sexta-feira, 17 de julho de 2015

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"... though those that are
 betray'd do feel the treason sharply,
yet the traitor stands
in worse case of woe"
"... embora os que são traídos
 sintam duramente
a traição, é contudo o traidor
o que mais desgraçado fica"

W. Shakespeare (1564-1616)

em Cimbelino, rei da Bretanha

terça-feira, 14 de julho de 2015

in " O IV Reich" de José Goulão

"E para que o fundo de garantia da “ajuda” à Grécia construído a partir das privatizações do que ainda resta no país não descarrile, por detrás da ideia e da execução estão instituições financeiras alemãs tituladas por gente idónea como o senhor Schauble e o senhor Sigmar Gabriel, o chefe dos sociais- democratas, aliás os inventores da engenhosa estratégia de privatização da RDA".
 
ler o "IV Reich" aqui.  

Por detrás da dívida grega, por Thierry Meyssan


Nota inicial do editor - Não se admirem os meus leitores e amigos com o peso que dou à Grécia no que aqui escrevo. Acho que o que se está ali a passar, para o bem e para o mal, é muito relevante também para nós mas também sobre a luz que lança sobre os seus actores.

O debate actual sobre a dívida grega deu lugar a todo o tipo de ameaças, primeiro contra o governo Tsípras, depois contra os eleitores gregos. Abstendo-se de entrar numa discussão sobre a parte odiosa desta dívida, Thierry Meyssan analisa aqui a campanha internacional contra a saída da Grécia da zona euro. Ele lança luz sobre o projecto histórico da União e do euro, tal como foi formulado, em 1946, por Churchill e Truman, para acabar por concluir que a Grécia está hoje em dia armadilhada pelo ambiente geo-político internacional e não pela sua situação económica.
 
Importa recordar que o Jean-Claude Juncker, que se indignou pela convocação do referendo grego, que qualificou de «traição», foi o mesmo que se viu  forçado a demitir-se das suas funções de Primeiro-ministro do Luxemburgo quando se provou a sua pertença à rede de espionagem Gládio, da Aliança Atlântica. Um ano depois… tornava-se presidente da Comissão Europeia. Eles circulam, claro...
 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A direcção do Syriza quer entregar a Grécia à Alemanha ou evitar o "mal pior"?

Não me refugio numa crítica sem conhecer os fundamentos do que posso afirmar.
Nem mesmo as considerações categóricas de Marisa Matias, do Bloco, hoje, me sossegam. Naturalmente que MM tem canais privilegiados de informação que não tenho. Mas há considerações que têm que ser feitas.
Como não estendi o tapete ao Syriza, não lho vou tirar. Não tenho voto na matéria. Isso cabe aos gregos.
Mas esta esquerda deverá acertar agulhas ideológicas e zelar pelos comportamentos éticos na política, entendida como falar verdade ao povo e respeitar os seus sentimentos e vontades expressas.
 
 
 
Não partilho a ideia de que a Grécia deve fazer questão na manutenção no euro e na União Europeia a troco da austeridade. A obsessão de alguma esquerda em manter o euro e a UE, quiçá para ter isso como traço distintivo na esquerda,  procura vir a demonstrar, com o seu falhanço, que não funcionam, que vão soçobrar e que temos que encontrar alternativas? Depois, no meio dos cacos?
 
A austeridade leva ao desastre social, político e económico. Os 35 mil milhões de euros que Tsipras disse obter para o crescimento, vai ser canalizado por quem? Para quem? Com que resultados positivos avaliados no emprego, no crescimento do consumo interno e substituição de importações?
 
Que parte da dívida vai poder com os seus resultados  abater?
 
E a reestruturação da dívida, entendida apenas como dilatação de eventuais prazos e taxas, pode levar a uma dívida aceitável daqui por quantas décadas?
 
E os activos do país vão ou não ter, uma comissão, que escapa aos órgãos do estado, para acionar privatizações de empresas muito lucrativa?. Não é humilhação excessiva, falta de confiança no governo grego por parte dos "parceiros europeus"? Os sindicatos vão participar?
 
A receita adicional do aumento do IVA de 13 para 23%, a reconsiderar em 2016, vai para abater a dívida?
 
O Siryza vai proceder ao afastamento dos militantes, ministros e deputados que não aceitarem este acordo?

Com o próximo estoiro da Holanda, a União Europeia passará a nova fase da sua desagregação

O comentador do Economist, Matthew Lynn, refere hoje neste jornal  que a Holanda é um dos países mais endividados do mundo. Está mergulhada na recessão e demonstra poucos sinais de estar a sair dela. A crise do euro arrasta-se há três anos e até agora só tinha infetado os países periféricos da moeda única. A Holanda, no entanto, é um membro central tanto da UE quanto do euro. Se não puder sobreviver na zona euro, para o autor estará tudo acabado.
 
O país sempre foi um dos mais prósperos e estáveis de Europa, além de um dos maiores defensores da UE. Foi membro fundador da união e um dos partidários mais entusiastas do lançamento da moeda única. Continuando a citar Lynn, "Com uma economia rica, orientada para as exportações e um grande número de multinacionais de sucesso, supunha-se que tinha tudo a ganhar com a criação da economia única que nasceria com a introdução satisfatória do euro. Em vez disso, começou a interpretar um guião tristemente conhecido. Está a estourar do mesmo modo que a Irlanda, a Grécia e Portugal, salvo que o rastilho é um pouco mais longo".
 
 
Bolha imobiliária
 
Segundo Lynn, os juros baixos, que antes do mais respondem aos interesses da economia alemã, e a existência de muito capital barato criaram uma bolha imobiliária e a explosão da dívida. Desde o lançamento da moeda única até o pico do mercado, o preço da habitação na Holanda duplicou, convertendo-se num dos mercados mais sobreaquecidos do mundo. Agora explodiu estrondosamente. Os preços da habitação caem com a mesma velocidade que os da Flórida quando murchou o auge imobiliário americano.
Atualmente, os preços estão 16,6% mais baixos do que estavam no ponto mais alto da bolha de 2008, e a associação nacional de agentes imobiliários prevê outra queda de 7% este ano. A não ser que tenha comprado a sua casa no século passado, agora valerá menos do que pagou e inclusive menos ainda do que pediu emprestado por ela.
 
De acordo com o comentador, "os holandeses afundam-se num mar de dívidas. A dívida dos lares está acima dos 250%, é maior ainda que a da Irlanda, e 2,5 vezes o nível da da Grécia. O governo já teve de resgatar um banco e, com preços da moradia em queda contínua, o mais provável é que o sigam muitos mais. Os bancos holandeses têm 650 mil milhões de euros pendentes num sector imobiliário que perde valor a toda a velocidade. Se há um facto demonstrado sobre os mercados financeiros é que quando os mercados imobiliários se afundam, o sistema financeiro não se faz esperar".
 
Para obter algum dinheiro extra, as pessoas comem e vendem as sobras. É o exercício pleno da criatividade e do completo aproveitamento dos alimentos. Também cresce a procura por bares que permitem que os clientes levem de casa a própria refeição.
Nos “bancos de alimentos”, há filas. E uma em cada seis famílias está com dificuldades para pagar as contas dos supermercados.Este não é o cenário da Holanda que tínhamos.
 
 
 
 Recessão profunda
 
Segundo Lynn "As agências de rating (que não costumam ser as primeiras a estar a par dos últimos acontecimentos) já se começam a dar conta. Em fevereiro, a Fitch rebaixou a qualificação estável da dívida holandesa, que continua com o seu triplo A, ainda que só por um fio. A agência culpou a queda dos preços da moradia, o aumento da dívida estatal e a estabilidade do sistema bancário (a mesma mistura tóxica de outros países da eurozona afetados pela crise).
A economia afundou-se na recessão. O desemprego aumenta e atinge máximos de há duas décadas. O total de desempregados duplicou em apenas dois anos, e em março a taxa de desemprego passou de 7,7% para 8,1% (uma taxa de aumento ainda mais rápida que a do Chipre). O FMI prevê que a economia vai encolher 0,5% em 2013, mas os prognósticos têm o mau costume de ser otimistas. O governo não cumpre os seus défices orçamentais, apesar de ter imposto medidas severas de austeridade em outubro." Como outros países da eurozona, diz ainda Lynn, a Holanda parece encerrada num "círculo vicioso de desemprego em aumento e rendimentos fiscais em queda, o que conduz a ainda mais austeridade e a mais cortes e perda de emprego. Quando um país entra nesse comboio, custa muito a sair dele (sobretudo dentro das fronteiras do euro)".
 
A Holanda destacou-se em ser um firme aliado da imposição de políticas de austeridade, essa atitude está a atenuar-se.
 
Continuando a citar Lynn, "Os colapsos da zona euro ocorreram sempre na periferia da divisa. Eram países marginais e os seus problemas eram apresentados como acidentes, não como prova das falhas sistémicas da forma como  a moeda foi estruturada. Os gregos gastavam demasiado. Os irlandeses deixaram que o seu mercado imobiliário se descontrolasse. Os italianos sempre tiveram demasiada dívida. Para os holandeses não há nenhuma desculpa: eles obedeceram a todas as regras.
 
Desde o início ficou claro que a crise do euro chegaria à sua fase terminal quando atingisse o centro. Muitos analistas supunham que seria a França e, ainda que França não esteja exatamente isenta de problemas (o desemprego cresce e o governo faz o que pode, retirando competitividade à economia), não deixa de continuar a ser um país rico. As suas dívidas serão altas mas não estão fora de controlo nem começaram a ameaçar a estabilidade do sistema bancário. A Holanda está a chegar a esse ponto".
 
É provável que em dois anos, a Holanda vá ao tapete e, então, a União Europeia passará a nova fase da sua desagregação.
 
Matthew Lynn é diretor executivo da consultora londrina Strategy Economics.
 
Publicado no Economist,

domingo, 12 de julho de 2015

Hoje a UE acentuou a humilhação à Grécia. Solidariedade com o povo grego!



A exibição de  desconfiança em relação ao governo grego, a exigência antes de qualquer acordo de que o Parlamento grego decida novos cortes nos salários e pensões e direitos associados (a que o Eurogrupo chama “reformas”), a privatização da empresa pública da electricidade, o não aceitar cortes parciais da dívida (haircuts), a deslocação para a frente da discussão de alterações nas taxas e maturidades, o impedimento da Grécia sair da União Europeia, depois da saída do euro, a insinuação da formação de novo governo, são elucidativos da escalada da reunião de hoje do segundo dia de reuniões do Eurogrupo.
A UE qui elevar o patamar de humilhação da Grécia. Veremos como reagem os gregos e o governo que elegeram para os salvar da austeridade que a troika e os governos o PASOK e Nova Democracia, construíram durante os anos 2010-2015.

A dívida pública grega é um mega esquema de corrupção

O resultado desta auditoria à dívida pública é revelador do papel do sistema bancário grego, sob os governos do PASOK e da Nova Democracia, em fazer crescer uma dívida pública sem benefício para a Grécia. Os acordos, que revelam só poder assentar numa verdadeira corrupção em larga escala, ainda exigiam que a Grécia tivesse que transformar os seus activos públicos em forma de pagamento dessa dívida e correspondentes encargos, isto é em privatizações que só poderiam ser também em larga escala...
Ter em atenção que "billions" deve ser traduzido por "milhares de milhões e não biliões.



sábado, 11 de julho de 2015

Frase de fim-de-semana, por Jorge



"Trás a névoa vem o sol /
trás um tempo vem outro"
Jorge Ferreira de Vasconcellos
cortesão, escritor e comediógrafo,
1515-1585 
in
"Comédia Eufrosina"
- Coimbra, 1560

Reviravolta do governo não agrada ao gregos que votaram contra mais austeridade

O governo grego entrou num campo de cedência em matéria de agravamento da austeridade, apesar de serem positivas muitas outras medidas propostas no plano de resgate que avançou.
Atenas enviou ontem aos credores as suas propostas em troca de um resgate financeiro de 53,5 mil milhões de euros, que foi aprovado em plenário do Parlamento grego nesta madrugada, com uma negociação com a Nova Democracia para obter os seus votos que lhe foram negados pelos sectores mais à esquerda do Sirysa.


O Eurogrupo está em reunião para avaliar as propostas do governo grego, mas à entrada, o presidente do Eurogrupo foi já ameaçando com muitas dificuldades.

Parece haver uma larga rejeição destas medidas na Grécia, tanto mais que violam o resultado do referendo. Também não se percebe o porquê desta reviravolta. Houve ameaças novas de saída não só do euro como da própria UE? O recurso ao apoio financeiro para resolver os problemas imediatos da Grécia esgotava-se num novo plano de resgate? Que ameaças foram recebidas sobre o eventual recurso a um empréstimo russo (que o “Ocidente” quer evitar por considerações de geo-estratégia)? Era esta a única forma de salvar os interesses do povo grego?
Depois dos deputados de Atenas, o documento tem de ser validado por outros parlamentos, incluindo o alemão.

O documento é omisso em relação ao perdão da dívida, impagável e castradora de qualquer política de crescimento económico. Se bem que Tsipras tenha referido ontem no parlamento que as novas propostas gregas tinham desbloqueado a discussão não só das taxas dos empréstimos que contribuíram para a dívida, como dos prazos e do perdão de parte da dívida. Passos Coelho, o presidente do Eurogrupo, o governo alemão estão entre os firmes opositores a tal reestruturação.
Num documento de 20 páginas, o executivo de Alexis Tsipras requer o acesso a ajuda financeira ao abrigo do Mecanismo Europeu de Estabilidade, comprometendo-se a pôr em prática a partir de segunda-feira uma série de medidas de natureza fiscal e nas pensões. Segundo o Correio da Manhã essas medidas são, em síntese:

Orçamento rectificativo para 2015 e estratégia fiscal 2016-2019 para chegar a 2018 com um excedente primário de 3,5% do PIB

1) Reforma do IVA:
  • taxa generalizada de 23% incluindo restauração

  • taxa de 13% para alimentação básica, energia, hotéis e água

  • taxa super-reduzida de 6% para medicamentos, livros e espectáculos, medidas que serão revistas em 2016.

  • Suspensão gradual dos benefícios fiscais para as ilhas, começando pelas mais ricas e turísticas, até ao final de 2016. A partir daí os habitantes mais pobres terão acesso a medidas de compensação. 

2) Medidas estruturais orçamentais:
  • aumentar o IRC de 26% para 28%;
  • aumentar a sobretaxa de solidariedade;
  • ajustar taxas sobre propriedades para garantir a receita fiscal prevista; combate à fraude; melhorar a transparência orçamental; 
  • simplificar tabela de IRS;
  • reduzir tratamento diferenciado da indústria armadora; aumentar impostos sobre embarcações de recreio e luxo;
  • reduzir o preço dos medicamentos em 32,5% e 50% caso se tratem de medicamentos
    genéricos ou não;
  • reduzir preço dos exames de diagnóstico;
  • reduzir o tecto máximo de gastos com defesa em 100 milhões de euros este ano e 200 milhões no ano que vem. Contra uma redução de 400 milhões proposta pelos credores;
  • introduzir taxa sobre a publicidade televisiva, vender licenças de sinal de televisão, gerar receitas das licenças de 4G e 5G
  • alargar taxa de 30% a terminais de lotaria electrónica. 
 3) Reforma de pensões:

Poupança entre 0,25% e 0,5% este ano e 1% no próximo e seguintes, através de: 

  • desincentivo às reformas antecipadas; 
  • passar a idade de reforma para os 67 anos até 2022; ou 62 com 40 anos de contribuições;
  • aumentar as contribuições dos pensionistas para a saúde de 4% para 6%;
  • subsídio para as pensões mais baixas (EKAS) deve terminar no final de 2020, altura em que está prevista a criação de novas ajudas;
  • eliminam-se também, gradualmente, as pensões complementares, até dezembro de 2019;
  • a partir de janeiro de 2016, legislar no sentido global de atingir a sustentabilidade do sistema. 

4) Função Pública, Justiça e luta anti-corrupção

  • reformular a grelha salarial do Estado a partir de 1 de Janeiro; 
  • alinhar suplementos pelas práticas europeias;
  • promover a mobilidade
  • .criar sistema de avaliação de desempenho de funcionários públicos;
  • reformar o Código Civil;
  • limitar riscos de corrupção nos concursos público;
  • publicar uma análise estatística da corrupção no país (em particular na saúde e trabalho no sector público). 

5) Fisco
  • criar uma agência de impostos independente; 
  • remover o tecto de 25% sobre salários e pensões em caso de penhoras e tecto de 1.500 euros nos vencimento;
  • melhorar o sistema informático da administração fiscal;
  • combater o contrabando de combustíveis;
  • identificação de depósitos não declarados na banca grega e estrangeira; levantamento sigilo bancário em casos específicos, trocar informações com países europeus sobre bens detidos por gregos, acabar com amnistias;
  • promover o uso de pagamentos electrónicos.  

6) Sector Financeiro: 
  • adoptar alterações no caso de insolvência para separar os casos de falsa falência do caso de devedores com boa-fé.   

7) Mercado de trabalho: 
  • revisão e reforma das leis laborais tendo em conta as melhores práticas europeias;  
  • negociação entre o governo e os parceiros sociais deve estar concluída até ao fim do ano;  
  • combate ao trabalho não declarado  

8) Mercado de produtos e serviços
 
  • liberalizar acesso a profissões (engenheiros, advogados, oficiais de justiça); 
  • desregulamentar o mercado de alojamento turístico;
  • reduzir burocracia e encargos sobre as empresas com ajuda da OCDE;
  • criar balcões únicos;
  • privatizar a empresa de distribuição de electricidade.

 9) Privatizações:
  • vender todos os activos detidos pelo fundo público HRADF; 
  • fim da privatização dos aeroportos regionais e dos portos do Pireu e Salónica - medida que já antes estava prevista e que já tem potenciais interessados, oriundos da China.
  • Neste capítulo, o governo grego não se compromete com mais nenhumas privatizações.