segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A ascensão da China como grande potência e a atitude dos EUA (2)

Portugal e outros países que têm relações comerciais com a China sofrerão impactos da decisão de desvalorização do yuan. Se não tivéssemos perdido a nossa soberania cambial com o euro, valorizaríamos ou desvalorizaríamos o escudo de acordo com os interesses do país. Foi o que a China fez e o que Portugal e os países da zona euro deixaram de poder fazer, ainda por cima num quadro de debilidade desigual das economias europeias.
Debilidade que tem feito as maiores potências agravarem as condições de empréstimos condicionados (resgates) em relação à mais fracas e a alargar o número dos que defendem que devem ser preparadas saídas do euro que não deixem a faca e o queijo nas mãos da Alemanha para agravar ainda mais a situação dos países mais fracos.

A desvalorização do yuan, ao contrário do que a expressão pode induzir na opinião pública, nomeadamente acompanhada por comentaristas da imprensa ocidental como no Guardian, está a ser um teste à ascensão da China como grande potência mundial, segundo afirma Ariel N. Rodriguez, economista e comentador de relações económicas internacionais.



 
Para ele " Depois da desvalorização do yuan, os mercados financeiros internacionais começaram a tremer. Washington acusa Pequim de deslealdade na obtenção de vantagens comerciais. Porém, a China não está interessada no prolongar da desvalorização. Por outro lado, se rebentasse uma guerra de divisas, o governo chinês corria o risco de agravar as tensões e económicas e geopolíticas no seio dos países da Ásia-Pacífico. Se isso acontecesse os EUA teriam mais possibilidades de desmantelar as iniciativas de cooperação regional e de boicotar a ascensão da China como potência mundial".
As três desvalorizações do yuan na primeira quinzena deste mês levaram ao pânico dos mercados financeiros durante alguns dias, apesar de não terem ultrapassado os 5%. Quando em 2005 o regime de taxas de intercâmbio se tornou mais flexível, até aos dias de hoje, o yuan valorizou-se cerca de 30% em relação ao dólar, e não seria agora que uma desvalorização do yuan em relação ao dólar de 4,6 % pudesse ser considerada como a principal causa do afundamento da economia dos EUA.


 
Nos momentos de crise e recessão mundial as instituições responsáveis pela política monetária decidem unilateralmente para empurrar as respectivas economias. E a Reserva Federal dos EUA (FED) é, de longe quem melhor o ilustra. Em Dezembro de 2013, o seu anterior presidente Ben S. Bernanke, sem consulta aos outros bancos centrais e ao Congresso, anunciou a diminuição do programa de liquidez ("Quantitative Easing"), o que provocou o afundamento dos mercados bolsistas e as taxas das divisas das economias emergentes. A economia chinesa continua muito ligada à cotação dólar norte-americano.
De meados de 2014 ao início de 2015, o dólar valorizou-se entre 15 e 20% contra as moedas de outros países que mais se trocam (euro, libra esterlina, yen, etc.) e apenas 0,6% em relação ao Yuan.
No início deste ano, a China estava pronta para contrabalançar o domínio do dólar no Sitema Monetário Internacional. Em 2009 já o governador do Banco Popular da China tinha feito um apelo à reforma do sistema mundial de reservas, já que as  flutuações violentas do dólar impunham que se desse mais confiança e estabilidade à economia mundial. A China recusava-se, pois, a pagar os custos da crise gerada a partir da Bolsa de Nova Iorque. Depois disso, a agência noticiosa Xinhua lançou um  debate em Outubro de 20013 sobre a "desamericanização" do mundo. De facto a política irresponsável de endividamento de Obama estava a provocar o aumento dos "desequilíbrios estruturais". Em Março do presente ano, Le Kequiang, Primeiro Ministro da China pediu ao FMI a abertura de discussões sobre a incorporação  do yuan nos Direitos de Saque Especiais, cabaz de moedas de reserva criado pelo FMI em 1699. Para a China era claro que o valor da sua moeda deveria ficar estável, condição exigível a qualquer moeda de reserva mundial. E isto porque o dólar tinha desrespeitado esta exigência, quando fez cair as reservas de câmbio dos bancos centrais entre 1999 e 2014.
(concluiremos este artigo amanhã, com um terceiro post "As razões da China")

Pintado de côr-de-rosa, Foto de Grant Glendinning


sábado, 29 de agosto de 2015

Quem está por detrás da "2ª feira negra"? (1)

Contrariando as intenções malévolas de alguns comentadores desqualificados, vários economistas têm vindo a salientar, desde a “2ª feira negra”, que a desvalorização da moeda chinesa não contribuiu para a queda dos preços nos mercados mundiais e que as autoridades chinesas decidiram aplicar uma taxa de referência diária de negociação orientada para o mercado, pretendendo ir no sentido de uma taxa de câmbio flutuante como um esforço do país para melhor reflectir a evolução do mercado global.
A China não está na origem da volatilidade financeira global, como poderá ver aqui.
Os mercados de acções em Nova York, Tóquio e Europa têm flutuado desde 20 de Agosto, quando tiveram fortes indícios de que a Reserva Federal dos Estados Unidos planeava elevar as taxas de juros e fazer regressar a economia dos EUA para uma política monetária mais normalizada. A súbita desvalorização do yuan, no entanto, só se deu 10 dias antes do início dessas oscilações, e não deve ser responsabilizada como rastilho para a queda de preços.
Os preços do petróleo caíram também sob os efeitos de um dólar mais forte. A flexibilização da política monetária pelo BCE e Banco do Japão têm alimentado ainda mais a valorização do dólar.
A elevação esperada das taxas pelo Fed também tem retirado capital de mercados emergentes e reduzido as reservas cambiais destes. O tenge do Casaquistão, o baht da Tailândia e o dong vietnamita desvalorizaram-se de forma significativa face ao dólar desde o início do ano, com quedas de valor acentuadas na última quinzena.
Segundo o economista-chefe para a Ásia da
Mizuho Securities Asia Ltd, Shen Jianguang, "o yuan, usado livremente, apoiará a moeda nos seus esforços para se juntar ao cabaz de Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional, cujas reformas estarão em revisão final em Novembro", e que ”a turbulência no mercado mundial foi em grande parte causada por condicionalismos da moeda norte-americana e pela antecipação da subida das taxas de juro , e que a desvalorização do yuan não deveria ser vista como  bode expiatório. "
O Primeiro-Ministro Li Keqiang disse na passada terça-feira que não via mais razões para que prosseguisse a desvalorização do yuan, e que a taxa de câmbio será mantida basicamente estável. "Também é errado interpretar a depreciação como uma" guerra cambial competitiva "," insistiu Shen, acrescentando que, na opinião da maioria dos economistas, as preocupações globais sobre a saúde da economia chinesa tinha sido exagerada.
“ As decisões políticas da China até agora têm sido prudentes, a quantidade de oferta monetária razoável, e do país de investimento, o comércio e a balança internacional de pagamentos são estáveis. Assim, os riscos económicos e financeiros ainda estão sob controle", disse
Ding Zhijie, assessor do presidente da Universidade dos Negócios e Economia Internacionais, de Beijing.

Não às manobras miitares da NATO no Mediterrâneo no próximo Outono

Assina o apelo do MPPM
 
MPPM - MOVIMENTO PELOS DIREITOS DO POVO PALESTINO E PELA PAZ NO MÉDIO ORIENTE
Presidente da Assembleia Geral: Carlos Araújo Sequeira | Presidente da Direcção Nacional: Maria do Céu Guerra
Vice-Presidentes: Carlos Almeida, Carlos Carvalho, Frei Bento Domingues | Secretário para as Relações Internacionais: Silas Cerqueira | Presidente do Conselho Fiscal : Frederico da Gama Carvalho
Rua Silva Carvalho, 184 – 1º Dtº | 1250-258 Lisboa | Portugal | Tel. 213 889 076
O MPPM é uma Organização Não Governamental acreditada pelo Comité das Nações Unidas para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino (Deliberação de 17 de Setembro de 2009)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Em " La tribuna del País Vasco", entrevista exclusiva com o Coronel do Exército de Terra Baños Bajo, um dos principais especialistas espanhóis em estratégia e geopolítica

"(...)En mi opinión, una intervención militar, exclusivamente, contra el EI, no es la solución. Una intervención militar excesivamente potente causaría muchas bajas civiles en Irak y en Siria. También comenzarían a surgir voces críticas en las sociedades occidentales porque comenzarían a producirse bajas en nuestras filas. Además, hay que tener en cuenta algo muy importante en este mundo: su percepción de la venganza. La venganza es uno de los pilares de la sociedad musulmana. Cada vez que alguien mata a una persona de una familia, el resto de ésta se encuentra obligada a vengarse, pasen las generaciones que pasen. Por ello, y como está ocurriendo en Afganistán, una intervención militar demasiado fuerte provocaría un enquistamiento del problema.(...)
(...)
Barack Obama, por ejemplo, dice que nos enfrentamos al “yihadismo global” porque esto es un problema global de todo el mundo. Es una falacia. No se puede afirmar que nos encontramos ante un “problema global” cuando, incluso, hay países de la Unión Europea que no se sienten concernidos por esta amenaza. ¿El “yihadismo global” es, por ejemplo, una amenaza para un país como Venezuela, que tiene anualmente más de 25.000 muertos por delincuencia común? ¿Qué preocupa el “yihadismo global” a países sudamericanos como El Salvador u Honduras, que están puestos contra las cuerdas por la presión de las maras (mafias) locales? ¿Qué vamos a decirles del “yihadismo global” a países como Japón o Corea del Sur? A la inmensa mayoría de los países del mundo, el “yihadismo global” no les afecta en absoluto.

En Europa, en mi opinión, la brecha de seguridad más importante se halla en Ucrania. No somos conscientes de lo que estamos haciendo con Rusia. ¿Hasta dónde pretendemos presionar a Rusia cuando sabemos, además, que Rusia es un país que no se va a dejar presionar? Tenemos que revisar la historia y debemos tener en cuenta la idiosincrasia de lo pueblos. La situación en Ucrania es el principal reto para la seguridad que tenemos actualmente en Europa."

Ver a entrevista na íntegra aqui.  

Frase de fim-de-semana, por Jorge


"When everyone is thinking the same,
no one is thinking."
"Quando toda a gente pensa o mesmo,
ninguém pensa."John Wooden
desportista americano
1910-2010

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

É necessário obter a paz na Turquia


Em entrevista à Prensa Latina, um dos dirigentes do HDP, de esquerda, pró-curdo, reitera necessidade de paz na Turquia
 Selahattin Demirtas reiterou hoje a necessidade de obter a paz na Turquia e pôr fim aos confrontos entre as forças da ordem e a guerrilha curda. Em declarações à imprensa, o co-presidente do Partido Popular Democrático (HDP) condenou a atitude do governo e pediu um cessar fogo o mais cedo o possível.

"A Turquia não pode suportar mais o peso do crescente número de assassinatos no meio deste surto de violência", assinalou Demirtas e acusou a presidência de ignorar os contínuos apelos à paz nesta nação. A 24 de Julho, depois de um atentado na localidade meridional de Suruc, a direção do país iniciou operações contra o Estado Islâmico e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) por considerá-los uma ameaça para a segurança nacional.

Como resultado, pelo menos 771 membros da guerrilha morreram de 22 de julho a 20 de agosto e mais de 450 ficaram feridos, enquanto mais de 1.730 pessoas foram presas, incluídos menores de 18 anos e alguns membros do HDP.

Segundo Demirtas, as ditas ações fazem parte de uma estratégia do Partido de Justiça e Desenvolvimento (AKP) para evitar a ascensão de sua formação e impedir que ocupe cadeiras na Assembleia Nacional depois das eleições antecipadas previstas para Novembro. A obtenção pelo partido pró-curdo HDP de cerca de 13% dos votos nas eleições parlamentares de 7 de junho foi um dos elementos que impediu o AKP de continuar com 13 anos de mandato ininterrupto.

Demirtas afirmou que sua organização está pronta para participar num governo transitório até que se encerrem as urnas, mas advertiu sobre possíveis ações do AKP para o impedir.

Labbezanga, Mali (1972), de Georg Gerster

Com este post retomo o contacto após breve período de férias.
 
A foto aérea fornece uma visão geral que  facilita a visão, enquanto esta talvez gere outra consideração. Segundo o Jorge, que me envia algumas destas fotos, há sempre um outro ponto de vista sob o qual tudo se revela novidade.
Para Georg Gerster esta convicção é tanto a premissa como resultado de um trabalho de mais de 40 anos de fotografia aérea em 111 países e seis continentes.

sábado, 8 de agosto de 2015

A fraude da austeridade ou quando é que o governo responde ao PCP sobre o destino do "empréstimo" de 78 mil milhões de euros?

 
Ainda não teve resposta por parte do Governo a Pergunta apresentada pelo PCP sobre os destinos das verbas obtidas através do "empréstimo" da troika estrangeira que foi apresentada há 25 dias atrás. Essa pergunta pode ser consultada aqui.
A resposta não é fácil e sem a ajuda do Governo será muito difícil compreender para onde terão ido os 78 mil milhões de euros que o Estado Português, com a assinatura do PS, PSD e CDS, contraiu como dívida e sobre a qual todos pagaremos os juros e as consequências políticas. Sim, os juros e as consequências políticas. Que o credor, neste caso, não se limitou a emprestar o dinheiro e exigir o pagamento do capital e dos juros. Foi muito além disso e exigiu o cumprimento de um programa político anti-democrático, anti-popular e anti-nacional, baseado naquilo a que chamam "austeridade".
Mas umas contas simples fazem-nos perceber que o "empréstimo" não entrou nas nossas contas. Vejamos, o PIB contraiu cerca de 6% entre 2011 e 2014, o que equivale a cerca de 10 mil milhões de euros produzidos a menos em Portugal. Uma quantia semelhante desapareceu dos gastos do Estado com Educação, Saúde, Cultura, Prestações Sociais e investimento público. Ou seja, o orçamento do Estado diminuiu em proporção com a queda do PIB, sem consumir verbas adicionais, ou seja, não entrou dinheiro no sistema. Para onde foram então os 78 mil milhões?
Ao mesmo tempo, entre 2011 e 2015, a dívida pública aumentou 50 mil milhões de euros e as despesas anuais com juros da dívida aumentaram de 4 300 milhões para 8 500 milhões. Nesse mesmo período, a Banca conseguiu eliminar 30 mil milhões de euros de imparidades com recurso a dívida garantida pelo Estado.
A "crise das dívidas soberanas" não passa de uma crise da banca, por ter usado o dinheiro dos depositantes como manancial para os negócios de banqueiros empreendedores e aventureiros. Aquilo a que chamam "austeridade" não é mais do que o Estado a ser chamado a pagar os buracos deixados na banca, porque os bancos se tornaram "demasiado grandes para falir". O problema é que também são "demasiados grandes para resgatar". Como tal, é preciso cortar nas despesas do Estado para assegurar que existem suficientes "almofadas" para a banca. Os 78 mil milhões que o Estado português contraiu de dívida junto da troika ocupante foram para os bancos. Cada tostão.
(sublinhados meus)