quarta-feira, 28 de junho de 2017

Fogos: não nos atirem areia para os olhos e vão para o essencial

A União das Misericórdias tem a obrigação, que ainda não lhe foi cometida, de prestar contas, euro a euro, do que agora vai receber.
Partindo eu do princípio que este dinheiro não vai ser destinado a pagamento de salários nem a despesas correntes das suas filiadas.
E que as obras serão acompanhadas para que não saia dinheiro dos empreiteiros contratados para os contratantes.
E que vai ser rapidamente distribuído por investimento em obras e equipamentos que reponham as condições de laboração de empresas e os postos de trabalho anteriores.
E ao pagamento de salários de quem ficou sem trabalho e falta de resposta das empresas destruídas para os garantir.
E que chegue rapidamente às mãos dos que perderam os familiares que garantiam os rendimentos familiares.
E aos que perderam estábulos, armazéns e animais e carecem da reposição das condições de exploração, etc.
 
Ao dinheiro do Meo Arena têm que se somar os apoios comunitários para estes efeitos.
E a despesa pública terá que crescer com a comparticipação naconal nestes e com outros apoios necessários.
Fica de fora outra despesa e investimento nas questões da prevenção, hoje completamente desguarnecidas pela política neoliberal e de austeridade, que Governo e AR têm que definir. Mais leis e outros papéis, não, porque já existem e ninguém fez para se cumprirem de forma visível!...
Como a imediata recriação de estruturas descentralizadas do Ministério da Agricultura, desburocratizadas e próximas dos interessados.
Como a definição das entidades a quem compete fazer a gestão florestal, simultânea à progressiva aplicação de reordenamentos e reflorestações e à realização do cadastro florestal, sem que uma coisa empate a outra.
Como recrutamento de centenas de guardas florestais e construção de centenas de postos de vigia de incêndios devidamente equipados.
Como a definição de quem faz os cortes vegetais que garantam as distâncias sem florestação em estradas, na própria floresta(aceiros), junto das habitações, depósitos e estações de combustível e de outro edificado.
Como a contratação permanente de milhares de sapadores florestais para assumir estas responsabilidades quando atribuídas ao Estado e intervir coercivamente em propriedades particulares que o não façam com o respectivo debitar das contas respectivas a esses proprietários.
Desculpem ser mais um a escrever sobre os fogos mas a atenção das pessoas está a ser centrada no funcionamento do SIRESP, da Protecção Civil, dos Ministérios, polícias e bombeiros, fdo cruzar de responsabilidades. Que merecem ser trabalhados num plano adequado. Mas não impedindo a prioridade de atenção da comunicação social e instituições de poder, e não só, questões como as que referi acima.

Pedrógão, uma raiva sem fim..., por Agostinho Lopes

Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal? Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?

 
Não sei porque não posso espumar de raiva, pelos mortos queimados da tragédia de sábado. E por isso cresce-me uma tal raiva capaz de pegar fogo à água que habitualmente o apaga. Uma raiva de lágrimas e palavrões, daqueles que arrebentam penedos…
Vamos ter missas de pesar… comícios de soluções… conferências de imprensa de estudos e planos… Vamos ter tudo o que é habitual em casos que tais, comissões parlamentares eventuais, investigações da PJ, declarações da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), discursos de ministros (por baixo, do, da Agricultura e da, da Administração Interna), de ex-ministros e até de ex-primeiros-ministros… Vamos ter tudo, tudo o que tivemos em vezes que tais… (perdoa-me Gedeão, a mal amanhada paráfrase…).
Vamos ter pena dos mortos, das árvores que arderam (até o eucalipto vai ter o seu avé-maria), dos coelhos e raposas, e até dos calhaus que com o calor racharam (só é pena que outros calhaus não rachem, mesmo de frio, já servia!).
Senhores, senhores, já tudo foi dito e escrito. Há muito. Há décadas. Já não posso mais ouvir falar de certas coisas. Já não aguento tanta repetição. Tanto disco riscado! Tanto relatório. Tanta comissão. Tanta chuva onde já choveu. Tanto sol na eira e chuva no nabal! Por que razão não se quer gritar alto, tão alto, que as trombetas do Apocalipse parecerão ronronar de gato… que não se fez nem faz o que se tem de fazer, porque isso custa pilim… porque isso no Orçamento do Estado implica com o défice, com a dívida, com o grupo do euro, com o Semestre Europeu e o Programa de Estabilidade, com o Moscovici e o Juncker, com o Schäuble e a Merkel, com as e os… a todos!
Porque isso, chegado Outubro, vêm umas pingas e tudo fica resolvido, cai no borralho, e até serve para assar castanhas… E lá vêm mais umas reformas da floresta, mais uma catrefa de decretos-leis, portarias e despachos, oh sim muitos despachos, que a despachar para o dia de S. Nunca em Fevereiro com 30 dias, é fácil, é barato e não chateia os senhores de Bruxelas… Haverá até, para entreter os senhores deputados umas propostas de lei, em assuntos que são da competência legislativa da Assembleia da República… Senhores, não há paciência para tanto estrume…
Pobre do Diário da República, que não há folhas que lhe cheguem para tanta lei… para tanta decisão oficial e legal… para tanta recomendação… E quatro vezes pobre, a floresta, que não lhe bastando os incêndios, ainda tem o Diário da República nas suas três séries, mais o Diário da Assembleia da República a consumir o papel das árvores que sobraram dos incêndios para escrutinar e registar os incêndios florestais…
Vamos repetir tudo de novo outra vez? Oiçam os dentes a ranger! Vejam os olhos a deitar lume. Vejam a boca a espumar. Só não dou coices porque… mas é o que apetecia. E o problema não é ser assemelhado ao animal… mas porque não tenho à beira quem os merece.
Vamos ver:
Conhece-se o que são os matos, os pinhais, as bouças, a dita floresta do Norte e Centro de Portugal? Sabe-se que é uma floresta de pequenos proprietários. Imbricada até ao sabugo com as também pequenas explorações agrícolas. Sabe-se? Então se se sabe porque não se actua em conformidade?
Sabe-se que é «abandonada» porque a madeira nada dá… e sabe-se quem compra a «madeira», ou a cortiça… o Belmiro, o Queiroz Pereira, o Amorim… E senhores, gastam-se milhões de euros de dinheiros públicos – nacionais e comunitários – a subsidiar as fábricas desses senhores, e depois não há massa para os sapadores florestais, para o cadastro, para as equipas de análise do fogo, para as faixas de gestão de combustível???
«Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas?»

Por favor, não brinquem com a gente, feitos sátrapas de meia tigela. Por que razão não se recompõe o corpo de guardas florestais, constatado o crime público que foi a sua liquidação? Custa dinheiro ao erário público? Pois custa, que ninguém trabalha de borla. Nem os da Santa Casa… Cresce o número de funcionários públicos, e isso mexe com a despesa orçamental, e sobretudo com os bonzos de Bruxelas? Pois mexe, mas a não ser que os convençam a ingressar nos corpos de bombeiros voluntários – e podia ser uma forma da burocracia bruxelense fazer férias activas – não há maneira…
Por que razão o número de Equipas de Sapadores Florestais – 500 – previsto num Plano oficial de técnicos florestais da passagem do século, 2000, se me não engano, há tanto tempo foi, continua a meio pau? Porquê? Falta de graveto? Mas ele há tanto na nossa floresta…
(Mas não se seja injusto. Os que liquidaram o corpo de guardas florestais, os mesmos que nada fazem para que o número de Equipas de Sapadores chegue aos 500, previsto há quase duas décadas, gente que passa os dias a falar da qualificação dos portugueses, têm avançado com a interessante hipótese de resolver o problema da carência de recursos humanos da floresta portuguesa pelo recurso (repetição adequada) a trabalhadores desempregados e reclusos! Como quem diz, para quem é, (a floresta portuguesa) bacalhau basta, isto quando o bacalhau era a pataco… É claro que nem os desempregados nem os reclusos têm alguma responsabilidade nesta miserável instrumentalização…).
Por que razão as faixas de gestão de combustível, as primárias pelo menos, constando de sucessiva legislação – desde o Decreto-Lei 124/2006 – não estão concretizadas? Não acham que 10 anos deviam chegar? Falta de quê? De vontade? De verba? De um comando único e eficaz de todos estes processos da floresta portuguesa, prevenção e combate, espartilhados por não sei quantos ministérios, certamente para que ninguém verdadeiramente possa assumir as responsabilidades dos desastres que, fatais como o destino, fatais como dizem que era o fado, fatais como a brutalidade da morte que tão brutalmente cortou cerce a vida a 64 homens e mulheres deste país!
Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal, que todos, suma hipocrisia, diziam e dizem ser condição necessária para a boa gestão florestal. Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?
«Quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto?»
E logo, faz-se uma lei para que essa terra possa ser roubada, faz-se outra lei para criar uma bolsa ou banco de terras, dão-se uns «incentivos fiscais» a uns fundos de investimento, que vem a correr da Bolsa de Nova Iorque para a arrendar/comprar e plantar rosas e orquídeas… (Senhor, Senhor porque lhes não dais juizinho!!!).
Poderão alguns, com alguma razão, dizer que não se deve brincar com coisas sérias. Mas o que dizer do sucedido com o anterior governo PSD/CDS e a ministra Cristas que, depois de excluir do Regime Florestal total a Herdade do Ribeiro do Freixo, de 320 hectares, e desanexá-la da tutela pública para dar movimento (privatizá-la!) à sua bolsa de terras, devolveu à tutela pública a Mata da Margaraça de 67,578 hectares de propriedade pública para «compensar». Baralhados?
Como bem percebem os especialistas em algoritmos, 320 hectares na Floresta 4.0 valem o mesmo que 67,578 hectares, dos antigos agrimensores. E que o público se compensa com público, mesmo que em escala reduzida! Foi o Decreto 9/2015, diploma que também ninguém sabe bem o que é…
Quem são os responsáveis pela floresta em mancha contínua de pinheiro ou eucalipto? (E agora parece que já não lhes serve esse eucalipto…) Quem sacudiu os povos dos baldios do que era seu, para lá pôr pinheiro? Quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto? E o problema é que acham, continuam a achar, depois de tudo o que aconteceu, e do que vai acontecer ainda, que estão com o passo certo… E, contrariamente à bem conhecida anedota, sabem que não vão com o passo trocado, mas a toque de caixa de quem considera a floresta portuguesa o seu banco Fort Knox! A quem devem preito de menagem…
Dizemos isto, mas não nos sai da boca este sabor a raiva e lama, a raiva e carvão negro, a raiva e a um infinito lamento… Eram as horas certas em todos os relógios (perdoa-me Garcia Lorca), mas nos nossos relógios só podem rimar a raiva e a dor pelo que não podia ter acontecido… no sábado 17 de Junho de 2017, em Pedrógão Grande.
Que raiva e dor não poder fazer nada, quando tanto podia ter sido feito!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Bom fim de semana, por Jorge




"Resistir é preciso"

Alípio de Freitas
ex-padre, revolucionário e jornalista,
1929-2017

no título do seu livro de 1981

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O que está por detrás do cerco ao Qatar?

A Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos (EAU) avançam com a justificação de que o Qatar apoia grupos jihadistas mas a Arábia Saudita, que se encontra por detrás da ideologia wahhabi, também os apoia, nomeadamente na Síria.

 
                                   Créditos STR/EPA / Agência Lusa
O alcance do bloqueio ao Qatar e interdições diversas a dezenas dos seus altos cargos dirigentes, promovido pela Arábia Saudita e por outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), irá definir-se nas próximas semanas. Sendo certo que o pano de fundo dos recentes acontecimentos é mais a disputa da influência maioritária na região, tão rica em petróleo e gás natural, cruzamento terrestre e marítimo de rotas comerciais, entre a Arábia Saudita e o Irão.
Mas, vamos a factos, ao que é certo.
É certo que Donald Trump, aludindo ao presente bloqueio ao Qatar, naquele seu jeito de cowboy pretensioso, entrou na disputa diplomática entre o Qatar e os vizinhos do Golfo Pérsico ao dizer que a sua visita à Arábia Saudita «já está a dar resultados».
Numa série de tweets, Donald Trump disse que os líderes do Médio Oriente prometeram combater o extremismo e já estão a fazê-lo, ao cortarem relações com o Qatar. «Durante a minha recente visita ao Médio Oriente, disse que não podia haver financiamento da ideologia radical. Os líderes apontaram o dedo ao Qatar» e «a minha viagem já está a dar resultados. Eles disseram que iriam optar pela linha dura quanto ao extremismo. Talvez este seja o início do fim do horror do terrorismo», escreveu, sugerindo que foi ele quem incentivou o isolamento do Qatar. Já em 20 de Maio, ao ser recebido de forma imponente em Riade, Trump apoiara a Arábia Saudita ao mesmo tempo que atacava o Irão.
É certo que o Kuweit, a Turquia e a Rússia desde o primeiro dia se pronunciaram no sentido de haver negociações entre as partes para não agravar ainda mais as tensões no Médio Oriente. Os dois primeiros ofereceram-se como mediadores. E a Al-Jazeera, face à sucessão de tweets de Trump, interrogava-se, então, se não estaria a ocorrer uma mudança de política externa norte-americana em relação ao Golfo Pérsico.
É certo que a Al-Jazeera, para além de instrumento das «primaveras árabes» de 2011 e apoiante da acção de grupos terroristas, também tem sido muito crítica dos EUA e da Arábia Saudita, tratando bem o Irão, o Hezbollah ou o Hamas. E que a Arábia Saudita exige o fim deste canal.
É certo que particularmente a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos (EAU) avançam com a justificação de que o Qatar apoia grupos jihadistas mas a Arábia Saudita, que se encontra por detrás da ideologia wahhabi, também os apoia, nomeadamente na Síria, sendo claro que a acusação pretende ser um pretexto para uma guerra económica e talvez militar contra o Qatar, visando também o Irão.
É certo que o principal apoio a grupos fundamentalistas por parte do Qatar são os «Irmãos Muçulmanos», também eles criados pelos sauditas para agirem nas «primaveras árabes», tendo agora rompido com a Arábia Saudita, que passou a apoiar apenas grupos mais fanáticos e terroristas.
É certo que a Arábia Saudita comprou material militar aos EUA no valor de 110 mil milhões de dólares, facto que o Qatar classifica de verdadeiro «suborno» aos EUA para alinharem preferencialmente com os seus opositores.
É certo que no território do Qatar está sediada a maior base militar dos EUA na região, Al Udeid, a pouco mais de 30 quilómetros da capital, Doha, construída nos anos 90 e que conta com onze mil soldados norte-americanos e a maior pista de aterragem do Golfo Pérsico, de 3,8 quilómetros, e com o Centro de Operações Aéreas Combinadas, responsável pela supervisão do funcionamento da Força Aérea dos EUA no Afeganistão, Síria, Iraque e em outros 17 países.
É certo que na Síria grupos apoiados por ambos os países se digladiam ferozmente entre si como estando a disputar zonas de influência.
É certo que, já desde as «primaveras árabes» de 2011, Arábia Saudita e Qatar procuravam controlar a região MENA (Médio Oriente e Norte de África), começando pela Tunísia para acabar na Síria. Mas já antes, nos anos 50, este despique ocorreu com o apoio da Arábia Saudita à «Irmandade Muçulmana», começando a ser inimigos com a Guerra do Golfo.
É certo que o Qatar disputa o domínio de influência sobre os países do CCG e desafia as estratégias da Arábia Saudita, ao assumir um perfil de relacionamentos internacionais diferenciado com o Irão, rompendo com a lógica Sunitas versus Xiitas, mas também com os EUA e a Rússia, por interesses comuns no abastecimento internacional de gás natural, de que Qatar e Rússia são grandes produtores, e com grandes ambições em investimentos na Europa, particularmente em França.
É certo que na recente cimeira árabe, Donald Trump colocou o Hamas dentro do mesmo quadro de organizações terroristas no discurso que fez em Riade. E, de facto, o Qatar tem laços estreitos com o Hamas. O presidente da comissão política do Hamas, Khaled Mashal, reside no Qatar.
É certo que o Qatar, para além deste seu expansionismo económico, detém uma influência política e cultural através da estação Al-Jazeera, que faz com que a Arábia Saudita a queira encerrar.
É certo que o Qatar, no início da agressão à Síria em 2011, financiou e armou rebeldes mas agora, como o confirma o Financial Times, negociou tréguas com o Irão que permitiram a retirada de populações sitiadas, duas pelas forças sírias e duas outras por forças que confrontam militarmente o regime.
É certo que na recente guerra de agressão da Arábia Saudita contra o Iémen, o Qatar, sem a condenar, ficou numa posição distanciada.
É certo que a Arábia Saudita, apesar do seu imenso poderio económico (petróleo) e militar, tem vindo a perder na guerra da Síria, está encalhada nos ataques ao Iémen e nas derrotas sucessivas do Daesh, e isso desequilibra o seu peso face ao Qatar.
É certo que o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emiratos Árabes Unidos (EAU) avisou o Irão de que não deve explorar as divisões agora acentuadas no seio do CCG.
É certo que o Grupo de Bilderberg, que tem sido um instrumento de promoção nas elites dominantes de muitos países das políticas da NATO, após a sua criação em 1956 pela CIA, norte-americana, e pelo MI6, britânico, na sua última reunião de dias 1 a 4 de Junho deste ano, na sua sede, na mansão apalaçada gigante em Chantilly, no estado de Virgínia, nos EUA, terá registado no seu seio um confronto singular, a propósito do Médio Oriente, entre diferentes facções imperialistas.
«É visível que enquanto Washington deu mais força à consideração de Teerão como grande inimigo, consolidou a sua aliança com Riade, garantindo o romper com a Irmandade em troca de 110 mil milhões de dólares de armamento.»
Segundo o jornalista Thierry Meyssan, Londres estava a pressionar para uma mudança de paradigma no Médio Oriente que, mesmo que o modelo das «primaveras árabes» (sucedâneas da revolta árabe de 1916, organizada por Lawrence da Arábia para substituir o Império Otomano pelo Império Britânico) seja abandonado, o MI6 espera criar uma nova entente com base no islamismo político. E avança que o único consenso entre os «Aliados», ali tão bem representados neste grupo ultrassecreto, é a «necessidade de abandonar o princípio de um Estado jihadista. Todos admitem que é preciso devolver o diabo à sua caixa. Quer dizer, acabar com o Daesh (E.I.), mesmo que alguns continuem com a Al Qaeda». O secretismo do areópago levará, porém, o seu tempo a integrar o argumentário dos analistas
A agência de notícias do Qatar tinha feito, no início deste conflito, uma notícia atribuindo ao Emir Tamim declarações favoráveis para com o Irão e pretendendo que a sua própria família, os Al-Thani, fosse descendente do pregador Abdelwahhab, o fundador do wahhabismo. A Arábia Saudita reagiu de imediato em todos os seus canais de TV e o Qatar acabou por declarar que o sítio da Internet da sua agência tinha sido atacado por hackers e retirou a notícia. O Qatar chegou mesmo a pedir a «ajuda» do FBI norte-americano para lançar luz sobre este caso.
Na realidade, este episódio não foi mais do que a parte visível do iceberg: o Qatar poderia estar a participar com o Reino Unido numa tentativa de reorganizar o Médio-Oriente que poderia alterar todas as actuais alianças aí existentes
É visível que enquanto Washington deu mais força à consideração de Teerão como grande inimigo, consolidou a sua aliança com Riade, garantindo o romper com a Irmandade em troca de 110 mil milhões de dólares de armamento. Londres pressiona por um entendimento entre o Irão, o Qatar, a Turquia e os Irmãos Muçulmanos.
Ainda segundo Thierry Meyssan, que não tem escondido algum apoio a Trump, «se este projecto avançasse, assistiríamos ao abandono do conflito sunita/xiita e à criação de um "crescente do islão político", indo de Teerão, a Doha, a Ancara, a Idlib, a Beirute e a Gaza. Este novo arranjo permitiria ao Reino Unido conservar a sua influência na região
Não terá sido por acaso que o Irão foi há dias, pela primeira vez, alvo de atentados reivindicados pelo Daesh, tendo o Irão acusado disso a Arábia Saudita e os EUA, e prometendo retaliações. Já em Março, o Daesh divulgara um vídeo em língua farsi onde pedia aos membros da minoria sunita do Irão que atacassem os símbolos religiosos e políticos da República Islâmica.
O atentado agora perpetrado contra o Mausoléu do Ayatollah Khomeini é um ataque contra um dos principais destinos turísticos da cidade de Teerão e de peregrinos que ali vão celebrar o líder da revolução iraniana que criou a República Islâmica, com ayatollahs como guardiões do regime. É um acto de desespero, também com acções em vários países europeus, contra a perda de posições do Daesh no seu «Califado» do Iraque e da Síria.
Por outro lado, a China sabe que quem criou o Califado o fez também para cortar a «Rota da Seda» no Iraque e na Síria, e lançou depois a guerra na Ucrânia para cortar «a Nova Rota da Seda», se pode estar a preparar para, preventivamente, abrir uma terceira frente nas Filipinas e uma quarta na Venezuela, a fim de cortar outros projectos de comunicação.
A agência de notícias chinesa, Xinhua, sustentava há dias que em nome da justiça e da paz, Washington e os seus aliados têm visto nas últimas décadas as suas estratégias, ditas de combate ao terrorismo no Médio Oriente, realizarem-se uma após outra, em alguns casos com contra-ataques brutais que ceifaram muitas vítimas inocentes e provocaram a catástrofe humanitária dos refugiados que caiu sobre vários países europeus.
Mas a China destacou sempre a importância de se criar uma ordem política e económica global mais justa, atendendo ao desenvolvimento desequilibrado de diferentes partes do mundo face ao actual arranjo injusto posterior à Guerra Fria, que trouxe o desespero e o ódio, criando apenas de fundamentalismo e paranoia. Enquanto se manteve ao lado das vítimas do terrorismo, estando sempre pronta para trabalhar com o ocidente e para promover o desenvolvimento comum na comunidade do futuro.
Donald Trump descreveu a luta contra o terrorismo como uma batalha entre «o bem e o mal», exortando os líderes árabes a fazer sua parte para «expulsar» o terrorismo dos seus países num discurso semelhante ao que o seu antecessor, Barack Obama, fizera em Junho de 2009, quando também prometeu redefinir as relações da América com o mundo árabe, o que não se realizou de facto.
Os EUA sabem que qualquer mudança na política real no Qatar não afectará a sua base militar. Isso está para além da disputa actual. Os laços americanos com os Estados do Golfo, especialmente com a Arábia Saudita, são mais importantes que isso. E o Qatar, com a referida base militar, serve os EUA e a CIA. Há uma apreensão dentro do mundo islâmico, talvez porque a nova estratégia dos EUA se basear num cisma entre xiitas e sunitas no mundo islâmico e particularmente no Médio Oriente, onde o conflito da Arábia Saudita com o Irão se agravou.
O bloqueio ao Qatar vai ter profundas consequências negativas para o seu povo e Washington e Riade podem até esperar, com isso, poder trabalhar para a mudança da direcção política do Qatar. Mas Doha conta com o apoio do Irão e da Turquia, bem como com a simpatia da China e da Rússia, sendo que estas têm procurado arrefecer os ânimos e feito apelos ao diálogo.
A base militar de Al Udeid, numa situação de crise acentuada, bem como o imenso material militar que os EUA venderam à Arábia Saudita, poderá até levar a uma invasão do Qatar pela Arábia Saudita e outros estados do CCG e à própria ocupação da Síria e do Irão. Ocupação em que Israel desempenharia seguramente um papel importante.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Bom fim de semana, por Jorge




"A arte melhora sempre a verdade


Ali Smith escritora escocesa,
n.1962
em entrevista no Público
de 12 de maio deste ano

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Venezuela, a América Latina e o Pentágono


Os crimes da oposição na Venezuela

No passado dia 14, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou manifestantes opositores de incendiarem um jovem por pensarem que não pertencia aos seus grupos de oposição, depois de um novo dia de confrontos com a polícia de jovens com máscaras, arremessando pedras e cocktails molotov contra a polícia. Ao longo das últimas semanas, com a oposição da MUD a usar o mesmo tipo de intervenções de destruições, saques, incêndios, delapidando um património incalculável, já morreram 60 pessoas, incluindo polícias, manifestantes e contramanifestantes, sendo que parte dessas mortes se devem a tiros certeiros na cabeça por parte de snipers não identificados.


 

Maduro garantiu no dia em que ocorreu o crime contra o jovem, que vários dos “chefes de grupos de mercenários” opositores já estão presos e pediu justiça por parte dos organismos do Estado competentes.

A ofensiva contra revolução bolivariana acentuou-se muito depois da morte de Hugo Chávez.

O Papa Francisco teve um papel de relevo na tentativa de parar as confrontações na Venezuela, quando em final do ano passado juntou antigos primeiros-ministros latino-americanos para se iniciar um diálogo. Por iniciativa de sectores da oposição esse diálogo então fracassou. Questionado agora por jornalistas sobre a possibilidade de relançar a iniciativa para o diálogo, o Papa Francisco criticou a falta de interesse da oposição: "Acho que (o diálogo) deve ocorrer agora, mas que as condições devem ser claras, muito claras. Mas a oposição não quer isso, é engraçado porque a oposição está dividida (…) ".

Os EUA sabem que não será pela via democrática que a revolução bolivariana será derrotada e, por isso, estimulam as confrontações civis armadas e procuram descobrir algum descontentamento em unidades militares devido à gravidade da situação no país.

E têm a situação ao nível dos media bem controlada. Toda a comunicação social e comentários nos grandes meios nacionais e internacionais estão feitos na lógica da criação de “pós-verdades” (mentiras ou “fake news”) que nos condicionam. São afirmações ou imagens lançadas que não permitem o contraditório e que nos querem fazer entrar na cabeça como se fossem verdades incontornáveis.

Os mais de 150 mil manifestantes que ocuparam há dias Brasília, defendendo os direitos do povo, a nação ameaçada pelos interesses estrangeiros e a democracia conspurcada pelo golpe, foram recebidos com bombas, balas de borracha e cassetetes. A meia dúzia de provocadores infiltrados que causou as cenas de depredação foi a única coisa que os media mostraram apesar de nada representarem diante da enorme multidão combativa e pacífica que foi a Brasília lutar pacificamente. Mas agora Temer quer acusar as organizações sindicais promotoras por esses actos. A Rede Globo divulgou os telefonemas comprometedores para Temer e está a trabalhar para apoiar o impeachment e impor a um corrupto um outro figurante alternativo em eleição indirecta pelo bando de jagunços, instalados no Congresso e Senado, muitos dele a contas com a justiça por corrupção.

Grande parte dos brasileiros e as forças de esquerda, sindicais e de agricultores defendem a eleição do novo presidente por eleições directas. É o caso do dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) Gilmar Mauro: "A Globo está numa crise econômica há bastante tempo e perdendo audiência. Além de tudo, também está perdendo o debate político na sociedade. Por isso, eles estão desembarcando, mas querendo construir uma alternativa por via indireta – e nós não podemos admitir. Vamos conseguir superar o golpismo não só com a saída do Temer, mas com a derrota política da Globo e a convocação de eleições diretas".














Que souberam os portugueses das grandes manifestações neste mês de Maio na Argentina contra a descriminalização dos torcionários da ditadura de Videla ou, mais recentemente, da grandes manifestação de professores universitários em defesa das suas instituições de ensino contra as investidas de Macri? Mas antes destas já no dia 6 a Argentina realizou uma greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) e pelas Centrais de Trabalho da Argentina (a CTA e a CTA Autônoma), contando com a adesão de todos os sindicatos de trabalhadores em meios de transporte do país, além de diversas categorias, como professores e lixeiros, e grande parte do comércio. Esta greve respondeu às políticas implementadas pelo presidente Mauricio Macri e a coligação neo-liberal que o apoia, numa altura em que se registam 40% de inflação, salários desvalorizados, aumento do desemprego (que subiu dois pontos percentuais) e da pobreza (que atinge 32% da população do país).

Num comício na 5ª feira, membros da Comissão Presidencial para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) da Venezuela, garantiram que “a Revolução Bolivariana realizará as acções necessárias para manter a estabilidade social e política do país, não caindo, por isso, em nenhuma provocação que fizesse perigar a soberania nacional.” “Temos a partir de agora de assumir a tarefa de nos convertermos em soldados para a guerra com que nos vão confrontar, (…) com a disciplina, consciência e organização, obedecendo à nossa liderança, e não caindo na provocação da guerra civil que leve a uma intervenção no país. Para além da República e do governo, está em jogo a Pátria”.

Também nesse dia Maduro em comunicação ao país apelava ““Já basta de ódio, de intolerância, de violência. Vamos a dar as mãos pela paz, pelo reconhecimento mútuo, pelo futuro. Vamos dar um abraço de paz. Basta de violência. Basta de dor. O caminho de Venezuela tem de ser de diálogo e de reencontro dos venezuelanos”. No dia seguinte, o vice-presidente do partido do governo (psuv) Diosdado Cabello, disse que o povo venezuelano deve aproveitar a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) para fazer uma revisão completa do Ministério Público e da Procuradoria geral da República para que esta não continue a ser promotora da impunidade na Venezuela. Cabello reiterou que o artigo 347º da Constituição da República Bolivariana da Venezuela prevê que o povo é o depositário do poder Constituinte original e que no exercício desse poder pode convocar uma ANC, para transformar o estado, redigir uma nova constituição e criar um novo ordenamento jurídico.
A juíza presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Tibisay Lucena, explicou que serão eleitos um total de 545 deputados constituintes. Desses, 364 representarão seus municípios, ou seja, cada município venezuelano terá um deputado e as capitais terão dois. Os povos indígenas terão oito deputados para representá-los. Os diversos setores sociais e econômicos da Venezuela terão 173 deputados no total.
A eleição dos membros da Constituinte está marcada para Julho.
A procura de soluções que legitimem outra constituição, que consagre direitos como o da habitação, podendo até constitucionalizar a Grande Missão Habitação Venezuela, que garantiu desde 2011 até hoje mais de um milhão e seis mil habitações dignas para quem as não tinha, e por essa forma ficar vedada uma eventual futura privatização desta Missão.

 A profunda crise política, económica e social na Venezuela, exige uma grande unidade das forças revolucionárias e patrióticas para deter tão forte ofensiva do imperialismo e do fascismo.

Mas importa verificar como compatíbilizar com a correlação de forças civis e militares face a uma guerra civil que o imperialismo prepara, para “justificar” uma intervenção militar externa.

Não são fáceis os caminhos dos revolucionários no seu próprio país. Mais fácil são os palpites que de fora se produzam, incluindo os do autor destas linhas.

 

Um relatório comprometedor para os EUA

O Comando Sul do Pentágono tem sido um observador atento da Venezuela, e não só, apresentando relatórios regulares ao Senado norte-americano (1).

Há cerca de duas semanas, o ministro venezuelano Padriño Lopes negou que os conspiradores possam encontrar nos meios militares algum apoio e que o “empurrão final” no governo, de que falam só pode entender-se à luz de um dos últimos relatórios do Almirante Kurt Tidd, chefe do Comando Sul do Pentágono, onde este afirma: “Com sectores políticos da MUD temos vindo a acordar uma agenda comum, que inclui um cenário abrupto que pode combinar acções de rua e emprego doseado de violência armada num quadro de cerco e asfixia”.

A MUD Mesa da Unidade Democrática é a força opositora, dirigida por Henrique Caprilles, candidato presidencial anteriormente derrotado, que é o chefe dos grupos armados que desencadeiam destruições e pilhagens de rua.

Aparecem ainda no relatório referências a treinos com a Força de Intervenção Conjunta Bravo, a unidade Leticia da Colômbia (2), tudo como concentração de Operações Avançadas FOL (3) com projecções sobre a região central de Venezuela onde se concentra o poder político-militar, para de seguida enumerar os activos militares disponíveis para a operação”.

O ministro venezuelano rematou que só com essa articulação que existe na guerra não convencional, entre a oposição venezuelana e sectores políticos e militares dos EUA, como o Comando Sul, pode entender-se o indefinido desenvolvimento dessas acções armadas e de vandalismo, e a confiança no “é agora ou nunca”. Até agora o Senado norte-americano não desmentiu a autenticidade do relatório.


A Venezuela e outros países da América Latina

As forças de esquerda e presidentes eleitos para a Venezuela, o Brasil, a Bolívia, o Equador, o Paraguai, o Uruguai, a Nicarágua, e as Honduras, e já décadas antes o Chile de Allende viveram numa permanente desestabilização por partes das classes sociais que sentiram poder vir a perder privilégios e sentiram em vários casos a ascensão social e a melhoria das condições de vida e de acesso ao que chamamos estado social: educação e serviços de saúde gratuitos ou de fácil acesso para todos, existência de uma segurança social garantida parcialmente por descontos de trabalhadores e empresas.

Os novos dirigentes sabiam da dureza da tarefa pelo fosso de desigualdade de rendimentos, entre ricos e pobres, da apropriação por aquisição ou contratos de concessão de exploração leoninos das matérias-primas e grandes empresas pelo vizinho do Norte, pela corrupção praticada pelos sectores que tinham sido afastados, mas que se mantinham a partir de grandes empresas e num ambiente geral de permeabilidade à pequena corrupção. Sabiam que em vários desses países os grupos económicos dominantes tinham a comunicação social na mão e que iriam condicionar muito a liberdade de expressão e o pluralismo político em favor dos anteriores privilégios. Sabiam que lhe iriam ser bloqueados financiamentos de instituições internacionais.

E, apesar disso, trabalharam para acabar com o peso dessas práticas, de regimes militares de direita e levaram à criação de verdadeiros regimes democráticos, assentes em eleições pluripartidárias, procurando garantir a liberdade de expressão das várias correntes de opinião, garantindo a concretização de importantes objectivos sociais, a liberdade de organização sindical e outros direitos dos trabalhadores.

Vencendo por vezes as hesitações das forças políticas que garantiram a direcção dos processos de transformação históricos, as populações agigantaram-se na conquista de sociedades diferentes e, mesmo quando hoje se registaram graves regressões nesses processos, elas resistem por não estarem de acordo em perder as conquistas feitas. O Brasil e a Argentina são importantes exemplos disso.

 

O Comando Sul do Pentágono e os seus recursos de intervenção em países latino-americanos

O Comando Sul, como outros Comandos regionais do Pentágono, prossegue a doutrina da guerra híbrida, pós-moderna ou líquida, criada na vigência de Obama, na qual campanhas de comunicação 2.0 (4) se combinam com o ciberterrorismo, manifestação de ruas dos “parceiros civis” (ONGs, políticos, estudantes, jornalistas, académicos, entre outros) financiados por Washington através da USAID, NED ou Freedom House e acções clandestinas de agentes especiais, privados ou combatentes substitutos para, em primeiro lugar, tentar quebrar a frente interna através de “revoluções coloridas”, ou então arrastar progressivamente o “inimigo ou adversário” para um cenário de guerra civil, onde os custos não sejam altos em intervenção e todo o peso político, social e económico recaia sobre o país atacado.

Os EUA têm 13 bases e pistas em países que fazem fronteira com a Venezuela e outras 13 em países que fazem fronteira com o Brasil, sendo que ambos os países não têm bases ou pistas nos dos EUA seus territórios. Outros países que fazem fronteira como a Colômbia e o Peru têm 9 cada e o Paraguai tem 2. Já com Temer foi retomado o projecto de uma nova base norte- americana para lançamento de mísseis, em Alcantara, no estado do Maranhão, junto à linha do Equador, acordado antes com Fernando Henriques Cardoso e depois abandonado por Lula e Dilma. O acordo, mesmo na lógica de Temer, muitíssimo humilhante para o Brasil, ainda não foi concluído.

Este Comando é uma organização militar regional unificada e um dos 10 Comandos de Combate (COCOM) do Departamento de Defesa dos EUA. A sua responsabilidade é espiar, realizar contactos com os meios de oposição dos países com governos de esquerda, articular acções com eles e planear o contingente, as operações e cooperação das forças de segurança da América do Sul, Central e Caribe (excepto os territórios e possessões dos EUA na região), Cuba e as Bahamas e suas águas territoriais. O Comando do Sul impôs-se como “segurança” de toda a região do Canal do Panamá.

O Comando do Sul reúne mais de 1.200 militares e civis, do Exército, Marinha, Força Aérea, Corpo de Fuzileiros, Guarda Costeira e outras diversas agências governamentais dos Estados Unidos. As Forças Armadas fornecem ao Comando do Sul recursos e pessoal para dois grupos de Operações Especiais, um de Inteligência, e gabinetes de segurança.

A experiência de intervenções militares em vários pontos recolocaram a intervenção militar como uma opção a ser considerada pelas elites dirigentes norte-americanas, no seguimento do seu aparente abandono depois das invasões de Granada (1983) e do Panamá (1989). O uso da força, para realizar objetivos considerados essenciais, voltou à luz do dia com a elevação do comércio e produção ilícitos de drogas a adquirir o estatuto de ameaça à segurança nacional dos EUA.

A assistência militar é um instrumento tradicional da política externa norte-americana. O treino de polícias e oficiais militares, com as ”lavagens ao cérebro” sobre as “ameaças prioritárias”, o municiar de meios os serviços secretos, o planeamento e transporte, exercícios conjuntos com militares latino-americanos, projetos cívicos e humanitários, fazem parte das atividades militares norte-americanas na região. As atividades de contra-insurgência perderam o seu papel central após a crise Irão-Contras e registou-se uma interrupção temporária de intervenções na América Central, embora tenham ocorrido operações na Colômbia e no Peru ao longo da década de 1990.

O contacto entre militares da região é estimulado por meio de um conjunto de instituições e práticas. A criação do Encontro de Ministros da Defesa das Américas intensificou as discussões estratégicas de alto nível na última década. Existem vários fóruns para as Forças Armadas da região: Conferências de Exércitos Americanos, Sistema de Cooperação das Forças Aéreas Americanas, Conferência Naval Inter-Americana, Simposium Internacional de Forças Marítimas, Junta de Defesa Inter-Americana, Colégio de Defesa Inter-Americana. Os programas de intercâmbios e treino são um aspecto fundamental deste contacto constante. As bases militares, a que já nos referimos, são outra forma importante da extensão da presença militar norte-americana no continente.


Por outro lado, outras instalações são utilizadas pelos militares norte-americanos, como é o caso do Centro de Treino de Iquitos no Peru e das bases na Colômbia. Colômbia que acabou por ser integrada na NATO…

 Esses arranjos, denominados Forward Operating Locations (3), permitem aos militares norte-americanos, à sua guarda costeira, ao serviço de alfândega e ao DEA (Drug Enforcemet Administration), usar instalações existentes como plataformas para a luta antidrogas e mantê-las preparadas para outras missões. O Comando Sul também opera radares no Peru (Iquitos, Andoas, Pucallpa) e na Colômbia (San José del Guaviare, Marandúa e Leticia), sendo outros móveis mas secretos.

A diversificação da presença militar norte-americana é uma estratégia consistente.

Tropas norte-americanas operam sistemas de radar, monitorizam a região a partir do espaço, garantem apoio operacional e de inteligência e treinam forças de segurança locais. Desta feita constituiu-se há alguns anos uma área de controlo em terra, ar e vias aquáticas na região andina, de acordo com a redefinição das fontes regionais de “ameaças”.

A presença militar norte-americana nos Andes é hoje muito significativa, e o já referido relatório relança a actualidade dos riscos de uma intervenção militar, mesmo considerada ”não convencional” na Venezuela mas também no Brasil e na Argentina – os três grandes países da América que tiveram nos últimos 15-20 anos viragens à esquerda mais ou menos acentuadas e que, de acordo com a nova doutrina da ”guerra híbrida”, têm sido alvos de intervenções “correctoras” a que os respectivos povos têm resistido.

Com o Comando Sul articula-se a acção de agências como o National Endowment for Democracy (NED), através de apoios financeiros a ONGs que trabalham como ambientalistas, a e programas como o Democratic Initiatives Program da Agencia International de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) e outras instituições regionais criadas no âmbito da OEA.

As capacidades e possibilidades de intervenção militar dos EUA, em conjunto ou por intermédio de “forças amigas” em cada país, são muito elevadas. Mas a experiência revolucionária dos povos da América Latina também.

 

Notas

(1)  Onde pontifica o senador republicano John MacCain, entusiasta anti-chavista que, na vigência da presidência Obama, teve papel fundamental na criação do Estado Islâmico (Daesh) e que, talvez não por acaso, se encontra nas primeiras filas, com Hillary Clinton, na procura do impeachment de Donald Trump, entre outras “razões” por ele ter passado informações à Rússia sobre planos do Estado Islâmico e até por “ter feito os russos intervirem em seu favor na eleição “presidencial”…

(2) Unidade adstrita à 6ª Divisão do Exército Colombiano, sediada em Letícia, na zona amazónica da Colômbia.

(3)  Os Centros Operacionais Avançados (FOL, em inglês) são comandos instalados em todas as bases que os EUA têm nestes países com pessoal militar, empresários, serviços de inteligência com recurso a satélites, patrulhas, etc.

(4)     Designam actualmente, e para o efeito aqui tratado, a utilização de sites, Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Google, aplicações digitais em telemóveis, etc.

sábado, 27 de maio de 2017

Bom fim de semana, por Jorge

"My relationship with death remains the same:
I'm strongly against it"

 "A minha relação com a morte continua na mesma:
sou fortemente contra"

Woody Allen
n.1935

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A RTP tem que se retratar por ter iludido a autoria do acto de incendiar um jovem em Caracas


Numa revoltante atitude, no noticiário de hoje, às 13 h, da RTP-1, foi remetida para o fim do alinhamento à referência feita ao incendiar dum jovem por bandos criminosos da oposição, ontem em, Caracas. Mas mais grave foi a referência a que não era conhecida qual das partes em confronto seria a autora do crime, misturando esse acto com a repressão governamental e os 47 mortos já registados (para quando a referência a quantos destes eram polícias e chavistas abatidos com tiros na cabeça por snipers?). Para já não falar da omissão da declaração do Presidente da Venezuela que teve repercussão em todo o mundo.

 

A bárbara agressão que grupos mercenários da oposição venezuelana, dirigida por Henrique Capriles, realizaram ontem ao regarem com gasolina e incendiarem um jovem, por o terem tomado por um chavista, devia obrigar os EUA, a UE e todos os seus aliados a distanciarem-se das hordas que têm apoiado de formas múltiplas.

Os EUA apoiam Capriles e já desistiram de uma reversão interna a seu favor pela via democrática e do funcionamento das instituições e, por isso, apostam nas confrontações civis armadas. E procuram descobrir algum descontentamento em unidades militares pela situação grave em que o país se encontra. A RTP é livre de não ter este entendimento e continuar a achar que Capriles quer a democracia...

Na semana passada, o ministro Padriño Lopes negou que os conspiradores possam aí encontrar algum apoio e que o “empurrão final” no governo, de que falam só pode entender-se à luz de um dos últimos relatórios do Almirante Kurt Tidd, chefe do Comando Sul do Pentágono, onde este afirma que: “Com sectores políticos da MUD temos vindo a acordar uma agenda comum, que inclui um cenário abrupto que pode combinar acções de rua e emprego doseado de violência armada num quadro de cerco e asfixia”. A RTP ignorou esta importante declaração,

A MUD Mesa da Unidade Democrática é a força opositora, dirigida por Enrique Caprilles, candidato presidencial anteriormente derrotado, que é o chefe dos grupos armados que desencadeiam destruições e pilhagens de rua.

O Comando Sul do Pentágono tem apresentando relatórios regulares sobre a Venezuela ao Senado dos EU onde pontifica o senador republicano John MaCain que, na vigência da presidência Obama, teve papel fundamental na criação do Estado Islâmico (Daesh) e que, talvez não por acaso, se encontra nas primeiras filas, com Hillary Clinton, na procura do impeachment de Donald Trump, entre outras “razões” por ele ter passado informações à Rússia sobre planos do Estado Islâmico. John MacCain e Hillary Clinton encabeçam o movimento pró-impeachment de Trump

Nicolás Maduro fez ontem uma alocução, condenando o crime e garantiu que vários dos “chefes de grupos de mercenários”, ligados ao acto de incendiar o jovem, foram já presos e pediu aos organismos do Estado que seja feita justiça.

Como cidadão, espero que a RTP seja verdadeira no que respeita  ao que se passa neste país, onde vivem tantos imigrantes portugueses, e quanto à autoria de atentados terroristas na Venezuela.

 

sábado, 20 de maio de 2017

"Amar pelos dois", alguns significados e naturais desejos

Passado que foi o Festival e que alguma poeira já assentou,  permitam-me expressar alguns desejos.
Espero que a repetição da canção na rádio não nos leve à saturação. Todos desejamos ao Salvador Sobral que o turbilhão em que tenderá a ser envolvido lhe não retire, como poderia acontecer, a serenidade e não o desvie do rumo de seriedade, de autenticidade, da valorização da música pelo que ela vale, dispensando encenações, bailarinos, coreografias, cenários e vídeos estonteantes, raios laser, complexos jogos de luz e fogos de artifício.
Espero ainda que não venha por aí uma onda de condecorações, nem por iniciativa das entidades nem pela aceitação por parte destas de uma pressão mediática nesse sentido. Ontem um jornalista perguntava ao Presidente da República quando é que ele iria receber uma medalha... 
Espero, acima de tudo, que se possa pensar mais no(s) significado(s) do que aconteceu.
"Amar pelos dois” recebeu uma votação transversal a todos os agrupamentos nacionais. Portugal venceu o Festival Eurovisão 2017 com a maior pontuação da história do concurso. Salvador Sobral e "Amar Pelos Dois" conquistaram 758 pontos, sendo 376 oriundos do televoto e 382 do júri. A candidatura portuguesa foi pontuada por todos os países no televoto, recebendo doze pontuações máximas. Por outro lado, na votação do júri foram dezoito os países a atribuir a pontuação máxima, sendo que apenas os júris de Montenegro e Bulgária não pontuaram Portugal.
Os resultados desta edição afastaram-se completamente de um estudo do Le Monde feito sobre as votações entre 1990 e 2016.
Esse estudo apresenta uma tendência para as votações dos países serem nos países vizinhos, formando verdadeiros e compreensíveis agrupamentos regionais de solidariedades que transportam proximidades culturais e sociológicas, para além de lógicas de mercados regionais. 

Assim, segundo esse estudo há (havia) um agrupamento estruturado em torno da Suécia, da Noruega e da Finlândia, um outro em torno da ex-Jugoslávia e a que se associava também a Turquia, e um outro em torno dos países da Europa Oriental, a que se juntavam Chipre e a Grécia. Fogem (fugiam) a esta lógica os países bálticos e anglo-saxónicos que se constituem como extensões do agrupamento escandinavo e a Espanha com um encosto ao agrupamento do leste europeu (Porquê? pergunto eu. Será a cultura cigana? Porque entre os dois países ibéricos também se podiam identificar permutas de votações...). A França, Portugal e também a Alemanha e outros países da Europa Central não entravam tão claramente em nenhum destes agrupamentos.
Ora a canção portuguesa fugiu a todas estas “lógicas”. Recebeu a votação máxima de países de todos estes agrupamentos e dos “não-alinhados”.

Todas as especulações sobre os efeitos neste tipo de concursos surgem naturalmente num quadro em que o interesse comercial, que comandou a globalização, também globalizou o gosto, as letras e músicas, as composições e arranjos, as distrações do essencial da música e onde um exemplo pode desencadear um “basta!” a uma escala muito vasta pelo menos no continente europeu.
No futuro importa que outras mudanças acabem com a inaceitáveis exclusões como foi este ano a de uma cantora russa por ter cantado antes…na Crimeia depois de esta ter  deixado a Ucrânia e ingressado na Federação Russa ou a confrontações desadequadas como a que há dois anos foi vertida para a letra da música vencedora da Ucrânia em jeito de confrontação com a Rússia. Para já não falar já na pressão dos organizadores ucranianos para que Salvador Sobral não vestisse uma t-shirt de apoio aos imigrantes!

Ganhou a qualidade da interpretação, da música, da simplicidade do que é feito com seriedade contra o poder dos estereótipos e da formatação do gosto. Mas também a votação do público e a do júri revelam que não há inevitáveis e há um espaço para o novo e a novidade. Nesta área como noutros aspectos da contemporaneidade. Mais uma vez a música apela ao nosso inconformismo e autoestima.

Mas também importa claramente reconhecer que esta não é a melhor canção, nem no nosso panorama musical nem mesmo das canções portuguesas que, há meio século, têm representado o país na Eurovisão. Há uma conjugação de factores conjunturais que facilitaram o resultado desta bela canção, desejando eu que tenha impacto para que mude muita coisa dos comportamentos formatados nesta globalização.
Salvador e Luísa fazem parte dessa riqueza que o país tem de intérpretes, músicos, compositores, letristas que são para ele um bem maior.

Parabéns a ambos e a todos os que construíram esta vitória.