terça-feira, 8 de setembro de 2015

"E depois do adeus", Grande Reportagem, do jornalista Pedro Coelho (RTP-1)

Acabei de o ver agora. Estes programas confirmam-nos que há jornalistas na RTP sensíveis ao que se passa à sua volta.
Partindo do tema "E depois do adeus", da troika entenda-se, sucederam-se uma série de casos de dificuldades graves de pequenos agrupamentos familiares, bolsas de resistência à agressão social generalizada que promoveu este governo. Os casos eram intervalados por declarações emproadas de Passos Coelho que em tudo contrariavam o que nos era dado a ver.
No meio da imensa porcaria com que a RTP enche os seus canais, estas excepções reconciliam-nos com o jornalismo.
Parabéns Pedro Coelho.
 

Pintura de Michel Rauscher e poema de Dina Salústio



Éramos tu e eu
Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.
Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.
Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.
Éramos tu e eu
Dentro de nós.
As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga
De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.
São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.
Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.
A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.
Dina Salústio

domingo, 6 de setembro de 2015

Quantos refugiados vão estes receber em suas casas?

 
É uma pergunta oportuna a fazer a cada um deles, que participaram na cimeira, mãe de todas as guerras que, a partir de então, mataram muitas centenas de milhar de pessoas, destruíram sociedades organizadas, arrasaram residências, provocaram um dos maiores êxodos na Europa.
O Tribunal Penal Internacional não devia ficar alheio a estes crimes e aos seus autores materiais e morais.

sábado, 5 de setembro de 2015

Frase de fim-de-semana, por Jorge

“O, what may man within him hide,
Though angel on the outward side!”

"Quanta baixeza se abriga
em feição serena e amiga!"

W. Shakespeare
em Medida por Medida (ato 3, cena 2)
trad. Nélson Jahr Garcia 
Eds. Ridendo Castigat Mores)

Banhista sentada à beira mar, de Picasso (1930)


Na sua primeira noite, a Festa levou-nos ao cinema, com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa


A noite estava fresca mas, a partir do primeiro tema da "Odisseia do Espaço", "Assim falava Zaratustra, de Richard Strauss, os corações aqueceram e foram milhares que em pé, agarrados, sentados e deitados, vibraram  coma recordação da "Odisseia do Espaço", que Stanley Kubrick realizou em 1968.
Seguiram-se mais 12 temas de filmes que ficaram na nossa memória, e aos quais por vezes regressamos.
A Orquestra Sinfonietta de Lisboa foi dirigida pelo Maestro Vasco Pearce de Azevedo. O pianista António Rosado, interpretou, com a Orquestra, o Concerto de Varsóvia, de Richard Addinsel, tema do filme "Aquela noite em Varsóvia", realizado por Brian Desmond Hurst, em 1941.
Bom, depois foi o final feérico da noite com um belo fogo de artifício.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Os EUA e a vaga migratória na Europa


A vaga migratória actual, recheada de episódios dramáticos e de terror, de incapacidade da União Europeia e os países mais ricos assumirem as suas responsabilidades, exige medidas imediatas que não podem esperar pela cimeira da UE de daqui a duas semanas, impondo-se com urgência

- O acolhimento que aloje, conforte e dê condições dignas aos milhares de seres humanos que acorrem às portas da União Europeia fugindo da guerra que esta mesma UE ajudou e ajuda a fomentar;
- Medidas de apoio ao desenvolvimento dos países do norte de África atingidos pela guerra, parando o apoio à guerra e apelando ao diálogo e a uma solução política para as crises.

 Mas os EUA e a NATO, a Arábia Saudita, Israel e grupos terroristas que criaram e apoiam são os responsáveis não só pelas chacinas directas mas também pela emigração que parte das costas da Líbia, organizada por traficantes, que  espoliam os que fogem e os despacham sem condições. Essa mesma canalha que o “Ocidente” apoiou para assassinar Kadhafi e transformar em ruínas um país que tinha um avançado estado moderno para a generalidade dos países da região.

Talibans, Jihadistas, Al-Qaeda, Irmandade Islâmica, Daesh, Estado Islâmico, “rebeldes sírios”, Boko Haram são nomes, que se converteram uns nos outros em alguns casos, que recrutaram mercenários para pôr a ferro e fogo países como a Síria, o Iraque, o Egipto, a nação curda, o Donbass, a Nigéria, o Sudão do Sul, a Somália, o Iémen. Os que fugiram e agora correm para os países mais ricos da Europa, através de Itália, Grécia, Turquia, envolvendo os restantes países balcânicos e da Europa Central. Estes assassinos foram criados pelos EUA, têm apoios logístico, de formação militar, de armamento, de inteligência militar fornecidos pela Arábia Saudita, Israel e a Turquia.

A hipocrisia do invocado combate norte-americano e turco em bombardeamentos contra o Estado Islâmico está desmascarado. Os voos, a partir de bases turcas, destinam-se a massacrar o PKK e as populações curdas.
De acordo com um relatório do ACNUR, 60 milhões de pessoas foram deslocadas à força no final de 2014. Em termos globais uma em cada 122 pessoas são requerentes de asilo, refugiados ou pessoas deslocadas internamente. Mais de metade dos refugiados do mundo são crianças.

Em 28 de Agosto deste ano, o Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) disse que mais de 300 mil refugiados e requerentes de asilo cruzaram o Mediterrâneo para chegar à Europa até agora neste ano – um número muito superior em 219 mil ao valor de 2014. Uma enchente humana que se pode aproximar de meio milhão no final do ano, provavelmente centenas de milhares mais em 2016, podendo o êxodo continuar nos anos seguintes.

Milhares de outros morrem ou são dados como desaparecidos. Em 27 de agosto, centenas podem ter morrido depois de duas embarcações sobrelotadas ter naufragado ao largo da costa da Líbia. Dezenas de refugiados sírios foram encontrados sufocados até a morte num camião estacionado numa estrada austríaca, já com os seus corpos em estado de decomposição. Outras histórias de horror repetem-se com regularidade preocupante.

Os EUA devem pagar as consequências das suas guerras no mundo!


A agenda dos EUA não passa pela resolução das crises nem pela Paz. Até na actual corrida presidencial norte-americana, todos os candidatos se apresentam como guerreiros imperiais – nenhum deles é defensor da paz e da estabilidade. E, portanto, depois de Obama, as coisas continuarão como dantes ou com tendências de agravamento, tanto mais se se desenvolver o belicismo contra a Rússia e a China.





Ilustração de Maria Keil


As razões da China


A China enfrenta desafios muito importantes  depois de nos últimos anos ter realizado reformas que fizeram o país passar de uma economia,  baseada num modelo de acumulação assente em investimentos maciços, para outra que favoreceu a expansão do investimento no mercado interno e o consumo pelos seus habitantes
O Partido Comunista da China definiu como objectivo de longo prazo o aumento do consumo da população e do seu poder de compra quer pelo aumento geral dos salários quer reduzindo a concentração das poupanças. O objectivo tornou-se mais urgente com a contração do investimento das empresas e a quebra da procura externa.












Segundo o Telegraph, há duas semanas atrás,  China tinha já diminuído as exportações em 8,3% em termos anuais, o mesmo se passando com as importações em 8,1%., em linha com o enfraquecimento do comércio mundial, que atingiu o nível mais baixo nos últimos anos. Antes disso foram muitos os comentadores que reconheceram a importância da China para conter a queda da economia mundial.
Mas a China pagou também um preço por isso e começaram a crescer no seu seio as preocupações com as perspectivas mundiais poderem levar a uma deflação generalizada (baixa dos preços típica das recessões) .
Segundo um despacho da Reuters de 7 de Agosto crise deflacionista ia na Grécia, ia já no 29º mês consecutiva com os riscos de contágio que isso provocava à periferia europeia. O novo plano de « ajustamentos » imposto a este país irá agravar a catástrofe e a  Alemanha,, principal impulsionador do garrote à Grécia, poderá ficar também com as barbas a arder. Os chineses não podem ignorar que a Alemanha é o quarto parceiro económico da China e Pequim está a trabalhar arduamente para contrariar as tendências recessivas que gradualmente se aproximam da sua economia e que também, diga-se de passagem, causam preocupações num número crescente de países como a Alemanha, a Inglaterra, o Canadá e países da América Latina como a Venezuela, o Brasil, o México ou a Argentina.
 
A China defronta um outro risco resultante das pressões norte-americanas sobre os bancos centrais da Ásia Pacífico, para uma guerra de divisas, como referiu o New Iork Times na sua edição de 17 do mês passado, levando esses bancos a desvalorizações que « empobrececem-se » a China. E para por em causa os seus convites, até agora feitos com sucesso, para lançar o Banco Asiático de Investimentos em Infraestruturas, o Fundo da Rota da Seda e a Zona de Comércio Livre da Ásia-Pacífico. Segundo o Foreign Policy, do passado dia 11, essas pressões norte-americanas são acompanhadas de pedidos dos EUA a esses países para que alarguem o campo de aplicação  do "Parceria Trans-Pacífico", com vista a relançar a guerra ideológica contra a China, com o apoio militar do Japão.
 
A China tem que ter em conta que na região também se fazem sentir pressões deflacionistas e que a desvalorização do yuan não é aí bem acolhida, atingindo em particular a Coreia do Sul, Malásia, Singapura e Tailândia.
O economista Ariel Noyola Rodriguez avisa ainda, em artigo recente no voltairenet.org http://www.voltairenet.org/ que « ninguém duvide que se trata dum plano dos EUA para impedir a crescente influência da China na Ásia-Pacífico, devendo o governo chinês manter-se vigilante e, acima de tudo, ter em conta as lições do grande Sun Tzu, autor da « Arte da guerra », de que se pode obter uma vitória, não entrando na guerra.
A China tem que ter em conta que na região também se fazem sentir pressões deflacionistas e que a desvalorização do yuan não é aí bem acolhida, atingindo em particular a Coreia do Sul, Malásia, Singapura e Tailândia.
 
O papel da China para a economia mundial é cada vez mais importante. Nela se depositam muitas esperanças para acabar com o ciclo infernal de ser a economia mundial a pagar os custos das guerras conduzidas pelos EUA, no passado e hoje, de forma mais generalizada, com a possibilidade de a Fed estar permanentemente a emitir dinheiro para o efeito, que não resulta da actividade económica, mas que por deter a divisa mundial de referência, faz repercutir nas outras economias "bolhas", como a do Lehman Brothers, que a União Europeia recebeu acrìticamente e aceitou que atingisse os países de economias mais débeis, como Portugal que, de forma quase criminosa foram arrastados para o euro pelos seus governos que lhes impuseram programas de austeridade severos. Este carácter acrítico (logo conivente) estende-se à responsabilidade do presente surto migratório, decorrente das guerras que conduz, através da Arábia Saudita e Israel, bem como dos grupos terroristas que, a seu mando actuam no Médio Oriente e em África. A este tema do surto migratório voltaremos.