sexta-feira, 31 de julho de 2015

Ó Costa, queres resposta? Fica lá mais para a frente.

O putativo candidato a 1º Ministro, aliás figura constitucionalmente inexistente a que se faz olho grosso para facilitar a "alternância" no quadro de um "arco da governação", que também não se enxerga na lei fundamental, saiu-se esta semana com uma máxima cujo sentido não vislumbro. Disse o ex-autarca de obra mal-feita em Lisboa, que "o radicalismo ideológico deste governo é semelhante ao de ...Vasco Gonçalves"!!! Nem mais.
Poderia ter dito semelhante ao de Salazar, Spínola, Carlucci ou do Bispo de Braga do tempo do PREC. Ou mesmo de alguns correligionários seus. Para já não falar de Sá Carneiro. Não. Deu-lhe para ali.
 
Talvez seja para enxertar na campanha eleitoral um tema de fractura no campo democrático. Mas é tão ronceiro e tão baixinho.
Todos sabemos porque lhe dói aí. Por ter sido um período de entusiasmo, de avanço do país, de conquistas em tantos campos, muitos das quais ainda hoje perduram. Pela minha parte adiarei esta questão lá mais para a frente. Não caio na esparrela.
 

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Le temps est un grand maître.
Le malheur, c'est qu'il tue ses élèves."

"O tempo é um grande mestre,

o que é pena é matar os discípulos"

Hector Berlioz

compositor francês
1803-1869

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O equilíbrio das pedras, de Michael Grab

O autor, introduzindo pequenos entalhes em seixos e pedras, constrói elementos escultóricos que parecem desafiar a gravidade e a nossa imaginação.


A destruição de vidas e economias africanas e o discurso paterno-imperial de Obama ontem em Addis Abeba


A destruição de economias baseadas no turismo de África são a consequência da acção de destruição e terror dos jihadistas. Já não falo da Líbia entregue a bandos rivais de criminosos. Falo da Argélia, da Tunísia, do Quénia e do Egipto. O Daesh, em África, com várias designações, mas sempre tendo como forças impulsionadoras Israel e a Arábia Saudita, ataca países não preparados para enfrentar a complexidade deste tipo de terrorismo. E é previsível que este se estenda a outros países africanos que possam vir a merecer as opções do turismo.

Várias agências de turismo boicotam as viagens para estes destinos e encaminham os turistas para outras paragens.

 
De certa maneira, tem alguma coisa a ver com isto, a visita a África de Obama que ontem terminou com uma declaração (decreto imperial), ontem na sede da União Africana em Addis- Abeba, capital da Etiópia, que culminou um périplo feito pelo presidente norte-americano a vários países africanos.

Fez a crítica às práticas eleitorais nalguns regimes africanos quando o sistema eleitoral dos EUA é dos mais iníquos do mundo, consagrando uma rotação de dois partidos que blinda o acesso ao poder de outros protagonistas. Fez o apelo ao fim da corrupção, que se desenvolve de forma epidémica nos EUA. Apelou a uma distribuição mais justa dos frutos da economia, coisa que tão maltratada é nos EUA.

Apelou ao investimento na educação, à construção de hospitais e outras infraestruturas sociais, não referindo que apoios poderia dar a tais construções de forma desinteressada. O exército dos EUA dispõe de equipas de engenharia e e projecto que poderiam cooperar com os responsáveis destes países para esse efeito.

Defendeu a igualdade de género. Condenou a mutilação genital feminina, os casamentos infantis, e todo tipo de violência contra as mulheres sem as quais “África nunca poderá desenvolver-se completamente”. Questões que contêm aspectos justos que deveriam ser motivo de contactos bilaterais, com restrições às relações com esses países se certas práticas desumanas não fossem corrigidas.

Ainda criticou dirigentes africanos que aceitam ser reeleitos mais que duas vezes consecutivas, esquecendo que alguns países carecem de estabilidade de referências, por essa estabilidade ter sido profundamente posta em causa por guerras continuadas e a acção de bandidos, muitos dos quais subsidiados pelos EUA. Nesse aspecto, o longo tempo concedido pela RTP ao discurso do Obama, legendado em português, para utilização na RTP internacional, foi um brinde à UNITA que, uma vez mais, agradece.

Obama não falou das causas da imigração ilegal que é dirigida à Europa. Como se os ataques da NATO e dos grupos terroristas que os EUA apoiam em território africano não tivessem nada a ver com isso. Nem dos séculos de humilhação e atraso que os seus parceiros europeus da NATO praticaram durante séculos.

O discurso de Obama tem aspectos de um paternalismo humilhante mas é também o discurso do chefe que se perfila para as instituições africanas partilhadas e seus efeitos (saque de explorações petrolíferas, domínio das economias pelas multinacionais, expatriação de lucros e dividendos, exército africano de intervenção rápida contra quem saia da linha, redução das soberanias dos países integrantes, trabalho, direitos laborais e sociais mitigados). É um projecto não de ontem mas em marcha nos últimos anos.

As manifestações de hoje em Lisboa e Luanda contra o presidente angolano, o papel da UNITA e os esclarecimentos do MPLA

Nos últimos dias tem circulado em meios de comunicação social portugueses, com destaque para a Antena Um, uma gravação de promoção da manifestação que hoje está marcada para Lisboa e que procura replicar outra semelhante nos objectivos que se irá realizar em Luanda.
 
O tema central é a exigência de libertação de jovens "presos políticos" em Angola. Sobre este movimento, o Jornal de Angola de hoje refere que o 1º secretário do MPLA de Luanda, Bento Bento, que falava durante um acto político de massas, na Cidadela Desportiva, revelou que 99 por cento dos integrantes do “Movimento Revolucionário” pertencem ao braço juvenil da UNITA, a JURA, e procuram desestabilizar a paz e a democracia no país, com o objectivo de derrubar pela via inconstitucional o Governo liderado pelo Presidente José Eduardo dos Santos.
Bento Bento

Segundo este dirigente do MPLA, os 15 elementos do “Movimento Revolucionário” estão detidos, acusados de tentativa de preparação de actos de rebelião e atentado ao Presidente da República, com o “apoio directo” de personalidades da UNITA com responsabilidades na Assembleia Nacional.
Bento Bento apelou aos partidos políticos que pretendem alcançar o poder político a utilizarem a via democrática. “A via democrática normal aqui no nosso país passa pela criação de partidos políticos e a mobilização do povo para enfrentar o MPLA nas próximas eleições e procurar ganhar”.
 
Este aviso deve ser uma resposta à intervenção recente, em Madrid  do dirigente da UNITA, Isaías Sumakuva, que "alertou para o risco de um novo conflito sangrento" caso não haja democracia no país. Esta declaração foi feita no âmbito de uma viagem a vários países para pedir à comunidade internacional pressão sobre o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, sobre o que o dirigente da UNITA considera ser um retrocesso do processo democrático em Angola. Conhecido que é o percurso da UNITA, mesmo depois da morte de Savimbi, depois de acordos de paz e eleições, este alerta é uma ameaça.
 
Os organizadores desta manifestação já tinham cancelado outra prevista para 7 de Março, por "falta de condições para a sua realização", depois da detenção de cerca de vinte pessoas, incluindo um jornalista português, de imediato libertado, na madrugada anterior, na Praça 1º de Maio.
Isaías Sumakuva

Luis Pastor canta Saramago


terça-feira, 28 de julho de 2015

A Turquia na corda bamba

O encontro de hoje do governo de Ankara com os embaixadores dos países da NATO não vai alterar o sentido dos acontecimentos dos últimos dias. Esses países decidiram apoiar os bombardeamentos de Erdogan contra curdos e contra (?) o Estado islâmico.

A perseguição aos curdos baseou-se num atentado, não reivindicado pelos curdos, e quebrou as tréguas entre as duas parte,s correndo-se agora o risco de se reacender esta guerra que já custou muitas vidas no passado. O partido de Erdogan, o AKP, e outro partido nacionalista, o MHP, por outro lado, já anunciaram a intenção de ilegalizar o partido pró-curdo, o HDP.
A “exigência” dos EUA de que a Turquia bombardeie o Estado Islâmico é um exercício de hipocrisia. O Estado Islâmico foi criado pelos EUA para combater a Síria, substituindo os “rebeldes sírios” que tinham sido derrotados nesse objectivo e criar um tapete de acesso à Rússia.

Hoje é sustentado, como já aqui referimos, por Israel, a Arábia Saudita e pela Turquia. Em território turco existe mesmo um hospital para tratar dos jihadistas do EI feridos em combate, dirigido pela própria filha de Erdogan, Tayyp Erdogan, responsável pelas relações internacionais do AKP. E é um outro filho de Erdogan, Bilal Erdogan quem negoceia o petróleo roubado pelos jihadistas nos territórios por onde passa, usando a sua companhia marítima, a BMZ Ltd.
Erdogan poderá fingir um recuo até porque a situação interna na Turquia está à beira de uma revolta popular e pairam de novo velhos projectos da cisão da Turquia em três partes. Mas, com vista às eleições lá vai tomando medidas para que o partido pró-curdo não participe nelas.

O Estado Islâmico é, assim, neste momento um instrumento da NATO e da União Europeia contra a Rússia. E chegará o dia em que também o será contra a China.

Não foi por acaso que a Rússia, no âmbito das conversações 5+1 com o Irão, fez consagrar cláusulas que, na sua óptica, poderão evitar o deslocar do Estado Islâmico do Levante para o Cáucaso, no que terá tido o apoio de Washington. Isso envolveria um acordo entre a Síria, que é atacada pelo EI, a Arábia Saudita, que é hoje o principal financiador dos terroristas e a Turquia, que garante o comando operacional do EI e lhe dá apoios que já atrás referimos. Estas diligências de Putin começaram há um mês e passaram a ser consideradas pelas partes envolvidas.
Os acordos de Viena do passado dia 14 entre o Irão e o Grupo 5+1 (as potências com assento permanente no Conselho de Segurança mais a Alemanha), levaram a que o presidente iraniano os saudasse, referindo que não tinham beliscado “as linhas vermelhas” do país e que iriam permitir o Irão concentrar-se noutras questões.

Mas há também quem veja neles uma partilha de zonas de influência entre Washington e Teerão. É o caso de José Goulão que sustenta no seu blogue O Mundo Cão, que os acordos se traduziram “ numa partilha de influências no Médio Oriente ampliado, envolvendo pois a chamada Eurásia, capaz de permitir ao Pentágono transferir o núcleo duro do seu impressionante aparelho de guerra do Médio Oriente para a Ásia, posicionando-se ante os novos inimigos, a China e a Rússia (…) “em termos gerais, os Estados Unidos e os seus principais aliados no Médio Oriente, leia-se Israel e Arábia Saudita, têm como zona de influência as petromonarquias da Península Arábica mais o Iémen e respectiva ponte para o Corno de África, a Jordânia, o Egipto e a Palestina – o acordo prevê que o processo de Oslo seja retomado, outra medida que deixa Netanyahu fora de si. O Irão, que se compromete a “não exportar a revolução”, mantém as suas influências na Síria, no governo iraquiano instalado em Bagdade e nas correntes islâmicas mais intervenientes no Líbano, devendo o Hamas adaptar-se ao que seja estabelecido em relação à Palestina.” Traduzindo-se num aparente recuo de Washington, importa, por exemplo, ter em conta que o Daesh está também já presente nas fileiras do exército ucraniano, como forma de compensar a desmoralização das tropas ucranianas. Mas não só. E isto numa altura em que NATO iniciou no passado dia 20, manobras militares no oeste da Ucrânia, com quase dois mil militares de 18 países, tendo Moscovo avisado dos riscos que isso envolvia para o processo de paz. Ucrânia em que o governo de Kiev anunciou a intenção de ilegalizar os partidos comunistas do país para não concorrerem às próximas eleições.

A diplomacia marca pontos mas os riscos de guerra estão bem presentes.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O espectáculo no Lago Crater, foto de Keith Marsh

Especializado nos últimos quatro anos no que designa por paisagens astrofotográficas , Keith Marsh capturou a Via Láctea em locais desde o Alaska até Cuba. Fotografou o Lago Crater no Oregon procurando o sul a partir do lado norte, onde a Via Láctea é mais brilhante . "Eu também queria ter algo em primeiro plano para maior interesse e passei várias horas durante o dia procurando apenas o momento certo ", escreveu. " Ao virar-me , dei com  esta velha árvore morta, muito popular entre os fotógrafos , e ao longo de várias horas, acabaram por se amontoar 20 fotógrafos neste mesmo lugar." As luzes no horizonte são das Quedas de Klamath, no Oregon, a cerca de 60 milhas.

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"La raison pour laquelle tant de gens trouvent
qu'il est si difficile d'être heureux,
c'est qu'ils imaginent toujours le passé meilleur qu'il n'était,
le présent pire qu'il n'est vraiment
et le futur plus compliqué qu'il ne sera."
 
"A razão por que tanta gente acha tão difícil
ser feliz é que imaginam sempre o passado melhor
do que era, o presente pior do que de facto é
e o futuro mais complicado do que há-de ser."
Marcel Pagnol
escritor, dramaturgo e cineasta francês, 1895-1974

Colectânea de fotos de Sebastião Salgado


Nas suas fotos estão presentes o limite, o conflito, o mundo da humilhação, da opressão, mas também da esperança, da solidariedade e da capacidade humana de resistir. A objectiva intervém para provocar o debate e construir a solidariedade aos trabalhadores, porque encontrou na resistência destes uma forma de quebrar a lógica do mercado e de resistir ao que Salgado chama de "extinção da espécie".
Fotografando sempre em preto e branco, o seu trabalho é carregado de imagens fortes e muitas vezes muito tristes, mas carregam uma beleza e singularidade ímpar.