domingo, 17 de junho de 2018

De Oeiras à boleia, Lenine entra no Técnico ao romper da madrugada, por António Abreu



 
No 100º aniversário do nascimento de Lenine, em 1970, as portas e vitrinas do IST receberam centenas de vinhetas, feitas com um linóleo onde a maestria das goivas esculpira a sua efígie num delicado carimbo. 

Um grande escultor e professor da Escola António Arroio, o Vasco Pereira da Conceição, com obras por exemplo nos jardins e lago do Parque Eduardo VII, companheiro de outra escultora, a Maria Barreira, (1914-1992), esculpiu-o em gesso. Era uma peça que teria uns 50x30x50cm, com cerca de 10 kg de peso. Veio de carro e entrou pela porta da Av. Rovisco Pais.
Foi colocado inicialmente no muro que separa os pavilhões de Química e Minas do campo de jogos da AEIST. O director de então, Fraústo da Silva não o soube ou decidiu não tomar nenhuma atitude. Alguém o terá metido, posteriormente no cimo do armário, na sala de biblioteca/ reuniões da AEIST, o que certamente inspirou alguns pensamentos aos muitos estudantes que lá reuniam. Outro alguém o mutilaria mais tarde e acabou por sair de lá, não sei para onde.

Um outro camarada do Técnico, mas que integrava outro organismo do Partido foi encarregado de produzir e distribuir pequenos panfletos com o rosto do Lenine e as palavras, se bem se recorda: “ Por comemorações no Técnico”.

Estes pequenos panfletos (tamanho A5?) produziram alguma preocupação na Direcção da AEIST. Numa reunião de colaboradores o assunto foi abordado e este camarada recorda um dirigente da associação declarar, então, com ar de entendido, que devia ser coisa da Legião pois o panfleto teria sido feito em stencil electrónico…

Para ele fora a glória nas lides do Agit-Prop. De facto tinha sido utilizado um duplicador manual, que ele e outros tinham construído e que não funcionava lá muito bem (o rolo era um vulgar. “rolo da massa” revestido com uma câmara de ar de bicicleta). O desenho foi preparado por ele (que confessa não ter grande jeito) por decalque do contorno de uma fotografia, com uma esferográfica directamente sobre o stencil que se apoiava numa capa de plástico rugoso (daí o ar de stencil electrónico).

Não se recorda se usaram o duplicador para algum outro material, mas pensa que não pois não tinha qualidade suficiente para imprimir texto normal.

 

sábado, 16 de junho de 2018

Bom fim de smana, por Jorge



"The very meaninglessness of life
forces man to create his own meaning."
 
"A própria falta de sentido da vida
obriga a humanidade a criar o seu."

Stanley Kubrick
cineasta americano, 1928-1999
em entrevista ao magazine Playboy em 1968

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A “guerra comercial” de Trump pode virar-se contra os interesses dos EUA, por António Abreu


Taxa de cobertura das importações pelas exportações(tx=export/importx100) dos EUA, de vários países e da UE


    A taxa de cobertura de Portugal passou de 79,0 em 1996 para 104,3 em 2017.Na U28 o país em que esta taxa mais cresceu foi a Alemanha onde passou neste período de 103,7 para 119,3
 
A tensão entre as grandes potências económicas pode vir a afectar vários países e reduzir o fluxo do comércio internacional, com consequências difíceis de antecipar quanto é certo que continuam a decorrer negociações entre as partes envolvidas.

As tarifas de 25% aplicadas pelos EUA ao aço e de 10% a o alumínio importados começaram a ser aplicadas em relação ao Canadá e México. A UE e a China também são alvo de medidas semelhantes. Todos os atingidos estão a retaliar, não sendo claro quem vai ficar pior no fim disto tudo.

Os EUA importam mais destes países do que exportam para eles (importa 296 mil milhões de dólares do Canadá e exporta para ele apenas 266, enquanto importa do México 302 enquanto exporta para ele apenas 229). O argumento de que passou a praticar essas taxas em nome da segurança nacional foi ridicularizado pelo 1º ministro do Canadá mas é real que os EUA estão a depender cada vez mais de importações de aço e alumínio - particularmente importantes na construção de navios e aviões - para satisfazer os apetites do complexo militar-industrial em construir cada vez mais para vender cada vez mais.

Em relação à China, esta e os EUA tiveram uma reunião nos passados dias 2 e 3 e para a China os resultados destas conversas devem respeitar o pré-requisito de que as duas partes encontrem o equilíbrio e não entrem numa guerra comercial. Segundo o documento saído das reuniões, para a parte chinesa implica que” todos os resultados económicos e comerciais das conversas não entrarão em vigor se o lado norte-americano impuser sanções comerciais, incluindo o aumento das tarifas", o que parece normal para quem negoceia de boa-fé.

Dos acordos bilaterais que os EUA queriam assinar com outros países, já foram assinados acordos com a Coreia do Sul, a Austrália, a Argentina e o Brasil. Mas, o mais importante, foi a guerra comercial com a China ter sido suspensa por tempo indeterminado, uma vez que Pequim se mostrou disposta a negociar um acordo que prevê o aumento das importações chinesas de energia e bens alimentares norte-americanos num valor que permita aos Estados Unidos reduzir o seu défice comercial com a China.

A China comprometeu-se a trabalhar com os exportadores chineses para reduzir o déficite comercial dos EUA com a China. Mas para isso os EUA precisariam de uma redução de pelo menos 200 mil milhões de dólares até o fim de 2020. Ora, vários especialistas em comércio internacional dizem que os EUA não têm pura e simplesmente a capacidade de aumentar a produção o suficiente para atingir essa meta, substituindo as importações por produtos equivalentes produzidos nos EUA. Para eles, os EUA estão a operar com pleno emprego nas suas empresas que trabalhem para esse fim e nelas não há uma grande capacidade produtiva subutilizada.

Uma “guerra” de tarifas aduaneiras dos EUA com a China podem, por exemplo, provocar a queda abrupta da competitividade da indústria automobilística dos EUA. E, nesse caso, a China aumentará as encomendas de automóveis aos países europeus e asiáticos e potenciará o crescimento da indústria automóvel da China para o seu enorme mercado interno.

A economia dos EUA na sua relação com outros países está, de facto, a evoluir de forma negativa (ver anexo).

Quanto à Alemanha, esta fechou 2017 com um recorde de exportações, embora o seu excedente comercial tenha recuado pela primeira vez em oito anos.

As exportações da maior economia europeia chegaram a 1,279 biliões de euros, num acréscimo anual de 6,3%. Já as importações foram de 1,034 biliões de euros (+8,3%).O excedente comercial foi, consequentemente, de 244,9 mil milhões de euros.

As exportações alemãs para a Europa aumentaram 6,3% em 2017, atingindo os 750 mil milhões de euros, com subida de 7% nas vendas para os países da zona do euro, e de 5,1%, para os demais. As exportações para países não europeus, incluindo os Estados Unidos, maior parceiro comercial da Alemanha, também cresceram 6,3%, isto é, 529,4 mil milhões de euros.

As importações dos EUA de países não europeus cresceram 2,3%, enquanto as procedentes da Europa subiram 7,9% (!). Em Janeiro, o presidente Donald Trump voltou a criticar a Alemanha, por considerar excessivo o seu superavit comercial com os EUA. O líder americano tinha ameaçado impor tarifas aduaneiras como represália, o que poderia afetar a indústria automobilística alemã. E também criticou a Alemanha por esta comprar gás natural à Rússia, potência “inimiga”, e permitir que o seu território fosse atravessado pelos gasodutos da Gazprom para outros países europeus.

Para compreender esta debilidade relativa dos EUA, há que ter em conta que a economia dos EUA e as suas estruturas financeiras nunca recuperaram da grande crise financeira de 2008, apesar de já terem passado dez anos. Pouco se discutiu o facto de o Congresso Republicano no ano passado ter abandonado o processo de cortes orçamentais obrigatórios ou cativações automáticas que tinham sido votados numa tentativa de conter o aumento da dívida do governo dos EUA. Se se atender aos orçamentos federais, cerca de 75% dos gastos federais são economicamente improdutivos, neles estando incluídas as despesas militares, o serviço da dívida mas também outras despesas. Ao contrário da Grande Depressão dos anos 30, quando os níveis da dívida federal eram quase nulos, hoje a dívida é de 105% do PIB e está a aumentar. Os gastos em infraestruturas económicas nacionais, incluindo a Tennessee Valley Authority e uma rede de barragens construídas pelo governo federal e outras infraestruturas, resultaram do grande boom económico dos anos 50. Depois disso nada de significativo foi feito e os 1,5 biliões de dólares aprovados para o programa do novo caça F-35 contribuirão para agravar muito mais o déficite.

Nesta situação precária, Washington está a confrontar os próprios países de que precisa para financiar esse déficite, comprando-lhe a dívida dos EUA. Como acontece com a China, Rússia e o Japão. Como os investidores financeiros exigem mais juros para investir na dívida dos EUA, as taxas mais altas agravarão a situação e os ratings das notadoras financeiras, mesmo seguindo os interesses da administração norte-americana, não perdoarão. Parece que ninguém em Washington se importa com isso e esse é um facto alarmante.

A generalização de taxas de importação maiores, como expressão do confronto comercial entre grandes grupos económicos mais ou menos aliados dos EUA, não vai resolver o problema da economia americana e irá gerar uma grande redução do comércio internacional com consequências para os EUA e para muitos outros países.

Este é o pano de fundo das perigosas opções de política externa dos EUA no momento em que os efeitos positivos do processo de desnuclearização na península coreana são obscurecidos por provocações de diferentes tipos como as intervenções com bandos dedicados a destruições na Venezuela e na Nicarágua, a manutenção ainda do apoio a grupos terroristas já praticamente derrotados na Síria, e os bombardeamentos nesta de força da "coligação internacional
 
A verde os países que hoje integram a Organização de Cooperação de Xangai (OCS)
 
Contrastando com esta situação de conflitualidade, realizou-se  na China o 18º encontro do Conselho de Chefes de Estado da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS), Ao longo dos últimos 17 anos os estados que a integram acompanharam a tendência de paz, desenvolvimento, cooperação e benefício mútuo, apostando nos dois vectores da segurança e da economia para avançarem em conjunto. 

Nesta reunião participaram os novos membros India e Paquistão que assim se juntam ao Cazaquistão, República Popular da China, Quirguistão, Rússia, Uzbequistão e Tajiquistão. Inclui ainda cerca de vinte observadores (incluindo o Irão, Afeganistão, Bielorússia e Mongólia), parceiros de diálogo e convidados. A cimeira vai facilitar as trocas comerciais e a cooperação entre os países-membros e que isso inclui a cooperação entre micro, pequenas e médias empresas e o desenvolvimento do comércio de serviços, comércio eletrónico e think tanks económicos. Para além do apoio à luta travada pela Síria, entenderam que os conflitos no Afeganistão devem ser resolvidos pela própria população
O comunicado em 10 pontos saído da reunião contempla

1- Oposição à fragmentação nas relações comerciais mundiais e a qualquer forma de protecionismo comercial.
2 – Apoiar a Exposição Internacional de Importação da China, a ter lugar em novembro de 2018, em Shanghai.
3 - Persistir na resolução da questão da Península Coreana através do diálogo e da consulta.
4 - Enfatizar o diálogo político e a criação de um processo de paz e reconciliação, liderado pelo Afeganistão, como única forma de resolver a questão afegã.
5 – Destacar a importância da implementação sustentável do acordo nuclear iraniano, e apelar às partes concernentes para garantir a total implementação deste.
6 – Oposição ao uso de armas químicas por qualquer pessoa, em qualquer lugar, independentemente das circunstâncias.
7 – Aprovar a concepção da Cooperação na Proteção Ambiental dos Estados Membros da OCS.
8 – Apoiar a cooperação na área da inovação.
9 – Dar continuidade à pesquisa para a criação de um banco de desenvolvimento e de um fundo de desenvolvimento da OCS.
10 - Promover a cooperação mediática e apoiar a realização de uma cimeira de imprensa da OCS.
 




 
Anexo - Alguns dados sobre a economia norte-americana
 
Principais produtos agropecuários produzidos: milho, algodão, frutas, trigo, vegetais, leite, carne de porco, peixe.

 Principais produtos industrializados produzidos: automóveis, máquinas, aviões, computadores, equipamentos eletrônicos, navios, produtos químicos, têxteis, alimentos processados, equipamentos de telecomunicações.

Principais recursos exportados: agrícolas (trigo, milho, frutas); suprimentos industriais (adesivos, cerâmica, vidro, ferramentas, gesso, lanternas); manufacturados (motores de veículos, computadores, equipamentos de telecomunicações, transistores).

Principais recursos importados: carros, crude, unidades de disco digitais, e medicamentos embalados

Principais parceiros económicos (exportação): Canadá, México, China, Japão e Alemanha

Principais parceiros económicos (importação): China, Canadá, México, Japão e Alemanha

Exportações (em 2016): 1,471 biliões de dólares

Importações (em 2016): 2,205 biliões de d´lares

Saldo da balança comercial: déficite de 734 mil milhões (em 2016)

PIB dos EUA cresceu 1,6% em 2016, ficando, em valores nominais, pelos 18,2 biliões de dólares, e o PIB per capita 57,5 mil dólares

Os Estados Unidos são a 2º maior economia exportadora no mundo (a 1ª é a China). Em 2016, os Estados Unidos exportaram 3,5 biliões e importaram 4,88 biliões de dólares, do que resultou um saldo comercial negativo de 1,38 biliões. Em 2016, o PIB nominal dos Estados Unidos foi de 18,6 biliões e o seu PIB per capita de 57,5 mil dólares.

As exportações principais do Estados Unidos são Indeterminado (159 mil milhões), Produtos refinados do petróleo (63,9 mil milhões), Carros (62,3 mil milhões), Aviões, helicópteros, e / ou naves espaciais (60,2 mil milhões) e Turbinas a Gás (56,1 mil milhões). As suas principais importações são Carros (177 mil milhões), Crude de Petróleo (104 mil milhões), Unidades de Disco Digital (88,6 mil milhões), Indeterminado (85,8 mil milhões) e Medicamentos embalados (74,4 mil milhões).

Os principais destinos de exportação dos Estados Unidos são o Canadá (266 mil milhões), o México (229 mil milhões), a China (115 mil milhões), o Japão (63,2 mil milhões) e o Reino Unido (55,3 mil milhões).

As origens de importação de topo são da China (385 mil milhões), do México (302 mil milhões), do Canadá (296 mil milhões), do Japão (130 mil milhões) e da Alemanha (118 mil milhões).

O saldo negativo da balança comercial dos EUA aumentou 1,59% em Fevereiro deste ano, ascendendo a 57.600 milhões de dólares (46,9 mil milhões de euros), o valor mais elevado em mais de nove anos.

Nota - Actualizado em 18/6/18 

Bom fim de semana, por Jorge


"Inside every cynical person,
there is a disappointed idealist."
 
"No íntimo de cada cínico jaz
um idealista desiludido."

George Carlin
comediante americano
937-2008

sábado, 2 de junho de 2018

A agressão bárbara por esquerdistas a José Manuel Jara em 1972 numa reunião da RIA, por António Abreu

José Manuel Jara, presidente da Direcção da CPA de Medicina foi barbaramente espancado na noite de 24 de abril de 1972, ao entrar numa reunião da RIA (Reunião Inter-Associações de Estudantes) que estava a decorrer nas instalações da AE do ISCEF, com entrada pela Rua Miguel Lupi.

Uma delegação da Pró-Associação de Medicina, que incluía Sita Vales e Ferreira Mendes, compareceu a essa reunião, e o Jara chegaria mais tarde por estar numa reunião com a Ordem dos Médicos. A ordem de trabalhos tinha como ponto único a luta contra a repressão. No começo da RIA a delegação da Associação de Ciências propôs como ponto prévio que a reunião tomasse uma posição face aos “provocadores”.

A delegação de Ciências adiantou que conhecia um provocador pidesco… e esse provocador pidesco era o Jara (!!!). Porque tinha acusado os dirigentes da AE de Ciências de ter abandonado os estudantes da sua escola, encerrada. Para espanto total de todos os estudantes de boa-fé que ali estavam, iniciou-se o “julgamento" sem a presença do "réu”.

A maquinação e a trama não se ficaram por aqui. Como esta questão não fosse suficiente" (?) para a "condenação" fizeram-se alegações falsas de intuito deliberadamente provocatório e não provadas sobre "outra conversa pessoal". O Jara tinha sido abordado na CPA de Medicina por uma estudante de Medicina, irmã de uma dirigente associativa de Ciências, que lhe mostrou um comunicado clandestino do PCP apelando ao 1º de Maio, e ele comentou ser um risco andar com ele e, ironicamente, afirmou ainda que não mostrassem “aos gajos de Ciências que não iriam gostar disso…”

Foi votada a sua expulsão da RIA por 3 votos a favor (Ciências, Técnico, e MAEESL - Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa), 2 votos contra do Instituto Industrial e da Pró-Associação da Faculdade de Medicina e uma abstenção da Associação da Faculdade de Direito de Lisboa, que se distanciou do ocorrido (1).  

A direcção da CPA de Medicina presente, através de Sita Vales e Ferreira Mendes, afirmaram imediatamente em declaração de voto que não estariam presentes na R.I.A. enquanto não fosse revogada a decisão.
Foi uma “deliberação” contra o presidente da CPA da Faculdade de Medicina que sempre tinha defendido o Movimento Associativo, que fora eleito democraticamente eleito pela grande maioria dos estudantes desta Faculdade, que sempre tinha merecido a confiança destes para cumprir as suas decisões maioritárias. Tentou-se um processo maquiavélico de o "queimar" inquisitorialmente.

Quando a força não se impunha pelas ideias, optaram por impor as ideias pela força, a murro…
Ao chegar a Económicas para a reunião da RIA, o Jara foi avisado pela Sita Vales e pelo Ferreira Mendes, ambos da CPA de Medicina, e por outros estudantes, que lhe estava preparada uma “espera”, o que provocou a interrupção da RIA e gerou uma escaramuça, pois logo acorreram a defendê-lo vários estudantes.

O José Manuel Jara explicaria perante a reunião, de facto um tribunal-farsa, que confirmava (e repetia) ter dito em conversa pessoal - aquilo que trágico-comicamente se considerou o delito - com um membro da Direcção da AE de Ciências que foi a uma reunião de estudantes de Medicina para aí denegrir a luta dos Estudantes de Coimbra (1968-1969). Ao que o Jara retorquiu ter sido essa uma luta de grande combatividade, com a direcção eleita pelos estudantes sempre presente nela, o que contrastava com o desaparecimento, em plena luta dos estudantes da Faculdade de Ciências, da sua direcção associativa que “tinha recolhido ao leito”.

 

Depois da parte "legal", o pessoal das direcções de Ciências, Técnico e MAEESL, passou à violência. Impediram a saída do Jara e em jeito de piquetes "policiais", em atitude agressiva rodearam os estudantes que o apoiavam, e que estavam em minoria.
Chovem provocações das mais mesquinhas! Entre os agressores destacam-se Pedro Ferraz de Abreu, e dirigentes da AEIST, da AE de Económicas (o mesmo que já agredira a Violante Saramago em episódio que aqui referi noutro post) e do MAEESL (2).
Tendo-se encerrado a Associação todos os presentes se deslocaram para o corredor da entrada. Crescia o clima de tensão. O Ferreira Mendes que apoiou e protegeu o colega foi agredido. Um membro da delegação do Instituto Industrial, Rui Baltazar, que se virou contra os agressores a defender o Jara foi também agredido, tendo-lhe sido quebrados os óculos cujas lentes quebradas lhe provocariam ferimentos na cara.
Eram entre 30 e 40 indivíduos, com atitudes do mais refinado gangsterismo. Choveram murros e pontapés sobre o Jara que não respondeu às agressões e avançou para a saída. As várias dezenas de valentaços cercaram-no e passaram a uma nova tortura ainda mais vergonhosa.
Empurraram-no para o centro, onde estava o Ferraz de Abreu que lhe foi dizendo "Hás-de confessar que és um provocador!” “Hás-de falar senão comes",  "estás aqui se for preciso até às 6 da manhã", "se for preciso até te matamos", "fala", etc.,etc.

Com um lábio rebentado, teve que receber tratamento no banco do Hospital de Santa Maria.
Os esbirros só desistiram porque instantaneamente tomaram consciência da inutilidade dos seus actos… Durou uma hora a exibição de vandalismo dumas dezenas de agressores, dois deles "estudantes" de Medicina, o Pedro Paulo e o João Moreira.

Nos dias seguintes realizaram-se plenários de estudantes em Medicina, no Técnico e na Faculdade de Letras que condenaram as agressões e exigiram a reintegração do Jara na RIA. Em Medicina, os dois agressores desta escola foram expulsos num plenário com cerca de 700 estudantes. No IST, a tropa de choque agressora tentou perturbar a RGA mas foi dissuadida disso, apenas pela presença física de estudantes comunistas e simpatizantes. Os valentões recuaram em boa ordem… (3).
Mas, apesar de derrotados, os caceteiros insistiram na campanha através de publicações suas (4).
Depois de uma tentativa gorada de “reintegrar” o Jara na RIA, numa reunião onde até foram buscar a Livrelco, para empatarem a votação, a RIA não voltaria a reunir a não ser depois do 25 de Abril. A correlação de forças, entretanto, passara a ser outra e já não interessava aos caceteiros viabilizar o funcionamento da RIA, particularmente num período de ascenso das lutas estudantis que, em resposta à política do governo, praticamente paralisou a universidade e institutos de ensino “médio”. O fascismo beneficiou disso.

Mas o Jara continuaria a ser alvo de uma campanha provocatória com atitudes e pinturas de paredes, WCs e cartazes contra si em termos perfeitamente ignóbeis durante bastante tempo.
E impediram-no de entrar na cantina da Cidade Universitária.
Nunca nenhum dos agressores, após 46 anos, pediu desculpa ao Jara

Se desenvolvi num debate recente sobre o movimento estudantil o tema desta agressão ao Jara, fi-lo, e aqui o repito, como tributo à sua coragem, reconhecendo o sofrimento que este episódio provocou na sua vida. E porque, por ter feito uma esclarecedora intervenção televisiva há dias contra a eutanásia, eu ter sentido novos uivos e mandíbulas a quererem mordê-lo como há 46 anos.
Mas o Jara é uma pessoa de coragem e não verga.

 
(1)  Comunicado da direcção da AEFDL, “Provocação e luta de tendências”, sem data, mas seguramente de Maio de 1972.
 
(2)  Não referimos, propositadamente, mais de uma dezena dos agressores, identificados por testemunhos de presentes na cena.
 
(3)  Comunicado da direcção da Comissão Pró- Associação (CPA) da Faculdade de Medicina, de 25/4/72; um outro, também da CPA da FML, sem data mas provavelmente de 27/4/72; outro ainda assinado pela CPA sobre as resoluções da AG de Medicina, sem data mas provavelmente do mesmo dia, depois da AG.
 
(4)  Binómio da AEIST, de 29/4/72 com um comunicado da ainda direcção da AEIST, que não pode deixar de referir que foi derrotada na Assembleia Geral Eleitoral de 26/4; Improp da AEFCL, também de 29/4/72, que é um verdadeiro case study, de uma ideologia caceteira, altamente sectária, com uma fraseologia delirante; de um “grupo de colaboradores da CPA de Medicina”, em que se incluíam os dois já referidos espancadores de Jara, de 3/5/72, já expulsos, por isso da CPA de Medicina; um “comunicado federativo” nº 5 assinado “As Associações de Estudantes de Lisboa”, sem as especificar, porque casos houve em que as direcções unitárias substituíram entretanto as esquerdistas, e com a data de 1 e Maio de 1972 (assim mesmo, por extenso…); um comunicado do MAEESL datado de Maio de1972.

 
corrigido e actualizado em 6/6/2018
AA

Debate "O movimento estudantil no Técnico entre 1967 e 1974, por António Abreu

A sessão-debate, realizada no passado dia 29 de Maio, e organizada pela AEIST, a Ephemera, alguns ex-dirigentes da AEIST desse período e  pelo IST tinha como tema “O movimento estudantil no Técnico entre 1967 e 1974”.



 O Pacheco Pereira introduziu o debate, situou-o como integrado num projecto que integra outros debates, uma exposição e uma publicação, referiu a dimensão ímpar da AEIST no movimento associativo português, com um orçamento equivalente a 20-30 milhões de euros, a sua capacidade de mobilização dos estudantes e a sua crescente politização.            Seguiram-se no uso da palavra três antigos presidentes da AEIST António Redol, Fernando Sacramento e Carlos Costa, sendo este o último antes do 25 de Abril.

O António Redol sublinhou que a ruptura definitiva entre os estudantes ocorrera a partir de 1962, com a crise universitária e não apenas a partir de 1967. A orientação do MUD juvenil a partir do final dos anos 40 para a dinamização das associações de estudantes (AAEE), contribuiu para isso, sendo a luta geral nas universidades contra o decreto-lei 40900, acompanhada pelo próprio corpo docente até à sua derrota. Referiu também a importância da criação do CDUL, em cuja direcção as AAEE tinham uma participação maioritária, e a criação do INDU (Instituto Nacional para o Desporto Universitário). E em 1961 o 1º Dia do Estudante foi assinalado com uma participação de 3 mil estudantes. Nesse ano ocorreram o assalto ao Forte de Beja, o assalto ao paquete Santa Maria, a invasão de Goa pela União Indiana. Não sendo, por tudo isto de estranhar a elevada politização em torno da crise académica de 1962. Esclareceu que a defesa da AEIST face à repressão se baseava na ligação aos estudantes, no assegurar de serviços essenciais como a cantina, as folhas para suporte das aulas, a prática desportiva (natação basquetebol, etc.)

O Fernando Sacramento fez uma longa dissertação sobre os novos olhares da escola mas fundamentalmente sobre o seu próprio percurso pessoal numa série de instituições em que participou essencialmente depois do 25 de Abril.

O Carlos Costa referiu as lutas na escola em 1972-1973, a presença da polícia no seu interior, o sacrifício que foi colectivamente assumido pelos estudantes com a perda de um semestre na greve aos exames e as negociações para o fim da greve. Nestas participaram representantes da AEIST, para a qual tinha sido eleito presidente, dos assistentes, de professores e do director que tinha contacto com o governo no desenrolar dessas negociações. Referiu ainda o derrube pelos estudantes de uma câmara para os filmar em plenários, instalada na cobertura do pavilhão de Química. Fez referência à influência crescente, desde 1969, da corrente associativa em que participara. E terminou com o funeral de Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE no ISCEF, que teve algumas expressões de sectarismo, não muito visíveis para quem observava o funeral.

Pedi para intervir e atribuí esse período de confrontações a dois factos. O primeiro, a sucessiva divisão de vários grupos maoistas que, além de atacarem o PCP, se digladiavam entre si. O segundo, a noção por parte desses grupos que a influência comunista se recuperava depois de as organizações estudantis do PCP terem sido fortemente abaladas com as prisões de 1964-1965. Nas vésperas do 25 de Abril as associações cujas direcções tinham uma influência maioritária do PCP eram a grande maioria em Lisboa.

Lembrei, para além deste episódio a agressão a Violante Saramago, no ISCEF, por um activista da respectiva AE que lhe partiu o nariz depois de lhe ter retirado propaganda que levava consigo.

A propósito da questão do sectarismo vivido principalmente nos anos de 1972 e1973, e porque estava presente na sala o principal agressor de José Manuel Jara, de que falo num outro post, interpelei o Pedro Ferraz de Abreu e, com 46 anos de atraso, acusei-o dessa agressão e de outros factos numa reunião da RIA no ISCEF (a que chamávamos ”Económicas”, tal como o IST era conhecido por “Técnico”). O Ferraz de Abreu respondeu-me, ainda com ar de gozo, que "só lhe tinha dado um tabefe" (!) e apresentou uma narrativa do que se passara bem diferente da que eu avançara.
 
 

 


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Bom fim de semana, por Jorge



"I'm not young enough to know everything."
"Não sou suficientemente jovem para saber tudo."

James Matthew Barrie
escritor escocês
criador de "Peter Pan",
1860-1937

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A eutanásia, a dinâmica das causas fracturantes e o desrespeito pela dor humana

Desde a votação na AR vários amigos e conhecidos meus zurziram no José Manuel Jara, no PCP e, indirectamente, em mim, que levei para o facebook as respectivas atitudes, solidarizando-me com elas . Compreendo os seus pontos de vista e não encaro a questão de forma leviana. Nem o PCP nem o Jara o fazem.
Meter na agenda política, de forma inopinada, e sem aviso prévio, a questão da eutanásia pode corresponder a um incontido sofrimento atroz de muitas pessoas nas últimas semanas sem que eu tivesse dado por isso. E por isso me penitenciaria. Mas o que me pareceu foi que, à marretada, alguns quiseram impôr as suas agendas políticas de sucessivas "questões fracturantes" numa progressão de Peter quanto ao respeito pelas pessoas que é a questão central desta e de doutras questões.
Se um sofrimento humano na doença alcança o intolerável, apesar dos cuidados continuados e paliativos, se queremos encontrar outra medida que levanta muitas reservas na sociedade, confrontemo-la em termos pedagógicos com outro tipo de medidas mas envolvendo todo o nosso povo e não apenas o "debate" de ideias nas páginas de jornais ou programas de rádio e TV que procuram sofregamente audiências ao ritmo alucinante da imposição de ideias que, curiosamente (ou não) fizeram a convergência das políticas editoriais desses media.
O que se passou não foi esclarecimento e troca de ideias. Foi cavalgar o sofrimento indiscritível de alguns sem procurar criar um vasto e mais ou menos organizado espaço de convergência. Em nome do respeito pela dôr alheia, criemos as condições para isso e não repitamos a busca indecorosa de protagonismos "florzinhas-no-chapéu".
 
Afinal quem não esteve interessado em criar a aprovação desta medida na AR?

terça-feira, 29 de maio de 2018

A demência nos uivos da guerra, por António Abreu


Nos últimos quinze dias Trump desencadeou um novo surto de atitudes que contrariam intenções de regulação de conflitos internacionais em que os EUA mostraram antes estarem em condições de participar e que, por outro lado, confrontam a tradicional vassalagem de bom número de países europeus com afirmações de chantagem rasteira, dignas de um capo de famiglia e com sinais de demência nas sucessivas proclamações. Tudo preocupante, muito preocupante. 

 

Foram sucessivamente as manobras aeronavais nas costas da Coreia do Norte, a tentativa de reduzir a “desnuclearização” da península coreana à desnuclearização exclusiva e integral da Coreia do Norte apesar do respeito dos compromissos assumidos de destruição das bases de testes nucleares e agora o golpe de teatro do cancelamento por Trump da reunião de 12 de Junho com Kim Jong-un. A embaixada dos EUA em Israel passar para Jerusalém e a contemporização com o massacre simultâneo de dezenas de palestinianos pelas forças de Netanyahu. A chantagem sobre países europeus para adoptarem sanções reais contra o Irão e saírem do acordo multinacional obtido há poucos anos com Teerão. A crítica à Alemanha e a outros países que importam petróleo da Rússia, violando a sanções contra este país, com ameaças explícitas em ambos os casos aos “aliados desleais”. A exigência aos membros da NATO que cumpram com o objectivo de contribuição para a Defesa de 2% dos respectivos PIBs dos seus países para o orçamento da aliança (leia-se para comprarem mais armamento militar fabricado nos EUA). A  permanência da guerra das taxas de importação para com produtos oriundos da China e de países europeus, que foi motivo de negociações com a China no que a ela respeita, mas logo seguido da insinuação de Trump que a China estaria a fazer a Coreia do Norte reduzir a flexibilidade de Kim Jong-un em negociar a desnuclearização da península coreana. Nos dias  que estão a decorrer, a elaboração de acordos obtidos com a Arábia Saudita onde a troco de volumosos investimentos desta nos EUA, os EUA venderão ainda mais material de guerra sofisticado aos sauditas, acordando instalações nucleares próprias pela primeira vez. A tentativa de golpe militar na Venezuela conduzido pela embaixada americana na véspera das eleições presidenciais e na proibição a cidadãos venezuelanos residentes nos EUA em votarem nessas eleições. Na quinta-feira passada, aviões da coligação liderada pelos EUA bombardearam instalações militares sírias na região de Deir Ezzor mas os seus mísseis acabariam por ser destruídos pelo sistema antimíssil sírio.

É claro que por detrás da limpidez arruaceira de Trump, outros actores procuram posicionar-se melhor em diferentes tabuleiros geoestratégicos, não podendo disfarçar-se com máscaras de beatitude (Macron a querer posicionar-se como líder da Europa disputando com Merkl esse pódio, Erdogan projectando maior protagonismo no Médio Oriente, Netanyahu querendo alargar as suas fronteiras, arrasando palestinianos e libaneses, etc.).

Neste ano registou-se a terceira tentativa de reunificação das duas Coreias, separadas entre si após a Guerra da Coreia de 1950-1953 e a intenção da desnuclearização total da península coreana. Nos dois casos anteriores, a influência e chantagem dos EUA sobre o Sul e o acomodamento de governos conservadores a elas foram decisivos para derrubar as esperanças de reunificação de ambos os lados do “paralelo 38” e congelar projectos muito concretos no plano político e institucional que então tinham sido feitos entre negociadores de ambas as partes. Neste ano, com a ajuda de ambiente criado pelos Jogos Olímpicos de Inverno, foi possível nova tentativa, desta vez protagonizada pelo Presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un e pelo novo primeiro-ministro sul coreano Moon Jae-in, num gesto de grande coragem de ambos, que semanas antes seria impensável.

Há cerca de um mês, com um prolongado aperto de mão e um abraço caloroso ambos os dirigentes iniciaram o caminho no lado sul-coreano da zona desmilitarizada da Coreia (ZDC), com a assinatura de um acordo onde ambos firmaram o seu compromisso com “uma nova era de paz” e com a “desnuclearização da Península da Coreia”. E Moon Jae-in afirmaria então que “Vamos transformar as relações da Península da Coreia em terra, no mar e no ar. Vamos suspender todas as formas de hostilidades”, sublinhando ainda que “não vamos voltar atrás no tempo”. É certo que as negociações foram acompanhadas antes quer pela China, quer pelos EUA, países que declarariam no dia seguinte o seu acordo e esperança que viesse a consolidar-se. Dias depois ficou aprazado, com data marcada para 12 de Junho, a reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un em Singapura e, apesar de abalada pelas manobras militares, ambos os lideres mantiveram essa marcação apesar de chantagens de última hora por parte de Trump, que acabou por a desmarcar exactamente quando a Coreia do Norte procedia à destruição, testemunhada pela imprensa internacional, dos locais dos testes nucleares anteriores. Não é segredo de Polichinelo que os EUA têm grande influência sobre os dirigentes militares do Sul mas também é certo que as forças armadas obedecem ao primeiro-ministro por imperativo constitucional. É, por isso incompreensível que, após esta dinâmica de reconciliação, se tenham realizado poucos dias depois do anúncio da visita do dirigente norte-coreano aos EUA, manobras das Marinhas e Forças Aéreas da Coreia do Sul e dos EUA, adiadas em virtude dos Jogos em Seul, mas em que os EUA usaram um novo caça e um B-52, próprios para ataque e invasão de  território “inimigos”.

E como se isto não bastasse, Trump nomeou como novo embaixador em Seul um ex-comandante da Base de Guantánamo e chefe do bombardeamento marítimo, liderado pelos EUA na Líbia, em 2011, e que actualmente era responsável por todas as operações da Marinha dos EUA na Ásia.

Ao mesmo tempo, John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, ameaçou que o governante norte-coreano Kim Jong-un seguiria o destino de Kadhafi se "não fizesse o acordo" sobre a desnuclearização. O vice-presidente Mike Pence assinaria por baixo. Para mais tarde Bolton rectificar dizer que "o modelo da Líbia" não fazia parte dos planos para lidar com Pyongyang… se ele não chegasse a um acordo com os EUA.

O regime em Pyongyang reagiu fortemente contra as declarações no fim-de-semana anterior, a isso e a que a Coreia do Norte teria que desmantelar o seu arsenal nuclear completa e imediatamente. Um porta-voz da RPDC disse então que Kim não participaria numa cúpula com objetivos tão "unilaterais" mas estava empenhada em a realizar. A rejeição das declarações de Bolton e Pence levaram a que Trump suspendesse a cimeira com Kim Jong-un, com a manifestação de desacordo com essa atitude por parte da Coreia do Sul, da Rússia e da China. Trump deu o dito por não dito, provavelmente depois de contactos com os presidentes de ambas as Coreias.

A cimeira europeia na Bulgária na passada semana confrontou-se com as chantagens e humilhações que Trump tem tido para com vários países europeus, a propósito das suas relações exteriores e parcerias comerciais.
O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk criticou a administração Trump por ser de “assertividade caprichosa”, glosando a frase célebre "com amigos assim quem precisa de inimigos?". E disse “pensar que o verdadeiro problema geopolítico não é ter um opositor imprevisível, ou inimigo ou parceiro, o problema é quando o nosso melhor amigo se torna imprevisível", afirmou Tusk. Por seu lado, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, referindo-se à discussão sobre as relações externas da UE, sublinhou que "não vamos negociar com uma espada de Dâmocles pendurada sobre nossas cabeças".

Entretanto, e ao mesmo tempo, Trump usava uma reunião com membros da NATO na Sala Oval da Casa Branca para verberar os membros da Aliança por uma “injusta partilha de encargos” e “deslealdade”, procurando atingir em particular a Alemanha por ser um contribuinte deficitário para ela “de longa data” e por “comprar enormes quantidades de gás à Rússia na ordem de milhares de milhões de dólares”. Para ele, isso era “algo que vamos discutir” até porque a NATO, ao abrigo da “Enhanced Forward Presence”, tem aumentado as instalações militares ao longo da fronteira ocidental da Rússia que lhe confere acrescida capacidade ofensiva. Nessa reunião, virando-se para o secretário-geral da NATO, o ex-ministro norueguês da Defesa, Jens Stoltenberg, Trump ordenou “Penso que você saberá tratar dos que não contribuíram, certo?”

Trump, por razões comerciais, apaga os compromissos eleitorais que teriam estado na base da vontade expressa de se “dar bem com a Rússia”. Afinal, a Rússia seria inimiga porque a Alemanha é particular beneficiária do fornecimento de gás do Báltico à Europa através do Nord Stream da Gazprom e, talvez por isso, ela e outros países não estarem a cumprir com os 2% para a NATO. Trump chegou mesmo a referir-se às relações comerciais normais com a Rússia como um sinal de “traição”.

Para servir os interesses dos EUA, nomeadamente para reduzir as suas dívidas e os seus deficites comerciais, Trump vai inventando inimigos, mandando às urtigas os princípios da livre concorrência nas relações internacionais que, no início do processo de globalização capitalista, eram sagrados para os EUA. E como os amigos do seu inimigo, para além dos mais “relapsos” nas contribuições para NATO, serão tudo menos seus amigos, Trump atirou-se aos velhos aliados europeus –“países desleais” - como gato a bofe, com algumas excepções (1).

Os EUA, que criaram a NATO, no final da 2ª Guerra, para combater a “ameaça” dos então países socialistas, serviram-se dela – e os restantes “aliados” também se serviram ou deixaram servir para uma série de intervenções militares verdadeiramente criminosas. A começar na própria Europa com o esfrangalhar da ex-Jugoslávia e do genocídio que permitiu. Para intervenções não cobertas pela ONU em países como a Líbia, em que a destruição dum estado moderno, o assassinato, gravado para TVs de todo o mundo do seu líder Kadhafi, e a transformação deste país numa federação de gangues mafiosos, inclusivamente pela tragédia de imigrantes subsaarianos, recrutados por “negreiros”, dos quais uma boa parte jaz nas águas mediterrânicas. Ou do ataque ao Iraque com estilos e consequências idênticas.

Jorge Cadima referiu há dias no Avante! que  “Todas as guerras dos EUA/NATO no último quarto de século violaram a legalidade internacional. A Resolução da ONU (1244) que pôs fim aos bombardeamentos da Jugoslávia pela NATO (com Clinton) reafirmava «a soberania e integridade territorial da República Federativa da Jugoslávia», que foi de seguida desmembrada. O Iraque e a Líbia assinaram acordos de desarmamento mas foram atacados pelos EUA/NATO, e os seus dirigentes assassinados (com Bush e Obama). Para o imperialismo norte-americano, acordos e o desarmamento de terceiros são meros passos que facilitam futuras agressões” (2).

Que autoridade moral assiste então aos EUA, para exigir que os países europeus alimentem os lucros do seu complexo militar-industrial, com a aquisição com os tais 2% de cada vez mais armas, - em geral adquiridas aos EUA - que anualmente já se juntam a mais de 3% do seu PIB, verbas da ordem dos 700 milhares de milhões de dólares para o orçamento federal. Valores que a administração americana mantem e não pode impor a outros porque isso corresponde a uma opção de fundo de porem esse complexo a sustentar a economia. Sendo que, seguramente é, em opções como essa, que a economia norte-americana sofre distorções.
Nesta dinâmica de algum distanciamento da administração norte-americana, Macron e Putin aproveitaram o Fórum Económico Internacional de S. Petersburgo para uma troca de impressões sobre como solucionar a crise na Síria, na Líbia e no processo de paz no Médio Oriente, bem como sobre a situação no leste da Ucrânia. Por sua vez Angela Merkl avistou-se em Pequim com o presidente chinês para o desenvolvimento das relações bilaterais.

Ainda na referida reunião da Sala Oval, Trump disparou de novo contra o Irão para uma vez mais chantagear países europeus “desleais”. A associação do Irão à disseminação do “terrorismo” seria um desafio que a NATO teria de defrontar. Trump quis que a NATO subscrevesse que o Irão é um estado inimigo que deve ser confrontado pela aliança, em todo, afirmou com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, sentado ao seu lado.

Depois de Trump ter saído do acordo nuclear multilateral com o Irão na semana anterior, a União Europeia quis mostrar um “cerrar de fileiras”, na Bulgária, para apoiar o acordo, tendo-se os seus dirigentes nesta cimeiro assente apenas que as empresas europeias que fazem negócios com o Irão têm de estar protegidas das sanções impostas pelos EUA a Teerão. Tusk referiu que "Quanto ao acordo nuclear com o Irão, concordámos em como a União Europeia se manterá no acordo enquanto Teerão mostrar empenho em prosseguir na mesma via”.
Os EUA e a UE deveriam ter em conta que novas sanções contra o Irão poderão tornar o yuan preferível ao dólar no mercado de petróleo. Desde o seu lançamento em Maio, o interesse nos contratos de petróleo apoiados no renminbi têm subido constantemente. Os volumes diários negociados atingiram o recorde de 250.000 lotes na última quarta-feira, e a participação dos contratos em yuan no comércio global saltou de 8% em Março para 12%. "Os contratos disparam ", segundo Stephen Innes, diretor de operações para a Ásia / Pacífico da corretora de futuros OANDA, em Singapura, citado pela Reuters. "Faz sentido para o Irão começar a vender petróleo em contratos baseados em yuans em vez de dólares." A China é o maior consumidor de petróleo do mundo e também compra boa parte do petróleo do Irão, que é um grande produtor da OPEP. Pequim recebe 25% das exportações de petróleo do Irão, o que representa oito por cento de suas necessidades.

A China está a ganhar economicamente. Enquanto os EUA deixam o acordo, Pequim pode atrair empresas europeias para trabalhar coma China no Irão, isolando Washington e preenchendo o vácuo dentro do imenso mercado iraniano.

Ao usar mais yuans no comércio de petróleo, Pequim economiza os custos da troca em dólares e promove o renminbi como moeda global, dizem os analistas. Na semana passada, as cotações em Xangai subiram para um recorde em alta de 75,40 dólares por barril, crescendo mais rapidamente do que os benchmarks Brent e WTI.

Um dos maiores prejudicados com o retomar das sanções será a Boeing, a multinacional norte-americana que detém a maior empresa aeronáutica mundial, que irá perder um lucrativo contrato de 20 mil milhões de dólares.

A França e a Inglaterra seriam particularmente atingidas pelas consequências de retomarem sanções ao Irão. Como no comércio com a Rússia, cujas sanções os EUA decretaram levando os seus vassalos europeus à arreata, isso significaria que os membros europeus da NATO que continuem a procurar investimentos e negócios no Irão estão a "colaborar" com o inimigo.

Os EUA não têm autoridade moral para esperar que os outros obedeçam às suas ordens quando são os EUA a desconsiderar as resoluções das Nações Unidas e a legislação Internacional, escolhendo quais regras que se lhe aplicam e quais regras que não, dependendo dos seus próprios interesses ou de interesses de aliados “leais”.

Israel prepara um ataque nuclear contra o Irão há muitos anos. Israel dispõe de centenas de bombas nucleares. O Irão não tem nenhuma, tendo apenas um programa nuclear para fins civis.

Não pode passar no desconhecimento geral que toda esta campanha contra o programa nuclear iraniano (civil e não militar), que levou ao Acordo, de que os EUA se afastaram agora, pretende esconder que há cerca de meio século Israel tem criado um arsenal de armas nucleares em Dimona, com o apoio dos EUA e da França, que nunca quis reconhecer, e que dispõe da capacidade de ter 200 ogivas nucleares prontas para disparar contra o Irão, conforme mensagem escrita por Colin Powel em 3/3/2015 já tornada pública. Hoje em dia, segundo o analista Manlio Dinucci, Israel dispõe de um arsenal nuclear de entre 100 e 400 armas atómicas, que incluem bombas nucleares tácticas e bombas de neutrões de nova geração. Israel Produz plutónio e trítio em quantidades suficientes para construir centenas de armas atómicas. As ogivas nucleares israelitas encontram-se prontas a serem usadas, tal como os mísseis balísticos como o Jericó 3. Para usar estas armas nucleares, Israel dispõe de outros vectores como os aviões F-15 e F-16, fornecidos pelos EUA, a que se juntaram agora os F-35, também fabricados nos EUA.
Entretanto as numerosas inspecções da Organização Internacional da Energia Atómica (OIEA) têm confirmado que o Irão não tem armas atómicas e que está a submeter-se pontualmente aos controlos internacionais previstos no Acordo. (3)

É evidente que EUA, Israel e agora Arábia Saudita se preparam para dispor de armas nucleares contra o Irão. O invocado apoio ao Hezbollah e à defesa da Síria por parte do Irão, são pretextos grosseiros para esconderem essa realidade.

A atitude de Trump, ao deslocar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém desencadeou uma tempestade no povo palestiniano, oprimido e preso dentro do seu próprio território, no decurso da sua Marcha do Regresso. Dezenas de mortos, assassinados pela soldadesca israelita, foram com naturalidade aceites por Trump que, uma vez mais quis fazer do massacre uma expressão do combate ao terrorismo de origem iraniana…

Esta atitude é apenas mais uma das que os EUA têm tido ao longo de 70 anos desde a criação do estado sionista de Israel, numa dramática sucessão de massacres, invasões, inviabilização do estado palestiniano pela desintegração física e bloqueio à circulação, atentados e liquidações de dirigentes e activistas por snipers e drones.

A abertura da embaixada dos EUA em Jerusalém no 70º aniversário da fundação do Estado de Israel ou, como os palestinianos a vêem, o Dia Nakba - quando 700 mil árabes fugiram ou foram expulsos de suas casas durante a guerra de 1948 - provou ao mundo o desinteresse dos EUA em promoverem verdadeiras e genuínas soluções pacíficas para o conflito de Israel com a Palestina.

A moral de alguns diplomatas norte-americanos terá sido afectada, pelo que o novo Secretário de Estado Mike Pompeo se veio gabar da "integridade essencial" que os EUA têm na abordagem de questões globais. O Departamento de Estado divulgou passagens de comentários seus, exortando os diplomatas desmoralizados dos EUA a agir com firmeza e agressividade enquanto conduzem as políticas externas do governo Trump, assegurando-lhes que a causa dos EUA é justa.

Depois do banho de sangue de Gaza, a maioria dos governos árabes reagiu condenando o comportamento do exército israelita. Os países muçulmanos queriam ir mais longe na cimeira de Istambul convocada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Os representantes dos cinquenta e sete países, agrupados na Organização da Cooperação Islâmica (OCI), pediram no dia 18 de Maio, "proteção internacional para o povo palestiniano, inclusive com o envio de uma força de protecção internacional ", de acordo com o comunicado final da cimeira. De facto, à semelhança da lógica da criação de forças de paz noutros pontos do mundo, o actual secretário-geral da ONU e os seus antecessores tiveram medo de suscitar esta questão em relação aos sucessivos massacres de palestinianos. É o que vale Israel dispor de armas nucleares, mesmo ao arrepio de qualquer comunicação à AIEA e à não autorização de qualquer investigação no complexo nuclear militar de Dimona.

A abertura decidida pelo Presidente Sissi da fronteira de Gaza com o Egipto durante 30 dias consecutivos para o Ramadão, que está a decorrer, constituiu algum alívio para os palestinianos.

E quem foi o “democrata” que se seguiu a instalar embaixada em Jerusalém? O presidente corrupto da Guatemala, que ao mesmo tempo exigira a mudança dos Embaixadores da Suécia e da Venezuela. Porque ambos os diplomatas apoiaram muito activamente a Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala, CICIG). Este organismo, criado pelas Nações Unidas e aprovado pela Assembleia guatemalteca, está encarregue de auxiliar o Ministério Público e a Polícia do país. O Presidente Jimmy Morales já tentara expulsar o Presidente da Comissão depois de esta ter iniciado uma investigação sobre o financiamento da sua campanha eleitoral. Trump e Nethanyau ficaram muito bem acompanhados da fotografia…E quem sã os vassalos seguintes? Os governos de direita do Panamá e do Chile, agradecidos aos massacres que, directa ou indirectamente os EUA promoveram através do derrube de presidentes e maiorias legislativas de esquerda, democraticamente eleitos pelos respectivos povos.

A repressão do protesto civil da população de Gaza com armas militares valeu a Israel a abertura de uma investigação, aprovada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, e que se debruçará também sobre as acções na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Votaram a favor 29 países, 14 abstiveram-se, sendo os únicos votos contra os dos EUA e da Áustria. Claro, da Áustria que tem um governo de extrema-direita…

Invocando o receio de violência durante o Ramadão, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu sustentou que “os meios não-letais não funcionam” e ameaçou reactivar a política de assassinios selectivos contra dirigentes do Hamas se as manifestações de protesto continuarem.

Reflecti há dias no Facebook sobre como lidar com Israel na complexa negociação para a paz no Médio Oriente para que esta conduza a resultados efectivos.  Israel saiu de Gaza em 2005 mas a faixa está cercada há mais de dez anos. Ali a ONU prevê que ninguém consiga viver dentro de uma década.

Rússia, China e alguns grandes países desempenham hoje um importante papel para atenuar tensões regionais e de impacto global, para encontrar solução para os conflitos através de negociações entre partes, em que necessariamente como em qualquer processo negocial existem cedências de parte a parte, para reduzir a margem de manobra e tentar acabar com o terrorismo, para associar a todos estes esforços diplomáticos meios de desenvolvimento dos países mais desprovidos de quase tudo.
Esta é uma realidade que convive com o papel negativo dos EUA, da União Europeia e de Israel.

A operação da instalação da embaixada americana em Jerusalém que, de acordo com as decisões da ONU é capital simbólica de dois estados – o palestiniano e o israelita – é uma machadada forte nos esforços de paz.

O isolamento internacional dos protagonistas deste acto e o massacre de dezenas de palestinianos agora, que se somam a mais outras dezenas nos meses anteriores, exigem uma clarificação das relações com Israel. Há dias, Israel voltou a disparar mísseis contra a capital síria de Damasco, masque viriam a ser abatidos pela defesa antimíssil síria.

O correspondente do Expresso em Gaza, Julio de la Guardia, descrevia há dias a situação naquele território, através do relato de uma habitante ocasional daquela faixa da Palestina:

“Gaza está sitiada há mais de dez anos. Nem sequer há água. A única que existe é salgada. Apenas água do mar. Em uma pessoa sente-se pegajosa todo o dia. Todos os dias, há anos. E, de vez em quando, um F-16 aparece e lança bombas. De vez em quando, de repente, morre-se.
Já nos habituámos aos números brutais de Gaza. Quase dois milhões de palestinianos vivem aqui e 80% vivem da ajuda humanitária: 50% sofrem de “insegurança alimentar”, segundo o jargão da ONU, 50% passam fome e 45% têm menos de 15 anos.

Em Gaza só se tem eletricidade quatro horas por dia. O que significa que, durante as outras 20 horas, os hospitais não têm ventiladores, não têm incubadoras. Não têm luz nas mesas de operação. E, contudo, há uma palavra em Gaza que diz mais do que todos estes números: Tramadol. Que é um analgésico. Um analgésico para cães. E é a droga mais popular aqui.

Muitos jovens de todo o mundo usam ecstasy, cocaína, metanfetaminas para se sentirem despertos até ao amanhecer. Em Gaza, contudo, quem está na faixa dos 20 anos só quer adormecer e esquecer. A cada dois ou três dias, há uma tentativa de suicídio. Nos últimos dez anos, Israel proibiu até a entrada de lápis, brinquedos, instrumentos musicais, bolachas e batatas fritas. Calculou que, para se manterem vivos, os palestinianos precisavam de 2279 calorias cada: e proibiu tudo o resto”.

O presidente Putin levou Netanyahu e o presidente da Sérvia para o seu lado, no desfile da vitória no início deste mês em Moscovo e os contactos entre responsáveis de ambos os países parecem ter-se traduzido num fechar de olhos ou aquiescência por parte da Rússia a ataques contra instalações de brigadas militares de origem iraniana e do Hezbollah em território sírio.

Entretanto as negociações para a paz na Síria prosseguiram em Astana, capital do Cazaquistão, promovidas pela Síria, Rússia e Irão, com a ONU e a Turquia como observadores e a participação da oposição síria, que não inclui os grupos terroristas, entretanto derrotados e removidos das zonas de influência, que nelas não quiseram participar por uma questão de princípio de não-aceitação da negociação que reconhecesse as instituições do Estado Sírio. E deixaram as portas abertas a acordos de aceitação internacional mais vastos, que possam incluir os EUA e a UE nomeadamente. O contacto entre Macron e Putin, no passado fim-de-semana, em S. Petersburgo, pode entreabrir essa possibilidade. É certo que é difícil para tais protagonistas reconhecerem a derrota, que custou centenas de milhares de vidas humanas numa luta que levou à derrota dos grupos terroristas que armaram durante anos e que nunca partilharam com Damasco a ideia de negociar uma paz para o conflito.

É certo que são complexos os compromissos a obter até uma paz promissora mas isso não pode levar à aceitação das já referidas atitudes de Israel nem ao abandono do direito dos palestinianos a terem o seu estado, que não o campo de concentração em que hoje a Cisjordânia e, particularmente, a faixa de Gaza vivem. A Rússia e também a China terão que ter isto em linha de conta.

Há dias, em entrevista à RussiaToday, a ex-candidata republicana independente às últimas eleições presidenciais norte-americanas, Souraya Faas, declarava “A única maneira de estabelecer a paz mundial é os Estados Unidos pararem de se intrometer noutros países e concentrarem-se no que realmente importa para o povo americano - "Tornar a América Grande Outra Vez". Para esta republicana desassombrada hoje em dia, a política externa americana reflecte apenas os interesses de algunsdos seus aliados e não os interesses do povo americano, como Trump tinha prometido em matéria de política externa. E que nunca existirá paz verdadeira e genuína no Médio Oriente quando os EUA estiverem a fazer o contrário do que importa fazer.

E vai mais longe ao afirmar que “Não por culpa própria, o povo do Médio Oriente se vê envolvido em rivalidades políticas e tensões religiosas e étnicas alimentadas pelos países ocidentais, cujos constantes jogos de cabos-de-guerra se concentram apenas no garantir dos seus próprios interesses”.

 
(1) Reino Unido, Polónia, Grécia, Roménia, Lituânia, Letónia e Estónia – os “amigos leais”…

(2) Jorge Cadima, “A pútrida classe dirigente dos EUA só conhece a violência “, 17 Maio 2018, “Avante!”.

(3) http://www.voltairenet.org/article201175.html, Manlio Dinucci “200 armas nucleares apontadas ao Irão”.

 originalmente publicado em abrilabril, em 28 Maio 2018, entretanto actualizado.