segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O TTIP está morto?

Cresce na Europa a oposição ao TTIP

Quem se limite a seguir as parcas notícias sobre as rondas de negociações poderá pensar que sim.

Quem se limite a seguir a campanha eleitoral norte-americana é capaz de pensar que também o TPP, seu homólogo para o Pacífico estará morto, e que o TTIP também. De facto, Donald Trump manifesta-lhe uma visceral oposição e Hillary Clinton que, enquanto Secretária de Estado de Obama, foi uma sua fervorosa defensora, agora, face ao amplo repúdio nacional e internacional pelo Tratado, referindo-se ao TPP, já o critica, dando mesmo a entender que não irá em frente (1).

Em si mesmo o ponto em que estamos é já uma grande vitória da opinião pública à escala universal que, face ao secretismo de anos de negociações e às revelações do Greenpeace, criaram um estado geral de alerta e suscitaram um formidável movimento de procura de informação e fundamentação para essa rejeição. Mais de 3 milhões de pessoas, de diferentes países da UE, subscreveram já uma petição contra o acordo de comércio livre que reclama a suspensão das negociações e a sua discussão no Parlamento Europeu (2).

O mundo confia cada vez menos na política internacional conduzida pelos EUA. Particularmente as consequências que as suas intervenções no norte de África e Médio Oriente atingiram, estão na origem dessa atitude. Quando os EUA procuram alargar os seus mercados à Europa, esmagando-a, Europa onde ao mesmo tempo projecta instalar bases de mísseis nucleares contra a Rússia, a loucura de Hiroshima e Nagasaki regressa ao campo das possibilidades. Igual sentimento percorre os países do Pacífico. E o mundo treme. Com o medo que eles querem que se espalhe.

Não creio porém que o TTIP e o TTP, para os que os consideram mortos, estejam enterrados. E, sim, por vezes, até acredito em bruxas.

Cingindo-me ao TTIP, ele tem sido embrulhado como um rebuçado para disfarçar a cápsula do cianeto que vai dentro. É pena, mas é a realidade, que jornais há anos tão considerados como o El País tenham perdido a lucidez e se tenham tornado em propagandistas de algo tão grave para os países e povos europeus, pelo que se sabe das suas consequências, sem conhecer vantagens substantivas. Duas passagens do que escreveu:

A tres meses de las elecciones estadounidenses, Washington y Bruselas se disponen a dar el último empujón para encauzarlo antes de que acabe el mandato del presidente Barack Obama. El auge proteccionista y nacionalista que se respira en Occidente augura que no será sencillo.

Todos los dirigentes defienden tácitamente el marco comercial como una fuente de crecimiento y empleo para los dos grandes bloques económicos mundiales. Pero en tiempos en los que las fuerzas proteccionistas están en fuerte auge pocos salen a respaldarlo públicamente y esa actitud empaña las discusiones (3).

Considerando que a União Europeia deve renunciar ao TTIP, as forças progressistas na Europa e muitas ONGs preveniram contra a subordinação dos direitos democráticos e da soberania dos estados aos interesses das multinacionais.

Em concreto alertaram para os perigos da remoção indiscriminada de “obstáculos” ao comércio, pondo em causa direitos sociais e diversas regulamentações, e para a possibilidade de as corporações multinacionais processarem os estados à margem dos tribunais nacionais. O El País chama a isto protecionismo e nacionalismo. Eu chamo-lhe a realidade que defrontamos e o desejo de não desaparecer na voragem das multinacionais e dos EUA.

Esta contestação tem sido desvalorizada pela Comissão Europeia que insiste nos benefícios miríficos da criação de um mercado único com 800 milhões de pessoas, supostamente capaz de criar milhões de empregos.

Mas quais as razões que levam os seus entusiastas em aprovar à pressa o TTIP? Em declarações na feira de Hannover Messe, em Abril passado, Michael Froman, o homem forte de Obama para o comércio e investimento, declarou que não existe qualquer plano B em alternativa ao TTIP que está a ser negociado desde 2013 e que a administração norte-americana gostaria de ver concluído até dezembro. "Ou trabalhamos juntos para estabelecer as regras do mundo ou deixamos esse papel para outros", declarou o responsável norte-americano.

Esse é um dos grandes argumentos dos defensores do TTIP, o de que os EUA e a UE, os dois maiores blocos do Ocidente, devem tomar as rédeas das trocas comerciais e investimento sob pena de serem ultrapassados pela Rússia e por potências emergentes asiáticas como a Índia e a China. Fazem pela vida mas com opções que não interessam aos povos europeus.

Juncker declarou em Abril, quando da 13ª ronda de negociações EUA/UE que todos os países devem mostrar que "estão a remar na mesma direção", sob pena de o TTIP ficar em águas de bacalhau até Obama sair de malas e bagagens da Casa Branca em Janeiro, o que muito provavelmente irá ditar o fim do tratado. E as eleições seguintes na França e Alemanha ainda mais longínqua colocarão essa possibilidade no futuro próximo, se a nova administração americana insistir no projecto.

Mas, depois disto veio o Brexit e os EUA a manifestarem, na 14ª ronda de negociações no passado mês de Julho, através do mesmo Michael Froman, menor interesse no assunto porque sem a Inglaterra a UE é outra coisa pois só esta corresponde a 25% das exportações dos EUA para a Europa e era para a Inglaterra que os EUA esperavam au mentar muito as suas exportações. Mas do lado europeu Ignacio Garcia Bercero, que dirige a equipa negociadora da Comissão Europeia, afirmou que a comissária Cecilia Malmstrom, limitou-se a dizer que falaria com o negociador americano e “Como disse Jean-Claude Juncker, as razões para concluir o TTIP são tão fortes como no início e os dois lados têm de mostrar determinação“.

Após esta 14ª ronda de negociações entre os Estados Unidos e a Comissão Europeia reuniram-se em Bruxelas as duas equipas de negociadores: Dan Mullaney, principal negociador dos Estados Unidos e Ignacio Garcia Bercero, disseram: a)que o texto do tratado terá 30 títulos, b) apesar de já haver acordo na maior parte destes capítulos, há questões essenciais que ainda estão em aberto c) Fora de questão está um TTIP light (ou mais leve) que não seja ambicioso e não toque nas questões mais complexas (4).

Ainda decorrerão negociações durante o Verão e fonte europeia prevê a existência de “um texto consolidado entre as partes em Setembro.

Entre nós o Ministro Santos Silva considerou, em debate parlamentar, que criticar todo o processo que decorre entre a Comissão Europeia e os Estados Unidos “não é ilegítimo” e o “histórico mostra que devemos ser cuidadosos, e, comentando as observações críticas de PCP, BE e PEV referiu ainda que “o TTIP não pode implicar nenhuma redução dos padrões europeus de saúde pública, segurança alimentar, salarial ou de proteção ambiental“. “O acordo só vale a pena se der origem a acordo robusto e produtivo e se for benéfico para a economia orientada para a sustentabilidade e desenvolvimento”. Admitiu que, tal como o PEV defendeu, o acordo deve ser ratificado pela AR. O PCP de há muito rejeita o TTIP. A direita, PSD e CDS defenderam abertamente o acordo.

Depois da 14ª ronda de negociações, os ministros do Comércio reúnem-se em Bratislava a 23 de Setembro mas podem contar com jornadas de protesto já em organização. Em Outubro, em dia a definir, os Chefes de Estado e de Governo deverão abordar o tema na sua cimeira, seguindo-se a 15ª ronda de negociações.





(originalmente publicado em www.abrilabril.pt nesta mesma data) 
 

sábado, 20 de agosto de 2016

Frase de fim de semana, por Jorge


"L'important n'est pas ce qu'on fait de nous,
mais ce que nous faisons nous-mêmes
de ce que l'on fait de nous. »

"O importante não é o que fazem de nós,
mas o que nós próprios fazemos
daquilo que fazem de nós."
 
 
Jean-Paul Sartre
intelectual francês, 1905-1980
em Saint Genet, comédien et martyr (1952)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Os meninos do Huambo", de Manuel Rui Alves Monteiro

 
 
 
Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos do Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
 
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com lores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

 
Manuel Rui Alves Monteiro, de Huambo (n. 4 de Novembro de 1941), mais conhecido por Manuel Rui, é um escritor angolano, autor de poesia, contos, romances e obras para o teatro. Dono de uma obra na qual o homem comum é celebrado, Manuel Rui é considerado um dos mais importantes escritores ficcionistas angolanos.

Os deserdados da globalização, de Joseph Stiglitz

 
A rejeição dos líderes políticos tradicionais nos países avançados tem a sua origem numa abordagem muito pouco igualitária da globalização, marcada pela recusa em ajudar as pessoas cujos níveis de vida estagnaram ou caíram, e a relutância em partilhar os benefícios gerados pelo progresso tecnológico.
 
Há quinze anos em "A grande desilusão", sublinhei a crescente oposição dos países em desenvolvimento com as economias emergentes da globalização. Aí estava um fenómeno aparentemente misterioso: tinham dito aos habitantes que a globalização iria melhorar as suas vidas. Então porque tantos se opuseram a isso?
 
Hoje, nos países desenvolvidos, dezenas de milhões de pessoas tornaram-se, também, adversárias da globalização. As sondagens mostram que a organização de comércio é uma das principais causas do descontentamento de muitos americanos, e o mesmo fenómeno se observa na Europa.
 
Como é que a globalização, que, de acordo com os nossos líderes políticos (mas também muitos economistas) seria benéfica para todos, se tornou tão impopular? Certos economistas neoliberais, favoráveis à globalização, argumentam que é realmente benéfica, mas na realidade eles não sabem nada disso. Para eles, o descontentamento manifestado releva da psiquiatria, não da economia.
 
Mas, ao ver as estatísticas disponíveis sobre os rendimentos, pode ser que sejam os neoliberais a precisar de um psiquiatra. Uma parte significativa da população dos países desenvolvidos viu os seus rendimentos estagnar: nos Estados Unidos, excepto a 10% mais ricos, isso acontece com toda a população de mais de trinta anos. O rendimento médio dos trabalhadores do sexo masculino é menor, em termos reais (descontada a inflação), do que era há quarenta e dois anos. E na parte inferior da escala, o nível de salários é comparável ao que foi há sessenta anos.
 
As dificuldades económicas e a  desagregação social que  as acompanham reflectem-se ainda na esperança de vida. Dois economistas Anne Case e o Prémio Nobel de Economia de 2015, Angus Deaton, mostraram que a expectativa de vida de determinadas categorias de americanos brancos diminuiu. A situação é melhor, mas apenas ligeiramente, na Europa.
 
No seu novo livro, " DesigualdadeGlobal: Uma Nova Abordagem para a Era da Globalização", Branko Milanovic identifica claramente os vencedores e perdedores do período 1988-2008 em termos de rendimentos. Entre os vencedores estão os 1% mais ricos do mundo, a plutocracia global, mas também as classes médias que cresceram nos países emergentes. Os perdedores (aqueles cujos rendimentos não aumentaram ou aumentaram muito pouco) encontram-se particularmente nos países desenvolvidos. São as suas classes médias e trabalhadoras, bem como os da parte parte inferior da escala social.
 
A globalização, ao não cumprir as promessas que se poderiam esperar do que afirmavam os líderes políticos,  abalou a confiança de toda uma parte da população no "establishment". Além disso, os Estados estabeleceram planos de contingência generosos para os bancos na origem da crise financeira de 2008, sem fazerem grande-coisa pelas pessoas.
 
Nos Estados Unidos, os republicanos do Congresso opuseram-se mesmo à assistência às vítimas directas da globalização. De um modo mais geral, os neoliberais, aparentemente preocupados com um possível efeito desmotivador, opuseram-se a medidas para proteger os perdedores. Mas eles não podem ficar com a manteiga e o dinheiro da manteiga: se a globalização beneficia a maioria, devemos proteger a minoria dos perdedores. Os escandinavos entenderam isso há muito tempo. Isso faz parte do contrato social de uma sociedade aberta - aberta à globalização e à mudança tecnológica.  Os neoliberais não o compreenderam - e agora com as eleições nos Estados Unidos e na Europa, eles vão ter o que merecem.
 
A globalização é, obviamente, apenas um elemento da situação, a inovação tecnológica é outra. Esta abertura e estas mudanças eram supostas fazerem-nos ricos, mas os governos dos países avançados não fizeram muito para que seus benefícios fossem mais equitativamente partilhados.
 
Em vez disso, favoreceram uma reestruturação dos mercados que tem aprofundado as desigualdades e prejudica a economia como um todo. O crescimento tem diminuído, enquanto as regras foram reescritas no interesse de bancos e empresas, dos ricos e dos poderosos à custa do resto da população. O poder de negociação dos trabalhadores foi enfraquecido. A financeirização espalhou-se rapidamente  na sociedade e a gestão das empresas tem-se deteriorado.
 
Hoje, como indiquei no meu último livro, "Reescrevendo as regras da economia americana", é necessário mudar novamente as regras do jogo - especialmente para controlar a globalização. A idéia-força da "Grande desilusão" é que o problema não é a própria globalização, mas o seu processo. Quinze anos mais tarde, é esta mensagem de que são portadores os novos adversários da globalização nos países desenvolvidos.
 
Este artigo foi publicado em colaboração com o Project Syndicate, 2016
Trad. AA
Joseph Stiglitz é Prémio Nobel  em Economia e professor da Universidade de Columbia em Nova York.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"Eurydice", de Sophia de Mello Breyner Andresen

 
Este é o traço que traço em redor do teu corpo amado e perdido
Para que cercada sejas minha
Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha
Este é o poema — engano do teu rosto
No qual eu busco a abolição da morte
 
in No Tempo Dividido, 1954

Afeganistão: uma das muitas promessas que Obama não cumpriu



O Le Monde publicou em 12 de Maio deste ano uma reportagem de um enviado seu a Kabul sobre o que considerou ter sido esta uma Primavera sangrenta dos talibans afegãos, que teriam passado a controlar um terço do território, particularmente nas províncias do Norte.
A gravidade desta questão junta-se à paralisia política da solução imposta pelos EUA depois das eleições fraudulentas de 2014, de ter o poder partilhado por dois adversários: o presidente Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah. Que atingiram a incompatibilidade. E junta-se ainda o nepotismo de uma série de governadores provinciais que lança os habitantes nos braços dos talibans que detêm muito dinheiro da venda do ópio que este beneficiará até de uma produção extraordinária.
Hamid Karzai, que no final do seu mandato já era particularmente crítico da presença dos EUA no seu país, continua a sublinhar que a presença destes foi um fracasso. As redes terroristas dos Haqqani e Hezbi Islam, esteve ativamente envolvida desde 2010 numa revolta talibã por todo o país, que incluiu centenas de assassinatos e ataque suicidas. O território controlado pelo governo está cada vez mais reduzido. Cabul controla agora menos de 65% do país. O governo está quase completamente ausente dos distritos do norte, como Musa Qala, Sangin e Kajaki, que fazem fronteira com os países da CEI. Por isso, para Karzai "alguma coisa está errada" e, portanto, “as forças estrangeiras deviam deixar o país.

O Afeganistão está a constituir uma despesa extra-orçamental de vulto e a Câmara dos Representantes dos EUA já avisou Obama de que deve apresentar um pedido de financiamento adicional. Isto deve-se ao recuo do projecto de redução de tropas previsto para este ano. Mas o Congresso parece não estar preocupado com isso mas sim com o que aconteceu aconteceu com os 17 mil milhões de dólares destinados a apoiar as forças de segurança do Afeganistão. A partir de 31 de maio de 2016 os Estados Unidos gastou quase 13 mil milhões de dólares com o exército afegão e 4,2 mil milhões para armar a polícia afegã, não estando incluídos nestes gastos os da compra de armamento pesado moderno. De facto, o exército afegão não tem qualquer avião militar, instalações de mísseis, ou modernos helicópteros de combate. Todo o dinheiro a isso destinado dinheiro evaporou-se inviabilizando qualquer assistência significativa ao combate aos opositores do governo em Cabul.

Os EUA dispõem de cerca de 9,8 mil soldados no Afeganistão, a grande maioria dos quais (6.950) apoiam o exército afegão, e só os 2 mil soldados e oficiais restantes estão diretamente envolvidos em operações de combate. Ao abandonar o compromisso da sua redução, Obama pediu aos seus aliados da OTAN para apoiar esta sua iniciativa mas nada está claro quer quanto a estratégia, quer quanto a recursos para a sustentar. As forças da NATO estão longe de se retirar do Afeganistão, treze anos após a intervenção militar norte-americana contra os Talibã e a Al-Qaeda no território – em resposta aos atentados de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington.

Os 28 países da Aliança Atlântica comprometeram-se, na Cimeira de Varsóvia passada, a prolongar a missão de apoio às forças afegãs para lá da data limite do final do ano.

Washington decidiu já rever em baixa a redução dos seus militares estacionados no país (1.400 em vez de mais de 4.000 previstos), enquanto 13 mil soldados da coligação deverão permanecer no país em 2017.

A favor desta permanência joga a crescente acção terrorista dos talibans. Segundo a ONU, o número de vítimas de ataques terroristas aumentou no ano passado, e sobretudo entre as mulheres e crianças, o que éum indicador do aumento de combates em zonas urbanas densamente povoadas e o abandono pelos talibans da exclusivo em matar militares afegãos.

 No passado dia 23 de Julho, um atentado, durante uma manifestação pacífica em Cabul, provocou a morte de, pelo menos, 80 pessoas e ferimentos em mais de 230.

Durante a manhã, milhares de manifestantes, maioritariamente da comunidade hazara xiita protestavam, quando dois homens se fizeram explodir. Face às anteriores ameaças do governo aos promotores da manifestação, estes acabaram por considerar que a autoria do atentado tinha sido do próprio governo.

Os “enganos” dos EUA nesta guerra continuaram e em Abril os “Médicos Sem Fronteiras” consideraram “incompreensível” que os Estados Unidos tivessem atacado o seu hospital no Afeganistão no ano passado e considerou leves as sanções administrativas sobre os militares que levaram a cabo o ataque, depois de o Pentágono ter anunciado que o bombardeamento de outubro não foi um crime de guerra, apesar dos 42 mortos.

Que contributo para fazer face a este grave problema podem trazer as eleições presidenciais norte-americanas?

Hillary Clinton tem um compromisso com a guerra. Sempre foi a favor do uso da força. Apoiou o bombardeamento da Sérvia em 1999, votou a favor da guerra contra Saddam em 2003, criticou Obama quando este se recusou a bombardear a Síria e insistiu em que se armassem os “grupos rebeldes”. Como Secretária de Estado em 2009, propôs o envio de mais militares para o Afeganistão, que depois Obama viria a fazer, o apesar de depois ter dito isso ter sido um erro.

Donald Trump, em 2003 pediu a saída das tropas americanas e criticou o “desperdício” de milhares de milhões de dólares na guerra o Afeganistão, propondo que esse dinheiro fosse aplicado na “reconstrução dos Estados Unidos”. Já nesta campanha não falou nem em saída nem em redução de efectivos, defendendo antes uma revisão de objectivos para uma actividade de combate mais autónoma em vez de um simples apoio às operações locais do exército afegão E sublinhou o perigo das armas nucleares paquistanesas caíssem nas mãos de terroristas, sugerindo um reforço da aliança com a Índia como contrapartida à influência do Paquistão nos assuntos do Afeganistão.

Negociações de paz neste quadro são difíceis de imaginar e a continuação do conflito vai persistir.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Nos 50 anos do genocídio na Indonésia (1965-1966)

Já aqui fiz referência a este genocídio há um ano. Volto a ele até porque se deu essencialmente em 1966.

A passagem de 50 anos sobre o massacre da Indonésia, superior duas a quatro vezes em número de mortes às de Hiroshima e Nagasaki, que se traduziu no assassinato de entre 500 mil e um milhão de comunistas, é um bom momento para pensar até onde podem ir os desígnios de uma política realizada por seres “humanos”.

O Partido Comunista da Indonésia era então o maior partido comunista da Ásia, depois do Chinês, e apoiava o governo liderado pelo presidente Sucarno, um dos mais destacados dirigentes do Movimento dos Não Alinhados.

Depois de uma provocação que custou a vida a oficiais-generais, mas em que Suharto “conseguiu” não ser um deles, este assumiu a direcção do golpe como seu principal responsável, que levou aos assassinatos em massa.

A revista Time em 15 de Julho de 1966 (P. 22-26) caracterizou o genocídio como "a melhor notícia da Ásia para o Ocidente durante anos", relatando despreocupadamente as mortes em Java Oriental, onde “os chefes "comunistas suspeitos" foram decapitados e empalados defronte das suas casas para as viúvas e os filhos verem”. Antes disso, em 19 de Junho, o título da coluna de James Reston, no New York Times, era “Raio de luz na Ásia”.

Tendo assumido o controlo da situação, Suharto declarou o Partido Comunista da Indonésia (PKI) como o dalang, ou "mestre de marionetes" por trás do assassinato dos generais, acusação que nunca foi sustentada em factos. Os anos seguintes viram não só a destruição do Partido Comunista mas também a morte de centenas de milhares de comunistas indonésios. Entre 1965 e 1966, uma série de assassinatos em massa ocorreram em todo o arquipélago, especialmente na Java Central e Oriental, Bali, e no Norte de Sumatra (1). Na Java Central e Oriental, onde alguns dos piores massacres aconteceram, a maioria das mortes foi feito por unidades do exército, em particular a unidade RPKAD, de comandos para-quedistas, juntamente com vigilantes civis associados em grupos anti-comunistas. Um deles era o Ansor, movimento juvenil da organização política muçulmana Nahdlatul Ulama (NU). Em geral, os militares tiveram um papel significativo no fornecimento de armas, treino e incentivo aos vigilantes em várias regiões do país. Os assassinatos em si mesmos, muitas vezes tiveram lugar ", quando unidades do exército anti-comunistas chegavam a uma região."

Não menos importante foi o papel desempenhado pelos Estados Unidos, juntamente com a Grã-Bretanha, que visavam destruir o comunismo indonésio com este crime. O Embaixador inglês, Andrew Gilchrist chamou "propaganda" e “guerra psicológica" ao genocídio. Os Estados Unidos ajudaram as forças de Suharto através do envolvimento direto da CIA, a estreita cooperação da Embaixada dos EUA e do Departamento de Estado, e a orientação do Conselho de Segurança Nacional da administração Johnson. Num memorando de Novembro de 1965, a CIA sugeriu que os Estados Unidos não deviam ser" demasiado hesitantes "quanto" à assistência desde que possamos fazê-la secretamente. "Assim, quando os generais indonésios pediram aos Estados Unidos armas necessárias" para armar muçulmanos e jovens nacionalistas na Java Central para uso contra o PKI, "os Estados Unidos rapidamente concordaram em dar ajuda secreta", sob a designação de "medicamentos" para evitar revelações embaraçosas "( 4 ). Talvez Bradley Simpson tenha resumido isto bem nestes termos:" A resposta dos EUA ao assassinato em massa na Indonésia foi de entusiasmo " - e nós estamos a falar dos mesmos acontecimento que a própria CIA referia como “um dos piores assassinatos em massa do século XX”( 5). Foi esta a CIA que quase fez desaparecer os testemunhos fotográficos e em filme.

As atrocidades não pararam aqui. Na década seguinte, mais de um milhão e meio de comunistas foram capturados, torturados e aprisionados, a maioria deles sem julgamento,  "por serem comunistas." E para aqueles que escaparam da morte em prisões, as suas vidas ficaram extremamente difíceis. Eles foram continuamente sujeitos a discriminação, tanto pelo Estado como pela sociedade tornada comunistofóbica.

Remato, referindo que Suharto, depois disto e de crimes posteriores no seu país e em Timor-Leste morreu…na cama. E que nenhum presidente ou administração norte-americanos pediram desculpas aos familiares que restaram das vítimas nem pediram desculpas ao mundo.
 

(1)              Mortimer,Indonesian Communism Under Sukarno,41–42, 366.

(2)              Robert Cribb, “Introduction: Problems in the Historiography of the Killings in Indonesia”, em edição de  Robert Cribb; “The Indonesian Killings, 1965–1966”,Clayton, Australia: Centre of Southeast Asian Studies, Monash University, 1990, 3, 12.

(3)              Bradley Simpson, “International Dimensions of the 1965–68 Violence in Indonesia,” edição de Douglas Kammen and Katherine McGreggor;”The Contours of Mass Violence in Indonesia”, Honolulu: University of Hawai’s Press, 2012, 58, 62–63; “Notes from the Editors,”Monthly Review 67, no. 5 (October 2015): c2; Kolko,Confronting the Third World, 181.

(4)              Simpson, “International Dimensions of the 1965–68 Violence in Indonesia,” 62; A citação da CIA é feita por Jonah Weiner, “The Weird Genius of ‘The Act of Killing,’”New Yorker, July 15, 2013. http://newyorker.com

domingo, 14 de agosto de 2016

"O euro falhou à nascença e estava destinado a entrar em colapso", afirma o Nobel Joseph Stiglitz


Na próxima semana é lançado o livro do economista Prémio Nobel  Joseph Stiglitz "O Euro: Como uma moeda comum ameaça o futuro da Europa".
 
A decisão de criar uma moeda única, sem as instituições que a poderiam fazer funcionar, foi "fatal" para a zona euro, disse o autor por antecipação, acrescentando que a "zona euro deve abandoná-la agora para sobreviver".  O economista escreve que a zona euro foi um acto falhado no momento da sua criação e está destinado a entrar em colapso a menos que grandes mudanças lhe sejam feitas.
 
"O euro é frequentemente descrito como um mau casamento. Um mau casamento envolve duas pessoas que nunca deveriam ter-se unido e fazer votos que fossem indissolúveis. O euro é mais complicado que um casamento: é uma união de 19 países muito diferentes que se amarraram em conjunto ", diz um trecho do livro publicado pelo Guardian.
 
O professor de economia na Universidade de Columbia e ex-vice-presidente sénior e economista-chefe do Banco Mundial, Stiglitz disse que o euro falhou qualquer  um dos seus dois principais objetivos: de prosperidade e integração política. Como resultado desse fracasso, os países europeus agora olham-se uns aos outros com desconfiança e raiva.
 
De acordo com o economista, uma moeda única, projectada para manter unida uma região de enorme diversidade económica e política, é quase impossível que funcione.
Stiglitz criticou os dirigentes da zona do euro, dizendo que não tinham a adequada compreensão do que uma união monetária significava. A estrutura da zona do euro - as suas regras e regulamentos - não foram concebidos para promover o crescimento, o emprego e a estabilidade.
E refere ainda que "a marca de uma economia que funcione bem é o rápido crescimento, cujos benefícios sejam compartilhados de uma forma ampla, com um baixo desemprego. O que aconteceu na Europa foi o contrário.  Um pequeno país na Europa poderia, por exemplo, estar em recessão quando o resto da Europa estava a andar bem. "
De acordo com Stiglitz grandes partes destes países enfrentam uma "década perdida", e até mesmo os chamados sucessos da Europa foram realmente fracassos colossais. E dá o exemplo de Espanha, onde o desemprego caiu de 26 por cento em 2013, para 20 por cento no início de 2016 -, mas quase uma em cada duas pessoas estão desempregadas.
 
O economista sugeriu que o melhor caminho a seguir para a zona euro é um "euro flexível ", onde cada estado-membro adopte a sua própria versão da moeda.
Um euro flexível poderia ajudar os países do sul da Europa a exportar mais e importar menos, e ajudar a alcançar uma balança comercial positiva e o pleno emprego, referiu ainda o autor.

Tensão entre a Índia e o Paquistão. O motivo cilicamente renovado é a disputa sobre Cachemira. Será?

O Ministério do Negócios Estrangeiros da Índia revelou há dias que um  cidadão paquistanês foi preso no estado de Jammu e Caxemira em Julho e tinha na sua posse   armas, equipamentos de comunicação sofisticados e outros materiais de origem paquistanesa. Bahadur Ali confessou terá confessado às autoridades que, depois de um treino em campos de Lashkar-e-Toiba, foi infiltrado na Índia, recebendo  antes instruções para atacar  pessoal indiano da segurança e realizar outros ataques terroristas na Índia. Segundo o mesmo Ministério tais factos têm-se repetido e contrariam as garantias dadas pelos mais altos dirigentes paquistaneses.
O Ministério soblinhou que, "O Governo da Índia protesta veementemente contra a infiltração contínua do Paquistão de terroristas treinados com instruções para realizar ataques. Isto é contrário à garantia dada pelos líderes paquistaneses ao mais alto nível."
O cidadão do Paquistão preso solicitou assistência jurídica ao Paquistão Alto Comissariado em Nova Deli e para contactar a sua família, o que foi garantido pelo Ministério das Relações Exteriores da Índia.

As relações entre a Índia e o Paquistão têm sido tensas desde 1947, quando ambos os estados foram fundados. A Índia, então britânica, de acordo com o Acto da Independência Indiana, foi dividida em duas partes numa base religiosa - Índia (hindu) e Paquistão (muçulmana). No entanto, o acto deixou espaço para os dirigentes de comunidades escolherem se se queriam juntar à Índia ou ao Paquistão, de que resultou a decisão do governo hindu da Caxemira,  principalmente povoada por muçulmanos, de se juntar à Índia. A disputa sobre a Caxemira resultou em várias guerras relativas a essa integração, incluindo uma série de conflitos militares locais entre a Índia e o Paquistão.
 
Este conflito levou a uma corrida  aos armamentos que culminou com a entrada de Índia e Paquistão, em 1998, no clube dos países detentores de armas nucleares. Ambos desenvolveram ao máximo  a sua infra-estrutura militar. Desde então, as hostilidades na Caxemira passaram a ser acompanhadas com mais atenção pela comunidade internacional.

No ano que passou e, particularmente em Julho, as relações entre a Índia e o Paquistão deterioraram-se novamente com o eclodir de uma nova onda de confrontos, no estado indiano de Jammu e Caxemira, com manifestantes a exigirem maior autonomia e mesmo a independência da região. No final de Julho, o primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif  declarou que a Caxemira viria um dia a integrar-se no Paquistão, o que foi fortemente condenado por Nova Dehli.

Apesar de mais este incidente a India mostrou disponibilidade para o diálogo entre as duas partes, desde que cessem estas incursões terroristas.