quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A Antena Um e os tantãs da 3ª guerra mundial



Considerando o risco iminente de uma 3ª guerra mundial, o Kremlin deu ordens aos seus diplomatas e pessoal em funções no Ocidente para repatriarem as suas famílias sem demora. As representações e instituições russas serão reduzidas ao mínimo.

Pelo seu lado, o Ministério russo da Defesa procedeu na passada 4ª feira, dia 12, a três disparos de mísseis intercontinentais (leia-se poderem atingir os EUA) com o objectivo de ajustar o respectivo sistema de lançamento (1).
 
O general norte-americano Mark Milley afirmou há dias que os EUA farão a guerra contra a Rússia e que esta sofrerá a maior derrota de sempre. De seguida o Ministério da Defesa russo afirmou que iria abater qualquer avião ou míssil que sobrevoassem o território sírio.

Vinte e dois congressistas norte-americanos pediram a Obama para os EUA não serem os primeiros a usar a arma atómica.

Nos últimos dias temos assistido a uma das mais virulentas batalhas de contrainformação sobre os combates de Aleppo e quem quer e não quer a guerra na Síria.

Os grandes meios de comunicação social portugueses estão envolvidos até ao pescoço em mais uma das vergonhosas campanhas de desinformação relativas a algumas questões internacionais. Infelizmente a Antena Um não está sozinha nesta procissão.

E isso é tanto mais grave quando a situação encerra o risco real por estes dias do desencadear-se uma nova guerra mundial ou, pelo contrário, confirmar-se uma nova ordem internacional mais respeitadora de todos os verdadeiros direitos humanos. A reunião de Lausana, na Suíça não teve declaração final, presumindo-se que dê origem a outras iniciativas, também junto da UE, de que ainda não está claro o alcance, Foram precedidas por contactos entre Kerry e Lavrov. E nela participaram também os Ministros dos Negócios Estrangeiros do Egipto, Arabia Saudita, Turquia, Irão, Iraque e Jordânia.

Sou ouvinte habitual da Antena Um, para o bem e para o mal.

A Antena Um sonegou aos seus ouvintes que no passado dia 8 o Conselho de Segurança esteve à beira de um cisma, situação relativamente inédita.

Inopinadamente, a França apresentou um projecto de resolução em que toda a responsabilidade pela escalada das tensões era da Síria. Também pretendia ser uma tentativa de proibir voos de aviação na região de Aleppo para proteger os terroristas da Al-Nusra e outros grupos aliados. Isto depois de há quase um ano os estados-membros da ONU já terem considerado por consenso a obrigação de lutar contra os terroristas por todos os meios possíveis, incluindo a Al-Nusra. A proposta francesa omitia que a crise humanitária em Aleppo foi provocada artificialmente, quando estes “rebeldes” tinham recusado em Agosto deixar passar comboios humanitários e ameaçado disparar sobre eles. Além disso, o projeto não referia a necessidade de lançar o mais rapidamente possível um processo de paz inter-sírio, já torpedeado pelos opositores apoiados e protegidos pelo “Ocidente”.

A delegação russa propôs alterações nomeadamente a importância de definir de forma clara e inequívoca a distinção entre opositores "moderados" e terroristas. Propôs ainda desbloquear o caminho para  Castello, cortado pelos terroristas, que é uma artéria fundamental para fornecer o leste de Aleppo. Em vão e os vetos cruzados foram inevitáveis. A Antena Um falou-nos disto?

A Antena Um entende que nos deve manter na ignorância de que o Egipto (membro não permanente do CS) votou as duas moções, com vista a chegar-se a um entendimento, fazendo saber que o apoio financeiro da Arábia Saudita ao seu país não retirava ao governo egípcio a soberania na definição da sua política externa ou de que outros membros não permanentes do CS apoiaram a abordagem russa na discussão das duas moções, contra a perspectiva da França?

E ignora que o acordo de cessar-fogo, mediado pela ONU, como referimos, passados dois dias, foi violado por um ataque aéreo da coligação, liderada pelos EUA à base do Exército sírio em Deir Ez-Zor, que matou 82 civis e feriu centenas de outras pessoas?

Quer que ignoremos que nessa data, a Rússia já tinha registado mais de 300 violações do cessar-fogo pelos chamados rebeldes “moderados” que abertamente se recusaram a participar no acordo de paz intermediado entre os Estados Unidos e a Rússia, com o líder do grupo rebelde Ahrar al-Sham referido que não se iria separar da Al-Nusra, essa, sim, considerada “terrorista” no esboço do acordo de paz?

Porque não nos dizem que agora não se parte do zero, que passos foram dados e quem os violou?

A Antena Um apresentou uma Aleppo que não existe. Atualmente, na parte ocidental da cidade vivem cerca de milhão e meio de pessoas, enquanto na oriental viverão cerca de 30 mil, muitos sequestrados por alguns milhares de terroristas da Al-Nusra.

Não fala dos ataques destes grupos terroristas dentro desta pequena faixa de Alepo contra a parte ocidental da cidade, matando civis, destruindo escolas e hospitais.

Não nos fez saber a Antena Um que estes são os jiadhistas que mataram os habitantes de Aleppo Oriental que tentavam fugir durante a pausa de Eid (2). Estes ainda são os que queimaram o comboio do Crescente Vermelho Sírio para os civis reféns em Aleppo, depois de a Síria e a Rússia terem permitido que durante o Eid todos os residentes dessa parte de Aleppo, civis ou combatentes, sírios ou estrangeiros tivessem a oportunidade de deixar a cidade. Depois disso, o exército sírio e os seus aliados libaneses, russos e iranianos lançaram uma operação contra os jihadistas que corria o risco de matar civis que mantêm como reféns.

A Antena Um quando fala de “rebeldes” de Aleppo sabe que devia dizer “terroristas” ou os grupos terroristas expulsos do Iraque para a Síria mudam de nome?

E porque omite o esclarecimento de Putin sobre o ataque ao comboio humanitário para Aleppo, foi da autoria dum destes grupos, como é do conhecimento dos EUA que acompanharam a operação com um drone?

A Antena Um quer fazer de Vladimir Putin e Bachar al-Assad os maus da fita, os índios, em contraponto com os cowboys de Washington, do Eliseu ou de Londres. E embandeira em arco com o delírio da pretensão de Hollande em levar Putin aos tribunais…

Nem destas nem de outras coisas mais a Antena Um nos dá notícia, preferindo sistematicamente omitir ou distorcer.

A Antena Um tem que se definir, e informar os seus ouvintes, sobre se está ou não a deitar achas para a fogueira que se avizinha.

AAntenaUm só tem um ouvido e prefere ouvir só de um lado. Sendo uma rádio, mandou a estereofonia às urtigas, e regressou aos velhos tempos. Importa que a Antena Um tenha em conta, que a agressão directa ou por interpostos aliados dos EUA está a ter respostas.

Se o New York Times revelou que Obama estava insatisfeito com a recusa do Congresso em lhe permitir entrar pela Síria dentro e que era obrigado a atribuir essa tarefa a aliados (3), os EUA já fizeram deslocar aviões AWAC para a região e o Ministério da Defesa Russo já anunciou que abaterá qualquer avião estrangeiro que invada o espaço aéreo sírio que controla a pedido do governo legítimo do país. A Antena Um não achou que isso tivesse interesse jornalístico? Também no Iémen a Rússia se instalou militarmente para defender o país dos ataques sauditas e outros países do Golfo atrelados à Arábia Saudita. “No passado dia 7 o Iémen disparou um míssil terra-mar contra o HSV-2 Swift, um catamarã cruzador do exército saudita e destruiu-o. A imprensa ocidental, que a isso se referiu, atribuiu o disparo aos Houthis e que o emblemático navio teria sido apenas danificado... A Federação Russa estava assim a dirigir a mensagem à NATO e às petro-ditaduras do Golfo: a guerra geral é possível e Moscovo não vai fugir dela” (4). Os EUA não reagiram directamente. A Arábia Saudita fez um novo massacre bombardeando o país nesse dia “Pelo menos 140 pessoas mortas e 525 feridas é o balanço de um bombardeamento, atribuído à Arábia Saudita, durante um funeral no Iémen” (5). Depois disso um mesmo cruzador norte-americano sofreu por duas vezes, em dias consecutivos, disparos de mísseis voindos do Iémen.Que nos disse a Antena Um? Zero!

Putin, entretanto, revogou o acordo russo-norte-americano relativo à limitação de plutónio militar, decisão que resulta da dissuasão nuclear. Com a apresentação de um projeto de lei na Duma, pediu que o acordo sobre o plutónio seja restaurado quando Washington cumprir as suas promessas: a remoção de armas instalados pela NATO nos ex-estados soviéticos e a revogação das sanções anti-russas (6) A Antena Um falou da revogação do acordo mas quanto o resto, nada!

Para além das atitudes destes e de outros propagandistas de frases produzidas algures, a realidade é outra coisa. Já passou o tempo em que meia dúzia dos mais enfrenesiados atlantistas podia cavalgar as boas normas das relações internacionais em seu favor. Estamos numa nova era de reequilíbrio entre grandes potências, em que acordos mutuamente vantajosos a nível bilateral e multilateral poderão contribuir para o desenvolvimento de todos, particularmente dos que mais para trás foram deixados. E o desenvolvimento é a base mais sólida para a paz.

 

(1) “Russia orders all officials to fly home any relatives living abroad, as tensions mount over the prospect of a global war”, Julian Robinson, Daily Mail, 13 de Outubro, 2016

(2) Eid al-Adha, também chamado "Festa do Sacrifício", é o segundo de dois feriados muçulmanos comemorado todos os anos em todo o mundo, e considerado o mais santo dos dois. Homenageia a disposição de Ibrahim (Abraão) para sacrificar seu filho, como um acto de submissão à ordem de Deus, diante de Deus, antes de Deus enviar o seu anjo Jibra’ill (Gabriel) para o informar que o seu sacrifício já tinha sido aceite. A carne do animal sacrificado é dividida em três partes. A família fica com um terço, outro terço é dado aos parentes, amigos e vizinhos e o terço restante é dado aos pobres e necessitados.

(3) “Audio Reveals What John Kerry Told Syrians Behind Closed Doors”, Anne Barnard, The New York Times, 30 de Setembro, 2016.

(4) Thierry Meyssan, voltairenet.org.

(5) “Avante!”, 13 de Outubro, 2016.

(6) Thierry Meyssan, voltairenet.org.

 
PS - Numa versão original deste artigo, publicado noutra plataforma, citei várias vezes o jornalista Miguel Soares, da Antena Um, como o autor de algumas afirmações atrás atribuídas à sua estação. Fazendo fé num pedido de esclarecimento e correcção que então fez, com todo o gosto, corrigi a autoria das afirmações que terão sido feitas por terceiros, mas mantive, porque as ouvi bem e continuei a ouvir que elas foram feitas e não é da ética do meu comportamento, inventar tais declarações.

sábado, 15 de outubro de 2016

Bom fim de semana!, por Jorge


"Technological progress has merely provided us
with more efficient means for going backwards."

 "O progresso tecnológico forneceu-nos simplesmente
meios mais eficientes para andarmos para trás."
 
Aldous Huxley
escritor e filósofo inglês, 1894-1963
será assim? às vezes até parece...

sábado, 8 de outubro de 2016

Deutsche Bank: uma questão não resolvida (2)



A redução concreta da dívida do Deutsche Bank ao Departamento de Justiça dos EUA não está garantida. Nem garantido está que os problemas no Deutsche Bank só façam cócegas ao sistema financeiro português.

Apesar de Merkl já ter dito anteriormente que não iria apoiar o banco alemão, o que é certo é que na semana passada a Reuters dava conta de reuniões entre responsáveis dos dois governos para obter um resultado que não deixe as suas acções irem de novo por água abaixo.

Par além desse apoio, Merkl, atendendo à proximidade de eleições, não quer sugerir qualquer tipo de resgate, pela rejeição que isso provocaria nos contribuintes, com a profissão de fé que isso não virá a ser necessário.

Se em Julho o economista-chefe do Deutsche Bank, Folkerts-Landau, afirmou ao Die Welt que as instâncias europeias deviam começar a preparar um plano de resgate e que a recapitalização do sistema bancário podia chegar aos 150 mil milhões de euros, hoje o presidente do banco está em linha com a atitude de Angela Merkl.

Particularmente exposto está o Novo Banco com eventuais recuos de compradores potenciais ou em caso de cenário mais grave a generalidade dos bancos que realizaram negócios de derivados com o banco alemão.

Na semana que passou, o CEO John Cryan, citado pela Bloomberg escreveu em nota interna que a “confiança é a base do sector financeiro”, que “algumas forças do mercado estão a tentar prejudicar esta confiança”, e que “o Deutsche Bank tem muitos problemas, mas a liquidez não é um deles”.

Em resposta Sigmar Gabriel, Ministro da Economia e Vice-Chanceler de Merkl, disse "Não sei se ria ou se chore com o facto de o banco que teve um modelo de negócio baseado na especulação diga, agora, que é vítima de especulação”.

Citado pela Reuters e pelo Financial Times, o ministro da Economia sublinhou ainda a sua preocupação com os 100 mil trabalhadores do banco alemão. "O cenário são milhares de pessoas que vão perder o seu trabalho. Vão pagar o preço da loucura dos dirigentes irresponsáveis", disse Sigmar Gabriel.

A revelação no passado dia 27 pela Bloomberg que dez fundos que recorriam ao DB para fazer a negociação de contratos derivados, usando-o como contraparte na garantia das transacções, estavam a “fugir” do banco alemão, disparou a volatilidade em mais de 15% em Nova Iorque, com reflexos imediatos na Europa. O Commerzbank, que, “acidentalmente”, deixou no dia seguinte publicar que estava em vias de preparar uma mega-reestruturação, agitou as bolsas, invocando o banco estar a sofrer grandes prejuízos com as taxas negativas que o BCE estava a aplicar aos depósitos.

Entre nós, está particularmente exposto o Novo Banco com eventuais recuos de compradores potenciais ou em caso de cenário mais grave a generalidade dos bancos que realizaram negócios de derivados com o banco alemão. 

Já anteriormente o FMI referira “entre os bancos globais de importância sistémica [G-SIB], o Deutsche Bank aparenta ser o maior contribuinte líquido para riscos sistémicos, logo seguido do HSBC e do Credit Suisse”, pelo que se recomenda uma “monitorização apertada”.

À espera das eleições alemãs e norte-americanas, a questão vai adensar-se. Passos Coelho continuará a não entrar em linha de conta com o que se passa “lá fora”, e esquecerá que os seus amigos políticos estiveram no centro do furacão. Sugerir-lhe-ia o pedido de um milagre a Nossa Senhora, que embora de difícil realização, lhe daria um outro crédito para as próximas adivinhações.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

...e bom fim de semana!, por Jorge



"We are all in the gutter,
but some of us are looking at the stars."

"Estamos todos na fossa,
mas alguns de nós olham para as estrelas."

Oscar Wilde em Lady Windermere's Fan (1892)

... olha para lá neste fim de semana!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Miró em Serralves


Depois do afundamento do antigo BPN,  depois do estado assumir a sua posse, e depois de avanços e recuos em relação ao destino da coleção de 85 obras de Miró, Portugal vai manter este património.
Começou agora a ser visitada com assinalável êxito, na Casa de Serralves, no Porto, passando a ficar sob a responsabilidade do seu município.

Joan Miró: Materialidade e Metamorfose  marca o regresso do pintor catalão à Fundação Serralves, que acolheu, há 25 anos, uma exposição do artista. A mostra que inclui várias obras desconhecidas do público tem curadoria de Robert Lubar Messeri, um dos maiores especialistas do mundo em Miró, e projeto expositivo desenhado por Álvaro Siza Vieira.

A exposição debruça-se sobre seis décadas de evolução da personalidade artística de Miró, entre 1924 e 1981, seguindo atentamente a "transformação das linguagens pictóricas" ao longo do percurso do pintor. São cerca de 80 as pinturas exibidas ao público, que estão no centro do catálogo ilustrado de exposição assinado pelo curador, Messeri.

O espólio de Joan Miró  estará em exposição pública na Casa de Serralves até 28 de Janeiro de 2017. O preço da entrada é de 10 euros.
  

O Deutsche Bank e o sistema financeiro mundial (1)



Em 13 de Fevereiro deste ano já nos tínhamos referido aqui a que com o eventual colapso do Deutsche Bank, o sistema financeiro europeu entraria em queda livre. Identificámos então as causas deste processo e que a previsão do desastre vinha de 2013 mas tinha sido ocultada. Para encetar a perseguição à Grécia e depois a Portugal por causa dos déficites excessivos, como que atribuindo aos mais fracos as responsabilidades da falência do grande banco alemão que tinham causas criminosas que nada tinham a ver com o desempenho destes dois países.

Não iremos aqui repetir o que então foi dito.

Desde então, aconteceu uma multa do Departamento de Justiça dos EUA no valor de cerca de 14 mil milhões de dólares por obrigações hipotecárias mal vendidas ao longo da década passada nos EUA (o seu papel na crise das hipotecas subprime). Entretanto nesta sexta-feira, o Departamento de Justiça conseguiu negociar com o “bloco europeu” (?) a redução da multa para 5,4 mil milhões. As acções do maior banco da Alemanha que tinham estado a afundar-se para mínimos de há quase 30 anos, negociadas abaixo dos 10 € por acção, passaram de imediato a ser negociadas a 11,57 euros este sábado. Não são conhecidos à hora em que escrevo os termos deste “negócio” mas o tal “bloco europeu” deve ter prometido aos States coisas que desconhecemos.

A redução da multa irá aliviar accionistas mas a reestruturação do DB continua e os trabalhadores não deixarão de ser despedidos.

O Deutsche Bank tem actualmente 50 balcões em Portugal com cerca de cerca de 400 trabalhadores. O banco anunciou que irá fechar 15 dependências, sobretudo nas cidades de Lisboa e do Porto, não tendo revelado o número de trabalhadores que podem vir a ser afectados. Uma coisa é certa, como o Deutsche Bank só tem trabalhadores com contratos individuais de trabalho, os seus direitos estão debilitados.

O presidente do Deutsche Bank em Portugal disse que este processo de reestruturação está a ser planeado há mais de um ano e passa por preparar o banco para um modelo de negócio bancário virado para o crédito à habitação e a empresas, que não necessita de tantas pessoas, dispensáveis pelo digital.

Esta redução da multa americana pode ser encarada como uma retaliação à multa que União Europeia aplicou à Apple. Este é um episódio de uma guerra que não vai parar e a que dedicaremos o próximo artigo.

Antes os accionistas mostravam-se escandalizados por o banco não ter agido mais cedo – quando seguramente já conheciam os receios que têm quase um ano de circulação ao seu nível – e viraram-se para o governo alemão em vez de serem eles a procederem ao necessário aumento de capital.

Há duas semanas quer o governo quer o banco manifestavam desacordo com qualquer apoio do governo. Mas as afirmações definitivas face à gravidade da situação talvez não sejam definitivas.

Certamente que Angela Merkel, chanceler da Alemanha, não gostaria de sustentar um banco que sobreviveu à crise de 2008 sem resgate. E mesmo se ela quisesse fazer isso agora, as novas regras significam que os detentores de obrigações seriam forçados a assumir as perdas primeiro. O banco alemão passou a ter papel destacado na crise do sector bancário europeu. E será o teste decisivo para as novas regras bancárias da zona euro, criticadas em países como a Itália e Portugal, mas até agora defendidas com determinação pela Alemanha.

O FMI afirmou que as consequências de um colapso do Deutsche Bank poderia ser pior do que a crise bancária global. No entanto, poucos estão a prever que o banco vá seguir o caminho do Lehman. Christopher Wheeler, analista bancário da Equities Atlântico, afirma que o Deutsche Bank não está a ficar sem dinheiro, pois tem 50 mil milhões de dólares de ativos facilmente vendáveis para atender todas os pedidos dos clientes.

No entanto, os accionistas ainda estão alarmados, depois das acções do Deutsche Bank terem descido mais de 50% este ano. Tamanha foi a queda que o seu valor de mercado era até 6ª feira de aproximadamente 14.5 mil milhões ou, em termos de dólares de quase 2 mil milhões a mais do que a pena proposta de 14 mil milhões de dólares.

Uma grande preocupação para os mercados globais quanto ao Deutsche Bank são as suas profundas conexões com as instituições financeiras globais, que têm alguns investidores que temem uma crise bancária maior, embora os analistas continuem a indicar que a situação está longe de ser tão terrível.

Referimos de seguida alguns dos momentos deste percurso de queda.

Em Junho de 2015, John Cryan, director financeiro, ex-chefe do UBS, foi nomeado co-CEO.

Em Outubro de 2015 Cryan anunciou detalhes de um programa de reestruturação chamado Estratégia de 2020, que inclui uma suspensão de dividendos sobre acções ordinárias, eliminação de postos de trabalho e saída de balcões de 10 países.

Em Junho de 2016,o Fundo Monetário Internacional publicou um relatório dizendo que o Deutsche Bank "parece ser o contribuinte líquido mais importante para os riscos sistémicos no sistema bancário global."

Em Julho 2016 a S & P Global Rating passou a sua percepção sobre o Deutsche Bank para negativa.

Em Junho / Julho 2016, a unidade dos EUA do Deutsche Bank falhou o teste de stress da Reserva Federal dos EUA novamente, mas, por pouco passou à tangente no teste de stress do BCE.

Em Agosto o Deutsche Bank e o Credit Suisse foram removidos do índice 50 blue-chip STOXX Europa devido à queda acentuada no valor de ambas as unidades operacionais no mercado.

O analista do Credit Suisse Jon Paz disse num relatório de 16 de Setembro que um rácio (CET1), que mede a força financeira de um banco estava abaixo do requisito mínimo do Banco Central Europeu, em 12,25 %.

O Deutsche Bank também está a tentar vender ativos num esforço para aumentar o capital. Na quarta-feira, o banco anunciou que irá vender o negócio de seguros britânico Abbey Life ao Phoenix Grupo por 1,2 mil milhões de dólares.

"Este não é o Lehman, nem estamos em 2011, com a Grécia e alguns outros problemas no euro. Fizemos uma grande limpeza, desde então," afirmou Rebecca Patterson, diretora administrativa e de investimentos da Bessemer Trust, numa conferência Bloomberg na passada quarta-feira.

Jeroen Dijssebloem, presidente do Eurogrupo, disse no sábado que o Deutsche Bank terá de sobreviver por si próprio. As declarações foram citadas pela Reuters, e efectuadas depois do Conselho de Ministros do governo holandês.

O preço das acções tinha caído na passada semana no meio de preocupações de que o banco pudesse não ter o capital para pagar os custos de litigância judicial e corresponder às normas regulamentares hoje mais estritas.

O CEO John Cryan já então dizia que o credor não tinha intenção de pagar um valor da grandeza avançado pelo Departamento de Justiça americano, e está a redobrar esforços para cortar custos e vender activos. Rejeitando prognósticos pessimistas sobre a saúde financeira do credor, Cryan disse ao Bild numa entrevista publicada na terça-feira passada que o capital "não é actualmente um problema", e rejeitou a intenção de apoio por parte do governo alemão. E recusou ter pedido qualquer ajuda ao Estado alemão.

"Temos algumas forças de mercado que querem enfraquecer a confiança em nós”, considera o CEO do Deutsche Bank.

John Cryan destaca numa comunicação aos funcionários que nos últimos tempos o banco tem sido alvo de "especulação dos media" e que o "trabalho [do Deutsche Bank] é assegurar que esta percepção distorcida não tem um impacto forte no negócio do dia-a-dia", de acordo com a Bloomberg.

É difícil prever em como irão evoluir estas questões. A solidariedade inter-capitalista (ou inter-bancária, com o nosso dinheiro) funcionará para impedir o desenvolvimento deste cancro em território europeu, até certo ponto. Mas a especulação bolsista e a concorrência altamente agressiva não se conformam com acordos.

O Deutsche Bank não é o único alvo dos EUA.

As dimensões mais amplas do conflito foram reveladas na passada semana por Valdis Dombrovskis, um dos vice-presidentes da Comissão Europeia. Segundo ele, as reformas ao sistema bancário global que os Estados Unidos estão a pressionar não podem ser aceites por levarem a "aumentos significativos nos requisitos de capital a suportar pelo sector bancário da Europa". Sem nomear directamente os EUA, disse: "Queremos uma solução que funcione para a Europa e não coloque os nossos bancos em desvantagem em relação aos nossos concorrentes globais".

A maneira em que as contradições insolúveis da economia capitalista global estão a alimentar as tensões geopolíticas, e vice-versa, como revela a crise do Deutsche Bank, é de profundo significado e geradora de grande preocupação.

originalmente publicado em www.abrilabril.pt nesta mesma data 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Bom fim de semana!

"Só vê bem
aquele que imagina a evidência"


Sophia de Mello Breyner
na última exposição em vida de José Escada (1979)



Joie de Vivre (óleo sobre tela, 1960)
retrospetiva José Escada até 31 Outubro
Na F. C. Gulbenkian

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os EUA bombardearam o cessar-fogo na Síria



Há dois dias aviões norte-americanos mataram pelo menos 62 soldados sírios. Saíram, depois, da reunião à porta fechada do Conselho de Segurança da ONU convocado pela Rússia para esclarecer esta questão, e optaram por lamentar junto aos jornalistas o sucedido e para afirmar que “seja qual for o resultado da investigação sobre este caso (!!), a aviação não o fez intencionalmente.” Esperar-se-iam desculpas à Síria e aos familiares dos soldados mortos. Isso não aconteceu. Terroristas do Estado Islâmico progrediram para o território ocupado pelos soldados sírios mortos.

A opinião pública não perdoará aos EUA novo malogro do plano de cessar-fogo para a Síria, como aconteceu ao de Fevereiro.

Os estrategas do Pentágono decidiram há vinte anos a destruição da democracia e desenvolvimento de muitos países, começando, na fase das “revoluções coloridas” desta década, pela Líbia e pela Síria, esta em 2011. Há razões políticas e energéticas nestes planos maquiavélicos: retirar aliados à Rússia, acabar com o não-alinhamento e obter a exploração do petróleo desses países, impedindo a Rússia de ser fornecedora de petróleo e gás à Europa.

A liquidação das condições de vida dos sírios, a destruição das suas cidades, a falta de condições de habitabilidade, de acesso a alimentação e água durante cinco anos consecutivos, originou o desespero, mais e duas centenas de milhares de mortos, centenas de milhares de refugiados.

O clamor universal para que desta vez se calem as armas é maior.

No dia 6, antes do anúncio deste novo acordo, o Le Monde, relatava que o exército e as outras forças aliadas fecharam o corredor frágil que os combatentes da oposição a Assad tinham rasgado no início de Agosto. O apoio aéreo das forças russas foi decisivo nesta operação. Se o terreno de Aleppo, no norte da Síria, permanece em movimento, marcado por reversões desde Junho, o avanço deste domingo é um sucesso para as forças do regime.

A única estrada de acesso aos subúrbios rebeldes de Aleppo, cidade dividida em duas desde 2012, segundo o jornal, foi fechada quando das operações turcas no norte da Síria e as negociações acaloradas entre Moscovo, pilar do regime, e Washington, um dos patrocinadores da rebelião. Desde Fevereiro, a Rússia passou a pesar sobre a situação militar em Aleppo, para obter dividendos diplomáticos, e os últimos desenvolvimentos poderia novamente servir os seus interesses.

A reconquista de Aleppo é um objectivo proclamado pelo governo sírio há meses.

De acordo com sites pró-regime, o veterano das tropas de elite sírias, coronel Souheil Alhassan, e os milicianos do Hezbollah desempenham um papel importante nos combates no solo à coligação rebelde Jaich Alfatah ("Exército da Conquista"),aliança de facções radicais dominada por jihadistas da Frente Fatah al-Sham, a antiga Frente Al-Nusra, filiada na Al-Qaeda”.

Na semana passada EUA e URSS anunciaram um novo acordo de cessar-fogo, terrestre e aéreo, para a Síria, que começou a vigorar no dia 13, para coincidir com o Eid al-Adha, principal festa muçulmana. Depois de um período de sete dias de respeito da trégua, ambos os países vão realizar ataques coordenados contra posições dos grupos terroristas Al Nusra e Estado Islâmico, disse o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, nessa conferência de imprensa em Genebra, depois de uma maratona de negociações, tendo ao seu lado o homólogo russo, Serguei Lavrov.

Durante as longas negociações foram assinados cinco documentos que permanecem "confidenciais" por causa de seu “conteúdo sensível”. Foram divulgados os pontos sobre a trégua, a ajuda humanitária e a demarcação de atividade das forças aéreas da Rússia e dos EUA. Ficou ainda esclarecido que o governo sírio e os grupos de oposição não terroristas estavam prontos a cumprir estes acordos, incluindo o regime de cessar-fogo e a garantia de abertura de corredores humanitários para a cidade de Aleppo. O Ministério da Defesa Russo pediu que um dos principais grupos de oposição, o Exército Livre da Síria, parasse a ação militar contra unidades curdas, perto de Aleppo, para facilitar o cessar-fogo. Essa acção permaneceu depois de iniciado o cessar-fogo. As forças curdas têm sido consideradas por alguns observadores, como uma das mais eficazes no combate aos terroristas no solo.

No dia do anúncio do acordo, o porta-voz do Departamento de Estado Mark Toner tinha declarado:

"Nós sempre fomos claros, assim como já dissemos que a responsabilidade da Rússia é de exercer influência ou pressão sobre o regime a respeitar a cessação das hostilidades, e cabe a nós persuadir, convencer a oposição moderada a também respeitar a cessação das hostilidades, o que é uma decisão que irá ser cumprida ".

O Ministério russo do Exército salientou no passado dia 12 e novamente neste sábado que o facto dos EUA ainda não terem fornecido informações, que permitam a identificação exacta dos lugares operacionais do Jebhat al-Nusra nas áreas de combate, estava a dificultar o trabalho conjunto para a fase a seguir à cessação das hostilidades. 

Entretanto, as esperadas dificuldades para a fase do cessar-fogo vieram ao de cima.

Israel, uma hora depois do início do cessar-fogo sobrevoou a Síria e dois aviões seus foram abatidos por mísseis de uma nova geração de desempenho superior aos anteriores. Até este sábado eram 199 os casos de violação do cessar-fogo, cumprindo o exército sírio e seus aliados o acordo.

Entretanto, os vários grupos armados rebeldes têm aproveitado a trégua para reagrupar combatentes, nomeadamente em Aleppo e Hama, e recomporem os arsenais de armas e munições para se lançarem na conquista de novos objectivos.

Com base nisso, a Rússia disse aos EUA que estes não estavam a cumprir a sua parte do acordo sobre o cessar-fogo, que incluía o controlo dos grupos por eles apoiados (rebeldes “moderados”), e pediu a Washington para tornar públicos todos os documentos relacionados com a negociação deste acordo, para que ficasse claro o que tinha ficado acordado e quem não o estava a cumprir. Estes acordos, em geral, mantêm-se sob reserva, o que pode facilitar a manipulação da opinião pública.

E tornou público que os EUA não estão a responder a contactos, entre ambas as forças no terreno, como tinha ficado combinado.

Sobre os acessos humanitários a situações como a de Aleppo, os acordos preveem que quer as forças “rebeldes” quer o governo sírio não só se abstêm de fazer fogo como também se devem afastar o suficiente desses corredores para garantir que organizações humanitárias viabilizem aos habitantes essas ajudas. Houve situações anteriores em que os bens destinados aos habitantes foram entregues aos rebeldes, que apareciam armados, como autoridade administrativas, e em que estes se apoderaram delas para os seus combatentes e as fizeram entrar no mercado negro, gerando preços incomportáveis para os habitantes. O representante da ONU, De Mistura, conhece a situação e não exigiu aos “rebeldes” que viabilizassem esse acesso e agora volta a acusar os sírios de impedirem a entrada da ajuda humanitária.

Em 6 de Julho deste ano, o Washington Post dava conta de que “A construção de confiança entre os rebeldes sírios e seus aliados norte-americanos também não é uma tarefa fácil", disse ao jornal David Maxwell, um ex-oficial das forças especiais, que dizia ainda que "Preparar os nossos supostos aliados não resulta em muito e prejudica a nossa legitimidade e credibilidade. É difícil estabelecer e manter relacionamento com estas organizações que se dizem uma coisa e fazem outra."

Isto exige que a “mão firme” que Washington tem para outras coisas a tenha também com estas, sob pena de o cessar-fogo não resultar, bloqueando a continuidade de todo o processo de paz. Pelos vistos teve-a mais uma vez para matar os 62 soldados sírios…

Episódios como estes, relatados no jornal norte-americano, geram grande perplexidade sobre o que se passa no terreno com estes grupos e de como os EUA, que foram os patrocinadores da criação de todos, lidam com eles, até porque os continuam a apoiar em todos os aspectos.

Mas os EUA defrontam-se com outro problema: a sua rejeição por toda a população síria ilustrado por mais um caso significativo, já reconhecido pelo Pentágono. Na 6ª feira passada ocorreu a expulsão de militares norte-americanos que acompanham a incursão turca, da cidade de al-Rai, por grupos próximos do NSA em termos altamente desprestigiantes para os EUA.

E defrontam ainda a falta de confiança dos grupos que têm apoiado. Na mesma peça do Washington Post, referia-se que uma unidade rebelde síria, treinada pelos EUA, tinha sido derrotada e obrigada a fugir para o Estado Islâmico durante uma batalha no deserto perto da cidade de Bukamal, depois de jactos americanos a abandonarem num momento crítico para, segundo autoridades americanas que conheciam o incidente, bombardearem outro alvo no vizinho Iraque. A unidade rebelde do Novo Exército Sírio (NSA) estava em ofensiva terrestre para recuperar ao Estado Islâmico) (IS, anteriormente ISIS / ISIL) a cidade de Bukamal, no sudeste da Síria, capturada na semana anterior. As autoridades norte-americanas que lidaram com isso confirmaram o facto.

originalmente publicado hoje, dia 19, em abrilabril

sábado, 17 de setembro de 2016

O golpe em curso, por Carlos Carvalhas

 
Há um golpe em curso. Como no Brasil não se trata de um golpe militar, mas um golpe de pantufas, lento, burocrático, hipócrita.

A opinião pública vem há muito a ser preparada e intoxicada para o aceitar, designadamente através dos meios de comunicação oficiais com destaque para a RTP. O país está em estagnação desde que o Euro entrou em circulação. Com o governo PSD /CDS a economia afundou-se, o PIB teve uma queda histórica, bem como o investimento público e privado. Aumentou dramaticamente o desemprego, a emigração e a dívida pública e nem saímos da situação de défice excessivo.  Se se continuasse com a mesma política a situação era hoje bem pior, pois nem sequer teríamos o estímulo do consumo interno no quadro do abrandamento da economia europeia e da forte quebra de importantes mercados das nossas exportações. A que há que juntar as situações apodrecidas do BANIF, Caixa e Novo Banco vindas do governo anterior e os inaceitáveis constrangimentos do défice a limitarem fortemente o aproveitamento dos fundos europeus e portanto o investimento público.
Isto é conhecido.
No entanto continua-se a carregar nas tintas pretas, como se o peso da situação não viesse de trás.
As grandes acusações feitas a este governo , embora nem sempre explicitadas são: a reposição dos vencimentos dos trabalhadores da função publica, modesta, as 35 horas, a diminuição do IVA na Restauração. "O exato oposto do que  deveriam fazer" dizem os agentes da Troika, opinião sempre amplificada por certa comunicação social e pelos bitates dos Schaubles e Dijsselbloens. Só que a opinião destes últimos e as ameaças de sanções da Comissão já tiveram efeito negativo nas taxas de juros sobre a dívida pública portuguesa, fatura que lhes devia ser endossada. Pintado o quadro de negro e não se dando saída para o investimento público, o golpe está em marcha e uma das suas etapas decisivas já está marcada para 21 de Outubro. O executante na sombra será o BCE seguindo as orientações mais ou menos explícitas, dos Schaubles e dos Dijsselbloens e contando com as habituais posições à Pilatos dos Holandes, Renzis e companhia.
Antes disso teremos mais uma intensa campanha de preparação da opinião pública que terá o seu auge a 15 de Outubro, com Bruxelas a pressionar e a chantagear com as propostas do Orçamento de 2017 e com as medidas ditas excecionais em alternativa às sanções e a direita a falar na "teimosia do governo". Depois da preparação da opinião pública o quadro político será analisado e o BCE ponderará – pois terão sempre que medir as consequências de uma nova crise na UE – crise em Portugal, Espanha, Itália com referendo prometido – perto das eleições alemãs e francesas. Se o clima for favorável o BCE será tentado a sugerir à sua correia de transmissão – a agência de rating canadiana DBRS – a baixar numa primeira fase as perspectivas da dívida portuguesa de estável para negativa com as consequentes aumentos de juros ou mesmo a baixar o rating permitindo o corte de financiamento do BCE. O golpe final de baixar o rating pode ser decidido mais tarde, mas tudo isto feito debaixo da aparência de neutralidade técnica e com a direita em pose pesarosa a justificar a decisão da agência de rating. Na realidade tratar-se-á de uma decisão puramente política visando punir os maus exemplos.
Pode ser que as circunstancias da altura não aconselhem o desencadear do golpe, mas que ele está ensejado, está!
Como afirmou recentemente Stiglitz enquanto Portugal se mantiver no Euro estará sempre sujeito a este tipo de golpes e chantagens e nós acrescentamos: e pressionado a compensar as perdas de competitividade devido ao Euro pela redução dos salários e pensões e com taxas de crescimento ao nível da estagnação.
Saberá o PS tirar as conclusões que se impõem?       


(11/Setembro/2016)
 

Continua a preparação, manipulação da opinião pública para o golpe de uma forma aparentemente displicente e casual.

Pouco tempo depois do atual governo tomar posse e sem qualquer justificação plausível o ministro das Finanças alemão afirmou que Portugal caminhava para um segundo resgate. Confrontado com a enormidade o ministro alemão veio de forma pouco clara negar o que disse. Na altura o alcance de tal afirmação, atabalhoadamente desdita, passou despercebida parecendo mais uma caturrice de tal personagem. No entanto o que hoje se percebe é que naquela precipitação foi revelada a idealização do golpe. Claro que os direitinhas dirão que isto é teoria da conspiração! Mais recentemente tivemos o episódio da entrevista de Centeno denunciada no sítio "Truques da Imprensa portuguesa":
O truque: A CNBC colocou no título uma frase supostamente atribuída a Mário Centeno: "We'll do all we can to avoid a second bailout". Uma frase que, observando a entrevista, o ministro nunca disse. Ao trazer a informação para o contexto nacional, o Negócios foi prudente. Percebendo que havia, no mínimo, um lapso, atribuiu a informação à CNBC logo no título. – Não foi Centeno que disse, foi a CNBC que disse que Centeno disse. – Já os jornais que o sucederam na pesca ignoraram a complexidade da questão e como quem conta um conto acrescenta um ponto, aí vai: "Centeno diz estar a fazer tudo para evitar um novo resgate." Do mito se fez facto.
Lendo a entrevista percebe-se que, ao dizer que "é a sua principal tarefa", Centeno referia-se à "estabilização da economia" e não ao segundo resgate, como, aliás, mais à frente fica totalmente esclarecido.
O tema "resgate" por esta e por aquela forma "mantêm se em atualidade" para que os ouvidos se vão habituando. Ontem o Público, certamente também por mera casualidade, entrevistou o ministro das Finanças grego que na altura negociou o "resgate", em que este lembra que o BCE tem a chave do Reino pois dele depende a liquidez da banca e a Alemanha a palavra decisiva. Também ontem Maria Luis Albuquerque em tom de sonsa foi entrevistada, por acaso, no Negócios tendo à pergunta sobre um eventual resgate respondido com um angelical: Eu não colocaria a questão dessa forma, mas acrescentando que o governo ainda está a tempo de mudar de rumo...
Hoje no Expresso Curto o tema regressa:
"O resgate. Qual resgate? Bom dia, "O stress pós-traumático é uma perturbação por ansiedade causada por eventos muito stressantes, assustadores ou perturbadores". A definição de stress pós-traumático do Serviço Nacional de Saúde britânico serve, na perfeição, de preâmbulo para um dos temas que marcou o dia de ontem. Num país que viveu três resgates do FMI, que pouco cresce e onde a dívida pública está acima de 130% do PIB, é normal que o resgate seja um papão terrível. E ontem foi um fantasma que pairou sobre Maria Luís Albuquerque (a ex-ministra das Finanças) e Mário Centeno (o atual responsável da pasta). Justiça lhes seja feita, a 'culpa' foi dos jornalistas que decidiram puxar o assunto. Vale pena ouvi-los em discurso direto (e em vídeo) no
Negócios e na CNBC . O que surpreende, no entanto, é a forma diferente como Maria Luís Albuquerque e Mário Centeno lidam com o 'trauma'. Enquanto Maria Luis diz, preto no branco, que "não colocaria a questão nesses termos", Centeno admite que evitar um novo resgate é a sua "principal tarefa". O que, para quem pretende afastar esse cenário, não parece uma estratégia muito adequada. Afinal, há risco ou não de um novo resgate? De quê? De um resgate. Ah, o resgate. Qual resgate?
Para se juntar à festa, a ARC Ratings – a antiga Companhia Portuguesa de Rating –
manteve ontem Portugal um degrau acima de 'lixo' e reviu a perspetiva para negativa. A agência não tem o peso dos gigantes que marcam o ritmo dos mercados internacionais mas não deixa de ser um sinal. Sexta-feira fala uma das grandes – a Standard & Poor´s – que tem Portugal em 'lixo' com perspetiva estável".
Como é evidente a campanha está em curso para que o golpe a ser dado pela DBRS sob a orientação do BCE, a meados de Outubro apareça como a reacção natural, anódina e lógica dos mercados.
E a verificar-se, os que estão na programação do golpe ficarão na sombra e os comentadores de direita em hipocrisia solene dirão que foram repetidamente avisando, no puro estilo do Conselheiro Acácio.
Maria Luís Albuquerque, Cristas e Passos dirão com voz pesada e semblante carregado: depois de tantos esforços os portugueses não mereciam isto...


(13/Setembro/2016)
 
O original encontra-se em foicebook.blogspot.pt

Por motivo de obras de reabiltação, encerramos hoje e reabrimos ao público no dia 3 de Outubro