Constata-se, neste ano de 2018, que se esboroaram as promessas iniciais da UE sobre o Euro. As perspectivas são de novos sofrimentos para os povos europeus, se este caminho desastroso não for travado.
A Cimeira Europeia de 28 e 29 do mês passado, praticamente esgotou na importante questão das migrações as atenções mediáticas. Mas quanto às «tensas» negociações sobre estas, o que é que as resoluções do Conselho relativas à imigração revelam dia após dia, depois de 28 e 29 de Junho? Revelam que a extrema-direita ganhou, em termos formais, em todos os tabuleiros. E que as «conclusões» da cimeira, tendo uma orientação e uma ideologia definidas, ainda não viram a sua concretização. Mas também revelam o plano de cedências à extrema-direita que já tinha sido definido no encontro Macron-Merkel em Meseberg.
2. O que está a ser decidido no plano da União Bancária, e não só, vai ter impacto muito negativo não só em Portugal mas também nos outros países que mais têm sofrido com o euro. Talvez por isso o esmagamento mediático deste Conselho Europeu com a questão das migrações tenha remetido para uma penumbra, pouco apelativa ao debate e escrutínio público, dessas outras questões.
A intenção evidente das medidas tomadas ou a tomar no Conselho de Dezembro deste ano parece seguir a palavra de ordem «Daqui ninguém sai!». Essa dificuldade de decidir sobre a manutenção ou não na zona euro passará a ser acrescida com o aumento dos custos de uma reestruturação da dívida pública soberana, e da saída do euro por parte de um ou mais países-membros. Com o resultado evidente de dificultar ainda mais a saída de países da zona euro.
Como muitos economistas têm salientado, o debate político está reduzido a relatórios de avaliação e controlos de gestão. Um destes economistas, o francês Jacques Rigaudiat1, diz que tudo isto se passa a partir do conceito da dívida depois do Tratado de Maastricht, de 1993, que transformou em código disciplinar a nova relação de forças resultante da mundialização. O golpe consistiu, segundo ele, em identificar a «dívida pública» com o que chama de «dívida maastrichtiana». Esquecendo-se dos activos do Estado ou do serviço público, provocam rapidamente a explosão da dívida. Não têm, de seguida, nenhum problema em demonstrar que os povos «vivem acima dos seus rendimentos» e instar os governos a fazer as reformas «que se impõem». Citando Étienne de La Boétie, autor do Discurso da servidão voluntária (1571)
«Logo que o sistema esteja a funcionar, um discurso culpabilizante invocando o bom senso burguês (“não se vive acima dos seus meios”) faz o resto…»
Os Estados e, por conseguinte, os povos, não são apenas apontados a dedo pela sua dispendiosa irresponsabilidade. Perdem também a sua autonomia. O Tratado de Maastricht submeteu-os directamente ao diktat dos mercados. O seu artigo 104º, que o Tratado de Lisboa confirmou em 2007, proíbe à banca central europeia «conceder a descoberto». Os credores agora são privados. Para lutar contra o endividamento, o Estado deixa de ter credores institucionais. São os mercados que passam a ser os únicos credores. Rigaudiat tem uma fórmula cuja justeza nos arrepia: «o Estado tornou-se privado». A corporate governance2 substitui a política. Assim se compreende como, em tal ambiente, podem surgir personagens como Macron, que se quer tornar o homem para a situação. Entre o Estado e os mercados, diz-nos o autor, «fica o vazio». E a vertigem apoderou-se das democracias. O autor estende a sua demonstração depois às administrações. As páginas consagradas ao déficite da Segurança Social são particularmente edificantes. Vê-se que este déficite, em parte artificial, serve, em última análise para… financiar as empresas. A dívida acaba por se tornar numa «arma de dissuasão massiva» para o modelo social. Rigaudiat não esconde a questão política, a necessidade de pôr em causa tratados.
3. O primeiro-ministro, António Costa, valorizando muito o papel de Mário Centeno na preparação destas decisões, e das que se seguirão em Dezembro, considerou que a «cimeira do euro» representou «um grande passo em frente», desvalorizando o facto de não ter havido mais avanços a nível de um orçamento para a zona euro.
Entretanto está em discussão a proposta da Comissão Europeia de Quadro Financeiro para o período 2021-2027. Portugal e outros países que careciam de mais recursos para investir no crescimento, vêem nele esses recursos reduzidos, enquanto aumentam os recursos para as áreas da defesa e da indústria militar, e em políticas securitárias. E o governo já aprovou o Programa de Estabilidade que apresentou à Comissão e onde as prioridades continuam a ser a dívida e o défice. Em vez de nele se mobilizarem todos os recursos disponíveis para o aumento do investimento público e para um maior e mais substancial crescimento económico, para a melhoria dos serviços públicos, para a defesa da produção nacional, da agricultura familiar e do interior, para a elevação da protecção social, para a melhoria dos salários, reformas e pensões, para o apoio à cultura, à ciência e à investigação. Neste programa do governo estão inscritos cerca de 35 mil milhões de euros para pagamento de juros da dívida nos próximos quatro anos!
4. No último Conselho Europeu, sem impacto público, e sem que o governo sentisse necessidade de sobre isso fazer uma simples conferência de imprensa, foram objecto de deliberação questões tão importantes como as relativas a mudanças que têm a ver com a União Bancária e o futuro Orçamento Europeu.
Outra questão é a de como os fundos de garantia dos depósitos bancários sairão, em duas fases, do nível nacional para passarem ao nível europeu, devendo de seguida os ministros das Finanças negociar qual a forma de funcionamento do sistema, quanto cada membro terá de pagar, e também que salvaguardas existirão para que o sistema europeu não beneficie os «infractores».
A questão da transformação do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) é outra decisão grave. O MEE, que fora criado para tornar permanente o fundo de resgate do euro para responder à crise das dívidas soberanas, depois do primeiro resgate da Grécia, terá de servir em primeiro lugar de financiador do Mecanismo Único de Resolução (MUR). O MUR, financiado com as contribuições dos fundos de resolução nacionais, tem como missão financiar as resoluções de bancos, mas a sua capacidade financeira está limitada a cerca de 60 mil milhões de euros, quando for concluído.
O MEE irá ter a capacidade legal de ajudar a financiar resoluções e crises no sistema bancário com um montante de igual valor, recorrendo a empréstimos no mercado, como tem vindo a fazer para os resgates aos países do euro.
O Eurogrupo vai preparar os termos de referência do mecanismo de apoio comum e aprovará uma ficha descritiva para o desenvolvimento futuro do MEE, até Dezembro deste ano.
O MEE reforçará o seu papel no apoio financeiro aos países que pedirem ajuda, no seu controlo e monitorização, com a criação de regras muito semelhantes às do Fundo Monetário Internacional. Mas também acompanhará os orçamentos dos países-membros, procederá à análise da sustentabilidade das dívidas públicas soberanas e vai supervisionar a sua reestruturação, «facilitando» o diálogo entre governos soberanos e investidores (credores) privados.
Ou seja, o MEE ganhará poderes e assume funções de outras instituições europeias, como a Comissão Europeia e o BCE. E, mais preocupante ainda, retirará mais poderes aos governos e parlamentos nacionais.
A questão da harmonização da lei de insolvências, proposta no âmbito da União dos Mercados de Capitais, irá impedir os países membros de promoverem reestruturações de dívida privada e/ou pública através de alterações às leis de insolvência, ainda hoje essencialmente nacionais.
Outra questão objecto de deliberação foi a mudança nos requisitos de capital dos bancos. Para o economista Ricardo Cabral3, «sobre a União Bancária pretende-se aparentemente eliminar o instrumento de recapitalização directa de bancos, actualmente constante da directiva europeia sobre recuperação e resolução bancária. Se assim for, passariam a existir, na prática, somente dois instrumentos de política económica para responder a crises de confiança e solvabilidade em bancos de média ou grande dimensão: resolução ou liquidação».
O mesmo economista rematava «O valor económico dos temas abordados na referida carta do presidente do Eurogrupo que, refira-se, é quase um copy-paste da declaração de Merkel-Macron em Meseberg4 é muito significativo. As medidas propostas que beneficiam de maior consenso têm efeitos redistributivos profundos a médio e longo prazo. Nomeadamente, afectam negativamente o nível e qualidade de vida de milhões de pessoas ao longo de décadas”.
Os restantes temas que Mário Centeno, na qualidade de presidente do Eurogrupo, endereçara ao presidente do Conselho do Eurogrupo para ratificação, foram remetidos para decisão posterior. Donald Tusk remeteu-as para continuação de debate no próprio Eurogrupo, para serem objecto de deliberação no Conselho Europeu de Dezembro. António Costa lamentou que a questão do Orçamento não tivesse sido aprovada neste Conselho mas considerou estar aberto o caminho para isso.
Isso inclui questões como o orçamento para a zona euro, apresentado como pretendendo a estabilização para os países que sejam afectados por recessões graves, mas que na prática significa retirar aos governos europeus o principal instrumento de governação soberana.
Outra ainda foi a questão da introdução de uma nova cláusula europeia (cláusula de acção colectiva) em todos os contratos de dívida pública dos países-membros que altera a de 2012, o que poderá ilegalizar e sujeitar a litigância em tribunais europeus as reestruturações de dívida pública soberana realizadas recorrendo a alterações à lei nacional, sem o consentimento de uma maioria dos credores.
Ainda outra questão será o diferenciar o risco da dívida pública dos países membros, que conduziria ao aumento das taxas de juro da dívida pública e privada dos países devedores e a uma redução das taxas de juro da dívida pública e privada dos países credores, com o consequente afundamento das economias dos primeiros.
Estamos, certamente, confrontados com alterações às leis europeias, posteriormente transcritas para leis nacionais, com vista a restringirem as opções de política económica dos países devedores.
5. Não por acaso foi dado à luz por estes dias um «calhamaço» digital de cerca de 800 páginas, da autoria de académicos europeus sobre estas matérias, num projecto Jean Monnet, The future of Europe: the reform of the eurozone and the deepening of political union (O futuro da Europa: a reforma da zona euro e o aprofundamento da união política). O coordenador Fausto Quadros, professor jubilado da FDL, federalista convicto, na introdução do dito calhamaço defende a existência de um ministro das Finanças e da Economia da zona euro, a transformação do MME num verdadeiro Fundo Monetário Europeu e a existência de um orçamento autónomo para a zona euro, sustentando ainda que se devia ir mais longe, nomeadamente promovendo a harmonização fiscal, a criação de um salário mínimo comum aos países do euro e o reforço dos poderes do Banco Central Europeu, transformando-o num banco realmente federal. Nem mais! E assim se criam os Estados Unidos da Europa…
6. Quando da criação da União Europeia, tudo eram perspectivas promissoras avançadas pelo seu núcleo central o qual, porém, o que verdadeiramente queria era conquistar os mercados dos novos aderentes que ia angariando. Na publicidade enganosa de então, para a maioria dos países-membros a UE deveria ser uma união de partilha chamada a retirar dinheiro de países economicamente fortes e distribuí-lo pelos mais fracos.
Nos últimos 40 anos, quase 400 mil milhões de euros dos países mais fortes foram redistribuídos pela UE para estruturar as economias dos países mais atrasados, como o nosso. Mas o que, em geral, não se contabiliza é a concentração de lucros nos principais países por via dessa conquista de mercados e da ruína da agricultura e da pecuária, das pescas e das indústrias transformadoras dos países que ficaram de portas abertas em nome da sacrossanta concorrência. É certo que os principais contribuintes foram a Alemanha com 33,4%, a França com 16,7%, a Grã-Bretanha com 13,8% e a Holanda com 10,4% e os principais beneficiários foram a Grécia (24,4%), a Espanha (23,9%), a Polónia (15,5%) e Portugal (12,7%). Mas alguns destes contribuíram para os maiores com muito mais e isso não está contabilizado.
Trinta anos de «redistribuição» não melhoraram, porém, a capacidade económica dos países beneficiários. Pelo contrário, eles continuaram a endividar-se ainda mais do que os países «doadores» (Grécia, 150%; Itália, 130%; a maioria dos outros estados com mais de 100% do PIB).
Importa, num parêntese, dizer que a dívida cresce não só cá como em todo o mundo, e que o seu peso está estimado em mais 200 mil biliões de dólares, representando mais de 386% do desempenho económico mundial. O que acaba por excluir a maneira tradicional de reduzir a dívida economizando dinheiro. Mesmo os principais países do mundo, como os Estados Unidos, a China e o Japão, estão tão endividados que iriam falir, se fossem empresas privadas.
A dívida foi atenuada porque os bancos centrais dominantes continuaram a «imprimir» sempre mais dinheiro sem valor (por não corresponder a acréscimos de riqueza produzida) e a distribui-lo sob a forma de crédito (na verdade, dívidas). E o endividamento continua pela expansão da oferta monetária que equivale à desvalorização das moedas, isto é, o dinheiro perde todo o seu valor, mas, por meio de uma propaganda engenhosa, continuamos a manter a confiança no dinheiro, enquanto os «investidores» bilionários, há muito tempo, converteram o seu dinheiro em todos os tipos de bens que existem por esse mundo fora.
O facto de os devedores europeus, como a Grécia, a Itália, a França, a Espanha ou Portugal, terem podido endividar-se desta forma, deve-se à moeda comum representada pelo euro e aos fundos de resgate europeu, que começaram por ser o retomar das responsabilidades, para depois o ser das dívidas – um monstro europeu de dívidas de 700 mil milhões de euros… Todos os acordos europeus excluem a mutualização das dívidas e responsabilidades, devendo os institutos financeiros e os países encarregar-se das suas próprias dívidas. Os políticos europeus têm violado assim não só os acordos europeus, como também os seus direitos de soberania nacional, levando a Europa, cada vez mais, a uma união de finanças e endividamentos.
«Em última análise, esta união fiscal, de endividamento e responsabilidade só serve para perpetuar o jogo diabólico da manipulação bancária com créditos malparados, produtos financeiros inquinados, moedas sem valor e dívidas crescentes dos estados-membros. Os principais actores desta falsificação financeira e monetária são os banqueiros do Goldman Sachs, nos Estados Unidos, e do BCE, de Draghi»5.
7. Alguns economistas retomaram a já antiga abordagem ética que teria que ser chamada à mesa das considerações. É o caso do suíço Peter Ulrich, que num trabalho de 20166 sublinhava que a ética empresarial integrativa incluía três tarefas básicas:
- a crítica da razão económica «pura» e do seu exagero normativo no economicismo (pensamento compulsório e crença cega no mercado global);
- o esclarecimento dos aspectos éticos de uma economia orientada para a vida (significado e legitimidade da «criação de valor» económico);
- a determinação dos «lugares» da moral da actividade económica numa sociedade bem ordenada de cidadãos livres (ética económica, ética da ordem, ética nos negócios).
Para o autor, a livre circulação de capitais não está de acordo com a dignidade humana. Não é aceitável que certos «mercados» determinem quem é eleito num determinado país. A livre circulação de capitais e o valor para os accionistas são ataques à dignidade humana, à liberdade, ao Estado de direito e à democracia. Se o mercado de acções pode decidir, numa fração de segundo, o destino do fluxo de vários milhares de milhões, para quem e em que país essa verba transita, se o dinheiro domina assim o mundo, isso é o fim do respeito pela dignidade humana, o fim da liberdade, do Estado de direito e da democracia.
Há cinco anos, os gregos foram forçados a submeter-se, embora o seu voto tenha sido no sentido contrário. Hoje, os «mercados» exigem a mesma coisa da Itália, em conjunto com a UE. Há cinco anos, os actores políticos dos «mercados» agiram sob o disfarce de políticos da UE e do euro. A deliberação dos homens do euro, que vergou a democracia grega há cinco anos, ainda é hoje um documento de vergonha.
O euro é o inimigo da liberdade, do Estado de direito e da democracia. Os mercados ameaçam a soberania. Uma montagem como a UEM (União Económica e Monetária) viola essa soberania. O objetivo dos «mercados» e dos seus actores políticos é eliminar a soberania dos cidadãos e enfraquecer o estado-nação.
Mas, para além desta abordagem ética, há que constatar que, neste ano de 2018, não só as promessas iniciais da UE se esboroaram, como a mesma apenas sobrevive de mentiras, com perspectivas de novos sofrimentos no horizonte para alguns países europeus, se este caminho desastroso não for travado.
1.La Dette, arme de dissuasion sociale massive, Jacques Rigaudiat, Éditions du Croquant, 220 p., Voulaines-sur-Seine, 2018.
2. Pode definir-se corporate governance como o sistema de regras e condutas relativo ao exercício da direção e controlo das empresas, que exprime a relação de uma empresa com os seus acionistas e de uma forma mais alargada a relação que a empresa mantem com os seus stakeholders (parceiros).
4. Vale a pena, para o confirmar, fazer a comparação das decisões e propostas aqui referidas por exemplo com o relato do encontro Merkl-Macron feito por Maria João Guimarães no Público de 20 de Junho passado.
6. Ulrich, Peter. Zivilisierte Marktwirtschaft. Eine wirtschaftsethische Orientierung, edição aumentada e revista, Haupt Verlag, Berna, 2010. Edição original em Auflage, Berna, 2008.
A questão central é como parar a deslocalização de populações do interior e nele recriar as redes económicas e sociais e condições de vida que se aproximem da modernidade só acessível no litoral.
foto Lusa
Não andando ao ritmo de acontecimentos e declarações retomo, um mês depois, o tema de um artigo de opinião do Presidente da República publicado num jornal diário, no passado dia 16 de Junho1, em que expressa a sentença de que «se Portugal não corrigir as assimetrias regionais até 2023, falhámos como país» (!).Estabelecia, assim, a próxima legislatura como meta para Portugal acabar com as desigualdades entre o interior e o litoral do país.Lido desta maneira, o Presidente quase parece apontar o caminho de uma revolução, que coloque entre parênteses o capitalismo ou o meta na gaveta. As assimetrias regionais, o abandono do interior, são características inseparáveis do capitalismo. Mas para Marcelo bastaria conviver com ele q.b., fazendo crescer a relevância do sector público no desenvolvimento, e dando ao Estado um papel acrescido e eficaz para o garantir, não só no plano legislativo, mas na realização de programas cofinanciados. Mesmo assim, o problema não ficaria resolvido em seis anos…
Mas esta não é a atitude política de Marcelo.
A questão central é como parar a deslocalização de populações do interior para o litoral e nele recriar as redes económicas e sociais e condições de vida que se aproximem da modernidade só acessível no litoral.
Tudo terá que começar com a regionalização.
A regionalização impõe-se com órgãos de governação, eleitos directamente pelas populações, com competências ao nível da definição de estratégias de desenvolvimento regional e de políticas públicas de investimento. Mas as regiões têm que ter recursos. E ter uma dinâmica que envolva todas as entidades locais. Tudo assente em novas políticas centrais e regionais, que rompam com o que foi a prática de sucessivos governos desde 1976.
E passará também pela transferência de competências para as autarquias locais, ensaiada há décadas por sucessivos governos como se de uma descentralização se tratasse, mas que se tem traduzido na desresponsabilização do Estado por funções que lhe competem, transferindo encargos para as autarquias, sacudindo para cima do Poder Local a justa insatisfação da população pela ausência de resposta na saúde, na educação, na cultura, no património, nos transportes e em alguns outros domínios.
O presidente não ignora certamente, porque se tem declarado solidário com a intervenção do governo na UE, que a proposta da Comissão Europeia de Quadro Financeiro para o período 2021-2027, que está em debate e em negociação, a ser aceite iria aprofundar injustiças e desigualdades. Com um corte no financiamento a atribuir aos países que têm sido mais prejudicados com as consequências da vinculação ao Euro e às políticas da UE, como é o caso de Portugal. E que essa mesma proposta prevê um aumento de rubricas nas áreas da defesa e da indústria militar e em políticas ditas de segurança, em vez de canalizar tais verbas para a política de coesão e a Política Agrícola Comum. E que, em conformidade, tem uma palavra a dizer em vez de pressionar os partidos que à esquerda têm viabilizado a actual solução governativa.
Para a declaração não ser encarada como populista ou de grande ingenuidade política, importaria que o Presidente, em sintonia com os restantes órgãos de soberania – até porque a Presidência da República no nosso sistema não é um poder executivo – pudesse ser fonte inspiradora de uma acção governativa central e regional, envolvendo as universidades, os representantes patronais e sindicais, da indústria e da lavoura, que aprovassem um planeamento de acções no âmbito da economia e em áreas como a saúde, educação, acção social, transportes públicos, de acesso a outros serviços públicos (dependências bancárias, rede multibanco, mini-lojas dos cidadãos, correio e telecomunicações), de políticas florestais, de medidas de apoio a uma agricultura com recursos que a modernizem e adaptem às necessidades da nossa soberania alimentar e de exportação, com margens de valor que não sejam esmagadas pelos cartéis das empresas de distribuição, que respeitem a valorização dos produtos nacionais na oferta aos consumidores.
Com tal declaração de Marcelo não seria de esperar que, no final desses cinco anos, viesse carpir, com lágrimas de crocodilo, como Miguel Cadilhe fez há dias2, dissertando também sobre o interior: «Não há uma causa tão difícil, tão nobre e esquecida». Cadilhe e outros poderão chorar lágrimas de crocodilo mas foram eles que, com as suas políticas acentuaram a desertificação. Quem, depois de Vasco Gonçalves, em São Bento, se preocupou com isso?
Há dois anos o actual governo aprovou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, «para abrir uma nova etapa no desenvolvimento dos territórios do interior». O programa era um conjunto de medidas avulsas repescadas de outros programas e nem uns nem outros se traduziram em resultados efectivos para este efeito…
O que tivemos e estamos a ter, ao longo de 42 anos foi a destruição da agricultura, das pescas e da indústria transformadora, que com as portas escancaradas, foram perdidas para a concorrência das empresas de países que têm mais beneficiado da União Europeia, ou pela imposição do fim de actividades que contribuíam para um músculo próprio da nossa economia, apesar de atrasada. Foram os países mais ricos que nos acenaram com uma inflação estável e baixa – que para um significativo crescimento económico não faz sentido – e fundos estruturais – que não beneficiaram, no essencial, aqueles que constituíam a malha essencial da nossa economia. E que, sendo menos hoje, a continuam a constituir.
2. Esta declaração do Presidente estaria, agora, de acordo com opiniões que nunca o vimos defender, e que o levariam a estar de acordo, seguramente, com a promoção de um efectivo desenvolvimento regional, assente no aproveitamento racional dos recursos, numa criteriosa política de investimento público e em outras políticas visando a conservação da Natureza, o combate ao despovoamento e à desertificação, e a um maior equilíbrio territorial e coesão económica e social das várias regiões, o respeito pelo sistema autonómico e pela autonomia das autarquias locais e o reforço da sua capacidade financeira, bem como a criação das regiões administrativas conforme a vontade das populações.
E que essa estratégia fosse integrada e objecto de planeamento. Com medidas de coordenação com as empresas, bancos, autarquias, sindicatos e diferentes associações, associando todos nesses objectivos gerais, que teriam que ser assumidos para o seu cumprimento efectivo.
No âmbito da economia o Estado teria que liderar processos do investimento público e privado, mesmo que algumas almas considerassem que isso era intervencionismo excessivo… O investimento e os grandes projectos públicos, diferenciados de acordo com as regiões, é necessário no quadro de um modelo económico que garanta o crescimento, mas também a distribuição da riqueza, valorizando quem trabalha e quem produz e criando emprego com direitos.
Se uma região não tem uma indústria que se não limite à extracção de matéria-prima, que não disponha de transformação que acrescente valor, há que a criar com apoios do Estado. Através preferencialmente de recursos endógenos e linhas de financiamento bonificados, dadas que fossem garantias de criação de postos de trabalho, incluindo de alta qualificação, a serem absorvidos das universidades, de maior ou menor proximidade, que contribua, com métodos de gestão adequados, salários e outras componentes de qualidade de vida, para a fixação profissional e para uma elevada produtividade e capacidade de concorrência.
Há que recuperar a agropecuária e a indústria, adequadas aos tempos de hoje, em benefício das regiões do interior, e evitar que o turismo substitua a actividade produtiva, apesar de ter também um importante papel na economia.
Mas não é esse o posicionamento político de Marcelo.
3. Tal como na indústria, outras linhas de intervenção terão que ser criadas em relação às explorações agrícolas.
Portugal não pode aceitar os cortes que a Comissão Europeia quer impor com uma grande redução de 15% nas transferências para Portugal do Orçamento da PAC, para o «Segundo Pilar» da PAC, o do chamado «Desenvolvimento Rural», o que dá menos 600 milhões de euros comparativamente com o período desde 2014 a 2020 que está a decorrer.
E isso porque o país tem maior necessidade que outros – sobretudo os do centro da Europa – em apoios públicos ao investimento estrutural, para produzir mais e ainda melhor e defender a sua soberania alimentar. Por outro lado, nestes fundos que, em geral, exigem cofinanciamento do Orçamento de Estado e autofinanciamento pago pelos agricultores, não é aceitável que o governo falhe, como até aqui, nessa comparticipação. O Estado tem de encarar e criar condições para ser ultrapassada esta dificuldade de grande parte dos pequenos e médios agricultores, que estão descapitalizados, para terem a capacidade financeira de aumentar o seu nível de autofinanciamento na execução dos projectos de investimento estrutural na agricultura.
A agricultura faz-se com os agricultores que não podem ser tratados como meros fornecedores de matérias-primas, ao mais baixo preço, para o grande agro-negócio. Há dois meses, no 8.º Congresso da Confederação Nacional dos Agricultores (CNA), foram aprovadas doze medidas de urgência para a contribuição das explorações familiares para a soberania alimentar que deveriam ter uma resposta positiva do governo e o Presidente da República está, certamente, informado delas3.
Decididamente, não encontramos até agora a simpatia de Marcelo Rebelo de Sousa com este tipo de políticas.
4. Não é compatível com esse desígnio que se quer nacional existirem, por exemplo, redes de distribuição que, para ganharem na concorrência esmagam os custos a pagar à produção, liquidando cada vez mais produtores. Se o Presidente valoriza tanto a concertação, compreenderá que certo tipo de «iniciativa privada» tem de obedecer a regras e ao planeamento de uma actividade económica que se quer harmónica. Não gostam assim? Vão distribuir para outros países e aqui se encontrarão soluções empresariais alternativas, se o crédito não descambar. E que algum desafogo, para explorações agrícolas e pecuárias, possa garantir o interesse de continuidade nelas dos jovens de hoje.
Marcelo concordaria? Claro que não.
5. A especulação imobiliária que, a pretexto das exigências dum cosmopolitismo que nos obriga estar nos tops de destinos turísticos nesta e noutras áreas de fortes implicações sociais4, empurra os residentes a abandonarem as suas casas e a inflacionar os custos da habitação, terá que ser impedida.
Importa desenvolver e promover uma política de uso do solo, determinada pelos direitos das populações e não pelos interesses da especulação.
Bruxelas não gostaria? Veríamos como resolver esse «irritante»…
Marcelo também não estaria de acordo.
6. O combate aos incêndios florestais foi o leitmotiv desta intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa.
No âmbito da prevenção e combate aos fogos importa insistir em que no nosso país muitos estudos estão feitos, sendo ainda muito poucas as intervenções que façam reverter as consequências de décadas das políticas governativas do PS, PSD e CDS.
O mundo rural foi muito afectado, no que respeita aos rendimentos das médias e pequenas explorações agrícolas e pecuárias – particularmente as familiares – esmagados pela concorrência estrangeira e pelos monopólios da distribuição, entre si concertados. Errada política florestal, escassez da presença dos organismos do Estado junto das populações, empresas e autarquias, erradas políticas florestais, debilidade no planeamento energético, do ordenamento do território, na demografia, e das infraestruturas – incluindo as comunicações.
Teve como consequências a desertificação do interior, a redução da soberania alimentar e uma prevenção florestal e defesa das populações muito escassa para as necessidades, com grandes debilidades do dispositivo de combate aos incêndios florestais.
Os fundos estruturais foram desequilibradamente aplicados, em benefício essencialmente para as grandes propriedades do sul do país
No que respeita à política florestal, mais do que criar novos grupos de trabalho e novas leis, mais think-tanks para a disputa de audiências mediáticas, há que aplicar a legislação existente, da Lei de Bases da Política Florestal à Estratégia Nacional para a Floresta, da Lei do Sistema de Defesa da Floresta contra incêndios (pese embora as suas insuficiências) à publicação do Inventário Florestal Nacional, entre outras. Aí se encontrarão os meios necessários para se evitarem os conflitos com os agricultores e entre instituições.
Como os comunistas portugueses há anos defendem5, «as medidas para valorizar a floresta têm de se centrar no rendimento dos produtores, na defesa dos Baldios e do seu uso e gestão pelos povos, com os apoios necessários, na elaboração do Cadastro Florestal investindo os meios necessários para tal tarefa, na atribuição de mais meios públicos – humanos, técnicos, financeiros e materiais – às estruturas do Estado que intervêm na floresta, na inversão da diminuição do peso relativo do sobreiro e do pinheiro e de espécies autóctones, face ao eucalipto. E, naturalmente, acelerar a preparação e melhorar a capacidade das forças do dispositivo de combate da ANPC e dos Bombeiros, tendo em conta os problemas verificados em 2017» (…)
«Meios para dotar o Ministério da Agricultura dos técnicos capazes de assegurar o apoio aos pequenos e médios proprietários e apoiar o seu livre associativismo. Para reforçar os serviços públicos no mundo rural. Para os investimentos públicos indispensáveis à fixação de pessoas e empresas. Para uma política agroflorestal que possa garantir a sobrevivência das explorações agrícolas familiares, onde tem um papel decisivo a garantia de preços justos à produção».
Marcelo deveria pronunciar-se sobre tudo isto.
7. O investimento em autoestradas para que as importações do estrangeiro chegassem aqui a preços mais competitivos fez secar múltiplos projectos de melhoria das redes viárias secundárias de apoio às populações e economias locais. Há que tirar esses projectos da gaveta e optar, também, pela opção de transporte público ferroviário que ultrapasse as limitações do automóvel e dos escassos, espaçados ou inexistentes horários das empresas de camionagem privadas.
8. Os atractivos para a fixação de médicos e outros profissionais de saúde em unidades de saúde de proximidade, em expansão, teriam de passar por medidas de eficácia verificável.
Importa realizar um investimento estrutural que permita que a média de mais de 4 médicos de família por 1000 habitantes chegue a todos os municípios, quando em muitos esse rácio é de 1 por 1000.
9. Há que acabar com o argumento de que as populações envelhecem ou desaparecem e que isso torna desnecessárias dependências bancárias, extensões de centros de saúde de proximidade, balcões dos CTT, escolas, tribunais de comarca. A garantia desses serviços é essencial para a fixação das populações. Isso exige a correcção desses encerramentos e a melhoria da qualidade dos serviços que prestam. Não invertamos argumentos por alguns querem inverter objectivos.
7. A fixação de jovens no interior não se resolve com uma varinha mágica… Citando Helena Neves: «É necessário planear o desenvolvimento. É necessário construir uma política de justa repartição da riqueza, coordenada com uma estratégia social, educativa e cultural nacional, que vise o desenvolvimento humano integrado de sectores e regiões»6.
O respeito pela juventude tem que deixar de lado os estereótipos degradantes dos pequenos projectos sem desenvolvimentos – tão só para satisfazer alguma procura mediática –, da não dignificação da qualidade de investigador e de bolseiro, dos contratos a prazo. Estamos cheios de competências e cérebros que, na realidade, fogem para o estrangeiro deixando com pena o país onde lhes recusaram as carreiras essenciais para o seu crescimento profissional, e entrega a objectivos nacionais incluindo o da valorização do interior.
E os casais jovens gostariam de ter filhos, de ter mais filhos para contribuir para atenuar os nossos déficites demográficos resultantes de prolongadas políticas que confrontaram até ao limite expectativas que a revolução de Abril justamente criou, porque por elas foi movida.
Marcelo até poderia estar de acordo com isto.
Não gostaria de terminar sem vos dizer que fiquei embevecido-estarrecido com o lancinante apelo de Cavaco Silva para os portugueses desatarem a fazer mais filhos: «Portugal não precisa de mais autoestradas. Portugal não precisa de mais pavilhões gimnodesportivos. Portugal não precisa de mais clubes e campos de futebol. Portugal precisa de mais crianças» (…) «os poderes públicos têm que criar condições para que os casais tomem a decisão de ter mais filhos», «dando força (?) aos casais portugueses para que tragam para o nosso país mais, mais e mais crianças», referiu Aníbal Cavaco Silva em Sernancelhe.
O Prof. Cavaco Silva não fez nada por isso. Bem pelo contrário. O Prof. Marcelo talvez pudesse perspectivar caminhos e acabar com este outro «irritante», agora detectado na instituição presidencial.
4. É o caso do relançamento da tentativa, por parte do BE e de uma parte do PS, da legalização da prostituição, eufemismo pelo qual se designa a legalização do proxenetismo, elevando o chulo ao estatuto de empresário, para facilitar o tráfico de jovens e crianças para melhor corresponder a exigências de tipos desclassificado de turismo e cosmopolitismo.
onio AbreuOs eurodeputados chumbaram ontem regras de limitações de uso da Internet a pretexto da defesa dos direitos de autor.
O Parlamento Europeu votou contra a nova proposta de directiva para os direitos de autor na Internet. O resultado motivou uma onda de aplausos em plenário e faz com que o texto seja novamente discutido pelos eurodeputados em Setembro.
A proposta de regras tinha o objectivo de limitar a pirataria online. Mas várias organizações de activistas de direitos digitais — entre as quais a associação portuguesa D3 (Defesa dos Direitos Digitais) e o departamento português da Internet Society —, bem como académicos e personalidades da Internet (entre as quais o inventor da Web, Tim Berners-Lee), argumentam que a forma como foi formulada podia representar uma ameaça à liberdade na Internet.
No que respeita aos eurodeputados portugueses, votaram contra a proposta os 3 deputados da CDU, a deputada do BE e dois eurodeputados. Os deputados do PS e PSD votaram a favor. Absteve-se um do PSD. Não votaram um do CDS e uma do PSD.
A proposta foi rejeitada com 318 votos contra, 278 votos a favor e 31 abstenções. A decisão não elimina a criação das novas regras, mas atrasa o processo até Setembro, altura em que os pontos mais sensíveis serão novamente debatidos e, eventualmente, reescritos.
Nas redes sociais, muita gente, como nós próprios, saudaram esta “vitória para a Internet”, da continuidade do acesso livre para toda a gente que a tem com recurso contra a mentira e as campanhas de desinformação e ocultação de dados dos grandes meios de comunicação social multimédia, onde não há liberdade de informação (de informar e ser informado). A Internet e as redes sociais criaram espaços de expressão livre do poderio económico e conseguem constituir-se como alternativa à ditadura mediática dos mais fortes. Que se servem apenas da bandeira dos direitos de autor. Na Internet as redes sociais não são propriamente benfeitores mas conseguem, por enquanto, que possamos aceder a essa liberdade que não tínhamos com os grandes patrões dos grupos multimédia.
Já o eurodeputado Axel Voss, relator do texto actual, da União Democrata Cristã da Alemanha mostrou-se descontente. Para Axel Voss, o resultado é uma perda contra as grandes empresas tecnológicas. “As grandes plataformas estão a pensar em dinheiro, e não na liberdade de expressão online”, tinha dito Voss ao PÚBLICO, horas antes da votação final. Axel Voss afirmou ainda que que teme pelo futuro da liberdade de imprensa perante as pressões que existe por parte das grandes multinacionais tecnológicas contra a directiva. “Estamos a chegar à altura de perguntar se ainda conseguimos ter uma imprensa independente na Europa”? A nossa resposta é: hoje praticamente não existe essa independencia. A CNN, o New York Times, o Guardian, o Le Monde, o El País, o Publico, etc., etc., não são independentes, e propagam ou criam mentiras.
Para Axel Voss, o resultado é uma perda contra as grandes empresas tecnológicas. “As grandes plataformas estão a pensar em dinheiro, e não na liberdade de expressão online”, tinha dito Voss ao PÚBLICO, horas antes da votação final. Axel Voss afirmou ainda que teme pelo futuro da liberdade de imprensa perante as pressões que existem por parte das grandes multinacionais tecnológicas contra a directiva
Os artigos 3.º, 11.º e 13.º motivaram a maior controvérsia. Respectivamente, definiam limites à recolha e análise de dados, permitiam aos sites de jornalismo cobrar pela partilha de excertos que acompanham os links para as suas páginas (algo que os opositores da proposta apelidavam de “taxa de link”), e responsabilizavam as plataformas pela publicação de conteúdo pirateado.
O artigo 13.º gerou múltiplas críticas por estipular a utilização de programas de reconhecimento de conteúdo para filtrar o que estivesse coberto por direitos de autor.
A proposta de actualizar as regras dos direitos de autor online na União Europeia surgiu em 2016 com o objectivo de garantir que os artistas e outros autores e as empresas de media pudessem beneficiar do conteúdo partilhado na Internet.
Impõe-se que as alterações legislativas contribuam para a crescente humanização do trabalho.
As recentes alterações da legislação laboral acordadas no âmbito da Comissão Permanente da Concertação Social têm sido objecto de argumentos contraditórios.
Fausto Leite
Assim, tem sido consensual a redução da duração máxima dos contratos de trabalho a termo de três para dois anos, bem como do tempo das renovações, que não poderá exceder o período inicial do contrato. Igualmente, não tem sido questionada a diminuição da duração do contrato de trabalho a termo incerto de seis para quatro anos, tal como a admissibilidade da contratação de trabalhadores à procura de primeiro emprego ou na situação de desemprego de longa duração, apenas, com fundamento na necessidade temporária da empresa, de acordo com a regra geral prevista no artigo 140.º do Código do Trabalho (CT).
Do mesmo modo, com a única excepção da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego, tem sido aceite a fixação de um limite de seis renovações para os contratos de trabalho temporário durante o período máximo de dois anos, tal como a taxa sobre a sua excessiva rotatividade.
Impõe-se que as anunciadas alterações legislativas contribuam para a crescente humanização do trabalho
Seguramente, estes limites podem contribuir para a diminuição dos abusos do recurso aos contratos de trabalho a termo e temporário, desde que seja assegurado o cumprimento destas novas regras.
Diferentemente, tem sido justamente criticado o alargamento do actual período experimental de 90
para 180 dias, nos contratos de trabalho sem termo dos trabalhadores à procura do primeiro emprego e
desempregados de longa duração, quando não estejam em causa cargos de complexidade técnica ou elevado grau de responsabilidade ou que pressuponham uma especial qualificação, bem como as que desempenhem funções de confiança” (artigo 112.º, alínea b) do CT).
Tal alteração, além de aumentar a insegurança laboral, viola o princípio da igualdade no trabalho e da proibição de discriminação, consagrado no artigo 13.º da Constituição e nos artigos 24.º e 25.º do CT.
Por outro lado, a generalização dos contratos de trabalho de muito curta duração, actualmente limitado pelo artigo 142.º do CT à actividade sazonal agrícola ou a eventos turísticos, tal como o aumento para 35 dias, também, contrariam o propósito de reduzir a segmentação laboral, sobretudo, nas micro e pequenas empresas.
De resto, a duração inicial de uma semana já tinha sido aumentada para 15 dias, tal como o limite anual de 60 para 70 dias, pela Lei 23/2012, de 25 de Junho.
Acresce o facto de, actualmente, ser possível a celebração do contrato de trabalho a termo certo por prazo inferior a seis meses nas situações temporárias, como é o caso de substituição de trabalhadores, acréscimo excepcional de actividade, tarefa ocasional ou serviço de curta duração. Por isso, o trabalho não declarado, que afecta muitos milhares de trabalhadores, pela gravidade dos seus danos, deve ser combatido através do aumento das sanções e do reforço da fiscalização e não através de mais contratos de muito curta duração.
Também se afigura desadequada a proposta de manutenção do banco de horas grupal, agravada pela redução da percentagem de 70% para 60% dos trabalhadores para o aprovar. Os limites máximos da duração de trabalho diário e semanal, respectivamente, de oito e quarenta horas, fixados no artigo 203.º do CT, não podem ser aumentados para dez e cinquenta horas, apenas, por grupos de trabalhadores, de cada empresa, muitas vezes precários, ademais, sem a justa retribuição do trabalho suplementar.
A todas as luzes, impõe-se que esta matéria seja negociada no âmbito da contratação colectiva com a participação das associações sindicais.
Estão em causa limites que vigoram em Portugal desde 10 de Maio de 1919 (Decreto n.º 5616) e que foram aprovados pela Convenção n.º 1 da Organização Internacional de Trabalho, de 29/10/1919.
O direito do trabalho nasceu no final do século XIX para mitigar a desigualdade entre empregadores e trabalhadores, protegendo estes, em especial, os jovens e as mulheres.
Em Portugal, a Constituição da República Portuguesa garante, nos artigos 53.º e 59.º, a segurança no emprego e o direito dos trabalhadores à organização do trabalho em condições dignificantes.
Assim sendo, impõe-se que as anunciadas alterações legislativas respeitem estes princípios fundamentais, contribuindo para a crescente humanização do trabalho.
Para a generalidade dos
portugueses, a palavra cartel aparece nestes últimos anos associada aos cartéis
da droga em zonas da América Latina. É certo que os cartéis de droga actuam,
não só mas também para limitar a concorrência no narcotráfico e garantir o
domínio dos mercados da droga.
Mas os cartéis são uma actividade
muito antiga em diferentes sectores da actividade económica, em empresas,
serviços, meios turísticos em sectores como os das telecomunicações e multimédia
bem como nos seguros e banca. Começaram na Idade Média com as guildas e
cresceram durante a Revolução Industrial na segunda metade do século XIX, isto
é, com a progressão e consolidação do capitalismo.
Quando falamos em cartéis, trusts e holdings estamos a
falar de realidades semelhantes introduzidas com os monopólios em capitalismo,
que efetuam uma união de interesses próprios contra os consumidores, a fim de
aumentar os seus lucros e evitarem a concorrência.
Assumindo várias formas, está,
frequentemente relacionada com os preços de venda ou o aumento desses preços, de
bens semelhantes, com restrições de vendas ou de capacidades de produção, com a
partilha de mercados ou de consumidores, ou com o conluio noutras condições
comerciais para a venda de produtos ou serviços. Na prática as empresas que
formam um cartel funcionam como empresas de um monopólio que esmaga a
concorrência. Também prejudicam a inovação, impedindo que novos produtos e
processos produtivos surjam no mercado.
Apesar de não haver em Portugal
explicitamente uma lei anti-cartéis, ao contrário do que acontece na maioria
dos países da UE, estas práticas violam o n.º 1 do artigo 9.º da Lei n.º
19/2012, de 8 de Maio (“Lei da Concorrência”). Apesar da expressão “cartel” não
constar da Lei da Concorrência, ela refere-se à atitude que “corresponde a um
acordo entre empresas com atividades concorrentes com vista a restringir a
concorrência e obter assim um controlo mais eficaz do respetivo mercado”
É à
Autoridade da Concorrência (AdC) que compete acompanhar estas situações.
Estimativas da OCDE
Segundo estimativas da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os cartéis
geram um sobre preço estimado entre 10 e 20% comparado ao preço em mercado
competitivo, e causam todos os anos prejuízos de centenas de milhares de milhões
de euros aos consumidores. A presidente da Autoridade da Concorrência estimava,
no ano passado, que a luta contra os "cartéis" podia reduzir entre
10% a 25% da despesa na contratação pública, isto é, entre 1800 a 4500 milhões
de euros por ano.
Este conluio entre concorrentes é
punível, entre nós, com uma coima até 10% do volume de negócios das empresas
infratoras. Os administradores e diretores das empresas podem também ser
pessoalmente responsabilizados e condenados ao pagamento de uma coima até 10%
da sua remuneração anual. Em casos de cartel na contratação pública, as
empresas podem ainda ser proibidas de participar em procedimentos de
contratação pública durante um período máximo de 2 anos.
O Programa de Clemência de 2006
O Programa de Clemência da AdC, criado em 2006, confere dispensa
total ou redução da coima às empresas envolvidas em cartéis – bem como aos
respetivos administradores e diretores - desde que revelem à AdC um cartel em
que tenham participado e que colaborem com a AdC na investigação. A primeira
empresa a denunciar o cartel em que tenha participado beneficia de dispensa
total da coima e as empresas seguintes podem beneficiar de uma redução da coima
até 50%. Os documentos apresentados são tratados como confidenciais. É, como se
verifica, um recurso do sistema judicial semelhante à “delação premiada”.
Desde a entrada em vigor do
Programa de Clemência, cerca de 45% dos processos de cartel tiveram origem em
pedidos de clemência, aumentando o número de casos investigados e com algum
tipo de resolução. Mas, em nome da transparência, importaria ficar claro o que
determina algumas empresas a se socorrerem deste programa, para além da redução
de coimas, e se há ou não outros objectivos que as levem a fazer isso. O
desfazer de um cartel também pode facilitar a entrada no mercado de empresas
estrangeiras com outra dimensão que facilite o esmagamento de empresas
nacionais e a sua incorporação nos activos dessas outras empresas
recém-chegadas.
Desde que foi criada em 2003 a
AdC a Autoridade da Concorrência já investigou há cerca de um ano 190 casos de
práticas restritivas da concorrência, de que resultaram 35 decisões
condenatórias com coimas que superaram os 48 milhões de euros pela participação
em mais de uma dezena de cartéis, tendo também sancionado administradores e
diretores das empresas envolvidas. Já no que respeita especificamente a
concentrações, até essa data, a Autoridade adoptou 840 decisões, seis das quais
de proibição de operações de concentração, e 36 de não oposição com o assumir
por parte das empresas de certos compromissos.
Vários casos de cartéis investigados e processados
São muito diversificados os sectores objecto de investigação que dá
origem a processos que originam condenações ou arquivamentos, alguns destes
sendo acompanhados por compromissos e outras indicções que vinculam os
processados.
A PT quando existia era um cartel
no sector das telecomunicações. Mais
recentemente, a Autoridade da Concorrência (AdC) declarou extinto o processo de compra da Media Capital pela Altice e, apesar
de não se tratar da constituição de um cartel como outros, a abrangência das
empresas que ficariam controladas pela Altice, levariam à deformação da
concorrência e à elevação substancial dos custos aos consumidores (que a AdC
estimou que, em certos cenários, poderia atingir os 100 milhões de euros por
ano).
Há mais de dez anos (Março 2007)
cerca de meia dúzia de casos estavam em fase de investigação avançada pela AdC
(Autoridade da Concorrência) e quase todos se referiam à prestação de serviços
ou ao fornecimento de bens ao Estado.
Um caso recente foi o de fornecimento de aeronaves para o combate a
fogos florestais que, segundo o governo, atrasou a aquisição dos aparelhos
considerados necessários para enfrentar uma situação como a de 2017, tendo
outros meios sido adquiridos, eventualmente por valores ainda superiores, para
garantir os meios aéreos considerado necessários para o combate neste ano.
No ano passado, por indícios de
cartel, foram feitas buscas em nove empresas do sector da manutenção ferroviária.
Em 2016 a prática nos consumíveis de material de escritório,
por suspeita de acção concertada na fixação de preços e repartição de mercado, a
Antalis foi condenada, ficando ainda sob investigação outras 4 empresas similares.
Também neste ano, a Associação Portuguesa de Escolas de Condução foi condenada por essas práticas. No mesmo ano
foi arquivado processo contra várias empresas de animação turística.
Em 2015 foram feitas
investigações em empresas de serviços
portuários dos quatro maiores portos portugueses mas o respectivo processo
foi arquivado.
Em 2015 também foi arquivado
processo contra a Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (“ALF”) e empresas suas associadas,
mas mediante compromissos e outras condições.
Nesse ano foram também arquivados
processos contra uma Ordem profissional
(mais duas em anos seguintes), contra a SIVA, SEAT, FCA e Ford Lusitana, onde se investigou a “Existência de uma restrição
constante de um contrato de extensão de garantia, a qual impedia os
consumidores de realizarem operações de manutenção ou reparação (não abrangidas
pela garantia) em oficinas independentes, sob pena de perderem o direito à
garantia do fabricante”.Os
primeiros três processos foram arquivados, o primeiro dos quais com condições, e
o quarto acabou numa condenação por declarações falsas.
Antes, entre outras, tinham sido
condenadas a Petróleos de Portugal e
GALP e algumas grandes empresas de
papelaria (2011), a Sport TV de
Portugal (2010), a Associação
Nacional de Farmácias e a Farminveste (2009), a Roche Farmacêutica, várias escolas de condução e a Royal Canin de Portugal
(todas em 2008).
O leitor interessado em conhecer
todas estas situações pode ir ao site
da Autoridade da Concorrência.
Na banca e nos seguros
Desde o ano passado, decorre a
investigação da Autoridade da Concorrência a uma possível cartelização no
sector dos seguros, resultante de
uma denúncia da Tranquilidade feita em 2017. Foi a própria Tranquilidade que,
confrontada internamente com a cartelização de seguros de trabalho, entregou à AdC os indícios dessa actividade
indícios, solicitando, ao mesmo tempo, a adesão ao Programa de Clemência. Este
programa constitui uma delação premiada, que permite à seguradora ficar livre
de qualquer penalização.
Idêntica investigação está em
busca no sector da banca, no que
respeita à cartelização nos spreads e comissões a aplicar aos
clientes, tendo neste caso sido delatores o Barcklay’s e o Montepio, que
também requereram a adesão ao Programa de Clemência. A AdC prometeu há um ano
medidas que ainda estarão dependentes do segredo de justiça que se mantem. Mas
a notificação dos 15 bancos alegadamente prevaricadores já vem de 2015, depois
de a investigação ter sido desencadeada em 2013 por denúncia, e de isso se ter
traduzido em buscas em 12 instituições financeiras, nomeadamente aos maiores
grupos como a CGD, BCP, BES, BPI e Santander Totta, aos considerados de média
dimensão com o Crédito Agrícola, Banif, Montepio, e aos de menor dimensão - Barclays,
Banco Popular, Banco BIC e BBVA Portugal.
Em 2015 a AdC confirmara que em
causa estava a "suspeita de prática concertada, na forma de intercâmbio de
informações comerciais sensíveis, de carácter duradouro, no que respeita à
oferta de produtos de crédito na banca de retalho, designadamente crédito à habitação, crédito ao consumo e crédito a
empresas
Depois de já ter admitido a
conclusão deste caso em 2016, esse desfecho transitou agora para este ano.
Aguardamos, com interesse, para ver somado mais este caso aos muitos que fazem
da banca portuguesa um caso de polícia e de desconsideração e prejuízo da
população que a procura. São empresas importantes, com capacidade de “manobra”
que outras mais pequenas não têm.
A cartelização tem associado um
conjunto de outras práticas ilegais
de diferentes empresas que dela beneficiam e, também aqui, quem mais recursos
tem até mais longe consegue resistir no “negócio”. Este poderá ser tema abordar
numa outra altura.