quarta-feira, 3 de maio de 2017

O X Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, 1973, em Berlim, capital da RDA


Há algumas semanas atrás eu e a Margarida Silva decidimos arrancar com um encontro da delegação portuguesa...44 anos depois! A ideia já tinha sido sugerida antes por outros camaradas. Confraternizamos e pusemos as memórias em dia.
Por isso vos escrevo estas palavras.


Medalha evocativa
A campanha de apoio em Portugal ao X Festival terá tido outras iniciativas no 1º semestre de 1973.
Eu participei em duas delas. 
Uma foi a montagem, com outros camaradas da UEC,  de uma banca com um comunicado da Comissão Preparatória portuguesa na Cantina da Cidade Universitária e uma foto de Nguyen Van Troi, momentos antes do seu fuzilamento às mãos dos fantoches sul, que ainda ficariam no poder até serem derrotados em 1975 para o Vietname se reunificar em 1976. Mas nesse ano do Festival, já tinham sido assinados os Acordos de Paris e nesses dias, estando nós em Berlim, os EUA retiravam do Vietname.  Nesta banca recolheram-se fundos para o Festival.

O primeiro comunicado da Comissão Nacional portuguesa
para o X Festival





 
Um outro  foi um encontro nacional de juventude num pinhal em S. Pedro de Moel, que viria a ser cercado por agentes PSP e GNR, armados com metralhadoras, carros, parte dos quais sem identificação, furgões, sob a direcção de agentes da PIDE que impediram a reunião, obrigaram à dispersão dos presentes e nos roubaram vários exemplares de propaganda.
Quanto à viagem, saímos no combóio para Paris em pequenos grupos, separados e em diferentes momentos. No meu grupo iam também a Margarida Vicente da Silva, e a Teresa Gafeira, ambas estudantes de Belas Artes. Foi uma viagem em que nos passamos a conhecer melhor e cantámos.
Chegados a Paris, eu fui encontrar-me com o Silas Cerqueira, numas instalações do CNRS, onde ele trabalhava, e depois com o José Oliveira e Helena Bruto da Costa que, com outro camarada, constituíam o colectivo partidário  que recebia os viajantes para com eles tratarem de questões de natureza logística, antes de seguirmos para Berlim.

Para mim estava reservado o papel de responsável da componente estudantil da delegação, de cerca de 70 jovens vindos do país. Havia também a componente dos jovens trabalhadores de que foi responsável a Anabela Fino, hoje jornalista do Avante!. Edo Norte vinham outros camaradas.
De Lisboa vinham connosco filhas de funcionários do Partido que estavam na clandestinidade. A Manuela Pedro, a Teresa Dias Coelho e a Lisa Veloso.
A Paris juntaram-se a nós outros jovens exilados ou emigrantes (Luís Cília, o Manuel Torres, o Jorge Rodrigues, o Carlos Fino e outros de que agora me não lembro, uns de França outros da Bélgica).



A FDJ desfila com um cartaz "Liberdade para os patriotas
portugueses!"


A escola onde estivemos, hoje reabilitada e rebaptizada

A delegação portuguesa prepara-se para desfilar, muitos de caras tapadas
A viagem da gare de Saint-Lazare até Berlim decorreu com muito convívio até Frankfurt e depois da passagem para uma composição da Alemanha Federal onde nesse ambiente continuamos, apesar da frieza com que éramos tratados pelos funcionários da empresa de caminho-de-ferro. Até as fardas nos lembravam as das SS. Quando o pessoal do comboio mudou para uma composição  com tripulação da RDA, o ambiente com eles passou a ser muito diferente. Saudaram-nos com largos sorrisos e distribuição de guloseimas.


Depois de chegarmos a Berlim fomos para uma escola onde ficamos até ao nosso regresso, fazendo a viagem do metro para a zona da Alexanderplatz, da Unter der Linden (Avenida das Tílias, a mais importante avenida de Berlim, por onde se realizou o desfile dos participantes no Congresso no primeiro dia) ou das pontes sobre o rio Spree.



Perto da escola, em cujas camaratas ficamos alojados nesses dez dias, consegui uma vez falar mais de uma hora com uma senhora idosa duma vivenda, cujo filho tinha morrido em Berlim já em combate com os soviéticos. Nem ela sabia português, francês ou inglês e eu nada sabia de alemão. Mas conversámos e fizemo-nos entender.


No desfile na Unter der Linden
O desfile inaugural foi magnífico, durante horas. Com danças, muitas violas, tambores e concertinas.
E o mesmo aconteceu com a abertura do Festival no estádio Karl Marx.
Alegrias particulares tivemos à passagem dos jovens chilenos, do Vietname, da delegação portuguesa, das delegações cubana, espanhola e francesa, e da proximidade com personalidades como Angela Davies, Yasser Arafat e Valentina Tereshkova. Emoções diferentes tivemos observando uma exposição sobre Amílcar Cabral, assassinado em Janeiro desse ano em Conacri.

As zonas da cidade por onde andámos tinham uma actividade feérica com música em palcos, debates e minicomícios nos jardins, pequenos desfiles e muito convívio e namoricos. Tudo a cair bem com a nossa maneira de ser e de estar na política.

Chegada da delegação portuguesa ao estádio Karl Marx
 
Tiveram um convívio mais intenso connosco os jovens do Chile e da Guiné-Bissau/ Cabo Verde.

O Luís Cília, um dos mais animados nestas folias, que me lembre,   ganhou por lá um concurso musical.

O que mais me impressionou na RDA foram as pessoas, o seu nível cultural, a afabilidade na recepção. Entre jovens e na população mais adulta.
É certo que vivemos naqueles dez dias num ambiente muito próprio onde a atração foi facilitada, mesmo para quem, como eu, dando atenção, em anos anteriores, a vários críticos dos países socialistas, estava atento à descoberta de deficiências do regime.
A recepção da FDJ (a organização juvenil da juventude alemã) foi extraordinária e, apesar daquele jeito das fardas azuis, descobri jovens como nós, muito diferentes uns dos outros, com certezas mas com mais aspirações além do que já tinham, e de que a maior parte dos jovens portugueses não podia beneficiar, libertos de tabus nas relações pessoais que então nos dominavam em Portugal. Um beijo apaixonado na rua e algumas carícias seriam em Lisboa um caso de polícia. Ali eram tão naturais como o amor. E vi mesmo casais homossexuais entre esses militantes da FDJ, coisa que para alguns de nós ainda seria perturbante.
“Frieden, Freundschaft, Solidarität” (Paz, Amizade, Solidariedade) e o Hino da FDJ nunca mais me saíram do ouvido.
A combatividade e a unidade anti-imperialista eram ali tão naturais como as águas do Spree.
Nunca fui impedido de circular por onde quisesse, incluindo no U-Bahn. Claro que os inquiri sobre a questão do muro e as razões que me avançaram pareceram-me então plausíveis, bem diferentes das invocadas na construção, trinta anos mais tarde, por Bill Clinton, Viktor Orban, ou Netanyhau, dos muros nos seus países. Vários troços do muro não tinham polícia e pareceram-me facilmente transponíveis.
 
Quanto à nossa delegação, era composta por jovens trabalhadores e estudantes, comunistas ou simpatizantes, com uma grande abertura de espírito e capacidade de conviver, entre si, e com as delegações com quem contactámos.

Luís Cília chama a atenção para a foto de militares
portugueses a decapitarem um guerrilheiro
 
Para alguns de nós, que nele participaram, o momento mais emocionante foi um meeting num amplo salão em que participaram centenas de jovens portugueses, da Guiné-Bissau e Cabo Verde, de Angola e Moçambique e alguns responsáveis dos nossos hospedeiros e da URSS. Pelos portugueses falei eu, do PAIGC falou o Sérgio Vieira e dos outros não me lembro já.
Sensação para mim insólita e inusitada foi um beijo na boca que recebi de um soviético, que estava comigo na mesa, ainda por cima, com a barba dura por fazer (brrrr!).

Como a minha estada em Berlim coincidiu com o meu 26º aniversário, tive o privilégio de, com outros festivaleiros, que faziam anos nesses dias, almoçar no restaurante rotativo da bola da magnífica torre de TV!


No regresso, a partir de Paris, deixamos as muitas prendas nas mãos do José e Helena, em Paris, que nos iriam ser enviadas mais tarde. Saímos de França de novo em pequenos grupos. A mim calhou-me a companhia do saudoso Murad-Ali Mamadussen, que viria a ser secretário do presidente Samora Machel e que morreria com ele no desastre (?) do avião quando sobrevoava o território sul-africano.  Estávamos a chegar a Santa Apolónia e o Murad-Ali levantou a camisa revelando por baixo uma t-shirt com a efígie do Amílcar Cabral. Eu ia-me passando e ele sorria...
Neste nosso encontro, agora, participaram, para além de mim próprio, eu, a Margarida Vicente da Silva, a Manuela Pedro, a Natércia Pedroso, o Pedro Filipe, a Luísa Andrade, o Paco (Francisco Vinuesa), o Abílio Silva, a Mariana Bota, a Bárbara Judas e a Teresa Dias Coelho.
Não puderam estar por estarem fora ou com outros encargos o Paulo Areosa, o Manuel Aranda da Silva, o Luís Cília, o José Oliveira, a Isabel Redol.
Já não estão entre nós mas lembramos ainda a Helena Bruto da Costa, a Leonor Judas, a Sita Vales, o Murad-Ali e a Lisa Veloso.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

França: as presidenciais de Abril/Maio e as legislativas de Junho


O resultado da 2ª volta das presidenciais francesas parece ter um desfecho definido, apesar de serem muito complexas as percepções de muitos eleitores sobre o que se passou e o que se segue. O liberal Emmanuel Macron será o próximo presidente da França.

Este quadro nem mesmo se irá alterar com o apoio de Nicolas Dupon-Agnain, candidato do partido de direita Debout la France, retido na 1ª volta, com 4,7% de votos, e que seria a proposta da presidente da extrema-direita para primeiro-ministro, caso Marine Le Pen ganhasse as presidenciais, e obtivesse uma maioria que o apoiasse para formar governo no quadro da Assembleia a ser eleita em Junho.

Como dizem alguns analistas, esta 2ª volta antecede uma 3ª – as eleições legislativas de Junho – de onde poderá sair um governo que não venha a ser a escolha de Macron. A isso nos referiremos adiante.

Durante 15 dias, antes da 1ª volta, não se ouviu falar de Jean-Luc Mélenchon na comunicação social portuguesa. Citações de resultados de sondagens só existiram para três dos candidatos dos quatro que caminhavam todos quase a par. Os comentadores, em geral, foram pelo mesmo caminho. Os patrões da comunicação social portuguesa alinharam no esforço que à escala europeia foi feito para impedir que o candidato chegasse à 2ª volta, a partir do momento em que as sondagens revelaram essa possibilidade como muito credível.

Ana Gomes, europeísta trauliteira, em debate na RTP, disse até que, se Mélenchon passasse à 2ª volta com Marine Le Pen, não votaria nele (não disse se votaria e em quem…). Por essa altura, noutro debate até chamaram estalinista ao candidato!...

As organizações que apoiaram Mélenchon, ou já apelaram ao voto em Macron na 2ª volta (caso do PCF), ou no caso da ”França insubmissa” do candidato, dizem esperar a opinião dos militantes, “que já sabem o que têm que fazer”, mas onde já são muitos os apelos de personalidades deste movimento no sentido de se “engolir o sapo”... Isso apesar do próprio Mélenchon já ter referido que não daria indicação de voto nem em Macron nem em Le Pen.

Por seu lado, Fillon e Hamon, candidatos do que restou dos respectivos partidos – a UMP e o PS – deram indicação de voto em Macron. Apesar dos seus partidos estarem à beira de convulsões internas.

O secretário nacional do PCF, Pierre Laurent, afirmou na noite da eleição, pouco depois de ser garantida a passagem à 2ª volta de Macron e Le Pen, que “no imediato, conscientes das imensas batalhas que temos pela frente e das responsabilidades que cabem ao nosso partido, apelamos para que, no dia 7 de Maio, na segunda volta da eleição presidencial, seja barrado o caminho para a Presidência da República a Marine Le Pen, ao seu clan e à ameaça que constitui a Frente nacional para a democracia, a República e a paz, seja usado infelizmente o único boletim de voto que pode atingir esse objectivo."

Macron reagiu, afirmando que o apoio à sua candidatura na 2ª volta implicava a aceitação do seu programa, o que parece que está a rejeitar votos….Não terá sido por acaso que, na vizinha Alemanha, o desbocado governante Sigmar Gabriel, disse ter a certeza que Macron será eleito presidente. "Estou certo de que ele varrerá a extrema-direita, o populismo e os antieuropeus”.

 

No dia 7 os franceses enfrentam uma escolha muito importante

Uma opção de voto é em Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), de extrema-direita, com os seus objectivos xenófobos e contra os imigrantes, expressão de uma corrente existente em alguns países europeus, neo-fascista , que beneficiou da austeridade e da falência das políticas neo-liberais na União Europeia. Mas que é um recurso de reserva, do grande patronato, que distribuiu os seus apoios entre ela e Macron.

Seria o voto na candidata que já depois da 1ª volta foi a selfies com trabalhadores da fábrica Whirlpool em Amiens, que vai ser encerrada e deslocalizada...E onde prometeu que a fábrica não seria encerrada… Atitude tanto mais valorizada quanto desvalorizadas foram as declarações de Medef Bernard Monot, economista, assessor da candidatura da Frente Nacional: "A FN é amiga de todas as empresas" e "somos verdadeiros liberais, partidários de forma inequívoca da economia de mercado e da livre iniciativa", feitas sem rodeios aos amigos de Pierre Gattz, multimilionário e barão da Bolsa, há cerca de um mês.

Macron foi mal recebido na mesma empresa e só se reuniu com a comissão intersindical, tendo o sindicalista François Ruffin elogiado a sua coragem em ter vindo à empresa vítima da globalização de que Macron é grande defensor. "A candidata da FN também não apresentou aos funcionários da Whirlpool a sua proposta de reduzir as contribuições dos empregadores. Marine Le Pen não abordou problemas relativos à situação da empresa como os dividendos dos accionistas da Whirlpool Corporation terem aumentado em 10%, ou o CEO da empresa receber 13 milhões de euros por ano. No seu programa, não existem as palavras "accionista" ou "dividendo", não refere ir lutar pelos interesses dos trabalhadores", reagiu na altura o candidato apoiado pelo PCF e pela France Insoumise às legislativas de Junho, François Ruffin. "Mais uma vez o candidato da FN pretende apresentar-se como uma pasionaria social" respondeu, a seu lado, Éric Coquerel. E o coordenador nacional do Partido de Esquerda lembrou: "Não foi ela quem chamou aos assalariados em greve contra a lei das pensões de Sarkozy " grevicultores? ".

Mas Marine Le Pen não perde tempo e insiste em dirigir-se directamente aos que votaram Mélenchon na 1ª volta e ainda não viram deste uma indicação de voto. Produziram mesmo um folheto, para difundir em grandes quantidades nas zonas de maiores votações em Mélenchon, com 16 pontos que, supostamente, seriam de grande proximidade entre as duas candidaturas. De facto não são 16 pontos de proximidade, mas isso exige esclarecimento. Marine Le Pen dirige-se, especialmente, aos trabalhadores das indústrias arrasadas pelas políticas de Sarkozy e Hollande no nordeste da França, ou nas regiões do Drône, do vale de Garonne ou de Toulouse.

A outra opção de voto é no liberal Emmanuel Macron, que colaborou no tempo de Sarkozy, com o então Primeiro-Ministro François Fillon, e foi Ministro da Economia de François Hollande, em cujo governo foi um dos principais responsáveis pela desastrosa política no governo, que tantos votos deu à candidata da extrema-direita, na passada 1ª volta. Em particular a política anti-social, contra trabalhadores, agricultores, jovens e reformados, o seu claro apoio ao terrorismo na Síria e a agressão ao mundo árabe a reboque dos EUA. O governo de François Hollande foi um balde de água fria para os que o tinham apoiado contra as políticas antissociais de Sarkozy. Hollande começou o projecto de destruição que tinha deste PS para o transformar “noutra coisa”. A idéia de “reorientar a produção para indústrias de serviços futuros e de alto valor acrescentado, promovendo um novo regime de crescimento, transformando modelos e defendendo o nosso ideal de civilização”, vulgata da lenga-lenga neo-liberal provou ser um desastre, cujo único beneficiário foi a Alemanha de Merkl.

Emmanuel Macron foi membro do Partido Socialista entre 2006 e 2009, com um ideário liberal, e foi nomeado secretário-geral adjunto da Presidência da República por François Hollande em 2012, tornando-se Ministro da Economia em 2014 no governo Valls. Como ministro, foi autor de “reformas” que beneficiaram o patronato, como o novo pacote laboral, e os grandes distribuidores em prejuízo dos agricultores, no quadro da chamada Lei da Modernização da Economia (LME). Tendo já sido rejeitado em eleições internas do PS para o exercício de certas funções, saiu do governo em Agosto de 2016 para trabalhar na sua candidatura à presidência, na eleição deste ano, que lançou em Novembro de 2016, poucos meses após fundar o seu próprio partido político, o “Em Marcha!”. Dessa forma, correndo em pista própria, Macron ultrapassou o risco de, nas primárias do PS, não ser eleito numa disputa em que tinha que defrontar Valls e Hamon, o primeiro mais à direita, o segundo mais à esquerda. Isto numa altura em que já se previa a queda a pique do PS e a continuação da queda da UMP.

O pensamento e acção políticos de Fillon e Macron têm muito em comum. Basta lembrar o convite que o primeiro fez ao segundo em 2010 para o cargo de director-adjunto do seu gabinete de 1º Ministro, em Matignon, na sequência dum relatório que Macron fez a Fillon em 2008, então Primeiro-Ministro de Sarkozy. Com base nesse relatório, Fillon fez aprovar a Lei da Modernização da Economia (LME) por deputados e senadores de direita nesse ano, que entrou em vigor em 2009, dando mais poderes aos grandes distribuidores para esmagarem os preços dos produtores agrícolas, quando nos países mais ricos da Europa a maioria dos distribuidores estava então a concordar pagar aos seus fornecedores de produtos lácteos mais do que n ano anterior devido aos aumentos de preços globais. Na altura Macron só não aceitou o convite porque, como banqueiro, negociava então a sua remuneração milionária no banco Rothschild de França, No início de 2012, na sequência de uma das maiores negociações do ano, que liderou, da aquisição de uma filial da Pfizer pela Nestlé. A transação, estimada em 12 mil milhões de euros, tornou-o um grande milionário. No período em que foi sócio-gerente do banco, Macron ganhou muitos milhões de euros tendo, no entanto, ter declarado possuir apenas 200 mil euros.

Apesar de tudo isto, afirma que não é o candidato de direita nem de esquerda, mas que diz aproveitar «o melhor da esquerda, da direita e do centro». Afirmações demagógicas de cordel que se não compaginam com o anterior percurso político… Mas Emmanuel Macron, escondendo muitas das suas intenções, não deixou de dizer-se o “único candidato pró-europeu” e promete aplicar uma política económica “amiga das empresas”, em linha com a sua acção enquanto Ministro da Economia. Quer a continuidade das políticas económicas e sociais da União Europeia, do aprofundamento de medidas federalistas, do reforço do eixo franco-alemão e de uma política de continuidade na cena internacional. Quer a NATO e promete prolongar o estado de excepção. Assim, é mais claro.

Outras opções de voto são o protesto (branco, nulo) ou não ir votar, como fizeram já 24 % dos eleitores na 1ª volta.

As legislativas de 12 e 19 de Junho

Apesar do 1º Ministro ser nomeado pelo PR, ele tem que obter maioria na Assembleia Nacional. O Conselho de Ministros poderá corresponder à política do Presidente senão este terá que coabitar com um Governo de orientação diferente. Macron estará já a negociar esse futuro apoio num quadro mais vasto do que o seu movimento, para conseguir formar algo semelhante a uma “grande coligação” que lhe permita governar o país. Le Pen também o estará a fazer mas com uma margem de manobra mais reduzida, que só existiria minimamente se ela ganhasse a 2ª volta, coisa que pouca gente esperará.

Nas eleições legislativas elegem-se, em duas voltas, 577 deputados, em 577 circunscrições eleitorais (distritos). A legislação eleitoral é uninominal, ao contrário da nossa e, por isso exige duas voltas.

A esquerda, em sentido lato, pode nas legislativas ter influência decisiva na formação de um governo. De facto, nesta 1ª volta das presidenciais, em 212 circunscrições, a totalidade dos votos na esquerda e nos ecologistas, que participaram na candidatura de Jean-Luc Mélenchon, os votos em Benoît Hamon e nos candidatos de extrema-esquerda, ultrapassaram os votos em Emmanuel Macron, em Marine Le Pen e na direita. Em contrapartida, em 210 circunscrições, a Frente Nacional pode ganhar. Macron terá dificuldades com os resultados do seu movimento porque nas legislativas do próximo mês de Junho vai ter a concorrência do PS e dos seus aliados ecologistas que, mesmo muito fragilizados com o desastroso resultado nas presidenciais, conseguirão eleger dezenas de deputados. Para tentar evitar uma difícil coabitação e porque nenhum partido provavelmente alcançará a maioria nas legislativas, Emmanuel Macron precisa de negociar para obter um governo com suporte numa maioria de, pelo menos, metade mais um dos deputados eleitos, ou seja 289. Mas, como já referimos, a dinâmica Mélenchon pode impor uma solução de coabitação a Macron.

Apesar da UMP e do PS estarem muito fragilizados na sequência da votação do passado dia 23, isso poderá não ter correspondência linear com os resultados da1ª volta das próximas eleições legislativas, mas é um elemento indicativo.

A França que Hollande quis com Macron e Valls, foi a de se querer confirmar como potência influente para impor situações, como os EUA, determinada por interesses estratégicos ou económicos imediatos, pelas suas alianças, em particular no seio da UE e da NATO, pela mundialização da economia capitalista, de que quis beneficiar. O euro sobrevalorizado, em benefício da Alemanha, e o “livre comércio” arruinaram a indústria e esmagaram os produtores agrícolas em benefício dos grandes distribuidores. Contra a própria sensibilidade de muitos socialistas, Hollande flexibilizou as leis laborais e aplicou, contra as empresas e agricultores, a Lei de Modernização da Economia, como já referimos. As aspirações a grande potência arrastaram Hollande para guerras criminosas no norte de África e na Síria. O PS ofereceu Hollande aos franceses para provocar a grande desilusão de não ser alternativa a Sarkozy, que tinha ficado de rastos na opinião pública, incluindo a afecta ao partido deste. Hollande nem teve coragem para se recandidatar.Os 6,5 % de Hamon são a expressão da falência do PS alinhado à direita.

Quanto à UMP União para um Movimento Popular, sucedâneo do RPR (Reagrupamento pela República), não se recompôs da síndrome sarkoziana e esfrangalhou-se na procura de um candidato, acabando com um que foi sendo derrotado por escândalos que lhe foram revelando e que confirmaram o perfil ético da direita francesa. Apesar de não ter sofrido o desgaste de governo, Fillon teve poucos mais votos que Mélenchon, que foi interrompido na sua marcha ascendente por uma barragem de silenciamento e por um anti-comunismo descabelado.

Ambos os partidos fizeram hara-kiri e contribuíram para desfazer a imagem da V República, para alguns uma espécie de monarquia electiva, onde o “monarca” presidente pairaria um pouco acima da acção governativa.

Passemos então à 2ª volta das presidenciais e, depois à 1ª das legislativas.

sábado, 29 de abril de 2017

Bom fim de semana, por Jorge

"Il vecchio mondo sta morendo. Quello nuovo tarda a comparire.
E in questo chiaroscuro nascono i mostri."

"O velho mundo está a morrer. O novo tarda a aparecer.
E neste claro-escuro nascem os monstros."

Antonio Gramsci
fundador do Partido Comunista de Itália,
1891-1937
nos Quaderni del Carcere (1929-1935)

Quando Portugal ardeu

Entrevista com Miguel Carvalho

 

Por Nuno Ramos de Almeida

 

Vivemos em democracia, mas também vivemos numa mentira. A nossa memória histórica foi amputada de muito do que se passou. O jornalista Miguel Carvalho escreve um livro, Quando Portugal ardeu [1] , em que se resgata parte da história de Portugal. Nestas quase 600 páginas ficamos a saber que nos venderam um conto de fadas em que os maus vermelhos e totalitários foram derrotados por um grupo de pacíficos democratas impolutos e respeitadores da liberdade. Por baixo do tapete ficaram escondidos anos de terror e mais de 560 ataques da "rede bombista", que aterrorizaram os militantes pró-revolução e mataram muita gente.


Depois de escrever este livro, acha que vai ter problemas? 


(Risos) Confesso que tenho pensado bastante nisso, pelo seguinte: uma das pessoas com quem eu tentei falar para este livro foi Ramiro Moreira. Recusou. Eu não fiz o contacto direto com ele, usei uma cunha de uma pessoa muito próxima dele, e ele, quando ouviu falar do meu nome, disse: "Eu não falo com esse filho da puta." Ele tinha-me processado há uns anos por causa do Apito Dourado, por eu ter referido num texto as suas ligações ao Valentim Loureiro. E processou-me, não por eu ter feito referência a esse negócio, mas por lhe ter chamado bombista. Obviamente, acedi a muita documentação sobre ele, cartas pessoais e elementos dos processos, mas queria falar com ele.


Acedeu à gravação da sua confissão?


Sim, já a conhecia, o Diário de Lisboa publicou-a na altura e agora ouvi-a. Tem havido uns zunzuns de pessoas que já leram o livro, dos vários lados da barricada, que me têm telefonado a dizer: "Eh pá, se calhar, na sessão de apresentação é melhor ter cuidado", mas confesso que não tenho levado muito a sério.


Esses operacionais da altura já devem estar velhinhos e com alguma dificuldade de locomoção, mas há um conjunto de interesses ligados à "rede bombista" que são revelados e postos a nu no seu livro.


Há uma série de coisas que nunca tinham sido reveladas. Para este nível de pormenor que o livro revela contribui o facto de muita gente ter falado, passado mais de 40 anos, e a muita documentação consultada. As recusas de gente para falar para o livro mostraram-me que o assunto ainda está quente. Tive três tipos de recusas: a primeira foi do género de contactar o advogado x ou a figura y, pessoa que esteve bastante envolvida a nível processual no julgamento da "rede bombista" e que agora diz que não lhe convém nada, porque é advogado de empresas conhecidas, ser lembrado como advogado das forças de esquerda. Segundo tipo de recusa, mais expectável, é do género: "Eh pá, não me meta nisso porque os meus filhos estudam na universidade z, não sabem o que o pai fez e não quero ser associado a isso." E a terceira recusa, que vai ao encontro da sua pergunta: "Não me meta nisso porque isto foi no século passado, mas não foi assim há tanto tempo, em termos temporais foi ontem, e ainda há muita gente que sabe fazer as bombas, portanto deixe-me em paz." 


Uma coisa que se percebe no seu livro é que, para além de Joaquim Ferreira Torres [empresário ligado à rede que foi morto a tiro quando seguia ao volante do seu Porsche vermelho, em 21 de agosto de 1979], se percebe que ao longo dos anos houve bastante gente que desapareceu de forma misteriosa.


Nomeadamente, alguns operacionais da FLAMA [movimento independentista de extrema-direita da Madeira] que apareceram, como eles gostam de dizer, "suicidados", e o Ferreira Torres, de que fala. Este é um caso que ficou sem conclusão, apesar de, na fase final da investigação, com os cacos deixados por investigações policiais anteriores direcionadas para que nada se soubesse, se terem conseguido algumas pistas. Na parte do livro sobre o ex-coronel Ferreira da Silva [que dirigiu as investigações à "rede bombista"], ele relata uma conversa que teve com um elemento do esquadrão Chipenda [grupo ligado à FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola, que estava em guerra com o MPLA e, em Portugal, associou-se a atos de violência da extrema-direita e da "rede bombista"] que lhe diz, numa boate, que foram eles que mataram o Ferreira Torres por uma questão de dinheiros.


Ele também interpreta como uma ameaça a abordagem, salvo erro no Tamila, de quem diz: "Sabemos quem tu és e sabemos como te encontrar."

As duas coisas. Ele sabe que é isso, mas também dá crédito à informação. Fica convicto de que lhe estão a contar a verdade, fruto das várias histórias que sabia e investigou. Ele meteu a mão na massa e sabia bem o que tinha um fundo de verdade. Aquilo também foi uma forma de o avisar e de lhe dizer: "Aquilo foi tão perfeito, já sabe o que lhe pode acontecer." Eu consultei o processo Ferreira Torres e muita papelada ligada à matéria, e nunca vi nesses documentos uma afirmação tão direta sobre o motivo eventual do crime. Insinua-se em muitos lugares sobre os negócios e o dinheiro que teria ido para a "rede bombista" à sombra do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, juntamente com o ELP - Exército de Libertação de Portugal, a principal organização política da rede, dirigida pelo, na altura, general no exílio António de Spínola]. Mas nunca se fala claramente, nessa conversa, sobre as fortunas que ajudou a passar para Espanha e os valores e negociatas à sombra da organização terrorista. Com tudo isso, não é difícil de imaginar que esse elemento do esquadrão Chipenda estivesse a falar verdade quando confessou que Joaquim Ferreira Torres tinha sido morto por causa de "negócios mal resolvidos".

 

Uma das coisas que não são totalmente novidade, porque já era revelada no livro "A Descoberta de Uma Conspiração", do jornalista Günter Wallraff [2] , é a promiscuidade entre os "democratas" do atual regime e os bombistas: eles eram uma espécie de plano B dos "democratas". 


É precisamente este lado sombrio da história que é importante. Embora eu tenha consciência de que não é este livro que o consegue revelar. Eu tenho um ponto de vista e não abdico dele: quero provar, sem nenhum tipo de ajuste de contas, que a narrativa oficial diz que estivemos à beira de uma ditadura de esquerda quando estivemos muito mais próximos de um golpe de extrema-direita. A direita não foi tão ordeira e civilizada como hoje nos querem fazer crer.

Há muito mais gente assassinada pela "rede bombista" do que pelas FP25.

Estamos cansados de ouvir que o 25 de Novembro foi o princípio da "normalidade democrática" quando os atentados mais mortais da "rede bombista" foram depois dessa data e já corria o ano de 1976. Ninguém dá resposta para isso. A única coisa que nos pode valer é a confissão do Ramiro Moreira, em agosto de 1976, em que ele diz para um gravador: "Interessava que continuasse a haver bombinhas." Porque havia uma série de frustrados com a independência de Angola e porque os comunistas continuavam a existir. Duas das coisas que essa gente assumiu como os objetivos do seu combate, impedir a independência de Angola e liquidar os comunistas, não tinham acontecido.

Não era também uma espécie de chantagem das almas negras para os novos donos do poder e seus anteriores cúmplices?


Onde quer chegar?


Há setores do CDS, PSD e até PS que aparecem, no seu livro, a colaborar e a apoiar a "rede bombista". Coloca no seu livro um chefe da segurança do PS, preso por causa das chamadas armas de Edmundo Pedro [armas dadas pela direita militar e o Grupo dos Nove ao PS] a dizer na cadeia ao Ramiro Moreira: "Cala-te senão ainda apareces morto."


Eu não sou ingénuo, mas confesso que o grau de envolvimento de setores do PS com a "rede bombista" é muito maior que eu imaginava.


Setores ou implica a própria direção?


Há zonas do país em que as diretrizes do PS não são seguidas. Se, em Braga, o dirigente da distrital do PS é um dos grandes organizadores da manifestação da Igreja [que acaba com o assalto e incêndio da sede do PCP], há outras pessoas, como um dirigente do PS de Viana do Castelo, que se recusam a cumpri-las. Esse dirigente demite-se porque não quer obedecer a uma ordem do Largo do Rato sobre um envio de armas.


No seu livro até há um bombista a dizer que colocou um petardo na sede do PS do Largo do Rato, no dia do debate televisivo com o Cunhal, a mando do próprio Partido Socialista, para se vitimar. E quem acaba por indultar o Ramiro Moreira não foi o Eanes.


Pois não. Foi o Soares. O próprio julgamento da "rede bombista", a própria forma como o julgamento terminou deve muito às manobras do governo PS da altura. Não me custa nada fazer minhas as palavras do advogado Levy Baptista de que o julgamento da "rede bombista" foi uma farsa. Aquilo ter ido para o fórum militar foi uma forma de condicionar uma data de coisas; o papel de Almeida Santos nesse assunto está por esclarecer; o próprio papel de Mário Soares não é claro. Relembro que, depois dos acontecimentos em Rio Maior [manifestação, a 13 de julho de 1975, que culminou em assaltos às sedes do PCP e FSP], Soares faz um comício em Rio Maior em que diz, "Era bom que este exemplo fosse seguido em várias zonas do país", e a Igreja aproveita logo as declarações em várias dioceses. Uma coisa espantosa, mesmo conhecendo bem a documentação desse período, são as coleções do Diário do Minho [jornal de propriedade da Igreja], que quase chegam a ser uma espécie de Ação Socialista daquele período: abundam fotos e elogios ao Mário Soares.

Outra coisa impressionante no seu livro é a dimensão de guerra suja, com operações de provocação que podiam ter custado centenas de vidas, como da vez em que pediram a Ramiro Moreira para colocar 100 quilos de explosivos no Santuário de Fátima para depois acusarem os comunistas do massacre.


Não tenho dúvidas de que é verdade. Acho que quando o Ramiro Moreira é genuíno é quando foi ouvido, poucas horas depois de ser detido, não é quando em 1991 é indultado e reescreve a história, e diz que têm de lhe erguer uma estátua porque ele lutou pela democracia. Ele é verdadeiro quando está assustado e está convencido de que, "abrindo o livro", pode ser salvo.


É muito curioso o facto de ter sido o próprio Sá Carneiro, de quem Ramiro Moreira tinha sido guarda-costas, a expulsá-lo do PSD, dizendo: "Eu não posso ter um bombista no partido".


Francisco Sá Carneiro não era um líder político como os de hoje, que são completamente viciados no aparelho.

 

Soares também não era viciado no aparelho e tinha um historial impressionante...

Havia uma diferença entre os dois na forma como ligavam com a estrumeira dos respetivos aparelhos. Sá Carneiro, quando começa a saber do envolvimento de certas figuras do PSD, nomeadamente Ramiro Moreira, que não era só segurança, era militante número 7 do partido, tinha feito parte da comissão política distrital do Porto, tinha sido levado ao colo por Mota Freitas, essa figura altamente protegida pelos militares... Quando Sá Carneiro chama Ramiro Moreira a casa e lhe diz, "Meu amigo, ou entregas o cartão ou és expulso", isso é uma tentativa, admito que já desesperada, de que o partido não resvale par aí. Podemos discutir se o conseguiu ou não, até porque o PPD aparece envolvido em muita coisa. Já os militantes do CDS aparecem bastante envolvidos, são eles que fazem grande parte das ligações, em algumas regiões, da Igreja com a "rede bombista". Basílio Horta chega a reunir com os responsáveis da Igreja, que lhe dizem o que estão a fazer. Claro que ele, depois, diz que não alimentaram isso, mas ele sabia o que estava a ser preparado. Espantoso, para mim, é o grau de envolvimento dos setores do PS nisso. O que me leva a tirar a conclusão de que não sou o primeiro a tirá-la o Partido Socialista se aliou a tudo para combater o PCP.


Os contactos de Günter Wallraff, a fingir de traficante de armas, com Spínola para armar um golpe de Estado de extrema-direita são posteriores ao 25 de Novembro? 

 

São anteriores. Quando Wallraff vem a Portugal, ainda os Corrécios [bando liderado por Eduardo Oliveira que cometia grande parte das agressões e atentados contra militantes de esquerda na zona de Braga] estavam em liberdade.

Aliás, o primeiro contacto que Günter Wallraff diz ter com alguém da "rede bombista" é uma conversa que tem, por acaso, com um homem com um cão que é o próprio líder dos Corrécios.


Alguns pormenores do livro do jornalista alemão podem ter sido romanceados mas, no geral, ele é rigoroso. Na altura, o semanário O Jornal foi conferir os dados do livro e concluiu que eram verdadeiros. Há vários elementos do ELP e do MDLP que vêm confirmar que o livro acertava em cheio. Quando me perguntam como era possível os bombistas, como os Corrécios, irem gabar-se dos seus atos para os cafés, eu respondo: muito facilmente, grande parte do país era anticomunista e era fácil fazê-lo sem nenhuma consequência.


Um dado desconhecido pela maior parte das pessoas é a cumplicidade de membros do Conselho da Revolução com a "rede bombista".

 

Tanto o Canto e Castro como o Vítor Alves sabiam o que estava a acontecer e quem eram as pessoas que estavam por detrás dessas ações. O Vítor Alves "aterrou" várias vezes em casa do Joaquim Ferreira Torres. Aliás, há um frase do Joaquim Ferreira Torres, quando o vê na televisão, que diz: "Este filho da puta veio tantas vezes jantar a minha casa e comer o meu fumeiro e, afinal, não fez nada do que se comprometeu." Para além de tudo isso, está também por esclarecer o papel de Ramalho Eanes em tudo isto.

 

Mas ele parece ter infletido uma eventual cumplicidade. O grau de ódio que Ramiro Moreira manifesta contra Eanes é um pouco indicador disso. Até no seu livro, o coronel Ferreira da Silva fala elogiosamente do grau de distanciamento que Eanes teve com as investigações quando era Presidente.

Mas o grau de compromisso dele com tudo o que ardia é muito maior do que se pensa. Lê-se em vários documentos e em depoimentos de várias pessoas que há muita gente que suspeita do seu envolvimento. O próprio Álvaro Guimarães, diretor da Polícia Judiciária do Porto, afirma que um dos objetivos do Eanes foi colocar um espião na PJ para controlar os movimentos da Judiciária e saber o que a investigação sabia.

 

... Lencastre Bernardo.

 

Sim.

Não falou com Ramalho Eanes?

 

Não, e confesso que não tentei. O objetivo do livro era sobretudo ouvir uma data de gente que, apesar de não ser conhecida, tem mais coisas a dar. Quando eu digo que não acho que haja um esclarecimento total do seu envolvimento naquele período, não penso que fosse conversando com ele que isso se conseguiria apurar. Acho que seria mais importante ouvir pessoas que estiveram com as mãos na massa, investigaram e produziram muita documentação.

Mas o seu livro acaba por ficar na mesma situação em que ficaram as investigações judiciais: os executantes da arraia miúda foram apanhados e logo libertados, os mandantes foram falados mas permaneceram intocados, e quem politicamente estava por detrás nunca foi incomodado.

 

Essa situação resulta de uma estratégia intencional por parte do poder. Para conseguir que as coisas não se saibam. Quando eu, para fazer este livro, me deparo com a proibição de aceder a alguns arquivos, isso tem o objetivo de conseguir que muita coisa fique escondida. Assiste-se a uma privatização da memória pública. Tudo isso é feito dentro da lei, mas se eu quero consultar o processo de Eduardo Corrécio, que foi condenado a dois anos e meio de prisão por posse de armas – e tudo o que foi dito naquele julgamento é importante para perceber o grau de cumplicidade daquele gangue com aqueles movimentos e os responsáveis políticos –, esse processo é-me negado com o argumento de que ou é autorizado por ele ou, caso ele tenha morrido, a família tem de autorizar. De modo que espero sentado.

 

Isso é legal, o processo não tem de ser público?

 

Eu acho que sim, mas está protegido. Como está protegido o depoimento prestado por Ramiro Moreira a uma das comissões ao acidente/atentado de Camarate. O depoente só aceitou fazer o depoimento quando lhe garantiram que nunca seria tornado público. Se pedir à Assembleia da República, a resposta que lhe vão dar é que o Ramiro tem de autorizar. Aliás, há muitas atas dessa comissão que são impossíveis de conseguir. Isto é tudo formalmente legal. Mas, para mim, isso é uma privatização da memória pública. Legitima que se possa pensar que isto não é por acaso: se calhar, sabendo-se tudo sobre a "rede bombista", algumas biografias vão ficar desfocadas. 

 

Já teve algumas reações?

 

Há muitas. Gente que leu e ficou impressionada com o grau de envolvimento de parte dos políticos nestes acontecimentos, mas ameaças e outras coisas não me têm feito chegar.

 

Bastante mais calmo do que seria há alguns anos. Conseguiu falar com os Corrécios?

 

Mais uma vez, houve a possibilidade de falar com o Eduardo Corrécio, mas eu obtive muita documentação sobre o processo e sobre as investigações, e não insisti porque, mais uma vez, não tinha qualquer garantia da fiabilidade dos depoimentos que conseguisse obter. Confio mais naquilo que foi dito na época do que na reescrita que fizeram depois. O Ramiro Moreira é um bom exemplo disso: eu li todas as entrevistas que ele deu, li muita documentação, cartas pessoais, coisas que nunca vieram a público, elementos do processo, e isso é bastante mais fiável do que a reescrita que ele faz da história e da sua participação nesses acontecimentos que fez nas suas últimas entrevistas.

E o Ramiro Moreira terá lido o livro? 

 

A única coisa é que o Ramiro Moreira ligou a um camarada de profissão que escreveu sobre o livro, dizendo, indignado, como é que essas coisas serão lembradas. Terá dito que não fez só coisas boas, mas porquê só lembrar coisas desse período. Não passou disso. O próprio depoimento do José Silva Santos no livro é um pouco exemplo deste estado de espírito: um homem que, no âmbito daquele processo, desmente tudo aquilo de que o acusam e, 40 anos depois, confirma tudo: "Sim, o carro foi armadilhado aqui, eu até fiz a ponte com a Igreja."

Agora, há outros, como o cônsul dos EUA no Porto, que, pelo seu depoimento, ficamos a saber que ele só organizava chás e sessões de relações públicas, e que nunca viu um espião da CIA...

O homem que está no centro do furacão e que garante que a sua vida não passava de jogar golfe. Mas é importante o seu depoimento estar aí. É o relato de alguém que tenta reescrever o sucedido, como quando ele diz que isto tudo não passou de uns tipos a baterem com o guarda-chuva na cabeça uns dos outros.

12/Abril/2017

[1] Miguel Carvalho, Quando Portugal ardeu , Oficina do Livro, 2017, 560 p., ISBN: 9789897416675
[2] Günter Wallraff, 
A descoberta de uma conspiração , Bertrand, 1976, 242 p.

O original encontra-se em
ionline.sapo.pt/558127

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Bom fim de semana!, por Jorge

"Cui prodest?"

"A quem aproveita?"

Expressão latina
ainda em uso corrente na investigação criminal,
sugerindo que a parte responsável por determinada
ação estará entre os que dela tiram proveito.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

"Quando Portugal ardeu", entrevista ao autor, Miguel Carvalho, por Nuno Ramos de Almeida


Vivemos em democracia, mas também vivemos numa mentira. A nossa memória histórica foi amputada de muito do que se passou. O jornalista Miguel Carvalho escreve um livro, Quando Portugal ardeu [1] , em que se resgata parte da história de Portugal. Nestas quase 600 páginas ficamos a saber que nos venderam um conto de fadas em que os maus vermelhos e totalitários foram derrotados por um grupo de pacíficos democratas impolutos e respeitadores da liberdade. Por baixo do tapete ficaram escondidos anos de terror e mais de 560 ataques da "rede bombista", que aterrorizaram os militantes pró-revolução e mataram muita gente.

Depois de escrever este livro, acha que vai ter problemas? 

(Risos) Confesso que tenho pensado bastante nisso, pelo seguinte: uma das pessoas com quem eu tentei falar para este livro foi Ramiro Moreira. Recusou. Eu não fiz o contacto direto com ele, usei uma cunha de uma pessoa muito próxima dele, e ele, quando ouviu falar do meu nome, disse: "Eu não falo com esse filho da puta." Ele tinha-me processado há uns anos por causa do Apito Dourado, por eu ter referido num texto as suas ligações ao Valentim Loureiro. E processou-me, não por eu ter feito referência a esse negócio, mas por lhe ter chamado bombista. Obviamente, acedi a muita documentação sobre ele, cartas pessoais e elementos dos processos, mas queria falar com ele.

Acedeu à gravação da sua confissão?

Sim, já a conhecia, o Diário de Lisboa publicou-a na altura e agora ouvi-a. Tem havido uns zunzuns de pessoas que já leram o livro, dos vários lados da barricada, que me têm telefonado a dizer: "Eh pá, se calhar, na sessão de apresentação é melhor ter cuidado", mas confesso que não tenho levado muito a sério.

Esses operacionais da altura já devem estar velhinhos e com alguma dificuldade de locomoção, mas há um conjunto de interesses ligados à "rede bombista" que são revelados e postos a nu no seu livro.

Há uma série de coisas que nunca tinham sido reveladas. Para este nível de pormenor que o livro revela contribui o facto de muita gente ter falado, passado mais de 40 anos, e a muita documentação consultada. As recusas de gente para falar para o livro mostraram-me que o assunto ainda está quente. Tive três tipos de recusas: a primeira foi do género de contactar o advogado x ou a figura y, pessoa que esteve bastante envolvida a nível processual no julgamento da "rede bombista" e que agora diz que não lhe convém nada, porque é advogado de empresas conhecidas, ser lembrado como advogado das forças de esquerda. Segundo tipo de recusa, mais expectável, é do género: "Eh pá, não me meta nisso porque os meus filhos estudam na universidade z, não sabem o que o pai fez e não quero ser associado a isso." E a terceira recusa, que vai ao encontro da sua pergunta: "Não me meta nisso porque isto foi no século passado, mas não foi assim há tanto tempo, em termos temporais foi ontem, e ainda há muita gente que sabe fazer as bombas, portanto deixe-me em paz." 

Uma coisa que se percebe no seu livro é que, para além de Joaquim Ferreira Torres [empresário ligado à rede que foi morto a tiro quando seguia ao volante do seu Porsche vermelho, em 21 de agosto de 1979], se percebe que ao longo dos anos houve bastante gente que desapareceu de forma misteriosa.

Nomeadamente, alguns operacionais da FLAMA [movimento independentista de extrema-direita da Madeira] que apareceram, como eles gostam de dizer, "suicidados", e o Ferreira Torres, de que fala. Este é um caso que ficou sem conclusão, apesar de, na fase final da investigação, com os cacos deixados por investigações policiais anteriores direcionadas para que nada se soubesse, se terem conseguido algumas pistas. Na parte do livro sobre o ex-coronel Ferreira da Silva [que dirigiu as investigações à "rede bombista"], ele relata uma conversa que teve com um elemento do esquadrão Chipenda [grupo ligado à FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola, que estava em guerra com o MPLA e, em Portugal, associou-se a atos de violência da extrema-direita e da "rede bombista"] que lhe diz, numa boate, que foram eles que mataram o Ferreira Torres por uma questão de dinheiros.

Ele também interpreta como uma ameaça a abordagem, salvo erro no Tamila, de quem diz: "Sabemos quem tu és e sabemos como te encontrar."

As duas coisas. Ele sabe que é isso, mas também dá crédito à informação. Fica convicto de que lhe estão a contar a verdade, fruto das várias histórias que sabia e investigou. Ele meteu a mão na massa e sabia bem o que tinha um fundo de verdade. Aquilo também foi uma forma de o avisar e de lhe dizer: "Aquilo foi tão perfeito, já sabe o que lhe pode acontecer." Eu consultei o processo Ferreira Torres e muita papelada ligada à matéria, e nunca vi nesses documentos uma afirmação tão direta sobre o motivo eventual do crime. Insinua-se em muitos lugares sobre os negócios e o dinheiro que teria ido para a "rede bombista" à sombra do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, juntamente com o ELP - Exército de Libertação de Portugal, a principal organização política da rede, dirigida pelo, na altura, general no exílio António de Spínola]. Mas nunca se fala claramente, nessa conversa, sobre as fortunas que ajudou a passar para Espanha e os valores e negociatas à sombra da organização terrorista. Com tudo isso, não é difícil de imaginar que esse elemento do esquadrão Chipenda estivesse a falar verdade quando confessou que Joaquim Ferreira Torres tinha sido morto por causa de "negócios mal resolvidos".

Uma das coisas que não são totalmente novidade, porque já era revelada no livro "A Descoberta de Uma Conspiração", do jornalista Günter Wallraff [2] , é a promiscuidade entre os "democratas" do atual regime e os bombistas: eles eram uma espécie de plano B dos "democratas". 

É precisamente este lado sombrio da história que é importante. Embora eu tenha consciência de que não é este livro que o consegue revelar. Eu tenho um ponto de vista e não abdico dele: quero provar, sem nenhum tipo de ajuste de contas, que a narrativa oficial diz que estivemos à beira de uma ditadura de esquerda quando estivemos muito mais próximos de um golpe de extrema-direita. A direita não foi tão ordeira e civilizada como hoje nos querem fazer crer.

Há muito mais gente assassinada pela "rede bombista" do que pelas FP25.

Estamos cansados de ouvir que o 25 de Novembro foi o princípio da "normalidade democrática" quando os atentados mais mortais da "rede bombista" foram depois dessa data e já corria o ano de 1976. Ninguém dá resposta para isso. A única coisa que nos pode valer é a confissão do Ramiro Moreira, em agosto de 1976, em que ele diz para um gravador: "Interessava que continuasse a haver bombinhas." Porque havia uma série de frustrados com a independência de Angola e porque os comunistas continuavam a existir. Duas das coisas que essa gente assumiu como os objetivos do seu combate, impedir a independência de Angola e liquidar os comunistas, não tinham acontecido.

Não era também uma espécie de chantagem das almas negras para os novos donos do poder e seus anteriores cúmplices?

Onde quer chegar?

Há setores do CDS, PSD e até PS que aparecem, no seu livro, a colaborar e a apoiar a "rede bombista". Coloca no seu livro um chefe da segurança do PS, preso por causa das chamadas armas de Edmundo Pedro [armas dadas pela direita militar e o Grupo dos Nove ao PS] a dizer na cadeia ao Ramiro Moreira: "Cala-te senão ainda apareces morto."

Eu não sou ingénuo, mas confesso que o grau de envolvimento de setores do PS com a "rede bombista" é muito maior que eu imaginava.

Setores ou implica a própria direção?

Há zonas do país em que as diretrizes do PS não são seguidas. Se, em Braga, o dirigente da distrital do PS é um dos grandes organizadores da manifestação da Igreja [que acaba com o assalto e incêndio da sede do PCP], há outras pessoas, como um dirigente do PS de Viana do Castelo, que se recusam a cumpri-las. Esse dirigente demite-se porque não quer obedecer a uma ordem do Largo do Rato sobre um envio de armas.

No seu livro até há um bombista a dizer que colocou um petardo na sede do PS do Largo do Rato, no dia do debate televisivo com o Cunhal, a mando do próprio Partido Socialista, para se vitimar. E quem acaba por indultar o Ramiro Moreira não foi o Eanes.

Pois não. Foi o Soares. O próprio julgamento da "rede bombista", a própria forma como o julgamento terminou deve muito às manobras do governo PS da altura. Não me custa nada fazer minhas as palavras do advogado Levy Baptista de que o julgamento da "rede bombista" foi uma farsa. Aquilo ter ido para o fórum militar foi uma forma de condicionar uma data de coisas; o papel de Almeida Santos nesse assunto está por esclarecer; o próprio papel de Mário Soares não é claro. Relembro que, depois dos acontecimentos em Rio Maior [manifestação, a 13 de julho de 1975, que culminou em assaltos às sedes do PCP e FSP], Soares faz um comício em Rio Maior em que diz, "Era bom que este exemplo fosse seguido em várias zonas do país", e a Igreja aproveita logo as declarações em várias dioceses. Uma coisa espantosa, mesmo conhecendo bem a documentação desse período, são as coleções do Diário do Minho [jornal de propriedade da Igreja], que quase chegam a ser uma espécie de Ação Socialista daquele período: abundam fotos e elogios ao Mário Soares.

Outra coisa impressionante no seu livro é a dimensão de guerra suja, com operações de provocação que podiam ter custado centenas de vidas, como da vez em que pediram a Ramiro Moreira para colocar 100 quilos de explosivos no Santuário de Fátima para depois acusarem os comunistas do massacre.

Não tenho dúvidas de que é verdade. Acho que quando o Ramiro Moreira é genuíno é quando foi ouvido, poucas horas depois de ser detido, não é quando em 1991 é indultado e reescreve a história, e diz que têm de lhe erguer uma estátua porque ele lutou pela democracia. Ele é verdadeiro quando está assustado e está convencido de que, "abrindo o livro", pode ser salvo.

É muito curioso o facto de ter sido o próprio Sá Carneiro, de quem Ramiro Moreira tinha sido guarda-costas, a expulsá-lo do PSD, dizendo: "Eu não posso ter um bombista no partido".

Francisco Sá Carneiro não era um líder político como os de hoje, que são completamente viciados no aparelho.

 Soares também não era viciado no aparelho e tinha um historial impressionante...

Havia uma diferença entre os dois na forma como ligavam com a estrumeira dos respetivos aparelhos. Sá Carneiro, quando começa a saber do envolvimento de certas figuras do PSD, nomeadamente Ramiro Moreira, que não era só segurança, era militante número 7 do partido, tinha feito parte da comissão política distrital do Porto, tinha sido levado ao colo por Mota Freitas, essa figura altamente protegida pelos militares... Quando Sá Carneiro chama Ramiro Moreira a casa e lhe diz, "Meu amigo, ou entregas o cartão ou és expulso", isso é uma tentativa, admito que já desesperada, de que o partido não resvale par aí. Podemos discutir se o conseguiu ou não, até porque o PPD aparece envolvido em muita coisa. Já os militantes do CDS aparecem bastante envolvidos, são eles que fazem grande parte das ligações, em algumas regiões, da Igreja com a "rede bombista". Basílio Horta chega a reunir com os responsáveis da Igreja, que lhe dizem o que estão a fazer. Claro que ele, depois, diz que não alimentaram isso, mas ele sabia o que estava a ser preparado. Espantoso, para mim, é o grau de envolvimento dos setores do PS nisso. O que me leva a tirar a conclusão de que não sou o primeiro a tirá-la o Partido Socialista se aliou a tudo para combater o PCP.

s contactos de Günter Wallraff, a fingir de traficante de armas, com Spínola para armar um golpe de Estado de extrema-direita são posteriores ao 25 de Novembro? 

 São anteriores. Quando Wallraff vem a Portugal, ainda os Corrécios [bando liderado por Eduardo Oliveira que cometia grande parte das agressões e atentados contra militantes de esquerda na zona de Braga] estavam em liberdade.

Aliás, o primeiro contacto que Günter Wallraff diz ter com alguém da "rede bombista" é uma conversa que tem, por acaso, com um homem com um cão que é o próprio líder dos Corrécios.

Alguns pormenores do livro do jornalista alemão podem ter sido romanceados mas, no geral, ele é rigoroso. Na altura, o semanário O Jornal foi conferir os dados do livro e concluiu que eram verdadeiros. Há vários elementos do ELP e do MDLP que vêm confirmar que o livro acertava em cheio. Quando me perguntam como era possível os bombistas, como os Corrécios, irem gabar-se dos seus atos para os cafés, eu respondo: muito facilmente, grande parte do país era anticomunista e era fácil fazê-lo sem nenhuma consequência.

Um dado desconhecido pela maior parte das pessoas é a cumplicidade de membros do Conselho da Revolução com a "rede bombista".

Tanto o Canto e Castro como o Vítor Alves sabiam o que estava a acontecer e quem eram as pessoas que estavam por detrás dessas ações. O Vítor Alves "aterrou" várias vezes em casa do Joaquim Ferreira Torres. Aliás, há um frase do Joaquim Ferreira Torres, quando o vê na televisão, que diz: "Este filho da puta veio tantas vezes jantar a minha casa e comer o meu fumeiro e, afinal, não fez nada do que se comprometeu." Para além de tudo isso, está também por esclarecer o papel de Ramalho Eanes em tudo isto.

 Mas ele parece ter infletido uma eventual cumplicidade. O grau de ódio que Ramiro Moreira manifesta contra Eanes é um pouco indicador disso. Até no seu livro, o coronel Ferreira da Silva fala elogiosamente do grau de distanciamento que Eanes teve com as investigações quando era Presidente.

Mas o grau de compromisso dele com tudo o que ardia é muito maior do que se pensa. Lê-se em vários documentos e em depoimentos de várias pessoas que há muita gente que suspeita do seu envolvimento. O próprio Álvaro Guimarães, diretor da Polícia Judiciária do Porto, afirma que um dos objetivos do Eanes foi colocar um espião na PJ para controlar os movimentos da Judiciária e saber o que a investigação sabia.

 ... Lencastre Bernardo.

 Sim.

Não falou com Ramalho Eanes?

Não, e confesso que não tentei. O objetivo do livro era sobretudo ouvir uma data de gente que, apesar de não ser conhecida, tem mais coisas a dar. Quando eu digo que não acho que haja um esclarecimento total do seu envolvimento naquele período, não penso que fosse conversando com ele que isso se conseguiria apurar. Acho que seria mais importante ouvir pessoas que estiveram com as mãos na massa, investigaram e produziram muita documentação.

Mas o seu livro acaba por ficar na mesma situação em que ficaram as investigações judiciais: os executantes da arraia miúda foram apanhados e logo libertados, os mandantes foram falados mas permaneceram intocados, e quem politicamente estava por detrás nunca foi incomodado.

 Essa situação resulta de uma estratégia intencional por parte do poder. Para conseguir que as coisas não se saibam. Quando eu, para fazer este livro, me deparo com a proibição de aceder a alguns arquivos, isso tem o objetivo de conseguir que muita coisa fique escondida. Assiste-se a uma privatização da memória pública. Tudo isso é feito dentro da lei, mas se eu quero consultar o processo de Eduardo Corrécio, que foi condenado a dois anos e meio de prisão por posse de armas – e tudo o que foi dito naquele julgamento é importante para perceber o grau de cumplicidade daquele gangue com aqueles movimentos e os responsáveis políticos –, esse processo é-me negado com o argumento de que ou é autorizado por ele ou, caso ele tenha morrido, a família tem de autorizar. De modo que espero sentado.

Isso é legal, o processo não tem de ser público?

Eu acho que sim, mas está protegido. Como está protegido o depoimento prestado por Ramiro Moreira a uma das comissões ao acidente/atentado de Camarate. O depoente só aceitou fazer o depoimento quando lhe garantiram que nunca seria tornado público. Se pedir à Assembleia da República, a resposta que lhe vão dar é que o Ramiro tem de autorizar. Aliás, há muitas atas dessa comissão que são impossíveis de conseguir. Isto é tudo formalmente legal. Mas, para mim, isso é uma privatização da memória pública. Legitima que se possa pensar que isto não é por acaso: se calhar, sabendo-se tudo sobre a "rede bombista", algumas biografias vão ficar desfocadas. 

 Já teve algumas reações?

 Há muitas. Gente que leu e ficou impressionada com o grau de envolvimento de parte dos políticos nestes acontecimentos, mas ameaças e outras coisas não me têm feito chegar.

 Bastante mais calmo do que seria há alguns anos. Conseguiu falar com os Corrécios?

 Mais uma vez, houve a possibilidade de falar com o Eduardo Corrécio, mas eu obtive muita documentação sobre o processo e sobre as investigações, e não insisti porque, mais uma vez, não tinha qualquer garantia da fiabilidade dos depoimentos que conseguisse obter. Confio mais naquilo que foi dito na época do que na reescrita que fizeram depois. O Ramiro Moreira é um bom exemplo disso: eu li todas as entrevistas que ele deu, li muita documentação, cartas pessoais, coisas que nunca vieram a público, elementos do processo, e isso é bastante mais fiável do que a reescrita que ele faz da história e da sua participação nesses acontecimentos que fez nas suas últimas entrevistas.

E o Ramiro Moreira terá lido o livro? 

 A única coisa é que o Ramiro Moreira ligou a um camarada de profissão que escreveu sobre o livro, dizendo, indignado, como é que essas coisas serão lembradas. Terá dito que não fez só coisas boas, mas porquê só lembrar coisas desse período. Não passou disso. O próprio depoimento do José Silva Santos no livro é um pouco exemplo deste estado de espírito: um homem que, no âmbito daquele processo, desmente tudo aquilo de que o acusam e, 40 anos depois, confirma tudo: "Sim, o carro foi armadilhado aqui, eu até fiz a ponte com a Igreja."

Agora, há outros, como o cônsul dos EUA no Porto, que, pelo seu depoimento, ficamos a saber que ele só organizava chás e sessões de relações públicas, e que nunca viu um espião da CIA...

O homem que está no centro do furacão e que garante que a sua vida não passava de jogar golfe. Mas é importante o seu depoimento estar aí. É o relato de alguém que tenta reescrever o sucedido, como quando ele diz que isto tudo não passou de uns tipos a baterem com o guarda-chuva na cabeça uns dos outros.

12/Abril/2017

[1] Miguel Carvalho, Quando Portugal ardeu , Oficina do Livro, 2017, 560 p., ISBN: 9789897416675
[2] Günter Wallraff, 
A descoberta de uma conspiração , Bertrand, 1976, 242 p.

O original encontra-se em
ionline.sapo.pt/558127