, lembram-nos grandes perdas, que permanecerão vivas - espero eu - por futuras gerações
Dois estilos e poesias bem diferentes. Duas vozes inconfundíveis. Que sensibilidade para a poesia e a música teríamos nós sem alguns intérpretes e autores portugueses mas também franceses, norte-americanos, ingleses e galegos, que fizeram esta viagem connosco?
Referir aqui "Dans le Port d'Amsterdan" resulta de ser a sua canção mais popular, como outras, brejeira, aqui muito voltada para a a frugalidade, os sonhos e a bebedeira dos marinheiros e a infidelidade feminina que os procura no final do repasto.



Dans le port d'Amsterdan


Dans le port d'Amsterdan
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam

Dans le port d'Amsterdam

Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes


Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant


Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière



Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"Think of how stupid the average person is, and realize half of them are stupider than that."

"Pensemos na estupidez média das pessoas e notemos que metade delas é mais estúpida ainda."


George Carlin (humorista americano, 1937-2008)

(pensamos nos brasileiros...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Adeus Aznavour, as tuas canções ficam






 
"La bohème"
 
Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
On est heureux
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux
Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie
 
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
On a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie
La bohème, la bohème
Ça voulait dire
On a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps
 
Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
À mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts


La bohème, la bohème

On était jeunes


On était fous
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout

sábado, 29 de setembro de 2018

São tendências? por António Abreu

 
Nas últimas semanas não pararam de actuar diferentes actores com influências diversificadas, por vezes contraditórias, nos cenários políticos internacionais, para permitir identificar uma linha dominante futura, uma tendência uniforme, aspecto frequentemente desejado por analistas mas raramente verificáveis na realidade.

A confrontação entre diferentes sectores

da administração norte-americana e a tentativa do seu impeachment de Trump por Obama e sectores dos partidos democráticos e republicanos mais belicistas, as relações entre as duas Coreias e da Coreia do Norte com os EUA, a expansão da influência da China na economia e infraestruturas da Ásia, África e América Latina, as tensões e fragmentação dentro da União Europeia, a campanha dos sectores mais conservadores da Igreja contra o Papa Francisco e o esforço permanente de alguns governos para apoiarem terroristas que fazem tardar o fim da guerra na Síria e as tensões no Médio Oriente, as eleições dentro de dias no Brasil, são alguns dos factores que influenciam tendências de evolução.

Referimo-nos aqui hoje a dois deles.

Há cerca de um mês, na parte terminal da guerra contra a Síria, em que os terroristas foram sucessivamente mortos, fugiram para outro países ou se acantonaram na cidade de Idlib, concertaram-se as vontades de governos de vários países da NATO para fazerem, de novo, a História andar para trás.

Mas em cimeira do passado dia 16 entre Vladimir Putin, e o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, ambos concordaram na instauração de uma “zona desmilitarizada” na província síria de Idlib, que será patrulhada pelas polícias militares turca e russa.
 

A zona desmilitarizada, que deve ser criada antes de 15 de Outubro, vai separar as posições das forças governamentais e das milícias da oposição, e terá uma extensão entre 15 a 20 quilómetros.

O MI6 do Reino Unido, sob a direção de Theresa May começou a encenar a vitimização de crianças num falso ataque químico.

Operacionais da sociedade Olive foram enviados para o local e armas químicas foram encaminhadas para a província de Idlib. Os Capacetes Brancos raptaram 44 crianças. O MI6 previa sacrificá-las e atribuir o seu assassínio a um ataque químico do Exército Árabe Sírio contra os «rebeldes».

O MI6 havia antecipadamente organizado a difusão desta intoxicação a partir do testemunho futuro de uma criança que chamou de Hala. Criou uma conta de Twitter em seu nome, a 29 de Julho, e uns trinta média subscreveram-na de imediato, esperando o seu sinal  para começarem a operar “Eyes on Idlib” (“Olhos sobre Idlib”). Entre estes conta-se a BBC, a Radio Europa Livre/ Rádio Liberdade, o BuzzFeed et oThe Huffington Post. Tudo gente insuspeita…

Simultaneamente, o Pentágono deslocou para o Golfo o contra-torpedeiro The Sullivans com 56 misseis de cruzeiro a bordo e enviou um bombardeiro estratégico В-18 equipado com 24 misseis de cruzeiro terra-ar para a base aérea Al-Udeid no Catar.

Se a responsabilidade da Primeira-ministra britânica Theresa May está clara em relação aos actos do MI6, ignora-se quem ordenou o destacamento militar dos EUA…onde o desrespeito pelas ordens do Presidente é requente nos serviços secretos e CIA. Emmanuel Macron, sempre a reboque justificou a retoma da guerra perante os seus embaixadores reunidos em Paris

Os autores deste plano sabem muito bem que já perderam a guerra se a considerarmos unicamente de um ponto de vista sírio. O seu novo objectivo parece ir bem para além disso. Trata-se para eles de provocar um conflito com a Rússia; isto é, uma guerra que se tornaria rapidamente mundial.

A Síria e a Rússia reagiram revelando os factos porque os seus serviços secretos não andam a brincar…E, por seu lado a Rússia reforçou a sua presença militar ao largo da Síria, realizando mesmo grandes manobras militares

O Departamento de Estado acabou por enviar o Embaixador James Jeffrey, e um oficial da inteligência militar para acalmar os países da região e garantir a todos os seus interlocutores que Washington não se preparava para bombardear a Síria com um pretexto fabricado.

O parlamento alemão rejeitou a participação de Berlim numa agressão ocidental contra Damasco, contrariando a tendência da Ministra alemã da Defesa. Esta questão causou divisões na coligação que governa a Alemanha, com o SPD a descartar qualquer envolvimento em tal interferência, a menos que fosse aprovada pelas Nações Unidas. A Alemanha está sob pressão dos Estados Unidos para aumentar seus gastos com defesa e assumir mais responsabilidades no âmbito da NATO.
 
Tudo isto aconteceu em simultâneo com uma grande pressão sobre a Síria e a Rússia para não bombardearem Adlib ou, pelo menos, para evitarem mortes civis, e para abrirem saídas de fuga humanitárias da cidade e da região (Adlib é capital de uma região com o mesmo nome), com apoio aos refugiados de maneira a não deixarem degradar excessivamente as suas condições. Idênticos cuidados foram tomados na reconquista de outras cidades, apesar das encenações dos capacetes brancos da Sra May.

Por cá os Senas Santos e tantos que tais foram verdadeiras carpideiras por uma causa não verificável no terreno, verdadeiros capacetes brancos ao serviço do MI5.

A Turquia é vizinha de Adlib e quer evitar refugiados. Por outro lado apoiou até agora um dos movimentos de oposição (a que chama moderado mas que se misturou já tanto com os outros que nenhum se distingue do outro…). O PKK já não é um movimento curdo que confiras perigosidade para a Turquia desde que se vendeu a serviços secretos ocidentais.

Estes grupos fustigaram, de forma imprudente as forças sírias como que a pedir resposta e destruíram mesmo quatro pontes para impedir a população de fugir, acentuando nesse gesto o carácter de reféns que tinha para com elas.
 

No passado 18 de Setembro, os presidentes das duas Coreias voltaram a reunir-se para implementar a Declaração de Panmunjom para a paz, a prosperidade e a reunificação da península da Coreia. Dois dias depois do fogoso John Bolton ter feito saber que um segundo encontro Donald Trump-Kim Jong-un, desejado pela Coreia do Norte, dependeria do cumprimento por esta da promessa da desnuclearização. Os dois chefes de Estado debateram agora a desnuclearização da península coreana e a possibilidade de retoma do diálogo entre a RPDC e os EUA.
 

Foi a terceira vez que os dois líderes coreanos se reuniram este ano, depois dos encontros de 27 de Abril e de 26 de Maio.

Na cimeira de Abril passado, Kim e Moon assinaram a Declaração de Panmunjom, visando alcançar a desnuclearização da península da Coreia, pôr fim às ações hostis de parte a parte, recomeçar as reuniões das famílias separadas pela guerra (1950-1953) e melhorar as relações bilaterais entre Pyongyang e Seul.

As imagens históricas do encontro de 13 de Junho entre os presidentes dos EUA e da Coreia do Norte ainda estão vivas na memória do mundo.

Para o presidente Donald Trump reunião foi perfeitamente positiva, chegando a postar no seu regresso a Washington: “A ameaça nuclear da Coreia do Norte não existe mais”. “Durmam bem esta noite”. Mas onde Trump viu apenas vitórias, a generalidade da grande imprensa que se lhe opõe apontou para incertezas e Obama quase lhe chamou traidor. Por outro lado, imprensa da Coreia do Norte sublinhou que conseguiu importantes concessões dos Estados Unidos, como o fim dos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul e a eliminação gradual das armas nucleares. E afirmaram que os Estados Unidos poderiam suspender as sanções contra a Coreia do Norte se a relação entre dois países melhorasse. O secretário de Estado, Mike Pompeou, reconheceu que ainda há muito trabalho pela frente para acabar com as armas nucleares da Coreia do Norte. Irritado com as críticas da imprensa americana, Trump chegou a afirmar que “O grande inimigo do nosso país são as fake news”.

Já antes da primeira cimeira entre as duas Coreia que se viria a realizar realizar em Panmunjon, na zona desmilitarizada da fronteira comum, o líder de Pyongyang declarou o fim de "todos os ensaios nucleares e do lançamento de mísseis balísticos intercontinentais. A viragem ocorreu no discurso de Ano Novo de Kim, em que este se apresentou disposto ao diálogo com a Coreia do Sul e abriu caminho à participação do seu país nos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyongiang, realizados em Fevereiro no sul, o que veio a suceder. Na imediata sequência dos Jogos, nos quais estiveram presente o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, e a filha do presidente Donald Trump, Ivanka, Kim sugeriu a realização de uma cimeira com o dirigente americano.

É conhecido nos meios diplomáticos que a prioridade de Kim não era o desenvolvimento do alcance dos seus mísseis nucleares mas, sim, o desenvolvimento da economia nacional, o progresso económico, chegar à normalização de relações com outros Estados e o reconhecimento da comunidade internacional.

Com uma economia sujeita a sanções internacionais, e dependendo de mercados paralelos e noutros meios para se equipar na maioria dos sectores, a Coreia do Norte sofreu enormes bloqueios económicos que lhe limitaram o seu desenvolvimento.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Bom fim de semana, por Jorge

"The history of science is a marvelous history. It makes you proud to be a human being.”
"A história da ciência é uma história maravilhosa. Faz-nos orgulhosos de sermos humanos."
Karl Popper (filósofo austro-britânico, 1902-1994) em entrevista de 1992.
 
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A confrontação dentro da Igreja com o Papa Francisco

A modéstia e humildade que Francisco tem transmitido com o seu mandato conferiram-lhe grande popularidade entre a generalidade dos crentes mas também acordaram a fúria dos sectores mais conservadores.
 

O arcebispo Carlo Maria Vigano pediu há dias ao Papa Francisco que renunciasse, por ter encoberto na Igreja dos EUA o caso do cardeal Theodore McCarrick. Mas fê-lo já depois deste ter renunciado no mês passado e após ter sido comprovadamente denunciado por pedofilia. Vigano negou, vários dias depois, ter sido motivado por vingança pessoal. De facto, tinha sido referido na imprensa italiana que a sua não ascensão a cardeal poderia ter estado por detrás dessa sua inusitada intervenção.
O arcebispo fez publicar a declaração inicial através do blogue de um jornalista da televisão italiana, Aldo Maria Valli, quando há dias o Papa estava na Irlanda e fazia a crítica da pedofilia no clero, pedindo, às vítimas e ao mundo, perdão. Vigano não incluiu nenhum documento comprovativo da sua contundente declaração, limitando-se a referir que os encobrimentos na Igreja estavam a assemelhar-se a «uma conspiração de silêncio não muito diferente da que prevalecia na máfia».
No avião de regresso da Irlanda, Francisco não se quis pronunciar sobre a declaração de Vigano. E pediu aos repórteres que o acompanhavam: «leiam o documento cuidadosamente e julguem por vós mesmos».

O que move o arcebispo Carlo Vigano?

Para quem conhece os meios do Vaticano, outra das afirmações do arcebispo Vigano, ex-embaixador do Vaticano em Washington, de que decidira falar porque «a corrupção atingiu os níveis mais altos da hierarquia da Igreja», só se pode compreender como querendo desconsiderar uma luta que Francisco estava a travar, desde o início do seu mandato – tal como acontecera com Bento XVI –, contra essa corrupção e outros fenómenos muito negativos em que está envolvida boa parte da Cúria, pelo menos desde o papado de João Paulo II.
Dois sacerdotes do Vaticano acusaram posteriormente Vigano de não ter tido consciência do impacto do encontro com uma activista contra o casamento entre homossexuais, que organizou sem prestar contas disso, quando da visita do Papa a Washington. O único encontro marcado que Francisco esperava ter era com um ex-aluno, homossexual, e o seu parceiro. Atitude que é perfeitamente coerente com a sua declaração, de há poucos dias, sobre a aceitação nas famílias e na Igreja dos jovens homossexuais.
Vigano afirmou que Bento XVI referira a Francisco, em 2013, a condenável conduta sexual de McCarrick, a quem tinha imposto sanções. E referiu que Francisco o ignorara. Ora no período em que ele referiu que McCarrick estaria sancionado, o «sancionado» acompanhara em actos religiosos Bento XVI, o que revela uma falha da narrativa de Vigano…Mas sobre isto, nada disse.
Está hoje claro que Vigano1 se escondeu por detrás de meios de comunicação conservadores para publicar a declaração, onde chega a dizer que existe no Vaticano «uma rede homossexual» que promove os homossexuais na Igreja…

As eminências do conservadorismo e a «demissão» do Papa

De acordo com as leis da Igreja Católica, os Papas podem resignar mas por decisão própria. Foi o que aconteceu com Bento XVI quando, ao chegar aos 85 anos, concluiu que já não tinha forças bastantes para o desempenho do papado. Nunca ninguém o levou a resignar, o que torna esta declaração de Vigano duvidosa.
Não se percebe como poderia o Papa renunciar livremente quando existem pessoas a fazer campanha para isso. Não existe no Direito Canónico algo semelhante ao impeachment. Mesmo que a pressão psicológica sobre ele se tornasse insuportável ele não a aceitaria. Face a uma inesperada aceitação, muitos a entenderiam como resultado de uma coacção.
No entanto existem eminências do conservadorismo na Igreja que entendem que o Papa é um bispo como os outros que poderia renunciar «por causas justas ou graves». Outros entendem que os Papas Bento XVI e Francisco foram mal aceites e confundiram os fiéis e a fé.
No último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais, expressou a ideia de que o Papa se aproxima da heresia. E em Setembro do ano passado 62 católicos descontentes, nos quais se incluem um bispo já retirado e um antigo director do Banco do Vaticano, publicaram uma carta aberta em que apontam a Francisco sete acusações específicas de ensinamentos heréticos.
Edward Peters, um conservador canonista de Detroit, disse no seu blogue que Francisco não deve ser considerado de forma diferente de outros bispos que, segundo a lei canónica, podem renunciar por causas justas ou graves e que o Papa também é bispo (de Roma)…

Um papado popular e que desagrada aos poderosos

A modéstia e humildade que Francisco transmitiu desde o início do mandato conferiram-lhe grande popularidade entre a generalidade dos crentes mas também fúria contra ele, inicialmente dissimulada, por parte dos sectores mais conservadores das hierarquias, nomeadamente em alguns países da Europa Central e nos EUA, acabou por vir à luz do dia.
O facto de ser o primeiro Papa não europeu agradou a todos os que não se conformavam com uma Igreja apenas dirigida por papas europeus, que ignorasse os sinais dos tempos, e a necessidade de dar resposta a novas e não tão novas questões, como a opção pelos pobres e a condenação do capitalismo global, as crescentes desigualdades sociais, a pompa e ostentação da riqueza no Vaticano, a continuidade do combate à corrupção e criminalidade no seio da Cúria e outras estruturas eclesiásticas, o divórcio entre casais católicos e o dificultar da sua normalização de direitos e deveres no seio da sua Igreja, o acolhimento na Igreja e na família dos homossexuais, a exigência do apoio dos estados ao fenómeno, que se acentuou dramaticamente, da imigração clandestina.
Francisco imprimiu acções práticas nas orientações para a Igreja. E também houve gestos simbólicos, mas que falaram por si, como conduzir um Fiat, transportar as próprias malas, pagar a conta em hotéis, receber um casal homossexual no México ou lavar os pés a refugiadas muçulmanas.
Como é evidente, o Papa não está a introduzir alterações revolucionárias, de ruptura, na Igreja. Por exemplo, em quase todo o mundo, os casais que se divorciam e voltam a casar têm acesso à comunhão apesar de ainda haver padres ultraconservadores que o recusam a fazer. Noutras questões há uma crescente abertura no seio dos fiéis e do clero.
«No último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais, expressou a ideia de que o Papa se aproxima da heresia»
A discussão conduzida pelos sectores mais conservadores está inquinada. Para eles, as reformas cautelosas de Francisco põem em causa a crença de que as verdades da Igreja são intemporais. E que assim continuam, porque se não são, então qual o seu valor? Para eles, a doutrina afirma que o Papa não pode estar errado quando se pronuncia sobre questões centrais da fé, e que, portanto, se está errado, não pode ser Papa. Por outro lado, se este Papa está certo, todos os seus antecessores têm de ter estado errados. É uma pescadinha de rabo na boca alimentada por uma teologia dogmática mas que não colhe significativamente entre os fiéis e boa parte do clero.
Esta intervenção do Papa nas chamadas «questões difíceis» pode levar à abertura de outra – que em rigor nunca tem estado fechada – a do celibato dos padres. A não-aceitação do casamento de padres. Se outras intervenções se dirigem mais para a abertura perante a sociedade, esta tem seguramente a ver com o pretendido aumento das vocações sacerdotais e a própria sobrevivência da Igreja.
«[o Papa Francisco] compreende por que estão as pessoas frustradas com a globalização»
Austen Ivereigh, New York Times
Em matérias internacionais, não seria de esperar de Francisco uma confrontação clara com os EUA e outras potências ocidentais, mas foi quebrada a santa aliança de João Paulo II com Reagan e Tatcher na guerra conjunta contra o comunismo. A nomeação do Cardeal Woytila como João Paulo II ocorreu na sequência da morte de João Paulo I, estranha pelas muitas dúvidas que ainda hoje suscita. João Paulo I identificava-se com as causas dos países emergentes e mais pobres, mais caras a Paulo VI.
A condenação da continuidade da guerra da Síria, pelo Papa Francisco, em Fevereiro deste ano, foi dirigida a todos os responsáveis intervenientes no conflito. Depois, em Abril, fez referência a que as populações devam ter acesso às ajudas de que têm urgente necessidade e apelou à cessação imediata da violência, para que seja dado o acesso à ajuda humanitária – alimentos e remédios – e se retirem os feridos e os doentes, nas situações de combate com os terroristas sitiados. Foi o caso presente de Idlib.
Em Bari, em Julho passado, promoveu uma cimeira ecuménica pelo Médio Oriente, com vários responsáveis cristãos, perante os quais recordou o «grande sofrimento» dos fiéis cristãos na Terra Santa, temendo a eliminação desta sua presença histórica.
No que respeita ao processo de reunificação da Coreia, afirmou, em mensagem do final de Março, que na Coreia se vive um processo de distensão após dois anos de escalada da tensão provocada pelos testes nucleares e balísticos da Coreia do Norte. «Que os que têm responsabilidades directas actuem com sabedoria e discernimento para promover o bem do povo coreano e para gerar confiança na comunidade internacional».
Ao falar sobre o Iémen, país devastado por três anos de guerra de agressão saudita, pediu «diálogo e respeito mútuo». Francisco citou, ainda, a Venezuela, país ao qual desejou uma saída «justa, pacífica e humana» para a crise política e humanitária.
O presidente russo e o líder da Igreja Católica, em Dezembro de 2016, tinham trocado pareceres «sobre a proteção dos cristãos na área de conflitos regionais e a importância do diálogo inter-religioso construtivo para preservar a base ética das questões de paz». Falaram ainda das relações entre a Igreja Católica e a Igreja Cristã Ortodoxa, dominante na Rússia.
Em Maio deste ano, o New York Times citava Austen Ivereigh, autor de The Great Reformer: Francisco and the Making of a Radical Pope (Francisco, o grande reformista e a realização de um papado radical), como tendo dito que as opiniões de Francisco se formaram na Argentina, influenciadas por uma vertente do nacionalismo latino-americano mais voltada para a resistência às forças multinacionais, e não para uma nostalgia europeia ligada a um passado de pureza mítica. «Ele compreende por que estão as pessoas frustradas com a globalização».2
Francisco tem tido a capacidade, no quadro de uma de uma situação geoestratégica hoje muito mais policentrada, de fazer pontes para que a paz possa progredir entre muitos actores. Não se lhe pode pedir, porém, que seja outra pessoa e trabalhe com outro Vaticano.
Na minha opinião, o seu papel tem sido construtivo para se atingir a paz em várias situações muito graves.
  • 1. Uma sucinta biografia do arcebispo Vigano e das suas controvérsias pode ser encontrado em «Who is Archbishop Carlo Maria Vigano?», National Catholic Reporter, 28 de Agosto de 2018.
  • 2. Ao contrário, a direita populista, pela voz de «Steve Bannon – ele próprio católico – gosta de chamar a Francisco “comunista”, pela sua política econômica». Em «Pope Francis in the wilderness», New York Times, 29 de Abril de 2018.
Publicado originalmente no dia de hoje em www.abrilabril.pt

Bom fim de semana

"Saber que não se sabe é bom. Pensar que se sabe aquilo que não se sabe é doença."
Lao Tse (filósofo lendário da China Antiga, séc. VI - IV aC)