segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Miró em Serralves


Depois do afundamento do antigo BPN,  depois do estado assumir a sua posse, e depois de avanços e recuos em relação ao destino da coleção de 85 obras de Miró, Portugal vai manter este património.
Começou agora a ser visitada com assinalável êxito, na Casa de Serralves, no Porto, passando a ficar sob a responsabilidade do seu município.

Joan Miró: Materialidade e Metamorfose  marca o regresso do pintor catalão à Fundação Serralves, que acolheu, há 25 anos, uma exposição do artista. A mostra que inclui várias obras desconhecidas do público tem curadoria de Robert Lubar Messeri, um dos maiores especialistas do mundo em Miró, e projeto expositivo desenhado por Álvaro Siza Vieira.

A exposição debruça-se sobre seis décadas de evolução da personalidade artística de Miró, entre 1924 e 1981, seguindo atentamente a "transformação das linguagens pictóricas" ao longo do percurso do pintor. São cerca de 80 as pinturas exibidas ao público, que estão no centro do catálogo ilustrado de exposição assinado pelo curador, Messeri.

O espólio de Joan Miró  estará em exposição pública na Casa de Serralves até 28 de Janeiro de 2017. O preço da entrada é de 10 euros.
  

O Deutsche Bank e o sistema financeiro mundial (1)



Em 13 de Fevereiro deste ano já nos tínhamos referido aqui a que com o eventual colapso do Deutsche Bank, o sistema financeiro europeu entraria em queda livre. Identificámos então as causas deste processo e que a previsão do desastre vinha de 2013 mas tinha sido ocultada. Para encetar a perseguição à Grécia e depois a Portugal por causa dos déficites excessivos, como que atribuindo aos mais fracos as responsabilidades da falência do grande banco alemão que tinham causas criminosas que nada tinham a ver com o desempenho destes dois países.

Não iremos aqui repetir o que então foi dito.

Desde então, aconteceu uma multa do Departamento de Justiça dos EUA no valor de cerca de 14 mil milhões de dólares por obrigações hipotecárias mal vendidas ao longo da década passada nos EUA (o seu papel na crise das hipotecas subprime). Entretanto nesta sexta-feira, o Departamento de Justiça conseguiu negociar com o “bloco europeu” (?) a redução da multa para 5,4 mil milhões. As acções do maior banco da Alemanha que tinham estado a afundar-se para mínimos de há quase 30 anos, negociadas abaixo dos 10 € por acção, passaram de imediato a ser negociadas a 11,57 euros este sábado. Não são conhecidos à hora em que escrevo os termos deste “negócio” mas o tal “bloco europeu” deve ter prometido aos States coisas que desconhecemos.

A redução da multa irá aliviar accionistas mas a reestruturação do DB continua e os trabalhadores não deixarão de ser despedidos.

O Deutsche Bank tem actualmente 50 balcões em Portugal com cerca de cerca de 400 trabalhadores. O banco anunciou que irá fechar 15 dependências, sobretudo nas cidades de Lisboa e do Porto, não tendo revelado o número de trabalhadores que podem vir a ser afectados. Uma coisa é certa, como o Deutsche Bank só tem trabalhadores com contratos individuais de trabalho, os seus direitos estão debilitados.

O presidente do Deutsche Bank em Portugal disse que este processo de reestruturação está a ser planeado há mais de um ano e passa por preparar o banco para um modelo de negócio bancário virado para o crédito à habitação e a empresas, que não necessita de tantas pessoas, dispensáveis pelo digital.

Esta redução da multa americana pode ser encarada como uma retaliação à multa que União Europeia aplicou à Apple. Este é um episódio de uma guerra que não vai parar e a que dedicaremos o próximo artigo.

Antes os accionistas mostravam-se escandalizados por o banco não ter agido mais cedo – quando seguramente já conheciam os receios que têm quase um ano de circulação ao seu nível – e viraram-se para o governo alemão em vez de serem eles a procederem ao necessário aumento de capital.

Há duas semanas quer o governo quer o banco manifestavam desacordo com qualquer apoio do governo. Mas as afirmações definitivas face à gravidade da situação talvez não sejam definitivas.

Certamente que Angela Merkel, chanceler da Alemanha, não gostaria de sustentar um banco que sobreviveu à crise de 2008 sem resgate. E mesmo se ela quisesse fazer isso agora, as novas regras significam que os detentores de obrigações seriam forçados a assumir as perdas primeiro. O banco alemão passou a ter papel destacado na crise do sector bancário europeu. E será o teste decisivo para as novas regras bancárias da zona euro, criticadas em países como a Itália e Portugal, mas até agora defendidas com determinação pela Alemanha.

O FMI afirmou que as consequências de um colapso do Deutsche Bank poderia ser pior do que a crise bancária global. No entanto, poucos estão a prever que o banco vá seguir o caminho do Lehman. Christopher Wheeler, analista bancário da Equities Atlântico, afirma que o Deutsche Bank não está a ficar sem dinheiro, pois tem 50 mil milhões de dólares de ativos facilmente vendáveis para atender todas os pedidos dos clientes.

No entanto, os accionistas ainda estão alarmados, depois das acções do Deutsche Bank terem descido mais de 50% este ano. Tamanha foi a queda que o seu valor de mercado era até 6ª feira de aproximadamente 14.5 mil milhões ou, em termos de dólares de quase 2 mil milhões a mais do que a pena proposta de 14 mil milhões de dólares.

Uma grande preocupação para os mercados globais quanto ao Deutsche Bank são as suas profundas conexões com as instituições financeiras globais, que têm alguns investidores que temem uma crise bancária maior, embora os analistas continuem a indicar que a situação está longe de ser tão terrível.

Referimos de seguida alguns dos momentos deste percurso de queda.

Em Junho de 2015, John Cryan, director financeiro, ex-chefe do UBS, foi nomeado co-CEO.

Em Outubro de 2015 Cryan anunciou detalhes de um programa de reestruturação chamado Estratégia de 2020, que inclui uma suspensão de dividendos sobre acções ordinárias, eliminação de postos de trabalho e saída de balcões de 10 países.

Em Junho de 2016,o Fundo Monetário Internacional publicou um relatório dizendo que o Deutsche Bank "parece ser o contribuinte líquido mais importante para os riscos sistémicos no sistema bancário global."

Em Julho 2016 a S & P Global Rating passou a sua percepção sobre o Deutsche Bank para negativa.

Em Junho / Julho 2016, a unidade dos EUA do Deutsche Bank falhou o teste de stress da Reserva Federal dos EUA novamente, mas, por pouco passou à tangente no teste de stress do BCE.

Em Agosto o Deutsche Bank e o Credit Suisse foram removidos do índice 50 blue-chip STOXX Europa devido à queda acentuada no valor de ambas as unidades operacionais no mercado.

O analista do Credit Suisse Jon Paz disse num relatório de 16 de Setembro que um rácio (CET1), que mede a força financeira de um banco estava abaixo do requisito mínimo do Banco Central Europeu, em 12,25 %.

O Deutsche Bank também está a tentar vender ativos num esforço para aumentar o capital. Na quarta-feira, o banco anunciou que irá vender o negócio de seguros britânico Abbey Life ao Phoenix Grupo por 1,2 mil milhões de dólares.

"Este não é o Lehman, nem estamos em 2011, com a Grécia e alguns outros problemas no euro. Fizemos uma grande limpeza, desde então," afirmou Rebecca Patterson, diretora administrativa e de investimentos da Bessemer Trust, numa conferência Bloomberg na passada quarta-feira.

Jeroen Dijssebloem, presidente do Eurogrupo, disse no sábado que o Deutsche Bank terá de sobreviver por si próprio. As declarações foram citadas pela Reuters, e efectuadas depois do Conselho de Ministros do governo holandês.

O preço das acções tinha caído na passada semana no meio de preocupações de que o banco pudesse não ter o capital para pagar os custos de litigância judicial e corresponder às normas regulamentares hoje mais estritas.

O CEO John Cryan já então dizia que o credor não tinha intenção de pagar um valor da grandeza avançado pelo Departamento de Justiça americano, e está a redobrar esforços para cortar custos e vender activos. Rejeitando prognósticos pessimistas sobre a saúde financeira do credor, Cryan disse ao Bild numa entrevista publicada na terça-feira passada que o capital "não é actualmente um problema", e rejeitou a intenção de apoio por parte do governo alemão. E recusou ter pedido qualquer ajuda ao Estado alemão.

"Temos algumas forças de mercado que querem enfraquecer a confiança em nós”, considera o CEO do Deutsche Bank.

John Cryan destaca numa comunicação aos funcionários que nos últimos tempos o banco tem sido alvo de "especulação dos media" e que o "trabalho [do Deutsche Bank] é assegurar que esta percepção distorcida não tem um impacto forte no negócio do dia-a-dia", de acordo com a Bloomberg.

É difícil prever em como irão evoluir estas questões. A solidariedade inter-capitalista (ou inter-bancária, com o nosso dinheiro) funcionará para impedir o desenvolvimento deste cancro em território europeu, até certo ponto. Mas a especulação bolsista e a concorrência altamente agressiva não se conformam com acordos.

O Deutsche Bank não é o único alvo dos EUA.

As dimensões mais amplas do conflito foram reveladas na passada semana por Valdis Dombrovskis, um dos vice-presidentes da Comissão Europeia. Segundo ele, as reformas ao sistema bancário global que os Estados Unidos estão a pressionar não podem ser aceites por levarem a "aumentos significativos nos requisitos de capital a suportar pelo sector bancário da Europa". Sem nomear directamente os EUA, disse: "Queremos uma solução que funcione para a Europa e não coloque os nossos bancos em desvantagem em relação aos nossos concorrentes globais".

A maneira em que as contradições insolúveis da economia capitalista global estão a alimentar as tensões geopolíticas, e vice-versa, como revela a crise do Deutsche Bank, é de profundo significado e geradora de grande preocupação.

originalmente publicado em www.abrilabril.pt nesta mesma data 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Bom fim de semana!

"Só vê bem
aquele que imagina a evidência"


Sophia de Mello Breyner
na última exposição em vida de José Escada (1979)



Joie de Vivre (óleo sobre tela, 1960)
retrospetiva José Escada até 31 Outubro
Na F. C. Gulbenkian

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os EUA bombardearam o cessar-fogo na Síria



Há dois dias aviões norte-americanos mataram pelo menos 62 soldados sírios. Saíram, depois, da reunião à porta fechada do Conselho de Segurança da ONU convocado pela Rússia para esclarecer esta questão, e optaram por lamentar junto aos jornalistas o sucedido e para afirmar que “seja qual for o resultado da investigação sobre este caso (!!), a aviação não o fez intencionalmente.” Esperar-se-iam desculpas à Síria e aos familiares dos soldados mortos. Isso não aconteceu. Terroristas do Estado Islâmico progrediram para o território ocupado pelos soldados sírios mortos.

A opinião pública não perdoará aos EUA novo malogro do plano de cessar-fogo para a Síria, como aconteceu ao de Fevereiro.

Os estrategas do Pentágono decidiram há vinte anos a destruição da democracia e desenvolvimento de muitos países, começando, na fase das “revoluções coloridas” desta década, pela Líbia e pela Síria, esta em 2011. Há razões políticas e energéticas nestes planos maquiavélicos: retirar aliados à Rússia, acabar com o não-alinhamento e obter a exploração do petróleo desses países, impedindo a Rússia de ser fornecedora de petróleo e gás à Europa.

A liquidação das condições de vida dos sírios, a destruição das suas cidades, a falta de condições de habitabilidade, de acesso a alimentação e água durante cinco anos consecutivos, originou o desespero, mais e duas centenas de milhares de mortos, centenas de milhares de refugiados.

O clamor universal para que desta vez se calem as armas é maior.

No dia 6, antes do anúncio deste novo acordo, o Le Monde, relatava que o exército e as outras forças aliadas fecharam o corredor frágil que os combatentes da oposição a Assad tinham rasgado no início de Agosto. O apoio aéreo das forças russas foi decisivo nesta operação. Se o terreno de Aleppo, no norte da Síria, permanece em movimento, marcado por reversões desde Junho, o avanço deste domingo é um sucesso para as forças do regime.

A única estrada de acesso aos subúrbios rebeldes de Aleppo, cidade dividida em duas desde 2012, segundo o jornal, foi fechada quando das operações turcas no norte da Síria e as negociações acaloradas entre Moscovo, pilar do regime, e Washington, um dos patrocinadores da rebelião. Desde Fevereiro, a Rússia passou a pesar sobre a situação militar em Aleppo, para obter dividendos diplomáticos, e os últimos desenvolvimentos poderia novamente servir os seus interesses.

A reconquista de Aleppo é um objectivo proclamado pelo governo sírio há meses.

De acordo com sites pró-regime, o veterano das tropas de elite sírias, coronel Souheil Alhassan, e os milicianos do Hezbollah desempenham um papel importante nos combates no solo à coligação rebelde Jaich Alfatah ("Exército da Conquista"),aliança de facções radicais dominada por jihadistas da Frente Fatah al-Sham, a antiga Frente Al-Nusra, filiada na Al-Qaeda”.

Na semana passada EUA e URSS anunciaram um novo acordo de cessar-fogo, terrestre e aéreo, para a Síria, que começou a vigorar no dia 13, para coincidir com o Eid al-Adha, principal festa muçulmana. Depois de um período de sete dias de respeito da trégua, ambos os países vão realizar ataques coordenados contra posições dos grupos terroristas Al Nusra e Estado Islâmico, disse o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, nessa conferência de imprensa em Genebra, depois de uma maratona de negociações, tendo ao seu lado o homólogo russo, Serguei Lavrov.

Durante as longas negociações foram assinados cinco documentos que permanecem "confidenciais" por causa de seu “conteúdo sensível”. Foram divulgados os pontos sobre a trégua, a ajuda humanitária e a demarcação de atividade das forças aéreas da Rússia e dos EUA. Ficou ainda esclarecido que o governo sírio e os grupos de oposição não terroristas estavam prontos a cumprir estes acordos, incluindo o regime de cessar-fogo e a garantia de abertura de corredores humanitários para a cidade de Aleppo. O Ministério da Defesa Russo pediu que um dos principais grupos de oposição, o Exército Livre da Síria, parasse a ação militar contra unidades curdas, perto de Aleppo, para facilitar o cessar-fogo. Essa acção permaneceu depois de iniciado o cessar-fogo. As forças curdas têm sido consideradas por alguns observadores, como uma das mais eficazes no combate aos terroristas no solo.

No dia do anúncio do acordo, o porta-voz do Departamento de Estado Mark Toner tinha declarado:

"Nós sempre fomos claros, assim como já dissemos que a responsabilidade da Rússia é de exercer influência ou pressão sobre o regime a respeitar a cessação das hostilidades, e cabe a nós persuadir, convencer a oposição moderada a também respeitar a cessação das hostilidades, o que é uma decisão que irá ser cumprida ".

O Ministério russo do Exército salientou no passado dia 12 e novamente neste sábado que o facto dos EUA ainda não terem fornecido informações, que permitam a identificação exacta dos lugares operacionais do Jebhat al-Nusra nas áreas de combate, estava a dificultar o trabalho conjunto para a fase a seguir à cessação das hostilidades. 

Entretanto, as esperadas dificuldades para a fase do cessar-fogo vieram ao de cima.

Israel, uma hora depois do início do cessar-fogo sobrevoou a Síria e dois aviões seus foram abatidos por mísseis de uma nova geração de desempenho superior aos anteriores. Até este sábado eram 199 os casos de violação do cessar-fogo, cumprindo o exército sírio e seus aliados o acordo.

Entretanto, os vários grupos armados rebeldes têm aproveitado a trégua para reagrupar combatentes, nomeadamente em Aleppo e Hama, e recomporem os arsenais de armas e munições para se lançarem na conquista de novos objectivos.

Com base nisso, a Rússia disse aos EUA que estes não estavam a cumprir a sua parte do acordo sobre o cessar-fogo, que incluía o controlo dos grupos por eles apoiados (rebeldes “moderados”), e pediu a Washington para tornar públicos todos os documentos relacionados com a negociação deste acordo, para que ficasse claro o que tinha ficado acordado e quem não o estava a cumprir. Estes acordos, em geral, mantêm-se sob reserva, o que pode facilitar a manipulação da opinião pública.

E tornou público que os EUA não estão a responder a contactos, entre ambas as forças no terreno, como tinha ficado combinado.

Sobre os acessos humanitários a situações como a de Aleppo, os acordos preveem que quer as forças “rebeldes” quer o governo sírio não só se abstêm de fazer fogo como também se devem afastar o suficiente desses corredores para garantir que organizações humanitárias viabilizem aos habitantes essas ajudas. Houve situações anteriores em que os bens destinados aos habitantes foram entregues aos rebeldes, que apareciam armados, como autoridade administrativas, e em que estes se apoderaram delas para os seus combatentes e as fizeram entrar no mercado negro, gerando preços incomportáveis para os habitantes. O representante da ONU, De Mistura, conhece a situação e não exigiu aos “rebeldes” que viabilizassem esse acesso e agora volta a acusar os sírios de impedirem a entrada da ajuda humanitária.

Em 6 de Julho deste ano, o Washington Post dava conta de que “A construção de confiança entre os rebeldes sírios e seus aliados norte-americanos também não é uma tarefa fácil", disse ao jornal David Maxwell, um ex-oficial das forças especiais, que dizia ainda que "Preparar os nossos supostos aliados não resulta em muito e prejudica a nossa legitimidade e credibilidade. É difícil estabelecer e manter relacionamento com estas organizações que se dizem uma coisa e fazem outra."

Isto exige que a “mão firme” que Washington tem para outras coisas a tenha também com estas, sob pena de o cessar-fogo não resultar, bloqueando a continuidade de todo o processo de paz. Pelos vistos teve-a mais uma vez para matar os 62 soldados sírios…

Episódios como estes, relatados no jornal norte-americano, geram grande perplexidade sobre o que se passa no terreno com estes grupos e de como os EUA, que foram os patrocinadores da criação de todos, lidam com eles, até porque os continuam a apoiar em todos os aspectos.

Mas os EUA defrontam-se com outro problema: a sua rejeição por toda a população síria ilustrado por mais um caso significativo, já reconhecido pelo Pentágono. Na 6ª feira passada ocorreu a expulsão de militares norte-americanos que acompanham a incursão turca, da cidade de al-Rai, por grupos próximos do NSA em termos altamente desprestigiantes para os EUA.

E defrontam ainda a falta de confiança dos grupos que têm apoiado. Na mesma peça do Washington Post, referia-se que uma unidade rebelde síria, treinada pelos EUA, tinha sido derrotada e obrigada a fugir para o Estado Islâmico durante uma batalha no deserto perto da cidade de Bukamal, depois de jactos americanos a abandonarem num momento crítico para, segundo autoridades americanas que conheciam o incidente, bombardearem outro alvo no vizinho Iraque. A unidade rebelde do Novo Exército Sírio (NSA) estava em ofensiva terrestre para recuperar ao Estado Islâmico) (IS, anteriormente ISIS / ISIL) a cidade de Bukamal, no sudeste da Síria, capturada na semana anterior. As autoridades norte-americanas que lidaram com isso confirmaram o facto.

originalmente publicado hoje, dia 19, em abrilabril

sábado, 17 de setembro de 2016

O golpe em curso, por Carlos Carvalhas

 
Há um golpe em curso. Como no Brasil não se trata de um golpe militar, mas um golpe de pantufas, lento, burocrático, hipócrita.

A opinião pública vem há muito a ser preparada e intoxicada para o aceitar, designadamente através dos meios de comunicação oficiais com destaque para a RTP. O país está em estagnação desde que o Euro entrou em circulação. Com o governo PSD /CDS a economia afundou-se, o PIB teve uma queda histórica, bem como o investimento público e privado. Aumentou dramaticamente o desemprego, a emigração e a dívida pública e nem saímos da situação de défice excessivo.  Se se continuasse com a mesma política a situação era hoje bem pior, pois nem sequer teríamos o estímulo do consumo interno no quadro do abrandamento da economia europeia e da forte quebra de importantes mercados das nossas exportações. A que há que juntar as situações apodrecidas do BANIF, Caixa e Novo Banco vindas do governo anterior e os inaceitáveis constrangimentos do défice a limitarem fortemente o aproveitamento dos fundos europeus e portanto o investimento público.
Isto é conhecido.
No entanto continua-se a carregar nas tintas pretas, como se o peso da situação não viesse de trás.
As grandes acusações feitas a este governo , embora nem sempre explicitadas são: a reposição dos vencimentos dos trabalhadores da função publica, modesta, as 35 horas, a diminuição do IVA na Restauração. "O exato oposto do que  deveriam fazer" dizem os agentes da Troika, opinião sempre amplificada por certa comunicação social e pelos bitates dos Schaubles e Dijsselbloens. Só que a opinião destes últimos e as ameaças de sanções da Comissão já tiveram efeito negativo nas taxas de juros sobre a dívida pública portuguesa, fatura que lhes devia ser endossada. Pintado o quadro de negro e não se dando saída para o investimento público, o golpe está em marcha e uma das suas etapas decisivas já está marcada para 21 de Outubro. O executante na sombra será o BCE seguindo as orientações mais ou menos explícitas, dos Schaubles e dos Dijsselbloens e contando com as habituais posições à Pilatos dos Holandes, Renzis e companhia.
Antes disso teremos mais uma intensa campanha de preparação da opinião pública que terá o seu auge a 15 de Outubro, com Bruxelas a pressionar e a chantagear com as propostas do Orçamento de 2017 e com as medidas ditas excecionais em alternativa às sanções e a direita a falar na "teimosia do governo". Depois da preparação da opinião pública o quadro político será analisado e o BCE ponderará – pois terão sempre que medir as consequências de uma nova crise na UE – crise em Portugal, Espanha, Itália com referendo prometido – perto das eleições alemãs e francesas. Se o clima for favorável o BCE será tentado a sugerir à sua correia de transmissão – a agência de rating canadiana DBRS – a baixar numa primeira fase as perspectivas da dívida portuguesa de estável para negativa com as consequentes aumentos de juros ou mesmo a baixar o rating permitindo o corte de financiamento do BCE. O golpe final de baixar o rating pode ser decidido mais tarde, mas tudo isto feito debaixo da aparência de neutralidade técnica e com a direita em pose pesarosa a justificar a decisão da agência de rating. Na realidade tratar-se-á de uma decisão puramente política visando punir os maus exemplos.
Pode ser que as circunstancias da altura não aconselhem o desencadear do golpe, mas que ele está ensejado, está!
Como afirmou recentemente Stiglitz enquanto Portugal se mantiver no Euro estará sempre sujeito a este tipo de golpes e chantagens e nós acrescentamos: e pressionado a compensar as perdas de competitividade devido ao Euro pela redução dos salários e pensões e com taxas de crescimento ao nível da estagnação.
Saberá o PS tirar as conclusões que se impõem?       


(11/Setembro/2016)
 

Continua a preparação, manipulação da opinião pública para o golpe de uma forma aparentemente displicente e casual.

Pouco tempo depois do atual governo tomar posse e sem qualquer justificação plausível o ministro das Finanças alemão afirmou que Portugal caminhava para um segundo resgate. Confrontado com a enormidade o ministro alemão veio de forma pouco clara negar o que disse. Na altura o alcance de tal afirmação, atabalhoadamente desdita, passou despercebida parecendo mais uma caturrice de tal personagem. No entanto o que hoje se percebe é que naquela precipitação foi revelada a idealização do golpe. Claro que os direitinhas dirão que isto é teoria da conspiração! Mais recentemente tivemos o episódio da entrevista de Centeno denunciada no sítio "Truques da Imprensa portuguesa":
O truque: A CNBC colocou no título uma frase supostamente atribuída a Mário Centeno: "We'll do all we can to avoid a second bailout". Uma frase que, observando a entrevista, o ministro nunca disse. Ao trazer a informação para o contexto nacional, o Negócios foi prudente. Percebendo que havia, no mínimo, um lapso, atribuiu a informação à CNBC logo no título. – Não foi Centeno que disse, foi a CNBC que disse que Centeno disse. – Já os jornais que o sucederam na pesca ignoraram a complexidade da questão e como quem conta um conto acrescenta um ponto, aí vai: "Centeno diz estar a fazer tudo para evitar um novo resgate." Do mito se fez facto.
Lendo a entrevista percebe-se que, ao dizer que "é a sua principal tarefa", Centeno referia-se à "estabilização da economia" e não ao segundo resgate, como, aliás, mais à frente fica totalmente esclarecido.
O tema "resgate" por esta e por aquela forma "mantêm se em atualidade" para que os ouvidos se vão habituando. Ontem o Público, certamente também por mera casualidade, entrevistou o ministro das Finanças grego que na altura negociou o "resgate", em que este lembra que o BCE tem a chave do Reino pois dele depende a liquidez da banca e a Alemanha a palavra decisiva. Também ontem Maria Luis Albuquerque em tom de sonsa foi entrevistada, por acaso, no Negócios tendo à pergunta sobre um eventual resgate respondido com um angelical: Eu não colocaria a questão dessa forma, mas acrescentando que o governo ainda está a tempo de mudar de rumo...
Hoje no Expresso Curto o tema regressa:
"O resgate. Qual resgate? Bom dia, "O stress pós-traumático é uma perturbação por ansiedade causada por eventos muito stressantes, assustadores ou perturbadores". A definição de stress pós-traumático do Serviço Nacional de Saúde britânico serve, na perfeição, de preâmbulo para um dos temas que marcou o dia de ontem. Num país que viveu três resgates do FMI, que pouco cresce e onde a dívida pública está acima de 130% do PIB, é normal que o resgate seja um papão terrível. E ontem foi um fantasma que pairou sobre Maria Luís Albuquerque (a ex-ministra das Finanças) e Mário Centeno (o atual responsável da pasta). Justiça lhes seja feita, a 'culpa' foi dos jornalistas que decidiram puxar o assunto. Vale pena ouvi-los em discurso direto (e em vídeo) no
Negócios e na CNBC . O que surpreende, no entanto, é a forma diferente como Maria Luís Albuquerque e Mário Centeno lidam com o 'trauma'. Enquanto Maria Luis diz, preto no branco, que "não colocaria a questão nesses termos", Centeno admite que evitar um novo resgate é a sua "principal tarefa". O que, para quem pretende afastar esse cenário, não parece uma estratégia muito adequada. Afinal, há risco ou não de um novo resgate? De quê? De um resgate. Ah, o resgate. Qual resgate?
Para se juntar à festa, a ARC Ratings – a antiga Companhia Portuguesa de Rating –
manteve ontem Portugal um degrau acima de 'lixo' e reviu a perspetiva para negativa. A agência não tem o peso dos gigantes que marcam o ritmo dos mercados internacionais mas não deixa de ser um sinal. Sexta-feira fala uma das grandes – a Standard & Poor´s – que tem Portugal em 'lixo' com perspetiva estável".
Como é evidente a campanha está em curso para que o golpe a ser dado pela DBRS sob a orientação do BCE, a meados de Outubro apareça como a reacção natural, anódina e lógica dos mercados.
E a verificar-se, os que estão na programação do golpe ficarão na sombra e os comentadores de direita em hipocrisia solene dirão que foram repetidamente avisando, no puro estilo do Conselheiro Acácio.
Maria Luís Albuquerque, Cristas e Passos dirão com voz pesada e semblante carregado: depois de tantos esforços os portugueses não mereciam isto...


(13/Setembro/2016)
 
O original encontra-se em foicebook.blogspot.pt

Por motivo de obras de reabiltação, encerramos hoje e reabrimos ao público no dia 3 de Outubro


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Francisco Assis, Claude Juncker e o (mau) Estado da União


De Francisco Assis já nada espanta! Mas atendamos, quase a arriscar o masoquismo, às apreciações ao discurso de Juncker de ontem sobre “O estado da União”, dadas à estampa no Público de hoje.

Consideração geral, sem comentários, “O presidente da Comissão Europeia sabe do que fala, já que constata todos os dias as dilacerantes divisões que atravessam a União Europeia, a tormenta dos discursos nacionalistas a roçar a xenofobia e a pusilanimidade de grande parte dos governantes nacionais, exageradamente dispostos a capitular diante da verborreia que caracteriza os sectores antiliberais e antidemocráticos da esquerda e da direita.”

Mas ocorre-me que à “xenofobia” se pode contrapor a russofobia, à pusilanimidade a criminosa agressividade e à “verborreia” a diarreia mental. E que quererá Assis dizer com essa dos “obscenos ataques ” a Juncker?

Assis gostou em particular do desejo de Juncker criar uma estrutura militar da UE articulada com a NATO porque…há “uma nova realidade política que circunda o espaço europeu”, porque os EUA já estão a reduzir os gastos no seu “espaço de influência europeu” e a UE precisa de “investir mais na defesa dos seus cidadãos”. Mas a Europa tem que ter um exército” para se confrontar com outros continentes ou países? Com o circundar do espaço europeu refere-se certamente ao cerco militar e nuclear à Rússia, à atracção desenvergonhada de países fronteiros desta para integrarem a UE e a NATO. Não referiu, porém, como é que Portugal e esses países de fronteira comum, ficariam livres da resposta adequada que a Rússia teria em caso de ataque dos EUA pelos interpostos países referidos…Assis é um atlantista aventureiro e mede pouco as responsabilidades de ser eurodeputado de Portugal e não da Europa ou dos Estados Unidos.

É muito rasteiro chamar aos que defendem a paz no espaço europeu “arautos de um pessimismo primário e criminoso” e “as belas almas puras do costume”.

Assis defendeu as negociações para o TTIP para a EU não perder a “capacidade de influenciar” diversos aspectos “susceptíveis de assegurar uma correcta regulação da globalização em curso”. Passando en vol d’oiseau pelas cedências que seriam feitas, que estrutura de controlo e fiscalização e que capacidade restaria à soberania portuguesa, incluindo a judicial, para intervir em zonas de conflitos de interesses.

Sobre o messianismo do presidente da Comissão Europeia lembrou que ele “é um velho militante da democracia-cristã europeia; um típico representante desse centro hoje em dia tão execrado pelos extremismos de toda a espécie”, e expressão da “democracia liberal e a economia social de mercado” que – não disse – de vitória em vitória nos conduziram ao estado em que estamos. Mas então quem é responsável pela crise?

Para terminar, diria eu que, certamente não por acaso, palavras como povo, trabalhadores, Portugal, entre outras, estão ausentes das considerações de Assis. Socialista?

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Em defesa da verdade sobre o 11 de Setembro de 2001

Arquitetos e Engenheiros pela verdade do 11/9 Truth

Em 12 de Agosto de 2005, mais de 12.000 páginas de histórias recolhidas oralmente junto de 503 bombeiros FDNY (Departamento de Fogos de Nova Yorque), paramédicos, e técnicos de emergência médica foram tornadas públicas depois de The New York Times ter processado a cidade de Nova Iorque pela sua disponibilização, em resposta à decisão da administração da Bloomberg de impedir o acesso público a eles.
O FDNY tinha gravado as histórias orais entre Outubro de 2001 e Janeiro de 2002, por instrução do comissário de fogo da cidade, Thomas Von Essen, que queria preservar os registos dos membros do FDNY "antes de serem reformulados numa memória colectiva."
Após a libertação dos registos, os investigadores começaram a examiná-los para identificar quaisquer provas sobre a causa da destruição das Torres Gêmeas .

Em Agosto de 2006, o Dr. Graeme MacQueen, professor aposentado da Universidade McMaster, em Ontário, Canadá,publicou o artigo, "118 Testemunhas: Testemunho dos bombeiros das Explosões nas Torres Gémeas". Nele identificou 118 membros FDNY (de entre os 503 entrevistados), que relatavam testemunhos de explosões, evidentemente baseados em provas sobre a verdadeira causa da destruição das Torres Gêmeas '.
O artigo de MacQueen e os critérios por ele utilizados na análise dos testemunhos pode ser encontrado noJournal of 9/11 Studies, Vol. 2, Agosto de 2006.
Excertos das 118 conversas referidas podem ser lidos aqui.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cessar-fogo na Síria: uma luz de esperança


Hoje às 16 horas, hora portuguesa, iniciou-se um cessar-fogo na Síria.
Apesar das inseguranças que o rodeiam, se se vier a confirmar e consolidar, irá ao encontro de um clamor universal nesse sentido mas, acima de tudo, à grande aspiração a uma vida pacífica, mesmo que ressurgida dos escombros dos povos de um país mártir, que tanto têm sofrido nestes 5 anos. Isso permitirá o regresso à pátria de centenas de milhares de emigrantes, à medida que as condições o forem permitindo e contribuirá para reduzir à vaga emigratória para diversos outros países.
Moscou afirmou que o Centro de Reconciliação russa na Síria criou grupos especiais de monitorização do acordo em todas as províncias sírias para observar a cessação das hostilidades. Os EUA têm um centro semelhante em Amã, capital da Jordânia. A Rússia tem defendido a junção dos dois centros num só local. O responsável pelo Centro russo disse que as tarefas essenciais são a questão do acesso da ajuda humanitária em primeiro lugar às freguesias ocidentais e orientais de Aleppo, desejando melhor cooperação para o efeito com a ONU e outras organizações internacionais.

O general sírio Muhammad Ali disse hoje que “ Os militantes da Frente al-Nusra e da [assim chamada] oposição moderada têm atacado continuamente as forças do governo nas imediações de Muhradah e em Mardes nos últimos 10 dias… Concentraram aqui um grupo poderoso que excede significativamente as unidades de defesa do exército síri. Ali, é o vice-comandante das forças governamentais sírias responsáveis pela defesa de Hama.
Durante as longas negociações foram assinados cinco documentos que permanecem "confidenciais" por causa de seu conteúdo sensível. Foram divulgados os pontos sobre a trégua, a ajuda humanitária e a demarcação de atividade das forças aéreas da Rússia e dos EUA.

Ficou ainda esclarecido que o governo sírio e os grupos de oposição não terroristas estão prontos a cumprir estes acordos, incluindo o regime de cessar-fogo e a garantia de abertura de corredores humanitários para a cidade de Aleppo. 
Contudo, o líder da Frente Popular para a Mudança e Libertação da Síria, Qadri Jamil, disse que para realizar negociações é preciso criar um bloco unido da oposição que não se divida por dentro. "Há muito que se tem falado sobre a criação de uma delegação unida da oposição interna e externa, porque temos o objetivo de realizar negociações diretas, que nunca se realizarão sem unidade. Aspiramos a ter êxito na última ronda de negociações em Genebra".
Damasco referiu que será observado o cessar-fogo durante uma semana, sendo que as 48 horas iniciais vão ser decisivas para fazer chegar ajuda à população civil, especialmente em Aleppo.

O cessar-fogo não abrangerá as duas organizações terroristas que não estão na mesa das negociações devido a esse carácter terrorista: O Estado Islâmico ou Isis e a Frente Al-Nusra que, nos últimos dias tinha, em parte da sua estrutura, passado a usar outro nome.
Será estabelecida a coordenação conjunta EUA/URSS para decidir sobre os ataques aéreos realizados por aviões da coligação liderada pelos EUA e da Força Aérea Russa. A criação deste centro tinha sido anteriormente anunciada pelo ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e pelo homólogo norte-americano John Kerry, em Genebra, na passada sexta-feira.
Por outro lado, o presidente sírio, Bashar Assad disse na televisão estatal que, concordando com o acordo, está determinado a expulsar os terroristas de todos os territórios que tenham conquistado e preservar a integridade territorial do país.
O Ministério da Defesa Russo pediu que um dos principais grupos de oposição, o Exército Livre da Síria, parasse a ação militar contra unidades curdas, perto de Aleppo, para facilitar o cessar-fogo. As forças curdas têm sido consideradas por alguns observadores, como uma das mais eficazes no combate aos terroristas no solo.
O Ministro russo salientou que o facto dos EUA ainda não terem fornecido informações, que permitam a identificação exacta dos lugares operacionais do Jebhat al-Nusra nas áreas de combate, está a dificultar o trabalho conjunto sobre a cessação das hostilidades