sexta-feira, 14 de julho de 2017

Que está em curso no Médio Oriente?


Não são ainda muito claras as transformações que irão ocorrer depois de uma série de movimentos recentes no tabuleiro do xadrez desta região.
 

A nova liderança na Arábia Saudita consagra o poder de um homem ao gosto da administração norte-americana, o Príncipe Mohamed Ben Salman.

Os EUA reconhecem a soberania da Síria e envolvem-se num novo cessar-fogo, iniciado no passado dia 9, e em novos passos para eliminar a escalada militar, em conjunto com a Rússia e a Jordânia.

Mossul caiu sem isso ter significado a erradicação do Daesh do Iraque. A “vitória” da reconquista de Mossul teve consequências

Os curdos deste país mantêm um referendo para a independência do território que administram.

As consequências das destruições, elevado número de refugiados sem tecto e sem trabalho, as consequências ainda não avaliadas no plano dos comportamentos de populações sujeitas a um prolongado cativeiro e administração por parte do Daesh, são importantes desafios a novas administrações.

EUA, Rússia e Jordânia implementaram e prevê-se que garantam a continuidade de um cessar-fogo no sudoeste da Síria, cobrindo Daraa, Quneitra e Sweida. O fim da escalada militar nestas regiões será monitorizado conjuntamente pelos três países.

Lavrov disse que os EUA aceitaram a importância de reconhecer a soberania da Síria e de trabalhar para uma solução política. A implicação mais imediata disso é que os EUA firmaram o compromisso com a Rússia de não procurar qualquer mudança de regime em Damasco. Por outras palavras, Putin disse e Trump não discordou que “Assad pode ficar e ficará”.

Se alguns observadores dizem que Putin obteve uma vitória geopolítica ao trazer os EUA para o processo negocial da paz, sem mudança do regime na Síria, não deixa de ser observado por outros que Trump obtem um trunfo para efeitos internos no seu país, ao assinar com a Rússia um bom acordo, depois de nos seus últimos dias a administração Obama ter promovido a expulsão de diplomatas russos e o confisco de propriedade russa nos EUA.

Este processo, a ter sucesso, ao contrário de outros anteriores, poderia levar a nova negociação de paz em que os três países participassem. Para isso terá contribuído a quase total vitória da Síria contra o Al-Nusra e o Daesh e um novo envolvimento diplomático da Rússia e da China com diversos intervenientes da região, de forma garantir o normal fluir das relações comerciais, nomeadamente na perspectiva da nova rota da seda. E com um forte investimento da China em infraestruturas geradoras de desenvolvimento em vários países e, naturalmente em alguns casos, importantes fluxos comerciais da China e para a China.

Para já há a registar que os combates no Sul da Síria cessaram, de repente, e Damasco proclamou um cessar-fogo unilateral em Deraa. E que isso pode ter sido acompanhado por garantias dadas pela Rússia e os EUA de que a Síria só permitiria que nas suas fronteiras estacionassem apenas forças russas e não iranianas a não ser o Hezbollah libanês.

 

Se o Pentágono seguisse as ordens de Trump, muitos conflitos poderiam cessar, mantendo-se outras situações por resolver como a ocupação de partedehipre com a Turquia, com a acreitação tácita da EU.

Os EUA e a Arábia retomariam laços com o Iraque e a Síria.

Os Iemenitas poderiam vir a suportar o impacto dos desenvolvimentos actuais. Embora seja claro que a Arábia Saudita entrou na guerra no Iémen para instalar uma exploração conjunta com o governo de campos de petróleo no "Quadrante Vazio" e para a glória pessoal do príncipe Mohamed Ben Salman, parece que a assistência do Irão aos houthis parece ser mais importante que os crimes que os países árabes e uma certa comunidade internacional, de facto, lá cometeu O que poderá ser positivo para a Palestina, Iraque e Síria, pode ser negativo para o Iémen.

Durante mais de dois anos, a Inglaterra não aceitou deparar o fornecimento de armas à Arábia Saudita, apesar das múltiplas provas de que eram usadas no Iémen em termos contrários à legislação humanitária internacional. A Inglaterra forneceu desde o início dos ataques sauditas ao Iémen cerca de 2.2 mil milhões de libras em licenças ML10 (aviões, helicópteros e drones), 1,1 mil milhões em licenças ML4 (granadas, bombas e mísseis) e 430 mil em licenças ML16 (veículos armados e tanques.

Analisando o que poderão ter sido os resultados da reunião de há dias de Trump e Putin em Hamburgo, no decurso da cimeira do G-20, o jornalista Adam Garrie do The Duran, salienta que é a segunda vez que o governo russo consegue sucesso no envolver em processo político de paz um estado cuja posição sempre foi de oposição ao governo sírio. O novo processo de paz, também mais uma vez, rejeita explicitamente a mudança de regime e procura trabalhar construtivamente com a Rússia.

Na primeira vez, aconteceu quando a Rússia conseguiu levar a Turquia para as conversações de paz de Astana.

Segundo este analista, houve especulações de que o Irão seria expulso do processo de paz na Síria, em benefício dos EUA e da Jordânia, aliada dos norte-americanos, mas isso ainda não é claro nem o governo iraniano teve qualquer pronunciamento público.

Por outro lado, pode admitir-se que a supervisão dos EUA, Rússia e Jordânia sobre o cumprimento do cessar-fogo em partes da Síria na fronteira com Israel, e não no Irão, com quem Israel não tem relações diplomáticas, significaria que Israel deveria pôr fim à agressão ilegal contra a Síria. Isso daria à Síria e aos seus aliados russos condições mais favoráveis para expulsar do sudoeste da Síria os terroristas da al-Qaeda.

Claro que, como no caso da participação da Turquia no processo de Astana, não há garantias de que os EUA respeitem a própria palavra.

A Síria, com apoio da Rússia, tem vindo a liquidar as bolsas terroristas a Oeste do Rio Eufrates. O processo negocial de Astana acelerou essa possibilidade e o novo processo de cessar-fogo não o irá impedir.

A probabilidade de Israel cessar os ataques no sul da Síria, garantindo que os Montes Golan se constituam como tampão à expansão israelita tem sido avançada por alguns analistas mas tenho sérias dúvidas que isso possa acontecer.

No que respeita à Palestina, e como resultado de negociações cruzadas, a paz poderia ser possível com o reconhecimento de um Estado palestiniano e a indemnização de refugiados. Sendo que ambas os territórios de Gaza e Cisjordânia tiveram cumpliucidades várias com agressores regionais. A paz poderia chegar também ao Líbano, com a retirada das construções de Shebaa.

Entretanto, paralelamente, na passada 2ª feira iniciou-se em Genebra a sétima ronda dos Diálogos Intra-Sírios. A ronda anterior terminou em 19 de maio, durante a qual a delegação da República Árabe da Síria realizou várias sessões de conversações com o Enviado Especial para a Síria, Steffan de Mistura, com reuniões de especialistas que não abordaram nenhuma das quatro questões colocadas pelas alteridades sírias na quarta ronda, concluída em 3 de Março, a saber, o combate ao terrorismo, o governo, a constituição e as eleições. Na quinta ronda, concluída em 31 de Março, a parte governamental apresentou vários documentos ao longo de oito dias ao Enviado Especial da ONU para a Síria, o primeiro dos quais foi contra o terrorismo e outro referente aos Princípios Gerais para uma solução política. Mas os grupos de oposição não responderam a nenhum desses documentos.

Embora não do Médio Oriente, mas estando associado a todo o processo negocial na região, a questão da crise na Ucrânia, abordada também na cimeira do G-20 será objecto de reuniões a realizar em breve em Moscovo entre Lavrov e Kurt Volker, o novo enviado de Washington para esta  questão regional, com vista a um cessar-fogo na região do Donbass (Luhansk e Donetsk, em conflito com Kiev, que as tem fustigado militarmente, após a declaração esmagadora de independência das suas populações). É à partida positivo que os EUA concordem em trabalhar para aplicar os acordos de Minsk e o formato Normandia, normas vigentes para a paz. Mas quanto ao Donbass, é claro que Donald Trump pouco se preocupa com que se mantenha em Kiev um governo fascista, ao contrário do que, pelo menos em palavras, era a atitude de Obama.

A batalha de Mossul traduziu-se em 265 dias de destruição, de um imenso sofrimento da sua população, de mortos civis e militares de ambas as partes, muitos resultantes de execuções sumárias pelos assassinos do Daesh (que o senador Republicano John MacCain, hoje campeão da luta contra Trump, acarinhou no seu início, tendo tido pelo menos uma reunião com o futuro “califa”, agora morto num raide aéreo). Em Mossul registaram-se execuções sumárias pelo Daesh mas em que as forças iraquianas participaram. Depois da reconquista da margem esquerda do Tigre e da parte ocidental da cidade foi concluída agora a reconquista da parte oriental da cidade, a mais populosa. Cerca de um milhão de habitantes fugiu da cidade.

Os terroristas do Daesh recrutaram crianças como potenciais combatentes, oferecendo, por isso, recompensas às famílias respectivas. No processo de radicalização, usaram mecanismos que fizeram apelo ao entusiasmo com a violência nessas crianças, acabando a personalidade destas formada num protagonismo em tempos de guerra e influenciada por ideias extremistas, com reflexos no futuro. Os mesmos efeitos se sentirão na reconquista progressiva de cidades na Síria. Os processos de integração em novas sociedades serão complexos e exigirão um acompanhamento por profissionais preparados para o efeito. Mas não apenas com as crianças este acompanhamento terá que ocorrer.

O restabelecimento da normalidade de uma vida diferente nestes territórios carece de reconstrução, realojamento, novas redes de água, gás e electricidade, reconstrução de estradas, pontes e aeroportos, criação de emprego, construção de novas escolas, hospitais e serviços de apoio social, tribunais, polícia e a retoma e criação de uma nova actividade económica. Mas também de tratamento e acompanhamento psicológicos e recriação de valores éticos, morais, de convivência e de respeito de diferenças étnicas que a guerra exacerbou.

 

domingo, 9 de julho de 2017

O “PENTAVIRATO” DE TANCOS E AS VIRTUDES PERIGOSAS, por David Martelo, Coronel do Exército Reformado


Na guerra, o moral está
para o físico como três para um.
Napoleão Bonaparte

Após longos anos de debate nacional sobre economia e finanças públicas, o
desaparecimento de diversas munições, explosivos e outros artefactos militares do Paiol de
Tancos veio trazer para a ribalta mediática a situação das Forças Armadas (FA). E, como esse
debate nunca é feito com seriedade – isto é, na ausência de qualquer acontecimento anómalo –,
a falta de qualidade das intervenções tem sido inevitável. É que a inconveniente raridade com
que o tema FA emerge no primeiro plano do debate nacional faz com que os próprios
comentadores não-militares tenham notórias dificuldades em analisar com rigor tudo aquilo
que desagua nos noticiários. Ainda há poucos dias, num Telejornal da SIC, o jornalista de
serviço perguntava ao tenente-general Leonel de Carvalho se os responsáveis militares pelo
sucedido em Tancos, depois de concluídas as averiguações, seriam despedidos. Sim,
despedidos, sem aspas.
Felizmente, ainda há jornalistas que, podendo não ser muito conhecedores do
funcionamento das FA, utilizam a inteligência e os seus conhecimentos profissionais para
porem em evidência o grau de desinvestimento a que, desde há muitos anos, os sucessivos
governos têm sujeitado o aparelho militar nacional. Foi, justamente, o que fez Marco Capitão
Ferreira, no Expresso on-line de 5 de Julho, quando afirmou:

Se a dotação orçamental da Defesa Nacional tivesse acompanhado o movimento da despesa total do Estado, no período compreendido entre 1997 e 2011 (sim, mesmo antes do resgate a que estivemos sujeitos), esta teria atingido em 2011 um valor próximo dos 4,5 MME em vez dos cerca de 2 MME efectivamente realizados.














Essas restrições financeiras foram provocando, nas fileiras, uma espécie de luta pela
sobrevivência, que, desde o início da década de 1990, se expressava publicamente em discursos
de Dia da Unidade/Estabelecimento/Órgão. Nessas ocasiões, era raro o
Comandante/Director/Chefe que deixava de inserir na sua alocução às tropas uma frase deste
género: “apesar das sensíveis restrições orçamentais, não deixámos de cumprir a missão”. É
claro que essas proclamações expressavam a virtuosa mentalidade castrense de resistir aos
infortúnios da época, ao mesmo tempo que davam lustro ao seu próprio desempenho.
Mas dessa virtuosa postura retirava o Poder Político uma perversa conclusão: “podemos
ir cortando, que eles cumprem na mesma a missão”.
Como tudo tem limites, a certo ponto, a necessidade de satisfazer prioritariamente os
compromissos internacionais – onde se expunha a Bandeira e o prestígio da Pátria – criou a
péssima necessidade de deixar arruinar muitos aspectos das actividades de guarnição,
nomeadamente o cuidado com instalações e o funcionamento de órgãos sem carácter
operacional. Tudo isto, naturalmente, à custa de graves perdas ao nível do MORAL dos
militares. De recuo em recuo, foi-se mesmo ao ponto de deixar de cumprir aspectos
doutrinários fundamentais.
Foi o que sucedeu – assim parece, pelo menos, com os dados de que dispomos nesta
data – no que respeita à segurança dos Paióis de Tancos. Como é do conhecimento público, o
general Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), horas depois de se ter tido conhecimento
do furto de material de guerra, deu notícia da exoneração de 5 comandantes de unidade. Aos
2
olhos dos nossos comentadores civis parece ter escapado o essencial da notícia: eram 5 –
responsáveis – 5 ! Como no dia anterior o líder da oposição tinha gritado “então e ninguém é
demitido!”, foi fácil concluir que a demissão dos “cinco” era uma resposta política... e das
boas. Mas escapou-lhes o principal. Alguns militares na reserva ou na reforma que foram
entrevistados nos últimos dias afloraram a questão de haver “cinco” responsáveis, estranhando
o inusitado da medida, mas contiveram-se piedosamente, pois havia algo mais a dizer. É que,
na verdade, estamos perante a violação de um dos mais sagrados princípios da arte da guerra –
o Princípio da Unidade de Comando.1
De facto – com os elementos até agora disponíveis –, a decisão do CEME permite
deduzir que a segurança dos paióis estava entregue a uma espécie de “pentavirato” de oficiais
superiores, um deles com sede em Tomar! Como se trata, claramente, de uma irregularidade
doutrinária no capítulo das estruturas de Comando, só a podemos entender como MEDIDA DE
EMERGÊNCIA. E, se assim for, importa saber de quem foi a decisão e qual a justificação
para a mesma. Talvez possamos, então, saber se, efectivamente, o fiasco de Tancos se deveu,
unicamente, ao desleixo apontado pelo general CEME.

sábado, 8 de julho de 2017

Bom fim de semana!, por Jorge

Ver só com os olhos
É fácil e vão:
Por dentro das coisas
É que as coisas são.

Carlos Queiroz
poeta presencista, 1907-1949)

Os semeadores de bruxedos


Quer os fogos florestais quer o roubo de armas de guerra têm um ponto em comum: o desinvestimento em nome das supostas gorduras do estado.
A direita não escapa a esse objectivo que prosseguiu nos governos Cavaco Silva e Passos Coelho e que o governo PS de José Sócrates também realizou.
Esse objectivo foi também imposto pela adesão ao Euro e ao Pacto Orçamental e outros pactos, e aos condicionamentos externos daí decorrentes. Por esses governos aceites e que os levaram a atr...ibuir a medidas de tais pactos o carácter de elixires de curandeiros que a vida revelou serem mistelas semeadoras de bruxedos e malfeitorias.
Esperem, por isso, que os comunistas insistam no fim de tais condicionamentos, como forma de dar coerência à continuidade dos aspectos positivos que já resultaram da recuperação de rendimentos e direitos dos trabalhadores e populações.

sábado, 1 de julho de 2017

Na UE, o Pilar Social, num comentário de João Pimenta Lopes, no Avante!

      
No final de Abril, na senda da «reflexão sobre o futuro» da UE, a Comissão apresentava um «Documento de reflexão sobre a dimensão social da Europa»1. Ao mesmo tempo, e sem alarde, uma «Proposta de proclamação interinstitucional sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais»2.
Cai a máscara da Comissão e confirma-se a denúncia que o PCP oportunamente avançou. São textos que branqueiam as consequências das políticas da EU e que de forma mentirosa as apresentam como a razão do aumento das condições e direitos laborais e sociais na Europa. Trata-se de um conjunto cínico de mentiras despudoradas, porquanto sabemos que foram as lutas dos trabalhadores que arrancaram a pulso as conquistas e avanços laborais e sociais, contrariando as políticas de direita e de exploração, e que são as políticas da UE que estão na base da brutal ofensiva contra os trabalhadores e os povos.
Ao mesmo tempo, promovem o aprofundamento da exploração e precariedade por via da «flexibilidade» nas «novas formas de contratos», da acumulação de «vários trabalhos ao mesmo tempo», ao «auto-emprego», maior mobilidade, reformas estruturais dos sistemas de protecção social e dos direitos laborais que «acompanhem a evolução do mundo do trabalho», alinhando claro a «idade da reforma com a esperança de vida», ligando os «níveis salariais à produtividade» e a «alteração da carga fiscal sobre o trabalho para reduzir os custos da contratação».
Defendem assim «reformas económicas e do mercado de trabalho» em nome da coordenação das políticas orçamentais e económicas no quadro do Semestre Europeu e do aprofundamento da União Económica e Monetária, ou seja, a submissão dos direitos sociais e laborais aos desideratos do grande capital e dos interesses do directório de potências da UE, por entre ameaças de suspensão dos fundos da UE para o cofinanciamento dos programas sociais ao nível dos estados-membro.
Garante-se a precariedade e a desregulação laboral a favor dos patrões e implode-se, por ausência, o papel activo das organizações dos trabalhadores, que ficam comprometidas. Adultera-se o princípio de salário igual para trabalho igual, transformando-o em salário igual para trabalho de igual valor, ou seja, fazendo-o depender da chamada «produtividade». Mina-se o direito à protecção social e segurança social pública e universal, individualizando-se direitos e abrindo portas para a transferência de direitos para os chamados 2.º e 3.º pilar. Elimina-se qualquer referência a políticas públicas de serviços, como a educação ou a saúde, e promove-se posturas assistencialistas de suposta resposta à pobreza, ao desemprego, à exclusão. Passa-se do direito a ter direitos ao direito a aceder aos direitos – seja na protecção social, na saúde, educação, água, saneamento, energia, transportes entre outros, numa visão mercantilista dos direitos. Ou seja, é da responsabilidade do trabalhador se acede ou não aos direitos, se os quer tem de pagar!
Estamos perante um autêntico manual de exploração e nivelamento por baixo de direitos laborais e sociais em 20 pontos. Um manual que urge rejeitar, e com ele, as políticas e constrangimentos da UE.
 
    
               

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Bom fim de semana, por Jorge






"In tranquillo esse quisque gubernator potest."                    

 "Com mar calmo, qualquer um toma conta do leme."

Publilius Syrus
escritor latino de origem síria, 85-43 aC

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Fogos: não nos atirem areia para os olhos e vão para o essencial

A União das Misericórdias tem a obrigação, que ainda não lhe foi cometida, de prestar contas, euro a euro, do que agora vai receber.
Partindo eu do princípio que este dinheiro não vai ser destinado a pagamento de salários nem a despesas correntes das suas filiadas.
E que as obras serão acompanhadas para que não saia dinheiro dos empreiteiros contratados para os contratantes.
E que vai ser rapidamente distribuído por investimento em obras e equipamentos que reponham as condições de laboração de empresas e os postos de trabalho anteriores.
E ao pagamento de salários de quem ficou sem trabalho e falta de resposta das empresas destruídas para os garantir.
E que chegue rapidamente às mãos dos que perderam os familiares que garantiam os rendimentos familiares.
E aos que perderam estábulos, armazéns e animais e carecem da reposição das condições de exploração, etc.
 
Ao dinheiro do Meo Arena têm que se somar os apoios comunitários para estes efeitos.
E a despesa pública terá que crescer com a comparticipação naconal nestes e com outros apoios necessários.
Fica de fora outra despesa e investimento nas questões da prevenção, hoje completamente desguarnecidas pela política neoliberal e de austeridade, que Governo e AR têm que definir. Mais leis e outros papéis, não, porque já existem e ninguém fez para se cumprirem de forma visível!...
Como a imediata recriação de estruturas descentralizadas do Ministério da Agricultura, desburocratizadas e próximas dos interessados.
Como a definição das entidades a quem compete fazer a gestão florestal, simultânea à progressiva aplicação de reordenamentos e reflorestações e à realização do cadastro florestal, sem que uma coisa empate a outra.
Como recrutamento de centenas de guardas florestais e construção de centenas de postos de vigia de incêndios devidamente equipados.
Como a definição de quem faz os cortes vegetais que garantam as distâncias sem florestação em estradas, na própria floresta(aceiros), junto das habitações, depósitos e estações de combustível e de outro edificado.
Como a contratação permanente de milhares de sapadores florestais para assumir estas responsabilidades quando atribuídas ao Estado e intervir coercivamente em propriedades particulares que o não façam com o respectivo debitar das contas respectivas a esses proprietários.
Desculpem ser mais um a escrever sobre os fogos mas a atenção das pessoas está a ser centrada no funcionamento do SIRESP, da Protecção Civil, dos Ministérios, polícias e bombeiros, fdo cruzar de responsabilidades. Que merecem ser trabalhados num plano adequado. Mas não impedindo a prioridade de atenção da comunicação social e instituições de poder, e não só, questões como as que referi acima.

Pedrógão, uma raiva sem fim..., por Agostinho Lopes

Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal? Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?

 
Não sei porque não posso espumar de raiva, pelos mortos queimados da tragédia de sábado. E por isso cresce-me uma tal raiva capaz de pegar fogo à água que habitualmente o apaga. Uma raiva de lágrimas e palavrões, daqueles que arrebentam penedos…
Vamos ter missas de pesar… comícios de soluções… conferências de imprensa de estudos e planos… Vamos ter tudo o que é habitual em casos que tais, comissões parlamentares eventuais, investigações da PJ, declarações da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), discursos de ministros (por baixo, do, da Agricultura e da, da Administração Interna), de ex-ministros e até de ex-primeiros-ministros… Vamos ter tudo, tudo o que tivemos em vezes que tais… (perdoa-me Gedeão, a mal amanhada paráfrase…).
Vamos ter pena dos mortos, das árvores que arderam (até o eucalipto vai ter o seu avé-maria), dos coelhos e raposas, e até dos calhaus que com o calor racharam (só é pena que outros calhaus não rachem, mesmo de frio, já servia!).
Senhores, senhores, já tudo foi dito e escrito. Há muito. Há décadas. Já não posso mais ouvir falar de certas coisas. Já não aguento tanta repetição. Tanto disco riscado! Tanto relatório. Tanta comissão. Tanta chuva onde já choveu. Tanto sol na eira e chuva no nabal! Por que razão não se quer gritar alto, tão alto, que as trombetas do Apocalipse parecerão ronronar de gato… que não se fez nem faz o que se tem de fazer, porque isso custa pilim… porque isso no Orçamento do Estado implica com o défice, com a dívida, com o grupo do euro, com o Semestre Europeu e o Programa de Estabilidade, com o Moscovici e o Juncker, com o Schäuble e a Merkel, com as e os… a todos!
Porque isso, chegado Outubro, vêm umas pingas e tudo fica resolvido, cai no borralho, e até serve para assar castanhas… E lá vêm mais umas reformas da floresta, mais uma catrefa de decretos-leis, portarias e despachos, oh sim muitos despachos, que a despachar para o dia de S. Nunca em Fevereiro com 30 dias, é fácil, é barato e não chateia os senhores de Bruxelas… Haverá até, para entreter os senhores deputados umas propostas de lei, em assuntos que são da competência legislativa da Assembleia da República… Senhores, não há paciência para tanto estrume…
Pobre do Diário da República, que não há folhas que lhe cheguem para tanta lei… para tanta decisão oficial e legal… para tanta recomendação… E quatro vezes pobre, a floresta, que não lhe bastando os incêndios, ainda tem o Diário da República nas suas três séries, mais o Diário da Assembleia da República a consumir o papel das árvores que sobraram dos incêndios para escrutinar e registar os incêndios florestais…
Vamos repetir tudo de novo outra vez? Oiçam os dentes a ranger! Vejam os olhos a deitar lume. Vejam a boca a espumar. Só não dou coices porque… mas é o que apetecia. E o problema não é ser assemelhado ao animal… mas porque não tenho à beira quem os merece.
Vamos ver:
Conhece-se o que são os matos, os pinhais, as bouças, a dita floresta do Norte e Centro de Portugal? Sabe-se que é uma floresta de pequenos proprietários. Imbricada até ao sabugo com as também pequenas explorações agrícolas. Sabe-se? Então se se sabe porque não se actua em conformidade?
Sabe-se que é «abandonada» porque a madeira nada dá… e sabe-se quem compra a «madeira», ou a cortiça… o Belmiro, o Queiroz Pereira, o Amorim… E senhores, gastam-se milhões de euros de dinheiros públicos – nacionais e comunitários – a subsidiar as fábricas desses senhores, e depois não há massa para os sapadores florestais, para o cadastro, para as equipas de análise do fogo, para as faixas de gestão de combustível???
«Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas?»

Por favor, não brinquem com a gente, feitos sátrapas de meia tigela. Por que razão não se recompõe o corpo de guardas florestais, constatado o crime público que foi a sua liquidação? Custa dinheiro ao erário público? Pois custa, que ninguém trabalha de borla. Nem os da Santa Casa… Cresce o número de funcionários públicos, e isso mexe com a despesa orçamental, e sobretudo com os bonzos de Bruxelas? Pois mexe, mas a não ser que os convençam a ingressar nos corpos de bombeiros voluntários – e podia ser uma forma da burocracia bruxelense fazer férias activas – não há maneira…
Por que razão o número de Equipas de Sapadores Florestais – 500 – previsto num Plano oficial de técnicos florestais da passagem do século, 2000, se me não engano, há tanto tempo foi, continua a meio pau? Porquê? Falta de graveto? Mas ele há tanto na nossa floresta…
(Mas não se seja injusto. Os que liquidaram o corpo de guardas florestais, os mesmos que nada fazem para que o número de Equipas de Sapadores chegue aos 500, previsto há quase duas décadas, gente que passa os dias a falar da qualificação dos portugueses, têm avançado com a interessante hipótese de resolver o problema da carência de recursos humanos da floresta portuguesa pelo recurso (repetição adequada) a trabalhadores desempregados e reclusos! Como quem diz, para quem é, (a floresta portuguesa) bacalhau basta, isto quando o bacalhau era a pataco… É claro que nem os desempregados nem os reclusos têm alguma responsabilidade nesta miserável instrumentalização…).
Por que razão as faixas de gestão de combustível, as primárias pelo menos, constando de sucessiva legislação – desde o Decreto-Lei 124/2006 – não estão concretizadas? Não acham que 10 anos deviam chegar? Falta de quê? De vontade? De verba? De um comando único e eficaz de todos estes processos da floresta portuguesa, prevenção e combate, espartilhados por não sei quantos ministérios, certamente para que ninguém verdadeiramente possa assumir as responsabilidades dos desastres que, fatais como o destino, fatais como dizem que era o fado, fatais como a brutalidade da morte que tão brutalmente cortou cerce a vida a 64 homens e mulheres deste país!
Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal, que todos, suma hipocrisia, diziam e dizem ser condição necessária para a boa gestão florestal. Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?
«Quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto?»
E logo, faz-se uma lei para que essa terra possa ser roubada, faz-se outra lei para criar uma bolsa ou banco de terras, dão-se uns «incentivos fiscais» a uns fundos de investimento, que vem a correr da Bolsa de Nova Iorque para a arrendar/comprar e plantar rosas e orquídeas… (Senhor, Senhor porque lhes não dais juizinho!!!).
Poderão alguns, com alguma razão, dizer que não se deve brincar com coisas sérias. Mas o que dizer do sucedido com o anterior governo PSD/CDS e a ministra Cristas que, depois de excluir do Regime Florestal total a Herdade do Ribeiro do Freixo, de 320 hectares, e desanexá-la da tutela pública para dar movimento (privatizá-la!) à sua bolsa de terras, devolveu à tutela pública a Mata da Margaraça de 67,578 hectares de propriedade pública para «compensar». Baralhados?
Como bem percebem os especialistas em algoritmos, 320 hectares na Floresta 4.0 valem o mesmo que 67,578 hectares, dos antigos agrimensores. E que o público se compensa com público, mesmo que em escala reduzida! Foi o Decreto 9/2015, diploma que também ninguém sabe bem o que é…
Quem são os responsáveis pela floresta em mancha contínua de pinheiro ou eucalipto? (E agora parece que já não lhes serve esse eucalipto…) Quem sacudiu os povos dos baldios do que era seu, para lá pôr pinheiro? Quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto? E o problema é que acham, continuam a achar, depois de tudo o que aconteceu, e do que vai acontecer ainda, que estão com o passo certo… E, contrariamente à bem conhecida anedota, sabem que não vão com o passo trocado, mas a toque de caixa de quem considera a floresta portuguesa o seu banco Fort Knox! A quem devem preito de menagem…
Dizemos isto, mas não nos sai da boca este sabor a raiva e lama, a raiva e carvão negro, a raiva e a um infinito lamento… Eram as horas certas em todos os relógios (perdoa-me Garcia Lorca), mas nos nossos relógios só podem rimar a raiva e a dor pelo que não podia ter acontecido… no sábado 17 de Junho de 2017, em Pedrógão Grande.
Que raiva e dor não poder fazer nada, quando tanto podia ter sido feito!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Bom fim de semana, por Jorge




"Resistir é preciso"

Alípio de Freitas
ex-padre, revolucionário e jornalista,
1929-2017

no título do seu livro de 1981

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O que está por detrás do cerco ao Qatar?

A Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos (EAU) avançam com a justificação de que o Qatar apoia grupos jihadistas mas a Arábia Saudita, que se encontra por detrás da ideologia wahhabi, também os apoia, nomeadamente na Síria.

 
                                   Créditos STR/EPA / Agência Lusa
O alcance do bloqueio ao Qatar e interdições diversas a dezenas dos seus altos cargos dirigentes, promovido pela Arábia Saudita e por outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), irá definir-se nas próximas semanas. Sendo certo que o pano de fundo dos recentes acontecimentos é mais a disputa da influência maioritária na região, tão rica em petróleo e gás natural, cruzamento terrestre e marítimo de rotas comerciais, entre a Arábia Saudita e o Irão.
Mas, vamos a factos, ao que é certo.
É certo que Donald Trump, aludindo ao presente bloqueio ao Qatar, naquele seu jeito de cowboy pretensioso, entrou na disputa diplomática entre o Qatar e os vizinhos do Golfo Pérsico ao dizer que a sua visita à Arábia Saudita «já está a dar resultados».
Numa série de tweets, Donald Trump disse que os líderes do Médio Oriente prometeram combater o extremismo e já estão a fazê-lo, ao cortarem relações com o Qatar. «Durante a minha recente visita ao Médio Oriente, disse que não podia haver financiamento da ideologia radical. Os líderes apontaram o dedo ao Qatar» e «a minha viagem já está a dar resultados. Eles disseram que iriam optar pela linha dura quanto ao extremismo. Talvez este seja o início do fim do horror do terrorismo», escreveu, sugerindo que foi ele quem incentivou o isolamento do Qatar. Já em 20 de Maio, ao ser recebido de forma imponente em Riade, Trump apoiara a Arábia Saudita ao mesmo tempo que atacava o Irão.
É certo que o Kuweit, a Turquia e a Rússia desde o primeiro dia se pronunciaram no sentido de haver negociações entre as partes para não agravar ainda mais as tensões no Médio Oriente. Os dois primeiros ofereceram-se como mediadores. E a Al-Jazeera, face à sucessão de tweets de Trump, interrogava-se, então, se não estaria a ocorrer uma mudança de política externa norte-americana em relação ao Golfo Pérsico.
É certo que a Al-Jazeera, para além de instrumento das «primaveras árabes» de 2011 e apoiante da acção de grupos terroristas, também tem sido muito crítica dos EUA e da Arábia Saudita, tratando bem o Irão, o Hezbollah ou o Hamas. E que a Arábia Saudita exige o fim deste canal.
É certo que particularmente a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos (EAU) avançam com a justificação de que o Qatar apoia grupos jihadistas mas a Arábia Saudita, que se encontra por detrás da ideologia wahhabi, também os apoia, nomeadamente na Síria, sendo claro que a acusação pretende ser um pretexto para uma guerra económica e talvez militar contra o Qatar, visando também o Irão.
É certo que o principal apoio a grupos fundamentalistas por parte do Qatar são os «Irmãos Muçulmanos», também eles criados pelos sauditas para agirem nas «primaveras árabes», tendo agora rompido com a Arábia Saudita, que passou a apoiar apenas grupos mais fanáticos e terroristas.
É certo que a Arábia Saudita comprou material militar aos EUA no valor de 110 mil milhões de dólares, facto que o Qatar classifica de verdadeiro «suborno» aos EUA para alinharem preferencialmente com os seus opositores.
É certo que no território do Qatar está sediada a maior base militar dos EUA na região, Al Udeid, a pouco mais de 30 quilómetros da capital, Doha, construída nos anos 90 e que conta com onze mil soldados norte-americanos e a maior pista de aterragem do Golfo Pérsico, de 3,8 quilómetros, e com o Centro de Operações Aéreas Combinadas, responsável pela supervisão do funcionamento da Força Aérea dos EUA no Afeganistão, Síria, Iraque e em outros 17 países.
É certo que na Síria grupos apoiados por ambos os países se digladiam ferozmente entre si como estando a disputar zonas de influência.
É certo que, já desde as «primaveras árabes» de 2011, Arábia Saudita e Qatar procuravam controlar a região MENA (Médio Oriente e Norte de África), começando pela Tunísia para acabar na Síria. Mas já antes, nos anos 50, este despique ocorreu com o apoio da Arábia Saudita à «Irmandade Muçulmana», começando a ser inimigos com a Guerra do Golfo.
É certo que o Qatar disputa o domínio de influência sobre os países do CCG e desafia as estratégias da Arábia Saudita, ao assumir um perfil de relacionamentos internacionais diferenciado com o Irão, rompendo com a lógica Sunitas versus Xiitas, mas também com os EUA e a Rússia, por interesses comuns no abastecimento internacional de gás natural, de que Qatar e Rússia são grandes produtores, e com grandes ambições em investimentos na Europa, particularmente em França.
É certo que na recente cimeira árabe, Donald Trump colocou o Hamas dentro do mesmo quadro de organizações terroristas no discurso que fez em Riade. E, de facto, o Qatar tem laços estreitos com o Hamas. O presidente da comissão política do Hamas, Khaled Mashal, reside no Qatar.
É certo que o Qatar, para além deste seu expansionismo económico, detém uma influência política e cultural através da estação Al-Jazeera, que faz com que a Arábia Saudita a queira encerrar.
É certo que o Qatar, no início da agressão à Síria em 2011, financiou e armou rebeldes mas agora, como o confirma o Financial Times, negociou tréguas com o Irão que permitiram a retirada de populações sitiadas, duas pelas forças sírias e duas outras por forças que confrontam militarmente o regime.
É certo que na recente guerra de agressão da Arábia Saudita contra o Iémen, o Qatar, sem a condenar, ficou numa posição distanciada.
É certo que a Arábia Saudita, apesar do seu imenso poderio económico (petróleo) e militar, tem vindo a perder na guerra da Síria, está encalhada nos ataques ao Iémen e nas derrotas sucessivas do Daesh, e isso desequilibra o seu peso face ao Qatar.
É certo que o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emiratos Árabes Unidos (EAU) avisou o Irão de que não deve explorar as divisões agora acentuadas no seio do CCG.
É certo que o Grupo de Bilderberg, que tem sido um instrumento de promoção nas elites dominantes de muitos países das políticas da NATO, após a sua criação em 1956 pela CIA, norte-americana, e pelo MI6, britânico, na sua última reunião de dias 1 a 4 de Junho deste ano, na sua sede, na mansão apalaçada gigante em Chantilly, no estado de Virgínia, nos EUA, terá registado no seu seio um confronto singular, a propósito do Médio Oriente, entre diferentes facções imperialistas.
«É visível que enquanto Washington deu mais força à consideração de Teerão como grande inimigo, consolidou a sua aliança com Riade, garantindo o romper com a Irmandade em troca de 110 mil milhões de dólares de armamento.»
Segundo o jornalista Thierry Meyssan, Londres estava a pressionar para uma mudança de paradigma no Médio Oriente que, mesmo que o modelo das «primaveras árabes» (sucedâneas da revolta árabe de 1916, organizada por Lawrence da Arábia para substituir o Império Otomano pelo Império Britânico) seja abandonado, o MI6 espera criar uma nova entente com base no islamismo político. E avança que o único consenso entre os «Aliados», ali tão bem representados neste grupo ultrassecreto, é a «necessidade de abandonar o princípio de um Estado jihadista. Todos admitem que é preciso devolver o diabo à sua caixa. Quer dizer, acabar com o Daesh (E.I.), mesmo que alguns continuem com a Al Qaeda». O secretismo do areópago levará, porém, o seu tempo a integrar o argumentário dos analistas
A agência de notícias do Qatar tinha feito, no início deste conflito, uma notícia atribuindo ao Emir Tamim declarações favoráveis para com o Irão e pretendendo que a sua própria família, os Al-Thani, fosse descendente do pregador Abdelwahhab, o fundador do wahhabismo. A Arábia Saudita reagiu de imediato em todos os seus canais de TV e o Qatar acabou por declarar que o sítio da Internet da sua agência tinha sido atacado por hackers e retirou a notícia. O Qatar chegou mesmo a pedir a «ajuda» do FBI norte-americano para lançar luz sobre este caso.
Na realidade, este episódio não foi mais do que a parte visível do iceberg: o Qatar poderia estar a participar com o Reino Unido numa tentativa de reorganizar o Médio-Oriente que poderia alterar todas as actuais alianças aí existentes
É visível que enquanto Washington deu mais força à consideração de Teerão como grande inimigo, consolidou a sua aliança com Riade, garantindo o romper com a Irmandade em troca de 110 mil milhões de dólares de armamento. Londres pressiona por um entendimento entre o Irão, o Qatar, a Turquia e os Irmãos Muçulmanos.
Ainda segundo Thierry Meyssan, que não tem escondido algum apoio a Trump, «se este projecto avançasse, assistiríamos ao abandono do conflito sunita/xiita e à criação de um "crescente do islão político", indo de Teerão, a Doha, a Ancara, a Idlib, a Beirute e a Gaza. Este novo arranjo permitiria ao Reino Unido conservar a sua influência na região
Não terá sido por acaso que o Irão foi há dias, pela primeira vez, alvo de atentados reivindicados pelo Daesh, tendo o Irão acusado disso a Arábia Saudita e os EUA, e prometendo retaliações. Já em Março, o Daesh divulgara um vídeo em língua farsi onde pedia aos membros da minoria sunita do Irão que atacassem os símbolos religiosos e políticos da República Islâmica.
O atentado agora perpetrado contra o Mausoléu do Ayatollah Khomeini é um ataque contra um dos principais destinos turísticos da cidade de Teerão e de peregrinos que ali vão celebrar o líder da revolução iraniana que criou a República Islâmica, com ayatollahs como guardiões do regime. É um acto de desespero, também com acções em vários países europeus, contra a perda de posições do Daesh no seu «Califado» do Iraque e da Síria.
Por outro lado, a China sabe que quem criou o Califado o fez também para cortar a «Rota da Seda» no Iraque e na Síria, e lançou depois a guerra na Ucrânia para cortar «a Nova Rota da Seda», se pode estar a preparar para, preventivamente, abrir uma terceira frente nas Filipinas e uma quarta na Venezuela, a fim de cortar outros projectos de comunicação.
A agência de notícias chinesa, Xinhua, sustentava há dias que em nome da justiça e da paz, Washington e os seus aliados têm visto nas últimas décadas as suas estratégias, ditas de combate ao terrorismo no Médio Oriente, realizarem-se uma após outra, em alguns casos com contra-ataques brutais que ceifaram muitas vítimas inocentes e provocaram a catástrofe humanitária dos refugiados que caiu sobre vários países europeus.
Mas a China destacou sempre a importância de se criar uma ordem política e económica global mais justa, atendendo ao desenvolvimento desequilibrado de diferentes partes do mundo face ao actual arranjo injusto posterior à Guerra Fria, que trouxe o desespero e o ódio, criando apenas de fundamentalismo e paranoia. Enquanto se manteve ao lado das vítimas do terrorismo, estando sempre pronta para trabalhar com o ocidente e para promover o desenvolvimento comum na comunidade do futuro.
Donald Trump descreveu a luta contra o terrorismo como uma batalha entre «o bem e o mal», exortando os líderes árabes a fazer sua parte para «expulsar» o terrorismo dos seus países num discurso semelhante ao que o seu antecessor, Barack Obama, fizera em Junho de 2009, quando também prometeu redefinir as relações da América com o mundo árabe, o que não se realizou de facto.
Os EUA sabem que qualquer mudança na política real no Qatar não afectará a sua base militar. Isso está para além da disputa actual. Os laços americanos com os Estados do Golfo, especialmente com a Arábia Saudita, são mais importantes que isso. E o Qatar, com a referida base militar, serve os EUA e a CIA. Há uma apreensão dentro do mundo islâmico, talvez porque a nova estratégia dos EUA se basear num cisma entre xiitas e sunitas no mundo islâmico e particularmente no Médio Oriente, onde o conflito da Arábia Saudita com o Irão se agravou.
O bloqueio ao Qatar vai ter profundas consequências negativas para o seu povo e Washington e Riade podem até esperar, com isso, poder trabalhar para a mudança da direcção política do Qatar. Mas Doha conta com o apoio do Irão e da Turquia, bem como com a simpatia da China e da Rússia, sendo que estas têm procurado arrefecer os ânimos e feito apelos ao diálogo.
A base militar de Al Udeid, numa situação de crise acentuada, bem como o imenso material militar que os EUA venderam à Arábia Saudita, poderá até levar a uma invasão do Qatar pela Arábia Saudita e outros estados do CCG e à própria ocupação da Síria e do Irão. Ocupação em que Israel desempenharia seguramente um papel importante.