sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Frase de fim de semana, por Jorge


"Errare humanum est, sed perseverare diabolicum".
 
"Errar é humano, mas perseverar é diabólico"
 
 provérbio latino
 
 


 
 ... e que tenhas um bom fim de semana!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Crítica a um crítico que me interpela sobre a verdade do referendo na Crimeia em 2014


Um dos meus seguidores do facebook, Romão Amorim Araújo, criticou uma observação minha sobre o referendo na Crimeia de 2014. Se quem me lê estiver interessado, escrevi um comentário sobre essa crítica. O crítico refere:

"Romão Amorim de Araújo "decorrente da anexação da Crimeia à Rússia por vontade inequívoca dos seus habitantes" - Quais as suas fontes relativamente a esta afirmação?".
“Media manipulation significantly contributed to a climate of fear and insecurity in the period preceding the referendum,” he said, and the presence of paramilitary and so-called self-defence groups, as well as soldiers in uniform but without insignia, was not conducive to an environment in which voters could freely exercise their right to hold opinions and the right to freedom of expression. - e a minha fonte são as Nações Unidas, que cita Ivan Šimonović, e que poderá ser consultado no website disponível em http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=47601...


Réplica a crítica no facebook sobre o referendo de 2014 na Ucrânia

1.      O croata Ivan Simonovic, que apresentou este relatório ao Conselho de Segurança da ONU foi colaborador do governo de Franz Tudjman naquele país, e nomeado por este para representante da Croácia nas Nações Unidas. O governo de Tudjman ficou conhecido por posições ultranacionalistas e racistas. Segundo o insuspeito historiador belga Michel Collon, “Tudjman era "um racista que ativamente espalhou o ódio étnico e pregou a fragmentação da Iugoslávia." Seus detratores, como seu sucessor a presidente da Croácia, Stjepan Mesić, acusou-o de não entender a situação na Bósnia e Herzegovina e a situação nacional dos bósnios muçulmanos. Parece que Tudjman contava este grupo como parte integrante do povo croata, considerando-os "croatas da religião islâmica", como aconteceu durante o mandato na Bósnia pelos Ustashis durante a Segunda Guerra Mundial. Estes e outros erros de cálculo de sua parte causaram uma guerra entre os bósnios croatas dirigidos a partir de Zagreb (os croatas da Bósnia e Herzegovina) e os bósnios durante a Guerra da Bósnia. Os bósnios muçulmanos não queriam que nenhuma parte da Bósnia e Herzegovina fosse separada e anexada à Croácia”. Nunca Ivan Simonovic fez referência crítica a tal paternidade política. Depois deste governo entrou para os quadros da ONU onde foi nomeado por Ban-Ki-Moon, em 2010, seu assistente para…os Direitos Humanos.

2.      Quanto ao relatório propriamente dito – que aliás nunca se transformou em resolução - e sem levar em linha de conta as posições dos membros do Conselho de Segurança sobre ele, entendo ser de referir:

2.1.O relator omite o carácter de “golpe” ao derrube do então presidente Ianukovich, legitimando pelas palavras a nova situação criada na Ucrânia;

2.2.Omite ainda a perseguição que se passou a realizar aos ucranianos de etnia russa, quer física quer de perda de direitos, referindo que foram actos isolados empolados por meios de comunicação tendenciosos;

2.3.Não caracteriza o golpe como fascista ou sequer de direita, quando os membros do governo dele saído eram militantes de partidos ultranacionalistas, fascistas assumidos, que ostentavam como heróis figuras sinistras da ocupação nazi, colaboradores de Hitler como Stepan Bandera;

2.4.Atribui um carácter desestabilizador à reacção antifascista das populações da Crimeia, Luhansk, Kharkiv, Donetsk e outras cidades e ignora o conceito de “direito à revolta”, que legitima o que ocorreu na sequência dos acontecimentos da Praça Maidan, em Kiev.

2.5.Inverte os dados à questão do papel das milícias populares nestas regiões nos referendos aí realizados, e que também esmagadoramente optaram pela mesma atitude do povo da Crimeia. Se elas não tivessem actuado em defesa do direito de voto, as milícias fascistas armadas por Kiev para elas enviadas é que o teriam condicionado dramaticamente o ambiente livre para a liberdade do voto.

2.6.Entre a data deste relatório e os dias de hoje, as situações evoluíram num sentido bem diferente do que o relatório dava a entender. A Federação Russa aceitou a integração da Crimeia na Federação, não acedeu a idêntica integração de Donetsk e Luhansk e a diplomacia e a atitude dos habitantes destas regiões têm contido a agressão contra os cidadãos de origem russa ucranianos. Também a política internacional aventureira de Poroshenko e o desvaire neo-liberal a que conduziu a economia, tornaram a Ucrânia numa sociedade muito desigual, com um reduzido número de muito ricos e condições de vida muito débeis para o resto da população, à generalização da grande corrupção e do domínio da sociedade por máfias organizadas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A desigualdade nos EUA e a macroeconomia convencional, por David F. Rucio


Falando sobre as desigualdades e a macroeconomia convencional, o autor, professor de Economia na Universidade Notre Dame, nos EUA, refere que ao longo dos anos os economistas das corrente convencionais, especialmente os macroeconomistas convencionais, ignoraram em grande parte a questão das desigualdades. E quando falam da sua existência,  tendem a interpretar mal ambas as suas causas (muitas vezes atribuindo-as a eventos externos, como a globalização e a mudanças tecnológicas) e as suas consequências (muitas vezes não conseguem ligá-las entre si, a não ser através da "captura política", em acontecimentos como o crash de 2007-08).
Os principais economistas ignoram ou esquecem o papel da desigualdade  especialmente em acontecimentos macroeconómicos, por duas razões principais. Em primeiro lugar, os seus modelos teóricos e empíricos - seja com base num agente representativo ou em  relações macroeconómicas indiferenciadas (tais como o consumo e investimento - , podem ser solucionados sem nunca introduzir o conceito ou medir a desigualdade. Os modelos que utilizam criam um ponto cego teórico. Mas, em segundo lugar, mesmo quando é claro que eles poderiam incluir a desigualdade como um fator significativo, eles não o fazem. Optam literalmente por não ver a desigualdade como uma questão relevante com sentido nas flutuações macroeconómicas. Então,  quando se trata de desigualdade, a economia convencional (especialmente, como digo, a macroeconomia convencional) fica ensombrada por um  problema teórico e ético.
 
É por isso que uma investigação recente de Kurt Mitman, Dirk Krueger, e Fabrizio Perri é tão interessante. O que eles mostram, utilizando um modelo macroeconómico padrão com a heterogeneidade das famílias para explicar uma riqueza desigual e distribuição do consumo, é que a desigualdade de facto importa. Em particular, demonstram que a queda global nos gastos depende da distribuição de riqueza (por exemplo, é muito maior  numa economia com muitos consumidores de baixa riqueza) e que os efeitos de um determinado choque macroeconómico são sentidos de forma muito diferente em diferentes segmentos da distribuição de riqueza (por exemplo, as famílias de baixa riqueza têm pouca capacidade de precaver-se contra o risco, e, assim, o impacto no bem-estar de uma recessão é significativamente maior para eles). Como consequência, tornam claro que ignorar as desigualdades significa não compreender a gravidade de uma crise macroeconómica e subestima os custos de bem-estar de uma recessão profunda.
 
Isso não é todo o trabalho que precisa ser feito, é claro. Os três investigadores baseiam-se em choques macroeconómicos exógenos em vez de analisar como a própria desigualdade desempenha um papel na criação de condições para uma recessão económica. Mas mesmo na sua tentativa limitada para incluir a desigualdade como um fator significativo num outro modelo macroeconómico convencional demonstra que esse trabalho pode, de facto, ser feito.
Por outras palavras, não é que os economistas convencionais não possam fazer sentir a desigualdade nos seus modelos. Eles simplesmente, na maior parte dos casos, decidem não o fazer.
7 de Setembro de 2016
 
Voltando ao artigo supracitado dos três investigadores, Kurt Mitman, Dirk Krueger, Fabrizio Perri, publicado em 30 de agosto de 2016, os autores começam por dizer que anteriores investigações revelaram que a desigualdade de rendimento e de riqueza tiveram pouco impacto nas dinâmicas agregadas de consumo, do investimento e produção. Isso reforçou a ideia de que se podem estudar as recessões na economia usando agentes representativos. Defendem que a desigualdade das famílias afecta tanto a profundidade de uma recessão como as perdas de bem-estar das pessoas afectadas por ela. Portanto, sustentam que se deve explicitamente medir e modelar a heterogeneidade familiar quando se considera o impacto das flutuações do ciclo de negócios e as consequências no bem-estar das crises económicas.
 
Estes investigadores puderam concluir que medir e modelar a heterogeneidade das famílias de forma explícita é de importância crucial na investigação macroeconómica por duas razões.

• A primeira é que as dinâmicas macroeconómicas são afectadas pelo grau de heterogeneidade subjacente. Em particular, uma economia com uma grande fracção das famílias de baixo rendimento sofre uma redução mais acentuada das despesas de consumo agregadas ao responder a um determinado choque macroeconómico.
• A segunda razão é que, em termos de bem-estar, o impacto de um dado choque macroeconómico é sentido de forma muito diferente em diferentes segmentos da distribuição da riqueza. Em particular, as famílias de baixa rendimento têm capacidade limitada para se precaver contra o risco idiossincrático, e, assim, o impacto do bem-estar de uma recessão é significativamente maior para eles. Como consequência, ignorar a heterogeneidade e rendimentos pode subestimar gravemente o custo de bem-estar de uma grande recessão.
 
 Distribuição da riqueza, renda e consumo por quintil de riqueza
 
A tabela mostra alguns factos importantes sobre o rendimento nos Estados Unidos, a riqueza e a distribuição do consumo em 2006, pouco antes da grande recessão. É retirada do estudo do Painel de Estudo da Dinâmica do Rendimento (PSID), um inquérito domiciliar, que está em funcionamento desde 1968. Reúne informações sobre os salários domésticos, os resultados do mercado de trabalho, riqueza e medidas abrangentes de despesas de consumo das famílias. Para construir a tabela, os autores ordenaram famílias por riqueza, medida como valor líquido (o valor de todas as casas e respectivos ativos, financeiros e reais, incluindo o valor da casa do agregado familiar, subtraindo todas as responsabilidades domésticas, como a dívida de hipotecas). Incluíram a parcela do património líquido em toda a economia de propriedade de famílias em cada um dos cinco quintis da distribuição da riqueza . As terceira e quarta colunas resumem a participação do rendimento disponível e do consumo das famílias, em diferentes pontos da distribuição de riqueza. A última coluna calcula a taxa de despesas por quintil de riqueza, medida como o rácio da despesa total de consumo em relação ao total do rendimento disponível para cada quintil.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

As Filipinas em rota de colisão com os EUA

O presidente das Filipinas Rodrigo Duterte decretou ontem o estado de emergência no país, a pretexto da crescente onda de "violência ilícita". O regime entra em vigor a partir de hoje e será mantido até que seja revogado pelo presidente. Como comandante-em-chefe Duterte pode accionar o Exército, que deverá, nesse caso, agir em conformidade com a lei do país.
 
Na passada 6ª f, dia 2, uma explosão num mercado da cidade de Davao, situada na região sul das Filipinas, onde nasceu o presidente que, na altura estava na cidade, provocou pelo menos 14 mortos e 60 feridos, informou no próprio dia um porta-voz do presidencial. A explosão foi reivindicada pelo movimento islamista Anbu Sayyaf.
 
Segundo o Público, "fontes da Casa Branca tinham dito aos jornalistas que Obama se preparava para, na reunião da ASEAN, ( depois da do G20), confrontar Duterte com as suas políticas de combate à droga, que já passou até por encorajar cidadãos a matarem toxicodependentes e traficantes. Em resultado deste apelo, pelo menos 2400 pessoas foram mortas, 900 das quais em operações policiais e muitas outras às mãos de grupos de vigilantes. Duterte não gostou de saber desta intenção e contra-atacou. "Quem é que ele pensa que é? Eu não sou um fantoche americano. Sou o Presidente de um país soberano e não respondo a ninguém a não ser ao povo filipino", disse o Presidente das Filipinas, referindo-se a Obama como um “filho da puta”, do que se retratou mais tarde, quando, como aconteceu, Obama duvidava, depois do insulto, ter a reunião prevista com Duterte.
 
Esta atitude por parte de Obama não resulta de uma suposta defesa dos direitos humanos, objectivo justo na relação com as Filipinas, mas do facto de Duterte ter rompido com a anterior política dos Aquinos de fazerem das Filipinas a base de confrontação com a China a propósito de reivindicações de alguns países relativamente à soberania nos Mares do Sul da China. E que animaram a política de colocação de mísseis americanos contra a China, tal com o fizeram em países do leste europeu contra a Rússia, aqui a "pretexto" da suposta expansão russa, decorrente da anexação da Crimeia à Rússia por vontade inequívoca dos seus habitantes. A diplomacia chinesa tem, entretanto, estabelecido contactos com os países da região para a consideração das divergências, o que tem dado resultados positivos.
 
No fim do século XIX, ocorreu a Revolução Filipina, e a criação da primeira república do país. Contudo, a Espanha não reconheceu a independência filipina e cedeu o território aos Estados Unidos. A Guerra Filipino-Americana eclodiu pouco tempo depois, seguida por um breve período de ocupação japonesa, durante a Segunda Guerra Mundial. A soberania das Filipinas só foi reconhecida em 4 de julho de 1946, pelos Estados Unidos, sendo desde então um dos mais fortes aliados dos EUA no Sudeste Asiático.
A elevada população do país (103 milhões de habitantes em 2014, mais 9% em cinco anos) e o potencial económico  levaram a que fosse classificada como uma das potências regionais do Sudeste Asiático. Entretanto, o país ainda enfrenta notáveis problemas sociais, além do baixo PIB per capita (cerca de 2900 dólares) e a elevada dívida pública.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Turquia, a Síria e os curdos


O eventual envolvimento dos EUA no golpe falhado na Turquia de 15 de Julho e as subsequentes conversações deste país com a Federação Russa, que incluíram uma nova atitude de Ancara em relação ao Presidente Bashar Al-Assad, criaram expectativas positivas que a posterior intervenção turca na Síria não parecem confirmar.
Importa ter em conta a agilidade da diplomacia russa para a paz na Síria mas também que os EUA são velhas raposas, capazes de fazer alguns pinotes e os vínculos anteriores EUA/Turquia/NATO só dificilmente credibilizariam perspectivas iniciais positivas. E sobre Erdogan, há tanto tempo entre o atlantismo, o anti-secularismo e o terrorismo, a falta de credibilidade parece não ter a quem pedir meças…
Há mesmo comentadores que vão ao ponto de considerar as purgas nas forças armadas e na sociedade turcas como um engenhoso plano que a CIA colaborou com Erdogan para afastar destes organismos todos os que se opunham a uma intervenção na Síria ou como a «mise-en-scène» de um falso golpe de Estado. Também há os comentadores que consideram que a Turquia está a fazer jogo duplo com a Rússia e os EUA para atingir os seus objectivos na Síria de criar um cinto de segurança interno no território sírio ao longo da fronteira sul com a Turquia.
Existem especialistas que perguntam o que é que Ancara fará depois lá. Enquanto suas operações foram realizadas «sob o pretexto de lutar contra Daesh», existiu a especulação de que isso pouco teria a ver com o motivo real. A Turquia quer proteger-se da sua própria população curda e de ser obrigada a tratar os curdos com dignidade básica.
Henry Kamens, especialista em Ásia Central e do Cáucaso, escreveu no passado 28 de Agosto num artigo para o site do New Eastern Outlook, «a melhor maneira de conseguir isso é ajudar a criar um novo Estado curdo, como os EUA há muito tempo desejam, em termos tão favoráveis para a Turquia e os EUA, quanto possível». A estratégia norte-americana, segundo o autor, é «deixar os turcos ocuparem território na Síria, que de outra forma teriam caído nas mãos das Forças Curdas de Defesa Popular (YPG), apoiadas pelos EUA, que têm sido a ponta de lança para garantir ao Daesh o controlo das zonas fronteiriças. Isso também significa que um Estado curdo «legal» pode ser estabelecido no território ocupado por poderes «legais», ao invés de um Estado pária criado por terroristas, acrescenta.
A ofensiva militar, que o autor chama de «incursão turca ilegal num país soberano, apoiado por os EUA», é projectada para matar dois coelhos com uma cajadada, «como recompensa por ajudar a criar o novo Estado curdo patrocinado pelos EUA a Turquia fica com rédea livre para ir atrás dos curdos que controlam a área no momento», diz Kamens.
Do ponto de vista turco, os curdos estão a tentar roubar território turco. Do ponto de vista dos EUA, eles estão a ter sucesso com o regresso do Daesh e a criação de um Estado curdo contíguo, e não o Estado curdo imaginado pelos EUA.
O autor sugere que agora os EUA estão a usar os curdos como um meio de fazer regressar a Turquia ao redil. Explica que Ancara está preocupada com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), com sede no seu território, que se estaria a tornar numa força política real, com o apoio da Síria e do Iraque. O autor sugere que, «ajudando os EUA a criar um Estado curdo controlado por curdos, poderia garantir que nenhuma parte da Turquia se tornasse desse estado (coisa que já esteve prevista em anteriores projectos de Curdistão desenhados pelos EUA).
O movimento serve para reparar as relações com os EUA, ajudando a cumprir o seu plano e, ao mesmo tempo, não comprometeria a sua nova amizade com a Rússia, uma vez que está apenas lutando contra os terroristas, e não contra o governo sírio, que a Rússia apoia.
Essa solução garantiria o controle do comércio de petróleo regional e um pretexto para reduzir ainda mais os direitos dos curdos da Turquia. O autor também assinala o «timing suspeito» da ofensiva. «Ele está relacionado com as eleições nos Estados Unidos e dá um impulso para os EUA, o governo Obama e sucessor preferido de Obama, Hillary Clinton. Mas também dá aos militares turcos a luz verde para fazer o que eles têm esperado ansiosamente», afirma.
Uma visão semelhante é partilhada pela revista Newsweek, que também chama a atenção para a recente visita do vice-presidente Biden para Ancara, onde se encontrou com Recep Tayyip Erdogan em 23 de Agosto. «Talvez a maré esteja agora a subir em Washington, na sequência da reunião Erdogan-Putin (9 de Agosto)».
«A Casa Branca ajudou a preparar a visita de Biden com sua resposta ao atentado terrorista de 20 de Agosto num casamento em Gaziantep, que observou estarem os EUA com o povo turco e com eles defender a sua democracia em face de todas as formas de terrorismo». Para Kamens os EUA têm agora de «aproveitar este momento» e «encontrar uma maneira de superar o impasse quanto à extradição do Sr. Gulen», caso contrário Ancara vai «cair nos braços de Putin (...)».
Para esta intervenção na Síria, o presidente turco conseguiu obter o apoio de Washington e «terá torneado quaisquer obstáculos que a Rússia ou o seu aliado sírio» poderiam criar a tal intervenção sem precedentes.
Aviões de guerra norte-americanos deram cobertura aérea a militantes sírios dirigidos por Ancara para tomarem ao Daesh a cidade fronteiriça de Jarablus. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em Ancara, no primeiro dia do assalto prometeu apoio total de Washington à Operação «Escudo do Eufrates».
Erdogan disse que a operação teve como objectivos a «limpeza» da zona fronteiriça de terroristas do Daesh, bem como empurrar combatentes curdos anti-Daesh para o leste através do Eufrates para o seu reduto no nordeste da Síria. A milícia curda, composta principalmente por Unidades de Protecção Popular (YPG), também conhecida como Forças Democráticas da Síria (SDF), tem até agora sido apoiada por Washington. O patrocínio americano pareceu ficar em dúvida esta semana, com Biden a emitir um aviso severo de que ele acabaria se os curdos não recuassem para leste.
Contrariando o eventual apoio russo a esta operação, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que estava «muito preocupado» com a escalada militar da Turquia. As autoridades sírias foram mais longe e condenaram a implantação turca ao longo da fronteira uma «flagrante violação da soberania síria».
A Rússia e a Síria têm todo o direito em estar alarmadas. Apesar da retórica de Erdogan, alegando que a reconquista de Jarablus era «para derrotar terroristas» e «para proteger a integridade territorial da Síria», o facto inevitável é que as forças turcas, com o apoio dos EUA, já instalaram militantes sírios próximos de ambos no controle de uma cidade síria e território envolvente. A Turquia diz que quer estabelecer uma «zona segura» ao longo do lado sírio da fronteira que se estende por 100 quilómetros de extensão e 30 de profundidade. Não está claro se o exército turco vai ficar em território sírio para impor esta zona. Podem retirar-se e deixá-la entregue a militantes sírios apoiados por Ancara, incluindo os combatentes do chamado Exército Sírio Livre e combatentes turcomenos. Estes militantes estão supostamente em oposição aos jihadistas do Daesh, mas o seu principal objectivo é travar uma guerra contra o governo sírio do presidente Bashar Assad e os seus aliados estrangeiros - Rússia, Irão e Hezbollah.
Erdogan terá que clarificar para que lado cai em definitivo: ou para os EUA para acabar com o regime sírio e transformar a Síria num novo Iraque, Afeganistão ou Líbia, ou juntar-se aos que querem contribuir para a paz na região e para o desenvolvimento, ombreando com a Síria, Irão, a Rússia e a China.

Este artigo foi originalmente publicado nesta mesma data no site AbrilAbril.
http://www.abrilabril.pt/turquia-siria-e-os-curdos
 

sábado, 3 de setembro de 2016

Sobre a Venezuela (2) No combate à carência de abastecimento, ao mercado negro e à inflação provocados pelos monopolistas, mais de 127 mil toneladas de alimentos e outros artigos de consumo foram apreendidos em 51 dias pelas autoridades venezuelanas

A acção de fiscalização referida em 2

1.       Segundo a Professora da Universidade Simon Bolivar, Pascualina Curcio, a falta cada vez mais acentuada de certos produtos alimentares, de higiene pessoal  e para a casa. isso acontece desde 2013 por razões políticas “Os dois principais problemas da economia crioula, a falta de abastecimento e a inflação, são provocados. A intencionalidade política sobretudo nas irregularidades de oferta de produtos de consumo massivo por parte das empresas monopolistas particularmente em períodos pré-eleitorais”. E caracterizou alguns dos produtos em falta: são de consumo generalizado, de origem agro-industrial monopolista e não perecíveis.

Para Pascualina Curcio, o tipo de mercado paralelo incide directamente na fixação de preços, particularmente nos artigos associados às nossas vidas como alimentos e medicamentos, apesar de que nem os números de produção nem de importação de tais artigos terem diminuído como mostram as estatísticas. Conclui que a inflação caminha de mãos dadas com o mercado paralelo e os preços são manipulados sem relação com qualquer indicador económico. Fez cálculos e o dólar deveria estar em 400 bolívares, que é o valor da moeda. Segundo a académica, este preço estaria abaixo do dólar Dicom (tipo de câmbio utilizado em todas as transacções não essenciais) porque este instrumento corresponde apenas a 8% do mercado total de divisas, sendo os restantes 92% entregues a 10 bolívares.

Denunciou ainda que os empresários monopolistas crioulos e as suas empresas-mãe têm a capacidade de cartelizar preços, embora eles recebam as divisas e vendem os seus artigos com base em câmbios ilegais. "Se importam um artigo que lhes custou 10 dólares que, à taxa de 10 bolívares por dólar, são 100 bolívares, no entanto, vendem-no a 10.000, porque eles se multiplicam com o dólar negro" (do mercado negro).Por isso são várias as regiões a acabar com as importações controladas pelo mercado negro.

 

2.      Entre 12 de Julho e 1 de Setembro deste ano  foram apreendidas 127.534 toneladas de alimentos para consumo humano e produtos domésticos, desviados para o mercado negro e especulação numa grande acção realizada em todo o país e para promover a distribuição eficiente de produtos que têm sido sonegados criminosamente às lojas, mercearias, e mercados agrícolas, por parte de grandes produtores e distribuidores que actuam, através de intermediários, no sentido de provocarem descontentamento contra o governo que a imprensa nacional e internacional, acaba por atribuir à política económica que este realizaria.

O relatório das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, de 1 de Setembro, indica que, durante o trabalho de abordagem a 2.467 estabelecimentos (armazéns, mercados e depósitos) se confiscaram também 107.879 litros de alimentos para consumo humano, 4.344 toneladas de alimentos para consumo animal, 992 toneladas de outros produtos para o lar, 20.459 produtos de higiene pessoal e 16.765 unidades de produtos farmacêuticos.
Pelo menos um oficial general na reforma, ligado à oposição, considerou que a atribuição de tais tarefas às Forças Armadas são "pouco dignas".

Um dos responsáveis pelo organismo que interveio informou que os produtos apreendidos nas operações realizadas serão distribuídos através dos Comités Locais de Fornecimento e Produção (CLAP) para garantir que chegam directamente às famílias.

Em dois meses e meio foram abordadas 793 empresas para monitorizar os seus processos de produção (660 privadas me 133 do setor público).

Nestas visitas de 7.572 funcionários, verificou-se que as indústrias privadas têm uma capacidade instalada real para produzir 3.602.494 toneladas de capacidade, enquanto nas públicas ela é de 1.782.352 toneladas.

A auditoria do Estado tem como objetivo conhecer quais são os problemas que algumas empresas e, assim, criar as respostas oportunas para activar todo o aparelho produtivo do país, sanear a distribuição e normalizar a produção de alimentos, remédios e artigos de higiene pessoal.

De acordo com o relatório, também foram fiscalizados 6 portos e entregues ao Ministério Público 102 pessoas por incorrerem em crimes de especulação, açambarcamento e desvio dos artigos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Sobre a Venezuela (1) - A oposição falhou nova tentativa de golpe de Estado


Ontem na Praça Bolívar
A oposição convocou para ontem em Caraças uma manifestação, de que não deu conhecimento prévio às autoridades, ao contrário do que acontece na generalidade dos países. Chamou-lhe “ A grande conquista de Caracas”.

Convocada pela Mesa da Unidade Democrática (MUD), tinha como pretexto pressionar o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a dar andamento ao referendo revogatório.

Manchete de um jornal da oposição de ontem
O presidente da Venezuela, Nicólas Maduro, denunciou a concentração:

"Está em marcha um plano de golpe de Estado fascista, dirigido a partir dos EUA para trazer a violência à Venezuela. Não o permitiremos, o povo na rua não o irá permitir”

A oposição venezuelana retomou as acções violentas de 2014 para derrubar o Governo e impor ao país um modelo neoliberal, assinalou a ministra Delcy Rodríguez numa entrevista exclusiva para a TeleSUR.

Quando convocaram a “Conquista de Caracas", começou uma campanha de guerra que anunciava acabar com o Governo. Um jornal chegou mesmo a fazer manchete "A batalha final será em Miraflores" (palácio presidencial).
Depois das 14 h (hora local) quando acabou formalmente a marcha convocada pela Mesa, mas grupos saídos dela entregaram-se à destruição de equipamentos urbanos e à colocação na autoestrada da capital Francisco Fajardo de artefactos que estiveram quase a causar a morte de automobilistas.

Apesar da intenção e das atitudes bélicas, e até porque se estava a realizar na Praça Bolívar a concentração de apoiantes do governo, que contou com uma expressiva presença de motards, a paz não foi

O receio de ser renovada a tentativa golpista de 2014, existia em muitos venezuelanos pois nessa altura houve 43 mortos e mais de oitocentos feridos. E não deixa de ser significativo que a oposição que está em maioria no órgão legislativo tenha entre mãos a tentativa de absolver os responsáveis dos delitos de então.

Há 2 anos as acções consistiram em encerramentos arbitrários de ruas com acções violentas (as então designadas “garimbas”) para exigir a demissão de Maduro, ao arrepio da vontade popular expresso nas eleições de 14 de Abril de 2013 que elege Nicolás Maduro, dando continuidade à Revolução Bolivariana, iniciada com o presidente Comandante Hugo Chávez.

Oportunamente o presidente da República tinha tornado público o desarmamento de grupos paramilitares que provocariam um massacre. Estes acampamentos estavam instalados numa zona montanhosa da freguesia de Sucre. O ministro Néstor Reverol  apresentou à imprensa um vídeo onde se mostram armamentos e explosivos localizados num acampamento a cerca de 500 metros do palácio presidencial.

Frase de fim de semana, por Jorge


 
Boa Festa!

"Theorie wird zur materiellen Gewalt, sobald sie die Massen ergreift"
" A teoria torna-se força material quando assimilada pelas massas,"

K.Marx (filósofo e revolucionário alemão, 1818-883), na Introdução da Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1844)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O Iémen a ferro e fogo da Arábia Saudita

As dezenas de mortos no atentado à bomba de domingo passado junto de uma unidade de recrutamento de militares do Iémen, que a comunicação social tem atribuído ao Daesh, integra-se na continuada agressão através de bombardeamentos da Arábia Saudita e da “Força de Intervenção Rápida” do Conselho de Cooperação do Golfo.

Este Conselho é composto por um conjunto de países árabes ricos. De entre eles, os Emiratos Árabes Unidos (EAU) são uma confederação de 7 monarquias retrógradas como o Dubai e o Abu Dhabi. Foi formado com o aconselhamento discreto dos EUA e de Israel.

Segundo o Expresso, de dia 27, “O atentado acontece dias depois de o Governo iemenita e os rebeldes terem reagido positivamente a uma nova iniciativa de paz anunciada na semana passada pelos Estados Unidos e sob a qual os houthis aceitam abandonar a capital, Sanaa, e dar início a conversações para formar um Governo de unidade.

Os rebeldes dizem estar preparados para retomar as negociações suspensas no início de Agosto no Kuwait apenas se a coligação liderada pelos sauditas parar de atacar os seus bastiões no Iémen e acabar com o cerco aos territórios sob o seu controlo.

Algo salta à vista sobre a forma como esta guerra foi vendida aos membros do CCG, em que só o Omã se recusou a participar. Para a população dos Emiratos Árabes Unidos, foi a promessa da “Cidade Luz” (Al-Noor, Djibuti e Iémen) que poderia incentivar o comércio no Oceano Índico e abrir este ao leste da Ásia, apesar de se manter sob a administração do Dubai. Para os sauditas as promessas ainda foram mais aliciantes com o controlo uniforme da “quarta parte vazia” (Rub’al-Khali), lendárias jazidas de petróleo e gás que os EUA tinham mantido inexploradas no subsolo…enquanto se mantivesse o governo iemenita!

Esta guerra é a prática habitual de construção e destruição de sociedades e governos por bombardeamentos de precisão contra uma população que depende da importação de alimentos. Uma vitória tão contundente na Península Arábica punha-a sob o controlo da Arábia Saudita que, rápida e publicamente, celebraria uma paz com Israel.

Responsáveis sauditas já referiram em Junho do ano passado, na presença de responsáveis norte-americanos e israelitas, que esta jazida Rub’Al-Khali obrigaria os países do CCG e o Iémen a cooperarem para protegerem o seu rendimento e que a esta união se devia seguir um modelo de Constituição como a que uniu a América e lhe conferiu a sua democracia… Segundo esses mesmos responsáveis sauditas, quanto à promissora jazida de petróleo de Ogaden, na Etiópia, ela permitiria unificar países sob a sua direcção. E ainda propuseram que se deveria construir uma ponte entre o continente africano e a Península Arábica, a ponte Al-Noor que ligaria a cidade de Al-Noor, no Djibuti, à cidade Al-Noor, no Iémen.

Exposto a uma guerra em que os interesses do Irão e Arábia Saudita estão presentes, atormentado pela Al-Qaeda, e dividido por disputas tribais e um movimento de secessão, apesar de tudo, o Iémen tem sobrevivido.

Antes no início do século XX, o Iémen foi dividido entre os Impérios Britânico e Otomano. O Reino Zaydi Mutawakkilite do Iémen foi criado depois da 1ª Guerra no Iémen do Norte. Passou a República Árabe do Iémen em 1962, ficando o sul como protectorado britânico até 1967. Os dois estados iemenitas acabaram por se unir e criar a República do Iémen em 1990.

O Iémen é um país em vias de desenvolvimento e o país mais pobre do Médio Oriente. Até há pouco tempo era uma ditadura dirigida pelo Presidente Ali Abdullah Saleh e um dos países com mais elevados índices de corrupção em todo o mundo. Na ausência de instituições do Estado fortes tinha uma forma de governação informal com representações tribais rivais, religiosas e interesses políticos, dirigida pelo Presidente, que controlava o Estado, pelo major general Ali Mohsen al-Ahmar, que controlava a maior parte do exército e pelo xeique Abdullah al-Ahmar, que dirigia o partido islamita Islah. A Arábia Saudita garantia o pagamento a estes quadros políticos e aos xeiques tribais, controlando desta forma as decisões políticas dos dirigentes.

Para entender o derrube em 2012 do governo pelo movimento rebelde xiita Houthi, importa lembrar as origens do movimento Houthi em 1991, quando foi criado para proteger o ziadismo, uma forma de xiismo, face à invasão de islamitas sunitas.

Depois do 11 de Setembro, os EUA atribuíram à luta do movimento uma dimensão geopolítica, porque os seus combatentes se opuseram à decisão do Iémen em colaborar com os Estados Unidos e em reforçar a cooperação entre serviços secretos.

De 2004 a 2010, o grupo conduziu seis guerras contra o governo iemenita e teve mesmo escaramuças com a Arábia Saudita. No entanto, nunca conseguiu expandir o seu alcance para além da sua fortaleza no norte do país. Isso mudou em 2011, quando os protestos populares e o caos político resultante da Primavera Árabe levaram à paralisia institucional generalizada, levando a que os Houthis regressassem a uma postura militar que tinham abandonado. Os protestos na rua eram contra a pobreza, o desemprego, a corrupção e contra o plano do Presidente Saleh emendar a Constituição da República para se poder eternizar no poder. Os seus poderes foram transferidos para o vice-Presidente Abd Rabbu Mansour Hadi, que seria formalmente eleito presidente em Fevereiro de 2012, não se tendo apresentado mais nenhum candidato, o que não garantiu consistência à transição. Este processo foi interrompido por conflitos provocados pelo partido Islah contra os Houthis e pelo aparecimento da Al-Qaeda. Em Setembro de 2014 a capital Sana caiu nas mãos dos Houthis que assumiram o governo. Desde então a guerra foi introduzida no país pela Arábia Saudita e Aliados do Golfo.

Os bombardeamentos ao Iémen pelo CCG têm contado, em geral, com o silêncio da imprensa ocidental. Apesar da desproporção de forças, o Iémen ousou no início deste ano resistir à invasão, matando em Marib militares da coligação liderada pelos sauditas. Seguiu-se um massacre por bombardeamentos sauditas, que testam aqui equipamentos militares para novas guerras (o Iémen já tinha servido de laboratório para os drones americanos).

Os EUA e a Grã-Bretanha têm sido os principais fornecedores de armas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, países, que não dispõem de indústria militar mas que pretendem ser potências regionais, sendo, sem dúvida, os principais envolvidos na agressão ao Iémen, mas também no recrutamento, detenção e violência sexual contra menores, responsáveis pela morte de crianças, bem como por ataques a hospitais e ataques e ameaças contra pessoal protegido, como reconheceu a ONU.

 Um cessar-fogo acordado entre as forças houthis e as do governo apoiado pela Arábia Saudita – que desde 19 de Março do ano passado desencadeia uma agressão no território – entrou em vigor domingo, dia 10 de Abril mas não durou muito tempo.

Agora, sob a designação “Daesh” os agressores do costume mataram no atentado mais de 60 pessoas.

(publicado originalmente e nesta mesma data em www.abrilabril.PT)

sábado, 27 de agosto de 2016

Bolívia: um crime que enluta a Bolívia e os mineiros




O governo de Evo Morales acusou o duro golpe que consistiu no rapto, tortura, arrastamento do corpo por cerca de um quilómetro, e assassinato do vice-ministro do Governo, Rodolfo Illanes às mãos de mineiros, que se designam por cooperativistas. Estes desempenham uma actividade privada, e  aliam-se a empresários, que se dizem representativos do sector, com reivindicações quase exclusivamente de concessão da exploração e privatização das minas que controlam, que são propriedade nacional, atitudes estas que o governo boliviano não aceita por não aceitar a privatização da indústria mineira. Os protestos destes mineiros cooperativistas visavam a alteração do quadro legal que regula a actividade  mineira para eles poderem vender minas às multinacionais. O ministro, indígena como outros membros do governo de esquerda,  dirigia-se para um encontro com dirigentes dos cooperativistas para com eles falar sobre os incidentes do dia anterior.
 
Morales denunciou estes acontecimentos como parte de uma conspiração mais vasta.

O organismo equivalente à nossa Procuradoria-Geral da República anunciou a prisão de Ramiro Guerrero,  presidente da Federação de Cooperativas Mineiras (Fencomin), e assinalou que 40 filiados nesta Federação  estão implicados no crime.
Por seu lado o secretario executivo da Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia, Orlando Gutiérrez, repudiou o acto "criminoso" realizado por cooperativistas mineiros e lamentou também a morte de dois deles por tiros no decurso de manifestações contra o governo em Cochabamba. O responsável da Igreja Católica local condenou os excessos dos cooperativistas.
 
Dirigentes da oposição de direita e alguma comunicação social apoiaram as exigências de privatização destes mineiros e o governo responsabilizou alguns órgãos de comunicação de ecoarem essas posições. Evo Morales disse ainda que a investigação a fazer a estes acontecimentos deveriam incluir também as mortes suspeitas de mineiros cooperativistas que se manifestavam, na medida em que os polícias estavam nos locais dos bloqueios sem armas letais.